Textos

O Som Alegre do Evangelho da Graça de Deus, por Augustus M. Toplady

A essência de um discurso pregado na Lock Chapel,

Nas proximidades de Hyde Park Corner, no Domingo, 19 de Junho de 1774.

 

“Quão preciosa é, ó Deus, a tua benignidade, pelo que os filhos dos homens se abrigam à sombra das tuas asas.”  (Salmos 36:7)

 

“Bem-aventurado o povo que conhece o som alegre; andará, ó Senhor, na luz da tua face. Em teu nome se alegrará todo o dia, e na tua justiça se exaltará.” (Salmos 89:15-16)

 

Muitas vezes maravilhei-me diante da dureza daqueles escritores que presumiram ao afirmar que o Evangelho, ou mensagem da livre e plena salvação, pelo sangue e justiça do Filho coeterno de Deus, era desconhecida daqueles que viviam sob a dispensação legal.

 

Nada pode ser mais falso. Nós podemos tão razoavelmente afirmar que o sol não brilhou durante a dispensação legal. E, como era o mesmo sol que agora brilha, este que então iluminava o mundo, assim era o mesmo Sol da justiça, que agora resplandece sobre as almas de Seu povo trazendo cura em suas asas (Malaquias 4:2), que então brilhou sobre os eleitos de Deus, visitou-os com as irradiações de Seu amor, e os salvou pela fé em Sua própria futura justiça e expiação. Até nós, como diz o apóstolo, o Evangelho é pregado, assim como a eles (Hebreus 4:2). E, novamente, aqueles todos morreram na fé, tendo visto as promessas de longe; e creram nelas [πεισθεντες, foram assegurados do interesse por elas], e saudaram-nas (Hebreus 11:13). Então, isto podemos afirmar com confiança, no que diz respeito a todas as pessoas iluminadas por Deus que viveram antes da encarnação do Messias, que como Abraão (João 8:56), elas viram o dia de Cristo em perspectiva, e alegraram-se na crente antecipação daquela bendita visão.

 

Como a depravação da natureza humana é intrinsecamente a mesma em todas as épocas e os homens em e de si mesmos não eram nem melhores nem piores, durante a economia Mosaica, assim eles têm sido desde então, e o são neste dia; isso segue que a desordem deve ser a mesma, o remédio também deve ser o mesmo; e, é evidente, que não há duas formas de salvação, uma para os judeus crentes, e outra para os gentios crentes; senão aquela declaração que nosso Senhor nosso já fez, e deve sempre permanecer boa: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14:6). Su-ponha que nós carregamos o nosso apelo para este salmo, para a verdade da observação feita aqui. O que você acha que Davi canta neste texto? Certamente ele canta aqueles consolos sobrenaturais, transmitidos por meio do Espírito Santo, e os quais o salmista sabia que seriam adquiridos para todos os eleitos, pelo sangue de Cristo. Portanto, ele, de mesmo modo, celebra os louvores daquela justiça, em que, e em que somente, os remidos do Senhor são exaltados a um estado de comunhão com Deus, e à herança dos santos na luz.

 

Não admire, portanto, que um salmo tão ricamente carregado de verdade evangélica deva abrir em um ímpeto de louvor e gratidão ao Deus de toda graça, cujo amor ao Seu povo os envolve, sem começo e os seguirá sem fim. “As benignidades do SENHOR cantarei perpetuamente; com a minha boca manifestarei a tua fidelidade de geração em geração” [Salmos 89:1]. Agora, você acha que Davi não apreciava o que já foi chamado da plena segurança de fé? Ou você pode imaginar que Davi não estava familiarizado com o que tem sido chamado de doutrina da perseverança final? Certamente ele foi conduzido à clara percepção de ambas destas verdades; ou ele não poderia ter dito: As benignidades do SENHOR cantarei perpetuamente; não apenas hoje e amanhã, se eu viver; não só este ano e no próximo, se eu viver; não somente na vida, mas quando eu vier a morrer; e não apenas quando eu passar pelas correntezas da morte, mas quando eu pousar em segurança do outro lado; os altos louvores de Sua misericórdia e fidelidade devem estar sempre na minha boca. Davi estava flagrantemente equivocado em suas opiniões, se o que alguns, de forma blasfema, afirmam for verdade, que “aquele que é um filho de Deus hoje, pode ser um filho do diabo amanhã”. Você deve ou negar que o salmista escreveu sob a orientação infalível do Espírito de Deus, ou deve admitir que a preservação final do regenerado povo de Deus é uma doutrina do Livro de Deus.

 

