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O Princípio Regulador do Culto é uma Doutrina Batista, por Jeff Robinson

Atualmente, Deus está sendo adorado de maneiras novas e inventivas em igrejas Batistas. Anos atrás, uma robusta igreja Batista instalou uma piscina batismal no formato de um caminhão de bombeiros, repleta de tinta vermelha e luzes, embora já tenha sido removida. O batistério foi projetado especificamente para batizar as crianças que fizessem uma profissão de fé. Quando um jovem emergia em água durante o batismo, serpentinas e confetes eram lançados em direção ao céu a partir da pequena piscina e as luzes do caminhão brilhavam com a luminosidade de duas sirenes. O pastor disse que este dispositivo extravagante foi instalado para tornar o batismo mais agradável e “interessante” para as crianças.

 

Nestes dias, parece que muitas igrejas Batistas estão sofrendo da mesma forma peculiarmente americanizada de culto comum às igrejas contemporâneas. A história verídica acima é um exemplo do que Michael Horton descreve como uma “familiaridade suja”, pela qual os modernos Cristãos se aproximam de Deus.

 

Esta “familiaridade suja”, Horton escreve, é baseada na “crença de que temos acesso direto e imediato a Ele (Deus) quando e como nós queremos. Que sempre que as pessoas sinceras se reúnem em um edifício para adorarem de acordo com os seus gostos pessoais e opiniões, Deus se impressiona por eles dedicaram tempo para prestarem adoração suficiente. Aquilo era 'real'. Eles eram 'vulneráveis'. Eles eram ‘honestos diante de Deus’. Eu chamo isso de 'familiaridade suja’”.

 

Porém, nem sempre foi assim nas igrejas Batistas. Desde a época de sua emergência no separatismo Inglês nos séculos XVI e XVII, os Batistas adoravam a Deus corporativamente tendo a Escritura como seu único guia; todavia, nos últimos 100 anos ou mais eles se desviaram profundamente deste caminho. Os antepassados Batistas como John Gill, John Broadus, J. L. Dagg e o notável C. H. Spurgeon certamente ficariam escandalizados com a “familiaridade suja”, frivolidade e o “venha-como-é” que caracteriza grande parte do culto corporativo na vida Batista hoje. Batistas já cultuaram observando o princípio regulador e alguns poucos ainda o fazem. Muitos não acreditam que a Escritura apresenta parâmetros para o culto, como alega o princípio regulador.

 

Mas as Escrituras não condenam claramente a adoração que é baseada em invenções humanas, particularmente em Isaías 29:13, Mateus 15:8-9, Marcos 7:6-7, e Colossenses 2:23? A Escritura é suficiente para o nosso culto e não deve ser alterada: Deuteronômio 4:2; 12:29-32; 2 Timóteo 3: 16-17 e Apocalipse 22:18-19.

 

Os Batistas e o Princípio Regulador

 

Historicamente, os Batistas têm sustentado o princípio regulador. Enquanto os métodos de adoração pragmáticos são o padrão atual em igrejas Batistas, o fato de que o princípio regulador já foi uma doutrina amorosamente afirmada pelos Batistas é evidente por parte dos escritos de Batistas históricos e antigas confissões de fé da denominação nos séculos XVII e XVIII.

 

John Gill

 

John Gill era um forte, embora inconsistente, defensor do princípio regulador. Gill foi o mais famoso Batista do século XVIII e pastor de “Goat Yard”, Southwark, em Londres, igreja que Charles Haddon Spurgeon, mais tarde viria a pastorear. Gill foi um fiel defensor da ortodoxia Calvinista e em grande parte foram a sua pregação e escritos que guardaram os Batistas Particulares do século XVIII de seguirem os seus irmãos Batistas Gerais no caminho da heresia para o Socianismo e Unitarismo. O grande anglicano, escritor de hinos, Augustus Toplady disse sobre Gill: “Talvez nenhum homem, desde os dias de Santo Agostinho, tem escrito tão amplamente em defesa do Sistema da Graça; e, certamente, nenhum homem tem tratado esse importante tema, em todos os seus aspectos, mais precisa e judiciosamente, e com sucesso”.

 

Gill declarou a sua visão do princípio regulador mais claramente em um panfleto intitulado “The Dissenter’s Reasons for Separating from the Church of England” [Razões dos Dissidente para a Separação da Igreja da Inglaterra]. Gill o escreveu em 1751, em resposta a um anglicano que procurou fazer com que todas as crianças Dissidentes no País de Gales fossem catequizadas de acordo com os Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra. Essa foi uma tentativa de afastá-las das crenças Batistas.

