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Os Dez Mandamentos, por Cornelius Van Til: A Introdução e o Primeiro Mandamento — Religião

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Sumário

 

Introdução — Pressupostos

 

O Primeiro Mandamento — Religião

 

O Segundo Mandamento — Adoração

 

O Terceiro Mandamento — Revelação

 

O Quarto Mandamento — O Sabath

 

O Quinto Mandamento — Autoridade

 

O Sexto Mandamento — Vida Humana

 

O Sétimo Mandamento — Pureza

 

O Oitavo Mandamento — Propriedade

 

O Nono Mandamento — Verdade

 

O Décimo Mandamento — Desejo

 

***
 

Introdução — Pressupostos

 

1. O principal pressuposto da lei moral é o teísmo Cristão. A única pergunta suprema que aparece momentaneamente quando a lei é tema de discussão é se a lei é autossuficiente ou se ela repousa sobre personalidade absoluta. A questão colocada desta maneira, obriga-nos a ser ou teístas Bíblicos ou Pragmáticos. Lei que não repousa na personalidade absoluta deve ter se originado a partir do continuum espaço-tempo de um universo autossuficiente e é, por esse motivo, suficiente em si mesma. A questão entre o teísmo Cristão e outro pensamento não é o de personalidade, porque isso pode significar não mais do que a lei ser baseada na personalidade humana, ou pelo menos, personalidade finita. As Escrituras contemplam a lei como o anúncio de Deus como personalidade absoluta.

 

Como corolário deste pressuposto segue-se que a totalidade do universo espaço-temporal é criada por Deus. As leis que existem neste universo criado são manifestações do plano de Deus. A uniformidade da natureza sobre a qual a ciência tanto fala não existe em independência de Deus, mas existe como uma expressão de um Deus que ordena. Deus é imanente em Sua criação. Se alguém quebra uma lei da natureza, quebra uma lei de Deus. A indiferença para com qualquer lei, seja essa lei física ou normal, é uma ofensa a Deus. Definir a lei em oposição a Deus é como colocar uma criança em oposição ao seu pai. Esse foi o pecado do Deísmo. Por outro lado, um Deus absoluto não pode ser identificado com a lei no universo temporal. John Fiske tenta interpretar a teologia de Atanásio desta forma, a fim de mostrar que o “Teísmo Cósmico” é realmente o teísmo bíblico.[1] Se a interpretação de Fiske fosse verdadeira, a personalidade absoluta teria que ser — embora isso seja impossível — negada pelo teísmo. Identificar a lei com Deus é identificar uma criança com seu pai. Esse foi o pecado do Panteísmo.

 

Novamente segue-se a partir do pressuposto teístico de um Deus absoluto que a lei na história é expressiva de um propósito de Deus. Outrossim, uma visão deísta da história envolve uma separação arbitrária de Deus e das leis na história incorrendo na destruição de ambos. Por outro lado, uma visão panteísta da história envolve uma identificação arbitrária de Deus com as leis da história, o que também incorre na destruição de ambos. Tanto o Deísmo quanto o Panteísmo buscam elevar a lei, mas ambos destroem a lei em sua tentativa de elevação. O Teísmo, ao elevar a Deus, também elevou a lei. Nem o Deísmo nem o Panteísmo podem dizer que a violação da lei é um insulto a Deus, uma vez que ambos identificaram a lei com Deus. Eles devem, portanto, dizer que a violação da lei é a violação de Deus, ou seja, a negação de que Deus existe. Quando isso é feito, a autoridade da lei se vai e a sua respeitabilidade não pode durar muito.

 

A autoridade absoluta é, portanto, característica de e implícita na concepção da lei, no sentido teísta. “Porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás”, não é um comando arbitrário. Qualquer criatura pecando contra a lei pecou contra um Deus absoluto e uma absoluta separação de Deus naturalmente se segue.

 

Assim também a condição da existência do homem e do seu realizar seu destino é um completo cumprimento da lei de Deus por parte do homem. O Deísmo e o Panteísmo podem dizer que é aconselhável ao homem ser obediente à lei, uma vez que ao fazê-lo, ele fará um progresso mais rápido do que o faria de outra forma, mas apenas o teísmo pode dizer que o homem destrói a si mesmo se ele é desobediente à lei.

 

Por assim adulterar a lei, o Deísmo e o Panteísmo estão brincando com fogo. Mais do que isso, a fim de sustentarem os seus pontos de vista relativistas da lei, eles devem primeiro sustentar uma visão relativista de Deus; eles brincam com fogo e estão eles próprios em chamas. Segundo, isso nos leva ao segundo pressuposto da lei moral, ou seja, o caráter restaurador e suplementar do Cristianismo. O Cristianismo exige ser restaurador e suplementar em um teísmo original. Apenas no Cristianismo o homem se encontra com um Deus absoluto. No que diz respeito à questão da lei, isso significa que apenas o teísmo Cristão pode falar de lei absoluta ou lei com autoridade absoluta.

 

O Cristianismo implica que o homem quebrou a lei devido ao pecado. Com isso, ele ipso facto destruiu a própria condição de sua existência e trouxe punição eterna sobre si mesmo. O homem tornou-se um Deísta ou um Panteísta. Se o homem deveria viver, em absoluto, ele deveria ser restaurado quanto ao respeito e obediência à lei. Cristo realizou esta restauração. Através de Seu sofrimento, Ele satisfez a penalidade da lei. Mais do que isso, por meio de Seu ativo e completo cumprimento da lei, Ele supriu a perfeição original do homem, para que aqueles que estão em Cristo sejam herdeiros da vida eterna, sem falha. Através da Sua Palavra e Espírito, Cristo fez “Seus próprios” participantes da Sua relação correta com a lei.

 

O homem deve receber o conhecimento da lei a partir das Escrituras. Originalmente, o homem encontrou na experiência a manifestação e a resposta espontânea à lei de Deus, mas desde a entrada do pecado, teve que ser dada uma manifestação objetiva, e uma resposta renovada à lei. A Escritura, como algo concomitante a Cristo, concede a manifestação objetiva da lei absoluta e o Espírito de Cristo dá ao homem a renovada resposta subjetiva quando a lei é vista. Somente os verdadeiros Cristãos são verdadeiros teístas. Apenas os verdadeiros Cristãos conhecem e obedecem a lei.

 

Para ilustrar o ponto do parágrafo anterior, podemos contrastar a concepção Cristã e Kantiana sobre a lei. A razão para escolher Kant é que ele é mui geralmente pensado ter um maior respeito pelo caráter absoluto da lei do que até mesmo um Cristão poderia ter. Se Kant for encontrado ser antiteísta, a maioria das outras filosofias serão certamente assim. Em primeiro lugar, então, quanto à origem do conhecimento do homem sobre a lei Kant olha “para dentro”, enquanto o Cristão olha para a Escritura. Kant pensa que é possível entrar mediatamente em contato com a lei absoluta, enquanto o Cristão afirma que o homem, por ser agora um pecador, deve buscar imediatamente entrar em contato com a lei absoluta. Em outras palavras, Kant nega que o pecado separou o homem de Deus e, portanto, também de um verdadeiro conhecimento e respeito pela lei. Consequentemente, Kant nega que o Cristianismo é objetiva e subjetivamente restaurador de um verdadeiro teísmo. O “mal radical” de Kant não é radical em absoluto em comparação com a concepção do pecado como entretida pelo Cristão. O mal radical de Kant é apenas uma má relação. Que isto é assim é ainda mais claro se em segundo lugar, observamos que a recusa de Kant de uma epistemologia Bíblica como falada acima envolve e baseia-se no relativismo em metafísica. Buscar a solução do mal na experiência, porque alguém considera-o como um ingrediente erradicável e inerente a toda experiência possível, é negar qualquer Experiência que seja absoluta. O mal é destrutivo da coerência e qualquer experiência absoluta deve ser completamente coerente. Daí, dizer que o mal é inerente a toda experiência possível é negar o absoluto de Deus e, portanto, o caráter absoluto da lei. Assim, o “du sollst” de Kant é reduzido ao nível de conselhos pragmáticos. Somente o Cristianismo sabe algo sobre uma lei absoluta.