Mas não é o suficiente para os verdadeiros crentes que estejam sensíveis à misericórdia do Senhor, e à perpetuidade da Sua graça; eles anelam difundir a fragrância do Seu nome por toda parte, e efetuar a resolução de Davi: “com a minha boca manifestarei a tua fidelidade de geração em geração”. Alguns que conhecem a verdade evitam declará-la, e têm medo de falar; eles escondem a marca de Cristo na palma de suas mãos, em vez de usá-la em suas testas; e embrulham o seu Cristianismo em um manto de sigilo; como se eles considerassem ser sua maior desonra o serem vistos com a farda de Cristo em suas costas. Ao contrário, tais crentes enquanto são fortes na fé, dando glória a Deus, (ao invés de ocultarem-se através de estradas e caminhos privados, escondidos numa liteira coberta com as cortinas fechadas sobre eles) preferem desejar ir para ali, sobre a via pública de uma profissão declarada, numa carruagem aberta, com para serem vistos e conhecidos de todos os homens. Mas os ministros do Evangelho, acima de toda a humanidade, ao lado, deveriam, com a boca, fazer a fidelidade de Deus conhecida; e, ao invés de desejar escapulir para o céu pela porta de trás (se houver qualquer porta ali), marchar publicamente, com cores ondulantes, e com som de trombeta para o grande portão da cidade celestial, e labutar para levarem para lá tantas almas com eles quanto seja possível. Por isso, eles devem ser urgentes e inoportunos, em tempo e fora de tempo; repreendendo, corrigindo, exortando, com toda a longanimidade e doutrina (2 Timóteo 4:2); o ministério da Palavra, sendo a principal foice que o Espírito de Deus faz uso para cortar as excrescências venenosas da autojustiça, para cortar as ervas daninhas perniciosas de licenciosidade prática, e para reunir os peca-dores eleitos para a santificação e conhecimento salvífico de Si mesmo. Deixe, no entanto, ser observado que as chamadas ministeriais e exortações dos embaixadores de Deus, im-pelidas e dirigidas, para o despertado bem como para o não despertado de maneira nenhuma implicam que, na intenção Divina, a graça é universal, como os Arminianos falam; nem que o homem, pelo uso apropriado de suas faculdades razoáveis, vem a arquitetar a sua própria Salvação. Não. Muito pelo contrário. Um pescador que permanece sobre a costa, e lança a sua rede no mar em geral, não é tão desvairado a ponto de pensar que pescará todos os peixes do mar, embora ele lance a rede indefinidamente, e sem exceção. Assim, quando o ministro Cristão espalha a rede do Evangelho, ele prega para todos que adentram na esfera de sua intervenção; não com a expectativa de resgatar a todos, mas de pescar tantos quanto Deus se agradar, sabendo que é o Espírito Santo, somente, que pode conduzir as almas à rede, e efetivamente alcança-las para Jesus Cristo.

 

O que foi aquilo que fez Davi tão desejoso de cantar as misericórdias do Senhor? O que foi aquilo que o aqueceu e o encorajou em todos os eventos para fazer conhecida a fidelidade de Jeová de uma geração para outra? Foi o Evangelho da glória do Deus bendito, visto à luz do Espírito Santo, e experimentado através da influência da graça. Aqui está a razão do zelo de Davi: “Pois disse eu: a tua benignidade será edificada para sempre; tu confirmarás a tua fidelidade até nos céus” [Salmos 89:2]. O que é essa misericórdia, que está edificada para sempre, senão o gracioso plano, a gloriosa e graciosa obra de nossa salvação, fundada no propósito eterno de Deus, levado à execução, pelo labor e morte de Jesus Cristo, e, então, aplicado e trazido para o interior do coração, pela iluminação e poder de conversão do Espírito Santo? Esta é aquela misericórdia que é edificada para sempre. Foi planejada desde a eternidade, e não conhecerá a ruína nem a decadência através da linha ilimitada da própria eternidade. Quem é o construtor desta obra? Não é o livre-arbítrio do homem. Não é a justiça própria, nem a sabedoria do homem. Não é o poder humano, nem a capacidade humana. Todo verdadeiro crente reunir-se-á com Davi: é Deus, e somente Deus, quem constrói o templo de Sua igreja; e quem, como o construtor da mesma, é sozinho intitulado de toda a glória.


Os eleitos compõem e formam uma grande casa de misericórdia; uma casa, erguida para demonstrar e perpetuar as riquezas da livre graça do Pai, o mérito da expiação do Filho; e a eficácia da ação do Espírito Santo. Esta casa, ao contrário do destino de todos os edifícios terrestres, nunca cairá, nem alguma vez será lançada para baixo. Como nada pode ser acrescentado (Eclesiastes 3:14) a ela, assim, nada pode ser tirado dela. O fogo não pode prejudicá-la; as tempestades não podem desfazê-la; o tempo não pode danifica-la. Ela está sobre uma rocha (Mateus 7:25, 16:19), e é imóvel como a rocha em que se encontra; a tríplice rocha do decreto inviolável de Deus, da redenção consumada de Cristo e da fidelidade infalível do Espírito. Deus não é um arquiteto imprudente, nem fraco nem caprichoso. Ele não forma um sistema miserável, passível de ser frustrado, e que, na melhor das hipóteses, dificilmente permanecerá consistente; mas está tudo bem ordenado; tudo é eterno; tudo está seguro; nada expedido por pensamento posterior ou porventura. Deus, irreversivelmente, desenhou o Seu plano, e Cristo, tendo completamente cumprido a obra redentora, o assina-la; o Espírito sagrado tem apenas que soprar sobre os corações de Seu povo no chamado eficaz, dar-lhes a fé, imbui-los com a santidade interior, preservar e aumentar a santidade que Ele comunica, faze-los prosseguir nos caminhos do dever e da obediência exterior, exercitá-los com deserções, visitá-los com Seus consolos; guardá-los de cair, ou restaurá-los quando caírem, selá-los para o dia de Cristo, e conduzi-los de forma segura através da morte para o céu.

