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O que é Fatalismo? Por B. B. Warfield

É um triste estado de espírito este em que as pessoas caem, por vezes, no qual elas não sabem a diferença entre Deus e Destino. Uma das mais surpreendentes ilustrações disto em toda a história é, sem dúvida, a que é assegurada por nossos irmãos Presbiterianos de Cumberland que, durante cem anos, agora, têm vigorosamente declarado que a Confissão de Westminster ensina o “fatalismo”. O que eles querem dizer é que a Confissão de Fé de Westminster ensina que é Deus quem determina tudo o que deve acontecer em Seu universo; que Deus não tem — para usar uma frase do Dr. Charles Hodge — “atribuído nem à necessidade, ou ao acaso, ou ao capricho do homem, ou à malícia de Satanás, o controle da sequência de eventos e todas as suas questões, mas manteve as rédeas do governo em Suas próprias mãos”, Isto, dizem eles, é Destino: porque (assim eles dizem) isso envolve “uma necessidade inevitável” no desenrolar dos acontecimentos. E esta doutrina de “fatalidade”, dizem eles — ou pelo menos o seu historiador Dr. B. W. McDonnold diz para eles — é “a única suprema dificuldade que nunca foi possível reconciliar” e que ainda “permanece como um obstáculo insuperável para uma união” entre eles e “a igreja mãe”. “Quer as difíceis passagens da Confissão de Westminster sejam justamente chamadas fatalidade ou não”, ele acrescenta, “elas são muito difíceis para nós”.

 

Agora, não é surpreendente que homens com os corações abrasados ​​pelo amor de Deus não deveriam distingui-lO de Destino? É claro que sim, a razão não é difícil de encontrar. Como os outros homens, e como o cantor do doce hino que começa assim: “eu era uma ovelha perdida”, eles têm uma objeção natural a ser “controlada”. Eles querem ser os arquitetos das suas próprias fortunas, os determinantes de seus próprios destinos; embora o fato deles fantasiarem que poderiam fazer isso melhor para si do que Deus possa ser confiável para fazer isso por eles, é um enigma a ser entendido. E a sua confusão é promovida ainda mais por uma forma defeituosa que eles têm de conceber o modo como Deus age. Eles imaginam que Ele opera apenas por “lei geral”, “influência Divina”, que é como eles o chamam (em vez de chamarem de “Ele”): E concebem esta “influência Divina” como uma força difusa, presente através de todo o universo e que opera sobre todos igualmente, assim como a gravidade, ou luz, ou calor. O que acontece com o indivíduo, portanto, é determinado não pela “influência Divina” que age igualmente sobre todos, mas por algo em si mesmo o que faz dela uma resposta maior ou menor à “influência Divina” comum a todos. Se concebermos os modos de Deus agir, portanto, sob a analogia de uma força natural, não é de admirar se não podermos chamar-Lhe de Destino. Pois, o Destino é apenas uma Força Natural; e se uma Força Natural, assim regesse todas as coisas, isto seria Fatalismo.

 

A concepção é, nós vemos, em essência, a mesma que a dos antigos gregos. “Para o estóico, de fato”, diz o Dr. Bigg, “Deus era a Lei Natural, e Seu outro nome era Destino. Assim, podemos ler no famoso hino de Cleanthes: ‘Leve-nos, ó Zeus, e tu também, ó destino, aonde quer que vós designastes que nós devamos ir. Pois eu seguirei sem hesitação. E se eu me recusar isso viria a ser um mal, porém mesmo tudo seguirei’. O homem é ele mesmo uma parte da grande força mundial, levado no seu circuito abrangente, como o besouro de água em uma torrente. Ele pode lutar, ou ele pode deixar-se ir; mas o resultado é o mesmo, exceto que, neste último caso, abraçará o seu fardo, e assim estará em paz”. Quando um homem identifica Deus como uma mera lei natural, ele pode obter resignação, mas ele não pode atingir a religião. E a resignação obtida pode dissimular uma intensa amargura de espírito. Todos nos lembramos daquele terrível epigrama de Palladas: “Se a preocupação aproveita em algo, porque, certamente, tome bom cuidado; mas se a preocupação é exercida em seu lugar por um Deus, que proveito há em preocupar-se? É tudo a mesma coisa se você se preocupar ou não se preocupar; Deus cuida somente disso, a saber, que você tenha se preocupado o suficiente”. Isso é o resultado do fatalismo, de confundir Deus com a Lei Natural.

