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Eleição Infantil | Por Obbie Todd

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— The Founders Journal • Verão de 2017 | Nº 109 —

Embora apenas preguei do púlpito do domingo de manhã, o assunto da salvação infantil é uma questão intensamente pessoal e pastoral que merece tratamento adequado na igreja Batista. Não é tão explícito nas Escrituras que evita uma medida de especulação, mas não é uma doutrina tão incidental que garante um status de “secundária”. Perante a intersecção de grandes doutrinas teológicas, como o pecado original, a soteriologia e até a cristologia, o destino das crianças que perecem exige atenção pastoral pelo que isso representa para as famílias afligidas e para o que se comunica sobre o Deus que adoramos.

A Confissão de Fé Batista de 1689 e a Confissão de Fé de Westminster

Na Confissão de Fé Batista de 1689, a questão é abordada no terceiro parágrafo do capítulo 10, intitulado “Sobre o Chamado Eficaz”. Correspondendo a Confissão de Fé de Westminster quase literalmente, lê-se: “As crianças eleitas que morrem na infância são regeneradas e salvas por Cristo, através do Espírito, que opera quando, onde e como Lhe agrada. Do mesmo modo são salvas todas as pessoas eleitas incapazes de serem chamadas exteriormente, pelo ministério da Palavra”.[1] Quase tão importante como a substância deste trecho é a sua localização. Como a Confissão de Fé de Westminster, a Confissão de Fé Batista de 1689 aborda a salvação infantil como um corolário imediato para o chamado eficaz (e não, por exemplo, para a eleição) devido aos conceitos de agência e instrumentalidade pertinente a ambas as doutrinas. Embora algumas edições modernas da Confissão omitam a palavra “eleitas”, os autores originais a mantiveram. A ideia de “crianças eleitas” nem afirma nem nega que todos os bebês que morrem na infância são salvos. Em vez disso, conclui tacitamente que pelo menos alguns bebês são redimidos. Por um lado, o artigo é biblicamente consistente na medida em que a Escritura apresenta a doutrina da eleição (Romanos 9-11). Por outro lado, a ambiguidade relativa à frase e a dificuldade de apontar para uma afirmação direta da Bíblia sobre esse assunto levaram pelo menos um Batista Reformado Confessional a sugerir que talvez seus autores não tenham dito nada. “A Bíblia está em silêncio sobre esta questão”, observou Sam Waldron. “Seria muito melhor, portanto, que a Confissão simplesmente não falasse nada sobre esse ponto”, continuou. “Por isso, estou convencido, é precisamente o que a Bíblia diz”. Waldron sugere algumas ideias doutrinárias a partir das quais poderia construir uma teologia pastoral significativa desta que pode ser uma questão delicada.[2]

Solus Christus

No entanto, o terceiro parágrafo ainda contém importantes afirmações teológicas sobre a natureza da salvação infantil. Por exemplo, as crianças que morrem na infância são “salvas por Cristo”. A salvação infantil ainda é salvação, e isso exclusivamente por Jesus Cristo, o Filho de Deus. Há um Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus (1 Timóteo 2:5). Sugerir que qualquer criança seja adentre à vida eterna por qualquer outro meio que pela obra acabada de Cristo é negar a culpa original e impugnar o próprio Evangelho. Independentemente de como os Batistas optarem por interpretar este terceiro artigo, a questão delicada da salvação infantil deve começar com a verdade inescapável de que todos os bebês são concebidos em pecado, condenados sob a justa lei de Deus e necessitando de redenção (Salmo 51:1; Romanos 3:23, 5:12-18). De acordo com Andrew Fuller, secretário e fundador da Baptist Missionary Society (Sociedade Missionária Batista), “não há diferença entre nós no que diz respeito ao número ou caráter daqueles que devem ser finalmente salvos. Nós concordamos que quem se converter a Deus por Jesus Cristo certamente será salvo”.[3] Por meio da desobediência de Adão, sua cabeça federal, os bebês são feitos pecadores (Romanos 5:19). Como James P. Boyce explica, sua falta de transgressão não implica inocência:

 

