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História, Teologia e Confessionalidade dos Batistas Particulares no Piauí, por Marcus Paixão

A Chegada dos Batistas no Brasil


A chegada dos Batistas em terras brasileiras aconteceu em meados do século XIX. O primeiro Batista em solo brasileiro era de convicção doutrinária calvinista, enfileirado entre os Batistas Particulares (SELPH, 1995; NETTLES, 2006; PAIXÃO, 2010). Tratava-se do pastor Luther Rice. Chegou no dia 05 de maio de 1813, retornando de missão evangelística na Índia. Regressava para os EUA, e numa das paradas da viagem, aportou no Brasil e foi recebido pelo Cônsul norte-americano, ficando hospedado em sua casa. Ele tinha interesse na evangelização do Brasil. Em sua parada ele fez avaliações para a junta de missões americana.
 

Em 1850, a missão Batistas americana enviou o pastor William Theophilus Brantly Júnior para estudar o campo brasileiro. Permanecia o interesse americano em enviar missionários ao Brasil. Porém, somente 10 anos depois, o primeiro missionário Batista chegaria ao Brasil com a tarefa de evangelizar: Thomas J. Bowen. Ele desembarcou no dia 21 de maio de 1860, oriundo de uma missão Batista na África, e sua estada total no Brasil durou oito meses e dezenove dias (OLIVEIRA, 2005, p. 108). A partir de Bowen, a porta foi aberta para a presença Batista em solo brasileiro.
 

Com a chegada dos missionários Batistas norte-americanos ao Brasil, chegaram também as primeiras confissões de fé. As igrejas Batistas que foram iniciadas no Brasil, sem exceção, eram confessionais. Esse fato desmente por completo a ideia muito propagada no Brasil de que os Batistas não tinham credos ou confissões de fé. Não só tinham credos e confissões, como também dispunham de catecismos, e toda igreja Batista no Brasil, a princípio, era organizada sob bandeira de uma confissão de fé calvinista. A primeira confissão a ser utilizada nas igrejas brasileiras foi a Confissão de Fé de New Hampshire, um documento dos Batistas Particulares, muito embora já houvesse uma fragmentação doutrinária em andamento entre os Particulares nos Estados Unidos.[1] Em 1882 a Igreja Batista em Salvador (BH) foi organizada, destacando a adoção da Confissão de Fé de New Hampshire (PEREIRA, 2001; SANTOS, 2004).
 

Em outra ocasião, comunicando a fundação da Igreja Batista no Rio de Janeiro (1884), William Bagby, missionário Batista no Brasil, esclarece que a igreja adotou os Artigos de Fé da Filadélfia. Não se trata da Confissão de Fé da Filadélfia, como pensou Reis Pereira e outros historiadores. O documento em referência era a Confissão de Fé de New Hampshire. Gilson (SANTOS, 2004, pp. 7-8) esclarece o mal entendido:
 

De fato, foi da Filadélfia que a Confissão de Fé de New Hampshire difundiu-se pelos Estados Unidos. Em 1853, o pastor J. Newton Brown (1803-1868), Secretário Editorial da Sociedade Publicadora Batista Americana, publicou a Confissão de Fé de New Hampshire no Manuel da Igreja Batista, livro largamente divulgado nos Estados Unidos. Portanto, da Filadélfia, onde estava sediada a Sociedade Publicadora, esta declaração de fé foi amplamente disseminada, tornando-se conhecida nacionalmente.


No Brasil, essa confissão passou a ser chamada de Declaração de Fé das Igrejas Batistas do Brasil. Não houve nenhuma alteração no conteúdo, senão na designação do documento. A tradição teológica confessional dos Batistas Particulares começava a se perpetuar no Brasil. Vários “Manuais Batistas” começaram a ser publicados, trazendo em anexo a Declaração de Fé das Igrejas Batistas no Brasil. No início do século XX, o Jornal Batista também passou a publicar constantes matérias divulgando a Declaração Doutrinária dos Batista (Ibid).
 

A partir desta arrancada inicial, na segunda metade do século XIX, os Batistas foram se espalhando em todo o território nacional, seguindo um modelo expansionista muito parecido com aquele adotado pelos colonizadores portugueses: do litoral para o interior, mas com uma diferença: chegando ao interior muito mais rapidamente, já que a terra já estava colonizada e em desenvolvimento. Nos primeiros anos do século XX, boa parte do Norte e do Nordeste já estava sendo alcançado pela pregação Batista, incluindo “São Luís [MA], Fortaleza [CE], Teresina [PI], Aracajú e Paraíba” (PEREIRA, 2001, p. 164) e ainda boa parte do interior dos estados nordestinos. Igrejas Batistas começavam a florescer em solo piauiense, seguindo a expansão Batista do Sul para o Norte. A primeira igreja Batista no Piauí nasceu na Vila de Corrente em 1904. À semelhança das primeiras igrejas Batistas no Brasil, ela também foi organizada sob a Confissão de Fé de New Hampshire. No texto da ata da reunião que inaugurava o início dos trabalhos da primeira igreja Batista em solo piauiense, após citar as leituras realizadas pelo pastor Ernest Jackson, o secretário destaca que “o irmão Antônio Nogueira de Carvalho leu a Declaração de Fé das Igrejas Batistas do Brasil” (BRITO, 2004, p. 47). A Confissão de New Hampshire, então chamada de Declaração de Fé das Igrejas Batistas do Brasil, era o mesmo e o único documento que os Batistas vinham adotando em todo o Brasil ao organizar igrejas. Conforme (PEREIRA, 2001, p. 145), apenas em 1916 
 

foi adotada a Confissão de Fé de New Hampshire, sob o título de Declaração de Fé das Igrejas Batistas do Brasil. A aceitação dessa declaração era, segundo os Estatutos da Convenção, o sinal identificador de uma igreja batista regular.


