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A Interpretação das Escrituras • Cap. 16 • A. W. Pink

A Interpretação das Escrituras • Cap. 16 • A. W. Pink




Capítulo 16

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Existem certos tipos de mentalidade, particularmente místicas e fanáticas, que são propensas a substituir conceitos fantasiosos por interpretações espirituais. A Palavra de Deus precisa ser manuseada com temor reverente, e com muita oração por discernimento e orientação, para que não pisemos no solo sagrado com os sapatos da sabedoria carnal; ou com a mentalidade inexperiente, que busca novidades, dando asas à sua imaginação, em vez de disciplinar-se a respeitar estritamente a analogia da fé. Todo pregador precisa estar constantemente em vigilância contra substituir a engenhosidade humana pelo ensino do Espírito. Satanás já imitou as operações do Espírito, e falsificou um entendimento espiritual das Escrituras, por perversões grosseiras das mesmas. Um exemplo antigo disso é a Cabala, que embora grandemente estimada entre os judeus, é abundante nas explicações mais absurdas das Sagradas Escrituras. A imprudente alegorização da Orígenes é outro exemplo a ser evitado, pois ele torceu os textos mais simples e claros nas formas e sentidos mais grotescos. O estranho sistema de exegese adotado por Swedenborg é mais um caso disso. A imaginação precisa ser freada tanto por uma consciência sensível quanto pelo espírito de uma mente sã.

É justamente na medida em que realmente valorizamos a interpretação espiritual da Palavra de Deus, que nós abominaremos todas as falsificações. Deve-se vigiar contra dois extremos, tanto por aqueles que promovem quanto por aqueles que recebem alguma nova explicação de uma passagem: (1) um amor pelo que é fantasioso e (2) um preconceito contra o que é novo. Existe um meio termo entre apressadamente condenar ou aceitar, a saber, examinar cuidadosamente e com oração o que é apresentado, testá-lo por outras passagens e pela nossa própria experiência. Sem dúvida, a maioria de nós pode lembrar de algumas interpretações que eram novas, e que a princípio nos pareceu ser “exagerada”, mas que agora consideramos sã e útil. Se o Espírito Santo não tivesse nos informado que duas esposas de Abraão eram figuras dos dois pactos (Gálatas 4:24), e que as palavras de Moisés em Deuteronômio 30:11-14, deviam ser entendidas espiritualmente sobre a justiça da fé (Romanos 10:6-9), nós consideraríamos tais interpretações ridículas. Lembre-se que Deus concede luz a um ministro que Ele não concede a outro. Mesmo que a explicação dele não seja aceitável a você no momento, seja cuidadoso antes de, precipitadamente, chamá-la de “uma perversão das Escrituras”, para que o mesmo ensino que está sendo abençoado para a nutrição do coração de um pobre filho de Deus não seja rejeitado pela sua cabeça.

22. Dupla referência e significado. É sempre preciso ter em mente que há uma plenitude, bem como uma profundidade, nas palavras de Deus, de modo que não acontece com as palavras dos homens, de modo que raramente uma única e breve definição explica adequadamente um termo bíblico. Por essa razão, temos de estar constantemente em vigilância contra a limitação do escopo de qualquer declaração divinamente inspirada, e afirmar que ela significa apenas assim e assim. Portanto, quando somos informados de que Deus fez o homem à Sua imagem e semelhança, essas palavras provavelmente têm pelo menos uma alusão quádrupla: Em primeiro lugar, a encarnação do Filho, pois Ele é claramente designado a “imagem do Deus invisível” (Colossense 1:15). Em segundo lugar, ao homem ser uma criatura tripartite, pois “Deus disse: Façamos o homem à nossa imagem” (Gênesis 1:26) — uma trindade na unidade, que consiste em “espírito e alma e corpo” (1 Tessalonicenses 5:23). Em terceiro lugar, à Sua semelhança moral, que o homem perdeu na Queda, mas que é restaurada na regeneração (Efésios 4:24; Colossenses 3:10). Em quarto lugar, à posição atribuída ao homem e a autoridade com que foi investido: “domine” (Gênesis 1:26). Adão era um “deus” ou governante, sob o Senhor, de todas as criaturas do mundo.

