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Sobre a Nossa Conversão a Deus e Como Esta Doutrina é Totalmente Corrompida Pelos Arminianos, por John Owen

[Capítulo 14 do Livro A Display Of Arminianism • Editado]

 

Quão pouco ou absolutamente nada os Arminianos atribuem à graça de Deus a realização da grande obra da nossa conversão, isso pode claramente ser evidenciado a partir do que eu já mostrei que eles a atribuem ao nosso próprio livre-arbítrio, de forma que eu devo passar por isso brevemente, o que, de outra forma, é tão copiosamente anunciado nas Sagradas Escrituras, que isso exigiria uma discussão muito maior. A confirmação prolixa da verdade que professamos não atenderá tão bem a minha intenção; que é apenas desvelar os erros deles, por não conhecerem as profundezas em que muitos são enganados e persuadidos.

 

Duas coisas, nesta grandiosa combinação de graça e natureza, os Arminianos atribuem ao livre-arbítrio: primeiro, um poder de cooperação e colaboração com a graça, para torná-la eficaz de algum modo; em segundo lugar, poder de resistir à operação da graça, tornando-a completamente ineficaz; Deus, entrementes, não concede nenhuma graça, senão a que espera um ato consumado de uma dessas duas habilidades, e tem seu efeito conformemente. Se um homem cooperar, então a graça alcança o seu fim; se ele resistir, ela retorna vazia. Para esta finalidade, eles inventam que toda a graça de Deus derramada sobre nós para a nossa conversão é apenas uma persuasão moral por Sua palavra, e não uma infusão de um novo princípio vital pela poderosa obra do Espírito Santo. E, de fato, admitindo isso, eu concordarei com eles, mui voluntariamente, em atribuir ao livre-arbítrio um dos dons antes recitados: um poder de resistir à operação da graça; mas quanto ao outro, deve-se atribuir a toda a nossa natureza corrompida, e todos os que são participantes da mesma, uma deficiência universal de obedecê-lo, ou cooperar nesta obra que Deus tenciona por Sua graça.

 

Se a graça da nossa conversão não for nada além de uma persuasão moral, não temos mais poder para obedecê-la nesse estado em que estamos, mortos em pecado, do que um homem em seu túmulo, tem em si mesmo, para viver de novo e sair assim que lhe chamarem. As promessas de Deus e as orações dos santos na Sagrada Escritura parecem designar tal tipo de graça que deve conceder-nos uma real capacidade interna para fazermos aquilo que é espiritualmente bom. Mas parece que não existe tal questão; pois se um homem deve convencer-me de saltar sobre o rio Tâmisa, ou voar como pássaro, seja ele tão eloquente quanto puder, sua persuasão em si não me faz mais capaz de fazer isso do que eu era antes de vê-lo. Se o dom graça de Deus não conferir nada além de uma doce persuasão (embora nunca tão poderosa), é algo extrínseco, que consiste na proposta de um objeto desejado, mas não nos dá, em absoluto, uma nova força para fazer algo, que não tínhamos antes poder para fazer. Mas vamos ouvi-los pleiteando, eles mesmos, a cada um desses elementos relativos à graça e à natureza. E,

 

Primeiro, pela natureza da graça: “Deus destinou salvar os crentes pela graça — ou seja, uma persuasão suave e doce, conveniente e concordante com o livre-arbítrio deles — e não por qualquer ação todo-poderosa”1, diz Armínio. Parece algo estranho, que “a mente carnal sendo inimizade contra Deus”, e a vontade dominada pelo pecado, e cheia de miserável oposição a todos os caminhos de Deus, ainda assim Deus não tenha outros meios para conduzi-los a Ele, a não ser alguma persuasão que é doce, agradável e congruente a eles nesse estado em que estão. E, é uma pequena exaltação da dignidade e poder da graça, quando o principal motivo pelo qual ela é eficaz, como Alvarez observa, é reduzida a um jantar bem digerido ou um sono tranquilo, em que alguns homens podem ser levados a um melhor temperamento que o normal, para dar cumprimento à presente graça conveniente.

