E-books

A Interpretação das Escrituras • Cap. 21 • A. W. Pink

A Interpretação das Escrituras • Cap. 21 • A. W. Pink



Capítulo 20

______________________________

No último capítulo nós ressaltamos aqueles diferentes aspectos da Verdade que são frequentemente enfatizados nas Escrituras, colocando dois exemplos em justaposição a fim de pontuar várias diferenças entre eles. Demos várias ilustrações do Antigo Testamento da regra da comparação e contraste; agora vamos mostrar que o mesmo princípio é válido no Novo Testamento. Considere, em primeiro lugar, as antíteses notáveis entre o que é registrado em Lucas 18:35-42 e 19:1-9. Aquilo que é narrado na primeira passagem ocorreu enquanto Cristo se aproximava de Jericó (a cidade da maldição – Josué 6:26), já a segunda ocorreu depois dEle ter passado por ela. O sujeito da primeira era um mendigo cego, o da segunda era o “chefe dos publicanos”. Bartimeu ocupou um lugar humilde, pois ele “sentou-se à beira do caminho”; Zaqueu assumiu uma posição elevada, pois ele “subiu a um sicômoro”. Aquele tinha a intenção de obter esmola dos transeuntes; o outro estava determinado a “vê-lO”, a saber, Cristo. Bartimeu tomou a iniciativa e clamou: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim”; Cristo tomou a iniciativa em relação Zaqueu, ordenando-lhe “descer”. O primeiro suplicou por sua vista; a este último Cristo fez um pedido peremptório: “hoje me convém pousar em tua casa”. A multidão repreendeu Bartimeu por clamar a Cristo; todos “murmuraram” por Cristo ser hóspede de Zaqueu.

Há uma série impressionante de contrastes entre o que é encontrado nos versos iniciais de João 3 e João 4. O que é registrado no primeiro ocorreu em Jerusalém, no último o cenário é em Samaria. Em um temos “um homem dos fariseus, chamado Nicodemos”; no outro, uma mulher não nomeada. Ele era uma pessoa distinta, um “mestre de Israel”; ela era de uma das classes mais baixas, pois ela veio ao poço, para “tirar água”. Ele era um judeu favorecido, ela uma samaritana desprezada, uma semi-pagã. Nicodemos era um homem de grande reputação, um membro do Sinédrio; aquela com quem Cristo lidou em João 4 era uma mulher de costumes dissolutos. Nicodemos foi falar com Jesus; Cristo esperou pela mulher no poço, e ela não tinha ideia que encontraria o seu Salvador. O primeiro incidente ocorreu “durante a noite”; este último ao meio-dia. Para o fariseu justo aos seus próprios olhos, Cristo disse: “Necessário vos é nascer de novo”; à pecadora dos gentios Ele falou do “dom de Deus”. Nada é dito sobre como a primeira conversa terminou — aparentemente Nicodemos, naquela época, não foi convencido; a última saiu e testemunhou de Cristo.

Ao comparar o que está registrado nas primeiras partes de João 12 e 13 alguns contrastes interessantes e instrutivos são revelados. No primeiro lemos que: “Fizeram-lhe, pois, ali uma ceia”; neste último, há uma ceia que Ele designou. No primeiro, Ele está sentado à mesa; no último Ele levantou-se à mesa. Naquele, Ele é honrado; neste Ele executa o ofício de um servo. No primeiro, vemos Maria aos pés do Salvador; no outro vemos o Filho de Deus inclinando-se para cuidar dos pés de Seus discípulos. Os pés falam da caminhada. Os pés de Cristo foram ungidos com perfume caro; os pés dos apóstolos foram lavados com água. Enquanto Cristo passava por este mundo, Ele não foi contaminado: Ele o deixou como entrou nele: “santo, inocente, imaculado” (Hebreus 7:26). Que Seus pés foram ungidos com nardo perfumado nos fala do cheiro suave que sempre subiu dEle ao Pai, perfeitamente glorificando-O em cada passo do Seu caminho. Em nítido contraste com o caminhar de Cristo, o caminhar dos discípulos era contaminado, e a sujeira do caminho precisava ser removida se eles quisessem ter “parte” ou comunhão com Ele (13:8). Os pés de Cristo foram ungidos antes dos deles serem lavados, pois em todas as coisas Ele deve ter a “preeminência” (Colossenses 1:18). Em relação ao primeiro, Judas queixou-se; neste último, Pedro objetou. Interpretativamente, um tinha o sepultamento de Cristo em vista (12:7); o outro esboçou uma importante parte de Sua presença ministerial nas alturas (13:1).

