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A Interpretação das Escrituras • Cap. 18 • A. W. Pink

A Interpretação das Escrituras • Cap. 18 • A. W. Pink




Capítulo 18

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24. A regra da causa e efeito. Com isto intencionamos a observação e rastreamento da conexão que existe entre certos eventos notáveis ​​na vida de um indivíduo ou nação e o que levou ao mesmo. Por exemplo, os eventos finais gravados na triste história de Ló nos assustam e aterrorizam pela sua natureza lamentável e revoltante; ainda assim, se considerarmos com atenção tudo o que precedeu, então o trágico final quase pode ser antecipado. Ou considere o caso mais conhecido de negação de Cristo por Simão Pedro, que parece estar completamente fora de sintonia com o que conhecemos do seu caráter. Realmente estranha é a anomalia apresentada: que aquele que não teve medo de sair do navio e caminhar sobre o mar até o seu amado Mestre, e que corajosamente desembainhou a espada e cortou a orelha do servo do sumo sacerdote quando uma forte companhia veio para prender o Salvador, tremeu na presença de uma empregada doméstica, e teve medo de confessar ao Senhor Jesus! No entanto, sua triste queda não foi um evento isolado não tendo nenhuma relação com o que tinha ocorrido antes; antes tudo fazia de algumas de suas atitude e ações anteriores, sendo lógica, e praticamente inevitável, consequência daquelas. Estes são exemplos de um numeroso tipo de casos, e eles devem ser cuidadosamente meditados quando lemos as porções biográficas da Escritura.

Este princípio de interpretação será mais facilmente compreendido quando destacamos que é o mesmo da lei da semeadura e da colheita. Essa lei opera agora, nesse mundo, e é uma parte importante da tarefa do expositor observar seu desenrolar na vida dos personagens bíblicos. Consideremos, então, alguns dos detalhes registrados sobre Ló antes de sua carreira terminar em meio às sombras escuras de sua caverna no monte. Após a referência inicial a ele em Gênesis 11:31, nada é dito ao seu respeito até depois da triste peregrinação de Abraão no Egito. Parece que Ló contraiu o espírito do Egito e adquiriu um gosto por suas panelas de carne. Em Gênesis 13:6-7, lemos sobre uma contenda entre os pastores de Abraão e Ló: a posterior recompensa do Senhor e a conduta subsequente desse último parecem claramente indicar qual deles era o culpado. A proposta que Abraão fez ao seu sobrinho (13:8-9) foi uma das mais generosas e a carnalidade de Ló ficou logo evidenciada na vantagem que ele teve sobre Abraão. Em vez de deixar a escolha para o seu tio, Ló se rendeu à concupiscência dos olhos e escolheu a planície do Jordão, que era bem regada e “como a terra do Egito”! Em seguida, ele “armou suas tendas até Sodoma” (13:12). Então ele foi e “habitou em Sodoma” (14:12), abandonou a tenda de peregrino por uma “casa” (19:3). Lá, ele se estabeleceu, envelheceu e assentou-se à “porta” (19:1), enquanto as suas filhas casaram com homens de Sodoma.[1]

Semelhantemente, vamos traçar brevemente os vários tropeços que levaram à terrível queda de Pedro. Foi primeiro a sua autoconfiança e orgulho quando declarou: “Ainda que todos se escandalizem, nunca, porém, eu” (Marcos 14:29). Nós não duvidamos de sua sinceridade naquela ocasião, mas é claro que ele não percebia a sua inconstância. Ignorância acerca de si mesmo e autoconfiança sempre acompanham um ao outro; não até que o eu ao ser realmente conhecido seja posto em desconfiança. Em segundo lugar, ele não cumpriu a exortação do seu Mestre: “Vigiai e orai” (Marcos 14:38-40), e em vez disso foi dormir novamente — é apenas uma percepção de fraqueza que faz com que alguém fervorosamente busque por força. Em terceiro lugar, ele ignorou o alerta solene de Cristo que Satanás desejava cirandá-lo (Lucas 22:31,33). Em quarto lugar, eis que ele agiu pela força da carne ao desembainhar a espada (João 18:10). Naturalmente, ele tinha boas intenções, mas espiritualmente, quão tolas eras as suas percepções; quão completamente fora do lugar estava a sua arma na presença do manso e humilde Salvador! Não admira que em seguida somos informados que ele seguiu a Cristo “de longe” (Mateus 26:58), pois ele estava totalmente fora da direção do Seu Espírito. É algo solene vê-lo ignorando o alerta providencial da porta fechada (João 18:16). Ele estava frio espiritualmente bem como fisicamente, mas quão patético é vê-lo se aquecendo com o fogo do inimigo (João 18:18). Que ele “assentou-se” em tais circunstâncias (Marcos 14:54) mostra o quão sério era o seu declínio. Todas essas coisas abriram o caminho para o seu último praguejar e juramento (Mateus 26:74).

