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A Interpretação das Escrituras • Cap. 17 • A. W. Pink

A Interpretação das Escrituras • Cap. 17 • A. W. Pink




Capítulo 17

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23. A regra da ordem. A Palavra de Deus é como as Suas obras: a disposição intencional e precisão minuciosa a caracterizam por toda parte. Se “tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu” (Eclesiastes 3:1) no mundo natural, seguramente o mesmo é válido em relação ao reino espiritual, e tudo que diz respeito a ele. Mesmo aqueles que não professam ser Cristãos reconhecem e admitem que “a ordem é a primeira lei do céu”. Deus é um Deus de ordem, e muito inequivocamente esse fato é demonstrado por toda a Sagrada Escritura. Tudo nela é metódico e está em seu devido lugar: mude esse arranjo, e a confusão e erro se segue imediatamente. Assim, é de profunda importância que prestemos muita atenção à ordem em que a verdade foi estabelecida pelo Espírito onisciente. A chave para muitos versos deve ser encontrada ao observar a posição que ele ocupa, a sua coerência com o que precede, e a sua relação com o que se segue.

Se o seu conteúdo for considerado histórica, doutrinária ou tipicamente, Gênesis deve introduzir a Palavra, pois é o livro dos princípios. Este livro tem sido apropriadamente chamado de “a sementeira da Bíblia”, pois nele encontra-se sob a forma inicial quase tudo o que é posteriormente mais desenvolvido nos livros seguintes. Doutrinariamente, seu tema é o da eleição divina, que é o primeiro ato da graça de Deus para o Seu povo. Em seguida, vem Êxodo, que trata da redenção através de compra e poder (6:6, 15:13). O terceiro livro, como poderia ser esperado, vê o povo de Deus como no fundamento da ressurreição, sendo não tanto doutrinal quanto experiencial em seu caráter. Levítico mostra para o quê nós somos redimidos, tendo por tema a comunhão e adoração: sua chave está pendurada na porta — o Senhor falando a partir do tabernáculo (1:1). O quarto livro lida com o lado prático da vida espiritual, traçando a história do crente nesse mundo — pois o quatro é o número da terra. “O deserto” (1:1) é um símbolo do mundo em sua condição caída, o lugar de provação e tribulação. Seu assunto é a caminhada e a guerra dos santos.

A posição desses quatro livros manifesta claramente o desígnio da obra divina, e nos ensina a ordem em que a verdade deve ser apresentada. Uma ilustração igualmente impressionante é vista na justaposição e ordem dos dois últimos livros de Salomão, pois o tema de Eclesiastes é, sem dúvida: “proveito nenhum há debaixo do sol”, enquanto que o de Cânticos fala da “plena satisfação no Filho”: sobre um pode ser inscrito: “Qualquer que beber desta água tornará a ter sede”; sobre o outro: “Mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede” (João 4:13-14). Em 2 Timóteo 3:16, Paulo nos informa que as Escrituras são proveitosas ​​“para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça”, e essa é a própria ordem que ele seguiu em suas epístolas. Pois, Romanos é um tratado doutrinário, as epístolas aos Coríntios é uma reprovação de desordens na igreja, Gálatas é uma correção de ensino errôneo e Efésios descreve aquele caminhar que é o único digno de um filho de Deus.

Os livros da Bíblia não são apenas infalivelmente posicionados, mas o conteúdo de cada um é disposto em sequência lógica e necessária. Assim, é muito interessante observar como cada um dos patriarcas de Gênesis prefigurou alguma verdade distinta e fundamental a respeito do crente. Em Abraão temos ilustrada a eleição divina e o chamado eficaz. Em Isaque temos descrita a filiação divina (por um nascimento sobrenatural) e a vida de submissão à vontade de Deus. Em Jacó temos retratado o conflito entre a carne e o espírito: as duas naturezas no crente, indicado pelo seu nome duplo, Jacó‒Israel. Em José temos exemplificado a grande verdade do direito à herança: após um tempo de tribulação, foi feito governante do Egito. Assim, a ordem histórica é também doutrinal e vivencial, progressiva e tende a um clímax. As cinco grandes ofertas de Levítico 1—5 tipificam muitos aspectos distintos da Pessoa e obra do Senhor Jesus, e uma instrução de valor inestimável deve ser obtida ponderando a sequência delas.

Os Salmos 22, 23 e 24 nos apresentam uma tríade significativa e abençoada, especialmente porque Cristo é visto neles. No primeiro, nós contemplamos o sofrimento do Seu povo; no último vemos como o Rei da glória recebe uma recepção real no Céu, e somos supridos com uma descrição das características possuídas por aqueles a quem Ele capacita para habitar conSigo ali; enquanto o do meio nos mostra quão graciosamente Ele ministra e provê às Suas ovelhas (a quem Ele está conduzindo ao aprisco celestial) durante o intervalo em que eles são deixados na Terra. No Salmo 22 contemplamos o “bom pastor” (João 10:11), no 23 o “grande pastor” (Hebreus 13:20), no 24 o “Sumo Pastor” (1 Pedro 5:4). Novamente, se é essencial para o consolo do crente encontrar que Romanos 7 descreve com precisão a sua experiência espiritual, e que a sua fé deve lançar mão das promessas divinas de Romanos 8; é igualmente necessário que os pregadores não somente se apeguem à absoluta soberania de Deus na eleição e reprovação, conforme estabelecido em Romanos 9; mas que eles também anunciem a livre oferta do Evangelho a todos os homens e estimulem a cumprir a sua responsabilidade de aceitar essa oferta, conforme apresentado em Romanos 10.

