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O Reino De Cristo Não É Deste Mundo No Tocante Às Suas Leis, por Abraham Booth

[Excerto de Um Ensaio sobre o Reino de Cristo, por Abraham Booth]

 

O reino de Cristo não é deste mundo, no que diz respeito às leis pelas quais ele é governado. Os reinos seculares estão sob a direção das leis humanas, que são frequentemente fracas, parciais e injustas, de leis que, quando persuadem imperfeitamente, estendem seu poder de obrigação a não mais do que ao comportamento exterior; pois seria vão e tolo em um soberano temporal, pensar em legislar os pensamentos ou desejos de qualquer súdito. As penalidades civis são a sanção das leis humanas, e força externa que lhes dá o seu poder. Não são assim as leis deste império santo. Pois, provenientes dAquele, em Quem estão todos os tesouros do conhecimento, elas devem ser completamente sábias; sendo autorizadas por Aquele que é inflexivelmente justo e extremamente gentil, elas não podem deixar de ser perfeitamente boas: sendo dadas por Aquele que sonda o coração e é o Senhor da consciência, sua obrigação estende-se ao desejo latente, e à concepção emergente. Controlando os pensamentos e ordenando a consciência, a sua sanção é inteiramente espiritual. Os motivos que estimulam a obediência a elas, são os sorrisos ou as carrancas dAquele que tem o nosso eterno tudo à Sua disposição.

 

Como é o reino, assim é o soberano; e como o soberano, assim as suas leis. Se o reino for deste mundo, ele deve ter um soberano político; cujas leis devem ser coercitivas, e limitadas a um comportamento exterior. Mas se o reino for de um tipo espiritual, o soberano deve ser assim também. Suas leis devem prolongar-se não menos do que à consciência, do que à conversação, e ser aplicadas por sanções de natureza espiritual. Tal é o Rei Messias, e tais são as leis de Seu reino.

 

Os súditos de nosso Divino Soberano podem ser considerados, ou como indivíduos separadamente, ou como unidos em sociedades distintas, e visivelmente professando a sua sujeição à Sua autoridade. Daí a execução dessas leis pelas quais eles são regidos, vem sob uma consideração dupla. Como indivíduos separadamente, a aplicação de Suas leis para casos particulares, é inteiramente com Ele, e com a consciência de cada um. Como unidos em sociedades distintas, que são chamadas de igrejas particulares, Suas leis de admissão, de culto e de exclusão, estas devem ser aplicadas pela comunidade; aplicadas não sob a influência de motivos carnais, mas no âmbito da operação de Sua autoridade, e para fins inteiramente espirituais.

 

Pelas leis deste reino, uma profissão credível de arrependimento e fé é exigida de todos, antes do Batismo. Essa profissão sendo considerada como uma evidência de sua comunhão no Evangelho, e de sujeição voluntária à autoridade de Cristo, eles têm direito à participação em uma igreja particular. Neste fundamento eles são admitidos; e não perdem a sua membresia, exceto por algum desvio capital deste Evangelho, ou algum delito flagrante contra essa autoridade. Mas como, pelas leis do nosso Soberano celestial, a sua admissão à comunhão visível foi inteiramente para fins espirituais, sua exclusão não inclui desvantagens temporais. A situação deles como homens, e como os súditos de um estado político, não sendo alteradas pelo seu início de relação com a igreja, eles não devem ser afetados, nesses aspectos, pela dissolução dessa relação. Porque, como as leis de Cristo não dizem nada sobre a admissão de um ou de outro, por causa de seus vínculos domésticos ou civis; nem por sua riqueza ou influência, seus dotes ou erudição; assim, elas são igualmente silenciosas sobre multas pecuniárias e penitências satisfatórias, sobre incapacidades civis e castigos corporais, quanto à exclusão de qualquer agressor. O anterior sendo bastante estranho às qualificações de um reino espiritual, este último deve ser totalmente abominável por causa das leis pelas quais ele é governado; sendo manifestamente as invenções do Anticristo e dos partidários de seu trono cruel. As penalidades civis, neste caso, são projetadas para gerar medo, promover a hipocrisia, suprimir a verdade e tornar o próprio Cristianismo suspeito.