Estes acima são casos inconfundíveis e evidentes da operação da lei de causa e efeito! Mas, voltemos agora para um tipo diferente de casos, onde houve uma sementeira diferente e uma colheita mais feliz. Em Gênesis 22 temos uma das cenas mais tocantes e surpreendentes apresentadas nas Escrituras. Ali nós contemplamos a graça que triunfa sobre a natureza, o espírito sendo superior à carne. Ele foi o teste final e mais severo a que foram submetidos a fé e obediência de Abraão. Ele foi chamado para sacrificar o seu amado Isaque, e ser ele mesmo o executor. Quão grandiosamente respondeu, o patriarca duramente provado, prendendo o seu único filho, colocando-o sobre o altar, tomando a faca na mão e não retrocedendo até que uma voz do Céu lhe ordenou não matar o rapaz. Agora observe a bendita consequência menos conhecida. O anjo da aliança disse-lhe: “Por mim mesmo jurei, diz o Senhor: Porquanto fizeste esta ação, e não me negaste o teu filho, o teu único filho, que deveras te abençoarei, e grandissimamente multiplicarei a tua descendência... porquanto obedeceste à minha voz” (vv. 16-18). Assim o Senhor se agradou em fazer menção da submissão de Seu servo como a consideração de Sua graciosa recompensa nesta ocasião: não que houvesse qualquer proporção entre uma e outra, mas que Ele, assim honrou a fé e obediência pelo qual Abraão O honrou. Posteriormente, Ele fez promessas graciosas para Isaque: “Porquanto Abraão obedeceu à minha voz, e guardou o meu mandado...” (26:2-5).

Em Números 14 uma cena muito diferente é apresentada para nossa contemplação. Ali nós vemos as reações de Israel ao triste relatório feito pela maioria descrente dos espiões que Moisés enviara para fazer um reconhecimento de Canaã. “Então toda a congregação levantou a sua voz; e o povo chorou...”, comportando-se como crianças teimosas. Pior ainda, eles murmuraram contra Moisés e Arão, e falaram da nomeação de um novo líder para conduzi-los de volta ao Egito. Em risco considerável para as suas vidas (v. 10), Josué e Calebe protestaram com eles. O Senhor interveio, e lançou uma sentença sobre aquela geração incrédula, sentenciando-a a morrer no deserto. Em bendito contraste, Ele disse: “Porém o meu servo Calebe, porquanto nele houve outro espírito, e perseverou em seguir-me, eu o levarei à terra em que entrou, e a sua descendência a possuirá em herança” (v. 24). Números 25 nos concede outro exemplo do mesmo princípio. Deixando de lado os seus próprios sentimentos, o filho de Eleazar agiu para a glória de Yahwéh, e sobre ele o Senhor disse, ele “desviou a minha ira de sobre os filhos de Israel, pois foi zeloso com o meu zelo no meio deles... Portanto dize: Eis que lhe dou a minha aliança de paz; e ele, e a sua descendência depois dele, terá a aliança do sacerdócio perpétuo, porquanto teve zelo pelo seu Deus, e fez expiação pelos filhos de Israel” (vv. 10-13).

