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Nas Tuas Mãos Entrego o Meu Espírito, por R. M. M’Cheyne

Nas tuas mãos encomendo o meu espírito:  tu me redimiste, Senhor Deus da verdade. (Salmos 31:5)

 

Há algo estranhamente doce nestas palavras, porque são as palavras usadas pelo Senhor Jesus em Sua agonia. Por seis longas horas Ele ficou pendurado naquele maldito madeiro, levando os pecados de muitos. Não há homem que possa imaginar o peso que Ele suportou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mateus 27:46). O vinagre misturado com fel era amargo, mas nem se assemelha ao cálice da ira; a dor de Seu corpo mutilado foi terrível, mas nem se compara à agonia intensa da espada da justiça que Lhe traspassava. Este foi o Seu último clamor: “Pai, nas tuas mãos encomendo o meu espírito”; e, inclinando a cabeça, rendeu o espírito. É doce a um sofredor aflito usar as mesmas palavras que Jesus. É doce usar as palavras de um amigo que partiu. Nós os guardamos como tesouro em nossa memória e os embalsamamos em nossos corações. Mas qual amigo é como Jesus, cujas palavras foram todas de graça?

 

É doce a um pecador convicto e abatido tomar para si as palavras de Jesus nos Salmos: “Porque males sem número me têm rodeado, as minhas iniquidades me prenderam de modo que não posso olhar para cima” (Salmos 40:12). É doce a uma alma crente assumir as Suas palavras em Isaías: “Perto está o que me justifica, quem contenderá comigo?” (Isaías 50:8).

 

E é ainda doce para um pobre aflito, afogado em remorso assumir essas doces palavras: “Nas tuas mãos encomendo o meu espírito: tu me redimiste, Senhor Deus da verdade”.

 

Observe três coisas:

 

1. Quem fala: um tentado, uma alma aflita. Assim era Davi: “Tira-me da rede” (Salmos 31:4). Satanás e o mundo haviam lançado uma rede ao redor de sua alma. Laço pós laço, como malhas de uma rede, o envolveram. Ele se sentiu desamparado: “Estou esquecido no coração deles, como um morto; sou como um vaso quebrado” (Salmos 31:12). Para nenhum outro lugar ele pode ir, senão a seu Deus redentor: “Nas tuas mãos encomendo o meu espírito: tu me redimiste, Senhor Deus da verdade”.


Assim era o Senhor Jesus: “Muitos touros me cercaram; fortes touros de Basã me rodearam. Abriram contra mim suas bocas, como um leão que despedaça e que ruge” (Salmos 22:12-13). Onde ele poderia ir, se não ao seu Deus? “Em tuas mãos encomendo o meu espírito”. Assim, podem haver algumas pessoas tentadas, aflitas aqui, envolvidas na rede de Satanás, cercadas por touros de Basã; deixem que tomem em suas bocas a Sua doce fala: “Em tuas mãos encomendo o meu espírito”.

 

2. A Quem ele fala: O Redentor. De um lado, há a tristeza; do outro, um Deus redentor. Quando o Senhor Jesus tomou estas palavras as depositou ao Pai, porque o Pai era o Seu Redentor. Quando Ele terminou a obra que o Pai Lhe deu para fazer; quando Ele havia tragado as últimas borras de infinito sofrimento; Ele podia olhar para cima e reivindicar a perfeita libertação: “Pai, nas tuas mãos encomendo o meu espírito”. Quando Estevão tomou posse desta fala, ele disse: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito” (Atos 7:59). O Redentor parece ser irrevogavelmente significativo, Aquele que levou nossos pecados em Seu próprio corpo na cruz, não excluindo as outras pessoas da Divindade. É um pobre, culpado, desamparado e arrependido olhando para Aquele que morreu por nós e dizendo: “Nas tuas mãos encomendo o meu espírito; Senhor Deus da verdade”.

 

3. A “coisa” entregue: “Meu espírito”. A alma do homem é a parte mais preciosa. Não faço pouco caso do corpo, longe disso. É a criação de Deus, e, apesar de frágil, e prestes a se desfazer em pó, ainda é um bom companheiro, e será ressuscitado incorruptível. Mas o espírito é a parte preciosa. “Pois, que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo, e perder a sua alma?” (Marcos 8:36). A alma foi feita à imagem de Deus. É isso que a pobre e tentada alma entrega às mãos do grande Redentor; a parte em que o pecado começa, e explode em ação; onde a culpa pesa; onde o sangue de Jesus dá paz; onde Satanás tenta o espírito. É isto que o homem dá ao cargo do grande Redentor de almas.

 

 

I. Os momentos em que devemos fazer isso.

 

1. O tempo de conversão. Parece que foi isto que Paulo quis dizer: “Por cuja causa padeço também isto, mas não me envergonho; porque eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até àquele dia” (2 Timóteo 1:12). Às vezes, a conversão é descrita na Bíblia como da parte de Deus: Jesus encontrando a ovelha perdida; Jesus passando, e espalhando Suas vestes sobre a alma; O Pai levando a alma a Jesus. Em outros momentos, ela é descrita a partir da criatura: Indo até Jesus, contemplando o Cordeiro, apegando-se a Cristo; ou como aqui, encomendando o espírito em Suas mãos. É um dia feliz, quando um pobre pecador descobre que seu espírito está totalmente perdido e arruinado; que sua alma é como o corpo de um leproso, impuro, imundo; que seus pecados são infinitos, e seu coração uma pedra; uma fonte de poluição, insondável, incontrolável, insuportável; e quando ele descobre em Jesus um onipotente e Divino Redentor e glorioso em sua Pessoa, e ainda ferido e quebrado sob a ira de Deus, nascido por nós; quando o pecador entrega sua pobre, culpada, impotente, e imunda alma nas mãos do Senhor Jesus! O pecador sobrecarregado, entrega sua alma a Jesus. Ele está em grande perigo. A lei o condena. Os teus pecados são muitos, o teu merecido Inferno vai além de terríveis pensamentos. Satanás está o fazendo resistir; o tentador; o seduzindo. Mas Jesus é suficiente para salvar: “Nas tuas mãos encomendo o meu espírito”.