As Escrituras claramente assumem e declaram que Deus castiga justamente todos os homens, não só pelo que fazem, mas pelo que são. Uma natureza corrupta torna uma condição verdadeiramente pecaminosa e culpada e passível de punição, como transgressões reais. Consequentemente, no próprio momento do nascimento, a presença e a posse de tal natureza mostram que até os filhos de Adão nasceram sob todas as penas que sobrevieram ao seu antepassado no dia em que pecou. A transgressão real subsequentemente acrescenta nova culpa à culpa já existente, mas não substitui um estado de inocência por um estado de culpa.[4]

 

A idade jovem não revoga o justo juízo de Deus sobre a depravação humana e nem imuniza os bebês dos efeitos mortais do pecado. Independentemente do estágio de desenvolvimento físico, os pecadores estão mortos em seus pecados, e isso inclui a morte espiritual e física (Gênesis 2:17; 1 Coríntios 15:22; Efésios 2:1-3; 2 Timóteo 1:9-10). A realidade trágica que tantos infantes morrem em um mundo caído é evidência do poder penetrante e pervasivo do pecado, bem como da necessidade de justiça e vida imputada encontradas apenas no último Adão e não no primeiro (1 Coríntios 15:45; 1 João 5:12). Argumentos contra a depravação infantil enfrentam talvez a sua mais dura e mais sóbria refutação no túmulo. O pecado é uma potente força assassina endêmica da humanidade pós-lapsariana e, através da transgressão de Adão, a morte reina em todos os homens (Romanos 5:17). Daí o sexto capítulo da Confissão de 1689 afirma claramente que todos os pecadores estão “agora concebidos em pecado, e por natureza filhos da ira, escravos do pecado, sujeitos à morte e a todas as outras misérias espirituais, temporais e eternas, a menos que o Senhor Jesus os liberte”.[5] Sem a graça libertadora de Deus em Cristo, somos todos filhos da ira — incluindo as próprias crianças (Efésios 2:3).

A Necessidade do Novo Nascimento

Uma discussão fundamentada sobre o destino dos bebês que morrem também deve explicar os meios de salvação conforme estabelecidos nas Escrituras. Por exemplo, o terceiro parágrafo declara que os bebês que morrem na infância são “regenerados… através do Espírito”. Isso contrasta com o primeiro parágrafo do capítulo que afirma: “Aqueles a quem Deus predestinou para a vida, a Ele apraz, em Seu tempo determinado e aceitável, chamar eficazmente, por Sua Palavra e Espírito, do estado natural de pecado e morte no qual eles estão por natureza, para a graça e a salvação por Jesus Cristo. Isto Ele faz, iluminando suas mentes de maneira espiritual e salvífica, para que entendam as coisas de Deus”.[6] Considerando que o primeiro artigo inclui “Palavra e Espírito” como o meio pelo qual o Pai efetivamente chama Seus filhos para Cristo, o parágrafo detalhando a salvação infantil inclui apenas o último. A ausência do chamado “externo” do Evangelho aos bebês pode parecer algo óbvio no início; no entanto, a ênfase da Confissão no papel indispensável do Espírito em chamar o pecador é muito significativa.

Este chamado “interno” não é nada menos do que a voz de Deus que chama um coração corrupto e obstinado, e o liberta do cativeiro do pecado, a fim de que possa amar livremente a Cristo ou, como afirma a Confissão, de modo que “eles vêm a Cristo mui livremente, sendo para isso dispostos pela Sua graça”. O Batistas Particular inglês John Gill, o primeiro Batista a escrever um comentário verso por verso sobre a Bíblia inteira, concebeu o chamado eficaz de Deus como um “chamado interno” e “um ato da eficaz e irresistível [sic] graça”.[7] Em bebês, como em todos os pecadores, esta é uma obra completamente soberana de Deus. Ao contrário do parágrafo correspondente na CFW [Confissão de Fé de Westminster] que cita Lucas 18:15-16; Atos 2:38-39; João 3:3-5, 3:8; Romanos 8:9; 1 João 5:12 e Atos 4:12, a Confissão de Fé Batista de 1689 cita a João 3:3,5,6,8 como único texto de prova para a salvação infantil, sublinhando a obra monergística de Deus na salvação, bem como a necessidade absoluta do novo nascimento. Imediatamente depois de estabelecer o papel decisivo do Espírito, a Confissão de 1689 declara que o Espírito “opera quando, onde e como Lhe agrada”.[8] Com essa forte ênfase na obra soberana e misteriosa de salvação de Deus através do Espírito, os Batistas dentro a tradição de 1689 afirmam universalmente a necessidade de eleição e de regeneração na salvação dos bebês. Tão inseparáveis ​​são a regeneração e o chamado eficaz que John Dagg, o primeiro teólogo sistemático Batista do Sul, considerou-os praticamente sinônimos.[9] A Confissão de 1689 faz isso de forma implícita, ao não conter nenhum capítulo “sobre a regeneração”. Em vez disso, os dois primeiros parágrafos “sobre o chamado eficaz” fornecem uma exposição clara da doutrina do novo nascimento, afirmando que o chamado eficaz a Cristo é “o coração de pedra e dando-lhes um coração de carne;4 renovando as suas vontades, e por Sua onipotência, predispondo-os para o bem”[10] (Ezequiel 36:26). O chamado eficaz e, portanto, a salvação infantil, brotam do poder da Nova Aliança.