Muitas ilustrações desse princípio são encontradas em conexão com palavras e expressões que são utilizadas apenas duas vezes nas Escrituras, e surpreendente são os contrastes entre elas. Apopnigo ocorre apenas em Lucas 8:7,33: uma tendo referência à semente ser sufocada pelos espinhos; a outra, onde os porcos endemoninhados se afogaram no mar. Em Lucas 2:1-5, apographe é usado em conexão com os próprios primogênitos sendo inscritos na terra, enquanto que em Hebreus 12:23, refere-se a Igreja dos primogênitos inscritos nos Céus. Apokueo é usado em Tiago 1:15,23 sobre o desejo dar a luz ao pecado, e do Pai nos gerando pela Palavra da Verdade. Apolausis é aplicado às coisas que Deus nos deu para apreciarmos licitamente (1 Timóteo 6:17), e à recusa de Moisés para desfrutar dos prazeres ilícitos do pecado (Hebreus 11:25). Anthrakia só é encontrado em João 18:18, onde Pedro juntou-se aos inimigos de Cristo nas “brasas”, e em 21:9, onde os discípulos se alimentaram diante das mesmas na presença de Cristo. Choramakros é o “país distante” para o qual o filho pródigo partiu (Lucas 15:13), e um muito diferente para o qual Cristo foi em Sua ascensão (Lucas 19:12). Panoplia é usado para a “armadura” do inimigo (Lucas 11:22), e para a armadura que Cristo providenciou para os santos (Efésios 6:11,13).

Há duas referências ao “vale do rei”: em uma Melquisedeque é retratado simbolizando a Cristo (Gênesis 14:17-18); na outra, Absalão ergueu um monumento para si mesmo (2 Samuel 18:18). Que notável (e provavelmente proposital) contraste existe entre as expressões “e caíram do povo aquele dia uns três mil homens” (Êxodo 32:28), e “naquele dia agregaram-se quase três mil almas” (Atos 2:41) — as únicas ocasiões em que a expressão “quase três mil” é usada nas Escrituras. Semelhante também é esse exemplo: “eram com ele [Davi] uns quatrocentos homens” (1 Samuel 22:2), e “levantou-se Teudas, dizendo ser alguém; a este se ajuntou o número de uns quatrocentos homens” (Atos 5:36). Em 1 Samuel 28:24, lemos sobre o “bezerro cevado” da feiticeira de En-Dor; em Lucas 15:23, somos informados do “bezerro cevado”, que foi morto para o filho pródigo! Katischuo ocorre apenas em “as portas do inferno não prevalecerão contra ela”, a Igreja (Mateus 16:18), e “os seus gritos, e os dos principais dos sacerdotes, prevaleciam” (Lucas 23:23) com Pilatos contra Cristo, relativo à Sua crucificação.

Quanto perdemos ao deixarmos de prestar atenção cuidadosa a essa palavra: “comparando coisas espirituais com espirituais” (1 Coríntios 2:13). Se passássemos mais tempo em oração, meditação sobre as Escrituras, teríamos mais frequentemente a oportunidade de dizer com Davi: “Folgo com a tua palavra, como aquele que acha um grande despojo” (Salmos 119:162). Não é ao leitor apressado ou superficial que os tesouros são revelados. Que contraste surpreendente e solene existe entre Cristo ser “contado com os transgressores” (Marcos 15:28), e Judas ser “contado com” os apóstolos (Atos 1:17). Kataluma é usado somente em Lucas 2:7, onde é traduzido como: “porque não havia lugar para eles na estalagem”; e em Lucas 22:11, onde é traduzido: “o aposento”, onde o Salvador participou da Páscoa com seus discípulos. A mulher de Tiatira em Atos 16:14 teve o coração aberto pelo Senhor para que ela pudesse “tomar para si” (que é o significado da palavra grega traduzida por “entender”) a mensagem do servo de Deus; mas a mulher de Tiatira em Apocalipse 2:20 abriu a boca com a finalidade de seduzir os servos de Deus! Apenas duas vezes lemos sobre o Senhor Jesus ser beijado, e que contraste: o beijo da mulher por devoção (Lucas 7:38), o beijo de Judas por traição de Judas (Mateus 26:40)!