 

As observações anteriores podem ajudar-nos a compreender a profundidade inclusiva da lei, como promulgada nas Escrituras. Deus dirige-Se ao homem genericamente, embora diretamente ao “Seu povo” somente. Todos os homens desobedeceram a lei, ainda assim, todos os homens devem obedecer à lei. O fato de que o comando vem diretamente ao “povo de Deus” só é devido à economia da redenção, e não por qualquer diferença de obrigação entre uma nação e outra. Deus lida com o homem genérica e federalmente. Novamente, se é verdade que, tanto quanto a demanda essencial da lei está em causa, não há diferença entre o crente e o não-crente; é, se possível, mais verdade que a demanda de Deus é a mesma para o povo de Deus em todas as eras. As várias etapas na economia da redenção não afetam no mínimo os requisitos da lei de Deus. As várias etapas da economia da redenção, na medida em que relacionam-se à lei, têm a ver apenas com a forma da lei. Durante a antiga dispensação houve uma ênfase no exterior e no nacional. Durante a nova dispensação, a ênfase é sobre o interno e o universal. Durante o Antigo Testamento, a lei foi dada, em muito, externamente. Muitas leis cerimoniais foram elevadas, tanto quanto a necessidade de obediência está em causa, a uma igualdade com os Dez Mandamentos. Por outro lado, este grande detalhe exterior desapareceu desde a aparição de Cristo, porque com Ele é dada ao Seu povo uma revelação objetiva mais clara e mais central da lei de Deus e uma mais profunda, e mais ricamente espiritual e, portanto, uma resposta subjetiva mais central à lei de Deus. Assim, na nova dispensação, pode tornar-se necessário, a fim de viver de acordo com a exigência verdadeiramente espiritual de uma perfeita obediência, acabar com muitos dos detalhes exteriores da forma da lei do Antigo Testamento. Paulo diz que é uma negação da obra de Cristo agarrar-se às exigências do Antigo Testamento depois da vinda de Cristo. O caso é semelhante no que diz respeito ao nacionalismo do Antigo Testamento. Esse nacionalismo não é uma negação essencial do alcance universal da lei. Daí o universalismo do Novo Testamento não se opõe ao nacionalismo do Antigo Testamento, mas é apenas um florescimento dele.

 

E se é verdade que, tanto quanto a manifestação objetiva da lei está em causa, não há diferença essencial entre a Antigo e a Nova dispensação, isso é igualmente verdade com a resposta subjetiva em cada caso. Não é mais verdade do Antigo Testamento do que do Novo que uma mera observância exterior da lei era suficiente. A lei de Deus é sempre espiritual e exige sempre o amor a Deus como o motivo para a sua realização. Daí, também, não é verdade que a obediência à lei era uma exigência do Antigo Testamento, enquanto no Novo Testamento o amor foi substituído pela obediência. A obediência é amor e o amor é obediência, e somente eles podem responder adequadamente a uma lei espiritual.

 

O mesmo ponto em que não há diferença real entre o povo do Antigo e Cristãos dos dias atuais no que diz respeito à lei de Deus pode ser ilustrado também apontando para a unidade essencial da lei e do Evangelho. Há uma grande diferença entre eles, tanto quanto a economia da redenção está em causa. Disso João fala quando diz que a lei veio por Moisés, mas a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. Mas o próprio conteúdo do Evangelho é que Cristo cumpriu a lei. Assim, a alegria do Evangelho é que o homem pode, em Cristo, conhecer e obedecer à lei e, portanto, viver na presença de Deus para sempre. Não há Evangelho, senão o que é da lei. Por outro lado, o Evangelho é lei, porque todos devem obedecê-lo. Em resposta à pergunta dos judeus, quanto ao que eles devem fazer para realizar as obras de Deus, Jesus responde que eles devem crer no nome do Filho de Deus.

 

Ainda mais, se não houver diferença essencial, mas apenas uma diferença econômica entre a promulgação e a resposta à lei na Antiga e na Nova dispensações, segue-se que a forma em que a lei pode vir não pode ser usada como um argumento a favor ou contra a validade da lei. A forma de propagação da lei no Antigo Testamento era necessariamente exterior e temporal. As promessas e as ameaças, por exemplo, dizem respeito às coisas desta vida. A longa vida em Canaã debaixo da videira e da figueira constituíam a essência da promessa, enquanto a morte corporal era a substância da punição sob a Antiga dispensação.

 

Mas esse fato não fez a lei menos espiritual. Canaã aqui embaixo era, como Abraão viu, profética da futura Canaã, e a morte física é para um pecador não-reconciliado o portão de entrada para a morte exterior. Isso não negará devidamente o significado universal e permanente do mandamento que promete aos filhos uma vida longa e terrena se eles forem obedientes aos pais pelo fato de que é manifestamente uma promessa do Antigo e não do Novo Testamento. O cumprimento dessa promessa pode não vir em uma mesma forma agora, como uma vez veio, mas o cumprimento não é menos real ou certo.

 

Um outro ponto deve ser mencionado quanto à forma da lei dada no Antigo Testamento, e este é que a lei diz constantemente, “tu não irás” em vez de “tu irás”. Por que essa forma negativa? Para responder a esta pergunta, devemos recordar o caráter geral do Cristianismo como restaurador de um teísmo original. Originalmente não havia razão para essa ênfase negativa. O homem espontaneamente obedecia a lei e na medida em que não havia ocasião para Deus adicionar mandamentos pela comunicação direta com o que foi dado ao homem pela criação, as formas positivas e negativas de dar tais mandamentos poderiam ser equilibradas. Mas com a entrada do pecado, o homem constantemente evitou e quebrou a lei de Deus. Além disso, a sua ignorância da verdadeira lei aumentou. Portanto, se Deus deveria trazer a Sua lei ao conhecimento e obediência do homem, Ele tinha que dizer mais vezes o que o homem não deve fazer do que o que ele deveria fazer. A criança, porque é uma criança pecadora, tentará ser uma lei em si mesma. É impossível, então, que os pais não devam dizer mais frequentemente “não faça” do que “faça”.

 

No entanto, este fato não deve nos cegar para a verdade de que é a obediência positiva, o positivo cumprimento do bem, e não apenas uma abstenção negativa do mal que Deus requer. Por conseguinte, é necessário que nós façamos dessa demanda positiva da lei de Deus, o nosso ponto de partida. Devemos perguntar, no caso de cada mandamento o que é que Deus quer do homem, a fim de usá-lo como um padrão pelo qual julgar o quão longe o homem ficou aquém de satisfazer essa demanda.

 

Quanto ao método, isso é o oposto da filosofia moderna e da psicologia das escolas religiosas. Eles trabalham com a suposição de que o mal é tão básico quanto o bem no homem e no universo. Daí eles simplesmente traçam o caminho pelo qual o homem com o auxílio da lei permitiu a si mesmo escapar um pouco do controle completo do mal. Do ponto de vista deles, é o máximo do dogmatismo pressupor que o mal neste universo é devido a uma deserção humana a partir de um Deus absoluto. Nós, por outro lado afirmamos que, a menos que isso seja verdade não existe uma lei em absoluto e toda a moralidade carece de fundamento. Por isso, não podemos fazer diferente, senão seguir o caminho exigido pelo pressuposto central do teísmo.