Salvação Infantil e Eclesiologia Batista

Como um documento Batista, a CFB1689 não faz distinção entre os filhos dos crentes e aqueles dos incrédulos. Embora Deus muitas vezes opere Sua graça especial e redentora em e através de famílias particulares, Cristo é o mediador de uma nova aliança forjada pelo Seu sangue e aplicada individualmente pela fé (Hebreus 9:15; Gálatas 2:16-21). O capítulo sete da CFB1689 é exclusivamente dedicado à natureza desta aliança de graça, e enfatiza que o Senhor “oferece livremente aos pecadores a vida e a salvação por meio de Jesus Cristo, exigindo deles a fé nEle, para que eles sejam salvos”.[11] Quaisquer noções fantasiosas de uma “aliança a meio caminho” [“half-way covenant”] ou Pedobatismo não possui, nas palavras do signatário da CFB1689, William Kiffin, “nenhuma parte no conselho revelado de Deus”.[12] As visões Credobatistas no final do século XVII na Inglaterra não só exigiam uma fidelidade extraordinária às Sagradas Escrituras; eles também reuniam uma enorme quantidade de coragem tanto legal quanto socialmente. Com a restauração do Rei Carlos II em 1660 e a Igreja Estabelecida em 1662, os Batistas eram frequentemente objeto de ridículo e de acusações de serem odiadores de crianças por sua alegada negligência de um pacto de igreja que quase assegurava a salvação dos bebês dos crentes. Advogando os pontos de vista dos Batistas sobre o batismo, o signatário da nda CFB1689, Benjamin Keach, escreveu uma cartilha intitulada The Child’s Instructor [O Instrutor de Crianças] (1664). O Instrutor de Crianças foi uma publicação incrivelmente perigosa que eventualmente resultou na perseguição de sua congregação em Londres, uma grande multa e sua prisão. Portanto, a insistência da Confissão de 1689 sobre a obra soberana, misteriosa e regeneradora do Espírito Santo em bebês, embora não seja diferente teologicamente da CFW, teria parecido muito mais radical quando combinada com uma eclesiologia Credobatista que enfatiza a necessidade da fé sem a noção comumente chamada de “idade da responsabilidade”. Textos como 2 Samuel 12:23 (“Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim”), muitas vezes usado para apoiar a ideia de salvação infantil universal, não são citados.[13] Outros, como Lucas 1:44 e Jeremias 1:5 também são excluídos, provavelmente devido ao fato de que nem João Batista nem Jeremias morreram como bebês. Em vez disso, essas são tratados como instâncias especiais em que Deus chamou exclusivamente certos indivíduos no curso da história da salvação. Na CFB1689, o parágrafo abordando a salvação infantil é enquadrado principalmente em termos articulados nos dois primeiros parágrafos: Cristo, Espírito, eleição. Estes fornecem o fundamento doutrinário para as crenças pedo-soteriológicas em uma igreja Batista Calvinista.