 

Mas, no momento, vamos aceitar isso, e admitir que Deus chama alguns por uma tal convicção conveniente, em tal data e local que Ele sabe que eles consentirão com ela. Eu pergunto, se Deus chama assim todos os homens, ou apenas alguns? Se todos, porque não são todos convertidos? pois a própria concessão disso, sendo adequada, a torna eficaz. Se apenas alguns, então por que eles, e não outros? Isso é a partir de uma intenção especial para fazê-los obedientes? Mas, deixe-os tomar cuidado, pois isso chegará perto de estabelecer o decreto da eleição; e a partir de que outra intenção disso deve ocorrer, eles nunca serão capazes de determinar. Portanto, Corvinus2 nega que tal adequação seja necessária para a graça pela qual somos convertidos, mas apenas que seja uma persuasão moral; a qual podemos obedecer se quisermos, e assim a tornamos eficaz. Sim, e o próprio Armínio, depois de ter defendido isso, tanto quanto ele foi capaz, coloca-o fora de si mesmo, e falsamente coloca isso como originado por Agostinho. De modo que, como eles juntamente afirmam: “eles confessam que nenhuma graça para a geração de fé seja necessária, mas somente a que é moral”3, o que um deles interpreta ser “uma declaração do Evangelho a nós”4, exatamente como seu antigo mestre, Pelágio, que disse: “Deus opera em nós tanto o querer o que é bom e querer o que é santo, ao passo que Ele nos desperta com a promessa de recompensa e da grandeza da glória futura, aos que antes estavam entregues a desejos terrenos, como animais irracionais, não amando nada além das coisas do presente século, incitando nossas vontades estúpidas a um desejo por Deus, por meio de uma revelação da sabedoria, e por convencer-nos de tudo o que é bom”5. Ambos afirmam que a graça de Deus nada é, senão a persuasão moral, operando pela maneira de poderosos argumentos convincentes; mas ainda aqui Pelágio parece atribuir maior eficácia a  ela do que os Arminianos, consentindo que ela opera sobre nós quando o nosso estado é como o dos animais irracionais, estando posta somente nas coisas terrenas. Mas estes, como eles confessam que para que a fé seja produzida6, é necessário que esses argumentos sejam propostos da parte de Deus para que nada provavelmente esteja em oposição pelo que eles não pareçam credíveis. Assim é — dizem eles — necessário da nossa parte uma piedosa docilidade e dignidade de espírito. Assim, [segundo os Arminianos] toda a graça que Deus nos concedeu consiste em argumentos persuasivos a partir da Palavra, e, então, se eles encontram mentes que sejam ensináveis podem operar a sua conversão.

 

Em segundo lugar, tendo assim atenuado a graça de Deus, eles afirmam: “que a operação da eficácia dela depende do livre-arbítrio”7; assim, então os Remonstrantes em sua Apologia8 dizem: “E, para falar confiantemente”, diz Grevinchovius “eu digo que o efeito da graça, em um curso normal, depende de algum ato de nosso livre-arbítrio”. Suponhamos, então, que dois homens sejam feitos participantes da mesma graça, ou seja, que tenham o Evangelho pregado a eles pelos mesmos meios, e um é convertido e outro não, o que pode ser a causa desta tão grande diferença? Houve alguma intenção ou propósito de Deus que um fosse transformado e o outro não? “Não; Ele igualmente deseja e intenciona a conversão de todos e de cada um”. Será que, então, Deus opera pelo Espírito Santo mais fortemente no coração de um do que do outro? “Não; a mesma operação do Espírito sempre acompanha a mesma pregação da palavra”. Mas não foi um, por alguma ação todo-poderosa, feito participante da real graça infundida, a qual o outro não alcançou? “Não; porque isso destruiria a liberdade de sua vontade, e o privaria de todo o louvor pela crença”. Como, então, ocorreu essa diferença extrema de efeitos? Porque, quem fez um diferente do outro? O que tem ele que não tenha recebido? “Ora, tudo isso procede apenas da força de seu próprio e obediente livre-arbítrio, cedendo ao convite da graça de Deus, que, como os outros, ele poderia ter rejeitado. Esta é a causa imediata de sua conversão, de forma que todos os louvores são devidos a ele”, e aqui o velho ídolo pode gloriar-se perante todo o mundo, que se ele pode, apenas obter que seus adoradores prevaleçam nisto, ele tem excluído completamente a graça de Cristo, e fez dela “nomen inane”, um mero título, ao passo que não existe tal coisa no mundo.