Diante do que foi referido, é evidente que o ditado favorito dos Dispensacionalistas — “a aplicação é múltipla, a interpretação é apenas uma” — é errônea, pois acima não são quatro interpretações da “imagem de Deus” a partir do qual podemos escolher, mas o quádruplo significado real do próprio termo. Dizer que “a interpretação é apenas uma” é também contradizer categoricamente a explicação de nosso Senhor da parábola do semeador, pois quando Ele definiu seus termos deu três ou quatro significados diferentes para “espinhos”; compare Mateus 13:22; Marcos 4:18-19 e Lucas 8:14. Estamos cordialmente de acordo com o parágrafo nove do capítulo inicial da Confissão de Fé de Westminster, quando ela diz: “A regra infalível de interpretação da Escritura é a própria Escritura; e, portanto, quando houver uma questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer Escritura (que não é múltiplo, mas único), esse pode ser investigado por meio de outros textos que o expressem mais claramente”, exceto que não concordamos com a limitação mencionada nos parênteses. Estamos mais preferivelmente ao lado de Joseph Caryl (um dos autores da Confissão de Westminster), que, ao comentar em um verso as palavras que eram suscetíveis de vários significados, e que tinham sido diversamente explicadas pelos expositores, disse: “Em uma Escritura que pode, sem a censura de qualquer verdade, admitir diversos sentidos, eu não seria tão positivo quanto a um, de modo a rejeitar todos os outros”.

Mesmo que fosse verdade que o significado gramatical de um verso seja apenas um, no entanto, ele pode ter uma dupla referência, como é certamente o caso com algumas das profecias na Sagrada Escritura, que possuem um cumprimento maior, e um menor. Ellicott, em sua introdução ao livro de Apocalipse, em seu comentário, ao escrever sobre a profecia, disse: “As palavras de Deus significam mais do que um homem ou uma escola de pensamento possam abarcar. Há profundezas da Verdade inexploradas que se encontram sob as frases mais simples. Assim como estamos acostumados a dizer que a história se repete, assim as profecias da Bíblia não se esgotam em um ou até mesmo muitos cumprimentos. Cada profecia é uma única chave que abre muitas portas, e o drama grandioso e imponente do Apocalipse foi talvez negligenciado em uma época, para ser repetido na próxima”. Nós tememos muito que nada, senão o miserável partidarismo tem feito com que muitos desprezem tal conceito, e causado a rejeição de todas as outras interpretações que não concordem com o seu próprio sistema particular. Davi disse: “Teu mandamento é amplíssimo” (Salmos 119:96): consideremos isso para que nós não diminuamos ou limitemos o mesmo.

A declaração do Pai acerca de seu Filho “com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos” (Isaías 53:11) certamente tem uma força dupla: o “conhecimento” que Ele possui e o conhecimento que Ele transmite. Como Thomas Manton indicou: “isso pode ser considerado de uma ou outra maneira: ativamente, quanto ao conhecimento que Ele deve anunciar; passivamente, por nossa apreensão de Cristo”, pois o primeiro sem o segundo não pode nos justificar. “Com o seu conhecimento” pode ser considerado subjetiva e objetivamente. Primeiro, pelo seu próprio conhecimento pessoal do Pai (João 17:25), que foi o fundamento que Ele transmitiu aos homens (João 3:11) para a sua salvação. Em segundo lugar, quanto ao nosso conhecimento salvífico dEle, recebido dEle. Em vez de tergiversações quanto à possibilidade ou não de Isaías intencionar incluir cada um desses significados, sejamos gratos que ele foi orientado a usar uma linguagem que incluía ambos os sentidos. Novamente, a expressão figurativa de nosso Senhor quando Ele declarou que “as portas do inferno” não prevalecerão contra “Sua Igreja” (Mateus 16:19) admite uma dupla referência: à morte (Isaías 38:10) e ao poder do mal. A morte e a sepultura têm prevalecido sobre todas as instituições humanas, mas não sobre Cristo (Atos 2:27), ou a Sua Igreja (Salmos 72:17; Mateus 28:20), nem qualquer arma forjada contra ela prosperará (Isaías 54:17) — significados tão diferentes não são mais surpreendentes do que a aplicação simbólica da palavra “leão” a Satanás (1 Pedro 5:8) e a Cristo (Apocalipse 5:5).

