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As Evidências Da Depravação Humana, por A. W. Pink

[Capítulo 11 do livro The Total Depravity of Man • Editado]

 

Após termos descoberto o terreno, pode ser pensado que não havia necessidade de dedicarmos uma seção separada para o fornecimento da prova de que o homem é uma criatura caída e depravada, alguém que se extraviou para longe de seu Criador e legítimo Senhor. Embora a Palavra de Deus não precise de confirmação por qualquer coisa fora de si mesma, não é sem valor ou interesse achar que o ensino de Gênesis 3 é fundamentado pelos fatos da história e da observação. E uma vez que não há nenhum ponto em que o mundo é tão escuro como sobre a sua própria escuridão, julgamos este requisito para fazer a demonstração do mesmo. Todos os homens naturais, não-regenerados em suas mentes pelas operações salvíficas do Espírito Santo, estão em um estado de trevas com respeito a qualquer conhecimento vital de Deus. Sejam eles em outras coisas tão instruídos e habilidosos, em assuntos espirituais eles são cegos e estúpidos. Mas isso é algo que eles não podem suportar ouvir falar, e quando eles são pressionados com estas afirmações sua ira é simultaneamente inflamada. Os intelectualistas orgulhosos se consideram muito mais sábios do que o crente humilde e simples, consideram isto como um conceito vazio de analfabetos quando lhes disse que eles “não conheceram o caminho da paz” [Romanos 3:17]. Tais almas enfeitiçadas são completamente ignorantes de sua própria ignorância.

 

Os Sinais Da Ruína Do Homem

 

Mesmo no Cristianismo, o crente médio está plenamente satisfeito se ele aprende por repetição alguns dos princípios elementares da Religião. Ao fazer isso, ele conforta a si mesmo de que ele não é um infiel, e uma vez que ele acredita que há um Deus (apesar deste ser criado por sua própria imaginação) ele ilude a si mesmo dizendo que ele está longe de ser um ateu. No entanto, quanto a ter qualquer vida; conhecimento espiritual, influente e prático do Senhor e dos Seus caminhos, ele é muito estranho, completamente ignorante. Ele também não sente a menor necessidade de iluminação Divina; não, ele não tem nenhum prazer ou desejo de um conhecimento mais íntimo com Deus. Nunca tem percebido a si mesmo como sendo um pecador perdido, ele nunca buscou o Salvador, pois somente aqueles que são sensíveis de sua doença é que valorizam um médico, assim como ninguém, senão aqueles que estão conscientes da fome de suas almas é que anseiam pelo Pão da Vida. Os homens podem estar orgulhosamente convencidos que este século XX é uma era de iluminação, e, embora, possa ser assim em um sentido material e mecânico está certamente muito longe de ser o caso, espiritualmente falando. É muitas vezes asseverado por aqueles que deveriam saber melhor, que os homens de hoje estão mais ansiosos em sua busca pela verdade do que nos dias anteriores, mas fatos concretos desmentem tal afirmação.

 

Em Jó 12:24-25, nos é dito sobre “chefes dos povos da terra” que “nas trevas andam às apalpadelas, sem terem luz”. Quão evidente isso é para aqueles cujos olhos foram ungidos com o Espírito Santo, sim, mesmo para os homens naturais que não abandonaram uma forte desilusão que eles teriam crido em uma mentira. Quem, senão os cegos pelo preconceito são incapazes de perceber a certeza dos fatos que estão diante deles e ainda acreditam no “progresso do homem” e “no avanço constante da raça humana”? E, no entanto, tais postulados são feitos diariamente por aqueles que são considerados como sendo os mais instruídos e os grandes pensadores. Alguém tinha suposto que os sonhos vãos dos idealistas e teóricos teriam sido dissipados pelos acontecimentos dos últimos trinta anos, quando centenas de milhões de habitantes da Terra estavam engajados em uma luta de vida e morte, em que as desumanidades mais bárbaras foram cometidas, dezenas de milhares de cidadãos pacíficos mortos em suas casas, centenas de milhares de mutilados pelo restante de seus dias, e danos materiais incalculáveis infligidos. Mas tão persistente é o erro, tão amplamente aceita é essa quimera da “evolução”, e tão radicalmente isso é oposto àquilo que nós estamos pleiteando, que nenhum esforço deve ser poupado em remover um e estabelecer o outro. É com o desejo de fazer isto que agora apresento algumas das evidências abundantes que atestam claramente a condição completamente arruinada da humanidade caída.

 

Estas provas podem ser extraídas a partir do ensinamento da Sagrada Escritura, os registros de historiadores humanos, nossas próprias observações e experiências pessoais. O terceiro capítulo de Gênesis descreve a origem da depravação humana, e no próximo capítulo, os frutos amargos da Queda rapidamente começam a se manifestar. No primeiro vemos o pecado em nossos primeiros pais, no último o pecado nos seus primogênitos, que muito em breve dariam prova de que eles tinham recebido uma natureza má deles. Em Gênesis 3, o pecado era contra Deus, em Gênesis 4 era tanto contra Ele como contra um companheiro. Essa é sempre a ordem: onde não há temor de Deus diante dos olhos, não haverá respeito genuíno pelos direitos dos nossos semelhantes. No entanto, mesmo nessa data inicial, nós vemos a graça soberana e distintiva de Deus em ação, pois foi por uma fé dada por Deus, que Abel apresentou ao Senhor um sacrifício aceitável (Hebreus 11:4), foi enquanto ele estava notoriamente em sua vontade própria e autossatisfação que Caim trouxe do fruto da terra como oferta. Após sua rejeição por parte do Senhor nos é dito: “Caim ficou muito irado” (Gênesis 4:5), Caim irou-se porque não podia aproximar-se e adorar a Deus segundo os ditames de sua própria mente, e, assim, mostrou sua inimizade natural contra Ele. Ciumento por causa de Abel ter sido aprovado por Deus, Caim se levantou e matou seu irmão.

