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A Interpretação das Escrituras • Cap. 14 • A. W. Pink

A Interpretação das Escrituras • Cap. 14 • A. W. Pink




Capítulo 14

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Devido a certas passagens do Antigo Testamento, não poucos estiveram perplexos com essa palavra: “Deus nunca foi visto por alguém” (João 1:18), essas palavras já foram usadas como um argumento tolo por infiéis para “provar que a Bíblia está cheia de contradições”. Tais versos necessitam de intérprete para explicar o seu sentido, e, assim, distinguir entre coisas que diferem. Algumas dessas declarações que falam do Senhor “aparecendo” para um e outro das grandes personagens do passado se referem à Sua aparição como o Anjo da aliança; outras foram manifestações teofânicas, em que Ele assumiu a forma humana (cf. Ezequiel 1:26; Daniel 3:25), o que profetizavam a encarnação divina; outras significam que Ele foi visto pela fé (Hebreus 11:26). Quando Isaías declarou: “eu vi também ao Senhor assentado sobre um alto e sublime trono” (6:1), isso significa que ele o fez com os olhos de seu entendimento, em visão profética, e não com a visão corporal. Deus, considerado essencialmente, é “invisível” (1 Timóteo 1:17), pois Sua essência ou natureza não pode ser vista (1 Timóteo 6:16), não, nem por santos anjos nem pelos santos glorificados no Céu. Quando se diz que O veremos “face a face” (1 Coríntios 13:12), isso indica “clara e distintamente”, em contraste com “por espelho em enigma” (obscuramente) na primeira parte do verso; embora o Senhor Jesus, na verdade, será visto face a face.

Um exame cuidadoso das diferentes passagens em que nosso Senhor é referido como aparecendo ou voltando revela o fato de que nem todas elas fazem alusão ao Seu retorno pessoal e público, quando Ele “aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para salvação” (Hebreus 9:28). Assim, “Não vos deixarei órfãos; voltarei para vós” (João 14:18), que tinha como referência, em primeiro lugar, a Sua vinda corporal aos Seus discípulos após a Sua ressurreição e, em segundo lugar, a Sua vinda espiritual no dia de Pentecostes, quando Ele lhes deu outro Consolador. “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada” (João 14:23), vêm nas poderosas influências da graça e consolação divinas. “E pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades. E, vindo, ele evangelizou a paz, a vós que estáveis longe, e aos que estavam perto” (Efésios 2:16-17), o que foi cumprido de forma mediada, no ministério de Seus servos, pois quem os recebe, recebe a Cristo (Mateus 10:40). “Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; quando não, brevemente a ti virei, e tirarei do seu lugar o teu castiçal, se não te arrependeres” (Apocalipse 2:5, e cf. 2:16), essa passagem fala de uma visitação judicial. “Ele virá a nós como a chuva” (Oséias 6:3), todo avivamento espiritual e concessão de graça é uma vinda do Senhor à alma.

Outro exemplo onde é necessário distinguir entre coisas que diferem é ao observarmos cuidadosamente os vários sentidos e significados dados à palavra esperança. Em algumas passagens a referência é à graça da esperança, a faculdade pela qual esperamos um bom futuro, como em: “fé, esperança, amor” (1 Coríntios 13:13), da qual Deus é o autor, “o Deus de esperança” (Romanos 15:13). Em alguns versos é o fundamento da expectativa, sobre o qual ela repousa, como é dito sobre Abraão, “O qual, em esperança, creu contra a esperança, tanto que ele tornou-se pai de muitas nações”, o que é explicado no que se segue: “conforme o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência” (Romanos 4:18), sua esperança repousava sobre a promessa segura de Deus. Em outros lugares é o objeto da esperança que está em vista, as coisas que são esperadas, ou Aquele em quem nossa confiança é colocada, como em: “esperança que vos está reservada nos céus” (Colossenses 1:5); “Aguardando a bendita esperança” (Tito 2:13); “ó Senhor, esperança de Israel” (Jeremias 17:13). Ocasionalmente, o termo significa a garantia do que é produzido, como em: “a minha carne repousará em esperança” (Salmos 16:9 – trad. lit.) e “nos gloriamos na esperança... e a esperança não traz confusão” (Romanos 5:2,5).