Em relação à interpretação da Escritura a importância desse princípio de comparar duas coisas ou passagens e observar as suas variações pode ser ainda mais definitivamente vista comparando a parábola do nosso Senhor sobre o banquete de casamento, em Mateus 22:1-10, e a parábola da grande ceia de Lucas 14:16-24. Os comentaristas têm descuidadamente assumido que elas ensinam a mesma coisa, mas um exame atento delas mostrará que apesar de terem muitas coisas em comum, elas apresentam aspectos bastante diferentes da Verdade: ilustrando, respectivamente, o chamado exterior, geral e ineficaz do Evangelho e o chamado interno, particular e eficaz de Deus. Na primeira, são “servos” (no plural) que estão envolvidos (vv. 3,4,6,8,10); enquanto na segunda é “aquele servo” (v. 21), “seu servo” (v. 21), “o servo” (vv. 22-23). Deve-se notar que as suas comissões não são as mesmas: os servos são instruídos a “chamar os convidados para as bodas” (v. 3), a “dizer-lhes” (v. 4), e “convidarem para as bodas” (v. 9), e nada mais; enquanto que o servo não deveria apenas “dizer aos convidados: Vinde” (v. 17), mas também “trazê-los” (“força-os a entrar” – v. 23).

Quando essas distinções são devidamente ponderadas, fica evidente que enquanto em Mateus 22 os “servos” são os ministros de Deus enviados a pregar o Evangelho a toda criatura, “o servo” de Lucas 14 não é outro senão o Espírito Santo, que por Suas operações de poder invencível e eficaz vivifica os eleitos de Deus em novidade de vida. Somente Ele é capaz de superar a aversão natural e oposição deles às coisas divinas, assim como somente Ele é capaz de trazer “aqui os pobres, e aleijados, e mancos e cegos”. Nem ninguém mais poderia verdadeiramente dizer sobre os seus esforços: “Senhor, feito está como mandaste” (Lucas 14:22). Como Cristo era o “servo” da Divindade (Mateus 12:18-20) durante os dias da Sua carne, assim o bendito Espírito é o “servo” de Cristo durante esse período (João 16:14; Atos 2:33). Essa interpretação é confirmada pelo fato de que os servos foram “ultrajados” e até mesmo “mortos” (Mateus 22:6). Além disso, nós lemos sobre eles: “E os servos, saindo pelos caminhos, ajuntaram todos quantos encontraram, tanto maus como bons; e a festa nupcial foi cheia de convidados” (Mateus 22:10), pois eles não eram capazes de ler os corações; mas nenhuma declaração como essa é feita sobre o Servo que “traz” (para o Céu) aqueles com quem Ele lida.

Antes de deixarmos essa parte de nosso assunto, daremos um outro exemplo de sua importância e valor. Ao fazer uso da regra do contraste, somos capazes de determinar decisivamente a controvérsia que os Socinianos têm levantado sobre esse verso importante, “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Coríntios 5:21). Essa é uma das declarações mais profundas e abrangentes a serem encontradas nas Escrituras a respeito da expiação, contendo um breve resumo de todo o plano da salvação. Os inimigos do Evangelho insistem que a expressão: “o fez pecado”, deveria ser traduzida como: “feito uma oferta pelo pecado”, mas isso é totalmente inadmissível, pois nesse caso a antítese nos obrigaria a traduzir “para que nele fôssemos feitos uma oferta pela justiça de Deus”, o que seria um evidente absurdo. O contraste extraído daqui estabelece o significado exato dos termos usados. Os crentes são legalmente declarados justos em Cristo diante de Deus, e, portanto, o contraste exige que Cristo foi legalmente declarado pecado, isto é, culpado aos olhos da lei de Deus. A grande verdade afirmada nesse verso é a troca de lugares em relação às imputações dos mesmos: os nossos pecados foram colocados na conta do nosso Fiador, tornando-o judicialmente culpado; a Sua obediência é considerada em nossa conta, fazendo-nos judicialmente justos diante de Deus.