 

Como a lepra, o pecado contamina, se espalha e produz a morte. Perto do fim de Gênesis 4 vemos o pecado corrompendo a vida familiar, pois Lameque era culpado de poligamia, assassinato e de um espírito de vingança feroz (v. 23). Em Gênesis 5 a morte está escrita em letras maiúsculas sobre o registro inspirado, por nada menos que oito vezes nós lemos ali: “e morreu”. Contudo, mais uma vez, nos é mostrada a graça superabundante em meio ao pecado abundante, pois Enoque, o sétimo depois de Adão, não morreu, sendo trasladado sem ver a morte; o tempo em que esteve na terra foi gasto contendendo e advertindo o ímpio, dos seus dias é mencionado em Judas 14 e 15, onde nos é dito que ele profetizou: “Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos; para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade, que impiamente cometeram, e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele”. Noé também era um “pregoeiro da justiça” (2 Pedro 2:5) aos antediluvianos, mas aparentemente com pouco efeito, pois lemos: “viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente”; que “toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra”, e que a Terra estava “cheia de violência” (Gênesis 6:5, 12, 13).

 

Mas, ainda que Deus tenha enviado uma inundação que varreu toda aquela geração perversa, o pecado não foi erradicado do ser humano: em vez disso, novas evidências da depravação do homem foram dadas logo em seguida. Depois de uma misericordiosa libertação do dilúvio, após assistir a tal terrível demonstração da santa ira de Deus contra o pecado, e depois do Senhor ter feito um pacto gracioso com Noé, que continha promessas e garantias mui abençoadas, se suponha que a raça humana iria após isso aderir aos caminhos da virtude. Mas, infelizmente, a próxima coisa que lemos é que “Começou Noé a ser lavrador da terra, e plantou uma vinha. E bebeu do vinho, e embebedou-se; e descobriu-se no meio de sua tenda” (Gênesis 9:20-21). Os estudiosos nos dizem que a palavra hebraica para “descobriu-se” indica claramente um ato deliberado, e não um mero efeito inconsciente de embriaguez, os pecados de intemperança e impureza são irmãs gêmeas. O triste lapso de Noé deu ocasião para seu filho pecar, e então, em vez de jogar o manto da caridade sobre a nudez de seu pai, ele desonrou seu pai, manifestando um total desrespeito e insubmissão a ele. Em consequência disso, ele lançou sobre ele e sobre seus descendentes uma maldição, e os efeitos e resultados desta são visíveis até hoje (v. 25).

 

Como dissemos há mais de trinta anos, em um artigo sobre o assunto, Gênesis 9 coloca diante de nós a inauguração de um novo começo, e uma ponderação do mesmo faz com que nossas mentes se voltem ao primeiro início da raça humana. Uma comparação cuidadosa dos dois revela uma série dos mais notáveis paralelos entre as histórias de Adão e Noé. Adão foi colocado em cima de uma terra que subiu do “grande abismo” (Gênesis 1:2), assim também fez Noé saiu para uma terra que tinha acabado de imergir das águas do grande dilúvio. Adão foi feito senhor da criação (1:28), e na mão de Noé Deus também entregou todas as coisas (9:2). Adão foi “abençoado” por Deus e disse “e multiplicai-vos, e enchei a terra” (1:28), da mesma forma como Noé foi abençoado e disse “Frutificai e multiplicai-vos e enchei a terra” (9:1). Adão foi colocado por Deus em um jardim “para o lavrar e o guardar” (2:15), e Noé “começou... a ser lavrador da terra, e plantou uma vinha” (9:20). Isto estava no jardim que Adão transgrediu e caiu, e o produto da vinha foi a ocasião da triste queda de Noé. O pecado de Adão resultou na exposição de sua nudez (3:7), e da mesma forma, lemos que Noé “descobriu-se no meio de sua tenda” (9:21). O pecado de Adão trouxe uma terrível maldição sobre sua descendência (Romanos 5:12), e assim fez o de Noé (Gênesis 9:24-25). Imediatamente após a queda de Adão uma profecia notável foi dada, contendo em resumo a história da redenção (3:15), e logo após a queda de Noé uma notável profecia foi proferida, contendo em resumo a história das grandes divisões da nossa raça.

 

O Sistema Mundial Carnal

 

Gênesis 10 e 11 tratam da história da terra pós-diluviana. Eles nos mostram algo dos caminhos dos homens neste novo mundo revoltoso contra Deus, procurando glorificar-se e divinizar a si mesmos. Eles dão a conhecer os princípios carnais pelo qual o sistema do mundo está agora regulamentado. Desde Gênesis 10:8-12 e 11:1-9, interrompe-se o curso das genealogias ali indicadas, eles devem ser considerados como um parêntese importante: o primeiro explica este último. O primeiro está preocupado com Ninrode, e dele aprendemos que: 1. Ele era descendente de Cão, por meio de Cuxe (10:8), e, portanto, o descendente da família de Noé em que a maldição repousava. 2. Ninrode significa “o rebelde”. 3. “Ele começou a ser poderoso na terra”, o que implica que ele lutou por preeminência e pela força da vontade a obteve. 4. “Na terra” sugere conquista e subjugação, tornando-se um líder e governante de mais homens. 5. Ele era um poderoso caçador (10:9): mais três vezes em Gênesis 10 e novamente em 1 Crônicas 4:10, este termo “poderoso” para ele, em hebraico também está tencionando “chefe “e “líder”. 6. Ele era um poderoso caçador “diante da face do Senhor”: compare isso com “a terra, porém, estava corrompida diante da face de Deus” (6:11) e temos a impressão de que esse rebelde e orgulhoso prosseguiu os seus projetos ambiciosos e ímpios em desafio aberto ao Todo-Poderoso. 7. Ninrode era um rei e teve sua sede em Babilônia (10:10).

