Calvino, o Tríplice Ofício de Cristo & a CFB1689

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João Calvino foi o maior teólogo da reforma da Igreja de Cristo ocorrida no século XVI. Dentre suas várias contribuições está o seu desenvolvimento da cristologia ortodoxa. Ao apresentar a obra de Cristo, Calvino foi o responsável por introduzir o conceito de tríplice ofício de Cristo: profeta, sacerdote e rei (munus triplex), nas palavras de B.B. Warfield:

“Calvino fez contribuições de grande importância para outras áreas do pensamento teológico. Já foi observado que ele marca uma época na história da doutrina da Trindade. Ele também marca uma época no modo de apresentar a obra de Cristo. A apresentação da obra de Cristo sob as rubricas do ofício triplo de profeta, sacerdote e rei foi introduzida por ele […].”[1]

A apresentação da obra de Cristo como tríplice foi seguida pela Confissão de Fé de Westminster, quando em seu capítulo 8, parágrafo 1 é afirmado: “Aprouve a Deus em seu eterno propósito, escolher e ordenar o Senhor Jesus, seu Filho Unigênito, para ser o Mediador entre Deus e o homem, o PROFETA, SACERDOTE E REI […]”.

A Confissão de Fé Batista de 1689 também segue a apresentação do tríplice ofício de Cristo proposta por João Calvino e apresentada na Confissão de Fé de Westminster. Mas a Confissão Batista vai além e não se contenta em apenas seguir a apresentação de Westminster em 8.1 sobre o munus triplex. Tal era a importância que aqueles irmãos atribuíam aos ofícios profético, sacerdotal e real de Cristo que acrescentaram dois parágrafos ao capítulo 8 de sua Confissão, “Sobre Cristo, o mediador” e produziram uma das mais biblicamente belas apresentações do tríplice ofício de nosso Senhor, Salvador e Mediador Jesus Cristo!

CFB 8:9. Este ofício de Mediador entre Deus e os homens cabe exclusivamente a Cristo, que é o Profeta, Sacerdote e Rei da Igreja de Deus; e isto não pode ser no todo, ou em qualquer parte, transferido de Cristo para qualquer outro (1 Timóteo 2:5).

CFB 8:10. Este número e ordem de ofícios são necessários. Precisamos de Seu ofício profético, por causa de nossa ignorância. Por causa de nossa alienação de Deus, e da imperfeição de nossos melhores serviços, nós necessitamos de Seu ofício sacerdotal para nos reconciliar e apresentar aceitáveis a Deus. E no que diz respeito à nossa aversão e incapacidade absoluta de converter-nos a Deus, e para o nosso resgate e segurança contra nossos adversários espirituais, precisamos de Seu ofício real para nos convencer, subjugar, atrair, sustentar, libertar e preservar para o Seu reino celestial (João 1:18; Colossenses 1:21; Gálatas 5:17; João 16:8; Salmos 110:3; Lucas 1:74-75).

Disto podemos aprender três coisas:

Primeira, os batistas reformado confessionais estavam alinhados com a cristologia reformada de Calvino e dos grandes credos trinitários e cristológicos da igreja de Cristo através dos tempos (veja todo o capítulo 8 da CFB1689).

Segunda, os batistas de 1689 não apenas seguiram cegamente a confissão de Westminster, mas, inclusive desenvolveram em alguns pontos, por exemplo, acrescentando dois parágrafos ao capítulo 8 para expor com mais detalhes o tríplice ofício de Cristo e a necessidade da igreja desses ofícios.

Terceira, embora muitos dos batistas atuais entretenham posições cristológicas heterodoxas, os parágrafos acima deixam transparecer o zelo bíblico, cristológico e ortodoxo daqueles primeiros batistas, zelo este que deve ser seguido por todos aqueles que são herdeiros da cristologia bíblica dos irmãos de 1689.

 


[1] WARFIELD, B.B. Calvino, o teólogo do Espírito Santo.