 

Aqui percebemos outra disparidade entre a Igreja Judaica e Igreja Cristã. Pois, sob a antiga economia, as leis da religião eram santificadas por políticas temporais, e frequentemente as leis de um tipo de mais severo1. Ser lançado fora da congregação, ser proibido o acesso ao culto do santuário (exceto por contaminação cerimonial) era estar privado, não somente de privilégios eclesiásticos, mas também dos direitos civis. A igreja e o estado sendo coexistentes e incluindo as mesmas pessoas, uma exclusão da anterior, era uma expulsão deste último; fosse isso por uma sentença de pena de morte ou por alguma outra forma. Mas isso, como muitas outras coisas, era peculiar àquela Dispensação. Isso era fundamentado na forma Nacional de sua Igreja-Estado, e em sua Teocracia. Daí que a blasfêmia e a idolatria eram punidas com a morte, como sendo alta traição contra seu Divino Soberano. Aquela economia sendo abolida, a Igreja de Deus assumiu uma nova forma. O sacerdócio sendo mudado, há também necessidade de uma mudança da lei, relativa à constituição, membros e governo da Igreja. As leis de admissão e de exclusão, devem, portanto, ser muito diferentes; bem como as [leis] referentes ao culto público. Agora, para entender essas leis, devemos estudar não o Pentateuco de Moisés; muito menos o Provinciale de Lyndwood, ou o Codex de Gibson, mas o Novo Testamento de Jesus Cristo. Pois, argumentar a partir da constituição e forma, das leis e governo, dos privilégios e ritos da Igreja Judaica, em relação àqueles que pertencem à Igreja Cristã, é adotar um princípio capital próprio da depravação Papal, e grosseiramente corromper a nossa santa religião.

 

Nosso Divino Soberano também forneceu para a edificação de Seus súditos leais, ordenanças e ritos de adoração, não menos do que para o governo do Seu reino. Como o Rei da Igreja Cristã, isso constitui uma parte distinta de Sua prerrogativa real, prescrever a totalidade deste serviço espiritual que deve ser realizado. Desta prerrogativa Jeová sempre foi zeloso; não, sob a antiga economia, Ele sempre mui instantaneamente, ou mui severamente punia quando Suas ordens sobre os assuntos da religião eram desconsideradas, apesar de que, como no caso de Uzá, o motivo mostrava-se louvável. O que é a religião, nos seus vários ramos, senão aquela obediência que é devida a Deus? E o que é a obediência, senão a submissão à Sua autoridade? Agora, como a autoridade exerce-se por meio de comandos, não pode haver obediência, não pode haver adoração santa, onde não há nenhum mandamento Divino, quer explícito ou implícito. Quem requereu isto de vossas mãos? Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens — exclui e condena um grande número de coisas, que milhões estimam como ornamento e útil na adoração a Deus.

 

Estranho, que qualquer igreja Protestante declaradamente reivindique um “poder de decretar ritos e cerimônias” no culto solene de nosso Divino Senhor! Como se Ele não fosse o Legislador em Seu próprio reino! Ou como se, embora dotado de autoridade, Ele não tivesse sabedoria suficiente para sustentar Sua própria honra; ou fosse deficiente em bondade, em relação aos Seus súditos fiéis! Mas, quaisquer que sejam os pensamentos dos compiladores e dos signatários de um Credo Nacional, realizar ritos que Cristo não designou, e alterar os que Ele ordenou, são críticas vis de Seu caráter real e algo que deve expô-los ao Seu ressentimento. O primeiro usurpa o Seu trono; o último anula as Suas leis. Estranho, foi o que eu disse? A expressão deve ser renomeada. Pois, não há nenhuma razão para imaginar um estabelecimento religioso Nacional, com um soberano político por seu chefe, deva fazer a alegação de que acabo de mencionar. Quem pode duvidar que a mesma autoridade que constitui, governa e apoia uma comunidade para qualquer propósito particular, não pode prescrever a essa comunidade, tendo em vista o fim pretendido por ela? Mas as coisas não devem ser chamadas por nomes errados; e denominar tal estabelecimento de uma igreja de Cristo, é um equívoco grave.

 

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Nota: 

[1] Veja Êxodo 7:53, 19; 30:33, 38; 31:14. Levítico 7:20-27; 27:3-9; 29:8; 23:27, 28, 29. Números 9:13; 15:30, 31; 19:13. E muitas outras passagens semelhantes.

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