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Convertei-vos Pela Minha Repreensão, por R. M. M´Cheyne

“A sabedoria clama lá fora; pelas ruas levanta a sua voz. Nas esquinas movimentadas ela brada; nas entradas das portas e nas cidades profere as suas palavras: Até quando, ó simples, amareis a simplicidade? E vós escarnecedores, desejareis o escárnio? E vós insensatos, odiareis o conhecimento? Atentai para a minha repreensão; pois eis que vos derramarei abundantemente do meu espírito e vos farei saber as minhas palavras”. (Provérbios 1:20-23)

 

Que não é outro senão o nosso Senhor Jesus Cristo que é representado diante de nós sob a figura majestosa da Sabedoria contida no Livro de Provérbios, é evidente a partir da passagem diante de nós. De quem, além do Salvador, pode ser dito, que verdadeiramente, esteve de mãos estendidas nas ruas, nos mercados e nas portas das cidades, chorando após os simples, os publicanos, pecadores e os escarnecedores; os escribas e os fariseus; e aqueles que odiavam o conhecimento, os sacerdotes judeus. Outra vez digo, de quem além do Salvador pode ser dito em verdade, que se ofereceu para derramar do seu Espírito sobre o pecador arrependido fazendo-o conhecer a Sua palavra? Só Cristo "ascendeu aos céus nas alturas levando cativo o cativeiro; tendo assim comprado dons para o homem, sim, incluindo os rebeldes, para que o Senhor Deus habitasse no meio deles”.

 

Irmãos antes de pressionar sobre vocês a respeito deste sério e arrebatador chamado do Salvador, existem duas explicações que eu ansiosamente desejo que cada um de vós tenha em mente.

 

Primeiramente, que o chamado do Salvador, nas palavras que estão diante de nós, assim como a promessa que as acompanha, são dirigidas a pecadores e não a santos. Ainda mais, elas não são dirigidas a todos os pecadores indiscriminadamente; elas não são dirigidas àqueles que foram despertados ao saber que estão em perigo e clamam: "varões irmãos, que faremos?". Elas foram dirigidas aos simples, que estão amando a sua simplicidade; aos escarnecedores que se deleitam no seu escárnio; aos loucos, que odeiam o conhecimento. A Bíblia é cheia de promessas preciosas àqueles que estão "escondidos em Cristo", o Seu povo peculiar, o Seu corpo, a Sua noiva; e existem muitos chamados à perseverança e encorajamentos de vitória para aqueles em que Deus começou a obra ao convencê-los do pecado. Mas as palavras que estão diante de nós não pertencem a nenhum destes; elas são dirigidas àqueles que estão mortos em suas transgressões e seus pecados; àqueles que estão tão perdidos e que não sabem que estão perdidos; àqueles que são felizes de uma forma confortável nos seus pecados; àqueles que não têm a menor dúvida quanto à suficiência da sua decência mundana e respeitabilidade como justos diante de Deus, como quem não se move a se interrogar muito se é salvo ou não; o simples amando a sua simplicidade, os escarnecedores deleitados em seu escárnio e os tolos que odeiam o conhecimento.

 

Algum de vocês tem alguma secreta suspeita que pode ser exatamente uma destas personagens que acabamos de descrever? Eu suplicaria, que o homem sentisse que o é, e que neste dia é lhe dirigido pelo Salvador, não em termos de ira, mas a partir do maior carinho e delicadeza. É para você que Jesus estica as mãos suplicando. É para você que Jesus fala estas gentis palavras. Oh! Quão cego você está para as entranhas e compaixões do Salvador. Oh! Como você O desonra todos os dias pelos seus violentos e blasfemos pensamentos sobre Ele. Você pensa que ao você se deleitar em se afastar dEle, ele não tem nada a não ser mensagens de ira e de julgamento final para você. Mas oh! Quão mais sábio é reunir os Seus pensamentos direcionados a você a partir das Suas próprias palavras: "Atentai para a minha repreensão; pois eis que vos derramarei abundantemente do meu espírito e vos farei saber as minhas palavras”.