 

Gill golpeou a igreja estatal em vários pontos que ele considerava antibíblicos, incluindo a má administração da Ceia do Senhor e do Batismo, o “sinal da cruz” no batismo, a prática do batismo infantil, o seu sistema antibíblico de governo da igreja e seu uso de vestes sacerdotais. Gill escreveu sobre essas coisas: “elas estão longe do que é ordenado na Palavra de Deus”.

 

Ele também apontou para o uso anglicano de cerimônias — prostrar-se para o oriente, curvar-se diante do altar e curvar-se à menção do nome de Jesus, como sendo invenções “pagãs, judias ou católicas”, coisas não ordenadas pela Escritura. Enquanto Gill exigia que o culto Cristão fosse direcionado pelo claro mandado das Escrituras, ele não estava sozinho entre os Batistas.

 

Benjamin Keach

 

Benjamin Keach, outro Batista do século XVII, tinha muito a dizer sobre o culto público. Como prova do fato dele ter sido um defensor do princípio regulador, o separatista Inglês assinou a Confissão Batista de 1689 que incluiu um artigo claro, como veremos a seguir, sobre a regulação das Escrituras para o culto. Nascido em Stokeham, Inglaterra, em 1640, Keach encontrou a paz em Cristo aos 15 anos e foi batizado por imersão, sendo, por todas as considerações, completamente convencido da veracidade do Batismo de crentes.


Keach lutou bravamente contra a Igreja estatal, passando muito tempo na prisão por pregar, e viveu sob a ameaça constante de morte pelas mãos daqueles que, em nome da Igreja da Inglaterra, buscavam suprimir os dissidentes religiosos. Keach foi o primeiro a introduzir os hinos não-inspirados no culto público, adicionando-os à conclusão da Ceia do Senhor em sua igreja em Southwark, em algum momento entre 1673 e 1675.

 

A nova prática causou grande alvoroço entre os Batistas Particulares, com ministros respeitados fazendo repreensões de ambos os lados. Em 1691, ele publicou “The Breach Repaired in God’s Worship; or Singing of Psalms, Hymns, and Spiritual Songs, proved to be an Holy Ordinance of Jesus Christ” [A Brecha Restaurada no Culto a Deus; ou o Canto dos Salmos, Hinos e Cânticos Espirituais, Provado ser uma Santa Ordenança de Jesus Cristo”. Afirmando o princípio regulador, Keach reuniu apoio bíblico para a prática do canto de hinos, fundamentando a questão em textos como Efésios 5:19, Colossenses 3:16 e Tiago 5:13. Ele argumentou que o canto de hinos estava em harmonia com o princípio regulador e era permissível desde que os cânticos fossem “absolutamente coerentes com a Palavra de Deus”.

 

John Leadley Dagg

 

John Leadley Dagg foi o primeiro teólogo escritor entre os Batistas do Sul. Ele escreveu duas obras associadas na década de 1850, “Manual of Church Order” [Manual de Ordem Eclesiástica] e “Manual of Theology” [Manual de Teologia]. Assim como quase todos os Batistas do Sul dos primeiros dias da denominação, Dagg ficou com os pés firmemente plantados na doutrina que era decididamente Reformada. Para Dagg, isso parece ter incluído a sua subscrição do princípio regulador. No prefácio à reedição do “Manual de Ordem Eclesiástica”, de Dagg, em 1990, Tom Nettles descreve Dagg como alguém que era um Calvinista calorosamente experiencial. “Ele não era simplesmente um teólogo escolástico”, escreveu Nettles.

 

Dagg afirmava que o princípio regulador era exercido logicamente na natureza prática e experimental da sua compreensão das Doutrinas da Graça. Dagg não usou o termo “princípio regulador” em seus escritos, mas parece ter sido um forte defensor dele. Em seu “Manual de Ordem Eclesiástica”, Dagg escreve que: “o culto público deve incluir orações, hinos de louvor e a leitura e exposição da Palavra de Deus”. Estes eram os elementos tradicionais de culto sustentados pelo princípio regulador.

 

Em seu capítulo sobre o “Dever dos Batistas”, ele escreveu: “é nosso dever guardar as ordenanças de Cristo e a ordem da Igreja que Ele instituiu, em conformidade rigorosa e minuciosa com as Sagradas Escrituras. Quando o dedo de Deus aponta o caminho, nenhum outro lugar é permitido para nós seguirmos preferências humanas”. Dagg ainda afirmou que: “uma das primeiras corrupções do Cristianismo” foi a tendência de “substituir as ordenanças de Deus pelas cerimônias de invenção humana”. Ele sentia que uma restauração dessas ordenanças à sua pureza original (Batismo de crentes) era “um culto para o qual Deus chamou especialmente os Batistas”. Estes são apenas alguns exemplos de pessoas da herança Batista que eram firmes defensores do princípio regulador. Isso fica evidente nas históricas Confissões de Fé Batista.