Depois de iniciar os trabalhos no Sul do Piauí, os Batistas se dirigem para a região Norte. Chegaram a Teresina no início do período de estiagem, em agosto de 1913. Foi enviado dos Estados Unidos o casal de missionários ADOLPH JOHN TERRY e LULIE SPARKMAN TERRY para a Missão em Teresina. Nascido no dia 05 de julho de 1883, em Evergreen, Los Angeles, Terry não pode lutar contra os fortes impulsos que o direcionavam para o campo missionário. Em julho de 1911 ele casou com sua amada Lulie. Um ano mais tarde eles estavam chegando ao Brasil, enviados pela Junta de Richmond, como missionários. Esteve primeiro em Recife, seguindo um ano mais tarde para o Piauí, em Teresina. Os piauienses os chamavam ADOLFO TERRY E LULU TERRY. Como bem nos conta Itamar Brito:


O casal de missionários que partira dos Estados Unidos, em julho de 1912, passou o resto daquele ano e mais metade do ano de 1913 em Recife, aprendendo a língua. Só em agosto de 1913, acompanhados por Eurico Nelson, chegam os missionários ADOLPH JOHN TERRY (nome aportuguesado para Adolfo João Terry) e LULIE SPARKMAN TERRY (Nome aportuguesado para Lulu Terry) a Teresina, sendo recebidos por Teófilo Dantas e por sua irmã Antônia de Sousa Dantas que também mudara-se de Amarante para Teresina, a fim de fazer companhia à missionária[2]


Em 1914, a primeira Igreja Batista de Teresina foi organizada com onze membros fundadores, liderados pelo missionário americano Adolph John Terry, adotando os mesmos padrões confessionais (BRITO, 2004). Nenhum outro documento confessional foi adotado pelos Batistas piauienses nos primeiros 50 anos de sua história evangélica. É importante ressaltar que o uso de confissões era consciente e comum entre os Batistas, senão pelo rebanho inteiro, pelo menos pelo pastor e por um punhado de pessoas mais maduras, que já haviam se inteirado doutrinariamente. Além disso, nos livros de Ata das igrejas a confissão era destacada, as vezes sob topônimo “Artigos de Fé”. Mas o que fica claro é que nenhuma igreja era organizada sem declarar sua subscrição às primeiras confissões de fé. Os documentos, como tenho apresentado, formavam o conjunto de doutrinas calvinistas, mas com as marcas distintas dos Batistas.


Na vila de Corrente, o Cel. Benjamin Nogueira Paranaguá, fazendeiro, já demonstrava o desejo de ser batizado antes mesmo que a igreja correntina fosse fundada. O missionário Zacary Taylor em correspondência à Junta de Richmound (EUA) em 1896, comunica o desejo do Coronel, agora convertido por meio da influência dos Batistas, de ser batizado, fato que aconteceu apenas em 1901, pela ausência de pastores missionários (NOGUEIRA, 2003, pp. 59-60). Porém, ele foi batizado três anos antes da organização da igreja Batista em Corrente, tempo suficiente para aprender as doutrinas expostas na Declaração de Fé das Igrejas Batistas do Brasil. Mesmo diante dos fatos apresentados acima, até 1898 o Piauí não aparecia na estatística dos estados com presença evangélica.[3]


Os evangélicos por Estado

 

Estados

Números

%

Rio Grande do Sul

63.102

45,19

Santa Catarina

29.386

21,04

São Paulo

14.854

10,64

Distrito Federal

8.332

5,96

Maranhão

7.043

5,04

Paraná

5.811

4,16

Minas Gerais

3.165

2,26

Rio de Janeiro

2.754

1,97

Espírito Santo

2.115

1,51

Bahia

1.642

1,17

Pernambuco

1.409

1,00

Total de Evangélicos

139. 613

100,00

População Brasileira

14.333.915

0,97

 

 

Os Batistas no Norte do Piauí: Campo Maior
 

Na cidade de Campo Maior [4](PI), a instalação dos Batistas aconteceu por volta de 1914 ou 1915. Não existe um único registro escrito[5] da presença de evangélicos protestantes em Campo Maior até o ano de 1915. Nunca, em nenhum ponto das terras campomaiorenses, nenhum protestante, de qualquer denominação evangélica havia estado aqui. Nem os mais antigos habitantes desta terra jamais ouviram falar de tal presença. Até esse tempo, Campo Maior conhecia unicamente a religião Católica Romana, por intermédio das tradições e dos padres que por aqui estiveram. A pequena cidade era quase que inteiramente voltada para as crenças católicas, além das lendas e das tradições que os antepassados carregavam de geração a geração. Em Campo Maior, nem mesmo relatos orais se conhece, da presença de evangélicos por aqui, durante esse período. Mas isso não deve nos causar espanto, visto que a cidade era muito pequena, praticamente sem urbanização e com uma população de número extremamente reduzido. Como bem destacou o historiador Celson Chaves, Campo Maior naquele período era uma cidade “de pouca expressividade em população e urbanização” (CHAVES, 2007, pp. 30-31). A pesquisa de Celson nos revela ainda que Campo Maior, entre os anos de 1919 e 1920 era mesmo raquítica:
 

Nos anos das décadas de 19 e 20 [do século XX], Campo Maior era uma pequena cidade apenas modesta e no estilo provinciano. Para se ter uma idéia, basta citar estes números: 312 prédios, sendo 308 térreos e 4 sobrados, segundo o lançamento de uma décima urbana, organizado pela Prefeitura local, cálculo contestado pela comissão Roch Feller que apresenta estes dados: 376 casas de telha e 186 de palhas, um total de 3.100 pessoas, formando 17 ruas e 3 praças. Duas igrejas e uma capela, a cadeia, que ainda hoje é a mesma, o cemitério (já interditado) e outros de somenos importância (CHAVES, p. 5).

