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A Interpretação das Escrituras • Cap. 12 • A. W. Pink

A Interpretação das Escrituras • Cap. 12 • A. W. Pink




Capítulo 12

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17. Exposição das parábolas. Este é um outro ramo do nosso assunto sobre o qual pelo menos um capítulo inteiro deveria ser dedicado, mas o perigo de sobrecarregar a paciência de alguns dos nossos leitores torna isso desaconselhável. Devido à grande simplicidade da sua natureza e da linguagem, é comumente suposto que as parábolas são mais facilmente compreendidas do que qualquer outra forma de instrução bíblica, quando o fato é que provavelmente o ensino mais errado foi propagado por cauda da incompreensão do sentido de alguns de seus detalhes; isso aconteceu com as parábolas mais do que com qualquer outra porção da Palavra. Grande cuidado deve ser tomado com as parábolas, pois é especialmente importante determinar e, em seguida, manter em mente o escopo ou principal propósito de cada uma. Mas em vez disso, com muita frequência as parábolas são abordadas exclusivamente para a finalidade de encontrar apoio aparente para alguma doutrina específica ou ideia que o pregador deseja provar. E, em consequência disso, muito nelas foi arrancado de seu significado original, e elas foram entendidas de modo a contrariar completamente outras passagens. Também aqui a analogia da fé deve ser observada de forma constante, e nossa interpretação de cada parábola deve ser medida por ela.

A definição infantil de que “uma parábola é uma história terrena com um significado celestial” expressa a ideia geral. É uma forma de ensino pela qual as coisas espirituais são representadas sob imagens sensíveis. As parábolas são de fato ilustrações em palavras, tendo algo da mesma relação com a instrução daqueles a quem elas são dirigidas, como fazem as ilustrações pictóricas usadas em livros para elucidar o leitor da página impressa. A partir da relação com a verdade apresentada ou lição aplicada podem ser reunidos certos princípios importantes, mas simples e óbvios, que precisam ser tidos em consideração no estudo das parábolas de nosso Senhor. Em primeiro lugar, a parábola, como uma imagem ilustrativa, só pode apresentar o seu objeto parcialmente. Nenhuma ilustração pode fornecer ou exibir todos os aspectos de seu objeto, não mais do que a “planta” de um edifício do arquiteto pode mostrar segundos e terceiros andares, e muito menos os representar como serão quando concluídos, embora possa sugerir algo sobre deles. Assim, uma parábola indica para nós apenas determinados alguns aspectos do assunto. Por isso nós as encontramos agrupadas; todas em um grupo representando o mesmo assunto, mas cada uma estabelecendo uma característica distinta do mesmo; como acontece nas parábolas de Mateus 13, as quais lidam com os “mistérios do reino dos céus”, e com aquelas de Lucas 15 que nos mostram não somente a graça recebendo os pecadores, mas buscando, encontrando, vestindo e lhes dando um banquete.

Em segundo lugar, as parábolas são subordinadas ao ensino direto; sendo projetadas não para a prova, mas para a ilustração de uma doutrina ou dever. Deve sempre ser lamentado quando Cristãos professos são culpados de colocar uma parte das Escrituras contra outra, mas quando uma parábola é utilizada para anular alguma doutrina simples ou mandamento de Deus, o absurdo é adicionado à irreverência. Daí, apelar para Mateus 18:23-25, para provar que o Deus de toda graça pode revogar o Seu perdão; ou negar a responsabilidade do homem com base em que “a moeda de prata perdida” de Lucas 15 retrata o pecador por um objeto inanimado, é tanto tolo quanto profano. Em terceiro lugar, é igualmente evidente que devemos buscar determinar o principal objetivo de Cristo na principal lição de moral que Ele pretendia aplicar; ainda assim, esse dever óbvio é muito negligenciado. Com muita frequência, as parábolas são tratadas como se seu propósito fosse deixado em aberto para conjecturas e suas lições para inferência incerta. Tal ideia ímpia e modo leviano de lidar com elas é claramente refutada por aquelas parábolas em que o próprio Cristo explicou aos Seus discípulos. Assim, não somos deixados inteiramente aos nossos próprios recursos, pois aquelas interpretadas pelo Senhor devem ser consideradas como amostras, cada uma estabelecendo alguma verdade distinta, cada detalhe possuindo um significado.