28. A regra da primeira menção. Muito frequentemente isso é de grande ajuda para chegar ao significado de uma palavra ou expressão. Posto que há apenas um Proclamador em toda a Palavra, e Ele sabia desde o princípio tudo o que Ele diria, Ele ordenou as Suas declarações de tal maneira a predizer desde o início o que ocorreria a seguir. Assim, observando a sua configuração e associações, a ocorrência inicial de qualquer coisa nas Escrituras geralmente nos sugere como, posteriormente, ela será utilizada. Em outras palavras, o primeiro pronunciamento do Espírito Santo sobre um assunto muito frequentemente indica, substancialmente, o que é encontrado nas referências posteriores. Isto é de ajuda real para o expositor, fornecendo-lhe uma espécie de chave para o que vem a seguir. Tanto quanto sabemos, a atenção foi originalmente dirigida a essa regra de exegese por Lord Bacon (1600), e por mais de quarenta anos esse escritor fez uso da mesma, colocando-a à prova em dezenas de casos; e enquanto ele tem encontrado alguns casos em que a primeira menção de um termo não indica claramente o seu alcance futuro, ele nunca se deparou com uma que estivesse fora de harmonia com isso; e a grande maioria delas foram de valor inestimável em servir para definir o seu significado e alcance. Isto aparecerá a partir das ilustrações que se seguem.

primeira profecia registrada na Escritura fornece a chave para todo o tema da predição messiânica, fornecendo um esboço notável e previsão de tudo o que ocorreria a seguir. Disse o Senhor Deus à serpente: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gênesis 3:15). Em primeiro lugar, deve-se notar que essas palavras não foram dirigidas a Adão e Eva, o que implica que o homem não era a parte imediata no pacto de restauração; que esse não dependia de nada, por ou a partir dele. Em segundo lugar, que esse pronunciamento divino foi feito após a Queda, e desse ponto em diante a profecia é sempre consequente em caso da falha humana, não ocorrendo durante o estado normal das coisas, mas somente quando a ruína começou e o julgamento é iminente — a próxima profecia foi através de Enoque (Judas 14-15), pouco antes do dilúvio! Na profecia de Gênesis 3:15, foi revelado que toda a esperança humana deveria centralizar-se em no Prometido. Essa profecia revelou que o Prometido seria homem, da “semente” da mulher, e, portanto, de nascimento sobrenatural. Ela anunciou que Ele seria o objeto de inimizade de Satanás. Ela predisse que Ele seria temporariamente humilhado — ferido no calcanhar. Ela também proclamou a Sua vitória final, pois Ele esmagaria a cabeça da serpente, e, portanto, deveria ser mais do que um homem. Ela indicou a luta secular que haveria entre as duas sementes: os filhos do Diabo e aqueles unidos a Cristo.

“E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra” (Gênesis 4:10). Essa é a primeira vez que a palavra de toda importância “sangue” é mencionada nas Escrituras, e como todas as ocorrências iniciais dos termos fundamentais, ela demanda a mais cuidadosa atenção e meditação. Essa referência é profundamente importante, prenunciando algumas das características mais essenciais e marcantes da expiação de Cristo. Abel era um pastor (Gênesis 4:2) e foi odiado por seu irmão, embora sem causa justa (1 João 3:12). Ele não morreu de morte natural, mas teve um fim violento: assim o Bom Pastor foi crucificado e morto pelas mãos dos injustos (Atos 2:23). À luz desses fatos, quão profundamente significativas são as palavras: “A voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra”. Essa é a coisa mais importante, porém indescritivelmente abençoada em conexão com o sangue de Cristo: ele fala a Deus! É o “sangue da aspersão, que fala melhor do que o de Abel” (Hebreus 12:24), pois satisfez todas as exigências de Deus e adquiriu benção inestimável para o Seu povo. A próxima menção de “sangue” está em Gênesis 9:4, onde aprendemos que a vida está no sangue. A terceira referência é Êxodo 12:13, onde o sangue liberta do anjo vingador. Coloque as três juntas e temos uma descrição completa de todos os ensinamentos posteriores da Escritura sobre o sangue. Eles tratam, respectivamente, da morte, da vida e da salvação.
 


INSCREVA PARA RECEBER
NOSSAS ATUALIZAÇÕES: