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Uma Escala Ascendente Ou Passos Para Ações De Graças, por J. C. Philpot

Pregado em Providence Chapel, Oakham, em 13 de junho de 1865.

 

“Ele é o que perdoa todas as tuas iniquidades, que sara todas as tuas enfermidades, que redime a tua vida da perdição; que te coroa de benignidade e de misericórdia.” (Salmos 103:3-4)

 

Tudo o que Deus faz, tudo o que Deus tem feito, é para a Sua própria glória. Um Ser tão glorioso, como o grande auto-existente EU SOU não pode ter nenhum outro objeto, finalidade ou objetivo além de Sua própria glória e Sua manifestação às inteligências criadas. As Escrituras testemunham abundantemente esta verdade. Quando, por exemplo, elas falam sobre a criação, seu testemunho é: “Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos” [Salmos 19:1]. Assim testemunha o Salmo 8:1: “Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome em toda a terra, pois puseste a tua glória sobre os céus!”. Em um modo similar, no Livro de Apocalipse, uma canção de louvor emana dos vinte e quatro anciãos: “Digno és, Senhor, de receber glória, e honra, e poder; porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade são e foram criadas” (Apocalipse 4:11).

 

A glória de Deus é também o objetivo final e propósito na Providência. Assim, quando o Senhor fala no Livro de Números sobre as Suas relações providenciais para com os filhos de Israel, depois de ter dado aquela grandiosa declaração: “Porém, tão certamente como eu vivo, e como a glória do Senhor encherá toda a terra”, Ele acrescenta, “e que todos os homens que viram a minha glória e os meus sinais, que fiz no Egito e no deserto, e me tentaram estas dez vezes, e não obedeceram à minha voz, não verão a terra de que a seus pais jurei, e nenhum daqueles que me provocaram a verá”. A glória que eles deveriam ter visto era a glória de Deus em Suas relações providenciais com Israel no fato de Deus os haver tirado do Egito com uma mão erguida e um braço estendido, ao prover-lhes comida do céu, e água da rocha (Números 14:21-22). Não, a própria razão de Suas relações providenciais com faraó foi manifestar a Sua glória, como cita o apóstolo a partir do Livro de Êxodo: “Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra” (Romanos 9:17).

 

Mas, embora a glória de Deus seja assim manifesta claramente na criação e na providência, é na redenção que ela especialmente brilha. Encontramos, portanto, que após os quatro seres viventes e vinte e quatro anciãos prostrados diante do Cordeiro, tendo cada um deles uma harpa e vasos de ouro (ou melhor, como a palavra significa “taças”) cheias de incenso, que são as orações dos santos, eles cantavam um cântico novo, dizendo: “Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue nos compraste para Deus de toda a tribo, e língua, e povo, e nação” [Apocalipse 5:9].

 

Nem os anjos estavam mudos; pois, embora o número deles era de milhões de milhões, e milhares de milhares, ainda assim aquelas miríades com grande voz diziam: “Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e ações de graças” [Apocalipse 5:11-12]. Nem a própria criação estava em silêncio, pois lemos: “E ouvi a toda a criatura que está no céu, e na terra, e debaixo da terra, e que estão no mar, e a todas as coisas que neles há, dizer: Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, sejam dadas ações de graças, e honra, e glória, e poder para todo o sempre” (Apocalipse 5:13).

 

Assim, seja na criação, na providência, ou na redenção, em todos estes domínios de Sua sabedoria e poder, a finalidade e objetivo de Deus sempre foram manifestar a Sua glória. Também que ninguém se atreva a pensar que isso foi, por assim dizer, um fim egoísta. Não podemos medir Deus por nós mesmos, ou atribuir qualquer coisa indigna ou imprópria a Ele. Ele é tão infinitamente superior a todas as Suas criaturas que seria inadequado às Suas gloriosas perfeições ter como Seu principal objetivo qualquer coisa, senão a Sua própria glória. E ainda assim, isso foi destinado também para a bem-aventurança daqueles a quem a Sua glória deve ser manifestada. Deus é essencialmente bom; tão bom que “ninguém é bom, senão Ele”. Seu nome, Sua natureza é o amor. Para revelar, então, essa bondade, para manifestar e dar a conhecer este amor, criou a felicidade, para encher de felicidade e bem-aventurança milhares de milhões de seres criados, tanto anjos e quanto homens.

 

Mas, além da manifestação de Sua própria glória pessoal, sempre foi o propósito eterno de Deus glorificar o Seu Filho amado. Ele é, como a Escritura testemunha, “o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa” (Hebreus 1:3). Deus é essencialmente invisível, pois Ele “habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver” (1 Timóteo 6:16). E ainda assim, foi o Seu propósito eterno fazer a Si mesmos visto e conhecido. Isso é lindamente desvelado pelo apóstolo João: “Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou” [João 1:18]. Por “O revelou” entende-se que O tornou conhecido, descoberto, e O declarou. É na face ou a pessoa de Jesus Cristo que vemos esta glória de Deus, como o apóstolo diz: “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” (2 Coríntios 4:6).

 

Onde Deus opera por Seu Espírito, há um desejo de contemplar a Sua glória. Encontramos, portanto, Moisés implorando sinceramente ao Senhor: “Rogo-te que me mostres a tua glória” [Êxodo 33:18]. Mas, qual foi a resposta do Senhor? “Não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum verá a minha face, e viverá” [v. 20]. E, ainda assim, concedeu-lhe a sua súplica: “Disse mais o Senhor: Eis aqui um lugar junto a mim; aqui te porás sobre a penha. E acontecerá que, quando a minha glória passar, pôr-te-ei numa fenda da penha, e te cobrirei com a minha mão, até que eu haja passado. E, havendo eu tirado a minha mão, me verás pelas costas; mas a minha face não se verá” (Êxodo 33:21-23). Agora, o que aquela fenda da rocha tipificava? Ela não era um tipo do Senhor Jesus? “Rocha Eterna, fendida por mim, permita-me esconder-me em Ti”.

 

Mas, o que era a glória que o Senhor exibiu diante dos olhos de Moisés quando ele ficou abrigado com segurança na fenda da rocha? “Passando, pois, o Senhor perante ele, clamou: O Senhor, o Senhor Deus, misericordioso e piedoso, tardio em irar-se e grande em beneficência e verdade; que guarda a beneficência em milhares; que perdoa a iniquidade, e a transgressão e o pecado; que ao culpado não tem por inocente...” (Êxodo 34:6-7). Assim, vemos que, ser misericordioso, compassivo, longânimo e grande em misericórdia e verdade, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado, é a glória de Deus em sua manifestação. Mas que perdão do pecado há ali, exceto em Seu Filho amado? Como lemos: “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça” (Efésios 1:7).

 

Nosso bendito Senhor glorificou ao Seu Pai, fazendo a Sua vontade sobre a terra. Ele, portanto, disse, em Sua oração intercessória: “Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer” (João 17:4); e como Ele glorifica o Pai, assim o Pai O glorifica, apoiando e sustentando-O no jardim e na cruz, pela aceitação do Seu sacrifício, ressuscitando-O dentre os mortos, e pondo-O à Sua direita como o Sumo Sacerdote sobre a casa de Deus. Por isso, Ele orou: “E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse” [v. 5]; Deus respondeu esta oração para a alegria de Sua alma. Verdadeiramente aquela oração foi, então, cumprida em que a igreja foi oferecida a Jesus por antecipação: “O SENHOR te ouça no dia da angústia, o nome do Deus de Jacó te proteja. Envie-te socorro desde o seu santuário, e te sustenha desde Sião. Lembre-se de todas as tuas ofertas, e aceite os teus holocaustos. (Selá). Conceda-te conforme ao teu coração, e cumpra todo o teu plano” (Salmos 20:1-4).

 

Agora, assim como o Filho glorificou o Pai e o Pai glorificou o Filho, assim há um povo em quem tanto o Pai e o Filho serão glorificados. Portanto, Ele disse: “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um” (João 17:22); e novamente, “E todas as minhas coisas são tuas, e as tuas coisas são minhas; e neles sou glorificado” (João 17:10). Quando, a bondade e a misericórdia de Deus, na face de Jesus Cristo, se manifestam a este povo a quem Ele criou para Si mesmo, para que eles possam manifestar o Seu louvor, então eles Lhe dão a Sua glória novamente. Mas, como isso ocorre? Por louvar e bendizer o Seu santo nome pela manifestação de Sua bondade e misericórdia por sua alma. Vemos, portanto, em que círculo abençoado esta glória é executada. O Pai glorifica o Filho; o Filho glorifica o Pai; ambos se unem em glorificar o Seu povo eleito e redimido; e eles glorificam o Pai e o Filho, dando-Lhes a glória devida ao Seu nome. Nós, portanto, lemos: “E para que os gentios glorifiquem a Deus pela sua misericórdia”, mas como? “Alegrai-vos, gentios, com o seu povo. E outra vez: Louvai ao Senhor, todos os gentios, e celebrai-o todos os povos” (Romanos 15:9-11).

 

Isso é maravilhosamente desenvolvido no Salmo diante nós. Ele começa bendizendo e louvando a Deus. “Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios” (Salmos 103:1-2). Por que Davi convocou a sua alma para bendizer ao Senhor, sim, apelou a todas as faculdades dentro de si para que se unissem em bendizer o Seu santo nome? Por que ele ordenou à sua alma que não se esquecesse de todos os benefícios de Deus, mas que antes os tivesse em memória perpétua? Por esta razão, para que ele possa prestar a Deus um tributo de louvor e gratidão. Agora por meio disso Deus é glorificado, pois, seja o que for que ofereça louvor, glorifica-O.

 

Não podemos adicionar à Sua glória, pois a Sua glória está acima dos céus. Ele é infinito, eterno, inefável. Nenhuma criatura, portanto, pode acrescentar ou remover a isso; mas Ele permite que miseráveis vermes da terra O glorifiquem, e Lhe rendam um tributo de louvor agradecido. Mas isso nós só podemos fazer por crermos em Seu Filho amado, recebendo de Sua plenitude graça sobre graça, e bendizendo e louvando ao Seu santo nome pela manifestação da Sua bondade, misericórdia e amor, como trazidos à nossa alma por Seu próprio poder Divino. Isso talvez, no entanto, seja mais claro, se eu for habilitado em qualquer medida para desvelar e estabelecer diante de você os ricos tesouros guardados em nosso texto, em que Davi com todos os seus louvores cordiais, louva e bendiz o Deus da sua salvação.

 

Nós podemos observar nele, eu penso, o que talvez podemos chamar de uma escala ascendente; pois você observará que ele contém quatro cláusulas, e que cada uma parece subir uma sobre a outra ao oferecer o tributo de louvor.

 

Vamos, portanto, olhar para as palavras de novo, cuidadosamente examiná-las e ver o que podemos encontrar sobre a graça e bondade de Deus nelas: “Ele é o que perdoa todas as tuas iniquidades, que sara todas as tuas enfermidades, que redime a tua vida da perdição; que te coroa de benignidade e de misericórdia” (Salmos 103:3-4).

 

O suave salmista de Israel começa louvando a Deus pelo perdão de todas as suas iniquidades; ele sobe mais um passo para bendizê-lO pela cura de todas as suas doenças; ele avança em terreno mais elevado ainda ao louvá-lO por resgatar sua vida da perdição; e, em seguida, ele coloca a coroa de glória a toda a obra, adicionando, “que te coroa de benignidade e de misericórdia”.

 

Desta forma, com a ajuda e bênção de Deus, nesta noite tentarei tratar do assunto que está diante de nós.

 

 

I.Ele é o que perdoa todas as tuas iniquidades”.

 

A. “Ele perdoa”. Este é um ponto em que os filhos de Deus são muitas vezes profunda e dolorosamente exercitados. Sim, é aqui que suas almas muitas vezes ficam penduradas em tremor, por assim dizer, na balança. Há uma questão a ser resolvida entre Deus e sua consciência; há algo a ser manifesto com o poder aos seus corações; há um fardo a ser retirado de suas mentes; há uma voz de misericórdia a ser ouvida em seu seio. Mas de onde surge essa questão, esse fardo, essa necessidade da voz de misericórdia, desta manifestação de perdão? A partir de uma noção do estado em que o pecado original e pecado atual o trouxeram. Mas o que os fez sentir isto? De onde veio a luz para ver, a vida para sentir o que é pecado e os males que o pecado operou? Não é a partir da própria obra de Deus sobre o seu coração? Ele, portanto, começa com a colocação de seus pecados como um fardo em sua consciência. O pecado causou uma separação entre Deus e ele; como ele mesmo fala: “Eis que a mão do SENHOR não está encolhida, para que não possa salvar; nem agravado o seu ouvido, para não poder ouvir. Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça” (Isaías 59:1-2). E isso não é tudo. Nós somos “estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más” (Colossenses 1:21); e nos dias da nossa carne que estávamos “sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo” (Efésios 2:12).

 

Há então uma barreira entre eles e Deus; e Ele não pode relacionar-Se com eles e nem eles com Deus até que esta barreira seja removida. Mas, ela deve ser sentida como uma barreira antes que possa haver qualquer remoção consciente da mesma. Desvelar essa barreira para nós em sua realidade, grandeza e em sua natureza insuperável, é uma parte daquele ensino Divino que está prometido para o povo de Deus. Quando, então, o Senhor o Espírito começa Sua obra secreta e sagrada sobre o coração deles; quando Ele estabelece o julgamento pela linha e a justiça pelo prumo, Ele desvela a eles essa barreira, descobrindo a sua iniquidade. A obra do bendito Espírito, no início das obras da graça, é convencer-nos do pecado, fazer visíveis as nossas iniquidades, e as imprimir sobre a nossa consciência, revelar a justiça de Deus, como apontada e dirigida contra eles, e, assim, manifesta o seu desagrado indizível contra todas as transgressões e todos os transgressores.

 

Até que esta obra seja feita com um poder Divino, somos o que a Escritura chama de “mortos em delitos e pecados”. A primeira obra da graça na alma, portanto, é vivificar a alma para a vida espiritual, e assim trazer nossas iniquidades à luz, as quais antes não eram vistas nem sentidas, e, especialmente, aqueles pecados flagrantes e abertos, nos quais a maioria de nós vivíamos. É Ele também que desvela a nós os nossos pecados ocultos, como agindo em pensamento e imaginação, e muitas vezes em luxúria e desejo, se não temos sido culpados de delitos flagrantes, e por estabelecê-los à luz da face de Deus, para mostrar-nos quão ofensivos eles são aos olhos da infinita pureza. Tudo isso é muito difícil e penoso, e por alguns, parece ser considerado desnecessário. Mas é um fato solene, que, até que sejam vistos com um fardo de culpa; até que conheçamos por experiência dolorosa nossa condição perdida e arruinada; até que vejamos algo da santidade e pureza de Deus; até que tenhamos alguma apreensão de Sua justiça inflexível e desagrado terrível contra o pecado, nós brincamos com Ele, brincamos com os nossos interesses eternos, negligenciamos as nossas próprias almas, vivemos de modo independe de todas as reivindicações que Deus tem sobre nós, como criaturas de Sua mão. Além disso, temos naturalmente muitas ideias falsas e tolas sobre a religião. Nós mesmos nos satisfazemos facilmente com algumas opiniões que flutuam sobre o assunto, e sossegamos muito calmamente em algum caminho de formalidade e justiça própria, ou assumimos uma profissão superficial, negligente.

 

Agora, temos que ser vivificados, despertados, e, por assim dizer, resgatados como um tição do fogo, a partir de todos esses enganos, para que o nosso coração seja tornado sincero e reto diante de Deus. Isso, então, é a razão pela qual, quando chega a hora de Deus operar com poder sobre o coração de um pecador, Ele faz visíveis os seus pecados, Ele coloca-os à luz de sua face, e coloca-os com maior ou menor peso como um fardo em sua alma. Agora observe o efeito e o que advém disso.


Esta questão surge no seio do pecador: como os seus pecados podem ser perdoados? Ele sente que não pode viver ou morrer com pecado não-perdoado repousando sobre a sua cabeça. Se a sua iniquidade não for perdoada, como ele poderá comparecer diante do tribunal de Deus, quando Ele trouxer toda a obra secreta a juízo? Foi esse sentimento que compôs o pobre clamor do cobrador de impostos: “Deus, sê propício a mim, pecador!”; que fez o carcereiro de Filipos bradar: “Que devo fazer para ser salvo?”. Isso fez com que Davi dissesse: “Não há coisa sã na minha carne, por causa da tua cólera; nem há paz em meus ossos, por causa do meu pecado. Pois já as minhas iniquidades ultrapassam a minha cabeça; como carga pesada são demais para as minhas forças. As minhas chagas cheiram mal e estão corruptas, por causa da minha loucura. Estou encurvado, estou muito abatido, ando lamentando todo o dia” (Salmos 38:3-6). Oh, como muitos dos filhos amados de Deus — alguns por justiça própria, alguns por ignorância, outros pela confusão de suas mentes, alguns por tentações de Satanás, alguns pelo estar sob ministros fiéis, e a maioria por um profundo senso de sua impotência e incapacidade de trazer qualquer paz ao seu próprio seio — são longa e dolorosamente exercitados com essa questão do perdão dos pecados, e como eles devem pessoal e experimentalmente realizá-lo.

 

Ora, se de algum modo somos santos, e estamos entre o número daqueles que são crentes em Cristo Jesus, “Deus nos abençoou (ou seja, já nos abençoou) com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo Jesus”; e entre estas bênçãos, está a grande bênção do perdão; pois nEle “temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça”. “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo. No qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça” (Efésios 1:3-7). Eu quero ver você, crer e sentir isso, que o perdão dos pecados é uma bênção com a qual Deus já abençoou toda a Sua querida família. Nós, portanto, lemos: “E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas” (Colossenses 2:13). Você vê, a partir deste testemunho, que Deus perdoou todos os pecados daqueles que têm vida juntamente com Cristo. Esta é uma parte do ministério da reconciliação, como testifica o apóstolo: “Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação” (2 Coríntios 5:19).

 

Todavia, precisamos de algo mais do que deste fato abençoado. Precisamos da experiência doce e pessoal do mesmo. Para apropriar-se, então, da bênção; conhecer o seu poder e doçura em nosso próprio seio; recebê-la a partir da boca de Deus, e para saber a partir do testemunho do Espírito Santo que Deus perdoou todos os nossos pecados, perdoou todas as nossas iniquidades, lançou todos os nossos pecados para trás de Suas costas — quantos do querido povo de Deus, que são “santos e fiéis em Cristo Jesus”, e vivificados juntamente com Cristo, são exercitados sobre esse ponto em quase todos os seus dias; e muitos vêm até mesmo para um leito de morte antes do evidente perdão de seus pecados ser selado com poder sobre a sua própria consciência. É difícil saber por que a bênção é muitas vezes tão demorada; mas, sem dúvida, Deus tem propósitos sábios para responder em assim exercitá-los. Ele sabe quão intimamente a justiça própria se une a eles, e Ele usa esses meios para tirá-los de toda a sua sabedoria, força e poder, para esvaziá-los completamente de toda bondade de criatura, e para convencê-los de que nada além do sangue de Jesus Cristo experimentalmente aspergido sobre a consciência, purifica de todo pecado.

 

B. Mas vamos agora ter uma visão da expressão “todas as nossas iniquidades”. Qual a largura do escopo, quão vasto campo, estas palavras abrem ao nosso olho espiritual! E você não observa que linguagem forte o Espírito Santo emprega aqui e em outras passagens que depõem contra o pecado, mas de maneira alguma muito forte quanto às circunstâncias, nem forte demais quanto aos sentimentos de uma alma despertada? Os homens têm inventado muitos termos para diminuir o caráter do pecado, e condensá-los, de modo a diminuir o seu peso. Mas o Espírito Santo em nosso texto chama-os de “iniquidades”. É uma palavra forte, mas não muito forte para qualquer pecador sensível, quando vemos o pecado em Sua verdadeira luz, pois quando sua terrível magnitude e tom profundo são descobertos à nossa consciência despertada, a própria linguagem está aquém de expressar o que ele parece em contraste com a visão da pureza infinita de Deus. Quando, também, nós olhamos para a magnitude dessas iniquidades como agravadas por circunstâncias peculiares e pessoais; quantas foram cometidas contra advertências, contra condenações, contra os sussurros de nossa própria consciência, contra a admoestação de amigos; como em vários casos, temos quebrado a cobertura de todas as resoluções e violentamos o nosso próprio conhecimento do certo e do errado, e ainda fomos atraídos pelo poder da tentação, fomos seduzidos e enredados por alguma luxúria querida, vencidos pela força de alguma corrupção interior, fechamos os olhos para as consequências, e sentimos, apesar do pecado que cometeríamos, da luxúria que consentiríamos, da gratificação que teríamos, mesmo que custasse a nossa alma. Oh, quão agravadas têm sido as nossas iniquidades se este tem sido o nosso infeliz caso, e é o caso de muitos; pois tão perverso é o coração do homem, tão determinado a ter a sua satisfação do mal, que eu às vezes sentia e dizia que, se deixado por Deus, um homem pecaria em um momento, e saltaria para o inferno no próximo.

 

Agora, quando Deus começa a pôr esses pecados, assim, agravados sobre a consciência desperta, a colocar as suas iniquidades diante de seus olhos, quão baixo isso afunda um homem; como isso o traz por vezes até a beira do inferno; como isso encerra-o, por vezes, quase em desespero sombrio; como ele exercita a sua mente sobre se as suas iniquidades terríveis alguma vez podem ser perdoadas. Ele vê o seu próprio caso como peculiar. Todo homem conhece melhor as suas próprias circunstâncias, pois estas estão principalmente escondidas de todos, menos de si mesmo. Muitos pecados desconhecidos para os outros, são bem conhecidos por ele. As circunstâncias em que os cometeu; a violência praticada contra sua própria consciência ao pecar, o estado agravado do caso, sob tentações conhecidas apenas para o indivíduo, tudo isso, à medida que são revelados a ele pelo Espírito, e ele vê a luz na luz de Deus, formam um fardo pesado e peculiar, sob o qual ele está prestes a afundar.

 

Mas tudo isso é para ensinar-lhe que nada, senão o sangue de Cristo pode purificar de todo o pecado. Isso é para afastar toda a esperança da criatura e quebrar em pedaços todas as expectativas formadas e centradas na mesma; para mostrar a ele que o sangue de touros e bodes dos tempos antigos não poderiam aniquilar o pecado, da mesma forma agora nenhum arrependimento, nenhuma reforma, nem torrentes de lágrimas, nenhuma quantidade de orações, nenhuma mudança externa, podem de alguma maneira pôr de lado as suas iniquidades. Sabemos, comparativamente falando, pouco da experiência interior de muitos cujas faces vemos muitas vezes em nosso meio; e quantas pessoas escondidas e silenciosas estão encerradas em condenação, suspirando e gemendo por alguma aplicação do sangue da aspersão à sua consciência. Ora, o Senhor tem muitas vezes o prazer de levantar uma esperança à sua alma pela qual seus pecados são afastados. Às vezes, ele tem uma visão de fé dos sofrimentos, sacrifício, derramamento de sangue e morte do Senhor Jesus; e não que o sangue da aspersão seja claramente ou completamente revelado, ou aspergido sobre sua consciência, no entanto, ele vê com os olhos da fé, como salpicado sobre a cruz, e a única expiação possível para o pecado. Assim, ele fica, por assim dizer, na distância uma visão de relance de um Cristo sofredor, um Jesus sangrando, um Cordeiro expiatório de Deus, como os filhos de Israel olharam para a serpente no deserto; e embora isso esteja muito longe do que ele busca e anseia, contudo, isso gera uma esperança e expectativa de misericórdia por vir.

 

Isso também remove efetivamente qualquer expectativa de perdão e paz da parte de qualquer outra iniciativa, e, portanto, fixa os olhos na cruz como o único lugar onde a misericórdia e a justiça se reúnem, a única fonte aberta para todo o pecado e impureza, o único lugar onde a pecador culpado pode encontrar-se com um Deus que perdoa. A fé sendo, por vezes, muito fortalecida por esta visão da cruz, e por muita suavidade de espírito, e o quebrantamento do coração sendo encontrado e sentido ao ver as suas esperanças crescerem muito, e parece quase como se Cristo estivesse prestes a falar uma palavra de perdão para a sua alma e a manifestar-Se no poder de Seu sangue e amor. Mas a visão desaparece, e ele está autorizado a duvidar de novo, a temer novamente, a desconfiar de todos os sinais que recebeu da misericórdia de Deus; a questionar tudo o que ele provou, sentiu e experimentou da palavra da vida, até que, mais cedo ou mais tarde, em algum momento inesperado Jesus tem o prazer de revelar-Se à sua alma, levar o sangue da aspersão à sua consciência, e dar-lhe uma evidência clara de que todos os seus pecados estão perdoados, e todas as suas iniquidades, tão grandes, tão sombrias, tão agravadas, estão perdoadas.

 

Mas, ainda que esta seja normalmente a forma habitual, não devemos estabelecer uma regra rígida, precisa, fixa, e erguer um padrão inflexível quanto a este ponto. Alguns têm a substância do perdão no sentimento, os quais não têm a clara aplicação do sangue. Eles, como o apóstolo fala, recebem a expiação (Romanos 5:1), ou seja, recebem em seus corações, pela fé, e sentem os seus efeitos abençoados revelando-lhes a paz com Deus. Eles têm, portanto, a substância do perdão e paz, através da recepção daquela, por meio do qual fluem; eles têm o prazer dela, a libertação que ela traz, a liberdade que produz, o amor que ela expressa, o arrependimento e a tristeza segundo Deus que ela cria, embora as palavras “os seus pecados estão perdoados”, podem não ter sido faladas com um poder especial para a sua alma. Eles receberam a Cristo em seus corações na eficácia plena do Seu sangue expiatório, o que eles não podiam fazer até que Ele aproximou-Se e manifestou-Se, e, então, eles adquiriram todos os frutos e os efeitos do Seu amor que morreu, pelo que eles O amam e vivem para o Seu louvor.

 

C. Mas agora, veja um outro aspecto em sua visão espiritual: Deus nunca perdoa pela metade. Nós olhamos para esse e aquele pecado, nós chamamos a atenção para esse e aquele deslize ou queda, e às vezes dizemos com amarga tristeza e choro penoso: “Oh, que eu nunca tivesse cometido esse pecado! Oh, que eu nunca tivesse seguido nesta ou naquela direção! Ah, que o meu desejo, o meu orgulho, a minha cobiça, meu temperamento irritado, minha irreverência tola, meu descuido, e minha carnalidade nunca houvessem me vencido em tal tempo! Oh, que eu nunca tivesse falado aquela palavra tola, feito aquela coisa triste, que eu nunca tivesse caído nessa armadilha da carne! Oh, que eu nunca tivesse ficado preso naquela terrível armadilha do Diabo!”. Você, às vezes, não ponderou sobre as várias maneiras em que você foi chamado de lado em algum caminho passado, até que você esteja quase pronto para desistir de toda a esperança e a sucumbir ao desespero, como mal acreditando que é possível que a graça poderia estar em seu coração? Assim, continuamos a olhar para “pecados individuais”, pesando isso e aquilo no saldo de consciência, sem ver o número terrível do todo como “uma esmagadora massa”; e esperamos que, talvez, Deus perdoe esse pecado em particular e aquele determinado pecado, como se isso fosse a grande coisa a ser feita.

 

Deus não perdoa assim. Ele perdoa tudo ou nada. Ou é uma remissão completa de todos os nossos pecados, ou não há nenhum perdão para eles. Eu já não citei anteriormente esta palavra graciosa de Colossenses: “perdoando-vos todas as ofensas?” (Colossenses 2:13). E que testemunho há através das Escrituras para a mesma verdade preciosa. Como João diz: “O sangue de Jesus Cristo nos purifica de todo o pecado” (1 João 1:7) Como o nosso gracioso Senhor declara: “Todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens” (Mateus 12:31). Como o profeta declara: “tu lançarás todos os seus pecados nas profundezas do mar” (Miquéias 7:19); e quão abençoadamente o próprio Senhor fala, “Apaguei as tuas transgressões como a névoa, e os teus pecados como a nuvem” (Isaías 44:22), e novamente: “Naqueles dias, e naquele tempo, diz o Senhor, buscar-se-á a maldade de Israel, e não será achada; e os pecados de Judá, mas não se acharão; porque perdoarei os remanescentes que eu deixar” (Jeremias 50:20). Quão nítida e claramente todos esses testemunhos pregam como com uma voz unânime e harmoniosa esta preciosa e gloriosa doutrina, que onde há um perdão há perdão de todas as iniquidades, um lançar de todas as ofensas para trás das costas de Deus, um pleno, livre, eterno, e irreversível apagar e despojar de todo pecado e de toda transgressão.


Ora, nada menos do que um total, gratuito, completo e perfeito perdão assim poderia satisfazer a Deus ou satisfazer-nos. Não poderia satisfazer a Deus; pois um pecado imperdoável nos privaria do Céu tanto quanto o fariam mil pecados. Também não poderia satisfazer-nos, seja na terra ou no Céu. Se a culpa de um único pecado permanecesse sobre a nossa consciência no momento da morte, ele nos encheria de medo, e nós poderíamos entrar no Céu com ele? A culpa deste único pecado nos faria tremer para sempre diante da pureza de Deus, e macularia toda alegria para sempre. Nem o pecado em sua culpa, nem o pecado em sua imundície, ainda que seja, por assim dizer, o menor que poderia ser cometido pelo homem, pode permanecer diante da pureza de Deus na glória. Vemos, portanto, por que todo pecado deve ser perdoado, lavado e lançado para trás das costas de Deus, ou não ninguém poderá permanecer de pé diante dAquele que é um fogo consumidor. Não precisamos, então, estar sempre nos focando em pecados individuais, mas devemos sempre nos lançar naquele mar de amor e sangue no qual todos os nossos pecados são imersos e para sempre lavados.

 

 

II. Mas eu agora prossigo para o meu próximo ponto, onde eu encontro o salmista subindo um degrau mais elevado no que eu tenho chamado de “escala ascendente”: “[Ele] sara todas as tuas enfermidades”.

 

A. O caráter geral da doença. Quando o Senhor começa a Sua obra da graça em nosso coração, não somos sensíveis da doença do pecado tão completamente infectando toda a nossa natureza. Somos como uma pessoa atacada com alguma doença incipiente. Ele sente-se o que é chamado de “incômodo”, o seu estado geral de saúde prejudicado, seus nervos rígidos, seu apetite caprichoso, sua carne e força se esvaindo. Ele vê estes sintomas da doença, mas não sabe o que esses sintomas indicam, que eles são muito provavelmente marcas de alguma doença fatal. Ele cospe sangue, talvez, e tem alguma dor no seu lado, uma tosse seca, transpira muito durante a noite, e tem outras marcas de debilidade, mas ele não vê que estes são apenas indícios de uma doença muito grave. Então, olhamos para esse pecado ou para aquele pecado, que são apenas sintomas de uma natureza completamente corrupta e doente; muito mais profunda do que as erupções da mesma, o que, comparativamente falando, são apenas erupções na pele; ou para falar mais biblicamente, como os sinais de lepra que Moisés descreve em Levítico 13. Somos, talvez, como um paciente tuberculoso, que acha que, se puder apenas ter sua tosse curada, ou a dor removida, ou os calafrios diminuídos, ter um pouco carne colocada sobre seus ossos, e sentir-se mais forte e ativo, ele logo estaria bem. E assim ele o faria; mas, infelizmente! estes são apenas os sintomas, e não há nenhuma utilidade em curar os sintomas enquanto a doença permanece e é diariamente fortalecida.

 

Portanto, não há utilidade em olhar para este ou aquele pecado, e tentar curar este ou aquele mal quando, como o profeta fala, “desde a planta do pé até a cabeça não há nele coisa sã, senão feridas, e inchaços, e chagas podres não espremidas, nem ligadas, nem amolecidas com óleo” (Isaías 1:6). Podemos seguir algumas vezes desta forma por um longo tempo, esperando que à medida que este e aquele pecado é curado, vamos, aos poucos, obter a cura do todo. Mas depois de um tempo Deus, o Espírito, como Ele continua buscando o coração e lançando uma nova luz para a mente, desvela o segredo fatal, levando-nos a ver, sentir e perceber a doença do pecado como infectando toda a nossa natureza. Mas esta descoberta preenche um homem com consternação e desânimo; quanto a isso, agora a sua linguagem é “eu cometi iniquidade; eu pequei contra Deus. Esses pecados Ele misericordiosamente perdoou, mas oh, depois que Ele perdoou todos estes pecados e curou todas essas rebeliões, descobri que há algo secreto dentro de mim que está sempre criando pecados adicionais!”.

 

Assim, nós aprendemos que este perdão não se dá por fazer um atestado de saúde, e relatar que toda a mancha da infecção desapareceu; nem jogando fora todo o pecado como uma peça de roupa suja desgastada, sem um pedaço de pano que está sendo deixado para trás para manter e disseminar ainda mais a doença. Mas é antes como destruir um amontoado de vermes, e deixar para trás toda uma série que maliciosamente se arrastou para longe, e estão sempre produzindo vermes adicionais no escuro. Ou é como alguma doença que pode parecer por um tempo subjugada e aparentemente curada, e, em seguida, irrompe novamente com dupla virulência. Como, por exemplo, vemos, por vezes, a fraqueza ou câncer aparentemente curados, e ainda assim, eles irrompem novamente pior do que antes. Assim é com essa doença terrível do pecado, que já infectou todo o nosso ser. Pode, por um tempo parecer ter se estabilizado ou sido removido, senão quase totalmente curado; mas uma e outra vez ele irrompe pior do que antes — não é pior eu digo em ato exterior, mas pior no sentido interior e de sentimento experimental.

 

Mas, você já considerou o significado da palavra “doença”, como descritivo de nosso estado por natureza? Você sabe o que um corpo doente é, ou, o que é pior, uma mente doente; como, em ambos os casos, tudo está errado, fora de ordem, lançado fora do seu equilíbrio correto, e os consequentes dor e sofrimento perpétuos. Assim é com a doença do pecado. Ela faz com que tudo e todos se tornem errados; prejudica o olho, ensurdece a ouvido, transforma cada benefício em desgraça, e a comida saudável em pouco menos do que veneno. Tudo é um fardo, cheio de trabalho, cansaço e insatisfação; a vida, uma miséria, dias cansativos e noites sem dormir.

 

B. Mas, tendo, assim, visto o caráter geral da doença, olhemos agora para algumas das enfermidades peculiares que infectam a nossa natureza, e duas acima de todas as outras, mais geralmente conhecidas e sentidas, com as quais o povo de Deus é aflito.

 

1. A primeira doença que eu citarei é a incredulidade. Quando o bendito Espírito convence do pecado, Ele também convence da incredulidade. Mas esse pecado da incredulidade normalmente não é sentido tanto com a culpa de pecados particulares e mais abertas (João 16:9). De toda forma, nós não costumamos ver e sentir em um primeiro momento como uma doença inata. Quando a fé era forte, como era quando o Senhor apareceu para nós, a incredulidade não veio à tona. Ela está fixa por trás, como se fosse, invisível à sombra; ela se escondia no secreto do coração, escondida, como um ladrão de noite. Mas depois de um tempo, quando a fé começa a abrandar, esta doença da descrença vem à vista; ela aflora à superfície, como a pedra endurecida que foi coberta com erva macia; quando as flores e grama cresceram sobre ela, sua profundidade e dureza não eram vistos. Mas logo começamos a encontrar sob toda aquela relva macia e flexível que ali reside uma pedra dura, seguindo para baixo, em afeições terrenas. Oh, como essa incredulidade miserável sobe à vista enquanto a relva é retirada!

 

Como um convidado intruso e indesejado em uma festa de casamento, a sua própria presença macula todo o conforto, retira da mão cada doce porção de alimentos ou cálice de alegria, surgindo como um espectro bem no momento em que nós menos queremos a sua companhia, roubando-nos de toda a paz e felicidade, e como soltando veneno nas fontes da vida. Há, creio eu, dificilmente qualquer outra doença da alma, que parece tão cuidadosamente ter se espalhado por toda a nossa existência, para produzir tais perspectivas destemperadas sobre Deus e nós mesmos, e fixou-se tão determinadamente contra a Palavra de Deus em si mesma. Nestes pontos, em muito se assemelha a uma mente doente, como vemos muitas vezes em pessoas infelizes, que não veem nada corretamente e consideram tudo equivocadamente, de modo que você não pode nem retificar, nem confortar, nem convencer e nem guiar, mas que está sempre ouvindo as suas próprias convicções, e não consegue ouvir mais nada.

 

2. Outra doença é o desamparo. Esta doença é muito natural. Fraqueza, prostração de força, incapacidade de levantar a mão ou o pé podem ser e são sinais de doença muito grave; não, uma doença em si. Olhe para aquele pobre paralítico deitado, desamparado sobre a sua cama, que pobre sujeito ele é. Olhe para aquele pobre santo, quão incapaz de levantar a mão ou o pé, quão incapaz de mover qualquer um dos seus membros espirituais, como o próprio paciente paralítico. Não é a sua impotência uma doença tão grande e perigosa como a descrença pode ser? Algumas doenças são acompanhadas de muita dor e sofrimento... Quão torturante é a pedra nos rins, quão doloroso é a pleurisia, quão torturante e grave é a dor de cabeça. Assim é com algumas doenças espirituais. Que dardos inflamados Satanás pode atirar em nossa mente; que corrupções dolorosas ele pode agitar; que sugestões vis ele pode infundir. Que súbitas e fortes dores há na alma sob a injeção desses dardos inflamados de Satanás, como [...] o pulsar agudo da súbita pedra nos rins.

 

Mas há queixas em que o paciente afunda gradualmente sem qualquer dor muito grande, sem doença aparentemente muito grave. Na fraqueza, embora seja um grande erro pensar que, geralmente, é uma doença indolor, ainda assim alguns parecem gradualmente desfalecer até que eles morram de exaustão, sem sofrer dor aguda. Assim, na paralisia e queixas semelhantes, como deficiência do cérebro. Não podemos traçar uma analogia semelhante no caso de doenças espirituais? Alguns do povo de Deus não são tão dolorosamente exercitados como os outros com os dardos inflamados do Diabo, nem tão atormentados com a agitação da corrupção interior, nem tão pressionados pelo poder da incredulidade. Sua queixa principal é uma sensação de impotência. Eles parecem tão lânguidos nas coisas de Deus, têm um tal espírito desfalecente, como uma incapacidade de avançar, um enfraquecimento gradual de cada faculdade, e um afundamento no eu como se devesse naufragar e morrer sob positiva exaustão. Ora, tudo isso é o efeito de doença espiritual; nasce da corrupção, que entrou em e tomou posse de nós na Queda.

 

3. Mas, vamos olhar ainda um pouco mais longe. O efeito da Queda não foi apenas produzir doenças peculiares, mas enche-nos com doença por toda parte. Isso é assim, às vezes, naturalmente. Algumas pessoas estão cheias de doenças, como o homem de quem se fala no Evangelho “cheio de lepra” (Lucas 5:12); todo o seu organismo e constituição completamente prejudicados por queixas hereditárias. Assim, o pecado está exaustivamente nos doentes, envenenando nosso próprio sangue. O pecado adoeceu nosso entendimento, de modo a incapacitá-lo de receber a verdade; ele adoeceu nossa consciência, de modo a torná-la aborrecida e pesada, e sem discernimento do certo e errado; ele adoeceu a nossa imaginação, contaminando-a com todas as vãs, insensatas e licenciosas fantasias; ele adoeceu a nossa memória, a qual torna-se rápida para reter o que é mal, lenta para reter o que é bom; ele adoeceu os nossos afetos, pervertendo-os de tudo o que é celestial e santo, e fixando-os em tudo o que é terreno e vil.

 

Mas, que indizível misericórdia é que Deus tenha proporcionado não somente um Redentor no Senhor Jesus, de modo a garantir o perdão dos pecados por meio da redenção que Ele efetuou, mas fez dEle também Aquele que sara doenças; Ele não somente O constituiu como único Salvador, e um grandioso, mas também como um Médico, não somente O deu a partir de Seu próprio seio para derramar o Seu precioso sangue para aniquilar o pecado pelo sacrifício de Si mesmo, mas O ressuscitou dentre os mortos, e colocou-O à Sua direita, para que Ele possa curar por Sua Palavra, “curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo” [Mateus 4:23]. Ele torna-Se assim “Jeová Rafá”, o Senhor que me sara. Como Ele testifica sobre Si mesmo: “Eu sou o Senhor que te sara” (Êxodo 15:26). Veja, a seguir, os pobres doentes de Deus; veja-os deitados por assim dizer, nos alpendres de Betesda [João 5:2], todos esperando pela abordagem do grande Médico; sabendo que um olhar de Seu olho, um toque de Sua mão, uma palavra de Sua boca, pode curar todas as doenças. Veja aquela pobre e doente família de Deus, alguns se queixam de uma doença, alguns de outra, outros de uma terceira; mas todos como um número de enfermos, reuniram-se na porta de um dispensário, ou pacientes que encontram-se nas enfermarias de um hospital, ou uma tal multidão sofredora da humanidade como poderia encontrar o seu olho após alguma terrível colisão ferroviária, onde você veria alguns quase morrendo, outros desmaiando com a dor e o terror, outros prostrados na estrada com membros quebrados e sangue escorrendo pelo rosto, mas todos sentem o choque terrível. Assim é com a pobre e doente família de Deus — você pode ouvir alguém lamentando-se por seus membros quebrados, outro de sua inconstância, coração agitado, uma terça parte das feridas internas de sua consciência, um quarto de suas mãos machucadas e pés mutilados; mas cada um e todos de luto e definhando sob um senso da doença do pecado, e os tristes efeitos que a colisão da Queda operou.

 

Mas, volte os seus olhos e contemple em outra direção. Veja aqui se aproximando o gracioso Senhor, e circundando-os, por assim dizer, de ala em ala, dirigindo uma palavra amável para este paciente, administrando um bálsamo curativo para aquele, dando um sorriso de encorajamento para uma terça parte. Veja também como cada olho O segue, todos em busca de um pouco de ajuda de Sua mão. Agora, quando este Médico gracioso envia a Sua Palavra, pois é por Sua palavra que Ele cura (Salmos 107:20), ela traz com Ele, instantaneamente, um poder medicinal. Não foi assim nos dias de Sua carne? Como, em uma palavra de Seus lábios, um toque de Sua mão, todas as doenças fugiam. Assim é agora. Quando Ele fala, toda queixa cessa; a doença desaparece sob o Seu toque; a dor e o sofrimento são amenizados pelo Seu olhar amável, Sua voz simpatizante, Seu sorriso gracioso e até a própria aparência do Médico, embora apenas por alguns momentos, faz bem ao paciente.


Mas, como Ele cura essas doenças? Ele as cura principalmente por subjugá-las; pois nesta vida eles nunca são completamente curados. A promessa prossegue: “[Ele] sujeitará as nossas iniquidades” (Miquéias 7:19). Sujeitá-las é restringir o poder delas. Assim, Ele vê alguém sofrendo sob o poder da incredulidade. Ele lhe dá fé; esta subjuga a sua incredulidade. Aqui está um outro pobre paciente lânguido, morrendo de exaustão, Ele dá-lhe força. Aqui está um terceiro lamentando-se sob suas corrupções, Ele dá uma gota de Seu sangue para limpar sua consciência, e uma prova do Seu amor para aquecer o seu coração. Ele vê alguém no quarto chorando sob os fortes ataques de Satanás, com um olhar Satanás foge e a alma é livre. Assim, com infinita sabedoria misturada com infinito amor e poder, Ele passa de cama em cama de cada paciente doente, administrando saúde onde passa.

 

Oh, que coisa abençoada é saber algo sobre ter as nossas doenças curadas; que não há Alguém que pode compadecer-Se do Seu pobre povo aflito, que pode estender a mão para curar, ou aplicar uma palavra adequada para o caso deles! Com habilidade e poder infinito, este Médico abençoado tem um remédio para todas as doenças, e o remédio é sempre sentido ser exatamente adequado para a urgência do caso. Ele vai, por assim dizer, de uma vez ao ponto, diretamente cura o mal onde quer que seja, e em quem quer que seja, exatamente na forma certa, e exatamente no momento certo. Nenhuma doença é profunda demais para alcançar, nenhuma queixa muito complicada para que Ele a cure, e não há nenhuma lamentação secreta, escondida até mesmo dos próprios olhos do paciente, que Ele não possa dissipar pelo Seu olhar e cura com a Sua Palavra. Oh, então como é bom trazer todas as nossas doenças diante do Senhor! Em um caso de doença física ou queixa dolorosa nós livremente desvelamos a nossa doença a um médico em quem podemos confiar; dizemos-lhe todas as circunstâncias e anunciamos todos os sintomas. Então, devemos ir ao Senhor com todas as nossas doenças, digamos-Lhe todas as nossas queixas, desvelemos para Ele todas as nossas dores, e plena e livremente derramemos diante dEle tudo o que sobrecarrega a consciência, machuca o espírito, aflige a alma, buscando e esperando até que Ele fale a palavra, e cada doença seja curada.

 

 

III. Mas nós passamos para o próximo grau na escala ascendente. “[Ele] redime a tua vida da perdição”.

 

O primeiro passo foi o perdão de todas as iniquidades; o segundo a cura de todas as enfermidades; o terceiro é a redenção da própria vida da perdição, garantindo, assim, a certeza da salvação da alma.

 

Quando Deus começa a obra da graça, Ele planta vida espiritual nos corações de Seu povo. Mas esta vida está exposta a mil inimigos e mil medos. A preservação posterior desta vida é, em alguns aspectos, um milagre maior e uma mais rica misericórdia do que a cura da doença. Não seria um maior triunfo da perícia médica, se um médico pudesse protegê-lo de todos os ataques da doença, ou prolongar a sua vida por dez anos; do que se o curasse de uma doença passageira? Assim, resgatar a nossa vida da destruição é uma misericórdia mais elevada e um milagre maior do que a cura da doença atual. Vamos considerar a que esta vida é exposta, e depois veremos que maravilha é que ela seja mantida viva no seio de um pecador, quando ele está cercado por todos os lados, o que, exceto pelo poder de Deus, o destruiria inevitavelmente.

 

Pois nós podemos ser considerados suicidas espirituais, como Deus declarou a Efraim “Ó Efraim, tu destruíste a ti mesma” (tradução literal). Não é este um verdadeiro responsável? A sua consciência não foi alcançada como uma acusação procedente? Você já não desejou com os olhos abertos seguir em algum pecado, o qual, exceto pela misericórdia e mão de Deus, teria certamente levado você à destruição? Você não permaneceu de pé sobre a beira de algum abismo fundo, no qual mais um passo teria afundado você? Você não aprende esta lição a princípio. Você olha para trás, por vezes, para o tempo em que Deus Se agradou em depositar a Sua vida no teu peito. Foi uma temporada memorável com você, pois, Ele, nessa ocasião, comunicou o Seu temor, e fez a Sua consciência viva e flexível. Mas, embora convencido do pecado, você desconhece, então, os males de seu coração. Mas se a sua profissão ocorreu a qualquer longa data, e especialmente se você tem sido muito provado por tentações, agora você olha para trás e se pergunta como a vida de Deus tem sido preservada por tantos anos em sua alma. Você foi afundado por vezes em tal carnalidade que você não poderia encontrar quase nenhuma diferença entre você e o professo mais carnal. Você sentiu tal vazio de todo o bem, tal propensão para todo o mal, e aparentemente um abandono tão descuidado das coisas que uma vez você realizava com tanto carinho e ternura, que tremia que você provasse ser um miserável professo vazio, pior do que aqueles contra quem você tem tantas vezes falou.

 

Agora, quando você esteve afundado sob o peso e culpa destas coisas colocadas sobre a sua consciência, você já se perguntou como você esteve nos últimos dias, onde você está agora, como e por que você é o que você é, e não foi engolido, vencido e levado para a cova da destruição. Às vezes, Satanás tem tentado você ao suicídio; às vezes a desistir de toda a sua profissão de fé; às vezes a blasfemar o nome de Deus; às vezes a não acreditar em toda a verdade sagrada; às vezes a pensar que a Bíblia é completamente inconsistente, confusa e contraditória, e que toda a Religião em si era apenas uma ilusão. Você tem tido todas essas coisas trabalhando em sua mente até que você temeu que fosse, por fim, um vil infiel, ou que morreria em desespero. No entanto, até agora Deus tem sustentado você, Ele tem preservado a sua vida da destruição.