 

2. O tempo da tentação. De maneira peculiar, este parece ter sido o tempo ao qual faz alusão o Salmo: “Tira-me da rede”. (Salmos 31:4). As tentações dos filhos de Deus são terríveis. Muitas vezes, um filho de Deus passa um longo tempo livre de tentações. Ele é como Naftali, “Farta-te, ó Naftali, da benevolência, e enche-te da bênção do Senhor” (Deuteronômio 33:23). Talvez ele ria da tentação, e pense que ela nunca vai chegar perto dele. Mas, de repente, o céu está nublado, e uma forte corrente de tentações é permitida tocar seu coração.

 

“Em vez disso, Ele me fez sentir

Os males ocultos do meu coração;

E deixou os raivosos poderes do Inferno

Atacarem todas as partes da minha alma.”

 

O mundo concorda. Satanás desperta toda a sua malícia. Que horrores agora cercam a alma tentada! Ele se joga de joelhos; mas tem medo de orar. Ele voa à sua Bíblia; mas é um livro selado. O pecado o assombra à mente, e o amedronta quanto a orar. Durante todo o tempo o povo de Deus O adora e O louva, embora suas palavras sejam como fel; o que pode ajudar o homem tentado? Ninguém, senão Jesus. É melhor descobrir Jesus nesta hora! O Redentor que morreu, que vive, o Advogado junto ao Pai! É melhor estar apto a entregar a alma tentada em Suas mãos! Pobre alma tentada! Abra mão de si para Jesus; Ele pode apagar o pecado, e mudar o coração.

 

3. O tempo de aflição. Alguns Cristãos têm pouca aflição. Eles navegam em um mar calmo; eles gozam de saúde física por muitos anos juntos; eles nunca souberam sequer o que poderia ser necessitar de uma boa refeição. A morte talvez nunca tenha entrado em sua casa. E eles acham que será sempre assim. Mas uma mudança vem. A “harpa de mil cordas” sai do tom. A “casa de barro” dá sinais de decadência, o ceifador quer invadir sua casa, a terra quer entrar pela janela. Ah! é difícil de suportar. Nenhuma aflição no tempo presente parece ser motivo de alegria, mas de tristeza. Quem pode confortar? Ninguém, senão Jesus. Ele conheceu toda a tristeza, dores mais profundas do que jamais conhecemos, ou conheceremos. Seu coração não é de pedra. Ele sente junto conosco. Não aflige de bom grado. Antes, procura nos trazer mais para perto de Si. Ó crente aflito, entrega o teu choro, o sofrimento, seus anseios, sua alma trêmula para Jesus: “Nas tuas mãos encomendo o meu espírito”.

 

4. Em tempo de serviço. Muitas vezes, a princípio, o novo convertido pensa apenas no prazer, em ouvir os sermões, desfrutar dos sacramentos e em conversas Cristãs. Tenho sido muitas vezes atingido pela frequência em que isso ocorre. Você gostou daquele sacramento, ou daquele sermão? Quão raramente isto te melhora! Que mudança operou em sua vida? Mas quando Deus desperta a alma, um caminho de servidão é visto depois deles. Muitas vezes perplexo e confuso, muitas vezes íngreme e escorregadio, muitas vezes perigoso e terrível. Oh! o que devo fazer? Como é difícil saber o caminho certo; e quando eu sei, como é difícil segui-lo. Eu entrego a minha alma para Jesus. “Deus e Pai, e de Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Colossenses 2:2-3). Sua graça é suficiente para mim. “E guiarei os cegos pelo caminho que nunca conheceram” (Isaias 42:16). Ele tem luz para iluminar, força para defender, e graça para encorajar: “Nas tuas mãos encomendo o meu espírito”.

 

5. Na hora da morte. Poucos pensam na morte até que ela venha. O último inimigo a ser vencido é a morte; e um inimigo terrível ele é. Nós partimos sozinhos. Nenhum amigo terreno vai conosco. Nós nunca fomos por aquele caminho antes. É tudo estranho e novo. Os resultados são eternos. Se não tivermos acreditado direito, é tarde demais para consertar. Estes são alguns dos pensamentos solenes que ofuscam a alma. O que pode dar a paz? Ninguém, senão Jesus; a visão de Jesus como Redentor; o mesmo ontem, hoje e sempre; a mesma visão que temos na primeira vez que conhecemos o Senhor; quando primeiro nos escolheu, e nós O escolhemos; quando pela primeira vez Ele disse: “Buscai o meu rosto; o meu coração disse a ti: O teu rosto, Senhor, buscarei” (Salmos 27:8). Para vê-lo como um Deus da verdade; o Senhor, que não muda; o imutável; o mesmo Jesus; para vê-lO e clamar: “Nas tuas mãos encomendo o meu espírito”; esta é a paz.

 

Dundee, 1843.

 

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