 

A partir dos versos inicias de Gênesis 10, fica claro que Ninrode tinha um desejo desenfreado por fama, a ponto de cobiçar o supremo domínio ou a constituição de um império mundial (10:10-11), e que ele liderou uma grande confederação em rebelião aberta contra Jeová. A própria palavra “Babel” significa “a porta de Deus”, mas depois, e por causa do julgamento Divino infligido sobre ele, ela veio a significar “confusão”. Juntando as diferentes informações fornecidas pelo Espírito, não pode haver dúvida de que Ninrode não só organizou um governo imperial, ao qual ele presidia como rei, mas que ele também instituiu uma nova e idólatra adoração. Apesar de não ser mencionado pelo nome em Gênesis 11, é evidente a partir do capítulo anterior que ele era o líder do movimento aqui descrito. A referência topográfica em 11:2 é muito significativa, moralmente, como “desce para o Egito” e “sobe a Jerusalém”: “partindo eles do oriente” denota que eles viraram as costas para o nascer do sol. Deus havia ordenado a Noé para “multiplicar e encher a terra”, mas aqui lemos: “E disseram: Eia, edifiquemos nós uma cidade e uma torre cujo cume toque nos céus, e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra” (11:4). Isso foi diretamente contrário a Deus, e Ele imediatamente interveio, levando a nada o plano de Ninrode, e “dali os espalhou o Senhor sobre a face de toda a terra” (11:9).

 

Na Torre de Babel outra crise havia acontecido na história da raça humana. A humanidade foi novamente culpada de apostasia e declaradamente desafiou ao Altíssimo. A confusão que Deus trouxe sobre a raça humana deu origem às diferentes nações da terra, e depois da derrubada do esforço de Ninrode temos a formação de “o mundo”, uma vez que já existia desde então. Isto é confirmado em Romanos 1, onde o apóstolo fornece a prova da culpa dos gentios. No versículo 19 lemos sobre “o que de Deus se pode conhecer”, através da exibição de Suas perfeições nas obras da criação. O versículo 21 vai mais longe, e afirma: “tendo conhecido a Deus [isto é, nos dias de Ninrode], não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes em seus discursos se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos [em conexão com a Torre de Babel]. E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível”. Foi então que a idolatria começou. No que se segue nos é dito três vezes que “Deus os entregou” (vv. 24, 26, 28). Foi então que Ele os abandonou e “deixou andar todas as nações em seus próprios caminhos” (Atos 14:16).

 

O próximo acontecimento depois dessa grande crise nos assuntos humanos registrada em Gênesis 11 foi o chamado Divino de Abraão, o pai da nação de Israel; mas antes de nos voltarmos para isto, vamos considerar alguns dos efeitos do primeiro. A primeira das nações dos gentios sobre os quais a Escritura tem muito a dizer são os egípcios, e eles manifestaram claramente a sua evidente depravação por maltratar os hebreus e desafiarem ao Senhor. As sete nações que habitavam Canaã quando Israel entrou naquela terra nos dias de Josué eram devotadas às mais terríveis abominações e impiedades (Levítico 18:6-25; Deuteronômio 9:5). As características dos impérios renomados da Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma são referidas em Daniel 7:4-7, onde eles são comparados a animais selvagens. Fora dos limites estreitos do Judaísmo o mundo inteiro era pagão, completamente dominado pelo Diabo. Após virar as costas para Aquele, que é luz, eles estavam em total escuridão espiritual e entregues à ignorância, superstição e vício. Todos buscaram a felicidade nos prazeres da terra, de acordo com seus vários desejos e apetites. Mas qualquer “felicidade” que foi apreciada por eles, era apenas uma felicidade animalesca e passageira, totalmente indigna de criaturas feitas para a eternidade. Eles estavam inteiramente insensíveis de sua verdadeira miséria, pobreza e cegueira.

 

É verdade que as artes foram desenvolvidas em um alto grau por alguns dos antigos, e que havia sábios famosos entre eles, mas as massas populares foram grosseiramente materialistas, e seus professores propagaram os absurdos mais selvagens. Eles todos e cada um deles negaram a criação Divina do mundo, retendo a maior parte daquilo que é de caráter eterno. Alguns acreditavam que não havia sobrevivência da alma após a morte, outros na teoria da transmigração, isto é, que as almas dos homens passam para os corpos dos animais. Em suma, “o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria” (1 Coríntios 1:21), e onde há ignorância de Deus há sempre a ignorância de nós mesmos. Eles não perceberam que foram vítimas do grande enganador das almas, que cega as mentes daqueles que não creem. Nenhuma nação da antiguidade foi tão altamente erudita como os gregos, no entanto, as vidas privadas de seus homens mais eminentes foram manchadas pelos crimes mais revoltantes. Aqueles que tinham o ouvido do público e mais falavam sobre a definição de homens livres de suas paixões, e gozavam da mais alta estima como sendo mestres da verdade e da virtude, fizeram-se os escravos abjetos do pecado e de Satanás, e, moralmente falando, a sociedade estava podre até o seu âmago.