 

A minha segunda explicação é, que o chamado de Cristo é para uma conversão imediata. Ele não diz: "Porque é amarás a tua simplicidade?" e sim "Até quando amareis a tua simplicidade?". Outra vez, Ele não diz: "atentai a qualquer momento, e Eu derramarei abundantemente do Meu Espírito sobre vós", e sim "atentai para a Minha repreensão"; isto é, "atentai hoje, enquanto Eu te reprovo". Imediata conversão para Deus; imediata aplicação do sangue de Cristo; imediata aceitação da justiça de Deus; uma ação hoje; conversão hoje; esta, e não outra, é a doutrina deste texto. Que nenhum de vós diga, "eu tomarei esta graciosa oferta em consideração"; "Eu considerarei a questão um dia destes com toda a devida deliberação"; "eu separarei um dia para resolver este propósito em particular". Esse homem dentre vocês, está lançando de uma forma tão efetiva uma zombaria sobre a palavra do Salvador, como se ele dissesse: "não terei parte ou porção neste assunto". Não são resoluções para o futuro que Cristo demanda de você, e ao que Ele une a promessa do Espírito; é "atentai hoje", conversão hoje, enquanto Ele repreende você.

 

Tendo explicado estas coisas, é agora meu desejo pressionar sobre vocês o chamado do Salvador por meio de três argumentos:

 

I. O chamado do Salvador deve ser obedecido por você por causa da rica promessa na qual está envolvido: "Atentai para a minha repreensão; pois eis que vos derramarei abundantemente do meu espírito e vos farei saber as minhas palavras”.

 

Frequentemente na Bíblia, os pecadores suplicam para se converterem e crerem em Jesus, por causa da paz e do perdão encontrados ao crerem; mas o argumento aqui é mais raro, e ainda mais profundo. Aqui, você está sendo solicitado a converter-se e a crer, para que você possa ser uma nova criatura: “Atentai para a minha repreensão; pois eis que vos derramarei abundantemente do meu espírito”.

1. Pense como é essencial esta mudança para sua bem-aventurança: “aquele que não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus”; “Sem santidade, ninguem verá o Senhor”. Para habitar nos novos céus e na nova terra, nós temos que ser feitos novas criaturas. Haverá um cenário peculiar no Céu, quando os portões de pérola da nova Jerusalém aparecerem; mas um homem cego, não conseguiria apreciá-lo. Haverá uma extraordinária melodia no Céu, vindo das harpas de ouro dos anjos e dos redimidos; mas um homem sem audição para musica, não conseguiria apreciá-la. E exatamente assim, haverá santidade impecável no céu, esta será a própria atmosfera do Céu. Como pode então, uma alma impura aprecia-lo? “Não te maravilhes de te ter dito: necessário vos é nascer de novo”.

 

2. Mas se esta é uma mudança essencial, pense como é impossível para o homem. Examine cada seita e sistema de filosofia, pesquise cada plano de educação, pesquise de uma ponta da terra à outra, onde é que você encontrará um poder que o torne santo?

 

"As profundezas dizem, não está em mim:
e o mar diz: não está comigo,
Não se dará por ela ouro fino,
nem se pesará a prata em troca dela.
Não se fará menção de coral nem pérolas;
porque o valor da sabedoria é melhor que o dos rubis”.

 

Um homem pode ser capaz de mudar os seus pecados mas, ah! Que homem pode mudar o seu coração? A razão disto ser totalmente impossível para o homem, é que ele não é apenas apaixonado pelos objetos do pecado, mas  ele é apaixonado pelo seu coração pecador; ele não é apenas simples, ele ama a sua simplicidade; não apenas escarnecedor, ele deleita-se no escárnio; não somente louco, mas ele odeia todo o conhecimento que o tornará sábio para a salvação.

 

Quantos de vocês não sentem o poder da ternura do  Salvador, ternura na oferta que Ele faz neste dia para os mais descuidados e adormecidos entre todos vocês: “Atentai para a minha repreensão; pois eis que vos derramarei abundantemente do meu espírito”. Se você apenas atentarem e receberem a Cristo neste dia, Ele oferece-Se para lhe dar aquele Espírito que por Si só, pode fazê-lo uma nova criatura, que por Si só pode dar-lhe um coração que será apto ao Céu.  

 