 

Assim, a benignidade será edificada para sempre. E tão certo como este livro é o Livro de Deus; tão certo como o Espírito de Deus o inspirou, e inclinou Davi a escrever estas palavras; assim, certamente, é uma verdade o que as próprias palavras transmitem. Nenhuma parte da salvação é deixada em seis ou sete; mas tudo é um plano que honra a sabedoria infinita; um plano, concebido e oculto (Efésios 3:9) na mente onisciente de Deus desde os tempos eternos, mas depois feito conhecido externamente na Palavra escrita, ou Evangelho da graça; e desdobrado salvificamente nas almas dos homens, quando o bendito Espírito começa a nos converter das trevas para a luz, e do poder de Satanás para Deus (Atos 26:18).

 

Eu estava, ontem, há alguma pequena distância da cidade; e tive um entretenimento muito refinado, indo a uma soberbíssima e elegante mansão que, dentro e fora, exibia tal combi-nação de imponência, beleza e perfeição de gosto, que eu não podia deixar de sentir uma curiosidade de saber em quanto tempo aquele edifício magistral fora construído! E, ao ser informado de que ela foi tanto fundada quanto finalizada no período de apenas 10 meses; eu não pude deixar de observar, para alguns amigos que estavam comigo, que se a arte humana e mãos humanas poderiam realizar tão transcendente obra como aquela, em tão curto tempo, porque seria estranho pensar que Jesus Cristo foi capaz de finalizar, e Ele de fato consumou, a obra da salvação humana em um período de trinta e três anos?

 

Bendito seja Deus, a nossa salvação é uma obra consumada. Ela não precisa, nem admitirá, suplemento. E aqui, lembremo-nos de que, quando falamos de uma salvação consumada, nós queremos dizer a completa e infalivelmente efetiva redenção realizada pelo mérito propiciatório da própria obediência pessoal de Cristo e dos próprios sofrimentos pessoais de Cristo; tanto um quanto o outro dos quais têm a perfeição infinita da expiação e eficácia da justificação, que está absolutamente fora do nosso poder o acrescentar algo ao mérito ou validade de qualquer uma. Cada indivíduo da humanidade, por quem Cristo obedeceu, e por quem Ele sangrou, certamente será salvo por Sua justiça e morte, e sem a exceção de nenhum dos redimidos; considerando que Cristo pagou, totalmente pagou, a dívida da perfeita obediência e o sofrimento penal; assim, aquela justiça Divina deve transformar-se em injusta, se fosse possível para uma única alma perecer por todas ou qualquer uma da-quelas dívidas que Cristo tomou sobre Si mesmo para libertação, e que Ele absolutamente libertou conforme o acordo.

 

O Arminianismo não consegue digerir esta grandiosa verdade Bíblica. Assim, aquela pobre, maçante, cega criatura, o Bispo Taylor, nos diz em algum lugar, se não estou enganado, que “devemos expiar os nossos grandes pecados pelo choro; e os nossos pequenos peca-dos por um suspiro”. Se nossos pecados não têm outra expiação além dessa, vamos continuar chorando, e lamentando, e rangendo os dentes, por toda a eternidade. Mas, graças à Divina graça, a obra da expiação não é feita agora. Cristo já lançou fora os nossos pecados pelo sacrifício de Si mesmo (Hebreus 9:26). Estamos absolvidos de culpa e reconciliados com Deus, não por nossas próprias lágrimas, mas pelo precioso sangue de Jesus Cristo, como de um Cordeiro sem mancha ou defeito (1 Pedro 1:19); não os nossos próprios suspiros, e lágrimas e tristezas; mas a humilhação, a agonia, o suor sangrento, e a morte amarga dAquele que não cometeu pecado, dAquele que foi feito na forma de homem, e tornou-Se obediente até à morte e morte de cruz; isto, e isto somente, é a propiciação pelos nossos pecados (1 João 2:2). E tão certo como Cristo obedeceu, tão certo como Cristo expirou, tão certo como Ele ressuscitou novamente, tão certo como Ele intercede por todo o povo de Seu amor; assim, certamente serão todos eles, o primeiro e o último, capacitados a cantar a Sua fidelidade por todas as gerações; e esta misericórdia, a qual será edificada para sempre em sua glorificação plena, livre e final.

 

Isto é mais confirmado por estas palavras do salmista: “Tu confirmarás a tua fidelidade até nos céus” [Salmos 89:2]. Como para dizer: “Quando todo o Teu povo escolhido, redimido e convertido for reunido ao redor de trono; então Tu darás, nos céus, uma prova eterna da Tua fidelidade eterna”. Tão longe estará Deus de deixar o Seu povo perecer em sua passagem pelo deserto da vida, ou através do rio da morte, que Ele apresentará a todos eles, imaculados, diante da presença de Sua glória com exultante alegria (Judas 1:24). Deus ama mui bem as Suas joias, e Cristo as comprou com um mui querido preço, e o Espírito Santo as lustra com muita atenção, quer para jogá-las fora, quer para perdê-las finalmente. Não, eles serão poupados (Malaquias 3:17); o seu número será cumprido; e em sua glorifi-cação toda a Trindade será glorificada.