 

O mundo inteiro inflamou-se em sua corrupção. A indulgência sensual foi em todos os lugares levada ao seu mais alto grau, a gula era uma arte, a fornicação foi o espetáculo sem restrição. O profeta mostra (Oséias 4) que, onde não há conhecimento de Deus na terra não há misericórdia e verdade entre seus habitantes: em vez disso, o egoísmo, a opressão e a perseguição vem sobre todos. É difícil encontrar uma página nos anais do mundo, que não forneça ilustrações trágicas da ganância e da opressão, da injustiça e da chicana, da avareza e falta de consciência, da intemperança e da imoralidade em que caíram e em relação aos quais a natureza humana é tão terrivelmente propensa. Ah, que triste espetáculo produz a história presente de nossa raça! Abundantemente ela testemunha a declaração Divina: “Certamente que os homens de classe baixa são vaidade, e os homens de ordem elevada são mentira; pesados em balanças, eles juntos são mais leves do que a vaidade” (Salmos 62:9). Os infiéis modernos podem pintar uma bela imagem das virtudes de muitas das nações, e a partir de seu ódio pelo Cristianismo, exalta-los aos mais altos patamares da realização intelectual e excelência moral, mas o testemunho claro da história definitivamente os refuta.

 

A terra foi feita um Aceldama por seus assassinatos e contendas, inundando-a com sangue. “Os lugares tenebrosos da terra estão cheios de moradas de crueldade” (Salmos 74:20). Na Grécia antiga, os pais tinham a liberdade de expor seus filhos a perecer de frio e de fome, ou serem devorados por animais selvagens; e, apesar de que tais exposições fossem frequentemente praticadas passavam sem punição ou censura. Guerras foram travadas ??com a maior ferocidade, e se algum dos vencidos escapasse da morte, a escravidão do tipo mais abjeto ao longo da vida era a única perspectiva diante deles. Em Roma, que era então a metrópole do mundo, o tribunal de César estava mergulhado na licenciosidade. Para proporcionar diversão aos seus senadores, seiscentos gladiadores lutaram entre si, mão a mão, no teatro público. Para não ficar atrás, Pompéia levou quinhentos leões para arena e envolveu um número igual de seus valentes, e “senhoras delicadas” sentadas, aplaudindo e regozijando-se sobre o banho de sangue. Os idosos e enfermos foram banidos para uma ilha no rio Tibre. Quase dois terços do mundo “civilizado” era composto por escravos, e seus senhores detinham poder absoluto sobre eles. Sacrifícios humanos eram frequentemente oferecidos nos altares de seus templos. Em seus caminhos estavam a destruição e a miséria; e não conheceram o caminho da paz (Romanos 3:16-17).

 

Os “deístas” dos séculos XVII e XVIII discursaram muito sobre a inocência encantadora das tribos que habitavam nos caramanchões silvestres de florestas virgens, intocadas pelos vícios da civilização, não poluídas pelo comércio moderno. Mas quando as florestas da América foram visitadas pelo homem branco, ele encontrou os índios como sendo tão ferozes e cruéis como os animais selvagens, de modo que, como se expressou, “A machadinha vermelha poderia ter sido estampada como o revestimento do braço do homem vermelho, e seus olhos de vingança eram como o indício de seu caráter”. Quando os viajantes penetraram no interior da África, onde esperava-se encontrar a natureza humana em sua excelência primitiva, eles descobriram, em vez disso, diabrura primitiva. Tome as raças mais calmas, olhe para o rosto gentil de um hindu, alguém poderia supor que ele é incapaz de brutalidade e bestialidade, mas deixe que os fatos da rebelião Sepoy do século passado sejam lidos, e você encontrará a inclemência do tigre. Assim também é com o chinês plácido, o Levante dos boxers1 e as atrocidades no início deste século testemunharam desumanidades similares. Se uma nova tribo for descoberta, devemos saber que essa também deve ser depravada e viciosa; apenas o fato de sermos informados de que eles eram homens nos obriga a concluir que eles eram “odiosos e odiando uns aos outros” [Tito 3:3].

 

A Depravação Tanto de Judeus Quanto de Gentios

 

A depravação dos gentios não pode excitar surpresa, uma vez que as suas religiões, em vez de restringir, fornecem estímulo para os vícios mais horríveis, nos exemplos de seus deuses extravagantes. Todavia os judeus eram melhores? A consideração de seu caso, deve não só voltar-se a partir do geral para o particular, mas também temos diante de nós aquelas pessoas que foram designadas por Deus para serem uma amostra da natureza humana. O Ser Divino os escolheu e os separou de todas as outras nações, derramando sobre eles Seus benefícios, os fortaleceu com muitos encorajamentos, fez milagres em Seu nome, os impressionou com as ameaças mais terríveis, castigou-os severamente e frequentemente inspirou Seus servos a dá-nos um relato preciso da Sua resposta. E que resposta infeliz era esta! Excetuando-se a conduta de alguns indivíduos, entre eles, os quais, sendo o efeito da graça Divina, não fizeram nada contra o que estamos aqui apenas demonstrando — na verdade servem para intensificar o contraste — a história triste dos judeus, de forma geral, não foi nada além de uma série de rebeliões e contínuos afastamentos do Deus vivo. Nenhuma outra nação foi tão altamente favorecida e ricamente abençoada pelo Céu, e ninguém retribuiu de forma tão miserável à bondade Divina.