O que foi exemplificada nos parágrafos anteriores se aplicam não somente no geral, mas é igualmente verdade nos detalhes. Por exemplo, o arranjo dos Dez Mandamentos da lei moral (que compreendem a soma da justiça) é profundamente significativo. Eles foram escritos em duas tábuas de pedra, para indicar que eles se dividem em dois grupos distintos. Os quatro primeiros se referem à nossa responsabilidade em relação a Deus; os último seis, às nossas obrigações para com os homens. Vão é fingir que somos adoradores sinceros de Deus, se os deveres do amor aos nossos próximos forem negligenciados; igualmente inútil é a profissão de piedade que, enquanto se abstém de ofensas contra os nossos companheiros, retém da Majestade do Céu a honra e glória que Lhe são devidas. Mais uma vez, as cinco exortações contidas no Salmo 37:1-7 são dispostas em ordem lógica e inevitável. Devemos renunciar à indignação e inveja se quisermos confiar no Senhor, e devemos confiar nEle antes que possamos nos deleitar nEle, e isso é necessário a fim de entregarmos confiantemente o nosso caminho a Ele, e descansarmos e esperarmos pacientemente por Ele.

A ordem das bem-aventuranças em Mateus 5:3-11 está repleta de instrução valiosa, e nós perdemos muito se não atentarmos bem para isso. Nas primeiras quatro, são mostrados a nós os atos do coração daqueles que foram vivificados pelo Espírito. Primeiro, há um senso de necessidade, um reconhecimento da sua nulidade e vazio. Em segundo lugar, há um julgamento de si mesmo, uma consciência de culpa e lamento por sua condição perdida. Em terceiro lugar, uma desistência de tentar justificar a si mesmo, um abandono de todas as pretensões de mérito pessoal, um tomar de seu lugar no pó diante de Deus. Em quarto lugar, o olho da alma se desviou de si mesmo para Outro: eles são conscientes de sua extrema necessidade de salvação. As quatro seguintes descrevem os frutos encontrados no regenerado. Assim, nessas bem-aventuranças Cristo declara as marcas do nascimento que distinguem aqueles que são os súditos do Seu reino, e torna conhecidos aqueles sobre quem repousa a bênção de Deus.

Que olho ungido pode deixar de ver a ordem perfeita na oração modelo que Cristo deu aos Seus discípulos? Nela, Ele forneceu uma diretriz simples, mas abrangente; revelando como Deus deve ser abordado por Seus filhos, a ordem em que os seus pedidos devem ser apresentados, as coisas que eles mais precisam de pedir, e a honra devida a Ele. Cada aspecto da oração está incluído: adoração, súplica e argumentação. Cada cláusula nela ocorre no Antigo Testamento, indicando que nossas orações devem ser bíblicas para que sejam aceitáveis (1 João 5:14). Suas petições são em número de sete, mostrando a plenitude do que aqui é suprido. Todos os seus pronomes estão no plural, ensinando ao Cristão que as necessidades dos seus irmãos e irmãs, e não apenas as suas, devem estar diante dele quando se curvar diante do trono da graça.

Que o estudante preste muita atenção para a ordem seguida nestes exemplos adicionais, a qual nós deixamos para que examine por si mesmo. Os milagres de Cristo em Mateus 8 e 9. As sete parábolas de Mateus 13. O resultado sétuplo da justificação, conforme estabelecido em Romanos 5:1-11. As sete graças de 2 Pedro 1:5-7, a presença e processo que permite que o santo se assegure de sua vocação e eleição, tanto em relação a si mesmo quanto para os seus companheiros, pois “estas coisas” do verso 10 são as mencionadas nos versos 5-7. Tudo na Escritura é de acordo com um propósito definido.

O propósito especial de Lucas era estabelecer as perfeições da humanidade do nosso Senhor, e é muito abençoado traçar as diferentes passagens em seu Evangelho onde Cristo é visto como um homem de oração. “E aconteceu que, como todo o povo se batizava, sendo batizado também Jesus, orando ele, o céu se abriu” (Lucas 3:21). Lucas é o único que fornece esse detalhe significativo, e quão precioso ele é. O batismo de Cristo marcou o fim da Sua vida privada, e o início de Sua missão oficial. E aqui somos informados que Ele permanecia em ato de devoção logo no início do Seu ministério público. Jesus estava envolvido em dedicar-se a Deus, em buscar graça para o trabalho grandioso que estava diante dEle. Assim, a primeira visão que a multidão teve foi dEle em oração! “Ele, porém, retirava-se para os desertos, e ali orava” (Lucas 5:16). Isso ocorreu logo após Seus milagres de misericórdia, quando “a sua fama, porém, se propagava ainda mais, e ajuntava-se muita gente para o ouvir e para ser por ele curada das suas enfermidades” (v. 15). Sua resposta a essa demonstração de popularidade foi marcante, e cheia de instrução para os Seus servos. Ele se retirou das aclamações das multidões e ficou a sós com Deus. Novamente: “E aconteceu que naqueles dias subiu ao monte a orar, e passou a noite em oração a Deus” (Lucas 6:12). Isso ocorreu imediatamente após os escribas e fariseus estarem “cheios de furor” contra Ele, e logo antes dEle selecionar os doze. Nosso Redentor não fez nenhuma tentativa de combater os seus inimigos, mas retirou-se para ter comunhão com o Pai. Antes de chamar os apóstolos, Ele passou a noite clamando a Deus.