 

 

 

A Lei Moral

 

Antes de iniciar a discussão sobre o Primeiro Mandamento devemos ter claramente em mente não só o que se entende por lei em geral, mas o que se entende por lei moral. Nós propositadamente não fizemos distinção entre os tipos de lei até este ponto, a fim de chamar a atenção para o fato de que um teísta considera toda lei de forma diferente do que um não-teísta. Mesmo lei física ou natural significa algo completamente diferente para um teísta Cristão do que ela significa para um antiteísta. De acordo com o teísmo, o homem vive e se move e tem a sua existência em uma atmosfera da lei de Deus, tanto em relação ao seu corpo quanto à sua alma. Viver neste ambiente significava a sua liberdade, como significa liberdade que um peixe viva em seu ambiente natural. Mas quando o homem quebrou a lei em um ponto, ele quebrou em cada ponto. O moral e o físico estão inextricavelmente interligados. Como profeta, sacerdote e rei, o homem deveria conhecer, dedicar-se a Deus e governar para Ele todo o universo físico. Mas quando o homem, devido ao pecado, tornou-se um profeta sem manto, um sacerdote sem sacrifício e um rei sem coroa, ele trouxe o seu corpo, juntamente com a sua alma e o universo ao seu redor, juntamente à ruína. Por outro lado, com Cristo no mundo físico, assim como o corpo do homem bem como a sua alma, são restaurados às suas relações normais para com a lei de Deus.

 

Por esta maneira de conceber a relação entre o físico e o moral estamos novamente em oposição ao pensamento antiteístas que assume que não há nenhuma conexão entre o físico e o moral. Em todas as discussões por escritores não-teístas sobre a responsabilidade, enquanto a lei física está em causa, o homem pode ser tanto um filho da fortuna ou do azar, e nada mais. Considera-se ser obviamente ridículo pensar sobre a humanidade como se esta de alguma forma fosse responsável pela fome ou peste. Mas, novamente, não podemos fazer outra coisa senão sustentar o nosso ponto de vista, uma vez que faz parte do teísmo Cristão, e o teísmo Cristão parece-nos a filosofia de vida mais razoável a ser sustentada.

 

 

 

1) Lei Física e Moral

 

Sustentando, então, a estreita ligação entre e a origem comum e a autoridade tanto da lei física quando da lei moral, podemos, no entanto, distinguir entre elas. A lei física é a ordenança de Deus para a criação não-responsável. A lei moral é a ordenança de Deus para as suas criaturas racionais. No caso da lei física, Deus não espera uma resposta autoconsciente, enquanto no caso da lei moral, Ele espera. Na medida, então, que o homem é capaz — em virtude de sua criação à imagem de Deus — de reagir conscientemente em qualquer direção à lei de Deus, o homem age moralmente. Por agir moralmente, nós apenas queremos dizer, neste caso, que ele age conscientemente a respeito da lei de Deus. Nós não podemos mesmo dizer que ele age moralmente apenas quando nos preocupamos com questões de obrigação, enquanto que em assuntos intelectuais, a moralidade não entra. O homem deve pensar direito, ou seja, ser um verdadeiro profeta; o homem deve fazer direito; ou seja, ser um verdadeiro rei; e o homem deve sentir direito, isto é, ser um verdadeiro sacerdote. No sentido mais amplo do termo, então, toda a resposta autoconsciente à lei de Deus, onde for revelada, é a ação moral. Quando o termo moral é usado, ele é oposto a não-moral.

 

 

 

2) O Moral e o Religioso

 

Para o homem como um ser autoconsciente e assim, ser que age moralmente, havia duas principais esferas de resposta autoconsciente nas quais ele poderia obedecer à lei de Deus. Havia um aspecto da lei geral de Deus para o homem que diz respeito mais diretamente à relação do homem com Deus. Havia um segundo aspecto da lei geral de Deus para o homem que diz respeito mais diretamente à relação do homem para com o seu semelhante. Estes aspectos sobrepõem-se, mas é certo que — na medido que em sentido último toda a lei é a lei de Deus — há uma distinção relativa entre elas. Quando o homem obedecia ao primeiro aspecto da lei, ele era verdadeiramente religioso e quando ele quebrava este primeiro aspecto da lei ele era irreligioso ou falsamente religioso. Quando o homem obedecia ao segundo aspecto da lei ele era moral no sentido mais estrito do termo e quando o homem desobedecia ao segundo aspecto da lei ele era imoral,[2] no sentido mais estrito do termo. Quando, na linguagem comum, falamos de um homem sem religião, que é aquele que não atende às devoções, não dizemos que ele também é um homem imoral, isto é, que ele não pode ser um bom pai e bom vizinho. Por outro lado, a Escritura e a experiência concedem numerosas ilustrações daqueles que disseram que o bem que o seu pai ou sua mãe poderiam aproveitar dele era corbã, e ainda assim se diziam dedicados ao Senhor. O homem verdadeiramente moral também deve ser um homem verdadeiramente religioso e o homem verdadeiramente religioso, também deve ser um homem verdadeiramente moral. Um homem imoral, por mais que ele pareça ser religioso, é, na verdade, irreligioso, somente peca menos diretamente contra Deus do que aquele que quebra abertamente a lei de Deus, na medida em que se refere diretamente à relação do homem para com Deus.

 

Agora, com estas distinções em mente, ao olhamos para o Decálogo ou lei “moral”, vemos que os primeiros três mandamentos lidam principalmente com a religião. Por esta razão eles não são estritamente os mandamentos que dizem respeito à moralidade. Ainda assim, eles são partes da lei moral, no sentido mais amplo do termo, desde que na Lei, Deus vem ao homem como um ser autoconsciente. Em segundo lugar, notamos que os Mandamentos do Sexto ao Nono lidam mui definitivamente com as normas da relação do homem para com seu semelhante. Mas, novamente, isso não implica que a quebra de qualquer uma ou todas essas leis não afeta a sua posição religiosa. A unidade da lei, nos seus aspectos religiosos e mais definitivamente morais deve sempre ser mantida em vista. O Quarto e Quinto mandamentos são de um caráter misto, indicando a estreita união entre o religioso e moral, enquanto o Décimo mostra claramente que uma e a mesma motivação produz a verdadeira religião e a verdadeira moralidade.

 

O quão contrária esta maneira de conectar o religioso e o moral é do temperamento moderno pode ser visto a partir de um artigo de W. E. Pitkin na Century Magazine de outubro 1926, em: “Our Moral Anarchy” (Nossa Anarquia Moral). Das quinhentas pessoas instruídas que responderam a um questionário sobre o valor relativo dos vários Mandamentos do Decálogo, não menos do que cento e dois relataram que “eles não poderiam lidar com os Quatro Primeiros Mandamentos, porque na sua opinião estes não têm nenhum valor moral”.[3] Em seguida, havia um grande grupo que lidaria, em algum sentido, com as duas tábuas da lei, mas que, pelo menos, fariam a segunda tábua da lei vir em primeiro lugar. Como exemplo destes, ele fala dos Modernistas. Deles, ele diz: “O que Jesus colocou em primeiro lugar, os modernistas colocaram em segundo; e o que Jesus colocou em segundo lugar, os modernistas colocaram em primeiro”.[4] Adicione a estes os comunistas morais que professam que não se preocupam com a primeira tábua da lei em absoluto e a declaração de Pitkin que há cinco modernistas morais e dois socialistas para cada fundamentalista moral e torna-se evidente que, como ministros Cristãos, devemos salientar a irreligiosidade da religião sem moralidade e ressaltar ainda mais a imoralidade da moral sem religião.