 

Providos com uma lei que foi elaborada e proclamada pelo próprio Deus, e que foi imposta pela mais cativante e também a mais impressionante das sanções, dentro de poucos dias após a sua recepção a nação inteira estava envolvida na adoração obscena de um bezerro de ouro. Foram-lhes concedidos os oráculos e ordenanças Divinas, mas eles não foram nem apreciados nem atendidos. No deserto eles provocaram muito o Santo por suas murmurações, suas concupiscências pelas panelas de carne do Egito, quando supridos com “pão dos anjos” (Salmo 78:25), sua idolatria se prolongou, (Atos 7:42-43), e também sua incredulidade (Hebreus 3:18). Depois que eles receberam por herança a terra de Canaã, logo evidenciaram sua vil ingratidão, pelo que o Senhor disse ao seu servo entristecido: “Não te têm rejeitado a ti, antes a mim me têm rejeitado, para eu não reinar sobre eles” (1 Samuel 8:7). Então, eles foram avessos a Deus e aos Seus caminhos que eles odiavam, perseguiram e mataram os mensageiros que Ele enviou para convertê-los de sua maldade. “Não guardaram a aliança de Deus, e recusaram andar na sua lei” (Salmos 78:10). Eles declararam: “Não há esperança; porque amo os estranhos, após eles andarei” (Jeremias 2:25).

 

Após a prova em Romanos 1 da depravação total do mundo gentio, o apóstolo voltou-se para o caso do privilegiado Israel, e a partir de suas próprias Escrituras demonstrou que eles eram igualmente contaminados, e estavam igualmente sob a maldição de Deus. Fazendo a pergunta: “Pois quê? Somos nós mais excelentes?”, ele respondeu: “De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado” (Romanos 3:9). Assim também em 1 Coríntios 1, onde o maior desprezo é lançado sobre o que é altamente estimado entre os homens, o judeu é colocado no mesmo nível que o gentio. Ali nos é mostrado como Deus vê as pretensões arrogantes do intelectual deste mundo. Quando ele pergunta “Onde está o sábio?” [v. 20], faz referência aos filósofos gregos que eram honrados com esse título. Seu próprio questionamento é um derramamento de desprezo sobre suas reivindicações orgulhosas. Com todo o seu conhecimento alardeado, você já descobriu o Deus vivo e verdadeiro? Eles são desafiados a se apresentarem com seus esquemas de religião. Depois de tudo que você ensinou aos outros, o que você tem feito? Você já descobriu o caminho para a felicidade eterna? Você já aprendeu como pecadores culpados podem ter acesso a um Deus santo? Longe de ser sábios, Deus declara que tais sábios como Pitágoras e Platão eram tolos.

 

Em seguida, Paulo pergunta “onde está o escriba?” (1 Coríntios 1:20), que era o homem sábio, o professor estimado entre os judeus. Ele também estava em tão grande distância e muito ignorante do verdadeiro Deus. Assim, longe de possuir qualquer verdadeiro conhecimento de Deus, ele era um inimigo amargo para o mesmo quando foi proclamado por Seu Filho encarnado. Embora os escribas apreciaram a vantagem inestimável de possuir as Escrituras do Antigo Testamento, eles eram, em geral, tão ignorantes da salvação de Deus como foram os filósofos pagãos. Em vez de apontar para a morte do Messias prometido como o grande sacrifício pelo pecado, eles ensinaram os seus discípulos a dependerem das leis e cerimônias de Moisés, e das tradições inventadas por homens. Quando Cristo se manifestou a eles foram, portanto, os primeiros que, longe de recebê-lO, tornaram-se Seus perseguidores mais amargos; porque Ele apareceu diante deles na forma de um servo, o que não se harmonizou com seus corações orgulhosos. Embora Ele fosse “cheio de graça e de verdade”, não viram nenhuma beleza nEle para que O desejassem. Embora tenha anunciado boas novas, eles se recusaram a dar ouvidos a elas. Quando Cristo realizou milagres de misericórdia, diante deles, eles não acreditaram nEle. Embora Ele tenha buscado apenas o seu bem, eles lhe retornaram somente o mal. Sua linguagem era: “Não queremos que este reine sobre nós” (Lucas 19:14).

 

O Desprezo Por Cristo

 

A negligência geral e até mesmo desprezo que o Senhor Jesus encontrou entre as pessoas, proporciona uma visão muito humilhante do que é a nossa natureza humana caída, mas as profundezas terríveis da depravação humana foram mais claramente evidenciadas pelos escribas e fariseus, os sacerdotes e os anciãos. Embora bem familiarizados com os profetas, e professando estarem esperando o Messias, contudo com malignidade desesperada e impiedosa estes buscavam Sua destruição. Todo o curso de sua conduta mostra que eles agiram contra suas convicções de que Jesus Cristo era o Messias, certamente eles tinham pleno conhecimento de Sua inocência de tudo que eles O acusavam. Isto é evidente a partir da clara intimação dEle que ao ler seus corações, e saber o que eles estavam dizendo dentro de si. “Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo” (Mateus 21:38). Eram tão incansáveis quanto sem escrúpulos em sua malícia. Eles ou seus servos, perseguiram Seus passos de um lugar para outro, esperando que em Sua relação mais íntima com os Seus discípulos pudessem mais facilmente apanhá-lO, ou encontrar algo em Suas palavras ou ações que poderiam distorcer para acusá-lO. Eles usaram todas as oportunidades para envenenar as mentes do povo contra Ele, e, não contentes com calúnias ordinárias dirigidas ao Seu caráter, disseram que Ele estava ministrando sob a inspiração imediata de Satanás.

 

Donde tal tratamento iníquo dispensado ao Filho de Deus procede? Donde, senão das vis corrupções de seus corações? “Odiaram-me sem causa” (João 15:25), declarou o Senhor da Glória. Não havia nada, seja em Seu caráter ou em Sua conduta, que merecesse o seu vil desprezo e inimizade. Eles amaram mais as trevas, e, portanto, odiaram a luz. Eles estavam apaixonados por suas más concupiscências e se deleitavam em gratifica-las. Assim, também, com seus seguidores iludidos, que deram ouvidos aos falsos profetas, que disseram: “Paz, paz” para eles, lisonjeando-os e encorajando-os em sua carnalidade. Consequentemente, eles não podiam tolerar o que era desagradável aos seus gostos depravados e condenava suas práticas pecaminosas; e, portanto, este “povo”, bem como seus principais sacerdotes e governantes gritaram: “Fora daqui com este, e solta-nos Barrabás” (Lucas 23:18). Depois de O haverem perseguido até a morte de um criminoso, sua má vontade O perseguiu até o túmulo, pois eles vieram a Pilatos e exigiram que ele guardasse Seu sepulcro. Quando o seu esforço foi provado ser em vão, o alto Sinédrio de Israel subornou os soldados que tentaram guardar o túmulo, e com deliberação premeditada colocaram uma terrível mentira em suas bocas (Mateus 28:11-15).

 

Nem a inimizade dos inimigos de Cristo diminui depois que Ele partiu deste cenário e voltou para o céu. Quando Seus embaixadores saíram a pregar o Seu Evangelho, eles foram presos e proibidos de ensinar em nome de Jesus, e, em seguida, liberados sob ameaça de punição (Atos 4). Após a recusa dos apóstolos a cumprir isso, eles foram novamente espancados (Atos 5:40). A Estevão eles apedrejaram até a morte. Tiago foi decapitado, e muitos outros foram dispersos para escapar da perseguição. Exceto quando Deus quis pôr Sua mão restringidora sobre eles, e aqueles em quem Ele operou um milagre da graça, judeus e gentios igualmente desprezaram o Evangelho e voluntariamente se opuseram ao seu progresso. Em alguns casos, o seu ódio à verdade foi menos abertamente exibido do que em outros, no entanto, não era menos real. Aconteceu o mesmo desde então. Não importando quão seriamente e de modo cativante o Evangelho seja pregado, não ganha quem o ouve, na maioria das vezes eles são como aqueles dos dias de nosso Senhor, “eles, porém, não fazendo caso, foram, um para o seu campo, outro para o seu negócio” (Mateus 22:5). A grande maioria é demasiada indiferente a buscar até mesmo um conhecimento doutrinal da verdade. Há muitas pessoas que consideram esta ebriedade dos perdidos como mera indiferença, mas na verdade é algo muito pior do que isso, ou seja, não gostam de coração das coisas de Deus, são diretamente antagônicos a Ele.

 

Sua hostilidade é evidenciada pela forma como eles tratam o povo de Deus. Quanto mais próximo o crente anda com o seu Senhor, mais ele será ofendido e maltratado por aqueles que são estranhos a Ele. Mas “bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça” (Mateus 5:10). Como alguém pontuou, “É uma forte prova da depravação humana que as maldições dos homens e as bênçãos de Cristo devam reunir-se nas mesmas pessoas. Quem teria pensado que um homem podia ser perseguido e injuriado, e ter todo o mal dito a seu respeito por causa da justiça?”. Mas os ímpios realmente odeiam a justiça e integridade, e amam aqueles que os defraudam e erram com eles? Não, eles não se desagradam da justiça que respeita os seus próprios interesses, isso é apenas quanto àquela espécie de justiça que pleiteia os direitos de Deus. Se os santos estivessem satisfeitos com o estabelecimento da justiça e da misericórdia amorosa, e deixassem de andar humildemente com Deus, eles poderiam ir por todo o mundo, não somente em paz, mas com a aprovação do não-regenerado; mas “todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições” (2 Timóteo 3:12), pois tal vida reprova a impiedade do ímpio. Se a compaixão move o Cristão a alertar seus vizinhos pecaminosos de seu perigo, ele é susceptível de ser insultado por suas advertências. Suas melhores ações serão atribuídas aos piores motivos. No entanto, longe de ser abatido por tal tratamento, o discípulo deve regozijar-se de que ele é considerado digno de sofrer um pouco por amor do seu Mestre.

 

O Repúdio Da Lei De Deus

 

A depravação do homem aparece em seu repudiar a Lei Divina posta sobre ele. É direito de Deus ser reconhecido como Soberano por Suas criaturas, mas eles nunca são tão satisfeitos como quando invadem Sua prerrogativa, quebram Suas leis, e contradizem Sua vontade revelada. Quão pouco é compreendido que é tudo a mesma coisa, repudiar o Seu cetro, e repudiar o Seu Ser: quando repudiam Sua autoridade, negam Sua Divindade. Há no homem natural uma aversão a ter qualquer familiaridade com a regra a qual o seu Criador lhe impôs: “E, todavia, dizem a Deus: Retira-te de nós; porque não desejamos ter conhecimento dos teus caminhos. Quem é o Todo-Poderoso, para que nós o sirvamos? E que nos aproveitará que lhe façamos orações?” (Jó 21:14-15). Isso é visto em sua relutância em usar os meios para a obtenção de um conhecimento de Sua vontade: porém eles são ávidos em sua busca por todos os outros tipos de conhecimento, embora sejam diligentes em estudar a formação, constituição e as formas de criaturas, eles se recusam a familiarizar-se com o seu Criador. Ao tomar conhecimento de alguma parte de Sua vontade, eles se esforçam para removê-la: eles não “se importaram de ter conhecimento de Deus” (Romanos 1:28). Se eles não prosperam, eles não têm prazer na consideração de tais conhecimentos, mas fazem o possível para removê-lo de suas mentes.