Você errou totalmente nesta questão, se pensa que Cristo aqui oferece coloca-lo debaixo de um sistema de rigor e contenção. Você errou totalmente neste assunto, se você pensa que o dom do Espírito é para faze-lo caminhar  por caminhos de rigidez e dor; porque toda a Bíblia testifica que os caminhos em que o Espírito nos dirige são caminhos de deleite e paz. Suponha que um homem passou a ser tão tolo e imprudente como ter um gosto invencível por alguma droga venenosa, por causa da doçura e da agradabilidade do sabor; e habituou-se a fazer esse uso constantemente, de modo que a morte seria, ao longo do tempo, uma consequência inevitável. Eu posso imaginar pelo menos duas maneiras pelas quais os amigos daquele homem inconstante, ansioso por sua vida, podem curá-lo de seu apetite estranho e mui destrutivo. Primeiro, Eles podem contê-lo à força e mantê-lo longe do uso do veneno, proibindo-o sequer de traze-lo à sua vista. Este seria o sistema de restrição; o apetite permaneceria, mas ser-lhe-ia impedido e recusado. Ou, em segundo lugar, em vez de forçosamente retirar o veneno, poderiam trazer um novo e saudável objeto diante ele, cujo sabor seria mais agradável e excelente, de forma que quando ele provasse este, não haveria mais temor que ele desejaria o antigo veneno. Um novo sabor foi introduzido, para que a droga que antes parecia doce e agradável, não fosse mais saborosa. Ainda que esta parábola seja muito imperfeita, mostra claramente a distinção de uma característica na santificação, a qual eu desejo trazer à luz, nomeadamente, a sua agradabilidade. O Espírito que Cristo oferece nunca nos santifica da primeira forma, e sim, sempre da segunda forma; não por restrição e sim fazendo de nós novas pessoas. Por natureza, nós amamos o pecado, o mundo e as coisas do mundo, apesar de sabermos que o salário do pecado e a morte. Agora, para curar isto eu posso imaginar um homem esforçando-se deliberadamente para cortar todas as suas paixões corrompidas, para restringir todos os seus apetites, para rejeitar e pisar em todos os objetos que o seu coração natural está alicerçado. Este é o sistema recomendado por Satanás, pelo anti-cristo e pelo mundo, mas existe uma forma que de longe, é bem mais excelente, que é a que o Espírito Santo usa para nos santificar; não mudando os objetos, mas mudando as afeições; não por restrição externa e sim por uma renovação interna. Como diz em Ezequiel: "e dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vós darei um coração de carne. E porei em vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis”.

 

Ah! Irmãos, se houver aqui um pobre pecador que tenha sido enganado pela detestável heresia do mundo; como se o cumprimento dos mandamentos pelos santos, fosse um serviço penoso e sem vontade; que esse homem, hoje, abra os olhos para a verdadeira natureza da santidade do Evangelho; que Deus não opera em você o efetuar, sem primeiro operar em você a querer. Ele não opera para impedir os seus objetos favoritos; mas Ele concede-lhe um novo apreço por objetos muito mais elevados; e como um jovem não encontra dificuldade em lançar fora os seus brinquedos e ninharias que eram seus amigos próximos em sua infância, da mesma forma, os santos, não sentem dificuldade em lançar fora os brinquedos miseráveis que tanto tempo divertiram e enganaram a alma; para contemplar um novo mundo que lhe foi aberto pelo Espírito de Deus, para contemplar com o olhar enamorado do crente em Jesus. Então contemplem, vocês, simples, que estão amando a sua simplicidade, que argumento é exposto para movê-lo à conversão imediata; à aceitação imediata de Jesus! Se você unicamente se lançar em Cristo, contemple que Ele oferece-Se hoje para começar uma obra de recriá-lo mais uma vez; não por impedi-lo ou restringi-lo, ou por amarrá-lo a afazeres em que você falhará, e sim dando-lhe um apreço e um deleite em objetos em que os próprios anjos e santos e bem-aventurados seres se deleitam. "Atentai para a Minha repreensão".

 

II. O chamado do Salvador para atentarmos para Ele hoje, deve ser obedecido por nós, porque a conversão, torna-se mais difícil a cada dia. Não existe lei na nossa natureza que trabalhe com mais eficácia e subtileza do que a lei da habituação. De início nós achamos a máxima dificuldade na realização, fica mais fácil após cada tentativa, até que o hábito se torna como era, uma segunda natureza. É como aprender a ler, quão lento e gradual é esse processo, até ser treinado por várias tentativas repetitivamente, a língua balbuciante torna-se uma língua de graça e fluência. Esta tarefa fica tão fácil que nos esquecemos de notar as letras que compõem as palavras que lemos. Semelhantemente, é o crescimento do hábito de pecar. Depravado como é o coração natural, assim a mente ingênua da juventude acha algo doloroso e revoltante adquirir o primeiro juramento que a moda ou a companhia o obriga a aprender. O gracejo e o escárnio irreligioso, em geral, farão aparecer a face corada de indignação do jovem de coração simples, recentemente introduzido neste mundo agitado. Mas quem é que não conhece o poder do hábito na raspagem da fina verniz da mente delicada? Quem é que não ouviu em poucos meses, juramento como que com uma vivacidade natural na língua? Quem não viu a depravação e profanação passar sem reprovação, até mesmo pelo silencioso rubor da vergonha? Como ocorre com esses pecados, assim é com o maior pecado do qual a humanidade é culpada; o pecado de rejeitar o Salvador.