Para esclarecer o pensamento e fundamentar a doutrina é muito necessário distinguir entre os três tempos e os vários aspectos da salvação de Deus. Como somos familiarizados com essa palavra, ela é usada com frouxidão imperdoável (mesmo pela maioria dos pregadores), através da falha em reconhecer que esse é o termo mais abrangente encontrado nas Escrituras, e da falha em se esforçar para averiguar o modo como ele é utilizado nelas. Frequentemente um conceito muito inadequado é formado sobre o âmbito e conteúdo dessa palavra, e por ignorar as distinções que o Espírito Santo tem feito, nada senão uma ideia obscura e confusa é obtida. Quão poucos, por exemplo, seriam capazes de fazer uma simples exposição das seguintes afirmações: “Que nos salvou” (2 Timóteo 1:9, e cf. Tito 3:5); “operai a vossa salvação com temor e tremor” (Filipenses 2:12); “porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a fé” (Romanos 13:11 e cf. 1 Pedro 1:5). Agora, esses versos não se referem a três salvações diferentes, mas sim a três aspectos da mesma salvação. O primeiro como um fato consumado, a salvação do deleite no pecado e da penalidade pelo pecado. O segundo como um processo presente, quanto ao poder e atração pelo pecado. O terceiro como uma perspectiva futura, a salvação da própria presença do pecado.

Se o equilíbrio da verdade deve ser preservado e se devem ser evitados a má prática de opor um aspecto contra o outro, ou de enfatizar em demasia um e ignorar o outro; um cuidadoso estudo precisa ser feito sobre as diferentes causas e meios da salvação. Há nada menos do que sete coisas que concorrem nessa grande obra, pois todos esses estão ditos, em uma passagem ou em outra, “salvar-nos”. A salvação é atribuída ao Pai: “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação” (2 Timóteo 1:9), devido ao Seu amor eletivo em Cristo. Ao Senhor Jesus: “Ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mateus 1:21), devido ao Seu mérito e expiação. Ao Espírito Santo: “nos salvou pela... renovação do Espírito Santo” (Tito 3:5), devido às Suas operações todo-poderosas e eficazes. À instrumentalidade da Palavra: “a palavra em vós enxertada, a qual pode salvar as vossas almas” (Tiago 1:21), porque ela desvela a nossa necessidade e revela a graça, pela qual podemos ser salvos. À obra dos servos do Senhor: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem” (1 Timóteo 4:16), por causa da sua fidelidade à verdade. À conversão do pecador, em que tanto o arrependimento e a fé são exercidos por ele: “Salvai-vos desta geração perversa” (Atos 2:40), pelo arrependimento mencionado no verso 38; “pela graça sois salvos, por meio da fé” (Efésios 2:8). Às ordenanças: “Que também, como uma verdadeira figura, agora vos salva, o batismo” (1 Pedro 3:21), selando a graça de Deus em um coração crente.

Agora, essas sete causas afirmativas da salvação precisam ser consideradas em sua ordem e mantidas em seus devidos lugares, pois de outra forma haverá incalculável prejuízo. Por exemplo, se elevamos uma causa subordinada acima de uma primária, logo, todo o senso de verdadeira proporção é perdido. O amor e sabedoria de Deus são a causa primária, o motivo primário de todo o restante. Em seguida, estão os méritos e satisfação de Cristo, que também são a base de tudo o que se segue. As operações eficazes do Espírito Santo produzem nos pecadores aquilo que é necessário para a sua participação nos benefícios propostos pelo Pai e adquiridos por Cristo. A Palavra é o principal meio utilizado por Deus para a convicção e conversão. Como o resultado da operação do Espírito e da aplicação da Palavra em poder em nossos corações, somos levados ao arrependimento e à fé. Nisso, é costume usual do Espírito Santo usar os ministros de Cristo como Seus agentes subordinados. A Ceia do Senhor e o Batismo são meios pelos quais expressamos nosso arrependimento e fé, e os temos confirmado a nós. Essas causas concordantes também não devem ser confundidas, de modo que atribuímos a um anterior o que diz respeito a outro posterior. Não devemos atribuir às ordenanças o que pertence à Palavra, nem à conversão o que se origina por meio do Espírito, nem dar a Ele a honra que é peculiar a Cristo. Cada um deve ser cuidadosamente distinguido, definido e mantido em seu devido lugar.