 

Não será possível tentar traçar as várias manifestações da geral moralidade autonômica sobre nós hoje. [5] Menos ainda será viável buscar as razões que acarretam moralidade que, como teístas, nós não podemos deixar de estar tristes em ver.

 

A tarefa do ministro do Evangelho é fazer isso em primeiro lugar. Mas este não é o fim de sua tarefa. Ele deve pregar a demanda total da lei de amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo. Como, infelizmente, o púlpito tem negligenciado a sua missão a este respeito. Há muitos que citam superficialmente a lei para defender a Décima Oitava Emenda[6] ou qualquer outra coisa que chama a sua atenção. Mas que bem fará isso se a congregação não foi alimentada sobre a pregação da lei no sentido de colocar diante dos homens todo o seu dever em relação a Deus e ao homem? “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles” (Isaías 8:20).

 

 

O Primeiro Mandamento — Religião

 

1. Observações

 

Uma discussão completa sobre o Mandamento exigiria uma exposição da origem e natureza da religião. Nós apenas discutiremos a natureza da religião e não a questão da origem. A questão da origem da religião não surge, porque o teísmo é o pressuposto do Decálogo.

 

Em segundo lugar, notamos que a resposta que alguém dá à questão da natureza da religião é também determinada pela sua posição teísta. De acordo com o teísmo, o homem é inerentemente religioso. Mas há muitos que hoje admitirão esse fato e ainda assim não são teístas.[7] A razão para tal visão é o fato de que a História e a Psicologia não têm sido capazes de encontrar qualquer fase irreligiosa do desenvolvimento do homem. No entanto, de volta à História, eles devem posicionar o misterioso vazio. E esse vazio muda a natureza da religião. No máximo, a religião se torna uma vaga reverência ao que é misterioso. [8] O teísmo Cristão, por outro lado, pressupõe Deus de volta à História. Assim, uma base razoável é dada à religião. Assim, a natureza da religião é determinada por este fundamento de Deus.

 

Então, além disso, está envolvido no teísmo que o homem originalmente tinha a verdadeira religião. Novamente, há muitos não-teístas que admitem esta alegação. Eles sustentam que todas as religiões são verdadeiras religiões. Mas o teísta sustenta que apenas o Cristianismo é a religião verdadeira. As outras religiões são desvios de um teísmo original.

 

Nós mencionamos este fato porque é bastante comum hoje falar sobre a religião como se fosse completamente possível determinar a natureza da religião sem fazer qualquer discussão metafísica. Diz-se que esta é uma questão para a Psicologia somente. Que tal posição é insustentável é imediatamente visível se for lembrado que a religião lida com o invisível. Como a religião diz respeito ao Invisível, nenhuma resposta completa pode ser dada pela Psicologia.[9] Nós encontramos ser um fato, então, que algum tipo de metafísica está sempre envolvido em nosso estudo sobre a natureza da religião. O assim chamado método científico de determinar a natureza da religião difere do método teísta na medida em que o “método científico” assumiu uma metafísica pragmática relativista.

 

Outros admitirão que uma metafísica está envolvida na determinação da essência da religião, mas são obrigados a ser “científicos” no método pelo qual eles estabelecem sua metafísica. Dr. Harry Emerson Fosdick pode servir como uma ilustração desta forma de lidar com a natureza da religião. Em um sermão pregado em 9 de novembro de 1930 ele falou da relação do homem com o Invisível. Ele advertiu contra confiar naqueles que afirmam saber tudo sobre o Invisível, seja positiva ou negativamente. O Invisível é incerto. No entanto, podemos estar confiantes em relação a isso. Cada nova revelação que veio a nós a partir do Invisível mostra que ele é mais maravilhoso do que antes. Esta posição é dita ser bíblica. Na prova da alegação de que o Invisível é incerto para nós, as palavras de Cristo: “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste”, foram citadas dentre outras.

 

Agora parece claro que tal sermão não é nem Cristão, nem teísta. Sem justificação, presume-se que Cristo não é mais que uma personalidade humana, em vez de uma personalidade Divina, que assumiu a natureza humana. Sem justificação supõe-se que não existe um Deus absoluto para quem o invisível é um livro aberto. Se Deus é o que o teísmo sustenta que Ele seja, a saber, uma personalidade absoluta, a pura religião é determinada pela relação do homem para com Deus, em vez de para com o Invisível em geral. O ponto em disputa entre o Modernismo e o Teísmo é o absoluto de Deus; uma deidade finita, ou o Politeísmo é tudo o que o Modernismo pode permitir. À primeira vista, parece ser muito científica a referência de base para o desconhecido exclusivamente sobre os “fatos”. Mas quando os argumentos baseados nesses “fatos” devem pressupor um completo relativismo metafísico para a contingência deles, o caráter científico de tais argumentos é muito prejudicado. Nós não protestamos contra a aceitação do relativismo ou o seu pressuposto, se apenas for indicado claramente como isso difere do Cristianismo e do Teísmo tradicional. Se isso fosse feito as “pessoas comuns” não seriam seduzidas pela terminologia que pareceu Cristã. Se isso fosse feito exceto os da “intelligentsia[10]” seriam desviados porque, então, veriam as consequências da sua escolha.

 

 

 

2. O que é Comandado

 

A. Religião Para Adão

 

A lei que temos foi promulgada após a entrada do pecado. Originalmente não havia necessidade de uma tal promulgação externa. Adão era espontaneamente religioso. A lei foi escrita em seu coração. O profeta Jeremias prometeu que o Messias, em princípio, restauraria esta condição. Cristo nos deu mais uma vez o verdadeiro amor a Deus e, portanto, também o amor verdadeiro pela lei de Deus.

 

Quando a lei tal como a conhecemos diz: “Tu farás, etc.”, ela direciona-se diretamente ao homem Israelita, e a ninguém mais. Ainda assim, uma vez que na história Israelita o princípio de redenção é operativo, o homem em geral não é excluído, mas definitivamente incluído no termo “tu”.

 

Assim, podemos concluir também com respeito a tudo O que é Comandado nos vários mandamentos que, mesmo sem a necessidade de qualquer comando, a relação do homem para com Deus já foi o que está aqui contemplado na lei.

 

Por sua vez, agora, para determinar o que a verdadeira religião era no Paraíso, devemos lembrar que o homem foi criado como profeta, sacerdote e rei. Como um profeta, o homem tinha que pensar o pensamento de Deus por ele. Aqui reside o reino do intelecto e da verdade ou ciência. Como um sacerdote, o homem devia dedicar a si mesmo e toda a criação a Deus. Aqui está o reino das emoções e da estética ou da arte. Como um rei, o homem devia reinar sobre toda a criação abaixo de Deus. Aqui está o reino da vontade e da ação. Mas o intelecto, as emoções e a vontade são apenas aspectos de um ego central, a personalidade humana. Agora é este o ego central que é colocado face a face com a personalidade absoluta de Deus no Primeiro Mandamento. Nos Mandamentos que seguem o homem será informado sobre as várias maneiras e métodos pelos quais e através dos quais ele pode ser verdadeiramente religioso na moral, mas neste Mandamento o homem no mais santo dos santos de seu ser é colocado diretamente face a face com Deus. A relação do coração do homem para com Deus é tudo o que realmente importa. Se essa relação é boa, tudo está bem. Se essa relação é falsa, todo o restante é falso. O homem verdadeiramente religioso é o verdadeiro homem moral. Ao pregar sobre este mandamento nós não devemos dizer mais nada, senão acerca dessa relação interna da alma do homem para com Deus.

 

Ouve, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Esse foi um refrão recorrente que veio a Israel. Somente após o homem haver caído em profundidades inconcebíveis do pecado é que é possível que ele alguma vez pense em outros deuses. O politeísmo não é um trampolim natural para o teísmo, mas um triste desvio dele.