 

Partindo destes dados, podemos imaginar que entre 1914 a 1915, a cidade fosse mesmo um pouco menor. A cidade de Campo Maior se desenvolveu em sua estrutura urbana exatamente como se desenvolveu a grande maioria das cidades do nordeste do Brasil dos séculos passados. Aliás, para ser mais exato, o projeto de desenvolvimento urbano seguido por muitas cidades brasileiras tem origem no modelo Jesuíta ou Companhia de Jesus, criado pela Igreja Católica Romana. A cidade se desenvolvia a partir de uma igreja, que tinha uma grande área na frente e servia para passeios e conversas dos moradores. Este grande espaço aberto era semelhante a uma praça central. As casas ficavam emparelhadas e formavam espaçosas ruas. As cidades cresciam e se desenvolviam em volta da igreja, ou seja, as cidades tinham um modelo de crescimento que partia da religião central, neste caso, do catolicismo romano.
 

Campo Maior, desde suas origens, foi uma terra voltada para a religião católica romana. Além de uma população minúscula, formada por pessoas sem grandes recursos, a cidade não contava com a tecnologia existente em sua época e nem com veículos de comunicação. Não existia desenvolvimento urbano na cidade.[6] Daí, como citamos anteriormente, pode-se imaginar a escassez de informações que temos daquele período da história de nossa terra.

 

O Primeiro Convertido
 

Foi após 1914, em algum ponto nesse período, que começaram a aparecer os primeiros relatos orais sobre um homem que aqui estava morando. Segundo muitos moradores, esse homem era “contra a lei de Deus”. Possuidor de uma oficina de sapatos, o velho Joaquim da Costa Araújo, que mais tarde acrescentara o nome “Bostock” ao seu próprio nome de registro natalício, surge no cenário da pequena Campo Maior. 
 

Não sabemos quando, exatamente, Joaquim Bostock passou a ser protestante, e nem sabemos precisamente de que maneira ele conheceu a Jesus Cristo. Em certo momento de sua vida, em circunstancias que nos fogem, ele foi com sua esposa morar na cidade de União.[7] Sabemos que quando ele estava vivendo em Campo Maior, ele não tinha nenhum vínculo protestante, nem com Batistas ou qualquer outro grupo evangélico. Sua ida para união se deu por ocasião de trabalho. Estava acontecendo uma festa religiosa e Joaquim foi à pequena cidade de União com a intenção de vender alguns dos calçados que fabricava e fazer alguns possíveis concertos que surgissem. Foi exatamente quando se dirigia àquela pequenina cidadela, impulsionado por uma festa religiosa, que Joaquim Bostock conheceu os Batistas e sua teologia.
 

Esse é um ponto interessante na história dos Batistas Particulares em Campo Maior. Não há nenhum registro ou declaração de fé deixada pelo patriarca dos Batistas, Joaquim Bostock, para aferirmos seu posicionamento teológico, mas o fato de ter ele conhecido os Batistas no período onde as confissões de fé portadas pelos missionários eram de teor calvinista, bem como O Jornal Batista, que há pouco tempo circulava no Brasil, também era escrito por pastores-missionários calvinistas, nos leva a aceitar que as doutrinas pregadas a ele, certamente, eram as doutrinas da graça.
 

Mal acabara de chegar ao Piauí, o casal norte-americano Terry desenvolveu uma missão evangelística para a região centro-norte do Piauí, onde estivera trabalhando Eurico Nelson. Adolfo Terry foi um dos mais corajosos missionários que já pisaram em terras piauienses. Mesmo a história dos batistas em Campo Maior estando enraizada na pessoa de Joaquim Bostock, os missionários foram fundamentais nesse processo. Essa história está intimamente ligada com a história dos batistas no Brasil, desde seus primeiros missionários. Certamente Joaquim Bostock conheceu o jovem Teófilo Dantas. Como citamos anteriormente, Bostock dirigiu-se para a cidade de União na tentativa de conseguir uma boa renda através de seus serviços de sapateiro. Além de União, Joaquim Bostock visitou várias outras cidades nesse período. Essa foi a época em que o evangelho estava sendo disseminado na região norte do Estado. Teófilo Dantas sempre acompanhava o missionário Adolfo Terry em suas missões evangelísticas. A certeza que temos do relacionamento de Joaquim Bostock com Teófilo Dantas firma-se nas lembranças de sua neta Iracema Santos, lembranças que tem origem nas  histórias que ouvia de sua mãe. Segundo ela, Teófilo Dantas visitou Campo Maior algumas vezes para pregar o evangelho na casa de Joaquim Bostock. Esse fato ocorreu após o ano de 1915, data que Bostock já estava em Campo Maior e já era conhecido como “o protestante” na cidade.
 

Além deles, devemos observar que foi no dia 6 de dezembro de 1914 que a Primeira Igreja Batista de Teresina foi organizada. A frente dela estava o missionário Adolfo Terry. O casal missionário, seguindo a conduta da organização das igrejas batistas em solo brasileiro, adotava a Confissão de Fé de New Hampshire. Assim, seu companheiro piauiense Teófilo Dantas, e todos os demais que ele evangelizou, foi treinado teologicamente em uma confissão de teor calvinista, ou, no mínimo, moderadamente calvinista, já que essa confissão foi originada como um resumo da longa Confissão de Fé da Filadélfia, de conteúdo fortemente calvinista. Contudo, é importante que se note que a confissão de New Hampshire faz parte do conjunto de confissões de fé que o grupo de Batistas calvinistas produziu ao longo da história, o que, sem dúvida, deve dissipar qualquer ideia contrária à afirmação de que esse era um documento doutrinário calvinista.