A necessidade de distinguir entre as coisas que diferem é ainda evidenciado pelo seguinte. O caminhar em escuridão de Isaías 9:2 não é ocasionado pelo Senhor retirar a luz de Sua face, mas é devido à ausência de instrução ministerial, e, portanto, deve ser explicado por Amós 8:11; já em 1 João 1:6 deve considerando que andar em trevas consiste em uma revolta aberta contra Deus. A palavra “morto” em João 6:49 significa morto fisicamente; “não morra” no próximo verso significa morto espiritualmente; “nunca verá a morte” em João 8:51, tem referência à segunda morte. A passagem “da morte para a vida” de João 5:24, é legal, a recompensa da Lei, justificação; mas a passagem “da morte para a vida” de 1 João 3:14, experiencial, significa regeneração. “Um novo homem” de Efésios 2:15, é aquele corpo místico composto de judeus e gentios salvos, do qual Cristo é a cabeça; enquanto o “novo homem” de Efésios 4:24, é a nova condição e posição garantidas pela regeneração, e que o beneficiário é ordenado a fazer manifesto em seu comportamento diário. Quando é dito que Cristo foi “sem pecado” em Seu primeiro advento (Hebreus 4:15) significa que Ele era pessoal e experimentalmente assim, sendo o Santo de Deus; mas quanto é dito que Ele será “sem pecado” na Sua segunda vinda (Hebreus 9:28) indica que Ele será imperativamente assim, não mais estará sob a culpa de Seu povo. Em passagens como Romanos 5:1; Efésios 2:8; etc., “fé” significa o ato e graça da fé, mas em 1 Timóteo 3:9, 4:1 e Judas 3, “a fé” se refere ao corpo de doutrina revelada nas Escrituras.

21. O significado espiritual da Escritura: não simplesmente na aplicação que pode razoavelmente ser feita de uma passagem, mas o seu conteúdo real. Nós temos em mente aquelas passagens onde um objeto material ou transação histórica delineou ou indicou objetos e experiências espirituais. Grande cuidado deve ser tido aqui, para que por um lado não sejamos escravos do “literalismo”, de modo que percamos o significado mais profundo e sentido mais elevado de muitas coisas na Palavra de Deus; ou que, por outro lado, usemos livremente a nossa imaginação e “leiamos” em um verso o que não está lá ou “carnalizemos” o que deve ser considerado em seu sentido simples e natural. Contra ambos os males, o expositor precisa estar constantemente em vigilância. Salientamos também que, em não poucos casos, as Escrituras possuem tanto um sentido literal quanto místico, e uma das tarefas que cabem ao intérprete é anunciar cada um deles de forma clara. Alguns exemplos deixarão mais claro o que queremos dizer.

Os seis primeiros versos do Salmo 19 contêm uma descrição sublime das perfeições de Deus como são demonstradas na criação material, especialmente nos corpos celestes; no entanto, é bastante evidente que o apóstolo Paulo também considerou o que é dito do sol e as estrelas como sendo seu emblema divinamente designado do reino da graça. Pois, em Romanos 10:4-17, descobrimos que ele tinha diante de si o anúncio universal do Evangelho, e que no verso 18, ele citou o Salmo 19: “Mas digo: Porventura não ouviram? Sim, por certo, pois ‘por toda a terra saiu a voz deles, e as suas palavras até aos confins do mundo’”. Ministros de Cristo são chamados “estrelas” (Daniel 12:3; Apocalipse 1:20), pois como as estrelas iluminam todas as partes da Terra, assim os mensageiros evangélicos irradiam os raios da luz e da verdade sobre a escuridão de um mundo ímpio. E assim como não há nenhum discurso ou linguagem em que a voz das estrelas celestes não é ouvida, pois elas são tantas línguas proclamando a glória de seu Criador, assim os ministros de Cristo têm, em diferentes períodos da história, anunciado as boas novas de Deus em toda linguagem humana. No dia de Pentecostes homens de muitas nações ouviram os servos de Deus falarem em suas próprias línguas as grandezas de Deus, de modo que mesmo então, o testemunho dos apóstolos foi anunciado “em todo o mundo” (Atos 2:9-11, e cf. Colossenses 1:5,6,23).