“E aconteceu que, estando ele só, orando, estavam com ele os discípulos; e perguntou-lhes, dizendo: Quem diz a multidão que eu sou?” (Lucas 9:18). Isso aconteceu logo após Ele alimentar a multidão; depois de se engajar no serviço público, Ele se retirou a fim de ter devoção privada. Podemos inferir a partir da pergunta que fez aos seus discípulos que a incredulidade dos homens estava começando a lançar uma sombra sobre a sua alma, e que Ele agora buscava por alívio e força do alto. “E aconteceu que, quase oito dias depois destas palavras, tomou consigo a Pedro, a João e a Tiago, e subiu ao monte a orar. E, estando ele orando, transfigurou-se a aparência do seu rosto, e a sua roupa ficou branca e mui resplandecente” (Lucas 9:28-29). Foi enquanto envolvido em oração que Cristo foi transfigurado — quão significativo e instrutivo! “E aconteceu que, estando ele a orar num certo lugar, quando acabou, lhe disse um dos seus discípulos: Senhor, ensina-nos a orar, como também João ensinou aos seus discípulos” (Lucas 11:1). Essa é uma das passagens (veja também os Salmos Messiânicos) que nos dão algumas indicações sobre a natureza de Suas súplicas. Enquanto O ouviam, os discípulos sentiram que não sabiam nada sobre oração! “Disse também o Senhor: Simão, Simão... eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça” (Lucas 22:31-32). Aqui nós O contemplamos como o grande Sumo Sacerdote fazendo intercessão por um dos seus próprios. E Ele “apartou-se deles cerca de um tiro de pedra; e, pondo-se de joelhos, orava, dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lucas 22:41-42). Aqui está o auge da oração: rendição completa e aquiescência à vontade divina.

Nos sete milagres registrados no Evangelho de João, podemos discernir uma ordem impressionante de pensamento, enquanto retratam Cristo comunicando vida ao Seu povo. Em Sua transformação da água em vinho nas bodas de casamento de Caná (2:6-11) nos é mostrado, simbolicamente, a nossa necessidade de vida — Cristo supre o que estava faltando. Na cura do filho do homem nobre (4:47-54) que estava “à morte” vemos o retrato da concessão de vida. Na cura do homem paralítico (5:3-9) vemos o poder da vida, capacitando um aleijado desamparado a se levantar e andar. Ao alimentar a multidão (6:11), vemos quão graciosamente Cristo sustenta a nossa vida. Ao encaminhar-se aos discípulos temerosos sobre o mar em meio à tempestade, testemunhamos Jesus preservando as suas vidas, libertando-os do perigo. Na resposta do homem cego cujos olhos Cristo abriu (9:7,38) aprendemos qual deve ser a ocupação da vida — ele O adorou: dessa forma, supremamente, devemos empregar a nova natureza. Ao ressuscitar Lázaro do sepulcro (11:44), temos a consumação da vida, pois a ressurreição dos santos é o prenúncio da sua felicidade eterna.

O ensino do nosso Senhor a respeito das operações do Espírito Santo no interior dos e em relação aos santos segue uma ordem instrutiva que tende a um clímax. Primeiro, Ele fez menção de estar “cheio do Espírito” (3:6,8), pois a vivificação é a Sua operação inicial sobre os eleitos. Em segundo lugar, por meio da linguagem figurada (cf. 3:5), Ele falou da presença interior do Espírito: “...água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna” (4:14). Em terceiro lugar, Ele declarou que deveria haver uma manifestação da mesma, e um refrigério para os outros: “...rios de água viva correrão do seu ventre [a parte mais íntima]. E isto disse ele do Espírito...” (7:38-39). Em quarto lugar, Ele prometeu que o Espírito bendito estaria com eles de forma permanente: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre” (14:16). Em quinto lugar, Ele anunciou que o Espírito os instrui plenamente: “Esse vos ensinará todas as coisas” (14:26). Em sexto lugar, Ele declarou que o Espírito tanto testemunhará dEle quanto os capacitará para testemunhar dEle: “Mas, quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito de verdade, que procede do Pai, ele testificará de mim. E vós também testificareis, pois estivestes comigo desde o princípio” (15:26-27). Em sétimo lugar, Cristo afirmou que o Espírito deve magnificá-lO: “Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar” (14:14), fazendo-Me totalmente desejável aos seus olhos.
 


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