 

Agora, após levantamento de alguns dos ramos, olhemos para a grande raiz de onde eles brotam. Tendo tomado uma visão apressada desses ribeiros, pelos quais a Igreja de Deus é enriquecida para a salvação; esforcemo-nos para contemplá-los em sua grande Fonte e Cabeça. Isto você encontrará no terceiro versículo; onde Deus, o Pai diz: “Fiz uma aliança com o meu escolhido, e jurei ao meu servo Davi, dizendo: A tua semente estabelecerei para sempre, e edificarei o teu trono de geração em geração” [Salmos 89:3-4]. Você acha que isto foi dito a Davi, apenas para sua própria pessoa? Não, em verdade, mas para Davi como o antitipo, figura e precursor de Jesus Cristo. Por isso, a versão Septuaginta o torna: Fiz aliança τοις εκλεκοις μω, com o meu povo eleito, ou com os meus escolhidos; ou seja, com eles em Cristo, e com Cristo em seu nome. “Jurei ao meu servo Davi”, ao Messias, que foi tipificado por Davi; ao meu Filho coeterno, que aceitou tomar sobre si a forma de servo; “a tua descendência”, ou seja, todos aqueles a quem eu tenho dado a Ti no decreto da eleição, todos aqueles por quem Tu vives e morres para redimir, “para sempre os estabelecerei”, de modo a tornar irreversível e irrevogável a sua salvação; “firmarei o teu trono”, o Teu trono de mediação, como Rei dos santos, e Cabeça da Aliança dos eleitos, “de geração em geração”, sempre haverá uma sucessão de pecadores favorecidos a serem chamados e santificados, em consequência da Tua obediência federal até a morte; e a cada período de tempo, recompensará os Teus sofrimentos da aliança com o aumento da renovação de almas convertidas, até que tantos quanto estejam ordenados para a vida eterna (Atos 13:48) sejam reunidos.

 

Observe-se, aqui, que quando Cristo recebeu esta promessa do Pai, relativa ao estabelecimento do Seu trono [ou seja, de Cristo] por todas as gerações; o significado claro é, que Seu povo será assim estabelecido; pois considere Cristo em Sua capacidade como o Filho de Deus, e o Seu trono já foi estabelecido, e havia sido desde a eternidade; e continuaria a ser estabelecido sem fim, mesmo que Ele nunca tivesse encarnado em absoluto. Portanto, a promessa indica que Cristo reinará, e não simplesmente como uma pessoa da Divindade (o que Ele sempre fez, e deve sempre fazer); mas relativamente, mediatorialmente e em seu caráter de ofício, como o Libertador e Rei de Sião. Por isso, segue-se que o Seu povo não pode ser perdido, porque Ele seria um pobre tipo de rei miserável que não tinha, ou não poderia ter, súditos sobre quem reinar. Consequentemente, aquele trono de glória, em que Cristo está sentado, já está cercado, em parte e, finalmente será completamente cercado, e feito ainda mais glorioso, por inumeráveis companhias, desta assembleia geral, e igreja dos primogênitos, que estão arrolados no céu (Hebreus 12:23); para a remissão de cujos pecados o Seu sangue foi derramado; para a justificação de pessoas cuja a Sua justiça foi operada; para a preservação de quem, em estado de graça, a Sua intercessão é ainda exercida no céu; e para restaurar e resgatar aqueles da desonra pessoal de pecado, o Espírito Santo desce e faz morada em seus corações, e nunca deixará a Sua graciosa tutela até que Ele os santifique para o reino de Deus.

 

Bem pode o salmista acrescentar: “E os céus louvarão as tuas maravilhas, ó Senhor, a tua fidelidade também na congregação dos santos” (Salmos 89:5). O que devemos entender aqui pelos céus? Devo supor que os habitantes primários do céu; a saber, os anjos de luz. Bondade eletiva, misericórdia redentora, graça santificadora, e poder preservador, tão beneficamente demonstrados na salvação do homem caído, são maravilhas, mesmo para os próprios anjos. Mas os anjos são os únicos seres que devem admirar-se com essa demonstração de amor? Não. “E na assembleia dos santos, a tua fidelidade”. Na congregação dos santos crentes abaixo, e dos santos glorificados acima. Para santos e anjos, no grandioso resultado das coisas, quando as transações da graça e providência forem reveladas e definidas, claramente desveladas para a vista deleitosa; em um augusto período, santos e anjos, os remidos e os espíritos não-redimidos (mas ambos eleitos, um bem como o outro), que foram sempre incorpóreos e os santos cujas almas foram por um tempo desalojadas do corpo em consequência do pecado original, mas que receberão seus corpos novamente na ressurreição dos justos; todos estes, quando eles se levantarem e brilharem acima, deverão reunirem-se com suas coroas de fundição, e tocarão as suas harpas douradas para louvar a Ele, que amou o Seu povo, e os redimiu para Deus, por meio de Seu sangue (Apocalipse 5:9).

 

O tempo não me permite considerar, como eu projetei todos os versos preliminares que conduzem ao texto. Eu espero que tenha sido suficiente para justificar a declaração em que o texto começa: “Bem-aventurado o povo que conhece o som alegre”! É terrivelmente insinuando que há alguns que sentam-se na esfera do som jubiloso, mas que, não o conhecem, sentem e apreciam. É para eles uma vox, et præterea nihil: um som e nada mais que um som. Mas, a bem-aventurança resulta para aqueles que conhecem o som alegre e cujas almas crentes podem dizer: “As bênçãos gratuitas do Evangelho são toda a nossa salvação e todo o nosso desejo”.