 

Em terceiro lugar, eles ensinam, que, apesar de todo o propósito e intenção de Deus para converter e, assim, salvar um pecador, não obstante a operação mui poderosa e eficaz do bendito Espírito, com a mais atraente e persuasiva pregação da Palavra, ainda assim está no poder de um homem frustrar o efeito, resistir a essa operação e rejeitar aquela pregação do Evangelho. Não precisarei provar isso, porque isso é o que, em termos diretos, eles pleiteiam; o que eles também devem fazer, se eles concordarão com seus princípios antigos. Pois, consentindo que todos esses não têm influência sobre qualquer homem, a não ser por meio de persuasão moral, nós não devemos apenas consentir que ela pode ser resistida, mas também negar totalmente que ela pode ser obedecida. Podemos resistir a isso, eu digo, como tendo tanto uma incapacidade para o bem e repugnância contra ele; mas quanto a obedecê-lo, a menos que neguemos toda a corrupção inerente e depravação da natureza, não podemos atribuir tal suficiência a nós mesmos.

 

Agora, a respeito desta fraqueza da graça, que ela não seja capaz de superar o poder da natureza pecaminosa, um testemunho de Armínio é suficiente: “Sempre permanece no poder do livre-arbítrio rejeitar a graça que é dada e recusar aquilo que a segue; pois a graça não é uma ação onipotente de Deus, de forma que o livre-arbítrio não possa resisti-la”9. Não que eu afirmasse, em oposição a isso, como se uma operação da graça devesse, por assim dizer, violentamente superar a vontade do homem, e força-lo à obediência, o que deve necessariamente ser prejudicial à nossa liberdade; mas apenas que consiste em uma obra eficaz tão doce a ponto de promover infalivelmente a nossa conversão, nos tornando dispostos, a quem antes não éramos dispostos e obedientes, a quem não obedecíamos de forma a criar corações puros e renovar espíritos retos dentro de nós.

 

Isso, então, que nós afirmamos, em oposição a essas heterodoxias Arminianas, é: que a graça eficaz que Deus usa na grandiosa obra da nossa conversão, em razão de sua própria natureza, — sendo também o instrumento e intenção de Deus para este propósito, — certamente produz o efeito pretendido, sem resistência bem sucedida, e sozinha, sem qualquer considerável cooperação de nossas próprias vontades, até que elas sejam preparadas e transformadas por essa mesma graça. A infalibilidade do seu efeito depende principalmente do propósito de Deus. Quando, por qualquer meio que Ele intenciona a conversão de um homem, esses meios devem ter tal eficácia adicionada a elas, a ponto de torná-los instrumentos próprios para a realização desse propósito, de forma que o conselho do Senhor possa prosperar, e a Sua palavra não volte vazia. Mas, o modo de sua operação — o que não requer assistência humana, e é capaz de superar toda repugnância — é própria à essência de tal ato. Esta natureza e eficácia da graça se opõe a uma influência indiferente do Espírito Santo, a um movimento metafórico, a uma obra pela forma de persuasão moral, apenas propondo um objeto desejável, fácil de ser combatida, e não efetiva a menos que seja ajudada por uma capacidade inata de nós mesmos (que é a graça Arminiana), confirmarei brevemente, tendo como premissa essas poucas coisas:

 

Primeiro, embora Deus não utilize as vontades dos homens, em sua conversão, como espíritos malignos usam os membros dos homens, em êxtases, por um movimento abrupto violento, mas doce e agradavelmente à própria natureza deles; ainda assim, no primeiro ato de nossa conversão a vontade é meramente passiva, como um sujeito capaz de uma tal obra, não concorrendo cooperativamente para a nossa conversão de modo algum. Isso não é, eu digo, a causa da obra, mas o sujeito em que ela é operada, tendo apenas uma capacidade passiva para o recebimento dessa essência sobrenatural, que é introduzida pela graça. O início desta “boa obra” é de Deus somente (Filipenses 1:6). Sim, a fé é atribuída à graça, não por meio de cooperação com a nossa vontade, mas em oposição a ela: “isto não vem de vós, é dom de Deus” (Efésios 2:8). “Não que sejamos capazes, por nós, de pensar alguma coisa, como de nós mesmos; mas a nossa capacidade vem de Deus” (2 Coríntios 3:5). “Converte-nos a ti, Senhor, e seremos convertidos” (Lamentações 5:21).

 

Em segundo lugar, embora a vontade do homem não dê qualquer consentimento na ocasião em que a graça é incialmente infundida, contudo há uma recepção subjetiva dela, ainda no primeiro ato, que é feita na e pela vontade, e então, ela coopera mui livremente (a propósito de subordinação) com a graça de Deus; e o mais efetivamente a vontade é movida pela graça, e mui voluntariamente ela opera com a graça. Então, assim, o homem que está sendo convertido pela graça, converte-se voluntariamente.

 

Em terceiro lugar, nós não afirmamos que a graça seja irresistível, como se ela viesse sobre a vontade com uma violência tal que subjuga e elimina a vontade humana, e a sujeite por compulsão, ao que ela não é de nenhuma maneira inclinável. Mas quando usamos este termo, temos em mente apenas uma eficácia tão invencível da graça que sempre e infalivelmente produz o seu efeito; pois, quem é que pode “resistir a Deus?” (Atos 11:17). Como também, isso pode ser usado quanto à vontade em si, a qual não resistirá à graça, pois, todo aquele que o Pai dá a Cristo virá a Ele (João 6:37). A operação da graça é não resistida por nenhum coração duro, porque ela pacifica o próprio coração. Ela não tanto tira um poder de resistir, como concede uma vontade de obedecer, pelo que a poderosa impotência da resistência é removida.

 

Em quarto lugar, em relação à graça em si, ou é comum ou especial. A graça comum ou geral consiste na revelação externa da vontade de Deus através da Sua Palavra, com alguma iluminação da mente para percebê-la, e correção dos afetos, não tanto para desprezá-los; e isso, em algum grau ou outro, para alguns mais, para outros menos, é comum a todos os que são chamados. A graça especial é a graça da regeneração, compreendendo a primeira, porém, acrescentando mais atos espirituais, porém especialmente pressupondo o propósito de Deus do que a sua eficácia principalmente depende.

 

Em quinto lugar, esta graça salvífica, pela qual o Senhor converte ou regenera um pecador, transportando-o da morte para a vida, é externa ou interna. A externa consiste na pregação da Palavra e etc., cujo funcionamento é pela forma de persuasão moral, quando por meio dela rogamos aos nossos ouvintes “da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus” (2 Coríntios 5:20); e isso em nossa conversão é o agente instrumental da mesma, e pode ser considerada uma causa suficiente da nossa regeneração, na medida em que nenhum outro, de mesmo tipo, é necessário. Ela também pode ser resistida in sensu diviso, abstraindo a partir da consideração em que é vista como o instrumento de Deus para tal fim.