Agora, é quase desnecessário sinalizar que nem Abraão, nem Calebe, nem Finéias fizeram com que Deus estivesse em dívida, ou O colocaram sob qualquer obrigação para com eles. Ainda assim, os seus casos ilustram um princípio muito importante nos caminhos governamentais de Deus. Esse princípio é afirmado em sua própria declaração: “porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam serão desprezados” (1 Samuel 2:30). Apesar de não haver absolutamente nada de meritório sobre as boas obras de Seu povo, Deus tem o prazer de dar testemunho de Sua aprovação das mesmas e manifesta em relação aos Seus mandamentos que “em os guardar há grande recompensa” (Salmos 19:11). Assim, o Senhor testemunhou a Sua aceitação do santo zelo de Finéias, colocando um fim imediato à praga sobre Israel, e ao vincular o sacerdócio à sua família. Como Matthew Henry apontou: “A recompensa correspondia ao serviço: ao executar a justiça, ele fez expiação pelos filhos de Israel (v. 13), e portanto, ele e os seus devem, doravante, ser usados para fazer expiação pelo sacrifício”. Provérbios 11:31 declara o mesmo princípio: “Eis que o justo recebe na terra a retribuição”. Como Spurgeon observou: “Apesar de que as disposições da graça divina são, ao máximo grau, soberanas e independentes do mérito humano, ainda assim nas relações da providência frequentemente é perceptível uma regra da justiça, através da qual os injuriados são amplamente vingados e os justos, por fim, são libertos”.

Davi reconheceu: “Assim que retribuiu-me o Senhor conforme a minha justiça, conforme a pureza de minhas mãos perante os seus olhos” (Salmos 18:24). Ele estava se referindo a Deus libertá-lo de seus inimigos, em particular de Saul. Como Davi se comportou em relação ao rei? Será que ele cometeu qualquer pecado que justificava a sua hostilidade? Será que ele o prejudicou de alguma forma? Não, ele não odiava Saul nem cobiçava o seu trono, e, portanto, aquele monarca foi muito injusto ao perseguir tão implacavelmente a sua vida. Davi era tão inocente a esse respeito que ele apelou para o grande Examinador dos corações: “Não se alegrem os meus inimigos de mim sem razão” (Salmos 35:19). Assim, quando ele disse: “retribuiu-me o Senhor conforme a minha justiça”, ele estava longe de manifestar um espírito farisaico. Em vez disso, ele estava admitindo sua inocência diante do tribunal da equidade humana. Desde que ele não tinha nenhuma maldade para com seu perseguidor, ele quis dar o testemunho de uma boa consciência. Em tudo o que ele sofreu nas mãos de Saul, Davi não revidou; ele não somente se recusou a matar, ou mesmo ferir, quando Saul estava à sua mercê, mas ele aproveitou todas as oportunidades para servir a causa de Israel, apesar da ingratidão, inveja e traição que recebeu em troca. Ao ser liberto e ao ter o trono conferido a si, Davi reconheceu um dos princípios básicos que operam no governo divino desse mundo, e confessou que Deus tinha graciosamente o recompensado por causa de sua integridade.

A Deidade não hesita em tomar como um de seus títulos “o SENHOR, Deus das recompensas” (Jeremias 51:56), e tem mostrado através de toda a Sua Palavra, que Ele lida com o pecador e com o santo como tal. A Josué Ele disse que se ele desse à Sua palavra a sua devida estima, meditasse nela de dia e de noite, para que pudesse cuidar de fazer conforme a tudo o que nela está escrito, “então farás prosperar o teu caminho, e serás bem sucedido” (1:8, e cf. Jó 36:11; Provérbios 3:1-4). Por outro lado, Ele disse ao desobediente Israel: “Por que transgredis os mandamentos do Senhor, de modo que não possais prosperar? Porque deixastes ao Senhor, também ele vos deixará” (2 Crônicas 24:20). Esse é um princípio invariável em Seu governo. Sobre Uzias, lemos: “...nos dias em que buscou ao Senhor, Deus o fez prosperar” (2 Crônicas 26:5). O juízo de Deus, mesmo sobre o reino de Acabe, foi adiado: “porquanto se humilha perante mim” (1 Reis 21:29). Ao contrário, Ele disse a Davi que a espada nunca se afastaria de sua casa: “porquanto me desprezaste” (2 Samuel 12:9-10). O Novo Testamento ensina a mesma coisa. “Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” (Mateus 5:7). “Se não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas” (6:15); “com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós” (7:2). “Como guardaste a palavra da minha paciência, também eu te guardarei” (Apocalipse 3:10).