“Logo, para que é a lei? Foi ordenada por causa das transgressões” (Gálatas 3:19). Essa resposta admite dois significados diferentes. Em primeiro lugar, o objetivo imediato da lei ser anteriormente anunciada e executada posteriormente à herança prometida a Abraão e à sua descendência era refrear a carnalidade dos hebreus e evidenciar o seu pecado, ao fazer conhecida a eles a vontade de Deus e a penalidade temível por violar a Sua autoridade. Em segundo lugar, o seu propósito final era preparar o caminho para Cristo, demonstrando a sua necessidade dEle por causa de sua terrível culpa. O “por causa das transgressões” é intencionalmente geral o suficiente para incluir ambos: suprimir transgressões, e revelar os transgressores. Assim também o verso seguinte tem um duplo significado: “Ora, o medianeiro não o é de um só [grupo], mas Deus é um” [Gálatas 3:20]. Considerando o contexto, “Deus é um só (v. 10 e seguintes, especialmente 16-19) significa em primeiro lugar, que o Seu propósito é imutável. O Seu desígnio era o mesmo em ambos os pactos abraâmico e do Sinai — a lei sendo dada com uma finalidade graciosa em vista, preparar o caminho para o Salvador: daí a pergunta e resposta no verso 21. No entanto, tendo em conta todo o contexto é igualmente claro, em segundo lugar, que “Deus é um só” significa que Seu método de salvação permanece inalterado através de todas as dispensações. “É porventura Deus somente dos judeus? E não o é também dos gentios? Também dos gentios, certamente, visto que Deus é um só, que justifica pela fé a circuncisão, e por meio da fé a incircuncisão” (Romanos 3:29-30).

O que acaba de ser observado nos leva a ressaltar que os termos “Israel”, “judeu” e “descendência de Abraão” têm todos uma dupla alusão. A expressão “Israel segundo a carne” (1 Coríntios 10:18) é, obviamente, um discriminador, e não teria sentido se não houvesse Israel segundo o Espírito, que é o Israel regenerado, “o Israel de Deus” (Gálatas 6:16). O “Israel segundo a carne” eram os descendentes naturais de Abraão, enquanto o Israel espiritual, quer judeus, quer gentios, são aqueles que nasceram de novo e adoram a Deus em espírito e em verdade. Quando o salmista declarou: “Verdadeiramente bom é Deus para com Israel, para com os limpos de coração” (73:1), ele certamente não se referiu aos descendentes carnais de Jacó, pois a maioria deles não tinha “um coração limpo”! Quando o nosso Senhor disse a Natanael: “Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo” (João 1:47), Ele, obviamente, intencionava muito mais do que alguém que descendia naturalmente de Jacó. Sua linguagem foi tão distintiva quanto quando Ele disse: “Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos” (João 8:31). “Um verdadeiro israelita” indicava um genuíno filho de Israel espiritual, um homem de fé e de oração, santo e honesto. “Em quem não há dolo” fornece mais uma confirmação de que as características de um salvo estavam ali em vista (compare com Salmos 32:1).

Quando Cristo disse: “Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mateus 15:24), Ele não poderia intencionar os descendentes carnais de Jacó, pois, como muitas Escrituras mostram claramente (Isaías 42:6; Romanos 15:8-9), Ele também foi enviado aos gentios. Não, as “ovelhas perdidas da casa de Israel” aqui indicam toda a eleição da graça. “E a todos quantos andarem conforme esta regra, paz e misericórdia sobre eles e sobre o Israel de Deus” (Gálatas 6:16) isto não poderia referir-se à nação, pois a ira de Deus estava sobre ela — é sobre o Israel eleito pelo Pai, redimido pelo Filho e regenerado pelo Espírito que a paz e a misericórdia divina descansam. “Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas” (Romanos 9:6). Os judeus erroneamente imaginaram que as promessas que Deus fez a Abraão e à sua descendência pertenciam apenas aos seus descendentes naturais: daí a sua reivindicação “temos por pai a Abraão” (Mateus 3:9). Mas essas promessas não foram feitas para os homens segundo a carne, mas para os homens segundo o Espírito, os regenerados, só eles são os “filhos da promessa” (Romanos 9:8). As promessas de Deus a Abraão, Isaque e Jacó foram dadas a eles como crentes, e as promessas são propriedade espiritual e alimento dos crentes, e de ninguém mais (Romanos 4:13,16). Até esse fato ser compreendido, estaremos confusos em relação às promessas do Antigo Testamento (cf. 2 Coríntios 1:20, 7:1; 2 Pedro 1:4).

“Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão” (Gálatas 3:7). Os filhos de Abraão são de dois tipos, físico e espiritual: aqueles que são dele por natureza, e aqueles que são vinculados a ele pela graça. “Ser o filho de uma pessoa em um sentido figurado é equivalente a ser ‘semelhante a ele e envolvido em seu destino’, bom ou mau. Ser ‘filho de Deus’ é ser como Deus, e também, como o apóstolo afirma, é ser ‘herdeiro de Deus’. Ser ‘os filhos de Abraão’ é ser semelhante a Abraão, imitar a sua conduta e compartilhar a sua bem-aventurança” (John Brown). Assim, ser “os filhos do maligno” (Mateus 13:38) é serem conformes à sua imagem vil, tanto no caráter quanto na conduta (João 8:44), e compartilhar sua condenação (Mateus 15:41). Cristo disse aos judeus carnais do seu tempo: “Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão” (João 8:39). Estes são os seus filhos espirituais que “andam nas pisadas daquela fé” que ele teve (Romanos 4:12) e que são “benditos com o crente Abraão” (Gálatas 3:9). Precisamos estar unidos a Cristo, que é “o Filho de Abraão” (Mateus 1:1), a fim de obtermos as bênçãos que Deus pactuou com o patriarca. O duplo significado da expressão “filhos” ou “descendência de Abraão” foi claramente indicado no início, quando Deus comparou a sua semente às estrelas dos céus e à areia que está na praia do mar (Gênesis 22:17).

Semelhantemente, a palavra “judeus” é aplicada a duas classes de pessoas muito diferentes, embora poucos hoje pensariam assim, se eles se limitarem ao ministério de uma classe que se orgulha de ter mais luz do que a maioria dos cristãos professos. Todavia, isso é inequivocamente estabelecido pela declaração de Romanos 2:28-29: “Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus”. Certamente nada poderia ser mais claro do que isso, e à luz de uma tal declaração parece extremamente estranho que haja aqueles — gloriando-se de sua elevada ortodoxia, e condenando amargamente todos os que diferem deles — que insistem que o termo “judeu” se refere apenas aos descendentes naturais de Jacó, e ridicularizam a ideia de que haja alguma coisa como um judeu espiritual. Mas quando Deus nos diz: “é judeu o que o é no interior”, Ele manifestamente quer dizer que o verdadeiro “judeu”, o antitípico, é uma pessoa regenerada, que tem o “louvor” ou a aprovação de Deus.

Não é somente infantil, mas enganoso, afirmar que “Israel” significa Israel e “judeu” significa judeu, e que quando a Palavra de Deus faz menção de Jerusalém ou Sião nada mais é referido que esses lugares reais. Aqueles que fazem tais afirmações estão apenas enganando a si mesmos (e outros que são ingênuos o suficiente para dar ouvidos a eles) pelo mero som das palavras. Desse modo, afirmam que “carne” significa nada mais do que o corpo físico, que “a água” (João 4:14) se refere apenas a esse elemento material, ou que “a morte” (João 5:24) não significa nada, senão a dissolução física. Há o fim de toda interpretação — anúncio do sentido da Escritura — quando os tais adotam uma atitude tão tola. Cada verso exige um estudo cuidadoso e em oração, de modo que seja bastante apurado o que o Espírito intenciona: o Israel carnal ou o espiritual, a descendência literal de Abraão ou a mística, o judeu natural ou o regenerado, a Jerusalém terrena ou a celestial, a Sião típica ou o antitípica. Deus não escreveu a Sua Palavra de tal forma que o leitor mediano é feito independente daquela ajuda que Ele designou dar por meio dos mestres aprovados por Ele.

Nós podemos imaginar aqueles de nossos leitores que se sentaram sob os erros do Dispensacionalismo dizendo: “Tudo isso parece muito confuso, pois fomos ensinados a distinguir claramente entre Israel e a Igreja, um sendo um povo terreno e o outro sendo um celeste”. Evidentemente, Israel era um “povo terreno”, assim também eram os egípcios, os babilônios, e todos os outros habitantes desse mundo. Este escritor e seus leitores Cristãos também são um “povo terreno”, pois nem os seus corpos nem as suas almas ainda foram levadas ao Céu. Em resposta, o opositor dirá que a herança de Israel era terrena. Mas nós perguntamos, era mesmo? A herança dos patriarcas era terrena? Hebreus 11:14-16 mostra claramente o contrário, pois nos é dito “que buscam uma pátria”, isto depois de terem entrado na terra de Canaã, “mas agora eles [Abraão, Isaque e Jacó] desejam uma [pátria] melhor, isto é, a celestial”. A herança de Moisés era terrena? Deixe que Hebreus 11:26 nos responda: “Tendo por maiores riquezas o vitupério de Cristo do que os tesouros do Egito; porque tinha em vista a recompensa”, ou seja, uma recompensa eterna (cf. Colossenses 3:24)! A herança de Davi era mundana? Se assim for, como ele poderia falar de si mesmo como “um peregrino na terra” (Salmos 39:12, 119:119)? O Salmo 73:25 mostra no que o seu coração estava estabelecido.