 

Qual é, então, a real diferença entre esse Fatalismo e a Predestinação ensinada, por exemplo, em nossa Confissão? “Predestinação e Fatalismo”, diz Schopenhauer, “não diferem no essencial. Eles diferem apenas no fato de que com a predestinação a determinação externa da ação humana procede de um Ser racional, e com o fatalismo de algo irracional. Mas em qualquer dos casos o resultado é o mesmo”. Isto é, eles diferem precisamente como uma pessoa difere de uma máquina. E ainda Schopenhauer pôde representar isto como uma diferença não radical! O professor William James sabe melhor; e em suas palestras sobre “As Variedades da Experiência Religiosa”, ele amplia a diferença. Isto é ilustrado, diz ele, pela diferença entre a observação fria de Marco Aurélio: “Se os deuses não cuidarem de mim ou meus filhos, há uma razão para isso”; e o grito apaixonado de Jó: “Ainda que ele me mate, nele esperarei” [Jó 13:15]! Esta diferença também não é apenas na disposição emocional. É precisamente a diferença que se estende entre materialismo e religião. Não há, portanto, nenhuma heresia tão grande, nem heresia que consiga arrancar a religião pela raiz, como a heresia que pensa em Deus de acordo com a analogia da força natural e esquece que Ele é uma Pessoa.

 

Há uma história de um menino holandês que ilustra perfeitamente a relação entre Deus e Destino. A casa deste pequeno rapaz estava localizada em um dique na Holanda, perto de um grande moinho de vento, cujas longas pás passavam tão perto do chão que punha em perigo aqueles que descuidadamente passavam sob elas. Mas ele gostava muito de brincar precisamente debaixo deste moinho. Seus pais cuidadosos o havia proibido de aproximar-se dele; e, quando a sua vontade teimosa não cedia, haviam procurado assustá-lo para que ficasse longe do moinho, despertando a sua imaginação para o terror de ser atingido pelas pás e ser levado para o ar e perder sua vida por seus golpes incessantes. Um dia, sem se importar com a advertência, ele se desviou de novo para debaixo das perigosas pás, e logo distraiu-se em sua brincadeira e esqueceu-se de tudo o mais, focando na presente diversão. Talvez, ele estava meio consciente de uma brisa surgindo; e em algum lugar no fundo de sua alma, ele pudesse ter estado vagamente consciente do perigo que o ameaçava. De qualquer forma, de repente, à medida que ele brincava, foi violentamente atingido nas costas e de repente estava com a cabeça para baixo, suspenso, ao ar; e, em seguida, os golpes vieram, firmes e duros! Oh, que desespero do coração! Que terrível e grande escuridão! Aconteceu, então! E ele se foi! Em seu terrível estremecimento, ele virou-se e aproximando-se, olhou para cima, e não viu a extensão imensurável dos céus de bronze acima dele, mas, sim, o rosto de seu pai. No mesmo instante, ele percebeu subitamente, que ele não foi pego pela máquina, mas que somente estava recebendo o castigo ameaçado de sua desobediência. Ele derreteu-se em lágrimas, não de dor, mas de alívio e alegria. Naquele momento, ele compreendeu a diferença entre cair no poder de uma máquina de moagem e nas mãos amorosas de um pai.

 

Essa é a diferença entre Destino e Predestinação. E toda a língua dos homens não pode dizer a imensidão de diferença que há entre eles. 

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