Deus estabeleceu uma conexão inseparável entre santidade e felicidade, e não é uma pequena parte do trabalho do expositor ressaltar que enquanto os nossos caminhos Lhe agradam, o Seu sorriso está sobre nós; mas quando somos rebeldes, somos grandemente perdedores; mostrar que embora o povo de Deus não esteja debaixo da maldição da vara, ele está sob a sua disciplina; e ele deve considerar ilustrações bíblicas desse fato. É uma coisa ter os nossos pecados perdoados, mas é outra bem diferente desfrutar dos favores de Deus na providência e criação, bem como espiritualmente; como as vidas dos personagens bíblicos exemplificam claramente. Deus não aflige de bom grado (Lamentações 3:33), mas castiga porque nós Lhe demos ocasião para fazê-lo (Salmos 89:30-33). Quando nós não entristecemos o Espírito Santo, Ele torna Cristo mais real e precioso para a alma; o canal de bênção é aberto e respostas reais são recebidas à oração. Mas, infelizmente, quantas vezes damos a Deus a oportunidade de dizer: “os vossos pecados apartam de vós o bem” (Jeremias 5:25). Então, que o pregador não perca nenhuma oportunidade de provar pelas Escrituras que o caminho da obediência é o caminho da bênção (Salmos 81:11-16), e demonstrar que Deus ordena os Seus caminhos para conosco de acordo com a nossa conduta (Isaías 48:10) — Ele fez isso com o próprio Cristo (João 8:29, 10:17; Salmos 45:7).

25. A regra da ênfase. A importância fundamental e perpetuidade da lei moral foi indicada por ser escrita pelo próprio dedo de Deus, e pelas duas tábuas em que foi inscrita haverem sido colocadas em abrigo seguro dentro da arca santa. O valor inestimável do Evangelho foi significado por ser anunciado aos pastores por um anjo: “eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo”, e por ser acompanhado por uma multidão dos exércitos celestiais louvando a Deus e dizendo: “Glória a Deus nas alturas, paz na terra, boa vontade para com os homens” (Lucas 2:10,14). O valor relativo de alguma coisa é geralmente indicado pelo lugar e destaque que lhe é dado nas Escrituras. Assim, apenas dois dos evangelistas fazem menção ao nascimento real de Cristo; apenas um deles nos fornece quaisquer detalhes sobre sua infância; apenas Marcos e Lucas se referem à Sua ascensão; mas todos os quatro evangelistas descrevem a Sua morte sacrificial e ressurreição vitoriosa! Quão claramente isso nos informa sobre o que mais deve ser anunciado por Seus servos, e o que deve envolver mais os corações e mentes do Seu povo!

Outro meio e método empregado pelo Espírito para prender nossa atenção e concentrar as nossas mentes em partes distintas da Verdade é o seu uso de um grande número de “figuras de linguagem”. Nelas Ele arranjou palavras e frases de uma maneira incomum com a finalidade de impressionar mais profundamente o leitor com o que é dito. O erudito autor[2] de The Companion Bible [A Bíblia Companheira] (agora quase inacessível) referiu mais detalhadamente esse assunto do que qualquer escritor inglês e, a partir dele nós agora selecionamos um ou dois exemplos. A figura de anabasis ou gradação, no qual há uma preparação até um clímax, como em: “Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem é que condena? Pois é Cristo quem morreu, ou antes quem ressuscitou dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e também intercede por nós” (Romanos 8:33-34). Assim, novamente em 2 Pedro 1:5-7: “...acrescentai à vossa fé a virtude... caridade”. A figura oposta é a de catabasis ou descida gradual, um notável exemplo disso é encontrado em Filipenses 2:6-8.

A forma mais comum de destaque é a repetição. Isto é encontrado na Palavra em toda uma variedade de maneiras, como na duplicação de um nome: “Abraão, Abraão” (Gênesis 22:11). Houve seis outras pessoas a quem o Senhor se dirigiu assim: “Jacó, Jacó” (46:2), “Moisés, Moisés” (Êxodo 3:4), “Samuel, Samuel” (1 Samuel 3:10), “Marta, Marta” (Lucas 10:41), “Simão, Simão” (22:10), “Saulo, Saulo” (Atos 9:4). Depois, houve o triste: “Jerusalém, Jerusalém” de nosso Senhor (Mateus 23:37), e seu brado de angústia: “Meu Deus, Meu Deus” (Mateus 27:46); como ainda haverá o urgente: “Senhor, Senhor” dos perdidos (Lucas 13:25). Tais formas de intensificação da expressão como: “o santo dos santos”, “Cântico dos Cânticos”, vaidade das vaidades”, e o inefável “para todo o sempre”, expressam o mesmo princípio. Novamente, “Espera no Senhor, anima-te, e ele fortalecerá o teu coração; espera, pois, no Senhor” (Salmos 27:14); “Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos” (Filipenses 4:4). Ainda mais enfático é o “santo, santo, santo” de Isaías 6:3, e a expressão: “Ó terra, terra, terra! Ouve a palavra do Senhor” (Jeremias 22:29), e porque não: “Ao revés, ao revés, ao revés” (Ezequiel 21:27), e também: “Ai! ai! ai! dos que habitam sobre a terra!” (Apocalipse 8:13)?

