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Um Filho Honra o Seu Pai, por Robert M. M'Cheyne

“O filho honra o pai, e o servo o seu senhor; se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o meu temor? diz o SENHOR dos Exércitos a vós, ó sacerdotes, que desprezais o meu nome. E vós dizeis: Em que nós temos desprezado o teu nome?” (Malaquias 1:6)

 

A primeira convicção que é essencial para a conversão da alma, é a convicção do pecado; não aquela convicção comum de que todos os homens são pecadores, mas a convicção pessoal de que eu sou um pecador arruinado; não a convicção geral de que outros homens devem ser perdoados ou perecer, mas a convicção pessoal de que, eu, devo ser perdoado ou perecer. A partir daí, não há barreira maior no caminho desta verdade que está sendo impressa na alma, como a consciência particular de que possuímos muitas virtudes. Nós não conseguimos ser levados a crer que a imagem de Deus foi tão profundamente apagada de nossas almas como a Bíblia nos diz, quando reparamos dentro de nós mesmos e vemos expostas em outros, o que poderiam ser chamadas de virtudes ''quase'' Divinas. Os heróis dos quais temos lido na história, com o seu amor por seu povo, indiferença diante da morte e sua lealdade e fidelidade em suas amizades, parecem levantar-se diante de nós para pleitear a causa de uma humanidade ferida. E o que é mais perturbador nisto, é achar que a nossa prática diária benigna de hospitalidade, que as torrentes de generosidade sem limite e a compaixão que chora porque outro chora; todas estas coisas estando em harmonia com homens que não se importam com Cristo e sua salvação, parecem levantar uma barreira intransponível contra a verdade de que o homem é concebido em pecado e formado na iniquidade. Quando entramos em uma casa, e vemos todos os irmãos e irmãs desfazendo-se em lágrimas ao ver as agonias de uma irmã ao morrer; ou quando, vemos a ternura em afeto da mãe para com a criança doente em seu seio; a alegre obediência dos filhos, prestada ao sábio pai; ou em uma família, onde o servo administra com tal integridade e minunciosamente cuida dos assuntos de seu mestre terreno, ficamos prontos a questionar: de fato será este um mundo de pecado? É possível que a ira de Deus possa estar guardada para um mundo assim? Será admitido frequentemente, que sim, existem alguns homens absolutamente desprezíveis e incorrigíveis, tão perdidos em seus caminhos desesperadamente maldosos, que nada mais é esperado para eles, senão, uma eternidade de sofrimento. Há um grupo de dissolutos, entretanto, à parte de Deus, e que zomba do seu nome e da religião. Há ateus, que negam abertamente sua própria existência; infiéis, que abertamente negam que Cristo veio em carne. Há assassinos de sangue frio e piores do que assassinos, que são vistos ​​por todos como uma desgraça para o nome do homem. Para estes, poucos se atrevem a fazer defesa ou dá-los isenção da vingança terrível que aguarda os ímpios. Para que, assim, haja alguma consistência nas palavras de julgamento: “O abominável, os homicidas, os impuros, os feiticeiros, os idólatras e todos os mentirosos, a sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre”. Contudo, dizer, que à criança obediente, e ao servo fiel, à mãe afetuosa, ao próximo generoso e prestativo, ou ao homem de inteligência e sentimento bom, que todos eles deveriam, eternamente, estar juntos na porção de destruição daqueles, e lançados às mesmas chamas eternas, simplesmente porque eles não creem em Jesus: esta é a pedra de tropeço em que milhares tropeçam e caem, para sua perda inevitável.

 