Em quarto lugar, é importante obter uma compreensão correta da própria representação parabólica, uma vez que fornece a base da instrução espiritual. Se não entendermos a alusão natural, não podemos dar uma exposição satisfatória da linguagem em que é estabelecida. Devemos também ter cuidado para que não estendamos a representação para além dos limites que ela pretendia ir. Essa representação se torna óbvia quando nos concentramos sobre a ideia principal da parábola e permitimos que os seus detalhes a tornem mais distinta. A parábola não deve ser separada em partes, mas vista como um todo; todavia, não esqueça que cada detalhe contribui para a sua verdade central, não há um simples uso exagerado de palavras. Normalmente, o contexto deixa claro qual é o seu propósito e significado. Assim, a parábola do rei fazendo uma prestação de contas com os seus servos (Mateus 18:23) foi proferida em resposta à pergunta de Pedro no verso 21; a do rico insensato em Lucas 12 foi ocasionada por um espírito de cobiça por parte de quem desejava obter uma parte da herança de seu irmão. Aquelas em Lucas 15 foram a partir do que está relacionado em seus versos de abertura. As parábolas incidem sobre os aspectos mais fundamentais do dever e do comportamento, em vez de sobre os detalhes minuciosos desses.

Como esclarecido acima, muito ensino errôneo é resultado da falta de atenção a essas regras simples. Assim, certos teólogos que são basicamente defeituosos a respeito da Expiação têm argumentado a partir da parábola do filho pródigo que, uma vez que nenhum sacrifício foi necessário para reconciliá-lo com o Pai ou fornecer acesso ao seio de Seu amor, Deus perdoa absolutamente, por pura compaixão. Mas isso é uma perversão clara da parábola, pois não é como um Pai, mas como justo Governador que Deus exige uma satisfação à Sua justiça. Igualmente há uma deturpação grave da graça do Evangelho, se entendermos a partir da parábola do servo incompassivo (Mateus 18:23-35) que a graça divina é sempre exercida aos homens sem um sacrifício propiciatório aceito por Deus, para reparação feita à Lei quebrada (Romanos 3:24). Essas parábolas nunca foram destinadas a ensinar o fundamento do perdão divino; é errado forçar qualquer parábola a mostrar todo um sistema de teologia. Alguns têm até mesmo extraído da passagem em que Cristo proíbe Seus discípulos de arrancarem o joio, um argumento contra a igreja local exercer uma disciplina tão rigorosa a ponto de desassociar membros heréticos ou desordenados, o que é refutado por Seu ensino em Apocalipse 2 e 3, onde essa frouxidão é severamente repreendida.

Igualmente perigoso e desastroso é aquela interpretação que fez a parábola dos trabalhadores na vinha ensinar a salvação pelas obras. Uma vez que a parábola dá um notável exemplo da importância de nos atentarmos para as definições, faremos algumas observações sobre ela. Após a recusa do jovem rico a deixar tudo e seguir a Cristo, e Ele buscar inculcar aos Seus discípulos a solene advertência desta triste situação, Pedro disse: “Eis que nós deixamos tudo, e te seguimos; que receberemos?” (Mateus 19:22-27). O Senhor respondeu duplamente: a primeira parte, como a questão era legítima, declarando que tanto aqui e no futuro há abundante recompensa para aqueles que O seguiram (vv. 28-29). Na segunda parte, nosso Senhor sondou o coração de Pedro, dando a entender que por trás de sua pergunta havia uma disposição errada, uma ambição carnal que Ele tinha tantas vezes repreendido nos apóstolos, quando eles disputaram a respeito de qual deles seria o maior no reino e quem teria os primeiros assentos no mesmo. Havia um espírito mercenário agindo neles, pois consideravam que eles tinham reivindicações de retribuições mais elevadas do que outros, uma vez que eles foram os primeiros a deixar tudo e seguir a Cristo, aumentando assim a sua própria importância e deixando Jesus sob obrigações. Daí a parábola de Mateus 20:1-15, ser precedida pelas palavras: “Mas muitos que são primeiros serão últimos; e os últimos serão os primeiros”, e seguida por palavras semelhantes.

Uma vez que não há espaço para duvidar que a parábola dos trabalhadores da vinha foi designada para ilustrar as palavras em Mateus 19:30 e 20:16, é claro que nunca foi destinada a ensinar o caminho da salvação, de modo que interpretá-la assim é perder completamente o seu objetivo. A intenção do Senhor evidentemente era inculcar aos Seus discípulos que a menos que eles mortificassem os males provenientes de seus corações, esses eram de tal caráter que roubariam todo valor da devoção mais antiga e prolongada, e que o último e mais breve serviço a Ele, em razão da ausência de autoafirmação, seria considerado digno aos Seus olhos de receber recompensa tanto quanto o primeiro. Além disso, Ele queria que soubessem que faria o que quisesse com aquilo que era Seu próprio, logo, eles não deveriam ditar os termos de serviço. Foi corretamente observado por Trench[1] em suas notas sobre essa parábola que um “acordo foi feito pelos primeiros trabalhadores contratados (20:2) antes de entrarem em seu trabalho, exatamente o acordo que Pedro quis fazer: “O que teremos?”; enquanto aqueles posteriormente envolvidos eram de um espírito mais simples, confiando que o senhor daria a eles tudo o que era correto e justo”.