Uma forma simples de repetição estrutural ocorre na linguagem de adoração encontrada tanto no início quanto no fim do Salmo 8: “Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome sobre toda a terra!”. Outras formas desse princípio são as que são tecnicamente conhecidas como ciclóide, ou repetição circular, onde a mesma frase ocorre em intervalos regulares, como em “Faze-nos voltar, ó Deus” (Salmos 80:3,7,9); epíbole, ou repetição sobreposta, onde a mesma frase é usada em intervalos irregulares, como “a voz do Senhor” (Salmos 29:3,4,5,7,8,9); epímone, ou persistência, onde a repetição ocorre com o propósito de fazer uma impressão mais duradoura, como em João 21:15-17, onde nosso Senhor continuou a desafiar o amor de Seu discípulo errante, e evidenciou a Sua aceitação de suas respostas por declarar: “Apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas”.

No Antigo Testamento muitos exemplos são encontrados do que é chamado paralelismo hebraico, no qual o mesmo pensamento é expresso em linguagem diferente. Por exemplo: “Ele mesmo julgará o mundo com justiça; exercerá juízo sobre povos com retidão” (Salmos 9:8). “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda” (Provérbios 16:18, e compare com Isaías 1:18). Em outros casos, a verdade é demonstrada por um contraste: “A maldição do Senhor habita na casa do ímpio, mas a habitação dos justos abençoará” (Provérbios 3:33, 15:17). No grego a ênfase é indicada pela ordem das palavras em uma frase: “Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim” (Mateus 1:18); “Mas Deus prova o seu amor para conosco” (Romanos 5:8).

A importância de prestar atenção à ênfase divina é indicada de várias formas. “Em verdade, em verdade”, com o qual Cristo prefaciou alguns dos Seus mais relevantes enunciados. Seu uso da forma interrogativa ao invés da afirmativa em casos como: “Pois, que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma?” (Marcos 8:36) — muito mais forte do que: “Não aproveitaria nada ao homem se...”, etc. A fim de convocar atenção urgente ao que acabou de dizer, a expressão: “Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça” de Cristo é usada novamente, com uma pequena variação, em cada um dos seus discursos às sete igrejas de Apocalipse 2 e 3. Várias exposições notáveis de Paulo são precedidas por “esta é uma palavra fiel”. Quando explica o significado de Melquisedeque, ele sinaliza esse princípio: “A quem também Abraão deu o dízimo de tudo, e primeiramente é, por interpretação, rei de justiça, e depois também rei de Salém, que é rei de paz” (Hebreus 7:2, e cf. Tiago 3:17). Com a finalidade de dar destaque, outras declarações são introduzidas pela palavra “Oh”; “Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união” (Salmos 133:1, e cf. 1 João 3:1).

 

[1] Embora a argumentação de Pink sobre Ló seja notável e mereça atenção, é também notório que Pink ao buscar fundamentar seu ponto com algumas passagens das Escrituras, acaba ignorando a analogia da fé e contradizendo o verdadeiro e claro testemunho das Escrituras a respeito de Ló, que encontra-se na Segunda Epístola de Pedro 2:7-8: “E livrou o justo Ló, enfadado da vida dissoluta dos homens abomináveis (porque este justo, habitando entre eles, afligia todos os dias a sua alma justa, vendo e ouvindo sobre as suas obras injustas)”. Não me recordo de algum caso nas Escrituras em que alguém é chamado de justo três vezes em apenas dois versos, o que deixa claro que Ló era um justo e não o contrário – N.T.

[2] Ethelbert William Bullinger (15 de dezembro de 1837 - 2 de junho 1913).
 


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