Uma Diversidade de Visões Batistas

De modo algum, no entanto, essas crenças são monolíticas. Ironicamente, a cláusula particular relativa à soberania e à liberdade do Espírito (João 3:8) é o que, simultaneamente, une e divide os teólogos Batistas Calvinistas sobre a questão da salvação infantil. Algumas veem o texto como a liberdade de Deus para eleger alguns bebês e não outros, outros veem o mesmo como a liberdade para eleger todos os bebês. Esta diversidade é demonstrada, por exemplo, nas diferentes interpretações de Lucas 18 e o exemplo piedoso dado a partir das crianças. John Dagg, que acreditava tanto na eleição quanto na não eleição de bebês, escreve: “Uma objeção à doutrina da depravação natural se baseia no fato de que Jesus se referiu a crianças pequenas, como exemplos para seus discípulos. Este fato, no entanto, não autorizará a inferência, que os filhos pequenos não são depravados”.[14] Por este motivo, a regeneração é imperativa na salvação de qualquer pecador. Você deve nascer de novo, como Cristo exortou Nicodemos (João 3:7). No entanto, enquanto quase todos os teólogos na tradição de 1689 concordaram em geral com a conclusão de Dagg sobre a depravação infantil, nem todos estão convencidos de que Lucas 18 está fora dos limites no debate sobre a salvação infantil. Charles Spurgeon, por exemplo, que não teve medo de abordar esse assunto do púlpito, também defendeu vigorosamente a ideia de depravação infantil e a necessidade de regeneração pela graça. Ele explica: “Alguns fundamentam a ideia de bem-aventurança eterna da criança sobre a sua inocência. Não fazemos tal coisa; acreditamos que a criança caiu no primeiro Adão”. No entanto, admitindo os limites da revelação divina sobre o assunto, ele continua: “Sem dúvida, de forma misteriosa, o Espírito de Deus regenera a alma infantil e ela entra na glória e é feita um participante da herança dos santos na luz”.[15] Citando o Anglicano John Newton, Spurgeon apela a Lucas 18 para defender o “caráter conhecido de nosso Senhor Jesus Cristo” e a “grande parte do reino do céu” composta de crianças. Em última análise, fundamentando a redenção de bebês na pura bondade de Deus, a exegese de Spurgeon é, em muitos aspectos, característica da maioria dos argumentos para a salvação de todos os bebês.

 

[CONTINUA…]

 


[1] Confissão de Fé Batista de 1689, 10.3.

[2] Samuel E. Waldron, A Modern Exposition of 1689 Baptist Confession of Faith [Uma Exposição Moderna da Confissão de Fé Batista de 1689] (Durham, England: Evangelical Press, 1989 [3rd edition 1999]), 150.

[3] As Obras Completas de Andrew Fuller, Vol. 1, 506.

[4] James P. Boyce, Abstract of Systematic Theology [Suma de Teologia Sistemática], 249-50.

[5] Confissão de Fé Batista de 1689, 6.3.

[6] Confissão de Fé Batista de 1689, 10.1.

[7] John Gill, A Body of Doctrinal Divinity [Um Compêndio de Teologia Doutrinária], livro 6, cap. 12, 541-42.

[8] Confissão de Fé Batista de 1689, 10.3.

[9] John L. Dagg, Manual of Theology [Manual de Teologia], 333.

[10] Confissão de Fé Batista de 1689, 10.1.

[11] Confissão de Fé Batista de 1689, 7.2.

[12] Benjamin Coxe, Hanserd Knollys, William Kiffin, et al., A Declaration concerning the Public Dispute Which Should Have Been…Concerning Infants-Baptism… [Benjamin Coxe, Hanserd Knollys, William Kiffin, et al., Uma declaração sobre a disputa pública que deveria ter sido… Concernente ao Batismo de Infantes…] (Londres, 1645).

[13] O ponto de apoio da interpretação para este texto em particular é se Davi está se referindo ao Seol, que se acredita ter sido o lugar em que se encontravam tanto crentes como incrédulos (Lucas 16:19-31), ou ao Paraíso no Céu. Se estiver se referindo ao primeiro, a declaração de Davi não parece oferecer apoio para aqueles que defendem a salvação infantil universal.

[14] Dagg, Manual of Theology, 156.

[15] Spurgeon, “Infant Salvation” [“Salvação infantil”], Sermão 411.

 

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