 

Este ponto se torna ainda mais claro se levarmos em conta que somente o homem foi criado à imagem de Deus. Somente o homem pode ser religioso. A religião envolve uma relação entre duas personalidades. A religião é sempre uma relação de aliança. Somente a partir de um ser autoconsciente como Ele mesmo, Deus poderia receber adoração religiosa. Quanto da pesquisa moderna derivou desta posição que pode ser notado quando alguém lembra que alguns evolucionistas têm pensado que eles observaram a religião em animais. Esta posição extrema não é mui comumente sustentada. No entanto, quase sem exceção, as principais escolas de filosofia da religião sustentam que a moralidade tem historicamente descendido da não-moral e a religião da não-religião. Agora este ponto de vista, implicitamente, se não explicitamente, nega não somente a criação do homem à imagem de Deus, mas nega o próprio Deus. Se Deus não existe, então o homem é criado à sua imagem, já que nesse caso nenhuma personalidade autoconsciente poderia se originar de qualquer outra fonte. Por outro lado, se a personalidade finita autoconsciente existe, Deus existe como seu Criador, uma vez que a personalidade finita não pode encontrar sua explicação em nada a não ser em Deus. De qualquer forma, se a religião derivou-se do não-religioso, então, a sua essência é totalmente expressa em lealdade a princípios vagos de bondade, verdade e beleza em vez de reverência a um Deus absoluto, uma vez que o Universo é, nesse caso, um conceito mais amplo do que Deus.

 

Estamos agora preparados para ver que religião está na base do teísmo Cristão. O intelecto do homem devia fixar-se em Deus. Em Deus o homem encontraria uma profundidade inesgotável de conhecimento. Assim e assim somente o homem podia ter conhecimento genuíno e ser um verdadeiro profeta. Em segundo lugar, a verdadeira religião envolve uma fixação de nossos desejos em Deus, um esforço diligente por comunhão com Ele, a posse dEle em nossas almas. Isto é verdadeiro misticismo. Em terceiro lugar, a verdadeira religião implica toda a submissão da nossa vontade a Deus. A vontade de Deus para o homem não deve ser sentida pelo homem como um fardo para ele. Antes, ela deve ser considerada como a principal fonte de alegria para o homem.

 

Estes três elementos juntos constituem a verdadeira religião. Elas implicam a fé em Deus, o amor de Deus, a confiança em Deus. Isso, às vezes, é chamado de “piedade”, às vezes, “temor de Deus”, e, por vezes, “amor a Deus”.

 

B. Religião Após a Entrada do Pecado

 

Há um grande elemento de verdade na alegação da filosofia recente de que a religião é, em essência, a mesma. Não poderia ser de outra forma. A falsa religião deve ser uma imitação da verdadeira religião. O homem não tem recursos, senão os derivados de Deus. Não há um pingo de originalidade no homem para além da originalidade implicada na revelação de Deus. Assim, o teísmo e antiteísmo estão de acordo sobre este ponto. No entanto, o seu acordo é formal e nada mais. O não-teísta sustenta que as religiões são essencialmente as mesmas, porque o teísmo é apenas um pouco mais elevado do que outras religiões. O teísmo sustenta que as religiões são semelhantes na forma, porque as outras religiões são uma deformação imitativa de um teísmo original.

 

Devido à operação da graça comum de Deus essas falsas religiões têm sido capazes de chegar a um grande grau de similaridade com o teísmo Cristão. Uma vez que estes pontos são claramente entendidos, que teísmo é original e que o princípio da graça comum permitiu que o homem pecador desenvolvesse uma pseudo-religião que se assemelha muito à verdadeira religião, isso nos impedirá de confusão.

 

Por um lado, tem havido muitas vezes uma subestimação das religiões pagãs por parte dos Cristãos ortodoxos. Há alguma verdade na acusação feita repetidas vezes que os Cristãos ortodoxos têm procurado defender a verdade da sua religião por um isolamento artificial.[11] É bem verdade que tal política é autodestrutiva. O Cristianismo é o teísmo vindo a si mesmo. Nós desejamos a base mais ampla possível para o Cristianismo. A “recriação”, ou seja, a redenção baseia-se na e é restauradora da criação. No correto sentido da palavra, o Cristianismo é tão antigo quanto a criação ou pelo menos tão antigo quanto o protoevangelium. não pode ser muito repetidamente reiterado que o Cristianismo nada introduz de novo, mas que reintroduz o antigo.

 

Por outro lado, há uma tendência para obliterar a distinção entre a religião Cristã e a Pagã. Sua semelhança formal tem levado muitos escritores a não verem nada mais do que uma diferença de quantidade entre elas. Agora, vamos esperar isso de não-teístas declarados. Mas também há muita estima sobre esta matéria por parte dos professos teístas Cristãos. O Cristianismo é dito estar em uma relação de clímax quanto às outras religiões. Assim, o autor de Christ of the Indian Road (Cristo da Estrada Indiana) parece conceber a matéria. Agora, esta maneira de colocar a questão é ambígua. É a verdade, e ainda assim não toda a verdade. Cristo é “o desejo das nações”, mas em que sentido? No sentido em que eles estão buscando apenas este tipo de realidade? Se isso fosse verdade, a declaração de Paulo de que o “homem natural” está “em inimizade” contra Deus deve ser revista. Mas, desde que nós tomamos as Escrituras como sendo coerentes consigo mesmas, podemos ver “o desejo” das nações, em suas aspirações de busca da verdade não mais do que numa vaga sensação de carência. No que diz respeito à sua ação autoconsciente e intencional, eles têm definitivamente virado as costas para Deus. Eles são apóstatas de Deus. Ou isso é verdadeiro porque o teísmo é verdadeiro ou isso não é verdade, porque o teísmo não é verdade. No entanto, como o filho pródigo da parábola de Cristo, às vezes, eles sentem que eles estão tentando satisfazer as suas necessidades com as alfarrobas do antiteísmo. Eles, às vezes, até mesmo constroem um altar ao “Deus desconhecido”. Todavia, mesmo quando um apóstolo vem enviado diretamente deste Deus desconhecido para eles, a fim de torná-lO conhecido, eles respondem que ele fala “loucura”. Somente quando for do agrado do Espírito “salvar por meio da loucura da pregação os que creem”, eles aceitarão esse Deus a quem eles por tanto tempo “procuravam”.

 

Concluímos, então, que a fim de dar ao Cristianismo sua base mais ampla, como sendo em verdade a religião do homem, devemos tomar cuidado com um falso isolamento. Por outro lado, a fim de preservar o Cristianismo de modo que seja considerado como a religião do homem, nós não devemos temer manter, para isso, um verdadeiro isolamento. Um falso isolamento poderia permanentemente reter o estágio inicial do Cristianismo impedindo o seu enraizamento nos campos abertos da humanidade e frutificação para a raça. Um verdadeiro isolamento elimina os espinhos e abrolhos que sufocam a planta, uma vez que esta floresce em campo aberto. Pela doutrina verdadeiramente bíblica da graça comum nós somos preservados do perigo de subestimação indevida ou superestimação indevida da religião e da moral do paganismo.

 

A fraseologia utilizada pela teologia da igreja pode ajudar-nos a fazer uma distinção clara em relação ao assunto em questão. A melhor tradição da Igreja tem procurado dar expressão, por um lado à imagem de Paulo da depravação total do homem e, por outro lado à imagem de Paulo dos pagãos como acusando-se ou desculpando-se de acordo com o padrão de uma lei moral interna. Claramente, então, o Cristianismo é qualitativamente distinto do Paganismo.