O Jornal Batista e seu Testemunho do Calvinismo


A história e a teologia dos Batistas em Campo Maior também têm vínculos com O Jornal Batista,[8] que trazia impresso em suas páginas trechos e comentários da Confissão de Fé dos Batistas Brasileiros (Confissão de Fé de New Hampshire). Esse centenário jornal surgiu em 1901, no Rio de Janeiro, e seu grande idealizador e fundador foi o missionário americano W. E. Entzminger.[9] Os maiores responsáveis pela circulação desse jornal foram os missionários que viajavam por essa terra continental. Em suas bagagens, sempre havia um número de O Jornal Batista, que era distribuído aos crentes e aos curiosos que estavam interessados em aprender de Cristo.
 

Por divina Providencia, O Jornal Batista chegou às mãos de Bostock. Não sabemos se durante as suas andanças nas pequenas cidades ou em algum outro momento posterior. Segundo Shirley da Costa Araújo Ibiapina,[10] o Jornal Batista foi o grande professor e doutrinador de seu avô.  Solitário em uma terra inóspita para com suas crenças evangélicas, e sem ter quem o instruísse com regularidade segundo as doutrinas bíblicas, Joaquim Bostock achou em O Jornal Batista um verdadeiro compendio teológico que serviu de guia para firmar as suas convicções doutrinárias. Um fator importante e que não deve ser negligenciado pelos Batistas de hoje, é que além de ser um veículo de informações sobre os Batistas como denominação evangélica, O Jornal Batista era uma poderosa arma evangelizadora e doutrinária. As publicações eram de cunho informativo e teológico. Os artigos eram, em sua grande maioria, escritos pelos pastores-missionários estrangeiros que estavam trabalhando no sudeste brasileiro. Entzminger, seu principal colaborador, escreveu incontáveis artigos doutrinando o pequeno rebanho batista brasileiro que estava nascendo. Além dele, outros colaboradores foram W. C. Taylor, Dr. D. C. Dargan, Pr. Almir Gonçalves e ainda uma centena de outros nomes.
 

Fica claro pelas publicações mais antigas de O Jornal Batista, que havia uma poderosa influência da doutrina calvinista, marca inconteste dos Batistas Particulares. Muitos artigos denunciam isso, e por ser um informativo oficial dos Batistas brasileiros, o jornal expunha as doutrinas das confissões Batistas calvinistas, confirmando e enraizando definitivamente esse fato. Mesmo numa época onde a tradição teológica dos Particulares já estava se diluindo rapidamente, e o jornal também revela isso, a marca calvinista é incontestável, especialmente nos artigos escritos pelos missionários americanos. O próprio fundador do jornal, W. Entzminger escreveu um artigo no Jornal Batista em 16 e 30 de março de 1916 esclarecendo o conceito Batista sobre a doutrina da predestinação:
 

Que Deus determinou a sorte de suas criaturas humanas é um corolário lógico (...) quanto a doutrina da soberania de Deus. Se o mundo é governado por um ser onisciente e onipotente, segue-se que seus decretos tem que ser forçosamente executados. O destino de cada criatura é segundo o que Deus tem anteriormente determinado [11]

 

Ele deia claro sua posição de Batista Particular ao apresentar seu calvinismo, afirmando que Deus determinou o destino de cada ser humano. Ele apresenta, nesse artigo, a clara doutrina da predestinação, a qual afirma que Deus predestinou todas as coisas conforme sua santíssima vontade, e tudo Deus predestinou antes da criação de qualquer coisa. Ele apresenta a doutrina dos Decretos de Deus, que desafia a fé arminiana, mas, quanto à fé calvinista, ela é docemente confessada.
 

W. C. Taylor escreveu um artigo na edição de dezembro de 1947 e janeiro de 1948 em O Jornal Batista, esclarecendo o pensamento Batista sobre a doutrina do livre arbítrio, consolidando o pensamento presente nas confissões calvinistas:
 

É fútil dizer que Deus escolheu aos que O tiveram escolhido, ou que faz sua escolha depois da escolha humana de salvação. Isto reduz o Deus da eternidade a um deus de palanque e nega a veracidade de muitas Escrituras. Deus não é mero carimbo para o apoio de decisões alheias [12]


Novamente o mais puro calvinismo é apresentado nas páginas do jornal que representava os Batistas brasileiros em sua origem. Taylor é enfático em negar o que muitos Batistas hoje confessam: a doutrina do livre-arbítrio humano. Taylor está expondo a doutrina da Depravação Total ao afirmar que o homem não escolhe a Deus, trazendo a tona a ideia de que o homem está morto em pecados por causa da Queda. Os Batistas Particulares sempre afirmaram isso desde suas origens na Inglaterra. Essa doutrina vem sendo repetida enfaticamente até hoje pelos Batistas Reformados (Particulares) dos nossos dias. Curiosamente os Batistas Gerais e o pai fundador desse grupo, o separatista Thomas Helwys sempre negou a doutrina do Pecado Original.

 

O Jornal Batista, além de ter sido uma ferramenta valiosíssima para a evangelização e informação do Brasil Batista, sem dúvida também é mais uma forte evidência de que a influência das confissões de fé calvinistas, especialmente a Confissão de Fé de New Hampshire, era muito forte em todo o Brasil.


Campo Maior: Breve História de uma Igreja Local
 

As três décadas seguintes consolidaram a presença dos Batistas no Piauí e em Campo Maior em particular. Com a chegada dos anos de 1950, a pequena congregação que já existia, reunia um bom número de fiéis. Alguns batismos aconteceram na década passada e o trabalho ganhou nova força. Os irmãos da congregação já demonstravam um forte desejo em se tornarem igreja organizada. A Junta de Richmond, responsável pelo envio dos missionários dos Estados Unidos ao Brasil, já havia comunicado através de carta à Primeira Igreja Batista de Teresina, que instalara mais uma ‘Missão’ no Brasil. Tratava-se da Missão Equatorial e compreendia os estados do Piauí, Ceará, Maranhão, Pará, Amazonas e territórios. Estava à frente da Missão Equatorial o missionário Burton Davis. Ele nomeou como encarregado pelo campo do Piauí e do Ceará, o missionário Roberto Standley. Foi por intermédio deste último missionário, Standley, que a congregação de Campo Maior conheceria o seu primeiro pastor, José Moreira da Silva.
 