 

Isto é uma coisa muito comum, quando falamos do conhecimento das coisas que pertencem à nossa paz espiritual e eterna, que pessoas não-convertidas bradem: “Ó, como você é presunçoso!”. Eu repudio totalmente a acusação. Não é presunçoso tomar Deus em Sua Palavra, e crer e ter certeza de que haverá um cumprimento das coisas que são ditas e prometidas pelo Senhor (Lucas 1:45). Assim, quando Deus assegura ao pecador penitente: “Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim, e dos teus pecados não me lembro” (Isaías 43:25); não é humildade, mas a própria presunção, e a própria quintessência da incredulidade, que nos ordena colocar um negativo na afirmação solene de Deus, e nos induzir a questionar se Ele bem cumprirá, de fato, a Sua promessa. Eu sou firmemente da opinião que o homem que lê e professa crer na Bíblia deve ter um grande estoque de segurança, no pior sentido da palavra (ou seja, de audácia e desfaçatez), se ele se atreve a negar esta garantia, no melhor sentido da palavra, ou uma clara percepção e convicção de interesse no amor perdoador de Deus, é o privilégio possível ao povo convertido de Cristo. Estes certamente concordarão com Davi, em defini-los como bem-aventurados em conhecer o som alegre: os que conhecem o som festivo, cujos corações têm sido lavrados pelo Espírito Santo, para receber a semente do Evangelho; e em quem esta brota para justiça e paz e alegria no Espírito Santo (Romanos 14:17). Disto, e disto somente, surge a plena concepção de conhecer o som alegre. Por isso, podemos aprender que pessoas têm este conhecimento de fato. Não a Igreja do Povo da Inglaterra, em detrimento de outras; Não os Romanistas; não os membros da Igreja da Escócia; nem, em suma, os partidários de qualquer denominação em particular. Mas os muitos indivíduos que, pela graça, são habilitadas a conhecer o som alegre, são aqueles que Deus toma daquelas e de outras denominações, para ser um povo para o Seu nome (Atos 15:14); a saber, os eleitos de cada época, local e parte. Todos os convertidos de Deus, todo o Seu povo penitente, crente, obediente, através de toda a extensão da terra, abaixo, de uma extremidade do céu a outra; todos cujos corações são todos tocados pelo poder atrativo de seu Divino Espírito são as pessoas que conhecem o som alegre.

 

O som alegre de quê? Aquele da livre graça, que é o empreendimento dos ministros de Deus proclamar, dizendo: “Paz, paz para o que está longe, e para o que está perto” (Isaías 57:19). Esse som alegre que diz: “Ah, todos (sem exceção de tempo, ou lugar, ou pessoa), vós, os que tendes sede, vinde às águas” (Isaías 55:1) da vida, alegria e salvação. Mas, observe que mesmo isto não é uma chamada universal. Deus me livre de ser mal interpretado por alguém que me escuta hoje. Não pense que eu estou içando as cores Arminianas, e erguendo a falsa bandeira Arminiana. Não, de maneira nenhuma. Acho que não há praticamente uma chamada mais indefinida, em toda a Palavra de Deus, do que a que eu citei por último. Mas, em seguida, note, que se destina apenas para os que têm sede, ou seja, àqueles que tanto conhecem o som alegre quanto desejam uma participação experimental das bênçãos que ele proclama. Seria leviano chamar às águas os que não têm sede. Seria ridícula zombaria, se convidássemos os mortos para sentarem-se à mesa, e colocar um prato, uma faca e um garfo, diante deles, e perguntar-lhes porque eles não comem? O fato é: eles não podem comer nem beber. Eles devem, antes, serem feitos vivos para que possam ter algo como qualquer apetite.

 

Há uma passagem mui frequentemente, porém muito ociosamente, insistida pelos Arminianos, como se fosse um martelo que poderia a um só golpe esmagar ao pó toda a obra da livre graça. A passagem é: “Por que morrereis, ó casa de Israel” (Ezequiel 18:31). Mas acontece que a morte aqui aludida não é nem a morte espiritual, nem morte eterna; como abundantemente aparece em todo o teor do capítulo. A morte intencionada pelo profeta é uma morte política; a morte de prosperidade, tranquilidade e segurança nacionais. E o sentido da pergunta é justa e precisamente este: O que é isto que faz você se apaixonar pelo cativeiro, banimento e ruína civil? A abstinência da adoração de imagens pode, como um povo, isentá-los daquelas calamidades, e mais uma vez fazer de vocês uma nação respeitável. São as misérias da devastação pública tão sedutoras como para atrair a vossa busca determinada? Por que morrereis? Morrer como a casa de Israel e considerada como um corpo político? Assim, razoavelmente, o profeta argumentou o caso. Adicionando, ao mesmo tempo, esta declaração não menos razoável: “Porque não tenho prazer na morte do que morre, diz o Senhor DEUS; convertei-vos, pois, e vivei” (Ezequiel 18:32). O que implica nestas duas coisas: 1. Que o cativeiro nacional dos judeus não acrescentou nada à felicidade de Deus. Isto não lhe trouxe qualquer adesão de lucro ou prazer. E eu me pergunto (filosoficamente falando) se seria possível adicionar o que quer que seja à felicidade Divina, já que é infinita; e, consequentemente, insuscetível de aumento. 2. Que, se os judeus se convertessem da idolatria, e lançassem fora as suas imagens, eles não morreriam em um país hostil estrangeiro, mas viveriam em paz em sua própria terra, e desfrutariam de suas liberdades como um povo independente.