 

Não há nenhum outro nome dado debaixo do céu pelos quais os homens podem ser salvos por toda a eternidade além do nome de Jesus. O homem natural não pode fazer nenhum bem espiritual. Mas igualmente claro é que o homem natural ainda não executa a plena gama de impiedade. Os germes de todos os pecados estão no interior. Um Nero pode evoluir para um verdadeiro diabo, enquanto ainda na terra, mas a maioria dos homens não. Pela operação do Espírito na graça comum, eles são temporariamente restritos de desenvolver a plena medida do mal inerente a eles.

 

Portanto, eles podem fazer coisas que são úteis para uma vida tolerável na terra; eles podem fazer o moralmente bom. Esta distinção entre o espiritual e o moralmente bom não é totalmente inequívoca uma vez que em outro contexto foi salientado que para alguém ser verdadeiramente moral deve-se também ser verdadeiramente religioso. Neste contexto, os termos são contrastados e podem ser assim usados para indicar o mais claramente possível que o “relativamente bom” no “absolutamente mal” é de valor para esta vida, mas não para a eternidade.

 

 

 

C. A Religião Depois da Entrada do Princípio Redentivo.

 

As religiões tornaram-se verdadeira religião, em princípio, mais uma vez após o poder redentivo tornar-se ativo no mundo. Devemos enfatizar o princípio da palavra. Isso faz menção ao fato de que a religião ainda não é perfeita em grau. Este será o caso no Céu. Mas as Escrituras não hesitam em falar dos remidos como totalmente santos, completamente justos. Existe uma antítese profunda entre os redimidos na terra. Esta antítese profunda finalmente será “um grande abismo” no futuro. Os remidos, em quem a vida que agora vivem é a vida de Cristo, dizem do fundo do seu coração: “Oh, como amo a tua lei, ela é a minha meditação o dia e a noite”.

 

Devemos observar mais uma vez que isso vale para todo o “Israel de Deus”, incluindo o Israel do Antigo Testamento. Os verdadeiros filhos de Abraão são os que criam no Messias cuja relação exterior e temporal com Abraão é internalizada e externalizada em Cristo.

 

É de grande importância para o crente entender a sua relação com a lei de Deus. Deus fez um Pacto de Obras com o homem. Essa aliança significa que aqueles que satisfazem plenamente a lei de Deus e, consequentemente, são perfeitos como o Pai Celestial é perfeito terão a vida eterna. Por outro lado, aqueles que não tiverem cumprido a lei de Deus terão a morte eterna. Podemos ver dois homens caminhando juntos, ambos com aparentemente boa saúde. Quarenta anos depois, vemos um deles vir à velhice. O outra há muito tempo já morreu. Já quando vimos os dois a princípio, um tinha os germes da doença operando em seu corpo, embora ele parecesse estar tão saudável quanto o outro. Da mesma forma, dois homens podem imediatamente parecer serem, no que diz respeito à moral, igualmente sãos. No entanto, um está “bem com Deus” e, portanto, vive e viverá enquanto o outro não está bem com Deus e, embora ele pareça viver, está realmente morto.

 

A fim de compreender esta diferença entre as duas classes de homens, devemos ver claramente o que a obra de Cristo tem sido com relação à lei. Ora Cristo tem negativamente, por Sua obediência passiva, removido para aqueles que estão nEle a maldição e a penalidade da lei. Ou seja, aqueles em Cristo já não são culpados diante de Deus, mas justos. Portanto, eles não podem entrar em condenação. A ira de Deus contra o pecado passou a Ele, Quem Se tornou pecado por nós. Assim, somos “libertos” da “ira vindoura”. É isso que como ministros de Cristo podemos anunciar para aqueles que estão enfrentando a morte. Poucos Cristãos hoje parecem experimentar o conforto indescritível que vem da certeza de que a justiça de Cristo é nossa. A maioria dos Cristãos desejam limpar e purificar até certo ponto, os “trapos de imundícia” de sua própria justiça. Seu esforço constante para chegar ao Céu pela regra de ouro não lhes dá nenhum momento de paz. A ameaça de Deus: “Maldito todo aquele que não pratica a lei de Deus”, paira sobre todo aquele que busca sem Cristo ou meramente por Seu auxílio cumprir a lei de Deus. Por outro lado, a perfeita liberdade do medo do julgamento vem aos corações daqueles que confiam na justiça de Cristo.

 

O segundo aspecto da obra de Cristo com respeito à lei é que, por Sua obediência ativa Ele merece o Céu para nós. Ele cumpre o requisito do Pacto de Obras, que o homem deve obedecer perfeitamente e, em consequência disso, entrar no Céu. Assim, todos aqueles em Cristo não são apenas libertos da maldição, mas têm a promessa da vida eterna. Somos herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo.

 

Se agora a obra de Cristo em relação à lei é clara, devemos notar especificamente que Cristo fez o mesmo pelo crente do Antigo Testamento que Ele fez pelo do novo. Não há nenhuma diferença essencial entre um crente do Antigo Testamento e um crente do Novo Testamento, tanto quanto a lei está em causa. Para ambos, Cristo sofreu a penalidade da lei. Para ambos, Cristo obteve o Céu. Pois, a lei não foi uma maneira pela qual ele mesmo poderia ganhar a liberdade da maldição e uma entrada para a terra prometida. Pois, a lei não pretendia ser um caminho para a vida, independentemente de Cristo. Para ambos a lei foi dada como um regulador de uma vida de gratidão pela redenção recebida.

 

Prontamente afirmadas como estas questões são com relação aos crentes do Novo Testamento, elas não são tão facilmente perceptíveis em relação ao crente do Antigo Testamento. Paulo na Epístola aos Gálatas parece fazer uma grande distinção entre as duas dispensações enquanto refere a relação do crente com a lei em cada caso. Mas, embora ele faça a distinção, ele nem por um momento esquece a ainda maior distinção entre aqueles que procuram por sua própria justiça herdar a vida e aqueles que buscam a salvação através da justiça de Cristo. Na verdade, a distinção de Paulo entre a dispensação do Antigo e do Novo Testamentos quanto à lei é feita explicitamente, no interesse de aprofundar o abismo entre a justiça de Deus e a justiça do homem. Seu próprio ponto no argumento contra o Judaizante foi que, a menos que eles interpretassem o propósito do Antigo Testamento sobre a espiritualidade da lei, e com isso percebessem que a verdadeira justiça era — mesmo para os crentes do Antigo Testamento — realizada por Cristo, eles seriam contados dentre aqueles que buscam entrar no Céu por meio de sua justiça própria. O próprio Paulo tinha experimentado que a tentativa de chegar ao Céu pelas obras da lei é como tentar carregar água em uma peneira. Daí, ele procura definitivamente provar que nem mesmo no Antigo Testamento os homens foram ensinados a buscar por obras para que merecessem a vida. Desde a entrada do pecado, o homem somente pode entrar no Céu pelo Pacto da Graça. E este Pacto da Graça não é anulado — Paulo nos diz — pela lei, que foi dada a Moisés que veio depois. Esta lei em si é subsidiária ao Pacto da Graça. A sua severidade e a natureza irrevogável que parecia tão terrivelmente sob a dispensação “da condenação”, foi calculada para obrigar os homens a buscarem a salvação pela graça. Assim, a lei deveria ser um aio que conduzia a Cristo. Assim, disse a lei: “A salvação está em mim, mas somente em Cristo”.

 

Assim, vemos que ainda podemos pregar a lei no mesmo duplo sentido que tinha para Israel. Em primeiro lugar, as demandas de Deus sobre os homens são tão absolutas como sempre, e o homem é tão incapaz de atender a essas demandas como sempre. Assim eu posso aprender “quão grandes são os meus pecados e misérias”, e a lei torna-se para mim o “aio, conduzindo a Cristo”. Em segundo lugar, quando eu sinto a minha culpa e impotência em relação à lei de Deus e fujo para Cristo por refúgio, eu posso aprender a partir da lei em todos os seus detalhes como posso regular minha vida de gratidão pela redenção recebida.