 

Em sexto lugar, a graça interna é distinguida, por teólogos, da graça inicial ou de prevenção, ou a seguinte graça cooperante. A primeira é aquele princípio espiritual vital que é infundido em nós pelo Espírito Santo, aquela nova criação e concessão de uma nova força, pelo que somos conduzidos à capacidade para realizar ações espirituais, crer e prestar obediência evangélica: “Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras” (Efésios 2:10). Por esta graça interna Deus nos dá um coração novo, e põe dentro de nós um espírito novo, ele tira de nós o coração de pedra, e nos dá um coração de carne; ele põe dentro de nós o Seu Espírito, para que andemos nos Seus estatutos (Ezequiel 36:26-27).

 

Agora, esta primeira graça não é própria e formalmente um ato vital, mas somente causaliter [casualmente], sendo um princípio de movimento para tais atos vitais dentro de nós. O hábito da fé é concedido a um homem, para que ele seja capaz de suscitar e praticar os atos de fé, dando nova luz à compreensão, novas inclinações à vontade, e novas afeições ao coração, pois a eficácia infalível desta graça é o que nós pleiteamos contra os Arminianos. E entre aquelas inúmeras passagens da Sagrada Escritura que confirmam esta verdade, farei uso apenas de um número pequeno, reduzido a estes três tópicos:

 

Em primeiro lugar, nossa conversão é operada por uma ação Divina onipotente, a que a vontade do homem não resistirá, e portanto, não pode resistir. A impotência da mesma não deve se opor a esta graça onipotente, que certamente efetuará a obra para a qual foi ordenada, sendo uma ação não inferior à “sobreexcelente grandeza do Seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder, que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita nos céus” (Efésios 1:19-20). E, este poder que pode superar o inferno, e desatar os laços da morte, não será eficaz para levantar um pecador da morte no pecado, quando, pela intenção de Deus, ela é designada a esta obra? Deus cumpre a “obra da fé com poder” (2 Tessalonicenses 1:11). É o “seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade” (2 Pedro 1:3). Certamente, a persuasão moral resistível não seria tantas vezes chamada de: o “poder” de Deus, o que denota uma eficácia real, a qual nenhuma criatura é capaz de resistir.

 

Em segundo lugar, posto que esta graça consiste em uma eficácia real — não pode de modo algum ser considerada assim, senão quando e onde ela realmente opera o que intenciona, e não pode ser resistida a ponto de tornar-se inoperante —, toda a sua natureza constitui uma operação real. Agora, que a própria essência da Divina graça consiste em um ato tão formal pode ser provado por todas as passagens da Escritura que afirmam que Deus, por Sua graça, ou a graça de Deus, na verdade, efetua a nossa conversão, refiro-me a passagens como Deuteronômio 30:6: “E o Senhor teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para amares ao Senhor teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que vivas”. A circuncisão de nossos corações, para que possamos amar o Senhor com todo o nosso coração, e com toda a nossa alma, é nossa conversão, a qual o Senhor aqui afirma que Ele mesmo fará; não somente nos permite fazê-la, mas Ele mesmo, real e efetivamente a realizará. E, novamente: “Porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração” (Jeremias 31:33). “Porei o meu temor nos seus corações, para que nunca se apartem de mim” (Jeremias 32:40). Ele não oferecerá o Seu temor para eles, mas, na verdade, o porá dentro deles. E, mais claramente, Ezequiel 36:26-27: “E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis”. Estas expressões são apenas uma persuasão moral? Porventura Deus afirma aqui que Ele fará o que Ele intenciona apenas persuadindo-nos, e que podemos recusar fazê-lo se quisermos? Está no poder de um coração de pedra o remover a si mesmo? Que pedra ativa é esta que tira a si mesma!? Em que este coração de pedra difere do coração de carne que Deus promete? Podemos dizer que um coração de pedra tem o poder de transformar-se em um coração de carne, de modo a fazer com que andemos nos estatutos de Deus? O fato é que, a menos que os homens fossem deliberadamente cegos, eles necessariamente perceberiam aqui a indicação de tal ação de Deus, de modo a operar a nossa conversão de maneira eficaz, única e infalível; abrindo os nossos corações para que estivéssemos atentos à Palavra (Atos 16:14) e concedendo que nós crêssemos em Cristo (Filipenses 1:29). Agora, estas e outras passagens semelhantes provam que a natureza da graça de Deus consiste em uma real eficácia e, portanto, a sua operação é seguramente eficaz.