Há, talvez, uma via que seja a mais usada pelo homem, para rejeitar todas as convicções pessoais de pecado que a Palavra de Deus poderia lançar em nós. Pois, não sinto eu, dentro de mim todas afeições naturais da humanidade, toda a honestidade e integridade de nossa natureza? Não sinto eu prazer em ser honesto e lidar justamente com o próximo, em ser compassivo, generoso e hospitaleiro? Como então, não posso dizer à minha alma: “Alma, esteja bem? Essas virtudes tuas são um sinal certo de que tu nasceste para uma eternidade feliz”. Ah! meus amigos, não é uma coisa mui abençoada que, na passagem diante de nós, Deus arranque de nossas mãos a arma com a qual muito gostaríamos de nos defender, e transforme-a em um eixo para perfurar a nossa consciência mundana? E, oh! se tivéssemos mentes tão inteligentes como quando Adão quando andou com Deus no Paraíso, nada mais seria necessário para levar aos nossos corações a esmagadora convicção de pecado do que a repetição das palavras: “O filho honra o pai, e o servo o seu senhor; se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o meu temor? diz o SENHOR dos Exércitos a vós”. Há um poder e uma paixão, assim como a de Cristo neste argumento, que poderia muito bem quebrar a mente mais dura e insensível; é como se Deus tivesse dito, como Ele o fez em outra passagem: “Vinde e arrazoemos”. Você diz que você tem muitas excelentes virtudes, que você tem brandas e belas afeições; você diz que o amor filial e paternal ocupa um lugar de domínio em seu coração, que a integridade e honestidade sacra está em elevada posição no seu coração. Negaria eu todas estas coisas? Devo diminuir a glória de minha própria obra, tão bela, até ruínas? Não, de fato é verdade; o filho realmente honra seu pai, o servo é fiel ao seu mestre; tudo é belo, quando eu olho apenas para as relações terrenas. Mas isso é exata coisa que mostra o desarranjo total de todas as nossas relações celestes; pois, “se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o meu temor? diz o SENHOR dos Exércitos a vós”. Eu vejo que você honra seus pais terrenos, e serve fielmente seus senhores terrenos; mas esta é a precisa coisa que me mostra que eu sou a exceção. Vejo que não há um pai em todo o universo que é privado do amor de seus filhos, além de mim – estanho não é? um mestre terreno que tem roubada sua honra e serviço de seus servos, como eu sou.

 

 Se, irmãos, você e eu fossemos afundados em brutalidade real, se não tivéssemos amor pelos pais, não houvesse honestidade para com os mestres, então Deus poderia ter tido motivo para dizer de nós, que nada melhor poderia ser esperado desses miseráveis, do que o esquecimento dEle, o Pai celestial e Mestre. Oh! Entretanto, quando há tais tenros e belos sentimentos em nossos peitos quanto às nossas relações terrenas, não é o nosso pecado escrito como com pena de ferro, e com chumbo na rocha para sempre, quando fazemos de Deus uma exceção, quando nos colocamos sem Deus no mundo?

 

Gostaria agora, com carinho e ternura profundos, suplicar à cada um de vocês que sondem seus próprios corações, e percebam se estas coisas não são assim; percebam se aquilo que vocês geralmente tomam como a desculpa de seus pecados, não seja a própria essência do seu pecado. O que você não faria, o que você não sofreria, por causa de um pai terreno? E ainda assim, você não gastará mais que um pensamento, ou a aspiração de uma disposição, pelo seu Pai celestial. Deus não está em todos os seus pensamentos. Você trabalharia duro noite e dia, em nome de um mestre terreno; mas você não estará disposto ao serviço do Mestre celestial. Deus é o único Pai a quem você desonra; Deus é o único Mestre a quem você aborrece. “Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece”. Se fossem impedidos de afeto ou de fidelidade, já não teriam nenhum pecado; contudo, aqui está claro que são capazes de ambos, por isso, o seu pecado permanece. Imagine uma família de irmãos e irmãs, todos unidos pelos laços da amizade mais íntima e afetuosa. Oh! É uma boa e agradável visão ver irmãos habitando em unidade. “É como óleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba, a barba de Arão, e que desce à orla das suas vestes. É como o orvalho de Hermom, que desce sobre os montes de Sião”. O que eles não farão um pelo outro? O que eles não vão sofrer? Entretanto, imagine uma vez mais que toda esta unidade, que é tão similar à disposição do Céu, fosse mantida entre eles, ao passo que, ao mesmo tempo que eles estivessem unidade entre si desprezassem a mãe dedicadíssima que lhes deu a luz, e desviando-se, abandonassem o pai idoso que formou cada um deles. Esta singular peculiaridade, na imagem, não mudaria toda a sua beleza e todo o seu proveito? Isso não faria a comunhão deles mais parecida com a dos demônios, do que com a dos anjos? Não diria que seu afeto um pelo outro seria a exata coisa que faz seu desafeto para com os pais odioso e ainda mais perverso? Oh! irmãos, a imagem é uma imagem de nós mesmo: “O filho honra o pai, e o servo o seu senhor; se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o meu temor? diz o SENHOR dos Exércitos a vós”.

 

Oh! é uma coisa terrível, quando em nossas próprias virtudes, buscamos refúgio contra a ira de Deus, que vem mui ferozmente para nos condenar.