 

Existe um momento na juventude, onde a mente parece peculiarmente aberta à recepção de um  Salvador. Existe um momento, onde o entendimento e as afeições repentinamente explodem e avançam para a maturidade, como o botão de rosa torna-se a rosa plenamente desabrochada; um tempo que todas as paixões da nossa natureza desprezam o controle, e rompem com uma impetuosidade imprudente; e toda a experiência comprova que esse é o momento em que a convicção do pecado pode mais facilmente ser forjada na alma; o momento em que a obra e os sofrimentos do Salvador podem com maior esperança de sucesso ser apresentados à mente. É então que toda a cena da verdade do Evangelho brilha sobre a mente com uma frescura e um poder que, com toda a probabilidade humana, nunca fará outra vez. A ternura do amor do Salvador, se resistida, perderá a cada dia mais a sua novidade e o seu poder de tocar o coração; o hábito da resistência à Palavra, ao testemunho e da suplica a Deus ficará predominante a cada dia que passa; o coração endurecido ficará a cada dia mais duro; a tripla camada de bronze da incredulidade, todos os dias, se tornará mais impenetrável.

 

Oh! Meus amigos, é terrível pensar quantos dentre nós estão a cada hora sujeitando nossos corações a este silencioso e certo processo de endurecimento. Olhem para trás irmãos, quantos de vocês podem fazê-lo, para o tempo em  que Cristo e os Seus sofrimentos tiveram pela primeira vez um interesse despertador na sua alma. Olhem para trás, para a primeira morte em sua família, ou para a primeira vez que se prepararam para se sentarem diante do santo sacramento. Não havia sentimentos despertadores, agitados e vivificadores em seu peito que agora vocês não têm? Não havia alguma luta na consciência; algo como um sentimento de alguém recalcitrando contra aguilhões em rejeitar Cristo, em afastar a ternura do Ser mais terno? Mas vocês foram bem sucedidos na luta, sufocaram cada sussurro inquietante, vocês embalaram cada pontada de inquietação. O Espírito estava lutando com vocês; mas vocês sufocaram as Suas influências despertadoras. E agora, não sentem que estes dias foram sentidos como a boa noite que passou, que as estações de agitação espiritual estão ficando cada ano mais e mais raras para vocês? Mortes estão mais frequentemente à sua volta; mas elas falam com menos poder à sua consciência. Cada sacramento parece que perde alguns dos seus efeitos poderosos; cada Sabath torna-se mais tedioso e monótono. É verdade que você pode não sentir todas estas coisas. Há um estado de consciência que é dito ser insensível. Mas, se existe alguma verdade na Bíblia, e alguma identidade na natureza humana, este processo de endurecimento está acontecendo dia após dia em cada mente não-convertida.

 

Oh! A mais triste de todas as visões que um ministro piedoso pode contemplar é ver o seu rebanho, Sabath após Sabath, esperando mui fielmente as ministrações perscrutadoras da Palavra, e ainda assim, irem embora adormecidos e nada impressionados; porque ele bem sabe, que o coração que não está convertido, é cada vez mais endurecido. Quão simples e poderoso é este argumento para o persuadir a voltar para Deus neste dia.

 

Neste dia propomos a você todas as vantagens de ser encontrado em Cristo; perdão pelo Seu sangue, a aceitação por Sua justiça, santificação pelo Seu Espirito. Rejeite e você não apenas adicionará mais um ato pecaminoso ao fardo da sua culpa, como adicionará também mais uma crosta ao seu coração impenitente e endurecido. Recuse Cristo neste dia, e por todo o cálculo humano, você vai mui certamente recusá-lo no dia seguinte; de modo que, sem qualquer intenção de questionar a soberania do Espírito de Deus, que opera quando quer e em quem quer segundo o Seu propósito, a única conclusão que qualquer homem razoável tem o direito de ter é que neste dia, de todos os dias entre este e o julgamento, é o melhor e mais provável para a sua conversão; e que o dia da sua morte (aquela triste temporada de tosses e ânsias antes que o espírito saia desta habitação terrena), é, em todo o cálculo humano, o pior dia da sua vida para se converter a Deus. Quando o ministro de Cristo afasta as cortinas da sua cama, para falar as palavras de Jesus Cristo, o ouvido que por uma vida ouviu a alegre mensagem de salvação, inamovível, naquela hora ouvirá como se nunca tivesse ouvido. O coração que durante tanto tempo se colocou à margem da palavra de vida, será então como a mó inferior. “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações, como na provocação”.