Tomando conhecimento da situação da congregação em Campo Maior, que na época estava recebendo a visita do diácono Lourival Parente e outros membros da igreja de Teresina, Standley percebeu que aqueles irmãos precisavam de um pastor de tempo integral, que estivesse disposto aos labores que a evangelização e o pastoreio lhe trariam. Imediatamente ele começou a sondar alguns nomes possíveis, que poderiam assumir a congregação. Roberto Standley conversou com alguns irmãos da Primeira Igreja Batista de Teresina e apresentou-lhes a necessidade da congregação em Campo Maior ter o seu próprio pastor. O parecer final quanto a essa questão seria decidido na Assembléia da Primeira Igreja Batista de Teresina, marcada para ser realizada no dia 14 de agosto de 1950. No dia da Assembléia, por algum motivo não informado, não foi possível o missionário Standley estar presente, mas ele enviou um telegrama com uma mensagem sobre a vinda do pastor Moreira. A Ata está registrada com o seguinte texto:
 

“Um telegrama do irmão missionário Dr. Standley, avisando a impossibilidade de vir aqui hoje, e apresentando à igreja o caso do pastor Moreira para Campo Maior. [...] falou o irmão Moraes que os diáconos resolveram em reunião dar ofertas aos pastores Almir e Moreira ...” (ATA da PIB THE, 14/08/1950).

 

Quanto ao pagamento do salário do pastor Moreira, a Primeira Igreja Batista de Teresina não dispunha de fundos para isso. Standley conseguiu que o pagamento fosse realizado através de um fundo da Missão Equatorial, livrando assim a igreja de Teresina de arcar com essa despesa. No seu telegrama, enviado a tempo para a Assembleia, ele pede que a igreja tome uma resolução em efetuar o convite para o pastor. O missionário Standley foi um dos mais importantes instrumentos de Deus para confirmar o trabalho Batista em Campo Maior.
 

Finalmente, assumindo a congregação de Campo Maior e passado as congratulações e os abraços, o pastor José Moreira imediatamente inicia seu trabalho de estruturação da congregação. As entradas financeiras passaram a ser organizadas e eram anotadas em relatórios que eram enviados à Teresina. O trabalho na evangelização ganhou um vigor extraordinário. Por todos os lados da cidade, ouvia-se que fixara residência na cidade de Campo Maior um pastor Batista. Sua primeira residência era localizada próximo à casa da irmã Heroína Ibiapina, onde os cultos eram realizados. Na cidade, onde ele chegava era respeitado. O nome da denominação batista se destacou muito em virtude do excelente testemunho dado pelo pastor Moreira e de sua refinada educação. Tinha uma postura serena, mas que impressionava pelo respeito que transparecia. Ligado a área da Educação, ele tornou-se grande amigo do padre Mateus, principal pároco da cidade, visitando-lhe muitas vezes no Ginásio Santo Antonio.
 

Ele Era extremamente rígido quanto aos cultos, não permitindo que nada viesse a atrapalhar o trabalho. As crianças eram repreendidas, e seus pais eram ainda mais. Não escapavam de ouvir exortações sobre a boa educação no lar que deveriam prestar aos infantes. Finalmente, depois de expressivos avanços, a congregação unida a seu pastor decide por pedir sua organização eclesiástica. Caso fosse acatado o pedido, a congregação passaria ao status de igreja e estaria independente da Primeira Igreja Batista de Teresina. O pedido que chegou de Campo Maior a Teresina, pelas mãos do próprio pastor Moreira, foi tratado em Assembleia:
 

Usando da palavra o pastor Albérico prestou informações sobre os seguintes assuntos: a) sobre o eficiente trabalho do pastor Moreira na congregação de Campo Maior e do justo desejo daqueles nossos irmãos organizarem-se em igreja. Ouvida a casa, essa aprovou unanimemente que aquela congregação seja organizada em igreja;

 

Iniciado pelo sapateiro Joaquim Bostock, o trabalho batista em Campo Maior preparava-se para dar o maior salto desde suas origens na segunda década do século XX. Ainda neste mesmo mês a congregação seria reconhecida e elevada a Igreja. O grande passo estava acontecendo. Naquela que seria a última assembléia da Primeira Igreja Batista de Teresina, cuja congregação de Campo Maior ainda estava sob sua autoridade, foi votado a organização da referida congregação em igreja e a transferência[13] dos membros para a nova igreja. Secretariou a Assembléia em Teresina a irmã Diva Sales de Azevedo.

 

A Confissão de Fé dos Batistas Particulares em Campo Maior
 

No dia 25 de julho de 1951, às 19:50h, foi dada início a Assembléia que organizaria a então Congregação Batista em Campo Maior em Igreja Batista de Campo Maior.[14] A ata que registrou a Assembléia menciona que a igreja nascente confessava alguns artigos de fé:
 

Foi organizado o concílio para ajudar na organização da referida igreja. Como presidente, secretário e orador oficial foram eleitos respectivamente: Albérico Sousa, José Moreira e Silva e Silas Falcão. Para fazer a leitura do pacto das igrejas, Jonas Macedo. Para ler os “artigos de fé”, Roberto Standley ... [15] (ATA de Organização da PIB em Campo Maior, 1951. Grifo meu).