 

Se há uma classe de não-regenerados que são exceções à regra geral, são aqueles que frequentam a igreja, fazem uma profissão de religião, e tornam-se “estudantes da Bíblia”, eles são motivados pelo orgulho do intelecto e da reputação. Eles têm vergonha de ser considerados como ignorantes espirituais, e desejam ter uma boa reputação nos círculos religiosos. Assim, eles garantem um manto de respeitabilidade, e muitas vezes a estima do povo de Deus. No entanto, eles não possuem a graça. Eles “detêm a verdade em injustiça” (Romanos 1:18), eles a detêm, mas não aderem a ela, sua influência não os transforma. Se eles ponderam sobre, não é com prazer; se têm prazer nela, é apenas porque o seu estoque de informações é aumentado e eles estão melhor equipados para manter suas próprias opiniões em uma discussão. Seu desígnio é informar a sua compreensão, e não vivificar sua afeição. Há muito mais hipocrisia do que sinceridade dentro dos limites da Igreja. Judas era um seguidor de Cristo, porque ele “tinha a bolsa, e tirava o que ali se lançava” (João 12:6), e não por qualquer amor pelo Salvador. Alguns têm a fé ou a verdade de Deus “em acepção de pessoas” (Tiago 2:1), eles recebem não da Fonte, mas a partir do canal, de modo que muitas vezes a mesma verdade entregue por outro é rejeitada, a qual, quando vindo da boca (e fantasia) de seu ídolo, é considerada como um oráculo. Isso é fazer o homem e não Deus sua regra, pois, embora seja reconhecido que é verdade, no entanto, não é recebido no amor da verdade, mas sim como o que é dado por um instrumento admirado.

 

A depravação da natureza humana é vista na reversão triste e geral para a escuridão de um povo após ter sido favorecido com a luz. Mesmo quando Deus tem sido conhecido e Sua verdade tem sido proclamada, se Ele deixa os homens ao trabalho de seus maus corações, eles rapidamente caem em um estado de ignorância. Noé e seus filhos viveram por séculos após o dilúvio a ponto de fazer conhecidas no mundo as perfeições de Deus, mas todo o conhecimento dEle logo desapareceu; Abrão e seu pai eram idólatras (Josué 24:2). Mesmo depois que um homem tem experimentado o novo nascimento e tornar-se o objeto da influência Divina imediata, quanta ignorância e erro, imperfeição e impropriedade ainda permanecem! Somente pelo fato de que ele não é completamente sujeito ao Senhor. As rebeliões e apostasias parciais de Cristãos genuínos são uma demonstração terrível da corrupção da natureza humana. A nossa tendência a cair em erro após a iluminação Divina é solenemente ilustrada pelos Gálatas. Eles tinham sido instruídos por Paulo, e por meio do poder do Espírito tinha acreditado no Salvador anunciado. Então, se alegraram e o receberam “como um anjo de Deus” (4:14); ainda no decorrer de alguns anos muitos desses conversos deram ouvidos a falsos mestres, até que renunciaram a seus princípios, a ponto do apóstolo ter dizer-lhes “estou perplexo a vosso respeito” (4:20). Olhe para a Europa, Ásia, África, após a pregação dos Apóstolos e aqueles que imediatamente os sucederam. Embora a luz do Cristianismo tenha iluminado a maioria das partes do Império Romano, foi rapidamente extinta e deu lugar à escuridão. A maior parte do mundo caiu como vítima do Catolicismo Romano e do Islamismo.

 

Nada demonstra mais fortemente a pecaminosidade do homem do que sua propensão à idolatria: nenhum outro pecado foi tão fortemente denunciado ou tão severamente punido por Deus. Ídolos são apenas obra das mãos dos homens, e, portanto, inferiores a eles mesmos, logo, quão irracional é adorá-los! Pode a loucura humana ir mais longe do que os homens imaginarem ser capazes de fabricar deuses? Aqueles que têm caído tão baixo a ponto de confiar em um bloco de madeira ou pedra chegaram ao extremo da tolice. Como o Salmo 115 aponta: “Têm boca, mas não falam; olhos têm, mas não veem... A eles se tornem semelhantes os que os fazem”, tornam-se tão tolos, tão incapazes de ouvir e ver as coisas que pertencem à sua salvação. Os Romanistas e seus imitadores não são melhores do que os gentios que não possuem uma Bíblia, pois pervertem a espiritualidade e a simplicidade do culto Divino por cerimônias infantis. Deus exige a adoração da alma, e eles oferecem a Ele a do corpo. Ele pede o coração, eles dão-Lhe os lábios. Ele exige uma homenagem da compreensão, mas eles zombam dEle com altares e crucifixos, velas e incenso, vestes pomposas e genuflexões.