18. Palavras com significados diferentes. Existem muitos termos nas Escrituras que não são de modo algum usadas de modo uniforme. Algumas têm diversos sentidos, outras têm significados variados de um modo geral. Isso não significa que elas são usadas de forma arbitrária ou caprichosa, menos ainda que isso visa confundir a mente dos simples. Às vezes, é porque o termo original é muito amplo para ser expresso por um único equivalente em português. Às vezes, ocorre em outra forma com ênfase. Mais frequentemente, são as várias aplicações que são feitas para vários objetos. Assim, é uma parte importante da tarefa do expositor delimitar essas distinções, e, ao invés de confundir, deixar claro cada sentido diferente e, assim, “manejar bem a palavra da verdade”. Assim, a palavra grega Paracleto é traduzida como “Consolador”, em relação ao Espírito, no Evangelho segundo João, mas como “Advogado” em relação a Jesus Cristo primeira epístola de João (2:1). Parece haver pouco em comum entre essas expressões, mas quando descobrimos que o termo grego significa: “pessoa chamada para o lado de alguém (para ajudar)”, a dificuldade é removida, e a verdade abençoada é revelada: o Cristão tem dois ajudantes divinos, Um prático e Um legal; Um dentro de seu coração e Um no Céu; Um ministra a ele, o Outro advoga por ele.

A palavra grega diatheke ocorre trinta e três vezes; seu significado comum — como o hebraico berith — sendo “aliança”. Na Versão Autorizada é assim traduzida por vinte vezes, e como “testamento” por treze vezes. Ora, uma aliança, estritamente falando, é um contrato entre duas partes, uma prometendo fazer certas coisas mediante o cumprimento de certas condições pela outra parte; enquanto testamento é algo por meio do que alguém concede certos dons. Não parece haver nada em comum entre os dois conceitos, na verdade, são totalmente contrários. Mas nós acreditamos que nossos tradutores traduziram o termo corretamente em ambos os sentidos, embora nem sempre o fizeram felizmente; certamente deve ser “aliança” em 2 Coríntios 3:6 e Apocalipse 11:19. É justamente traduzido como “aliança” em Hebreus 8:6, e “testamento” em 9:15, pois ali é feito um testamento para ilustrar uma determinada correspondência entre a dispensação divina preparatória e a última. O testamento não se torna válido enquanto a pessoa está viva, ele só pode ter efeito após a sua morte. Hebreus 9:15-17, trata de uma disposição que mostra a maneira pela qual os homens obtêm uma herança através das riquezas da graça divina. Assim, em vez de usar syntheke, que expressa mais exatamente uma aliança, o Espírito Santo de modo proposital usa diatheke, que poderia ter uma dupla aplicação.

Vejamos agora alguns exemplos em que a mesma palavra em português tem muitas variantes. Como nas palavras bem conhecidas do nosso Senhor: “Deixa que os mortos sepultem os seus mortos” (Mateus 8:22), assim a palavra “vemos” é usada em dois sentidos diferentes em Hebreus 2:8-9: “Ora, visto que lhe sujeitou todas as coisas, nada deixou que lhe não esteja sujeito... Vemos, porém, coroado de glória e de honra...”, onde primeiro faz referência ao que já havia sido exposto, e em segundo lugar, à percepção da fé. “Resgate” é por meio de poder, bem como por preço. Às vezes, Deus defendeu ou resgatou o Seu povo, destruindo os seus inimigos: Provérbios 21:18; Isaías 43: 4; Faraó e seus exércitos no Mar Vermelho. Muitos têm ficado grandemente perplexos com as aplicações notavelmente diferentes feitas quanto à palavra “carga” em Gálatas 6:2-5: “Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo... cada um levará o seu próprio fardo”. O primeiro tem em vista a carga de fraquezas do Cristão, que deve simpatizar em espírito de oração com seus irmãos e irmãs, e ajudá-los de modo prático. Este último tem referência à responsabilidade individual, seu estado pessoal e destino, que ele mesmo deve cumprir, e que não pode ser transferido para outros. A palavra grega para o primeiro é “pesos”, ou fardos, os quais exigem uma mão amiga. Este último significa um “dever”, ou confiança imposta.