É evidente a adequação da interpretação espiritual do apóstolo sobre o Salmo 19:4, e ele nos fornece uma chave de valor inestimável para a abertura do que se segue imediatamente. À luz das profecias messiânicas é bastante clara, o que é dito nos versos 5 e 6 deve ser entendido, em última instância, sobre o próprio Cristo, pois em Malaquias 4:2, Ele é expressamente chamado de “o Sol da justiça”, que deve “trazer curas nas suas asas”. Como o sol é um corpo celeste, assim o Salvador não é da Terra (João 8:23), mas é “o Senhor do céu” (1 Coríntios 15:47). Assim o salmista passou a dizer: “neles [nos céus] pôs uma tenda para o sol”. A ênfase é ao luminar central no firmamento, todos os menores sendo perdidos de vista. Assim é no Evangelho: somente um objeto central é estabelecido e magnificado ali. Como nos céus particularmente o sol exibe a glória natural de Deus, assim o Evangelho, ao revelar o Filho, manifesta a glória moral de Deus. Muito apropriadamente o Evangelho é comparado a uma “tenda” ou tabernáculo (em vez de um templo fixo), pois, como Israel no passado, assim ele tanto contém e ainda resguarda a glória de Cristo, e é designado para se mover livremente de um lugar para outro, em vez de ficar estático.

“O qual é como um noivo que sai do seu tálamo”. Assim como o sol no início da manhã lança para trás as cortinas do seu pavilhão, o raiar da luz dispersa a sombra da noite, assim no Evangelho, Cristo aparece como um Noivo, removendo a escuridão da não-regeneração de Seu povo, de modo a ser amado e admirado por todos os que creem. “E se alegra como um herói, a correr o seu caminho”, estando plenamente assegurado de Seu triunfo (Apocalipse 6:2). “A sua saída é desde uma extremidade dos céus”, em Miquéias 5:2, somos informados de que Cristo tem “saídas [que] são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”. Essas saídas ocorreram, em primeiro lugar, na medida em que o Pacto Eterno é em tudo bem ordenado e seguro, no qual Ele prometeu “Eis aqui venho... Para fazer, ó Deus, a tua vontade”. Em segundo lugar, nos anúncios de profecia, quando, de Gênesis 3:15 em diante, as cortinas foram gradualmente removidas, pois a Pessoa do Messias vai sendo desvelada em crescente distinção, até que em Isaías 53 Ele foi totalmente revelado. Em terceiro lugar, nas missões Evangélicas por toda a Terra, que continuará até à Sua ainda mais grandiosa aparição. Quando Ele brilha em uma alma “nada se esconde ao seu calor”. Essa interpretação é confirmada pelo verso 7: “A lei do Senhor é perfeita, e refrigera a alma”.

O oitavo Salmo nos fornece um outro exemplo de uma passagem da Escritura que tem um duplo significado: um natural e um espiritual. O âmbito principal desse Salmo, como seus versos inicial e final mostram, é magnificar o Criador, exaltando as maravilhas de Suas mãos. Conforme Davi contemplava as belezas e maravilhas do céu, ele tinha um senso de sua própria nulidade, de modo que ele exclamou: “Que é o homem mortal [enosh: homem frágil, insignificante], para que te lembres dele? e o filho do homem [um diminutivo de “homem”], para que o visites?”. Depois, a sua admiração aprofundou-se quando ele passou a dizer: “Pois pouco menor o fizeste do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste. Fazes com que ele tenha domínio sobre as obras das tuas mãos; tudo puseste debaixo de seus pés”. É aí que vemos tanto a soberania quanto a graça abundante de Deus, em tão altamente elevar alguém tão humilde. Isto encheu o Salmista de assombro e admiração, que Deus tivesse colocado todas as criaturas do mundo em sujeição ao homem, em vez de aos anjos (Gênesis 1:28). É nisso que vemos a bondade de Deus para com a humanidade, e o alto favor que lhe foi conferido. Mas isso não representa o alcance e sentido total dos versos.