 

Em ambos os aspectos, é altamente necessário pregar a lei hoje. Muita confusão reina sobre o primeiro ponto. É dito muitas vezes que todos podem conhecer a miséria humana a partir da experiência. Nós precisamos apenas apontar para os hospitais para convencer os homens da necessidade de Cristo. Ou, se isso não é suficiente, pelo menos, a consciência no homem condena-o suficientemente para fazê-lo perceber a necessidade de um Redentor. No entanto, a consciência e a experiência de ninguém, a parte da lei como encontrada na Escritura, jamais lhe disse que ele é digno de castigo eterno. A experiência, exatamente por ser experiência pecaminosa, não pode amar a lei de Deus. A experiência, porque é experiência pecaminosa, está em inimizade contra Deus. Por isso, ela não admitirá que haja tal coisa como uma lei que é absoluta, porque estabelecida por um Deus absoluto. A experiência, porque é experiência pecaminosa, procura ser uma lei em si mesma e não se sente culpada diante de Deus, mas na melhor das hipóteses, culpada diante de si mesma por causa da transgressão da lei. Consequentemente, não há tristeza “segundo Deus” que leva ao arrependimento; a experiência assim não pode ser um aio conduzindo a Cristo. Nós não podemos omitir a pregação da lei como a fonte, a única fonte de nosso conhecimento do pecado.

 

Em seguida, quanto à pregação da lei, como reguladora da vida do crente, podemos dizer que esta também tem sido negligenciada. E, mais uma vez, a nossa pronta ênfase na falha da experiência como mestre. É verdade, quando a experiência é a experiência “Cristã” deve deixar de ser contrastada com a lei, porque, neste caso, tem se desenvolvido em conexão com a lei. Mas esse é exatamente o ponto. Nós tendemos muito facilmente a separar a experiência da lei. E isso é fatal para a experiência. A consciência, como tal, não é “a voz de Deus”, apenas a consciência “Cristã” o é, e isso apenas indiretamente. Mesmo a consciência Cristã deve ser constantemente renovada. Ele “se desgasta” muito facilmente. Em primeiro lugar, o seu campo de visão estreita-se muito facilmente. Muitas coisas não são conhecidas serem pecado pela consciência, sem que a lei fale sobre isso. Mas a lei de Deus é “amplíssima”. Em segundo lugar, a consciência deixada a si mesma perde a sua sensibilidade. Mas a lei penetra nas recâmaras do coração. De longe, ela perscruta mais profundamente ao ser do homem do que a Psicologia de Freud. A tocha da Psicologia humana deixa as profundezas do coração humano como um pântano congelado, enquanto o Sol da lei de Deus descongela o pântano pondo em movimento os muitos escorpiões, víboras e insetos venenosos. Assim, a lei, quando vista como “espiritual” nos faz anelar por pureza, por libertação da contaminação do pecado, como uma vez já nos fez clamar pela libertação da sua culpa. O Cristão que procura guiar a sua vida com cuidado por meio da lei de Deus está sempre consciente sobre o fato de violar a lei. O Cristão nominal, pelo contrário, prontamente dirá: “Todas essas coisas tenho observado desde a minha juventude”.

 

Podemos notar, a propósito, que, se a lei for assim pregada em toda a sua espiritualidade servirá como uma melhor cura para os males sociais do que a educação que é muito elogiada em nossos dias. A máxima socrática de que o conhecimento é virtude, ou seja, que os homens cumprirão a lei se eles apenas a virem, levou os homens a propagar a ideia de que a educação, como tal, tornará os homens bons. Mas a educação, como tal, não pode permitir que os homens vejam a espiritualidade da lei. Para ver esta espiritualidade, o homem deve ser regenerado. Regeneração e educação, em vez de educação somente deveria ser o nosso lema.

 

 

 

3. O que é Proibido

 

A substituição de “outros deuses” pelo verdadeiro Deus, vimos, é a substância das falsas religiões. Pois “mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram mais a criatura do que o Criador, que é bendito eternamente. Amém” (Romanos 1:25). Maior subversão não pode ser concebida. O homem, especialmente, mas também toda a criação é feita objeto de culto. Quão radicalmente diferente é a interpretação moderna da religião pagã. De acordo com ela o homem estava tateando em busca do verdadeiro Deus, enquanto em seu caminho, quase incidentalmente, como um auxílio à sua fé, adorou o sol, a lua e as estrelas. De acordo com esta interpretação o não-moral precede o moral e é neste ponto que a batalha entre as duas formas de interpretação deve principalmente ser combatida. Sustentamos que fazer a religião derivar do não-moral destrói não somente toda a religião e moralidade, mas toda a experiência humana, em geral, uma vez que envolve o homem em um vazio sem sentido. Sustentar a doutrina bíblica de uma perfeição original do homem é, portanto, não só agarrar-se a uma “autoridade externa” ou “mera tradição”, mas é, ao mesmo tempo agarrar-se ao teísmo.

 

Agora, os fatos de uma religião pagã estão em desarmonia com a concepção teísta da religião. Há uma diferença qualitativa entre qualquer uma e todas as religiões do paganismo e a religião do teísmo como encontrada no Cristianismo. Não importa o quão próxima seja a semelhança formal ao Cristianismo, a religião pagã sempre adora a criatura, enquanto o Cristianismo adora a Deus.

 

Não se segue a partir disso que não há gradações entre as religiões pagãs, de modo que todas elas sejam igualmente sem valor. A doutrina da graça comum nos permite fazer muita diferença entre uma e outra, enquanto a doutrina da graça especial nos proíbe de alguma vez acabar com a distinção qualitativa que separa todas elas do Cristianismo. A própria diferença entre essas religiões se deve a medidas muito diferentes da graça comum de Deus. Através da graça comum, a civilização tem gradualmente avançado para que o homem fosse habilitado somente para livrar-se de algumas das formas mais sensuais de culto da criatura. Mas permanece a adoração da criatura, mesmo na forma mais refinada de religião não-Cristã. Mesmo quando adora, de acordo com o modernismo, os ideais do bem, da verdade e da beleza ainda este ainda é um culto da criatura, uma vez que esses ideais não são concebidos como colocados por Deus.

 

Devemos agora examinar brevemente as principais formas de religião antiteísta.

 

 

 

a. O ateísmo é a negação mais desafiante e aberta da própria existência de Deus. Nele o princípio do pecado atingiu o seu clímax. Mesmo assim, o homem não pode totalmente livrar-se da ideia de Deus. A própria luta do ateu contra Deus pode ser uma indicação do temor de Deus. Há muito do espírito desafiador no movimento. Este espírito desafiador só pode ser temporariamente mantido. No Inferno não haverá ateus. Será impossível negar a existência de Deus no dia do juízo e depois.

 

O ateísmo é pior do que o paganismo. O paganismo, ao menos, serve a deuses. Ele admite algo de sua insuficiência; isso indica algum desejo de entrar em contato com os poderes superiores. O ateísmo, por outro lado, tem se vedado hermeticamente contra Deus. A questão terá de ser decidida por um teste de força somente.