 

E agora, o que tem tudo isto tem a ver com as bênçãos da graça e glória? Não mais do que isto tem a ver com Gogue e Magogue. Não seria muito absurdo se eu permanecesse no jardim da igreja e dissesse para os corpos enterrados ali: “Por que morrereis?”. Não, em meu pensamento, seria menos do que se eu dissesse a um pecador morto espiritualmente: “Por que morrereis?”. Ai, ele já está morto; e colocar tal questionamento para alguém nesta condição, seria, na realidade, perguntar para um homem que já está caído em Adão (como todo homem está): “Por que tu caíste em Adão?”. Deixe os Arminianos falarem desta maneira se o consideram adequado. Eles terão, para mim, todo o falatório, não invejado e não rivalizado, para eles mesmos. Eu acho que isto não suportará água.

 

Uma coisa muito diferente é o som alegre do Evangelho da graça. Ele transmite a vida aos mortos, e saúde para os vivos. Ele vos deu vida, estando vós mortos em vossos delitos e pecados (Efésios 2:1). E, diz Deus a respeito da vivificação de sua Igreja: “Eis que lhe trarei [não a provocarei com uma oferta vazia; mas, verdadeiramente] saúde e cura” (Jeremias 33:6). A regeneração dá vida espiritual e a santificação dá saúde espiritual, para a alma. Como a saúde espiritual é evidenciada para nós mesmos e para outros? Não por pender no encosto da cadeira da preguiça; mas por abundar na obra do Senhor. Pois, embora algumas pessoas nos chamem Antinomianos (como o próprio Cristo e os apóstolos eram, então — Mateus 11:19 e Romanos 3:8 — chamados antes de nós, pelos desenvergonhados fariseus daquela época), e falsamente acusam nossa boa conversação (1 Pedro 3:6), como se fôssemos inimigos da lei moral; estamos tão longe disso, que (eu declaro isto ousadamente, e deixe que qualquer um o contradiga, se puder), nós que cremos que a salvação é o dom absoluto da graça absoluta somos as únicas pessoas que reafirmam as devidas honras da lei, e estabelecemos sua autoridade de forma inabalável.

 

1. Afirmamos suas honras, por considerá-las como uma transcrição da própria santidade de Deus; como absolutamente perfeitas em todas as Suas requisições; como o padrão invariável de excelência moral; como a sublime regra pela qual o próprio Cristo ajustou Sua própria obediência incomparável; e como o instrutor que, em subserviência à influência do Espírito Santo, nós prepara (pela severidade da sua disciplina) para a recepção de Cristo, e para ouvirmos, para um bom propósito, aquele som da graça do Evangelho que é jubiloso apenas para aqueles a quem a lei, assim vista, tem instrumentalmente (Gálatas 3:24; Romanos 3:20) convencido do pecado.

 

2. Estabelecemos sua autoridade (Romanos 3:31), por enxertar a nossa obediência sobre o princípio perpétuo (1 Coríntios 13:8 e Mateus 27:40) do amor a Cristo; por objetivar a conformidade prática aos Seus preceitos, como o grande prova visível da nossa parte na eleição de Deus e na redenção do Messias (1 Pedro 1:2); acreditando e afirmando que ela ainda permanece em pleno vigor, e assim permanecerá enquanto o sol e a lua existirem, como a regra moral da nossa caminhada; e suplicando a Deus pelo Espírito Santo (Hebreus 8:10) para escrevê-la em nossos corações adequadamente. Pois, qualquer que seja a obrigação absolutamente moral, é e deve ser, em sua própria natureza, irrevogável.

 

Assim, o som festivo proclama a majestade, e até mesmo acrescenta às sanções da lei moral. Para cumprir toda a justiça dessa lei, e suportar a sua terrível pena, como um pacto de obras, o Filho de Deus Altíssimo inclinou-se dos céus e desceu, para fazer o Seu povo resgatado amar essa lei como uma diretriz de conduta; e para torná-la realmente transcrita ao seu máximo em suas vidas, como um meio de sua conformidade a Deus; o Espírito incriado desce sobre suas almas como uma pomba, e opera neles tanto o querer quanto o efetuar.

 

Mas ainda devemos considerar a lei como na mão de Cristo (1 Coríntios 9:21): E lembre-se, que o amor de Deus, graciosamente derramado (Romanos 5:5) no coração é o único princípio pelo qual os crentes agem.

 

Agora, aquele som alegre que as pessoas são ditas bem-aventuradas em conhecer, consiste grandemente, no que a Palavra de Deus traz à luz sobre (Efésios 3:11) aquele propósito eterno da eleição de graça que Ele estabeleceu em Cristo Jesus, nosso Senhor. Pois, não obstante os esforços profanos de alguns em deturpar essa grande e preciosa verdade como uma doutrina obscura, desconfortável, aqueles cujos olhos Deus iluminou, e aqueles cujos corações Deus tocou, sabem que este não é um som triste, mas jubiloso; e o desejo de todos os seus corações é: oh, que eu pudesse, com fé mais desanuviada, contemplar meu nome brilhando no Livro da vida do Cordeiro! O próprio Cristo, o grande pregador da predestinação, e que certamente foi um juiz competente desta questão, considerou a eleição uma doutrina reavivadora do coração; ou Ele nunca ordenaria aos Seus discípulos que se alegrassem por terem Seus nomes escritos no céu (Lucas 10:20). Qualquer que prega o Evangelho sem considerar a eleição absoluta, este ministro dá as costas para a árvore da vida, apaga uma das principais luzes que ele deveria elevar no velador, e retém de Seu povo a própria raiz e essência do som alegre.