 

Confissões de Fé Batista

 

As históricas Confissões de Fé Batista têm afirmado explicitamente o princípio regulador. De fato, Basil Manly Jr., compilou o ensino delas — embora de forma um pouco abreviada — no Abstract of Principles [Resumo de Princípios], que é a confissão reguladora do Seminário Teológico Batista do Sul. O Artigo XIV, com o título “A Igreja”, afirma:

 

O Senhor Jesus é a Cabeça da Igreja, que é composta por todos os Seus verdadeiros discípulos e nEle está investido supremamente todo o poder para o governo. De acordo com o Seu mandamento, os Cristãos devem se associar a determinadas comunidades ou igrejas; e a cada uma dessas igrejas Ele deu a autoridade necessária para administrar aquela ordem, disciplina e adoração que Ele determinou... (itálicos do autor)

 

Artigo 7º da Confissão de Londres de 1644, uma precursora desta Confissão, também estabeleceu a forma pela qual a Igreja determina como Deus deve ser adorado:

 

A regra deste conhecimento, fé e obediência, relativos ao culto e serviço a Deus, e todos os outros deveres Cristãos, não são invenções, opiniões, dispositivos, leis, constituições ou tradições não escritas de homens, sejam quais forem, mas apenas a Palavra de Deus contida nas Escrituras Canônicas (1 João 5:39; 2 Timóteo 3:15-17; Colossenses 21:18,23; Mateus 15:9).

 

A Confissão Batista de 1688, também conhecido como “A Confissão de Filadélfia”, apareceu pela primeira vez em Londres, em 1677, em seguida, em 1688 e novamente em 1869. Foi a Confissão mais geralmente aceita pelos Batistas Particulares ou Calvinistas na Inglaterra e nos estados do Sul da América. O Capítulo XXVI: Sobre a Igreja, afirma no parágrafo 7º:

 

Para cada uma destas igrejas reunidas, de acordo com a Sua mente declarada em Sua Palavra, Ele deu todo o poder e autoridade, que são de alguma forma necessários para o seu desempenho daquela ordem no culto e disciplina, os quais Ele instituiu para que eles observassem com ordens e regras para o devido e correto exercício e prática desse poder (14 Mateus 18:17-18; 1 Coríntios 5:4-5, 5:13; 2 Coríntios 2:6-8).

 

Da mesma forma, o Capítulo XXII da Segunda Confissão de Fé Batista de Londres, Sobre o Culto Religioso e o Dia do Senhor, afirma no parágrafo 1º:

 

A luz da natureza mostra que existe um Deus, que tem senhorio e soberania sobre tudo; que Ele é justo, bom e faz bem a todos; e, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido com todo o coração, e com toda a alma e com toda a força. Mas o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por Ele mesmo e tão limitado por Sua própria vontade revelada, de forma que Ele não pode ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens ou sugestões de Satanás, nem sob qualquer representação visível ou qualquer outro modo não prescrito nas Sagradas Escrituras (Jeremias 10:7; Marcos 12:33; Deuteronômio 12:32; Êxodo 20:4-6).

 

A Segunda Confissão de Londres foi derivada da Confissão de Westminster e era mais completa e melhor organizada do que a Confissão de Londres de 1644. A Segunda Confissão de Londres foi composta por notáveis ministros Batistas Particulares, como Benjamin Keach, William Kiffin e Hanserd Knollys. Eles estavam entre os 37 pastores que compunham a primeira Assembleia Geral Batista Particular Inglesa, que reuniu-se de 3 a 12 de setembro de 1677, a fim de compor e aprovar a Confissão. A segunda edição, citada acima, apareceu em 1688.

 

De forma semelhante à Confissão de Westminster, o parágrafo 5º do Capítulo XXII da Segunda Confissão de Londres estabelece os componentes do culto Cristão que os Batistas entendiam existir a partir da Escritura, sendo assumido o Batismo de crentes:

 

A leitura das Escrituras, a pregação e a atenção à Palavra de Deus; o ensino e as advertência mútuas em Salmos, hinos e cânticos espirituais, louvando com graça em nossos corações ao Senhor; bem como a devida administração do Batismo e da Ceia do Senhor, são todas partes do culto religioso a Deus, a serem realizadas em obediência a Ele, com entendimento, fé, reverência e temor piedoso; além disso, solene humilhação, com jejuns e ações de graças em ocasiões especiais devem ser usados de um modo santo e religioso (1 Timóteo 4:13; 2 Timóteo 4:2; Lucas 8:18; Colossenses 3:16; Efésios 5:19; Mateus 28:19-20; 1 Coríntios 11:26; Ester 4:16; Joel 2:12; Êxodo 15:1-19; Salmos 107).

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