 

A leitura dos artigos de fé que foram adotados pelos membros fundadores da Igreja Batista de Campo Maior não representavam um episódio novo na história dos Batistas piauienses. Encontramos referência a uma declaração de fé na histórica ata da primeira igreja batista em solo piauiense: a Igreja Batista de Corrente, onde passamos a descrever alguns trechos da mesma:
 

Organização da Igreja de Cristo, comumente chamada Batista, na vila de Corrente, Estado do Piauí. Às 7 horas da noite do dia dez de janeiro de mil novecentos e quatro, com o fim de constituírem-se em Igreja de Cristo... O ministro Jackson, que presidia a reunião (...) fez ele um discurso sobre os direitos, poderes e privilégios da igreja. O irmão Antônio Nogueira de Carvalho leu a declaração de fé das Igrejas Batistas do Brasil (...) Em vista disto aceitamos e adotamos a declaração de fé e o pacto que acabam de ser lidos. [16](ATA da PIB em Corrente, 1904. Grifo meu).


Quando uma congregação estava sendo organizada em igreja, era necessário que ela adotasse uma declaração de fé que exprimisse a crença comum dos Batistas. Isso não ocorreu somente no Piauí, mas em todo o Brasil. Cada igreja Batista que vinha sendo organizada, desde a primeira, na Bahia,[17] adotava uma Confissão de Fé, ou Declaração de Fé.[18]  Um dos mais respeitáveis missionário que pisou em terras brasileiras foi William Buck Bagby, a quem os batistas brasileiros tem uma imensa dívida. Em uma correspondência à Junta de Richmond, datada do dia 29 de agosto de 1884, fazendo uma referência a declaração de fé que a igreja do Rio de Janeiro adotara, Bagby escreveu:

 

Rio de Janeiro, Brazil - 29 de agosto de 1884
 

Prazado Dr. Tupper.
 

Terás prazer em saber que a primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro foi organizada no último dia do Senhor! Nós nos organizamos com quatro membros (...). Adotamos os Artigos de fé de Filadélfia. [19]


 Essa prática servia como medida de segurança para a própria igreja, visto que em face ao surgimento de heresias ou no caso de dúvidas dentro do corpo eclesiástico, uma rápida observação na declaração de fé facilmente esclareceria o assunto. Além disso, o conteúdo da declaração era uma marca que diferenciava os Batistas de outras denominações. Há muitos Batistas atualmente que rejeitam tais documentos, mas o uso de confissões, como temos demonstrado, sempre esteve presente entre os batistas. Se retrocedermos mais ainda na história dos Batistas no Piauí, inevitavelmente teremos que reconhecer o fato de que todas as igrejas do sul do Estado, as primeiras a receberem a visita dos missionários Batistas, foram fundadas sob a égide de uma confissão de fé calvinista. É impossível ter sido diferente considerando que todas as igrejas Batistas necessariamente era organizadas sob a Confissão de Fé de New Hampshire ou Declaração de Fé das Igrejas Batistas do Brasil, o que é, na verdade, a mesma confissão de fé calvinista.

Na capital, Teresina, os Batistas se organizaram posteriormente. A igreja surgiu em 1914, já organizada e liderada por Adolph Terry. E qual foi a fé confessada e subscrita pela igreja? A mesma confissão de fé calvinista de New Hampshire! Negar que os Batistas Particulares plantaram o evangelho no Piauí significa negar uma série de testemunhas históricas que afirmam isso. Como disse o nosso Senhor Jesus ao apóstolo Paulo, “é inútil recalcitrar contra os grilhões” (Atos 9.5), assim, é inútil negar um fato histórico, evidente até mesmo nas atas das igrejas, muitas delas, inclusive, até hoje preservadas, e que registram o estamos afirmando. Em resumo, é preciso admitir que desde a chegada dos Batistas no Piauí, no final do século XIX, até a primeira metade do século XX, indo até alguns anos a mais, todas as igrejas Batistas organizadas eram calvinistas, se não na prática da confissão de fé pessoal de cada cristão, pelo menos na confissão de fé que a igreja enquanto corpo e instituição adotava. 
 

Baseado neste recuo histórico das origens das igrejas Batistas no Brasil, especialmente no Piauí, podemos entender melhor porque encontramos nas atas das igrejas Batistas firmadas em solo piauiense, citações de tais declarações de fé. Primeiro na Igreja Batista de Corrente, organizada em 1904, anos depois encontramos uma declaração de fé sendo adotada pela Primeira Igreja Batista de Campo Maior, como mostra a sua ata datada do ano de 1951, e seguidamente por cada igreja organizada nesse período. A conclusão que chegamos é que o uso de confissões de fé pelos Batistas é comum, histórico, e até mesmo necessário para salvaguardar a igreja do erro teológico. E tais confissões eram testemunhas do calvinismo norte americano.
 

Como disse o historiador José dos Reis Pereira, os Batistas têm confissões, e essa afirmação é historicamente comprovada, podendo ser facilmente observada ao longo do movimento Batista em todo o mundo. As confissões históricas apresentam a base doutrinária que os batistas confessaram desde o século XVII até os dias mais recentes. Como vimos anteriormente, William Bagby, escrevendo a Junta de Richmond, diz que na Igreja Batista do Rio de Janeiro foram adotados “os Artigos de Fé de Filadélfia”. Segundo o historiador Batista Gilson Santos, essa é uma referência, não à Confissão da Filadélfia, que era uma cópia da Confissão de Fé usada pelos primeiros Batistas ingleses em 1689, mas à Declaração de Fé de New Hampshire. [20] A Igreja Batista do Rio de Janeiro foi fundada em 24 de agosto de 1884, de já, descartamos a última confissão citada, ou seja, a Mensagem e Fé Batista, pois este documento só foi elaborado em 1925, cerca de 41 anos após a organização da Igreja Batista do Rio de Janeiro.
 

Esse fato traz uma luz que vai nos levar a Igreja Batista de Corrente, que foi fundada, como já vimos, em 1904. Neste período, 21 anos antes da declaração de fé de 1925, fica evidente que o documento utilizado pelo missionário Ernest Jackson, era um documento mais antigo. Sem dúvidas, a mesma declaração de fé adotada pelas igrejas da Bahia e do Rio de Janeiro, foi adotado também na vila de Corrente, ou seja, a Declaração de Fé de New Hampshire, que no Brasil, também foi chamada de Declaração de Fé das Igrejas Batistas do Brasil.
 