 

O qual é a livre remissão do pecado, por meio do sangue precioso e expiação de Jesus Cristo; o qual é incondicional e irreversível justificação, através da imputada justiça de Cristo; o qual é aquela verdade que nos diz que o Espírito de Cristo é o regenerador, o habitante, o iluminador e o eterno consolador dos filhos de Deus; o qual é essa palavra que nos assegura que o Senhor não ficará longe das pessoas de Seu amor, nem Se compadece para finalmente afastar-Se deles, mas que Ele os selará como Seus para sempre, e os preservará durante a vida e a morte, para a glória, embora cada passo que deem sobre a terra esteja cheio de armadilhas, e, se deixados por si mesmos um momento, eles cairiam no inferno mais baixo; o qual é a contínua advocacia de Cristo, pelo qual Ele veste Seu sacerdócio em Seu trono, e intercede por Seu povo militante, de modo que, enquanto eles estão peregrinando, ou lutando, ou enfraquecendo, Ele está orando, com a apresentação perpétua de Si mesmo diante de Deus, como um Cordeiro recém-assassinado; o qual são as promessas que se relacionam com o socorro, apoio e libertação da alma, na morte; que garantem uma ressurreição corporal para a glória, honra e imortalidade; e que certifica-o em beatificação sem fim, da alma e corpo juntos, no reino de Deus; digo eu, o são todos esses, senão as muitas porções e ramos do som alegre? E um som alegre isto é. Que Deus o faça assim para nós!

 

Fosse a questão deixada na mão da nossa livre-agência, o som alegre logo escureceria em um som funesto. Nunca entraríamos em um estado de graça em absoluto. E, se Deus nos colocasse nisto, e depois nos entregasse à nossa própria gestão, deveríamos rapidamente naufragar em absoluto. Adão, no estado de inocência, não permaneceu, provavelmente, por 24 horas. E como deve o crente, que está em um estado misto de pecado e graça, e em quem estão (Cantares 6:13) a fileira de dois exércitos, a carne e o espírito, em guerra perpétua entre si; como poderia uma pessoa possivelmente continuar, mesmo por vinte de quatro minutos, se o mesmo amor Todo-Poderoso, que o colocasse na Aliança, não o sustentasse na mesma?

 

Um bom homem do século passado, diz, e com grande verdade “o crente mais forte dentre todos nós é como um copo sem uma base, que não pode permanecer um momento a mais do que ele seja mantido”. E nosso Senhor tinha uma visão semelhante sobre o assunto, quando Ele declarou, que Ele mantém todas as Suas ovelhas em Sua mão (João 10:28; Veja também Deuteronômio 33:8); se Eu te deixasse por um instante, tu cairias; portanto, Eu te seguro firme, e ninguém pode arrebatar-te da Minha mão.

 

Oh, quão confortável é isso, quando o Senhor faz essas verdades conhecidas ao coração, pelo Seu Espírito! Quão bem-aventuradas são as pessoas que, assim, conhecem o som alegre! Quem podem ver que Deus as amou em Seu Filho; podem sentir que Cristo morreu por elas, para ser a sua paz eterna; que estão convencidas de que a paz não está por ser realizada agora, mas foi completamente cumprida e selada pelo precioso sangue da Sua cruz, eras e eras antes que eles puxassem a respiração; que estão docemente seguros de que o Espírito Santo, que já começou a mostrar-lhes as grandes coisas de Cristo, prosseguirá mais claramente a mostrar-lhes que Ele nunca os deixará, nem os abandonará, na vida, na morte, nem mesmo em sua jornada final! Este é aquele som alegre que Deus permite que Seu povo conheça. E qual é a consequência de conhecê-lo?

 

Bem-aventurado é o povo que conhece o som alegre. Por que eles são bem-aventurados, ou felizes? E em que a sua bem-aventurança consiste? Eles andarão, ó Senhor, na luz da Tua face. Como para dizer, nós precisamos somente conhecer este som alegre para sermos felizes. Nós precisamos apenas saber o que é ser amado, escolhido, redimido e santificado dentre os homens; e então, este conhecimento nos fará (Habacuque 3:19) andar sobre as suas alturas, e triunfar em o nome de nosso Deus. Nós vamos experimentar o sorriso, nós fruiremos da luz do sol, da face de Deus sobre as nossas almas.

 

Qual é o significado dessa frase: “andará, ó Senhor, na luz da tua face”? Suponha que qualquer grande personagem apadrinhou um homem sombrio, e o favoreceu com sua peculiar intimidade e amizade. Seria, nesse caso, natural que nós disséssemos: “tal pessoa é grandemente contemplada por este ou aquele nobre”. Assim aqui: Eles andarão na luz da Tua face, ou seja, estarão, sensivelmente, no favor de Deus. Eles fruirão de confortável comunhão e amizade com Deus. Eles terão uma persuasão satisfatória de que o Senhor está em paz com eles, através do sangue de Cristo; e que (Romanos 5:1), sendo justificados pela fé, estão também, por sua parte, em paz com o Senhor. Eles (Romanos 5:11) recebem a expiação (pois o verdadeiro assunto da fé é, não fazer a expiação, mas simplesmente receber e descansar sobre a expiação de Cristo, já feita, a qual a fé em si mesma não a torna mais eficaz do que intrinsecamente é). Às vezes, a maré da segurança rola tão ricamente sobre a alma, como a subir quase (se assim posso dizer) até a marca d’água, e não deixa tanto como a sombra de uma dúvida sobre a mente. Quando é assim com o crente, ele pode ser eminentemente dito que anda na luz da face de Deus. A fé olha (Hebreus 6:19) dentro do véu. A cena interposta se abre. Nós quase ouvimos os anjos cantarem. Nós quase vemos as almas dos glorificados prestando homenagens à graça, e lançando as suas coroas no escabelo Divino. Nós quase contemplamos o Rei dos santos (Isaías 33:17) em Sua beleza, brilhando como (Apocalipse 5:6) o Cordeiro no meio do trono. Estes são momentos preciosos! Mas, logo a cena se fecha. Nós descemos do topo da montanha, e encontramo-nos de novo no vale.