 

Há muito ateísmo prático em todas as terras civilizadas. O reino da lei tem feito muitos dizerem, em prática, se não em palavras: “O Senhor não faz o bem nem faz o mal” (Sofonias 1:12). A religião tornou-se para muitos uma questão secundária na vida. Deus não é pensado como controlando e afetando as nossas vidas a cada momento, em cada aspecto, por todas as vias possíveis. Em vista desse fato é necessário pregar a mensagem profética que o Senhor castigará “os homens que se espessam como a borra do vinho, que dizem no seu coração: O Senhor não faz o bem nem faz o mal”. A imagem do dia do juízo final não é em nenhum outro lugar mais terrível do que quando estabelecido diante daqueles que ignoram o Senhor. Ser ignorado é quase tão grande insulto quanto ser desafiado abertamente. Talvez isso possa até mesmo ser considerado um insulto maior, enquanto um desafio aberto ao menos “imagina” Deus, dando-Lhe crédito por algum poder.

 

 

 

b. Religiões Naturais

 

O homem, embora tendo declarado a sua independência, ainda tem de viver como o filho pródigo dos bens do pai. Além disso, ele sente algo do absurdo de ter se elevado à posição de Deus. Mais tarde na história, ele declarará abertamente sua autonomia moral (Kant). No presente, ele deve olhar sobre si por algum objeto de adoração. Ele encontra esses objetos na criação inferior. A criação inferior afeta-o de muitas maneiras, e isso está além de seu próprio controle. O homem é como uma criança que derrubou a chaleira de água quente sobre si mesma e culpa a chaleira por sua miséria. O homem apenas busca escapar das más consequências do pecado, enquanto estas consequências o encaram, nos vários poderes de destruição. Em vez de perceber que os poderes de destruição são as agências de Deus, para que ele vá a Deus para encontrar libertação deles, o homem desafia essas agências e adora-as. A estupidez e futilidade do pecado são nisso estrita e tipicamente ilustradas.

 

(1) As formas inferiores da religião natural realmente não têm nenhuns deuses, mas apenas almas. Animismo e fetichismo são exemplos deste tipo.

 

(2) As formas mais elevadas de adoração natural têm deuses. A imaginação criativa foi introduzida para criar escultura e mitologia.

 

(a) As formas Semíticas das religiões naturais mais elevadas desenvolveram algum tipo de ideia de transcendência. O pecado trouxe incluiu Deus na esfera de Sua criação, e com isto negou a transcendência de Deus sobre a Sua criação. A este respeito, toda a ênfase na imanência de Deus na teologia moderna é uma forma clara e extrema da transgressão do Primeiro Mandamento. No entanto, em momentos diferentes e em diferentes graus, o homem sentiu que ele precisava de um Deus transcendente. Não que ele tenha de si mesmo chegado a qualquer verdadeira ideia de transcendência. Tal verdadeira ideia de transcendência só poderia vir a ele novamente por revelação de Deus; e isso não por revelação através da experiência humana como tal, pois a experiência humana como tal é pecaminosa. A transcendência como concebida pelo pensamento não-teísta é separação. Este é o deísmo.

 

(b) As formas indo-germânicas de religiões naturais mais elevadas ressaltaram a necessidade da proximidade de Deus. Elas falam muito da relação entre pai e filho. Mas, novamente, a verdadeira ideia da imanência é pervertida até que signifique identidade. Este é o panteísmo.

 

Assim, o pêndulo móvel das religiões antiteístas foi do deísmo ao panteísmo. E a filosofia motivada pelo mesmo princípio antiteísta desenvolveu-se por um curso similar.

 

Deve-se notar que correspondendo ao falso objeto na religião, o homem antiteísta tem igualmente valorizado uma falsa atitude subjetiva. Não há nada do verdadeiro serviço do coração a ser encontrado. Como um falso profeta, o homem procura interpretar o universo sem referência a Deus. Os poderes do mal são assumidos existirem como poderes independentes de Deus. O homem não será “ensinados por Deus”. Ele perdeu sua reatividade de espírito. Como um falso rei, ele procura pronunciar-se sobre a natureza para o seu próprio interesse somente. Natureza, ciência, arte e governo, todos eles por sua vez, são feitos servos do homem, sem também serem feitos servos de Deus. O homem não governará abaixo de Deus. Ele não receberá nenhuma ordem, mas apenas dará ordens. Ele perdeu a obediência. Como um falso sacerdote, ele dedica todas as coisas para si mesmo, em vez de oferecer todas as coisas para Deus. Aquilo que serviria a Deus, ele impede de servir a Deus. Seu coração é afastado de Deus e evita Deus totalmente ou procura uma falsa familiaridade. O homem ora aos deuses, mas não a Deus. Ele ora por alívio, mas não por perdão. Se ele tem remorso, não é uma “tristeza segundo Deus”, mas uma tristeza que vem devido à sua própria loucura.

 

 

 

c. Religiões Éticas

 

As religiões éticas são mais elevadas do que as religiões naturais e se aproximam mais, em sua forma, do teísmo. Em primeiro lugar, elas são monoteístas. Consequentemente, Deus é representado como não apenas controlando o natural, mas também como controlando a ordem moral do mundo. Em segundo lugar, essas religiões acreditam em uma revelação de Deus na forma de escrituras sagradas; o Bramanismo tem sua Vedas, o Budismo sua Pittakas, o Confucionismo seus Reis, o Parzismo sua Avesta e o Islamismo seu Alcorão. No entanto, em nenhum caso, a lei moral é concebida como emanando com autoridade inviolável a partir de um Deus absoluto. E, como acontece com a religião subjetiva, não encontramos aquela piedade que combina um verdadeiro sentido de exaltação e proximidade de Deus. Se for lembrado que nos Primeiros Mandamentos Deus estabelece a Si mesmo diretamente diante do centro da personalidade do homem, exigindo do homem que ele não olhe para nenhum outro lugar buscando por sua alegria e paz, é facilmente visto que todas essas religiões são tristes desvios do teísmo.

 

Sair para as nações para levar o Evangelho do Cristianismo significa mais do que difundir o conhecimento da civilização ou um modo ético mais elevado de vida. Significa, antes, trazer os homens ao conhecimento das exigências de um Deus santo e justo, que não pode, em sentido algum tolerar o pecado, mas que em Seu amor condescendente perdoará o pecado em Cristo, a fim de tornar os homens verdadeiros profetas, sacerdotes e reis novamente. Uma vez que eles conheçam este Deus em Cristo, eles não adorarão a natureza, mas o Deus da natureza, eles não adoração a lei, mas o Deus da lei.

 

Mas, será que esta idolatria ocorreu predominante somente em países pagãos? O Primeiro Mandamento como o fundamento de todo o restante precisa ser pregado neste país e em todos os países civilizados, bem como em terras pagãs.

 

 

 

 

 

 


[1] The Idea Of God [A Ideia de Deus].

[2] Mesmo assim, nós não usamos imoral no sentido ainda mais restrito quando significa uma dependência de um tipo especial de pecado.

[3] p. 643.

[4] p. 645.

[5] Cf. W. Lippmann, Preface to Morals [Prefácio à Moral].

[6] A Décima Oitava Emenda (Alteração XVIII) da Constituição dos Estados Unidos efetivamente estabelecida a proibição de bebidas alcoólicas nos Estados Unidos, declarando ilegal a produção, transporte e venda de álcool, embora não o consumo ou a posse privada (Nota de Tradução).

[7] Cf. Qualquer um dos escritores idealistas sobre a história e filosofia da religião ou muitos pregadores Modernistas, como Dr. Fosdick.

[8] Cf. Carlyle, Heroes and Heroworship [Heróis e Adoração a Heróis].

[9] Eddington, Science and the Unseen World [Ciência e o Mundo Invisível].

[10] Intelligentsia: usualmente refere-se a uma categoria ou grupo de pessoas envolvidas em trabalho intelectual complexo e criativo direcionado ao desenvolvimento e disseminação da cultura, abrangendo trabalhadores intelectuais (Nota de tradução).

[11] A. C. Knudson recentemente acusou-nos com isso. Veja Doctrine of God [Doutrina de Deus].
 

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