 

III. O chamado do Salvador para converter-se agora deve ser obedecido por nós, porque o Salvador não chamará para sempre. “Não contenderá o meu Espirito para sempre com o homem”, foram os avisos de Deus dados ao mundo anti-diluviano. “Mas agora isto está encoberto aos teus olhos”, foi um aviso semelhante dado pelo Salvador a Jerusalém. A passagem imediata que segue o texto expressa o mesmo sentimento numa linguagem ainda mais assustadora. E quem não vê a solenidade e o poder que há no chamado do Salvador, que o tempo está próximo, o tempo em que Ele não chamará mais? Contemple a Sua figura majestosa, tendo em Seu corpo as marcas do Homem de Dores; carregando em Seus olhos e palavras a aparência dAquele que vive e foi morto, mas eis aqui está vivo para todo o sempre. Contemple que suplicantes mãos estão estendidas! Ouça os tons suaves de misericórdia do convite da promessa: “Derramarei abundantemente do Meu Espírito”. Mas lembre-se que o ato de misericórdia existe, mas por um tempo; as Suas mãos estendidas e suplicantes estão assim apenas por um tempo; estes tons de gentileza existem, apenas por um tempo.

 

O dia está chegando, quando Ele aparecerá entre as nuvens e todo o olho o verá, “até os mesmos que o traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele”. Esta é a atitude de Cristo no julgamento. Não haverá mais as mãos convidativas, estendidas e suplicantes; a vara de ferro estará em Sua mão direita e os Seus inimigos estarão diante dEle como um vaso do oleiro. Sua mão direita ensina coisas terríveis; a Sua destra ensinará coisas terríveis. As Suas flechas são agudas no coração dos inimigos do Rei, e por elas os povos cairão debaixo dEle. Oh! Quão terrivelmente os tons de ternura serão mudados! “Também de minha parte eu me rirei na vossa perdição e zombarei, em vindo o vosso temor. Vindo o vosso temor como a assolação, e vindo a vossa perdição como uma tormenta, sobrevirá a vós aperto e angústia”. Oh! Que dia será, quando o Jesus de coração sensível que chorou junto a sepultura de Lázaro, se rirá diante da sua calamidade e zombará em seus terrores! O contraste entre estas duas representações é tão marcante, que ninguém pode escapar. Mas, o que eu desejo que você observe é: esta não é apenas uma mudança muito notável, mas sim uma mudança muito repentina. A transição da bondade para indignação não é gradual como a mudança do dia para a noite. Não há crepúsculo, a transição é tanto súbita quanto é terrível. Isso não intenciona nos ensinar que Deus cessa de lutar com os homens não gradualmente e sim subitamente? Não apenas a que a morte é frequentemente repentina, e que a vinda do Filho do Homem será com toda a certeza repentina, como um ladrão na noite, mas que a retirada do suplicante Salvador do homem vivente, que por muito tempo resistiu ao Seu chamado, muitas vezes é repentina e irremediável?

 

Despertem, pois, irmãos, vocês que pensam que é tudo o mesmo, que vocês se arrependam e abracem o Salvador, desde que seja feito antes que morram. Despertem vocês que dizem: “um pouco a dormir, um pouco a tosquenejar, um pouco a repousar de braços cruzados”. O sol da graça pode não ser como o sol da natureza; pode não haver nenhum crepúsculo calmo e tranquilo, quando você deve ver a si mesmo entrando em trevas; corra para Aquele que é a luz do mundo.

 

Todavia, existe suficiente certeza no fato que o Espírito Se retira daqueles que Lhe resistem, de repente ou gradualmente; que Ele mova cada um de vocês neste dia à imediata conversão. Deve ser agora, ou pode não ser nunca mais. Numa noite de inverno, quando o gelo está crescendo com intensidade, e quando o sol já está muito além do meridiano, e gradualmente afundando no céu ocidental, há uma razão dupla que o solo cresça a cada momento mais duro e mais impenetrável para o arado. Por um lado, a geada da noite, com cada vez mais intensidade crescente, está endurecendo os torrões do solo; por outro lado, os raios suaves, que por si só podem suavizá-lo, são a cada momento retirados, perdendo o seu valor vivificante.

 

Oh irmãos, tomem cuidado para que não seja assim com vocês. Enquanto vocês não forem convertidos, vocês estão sobre um duplo processo de endurecimento. O gelo de uma noite eterna está caindo sobre a sua alma; e o Sol da Justiça, pondo-se, está acelerando para retirar-se de sobre você para sempre. Se, então, o arado da graça não puder forçar o seu caminho em seu coração gelado hoje, é mais provável é que ela o fará amanhã? Amém.


Larbert, 15 de Novembro de 1835.

 

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