 

Em terceiro lugar, nossa conversão é uma “nova criação”, uma “ressurreição”, um “novo nascimento”. Ora, Aquele que criou um homem não o convence a criar a si mesmo, e mesmo se este fosse o caso, o homem não conseguiria, se Ele assim o fizesse. O homem não tem qualquer poder para resistir Àquele que deseja criá-lo, ou seja — como nós agora o consideramos —, transformando-o de algo que ele é em algo que ele não é. Quais argumentos você acha que seriam suficientes para convencer um homem morto a ressuscitar-se? Ou com que grande auxílio ele pode contribuir para a sua própria ressurreição? Nenhum homem gera a si mesmo; nenhuma verdadeira nova criação foi alguma vez introduzida em qualquer questão por meio de argumentos sutis. Estes são os termos que a Escritura tem o prazer de usar a respeito de nossa conversão: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é” (2 Coríntios 5:17). “E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” (Efésios 4:24). Este é o nosso novo nascimento: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (João 3:3). “Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade” (Tiago 1:18). E, assim, nós somos “de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre” (1 Pedro 1:23). Esta é a nossa vivificação e ressurreição: “o Filho vivifica aqueles que quer” (João 5:21), mesmo aqueles “mortos”, que ouvem a Sua voz e vivem (versículo 25). “Estando nós ainda mortos em nossos delitos e pecados”, nós somos vivificados “juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)” (Efésios 2:5); pois, “Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus” (Colossenses 2:12). E “Bem-aventurado e santo aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre estes não tem poder a segunda morte; mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com ele mil anos” [Apocalipse 20:6].

 

Τῷ Θεῷ ἀριστομεγίστῳ δόξα.

 

 

 

 


Notas:

 

[1] “Deus statuit salvare credentes per gratiam, id est, lenem ac suavem liberoque ipsorum arbitrio convenientem seu congruam suasionem, non per omnipotentem actionem seu motionem.” — Armin. Antip., p. 211.

[2] Corv. ad Molin. — “His ita expositis ex mente Augustini,” etc. — Armin. Antip. De Elec.

[3] “Fatemur, aliam nobis ad actum fidei eliciendum necessariam gratiam non agnosci quam moralem.” — Rem. Act. Synod. ad Art. 4.

[4] “Annuntiatio doctrinae evangelicae.” — Popp. August. Port. p. 110.

[5] “Operatur in nobis velle quod bonum est, velle quod sanctum est, dum nos terrenis cupiditatibus deditos mutorum more animalium, tantummodo praesentia diligentes, futurae gloriae magnitudine et praemiorum pollicitatione, succendit: alum revelatione sapientiae in desiderium Dei stupentem suscitat voluntatem, dum nobis suadet omne quod bonum est.” — Pelag., ap. Aug. de Grat. Ch. cap. 10.

[6] “Ut autem assensus hic eliciatur in nobis, duo in primis necessaria sunt: — 1. Argumenta talia ex parte Dei, quibus nihil verisimiliter opponi potest cur credibilia non sint. 2. Pia docilitas animique probitas.” — Rem. Declar., cap. 17. sect. 1.

[7] “Ut gratia sit efficax in actu secundo pendet a libera voluntate.” — Rem. Apol., p. 164.

[8] “Imo ut confidentius again, dico effectum gratiae, ordinaria lege, pendere ab actu aliquo arbitrii.” — Grevinch, ad Ames., p. 198.

[9] “Manet semper in potestate Lib. Arbit. gratiam datam rejicere et subsequentem repudiare, quae gratia non est omnipotentis Dei actio, cui resisti a libero hominis arbitrio non possit.” — Armin. Antip., p. 243.
 

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