Davi disse: “Sou como um prodígio para muitos, mas tu és o meu refúgio forte” (Salmo 71:7), mas você pode dizer: “Eu sou uma maravilha para mim!”. O mundo, o Diabo, e seu próprio mau coração, todos têm tido há anos o objetivo de destruir a preciosa vida de Deus em sua alma, todos estendendo as suas mãos para estrangulá-la e sufocá-la! E, no entanto, a sabedoria misteriosa, a graça inefável e a terna compaixão! como Ele tem mantido vivo o princípio santo, não permitiu que o seu fogo se apagasse no altar, ou a luz no templo expirasse por falta de óleo fresco. Oh, o mistério do amor redentor! Oh, a bem-aventurança na preservação da graça de ter a nossa vida redimida da destruição! Podemos olhar para trás, talvez, para diversas ocasiões em nossas vidas, quando, como Davi, poderíamos dizer, houve apenas um passo entre nós e morte, e ainda temos sido preservados, ajudados e sustentados pelo poder de Deus através da fé para a salvação.

 

Observe a expressão “REDIME” e como ela conecta a alma com a obra da redenção por meio do Senhor Jesus. Cristo redimiu a nossa vida por Seu próprio precioso sangue. Tal preço tendo sido pago por ela, não pode ser perdida.

 

Uma visão e senso disso afunda a alma muito baixo, e ainda estabelece o Senhor mui elevado. Isso nos faz ver quão grandiosa é a redenção, quão maravilhoso é o amor de Deus, quão incessante é o Seu imenso cuidado e poder preservador, quão bendita e, ainda, quão misteriosa é a obra da graça sobre a alma, de modo que o pecado não pode contaminá-la, Satanás não pode apagá-la, nem nada na terra ou do inferno efetivamente destruí-la.

 


IV. Mas, nós agora chegamos ao nosso último ponto, o ponto culminante de tudo, o ponto mais alto da escala ascendente, o que parece colocar o seu selo sobre todo o acima mencionado: “[Ele] te coroa de benignidade e de misericórdia”.

 

A. Coroação. A coroação de um rei coloca o último e mais alto selo sobre sua autoridade régia. Isso fez a esposa dizer: “Saí, ó filhas de Sião, e contemplai ao rei Salomão com a coroa com que o coroou sua mãe no dia do seu desposório e no dia do júbilo do seu coração” (Cânticos 3:11). E que dia será quando o antitípico Salomão for coroado Senhor de todos. Assim, há uma coroa colocada sobre a alma que está curada de todas as suas doenças, e cuja vida é resgatada da destruição. É como se Deus não estivesse satisfeito até que Ele colocasse a coroa de Sua benevolência sobre a alma, até que Ele mesmo coroasse o coração com o Seu próprio amor. E não apenas amor, mas “benignidade”1 — bondade misturada com amor, amor que transborda com bondade.

 

Assim, quando Deus tem o prazer de revelar um senso de Sua benevolência, mostra como Ele tem sido ao mesmo tempo tão gentil e ao mesmo tempo tão amoroso; tão bondoso em perdoar o pecado, tão amável ao curar a doença, tão amável na preservação da vida da destruição, e tudo isso flui a partir do seio de Seu eterno amor; isso é um colocar a coroa de toda a Sua benignidade. E Ele faz isso com a Sua própria mão: “Ele te coroa”. Deus, desde o Céu, Sua morada, coloca sobre a alma a coroa de Sua benevolência e misericórdia. E, qual é o efeito? A alma coloca uma coroa de glória em Sua cabeça. Assim, a alma tem a “coroa de graça”, e Deus tem a “coroa de glória”. Isso é ser coroado com benignidade e misericórdia.

 

E, oh, que coroa é essa! Como isso coroa todas as nossas iniquidades, esconde-as dos olhos de Deus, como uma coroa cobre a testa de um monarca. Como isso coroa todas as nossas provações pelas quais tivemos que passar, severas e dolorosas como foram na época para a carne. Como isso vem coroar todas as nossas perdas, colocando sobre o coração enlutado a coroa da benevolência de Deus. Como isso vem coroar todas as nossas orações, por capacitar-nos a ver a Sua resposta graciosa. Como isso coroa todos os lidares de Deus conosco na providência e em graça, e sela a benignidade em todas aqueles; pois a coroa inclui tudo em si. Como a coroa da rainha inclui a sua realeza, a sua dignidade, o seu poder — pois, todos são assim simbolizados — assim a benevolência de Deus, colocada sobre o coração como uma coroa, envolve e assegura todas as bênçãos para o tempo e para a eternidade.

 

B. E, que efeito isso produz. “[Ele] te coroa de benignidade e de misericórdia”. Este é um senso das misericórdias de Deus que quebranta o coração e produz o verdadeiro arrependimento e tristeza piedosa pelo pecado; pois este é o sentimento da alma: “Oh, que eu tenha pecado contra essa misericórdia como é revelada na pessoa, obra, sofrimentos e morte do Senhor Jesus. Oh! que miserável por alguma vez ter pecado como eu o fiz; que monstro por ter dado lugar a este e aquele pecado e tentação, provocando a Deus, se possível, a me lançar fora para sempre de Sua presença”. E, no entanto, a Sua benevolência, as Suas misericórdias, prevaleceram sobre tudo. [...] Ele não me capturou no próprio ato do pecado e lançou a minha alma no inferno. Mas Ele misericordiosamente me tirou do pecado, e me coroou com benignidade e misericórdia. Isto não somente produz uma canção de louvor a Deus, mas restringe a alma, por meio de cada doce restrição, a andar no temor dEle e a viver para a Sua honra e glória. Oh, essas coisas vêm aquecidas sobre o coração onde quer que elas sejam verdadeiramente sentidas. Estes são motivos urgentes para vivermos em Seu louvor e andarmos em Seu temor; para não entristecermos o Seu Espírito Santo; mas sim, sendo tais devedores à graça, para vivermos, andarmos e agirmos de tal forma como a trazer honra ao Seu digno nome.

 

Procurei nesta noite colocar minha mão sobre o estado e caso da família de Deus, e falar algo para o seu encorajamento. Aqueles que peregrinam no caminho estreito e apertado anelam por ouvir o seu caso abordado e introduzido, e alguns testemunhos prestados à realidade da obra da graça sobre o coração deles. Então, eu o deixo em Suas mãos cheias de graça, Aquele que pode fazer com isso o que bem parecer aos Seus olhos, e colocar outra coroa, mesmo a coroa de Sua própria bênção, a qual enriquece, e não acrescenta nenhuma dor consigo [Provérbios 10:22].
 


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[1] Aqui Philpot usa o belo termo em inglês “loving-kindness”, literalmente, uma “bondade-amorosa”.
 

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