 

Qual a utilidade da sua honestidade, qual a utilidade das amizades tão devotadas, do que que aproveita as suas virtudes próprias as quais o mundo tanto admira e louva, se, aos olhos de Deus, elas são, simultaneamente, realçando a sua impiedade? Que ninguém me entenda mal, como se eu dissesse que seja uma coisa ruim ser honesto, fiel, justo e carinhoso para com os pais. Todo homem sensato sabe o valor dessas virtudes terrenas, e o quanto elas são revigorantes e se ampliam, no recomeçar da vida, por assim dizer, quando o homem mundano torna-se um crente. Mas, isso, eu afirmo categoricamente, se tu não tens mais do que essas virtudes terrenas, elas, uma por uma, irão pôr-se de pé naquele Dia, unicamente para te condenar. Eu apenas repito o que o firme reformador Lutero disse, antes de mim, que essas tuas virtudes, em que tu pensas construir a tua torre de Babel para o Céu não são nada além, dos pecados pavorosos da humanidade; e que servirão, justamente, para lançar-te abaixo em condenação dez vezes mais terrível. Irmãos, Deus, acaso, não irá culpar-lhes por desonestidade, com a desobediência aos pais. A única acusação que Ele traz de encontro a você aqui é um longo pecado da vida do homem natural, a impiedade. Deus não está em todos os teus pensamentos. Ele aceita que tu tens virtudes terrenas; mas isto, justamente isto, faz mais obscuros e indeléveis teus pecados contra o Céu.

 

I. Eu pressuponho a partir desta passagem, que as nossas virtudes mundanas não serão capazes de expiar o pecado, ou tornar-nos aceitáveis aos olhos de Deus. A humanidade é uma ruína; contudo, é bela, mesmo em ruínas. E, assim como, você pode passear por alguns magníficos monumentos, sobre quais tempestades de inverno irromperam durante séculos e ficar admirado com a visão de cada coluna entalhada outrora, agora, partida e desmoronada; e deleitar-se com o imaginário do anacrônico em meio às imagens meio desfiguradas da era gótica, como você pode fazer tudo isso sem sequer um pensamento da perda de sua glória arquitetônica maior, as grandes curvas de toda a elevada e majestosa construção para o Céu, com bastião e minarete; tudo agora afundado, enterrado em seus próprios escombros. Assim pode olhar para o homem; pode vaguear de uma afeição ou aptidão terrena para outra, cheio de admiração pela obra, curioso dAquele, que é de fato o mais hábil dos artistas; pode deleitar-se em meio à ordem primorosa de homem para homem, tão agradável, a medida que mantêm a sociedade em seus trilhos suave e facilmente, em frente; você pode fazer tudo isso, como milhares fizeram antes de você, sem, no entanto, um pensamento da perda maior glória do homem, a relação do homem com seu Deus e, embora, haja muitos no meio deste mundo perdido; honrados, retos e afetuosos com os pais, não há ninguém que busque a Deus.

 

Imaginemos, por um momento, que essas virtudes terrenas pudessem extirpar o pecado; e, apenas olhemos para as consequências. Onde você encontraria o homem destituído delas? Onde a salvação deve parar? Se honestidade e benevolência são capazes de apagar um pecado, por que não todos os pecados? Desta forma, você não poderia determinar qualquer limite entre os salvos e os perdidos; e, portanto, todos os homens poderiam viver como bem entendessem, pois você nunca poderia provar que um homem está fora da barreira da salvação. Mais uma vez; se as virtudes do mundo pudessem apagar o pecado, Cristo morreu em vão. Ele veio para salvar o Seu povo dos seus pecados. Anjos O anunciaram ao mundo, como o Salvador dos pecadores. João ordenou que os homens O contemplassem: eis Ele, o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo; e toda a Bíblia testifica que “por este se vos anuncia a remissão dos pecados”. Mas se as honestidades diárias, bondades e generosidades da vida, pudessem ser aproveitadas para tirar o pecado, no que era necessário que Cristo padecesse? Se algo tão barato e comum como as virtudes terrestres pudessem ser aproveitadas no riscar do pecado, por que seria necessária tão preciosa e inestimável provisão, como o sangue do Filho de Deus? Se, com toda a nossa integridade, e toda a nossa decência e honorabilidade no mundo, nós não permanecemos necessitados de tudo, é por acaso que Cristo nos aconselha a comprar dEle ouro provado no fogo, para que sejamos ricos? Nada do que é imperfeito pode nos tornar perfeitos aos olhos de Deus.