Teria sido ela, a confissão de fé comumente chamada Mensagem e Fé Batista, de 1925? A data da ata lavrada pelo pastor José Moreira e Silva consta de 25 de julho de 1951, cerca de 26 anos após a Mensagem e Fé Batista ter sido preparada para ser adotada pela Convenção do Sul dos Estados Unidos. Teria essa nova declaração de fé dos Batistas vigorado logo no Brasil? A Convenção Batista Brasileira, fundada em 22 de junho de 1907, em Salvador, no templo daquela igreja, em sua sexta assembléia, como bem percebeu Gilson Santos, foi decidido, ou melhor, explicitamente demonstrado que os artigos de fé adotados por uma igreja batista não seriam outros, senão os artigos de fé de New Hampshire, visto que a Convenção reconheceu que:
 

Toda igreja batista regular era aquela que aceitavam as Escrituras sagradas como única regra de fé e prática, e acham que as doutrinas das mesmas Escrituras são devidamente expostas na Origem e História dos Batistas, sob a epígrafe Declaração de Fé. [21]


Este relatório foi publicado no Jornal Batista de 20 de novembro de 1913, pp. 2-3. Aqui fica claro que para ser considerada uma igreja Batista, segundo a própria Convenção Batista Brasileira, a mesma precisaria aceitar a Bíblia como sua única regra de fé e prática e A Declaração de Fé de New Hampshire. (como exposta no livro Origem e História dos Batistas)[22] como a fiel interpretação das Escrituras Sagradas. Em outras palavras, a Convenção Batista Brasileira afirmou no passado que uma igreja verdadeiramente Batista deveria ser calvinista em sua teologia! Embora o calvinismo tenha sido extirpado da CBB, fica claro que no princípio não foi assim. As igrejas Batistas brasileiras nasceram sob a doutrina calvinista, e a maior voz da entidade, a Convenção Batista Brasileira, reconhecia apenas essa doutrina como sendo a doutrina Batista e bíblica. Não há contradição, nos primórdios a Convenção Batista Brasileira era formada por igrejas de fé calvinista.  

 

Desde então, oficialmente, a Convenção Batista Brasileira reconhece diante de todos, através da sua assembléia geral e do Jornal Batista, que a declaração de fé de uma igreja legitimamente batista deveria ser a Declaração de Fé de New Hampshire. Mesmo após o aparecimento da Mensagem e Fé Batista, uma nova declaração que estava sendo adotada pela Convenção do Sul dos EUA, em meados de 1925, a Convenção Batista Brasileira continuou a adotar a “antiga declaração de fé” dos Batistas calvinistas.

Vários autores Batistas, tempos depois, reconheceram a declaração de fé de New Hampshire como sendo o modelo doutrinário dos Batistas. Podemos destacar, dentre outros, Ebenézer Soares Ferreira, que no seu livro Vade-Mecum do Obreiro e da Igreja (manual da igreja e do obreiro), editado em 1973, na página 229, apresenta um capítulo inteiro onde a declaração de fé das igrejas Batista do Brasil é apresentada.[23] Esta declaração apresentada por Ebenézer é uma tradução da Declaração e Fé de New Hampshire. Outro grande historiador Batista brasileiro foi José dos Reis Pereira. Em seu livro Breve História dos Batistas, editado pela primeira vez em 1972, pela JUERP; traz no seu apêndice a Confissão de Fé de New Hampshire, demonstrando ele que esta era uma confissão de fé que os Batistas adotavam e que estava em vigor entre os todos os Batistas brasileiros.


Como vimos acima, mesmo tendo a Convenção do Sul dos EUA adotado uma outra declaração doutrinária; no Brasil, a declaração adotada ainda era a mesma que os primeiros missionários americanos professavam. A Declaração de Fé de New Hampshire só foi oficialmente abandonada pela Convenção Brasileira em 1986, em sua 67ª Assembléia realizada em Campo Grande – MS.[24] Isso mostra, repito, que desde a chegada dos Batistas no Brasil, mas precisamente, desde a organização da primeira igreja Batista em Salvador, ocorrida em 1882, quando ainda nem mesmo existia uma Convenção Batista Brasileira, até o ano de 1986, os batistas tinham a Declaração de New Hampshire como sua confissão. Um período que durou 104 anos! Por 104 anos todas as igrejas eram organizadas com uma confissão de fé calvinista.


Com base nestes dados históricos, podemos claramente identificar que os “artigos de fé” que foram lidos pelo missionário da Junta de Richmond, que estavam organizando a igreja Batista na pequena cidade de Campo Maior, sem dúvida, foi a Confissão de Fé de New Hampshire, ou simplesmente Declaração de Fé das Igrejas Batistas do Brasil. Não há nenhuma dúvida quanto a isso. Outra evidência de que fora essa a declaração que a Primeira Igreja Batista de Campo Maior adotou em sua fundação, pode ser vista no Estatuto da mesma[25]. No dia 03 de julho de 1977, entrava em vigor o estatuto da PIB de Campo Maior, o qual foi apreciado pela assembléia reunida e aprovada pelo corpo de crentes daquela igreja.


No primeiro capítulo, no seu artigo 3º e parágrafo 1º do Estatuto da igreja, encontramos a seguinte declaração: “A Igreja aceita como fiel interpretação da Bíblia, o documento denominado Declaração de fé das Igrejas Batistas do Brasil” (ESTATUTO DA PRIMEIRA IGREJA BATISTA DE CAMPO MAIOR, 1977). Uma cópia deste estatuto pode ser encontrada nos arquivos da Câmara Municipal de Campo Maior ou no Forum de Campo Maior, no Cartório do 3º Ofício de Notas, local onde o presente Estatuto foi autenticado e apontado no livro de registro integral de títulos, documentos e outros papéis, sob o número 54, nas folhas com numeração de 29 à 31, no livro n° 1-B. O registro foi realizado pela tabeliã Célia Maria Rezende, no dia 01/09/1977.
 