O Salmo 8:4-6 é citado pelo apóstolo em Hebreus 2:6-8, onde ele estava provando a partir das Escrituras a superioridade imensurável de Cristo sobre os anjos. Ele realmente foi por pouco tempo (durante o período de Sua humilhação) feito menor do que os anjos, mas depois que Ele concluiu triunfantemente a obra que Lhe foi dada, Deus O exaltou muito acima deles. Assim, o que foi dito por tempo indeterminado sobre o “homem”, sobre Davi, Paulo aplica definitiva e espiritualmente a Cristo, para depois dizer: “mas agora ainda não vemos que todas as coisas lhe estejam sujeitas”, ele imediatamente acrescentou: “Vemos, porém... Jesus”, o que significa que vemos cumprido nEle os termos desse antigo oráculo. Toda margem para dúvidas a esse respeito é removida pelas próximas palavras de Paulo: “coroado de glória e de honra... que fora feito um pouco menor do que os anjos”. O Salmo 8 é messiânico e deve ser visto ainda ao lado daquelas passagens citadas a partir dele em Mateus 21:16 e 1 Coríntios 15:27, que se aplicam, sem dúvida, ao Senhor Jesus. A linguagem utilizada por Davi, então, era muito mais do que uma exultação natural de admiração pelas obras de Deus na criação, a saber, foi um êxtase espiritual ao ser concedida uma visão sobre o mistério da graça, o reino de Cristo e o amor do Pai pela pessoa do Mediador.

Mas a exultação do espírito de Davi foi estimulada com algo mais do que aquilo que acaba de ser apontado: o “homem” a quem ele contemplou era o “homem novo”, o “homem perfeito” de Efésios 2:15 e 4:13, aquele homem espiritual do qual Cristo é a Cabeça. A afirmação de Davi referia-se, em última análise, não somente a Cristo pessoal, mas à Pessoa de Cristo místico, pois o Redentor compartilha com os Seus remidos os despojos de Sua vitória e admite-os a uma participação em Sua recompensa. Eles são Seus “coerdeiros” (Romanos 8:17), e essa é a glorificação deles que o Salmo 8:5-6, tinha em vista finalmente. Mesmo agora, os anjos estão em uma posição de subordinação a eles (Hebreus 1:14) e no dia vindouro os remidos serão “coroados de glória e honra”. “Ao que vencer lhe concederei que se assente comigo no meu trono” (Apocalipse 3:21, e cf. 21:7). A exaltação de Cristo é a garantia do Cristão, pois Ele entrou no Céu como as primícias, o penhor da colheita futura. Oh, que perspectiva há aqui para a fé apossar-se da esperança e desfrutar desde agora! Se isso fosse mais real para nós, estaríamos mais envolvidos em nos desviar de olhar do presente para o futuro, seríamos repletos de admiração e louvor, e as tribulações triviais e os problemas dessa vida nos afetariam muito menos.

O Salmo 89 nos fornece mais uma ilustração do princípio que estamos aqui tratando, e um muito impressionante e importante. Historicamente, esse Salmo olha para trás, para o que está registrado em 2 Samuel 7:4-17, ou seja, a aliança que o Senhor fez com Davi; mas ninguém com os olhos ungidos pode ler esse Salmo sem rapidamente perceber que alguém maior do que o filho de Jessé está ali em vista, nomeadamente, o seu Salvador. À luz de Isaías 42:1: “Fiz uma aliança com o meu escolhido, e jurei ao meu servo Davi” (Salmos 89:3), é bastante claro que a referência espiritual é ao Pacto de Graça que Deus fez com o Mediador antes da fundação do mundo; compare: “Então falaste em visão ao teu santo” (v. 19). Isto ainda é confirmado no que imediatamente se segue: “A tua semente estabelecerei para sempre, e edificarei o teu trono de geração em geração” (v. 4), o que não é verdade quanto ao Davi histórico. Como observou Spurgeon: “Davi deve ter sempre uma semente, e realmente isso é cumprido em Jesus, além de suas expectativas. Que semente Davi tem na multidão que surgiu dAquele que era ao mesmo tempo o seu Filho e o seu Senhor! O Filho de Davi é o grande Progenitor, o último Adão, o Pai da eternidade; Ele vê a Sua semente, e neles contempla o fruto do trabalho da Sua alma. A dinastia de Davi nunca decai, mas, pelo contrário, está cada vez mais consolidada pelo grande Arquiteto do Céu e da Terra. Jesus é um Rei, bem como um Progenitor, e Seu trono está edificado para sempre”. À medida que lemos esse Salmo, verso após verso, somos compelidos a olhar para além do literal em direção ao espiritual, até que o clímax é atingido no verso 27, onde Deus diz sobre o antitípico Davi: “Também o farei meu primogênito mais elevado do que os reis da terra”.

 


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