 

Assim vem a direção maravilhosa do ancião Wilcox Warns; “Trabalhe em busca de santificação ao máximo; mas não faça um Cristo disto; se assim for, cairá, de um jeito ou de outro. Obediência e os sofrimentos de Cristo, não a sua santificação, devem ser a sua justificação”. O assunto parece simples. Deus ainda deve julgar o mundo com justiça; isto é, pela firme regra de Sua santa lei. Se quisermos ser justificados diante dEle naquele dia, devemos ser perfeitos aos Seus olhos. Mas isso não pode ser por meio de nossa própria santificação, que é imperfeita; pelo contrário, deve ser feito através da imputação de uma justiça perfeita, assim, igualmente a perfeita obediência de Cristo, deve ser a nossa justiça. Somos completos e perfeitos apenas em Cristo Jesus. Mas ah! irmãos, se a nossa santificação não será contada como justiça naquele dia, muito menos o serão as nossas virtudes mundanas. Se sua honestidade e decência mundanas são suficientes para cobrir sua nudez, a fazê-lo agradável aos olhos de Deus, por que seria necessário Cristo ter cumprido toda a justiça, como um fiador em lugar dos pecadores? Por que, então, Ele Se ofereceria para fazer de pobres pecadores, justiça de Deus? Por que Ele diz de Seus salvos: “tua formosura, pois era perfeita, por causa da minha glória que eu pusera em ti”.

 

II. Deduzo desta passagem que as virtudes terrenas podem acompanhar um homem até o Inferno. Desejo falar com toda a reverência, e com toda a ternura tão temorosa sobre o assunto. O homem que fala do Inferno deve fazê-lo com lágrimas nos olhos. Mas, oh! Irmãos, não está claro então que, se o amor de pais terrenos e a honestidade terrena a mestres, fosse consistente com a impiedade absoluta sobre a terra, eles também podem ser consistentes com a impiedade do Inferno? Qual de vocês não se lembra da história do homem rico e Lázaro? Quando o homem rico levantou os olhos no Inferno, estando em tormentos, e quando orou a Abraão para enviar Lázaro para que molhasse o dedo na água, e refrescasse sua língua, o que foi o outro desejo que naquela hora temível repousou em seu coração e motivou a oração daquele homem miserável? Não foi porventura o amor aos seus irmãos? “Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento” (Lucas 16:27-28). Ah.! meus irmãos, esta única passagem não removeria  a assustadora cortina do mundo invisível de tormento? Não revelar-te-ia algumas das dores eternas com as quais tu nunca sonhaste. Haverá amor fraternal no Inferno. Aquelas chamas eternas e tórridas não poderão eliminar esse fator do nosso ser. Mas, oh! Não haverá nenhum bem estar nisso, mas sim dor. O amor pelos filhos estará lá; mas, oh! Quanto sofrimento não deve isso causar, quando a mãe amorosa encontrar os filhos em cujas almas ela não edificou, os filhos que ela nunca trouxe para o Salvador, os filhos não conduzidos em oração, iletrados na oração! Quem deve descrever o encontro da amada esposa e o marido carinhoso em um Inferno eterno? Aqueles que nunca oraram um com o outro, e pelo outro; aqueles que mutuamente sufocaram convicções de cada um; aqueles que promoveram e encorajaram o próximo em seus pecados? Ah! meus amigos se, estes, os afetos mais ternos e mais amáveis ​​da nossa natureza, deverão ser tais instrumentos impetuosos de dor, o que há de ser a nossa depravação?

 

Gostaria agora de falar algo para aqueles de vocês que estão confiando serem salvos por suas virtudes. Oh! Que sejam convencidos, hoje, pela Escritura e pela sabedoria, que por este modo, se vocês permanecerem fora de Cristo, e, portanto, não em paz com Deus, farão nada, senão agravar a sua impiedade, e adicionarão tormento indizível ao seu tormento. Se, assim, nossas próprias virtudes nos condenam, o que farão os nossos pecados? Se o homem mal deverá com tanto terror encarar a calamidade, onde o pecador contrito apelará? Há, contudo, uma fonte aberta em Sião, a que tanto o ímpio quanto pecador podem ir; e, apenas, se você estiver convencido a crer que você não é nem mais nem menos do que uma dessas criaturas perdidas e arruinadas, eu estou certo de como, rapidamente, você correrá para banhar-se nestas águas expiatórias. Mas se ainda continuar insistindo sobre o ponto de suas muitas qualidades excelentes, sua honestidade, sua sinceridade, sua afeição filial e paternal, sua probidade gentileza em caridade, e não será convencido pela palavra de Deus, que, embora o filho honre o seu pai, e o servo o seu senhor, você faz nada, senão adicionar um mais profundo e diabólico tormento ao seu esquecimento e desprezo de Deus.

 

Se ainda prosseguirem assim, então apenas podemos nos virar com tristeza, e dizer: “Os publicanos e as meretrizes entraram no céu antes de vocês”.

 

Larbert, 22 de Novembro de 1835.

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