Não é suficiente afirmar que a herança de Israel era terrena: que “Israel” deve ser definitivamente estabelecido, e também qual herança delineava. Como a porção que o Senhor designou, prometeu e deu a Abraão e seus descendentes, aquela terra de Canaã, ao longo da era Cristã, foi justamente considerada como prefigurando a herança celestial, para a qual os membros de Cristo estão peregrinando na medida em que passam através desse contexto de pecado e tribulação. A fim de obter a imagem típica completa das variadas experiências espirituais e exercícios dos eleitos de Deus como foram tão vividamente prenunciadas no passado, temos que ter em consideração não somente a história dos hebreus no Egito e suas jornadas pelo deserto, mas também o que foi exigido deles a fim de adentrarem e ocuparem a terra de Canaã. Como já tantas vezes indicamos em nossos artigos sobre a vida e os tempos de Josué, Canaã também deve ser contemplada a partir de dois pontos de vista, natural e espiritual: espiritualmente, como retratando a herança dos israelitas regenerados, cuja herança deve ser obtida e apreciada agora pela fé e obediência, mas na qual não entraremos totalmente até que o rio Jordão da morte seja atravessado. Certamente, muito cuidado deve ser tomado com a analogia da fé.

Embora Canaã fosse uma dádiva divina para Israel natural, no entanto, a ocupação deles da mesma foi o resultado de sua própria valentia. Aliás, Canaã foi lhes concedida pelo dom gratuito de Deus, no entanto, precisou ser conquistada por eles. Nisso foi figurado com precisão o que é necessário a fim de adentrar em Canaã celestial. O livro de Josué não somente mostra a graça soberana de Deus, exibe a Sua fidelidade à aliança e o grande poder que Ele revela em favor do seu povo, mas também torna conhecido o que Ele requereu deles no cumprimento de sua responsabilidade, e mostra que o Senhor somente lutava por Seu povo enquanto eles permaneciam em plena dependência e estavam em completa sujeição a Ele. Havia enormes obstáculos a serem superados, inimigos terríveis e poderosos para serem vencidos, uma guerra dura e prolongada a ser travada, e apenas enquanto eles cooperavam ativamente, o Senhor se mostrava forte em seu favor. “Porque se diligentemente guardardes todos esses mandamentos, que vos ordeno para os guardardes, amando ao Senhor vosso Deus, andando em todos os seus caminhos, e a ele vos achegardes, também o Senhor, de diante de vós, lançará fora todas estas nações... Todo o lugar que pisar a planta do vosso pé será vosso...” (Deuteronômio 11:22-24). Esse “se” não era de incerteza, mas tinha relação com a sua prestação de contas — como o “se” de João 8:31,51; Colossenses 1:23 e Hebreus 3:6,14 tem relação com a nossa.

A herança da Igreja é totalmente a partir da graça divina e comprada pelo Mediador, no entanto, não é obtida pelos herdeiros da promessa sem árduos esforços de sua parte. Deve-se entrar pela porta estreita e caminhar pelo caminho estreito (Mateus 6:13-14). Há uma corrida a ser executada que demanda a temperança em todas as coisas (1 Coríntios 9:24-26). Há uma luta a ser travada (1 Timóteo 6:12; 2 Timóteo 4:7), e, a fim de sermos bem-sucedidos nela, precisamos tomar “toda a armadura de Deus” (Efésios 6:13) e fazer uso diário da mesma. Há um conflito incessante com a carne a ser efetuado (Gálatas 5:17), um Diabo a ser firmemente resistido na fé (1 Pedro 5:8-9), um mundo sedutor e hostil a ser vencido (Tiago 4:4; 1 João 5:4). Ainda assim, é bendita verdade que “nós, os que temos crido, entramos no descanso” (Hebreus 4:3). O jugo de Cristo deve ser tomado sobre nós, embora a ordem divina permaneça, “Procuremos, pois, entrar naquele repouso” (Hebreus 4:11) que nos espera no alto, e do qual a terra que mana leite e mel era o emblema.
 


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