Nossa busca histórica nos leva a concluir que os Batistas do Piauí registram sua origem calvinista, são descendentes teológicos dos Batistas Particulares, e tem toda essa bela história registrada, não apenas nas memórias de alguns, mas, sobretudo, nas atas de fundação e organização das igrejas mais antigas. Atualmente a cidade ainda preserva um remanescente da fé calvinista através da presença viva da Primeira Igreja Batista Reformada. Os documentos que mais marcaram a vida dos Batistas Particulares continuam sendo observados nesta igreja. Além da Confissão de Fé de 1689, os Batistas Reformados de Campo Maior preservam os catecismos de Charles Spurgeon, o qual continua servindo para catequisar os fiéis que ali se reúnem para a santa adoração ao Senhor.
 


[1] Os Batistas, na Europa e nos Estados Unidos, viviam uma fase de transição e um tipo de ‘sincretismo evangélico’ em sua fé. Algumas igrejas que adotavam confissões de fé estritamente calvinistas (Batista Particular) já começavam a nutrir interesse nas doutrinas arminianas (Batista Geral).

[2] Brito, Itamar S, História dos Batistas no Piauí, Um Século de Lutas e Vitórias – JUERP – p. 83

[3] Tabela apresentada no livro As Outras Faces do Sagrado, de autoria de Lyndon de Araújo Santos. A tabela I foi elaborada pelo autor, com informações colhidas do jornal O Christão, dezembro de 1898, ano VII, número 84, PP. 3-5. Conforme o autor, os dados não são precisos.

[4] Situada a 80 Km de Teresina, avançando mais ao norte, em direção ao litoral.

[5] Em toda a pesquisa realizada, nas mais diversas fontes, nenhuma informação pôde ser encontrada com respeito a presença de protestantes em Campo Maior nos períodos dos anos de 1910-1915.

[6] Mesmo com estes dados tão pobres de estrutura urbana e população, Campo Maior, nesta época, era uma das cidades mais importantes do Estado do Piauí. Estava entre as 03 cidades principais, ficando atrás de Teresina e Parnaíba. Isso se deve graças a sua antiguidade, passado histórico, e importante participação na criação do Estado do Piauí.

[7] Segunda relatou Iracema Lima Costa Santos, neta de Joaquim Bostock

[8] O JORNAL BATISTA continua sendo até hoje o informativo oficial da Convenção Batista Brasileira.

[9] Pereira, J. R., História dos Batistas no Brasil – JUERP – p. 95

[10] Filha de Heroína da Costa Araújo Ibiapina e neta de Joaquim Bostock.

[11] Santos, Gilson. A Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira e as Doutrinas da Graça. p. 8, citando Entzminger, W. E. predestinação. O JORNAL BATISTA, Rio de Janeiro, 16 e 30/março/1916.

[12] Ibid. pp. 7,8. citado de Taylor, W. C. A Liberdade de Deus e o Livre Arbítrio dos Homens. O JORNAL BATISTA, Rio de Janeiro, 25/dez./1947 e 08/jan./1948.

[13] Na época usava-se a expressão “demissão” com o sentido de transferir um membro de uma igreja para outra. O uso desse termo no âmbito desta ata não tem nenhum sentido pejorativo. Era o termo corrente. Hoje, emprega-se mais comumente o termo “Carta de Transferência”.

[14] Ata de organização da PIB de Campo Maior, escrita pelo então secretário e pastor da igreja, José Moreira e Silva.

[15] Parte da Ata de organização da PIB de Campo Maior.

[16] História dos Batistas no Piauí. Brito, Itamar Sousa, JUERP, p. 46-48. Esta ata foi transcrita e teve a sua ortografia atualizada.

[17] Na realidade, a primeira igreja batista em terras brasileiras foi levantada pelos colonos americanos em Santa Bárbara – SP, em meados de 1871.

[18] Confissão de fé é o mesmo que declaração de fé, ambos são documentos que contém um corpo de doutrinas.

[19] A Confissão de Fé de New Hampshire Nos Primórdios Batistas No Brasil. Santos, Gilson. P. 7. Extraído do Blog Ex Corde no dia 15/09/07

[20] A Confissão de Fé de New Hampshire Nos Primórdios Batistas No Brasil. Santos, Gilson. P. 7-8. Extraído do Blog Ex Corde no dia 15/09/07

[21] Fé e Ordem: Identidade e Unidade na História Batista. Santos, Gilson. P. 19. Extraído do Blog Ex Corde no dia 15/09/07

 

[22] Este livro foi escrito pelo Dr. Samuel H. Ford (1819-1905) e traduzido em 1886 pelo missionário Zacarias C. Taylor.

[23] Na sua 12ª edição, a Declaração de Fé de New Hampshire foi substituída pela Declaração Doutrinária da CBB, documento doutrinário atual dos batistas da CBB.

[24]  Série Documentos Históricos – Em Que Crêem os Batistas – JUERP – 2001, p. 27.

[25] Em 1988, precisamente no dia 17 de outubro, o então pastor da Primeira Igreja Batista de Campo Maior, Manoel da Cruz Cardoso Lima, entra com um pedido junto ao presidente da Câmara Municipal de Vereadores de Campo Maior, solicitando o reconhecimento da PIB de Campo Maior como uma entidade de Utilidade Pública. Isso se devia aos mais variados trabalhos que a igreja desempenhava junto a sociedade campomaiorense nesta época, tais como o funcionamento de uma escola primária, curso de corte e costura, aulas de inglês, órgão e violão. Agradecemos ao historiador Celson Chaves. São dele os méritos da localização da cópia deste Estatuto nos arquivos da Câmara de Vereadores de Campo Maior. 

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