 

A corrupção da natureza humana descobre-se em crianças pequenas. Como os nossos pais tinham o costume de dizer: “O que é produzido no osso aflora na carne”. E quão cedo isto acontece! Se houvesse alguma bondade inata no homem, seria certamente mostrada durante os dias de sua infância, antes dos princípios virtuosos serem corrompidos, e maus hábitos formados por seu contato com o mundo. Mas podemos encontrar crianças inclinadas a tudo o que é puro e excelente, e avessas a tudo que seja errado? Elas são mansas, dóceis, cedendo facilmente à autoridade? Elas são altruístas, magnânimas quando outra criança pega o seu brinquedo? Longe disso. O resultado invariável do crescimento nos seres humanos é que, logo que seja maduro o suficiente para expor quaisquer qualidades morais através na ação humana eles exibem as más. Muito antes de atingirem idade suficiente para entender seus próprios temperamentos maus, eles manifestam a vontade própria, cobiça, engano, raiva, rancor e vingança. Eles choram e se afligem pelo que não é bom para eles, e estão indignados com os mais velhos por sua recusa, muitas vezes tentando atacá-los. Aqueles nascidos e criados no meio de honestidade são culpados de furtos insignificantes antes mesmo de testemunharem um ato de roubo. Estas manchas não devem ser atribuídas à ignorância, mas à sua discordância com a Lei Divina, a qual a natureza do homem foi originalmente conformada; que mudança terrível o pecado operou na constituição humana. A natureza humana é visivelmente contaminada desde o início de sua existência.

 

A prevalência universal da doença e morte testemunham inequivocamente a queda do homem. Todas as dores e doenças dos nossos corpos, pelas quais a nossa saúde é prejudicada e nossa passagem por este mundo se torna inquieta, são as consequências de nossa apostasia de Deus. O Salvador fez uma insinuação clara de que a doença é o efeito do pecado quando Ele curou o homem com a paralisia, dizendo: “Os teus pecados te são perdoados” (Mateus 9:2); como o salmista também liga entre si o fato de Deus perdoar o Seu povo e a cura de suas enfermidades (103:3). “Não é algo que acontece a todos”. Sim, mas por que deveria? Por que deveria haver desperdício e dissolução? A Filosofia não oferece nenhuma explicação. A ciência pode fornecer nenhuma resposta satisfatória, para dizer que a doença resulta da decadência da natureza e com isso somente esquivar-se do questionamento. A doença e a morte são anormalidades. O homem é criado pelo Deus eterno, dotado de uma alma imortal; por que, então, ele não continua a viver aqui para sempre? A resposta é: por causa da Queda, a morte é o salário do pecado.

 

A ingratidão do homem ao Seu benfeitor gracioso é mais uma evidência de sua triste condição. Os israelitas eram uma amostra lamentável de toda a humanidade a este respeito. Embora o Senhor os livrou da casa da servidão, milagrosamente os conduziu através do Mar Vermelho, conduziu-os de forma segura através do deserto, eles não valorizaram isto. Embora Ele, com uma nuvem, os escondeu do calor do sol, e tenha lhes iluminado de noite numa coluna de fogo, e os alimentou com pão do céu, tenha feito ribeiros fluírem no deserto de areia, e os trouxe para a posse de uma terra que mana leite e mel, eles estavam continuamente murmurando e descontentes. E nós não somos melhores. As misericórdias de Deus são recebidas como uma coisa natural. A mão que tão generosamente ministra às suas necessidades não é reconhecida ou mesmo conhecida pelos homens. Ninguém está satisfeito com o lugar e parte que lhe foi atribuído pela Providência, ele está sempre cobiçando o que não tem. Ele é uma criatura dada a mudanças, acometido de uma doença que Salomão chamou de “o vaguear da cobiça” (Eclesiastes 6:9).

 

“Todo cão que ladra contra mim, cada cavalo que levanta o seu calcanhar contra mim, prova que eu sou uma criatura caída. A criação bruta não tinha inimizade contra o homem antes da Queda. A criação prestou uma homenagem voluntária a Adão (Gênesis 2:19). Eva não mais temia a serpente do que uma mosca. Mas quando o homem renunciou à fidelidade do seu Deus, os animais por permissão Divina deixaram a fidelidade ao homem” (John Berridge, O Mundo Cristão Desvelado). É uma prova de sua degradação que o preguiçoso seja exortado a “ir ter com a formiga” e aprender com uma criatura muito mais baixa na escala dos seres! Considere a necessidade das leis humanas, cercada com punições e terrores para conter as concupiscências dos homens, no entanto, apesar do grande e custoso aparato das forças policiais, tribunais e prisões, quão pequeno é o sucesso que seus esforços alcançam para reprimir a maldade humana! Nem a educação, nem a legislação e nem a religião são suficientes.

 

Por fim, pegue a experiência invariável dos santos. É parte da obra do Espírito Santo: abrir os olhos dos cegos, fazer a alma ver sua miséria e torná-la sensível em relação à sua extrema necessidade de Cristo. E quando Ele, portanto, leva um pecador a perceber sua condição arruinada por transmitir um conhecimento experimental do pecado, sua beleza é imediatamente transformada em corrupção, e ele grita: “Eis que sou vil” [Jó 40:4]. Apesar de graça ter entrado em seu coração, sua depravação natural não foi expulsa. Embora o pecado não tenha mais domínio sobre ele, ele se enfurece e, muitas vezes, prevalece contra ele. Há uma guerra incessante interiormente entre a carne e o espírito. Não há necessidade de nos estendermos sobre este ponto, pois cada Cristão geme dentro de si mesmo, e por causa da praga do seu coração clama: “Miserável homem que eu sou” [Romanos 7:24]. Miserável, porque ele não vive como sinceramente ele deseja viver, e porque ele muitas vezes faz as próprias coisas que ele odeia, gemendo diariamente durante suas imaginações más, pensamentos errantes, incredulidade, orgulho, frieza, pretensão.

 

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[1] Levante, Rebelião ou Guerra dos boxers (1899-1900), chamado também de Movimento Yijetuan, foi um movimento popular antiocidental e anticristão na China (Wikipédia).

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