O significado do termo “carne” parece ser tão óbvio que muitos consideram como um grande desperdício de tempo examinar as suas várias conexões na Escritura. Supõe-se rapidamente que a palavra é sinônimo de corpo físico, e por isso uma investigação cuidadosa não é feita. No entanto, na verdade, “carne” é usada nas Escrituras para incluir muito mais do que o aspecto físico do nosso ser. Lemos sobre a “vontade da carne” (João 1:13) e “as obras da carne” (Gálatas 5:19), algumas das quais são atos da mente. Somos proibidos de fazer provisão para a carne (Romanos 13:14), o que certamente não significa que devemos morrer de fome ou negligenciar o corpo. Quando se diz: “o Verbo se fez carne” (João 1:14), devemos entender que Ele tomou para Si toda uma natureza humana, consistindo de espírito (Lucas 23:46), alma (João 12:27) e corpo. “Nos dias da sua carne” (Hebreus 5:7) significa o tempo de Sua humilhação, em contraste com Sua presente exaltação e glória. Mais uma vez, o leitor mediano da Bíblia imagina que “o mundo” é equivalente a toda a raça humana, e, consequentemente, muitas das passagens na quais esse termo ocorre são mal interpretadas. Muitos também supõem que o termo “imortalidade” não exige qualquer exame crítico, concluindo que se refere à indestrutibilidade da alma. Mas nunca devemos presumir entender algo da Palavra de Deus. Se a concordância for consultada, será encontrado que “mortal” e “imortal” nunca são aplicados à alma do homem, mas sempre ao seu corpo.

“Santo” e “santificar” representam em nossas Bíblias em português uma e a mesma palavra hebraica e grega no original, mas elas não são de modo algum usadas uniformemente, antes possuem uma variedade de abrangência e aplicação; daí as diversas definições dos homens. A palavra é de tal modo ampla que nenhum único termo em português pode expressá-la. Que significa mais do que “separado” é claro a partir do que é dito sobre o nazireu: “todos os dias da sua separação, ele é santo ao Senhor” (Números 6:8), dizer: “todos os dias da sua separação, ele é separado” seria uma tautologia sem sentido. Assim, sobre Cristo, está escrito: “santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores” (Hebreus 7:26), onde “santo” significa muito mais do que “separado”. Quando aplicada a Deus essa palavra indica a Sua majestade inefável (Isaías 57:15). Em muitas passagens expressa uma qualidade moral (Romanos 7:12; Tito 1:8). Em outras, refere-se à pureza (Efésios 5:26; Hebreus 9:13). Muitas vezes significa consagrar-se ou dedicar-se a Deus (Êxodo 20:11; João 17:19). Quando o termo é aplicado ao Cristão conota, em termos gerais: (1) a relação sagrada com Deus, em cuja graça fomos levados a Cristo; (2) aquela bendita graça interior pelo qual o Espírito nos fez conhecer a Deus e nos capacitou a ter comunhão com Ele e (3) a vida transformada resultante disso (Lucas 1:75; 1 Pedro 1:15).

A palavra “juízo” é outra que exige um verdadeiro estudo. Há julgamentos da boca de Deus que Seus servos devem fielmente declarar (Salmos 119:13), ou seja, toda a revelação da Sua vontade, a regra pela qual devemos andar e pelo que Ele ainda nos julgará. Esses “juízos” (Êxodo 21:1) são os decretos divinos que fazem conhecida a diferença entre certo e errado. Há também juízos da mão de Deus: “Bem sei eu, ó Senhor, que os teus juízos são justos, e que segundo a tua fidelidade me afligiste” (Salmos 119:75). Esses são a disciplina graciosa que ele administra aos Seus filhos; enquanto aqueles que são o castigo aos iníquos (Ezequiel 5:15), são maldições judiciais e punições. Em algumas passagens a palavra “juízo” expressa o conjunto de providências de Deus, muitas dos quais são “um grande abismo” (Salmos 36:6) e “inescrutáveis” (Romanos 11:33) a qualquer mente finita, coisas que não devem ser esquadrinhadas por nós. Eles indicam o Seu governo soberano, pois “justiça e juízo são a base do Seu trono” (Salmos 97:2), semelhantemente a retidão da administração de Cristo (João 9:39). “Ele trará justiça [julgamento] aos gentios” (Isaías 42:1) intenciona a doutrina justa de Seu Evangelho. Em Judas 14 e 15 a referência é às operações solenes do último dia. “Ensina-me bom juízo e ciência” (Salmos 119:66), essa passagem consiste em um pedido por prudência, uma compreensão mais clara para aplicar o conhecimento de forma correta. “Fazer justiça e juízo” (Gênesis 18:19) significa sermos justos e equitativos em nossas relações.

 

[1] Pink faz referência a Richard Chenevix Trench (1807-1886), e seu livro: Notes on the parables of Our Lord [Notas sobre as parábolas de Nosso Senhor].
 


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