 

Se Deus, no entanto, ainda não lhe deu qualquer garantia de Seu amor, não imagine que você é, portanto, um estrangeiro e um bastardo. Pois, eu imagino, que a face de Deus, ou favor, e a luz da Sua face, ou o conhecimento claro e confortável de Seu favor, são duas coisas distintas. Deus pode ter um favor para conosco, Ele pode nos amar, e estar resolvido a nos salvar; e ainda não nos saciar com a luz imediata de Sua face. Mas sobre uma coisa eu sou tão claramente positivo, quanto agora estou pregando na Capela Lock: a saber, que ninguém cujo coração, é em absoluto operado pelo do dedo do Espírito de Deus, pode sentar-se, muito fácil e contentemente, sem visitar a experiência do que a luz da face de Deus significa. Seu desejo é conhecê-la, andar nela, e andar digno dela.

 

Você nunca observou, depois que o sol tem brilhado, talvez por horas a fio, uma névoa difu-sa surge da terra, ou uma nuvem flutuante interpõe-se no céu, e sombreia o grande luminar de seu ponto de vista? Ainda assim, é a realidade, o sol ainda brilhava como antes, embora a sensação de seu brilho fora suspensa. Assim, nas épocas mais obscuras de angústia espiritual, a face de Deus, ou favor, ainda está em sua direção para o bem; e brilha, não a-penas com intensidade inextinguível, mas também não diminuível. Esta não é, no entanto, uma felicidade mais desejável; para ver e sentir a luz do Seu rosto, sorrindo plenamente sobre nós, como um sol quando se levanta na sua força (Juízes 4:31); isto é,  o que quer indicar o apóstolo, onde diz: “Porque Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus” [ou seja, para nos iluminar no conhecimento da gloriosa graça do Pai, como demonstrada] εν προσωπω, na Pessoa, [e conforme exibida na salvação final] de Jesus Cristo (2 Coríntios 4:6). E isto é, igualmente, o que o salmista indica no texto: Andarão, ó Senhor, na luz da Tua face.


Você pergunta: “Como esta comunhão feliz com Deus deve ser alcançada?”. Eu respondo: isto não é de realização humana, mas da concessão do Espírito Santo. Donde Davi, em outro lugar, ora: “Senhor, exalta sobre nós a luz do teu rosto” (Salmos 4:6).

 

Você pergunta mais: “Como esta doce iluminação e amizade devem ser buscadas, cultivadas e acalentadas?”. Eu respondo que a sabedoria e a vontade de Deus, neste ordenado encadeamento de uma bênção a outra, que Ele estabeleceu em Sua Aliança da graça, tudo concorre para nos assegurar de que, se quisermos desfrutar dos raios não interceptáveis dentro de Sua presença, devemos cultivar a santidade, abundar em boas obras, estar muito na companhia de Deus, através da oração e súplica com ações de graças, beber continuamente da fonte da Sua Palavra escrita e conversar com frequência, e comparar experiências, com os outros dos filhos de Deus, mais especialmente com aqueles ou eminentemente vivificados, ou notavelmente exercitados em deserções; tais conversações são sempre proveitosas, e frequentemente fazem (Lucas 24:32) nossos corações arderem interiormente, enquanto nós mutuamente abrimos as Escrituras, e (Malaquias 3:18) falamos uns com os outros, sobre (Atos 10:3) as coisas concernentes ao reino de Deus. Os doentes e os em leitos de morte do povo de Cristo são, em um grau muito eminente, as escolas de instrução e consolo. Muitas vezes fui para eles tão frio (espiritualmente falando), como uma pedra, e retornei deles tão aquecido quanto um anjo.

 

Em uma palavra: a comunhão com Deus requer que nós sejamos encontrados em todos os meios de graça, e no caminho do dever universal; e nós evitarmos, como faríamos com veneno ou a peste, tudo o que tende a lançar um pano úmido sobre a nossa relação com o Espírito Santo, para manchar nossas graças, ou escurecer nossas evidências. Se você descobrisse que até mesmo a travessia de uma palha favorecesse a vinda de uma nuvem sobre sua alma e obstruiria a sua comunhão com Deus, seria o seu máximo dever o abster-se de cruzar essa palha como se, “tu não atravessarás uma palha” fosse um dos dez mandamentos. Mas em todos estes aspectos cada homem deve julgar por si mesmo, em particular. Deus tem, em geral ligado bem com o bem e o mal com o mal. Se, portanto, você sofre por estar fora de Sua guarda, e fora de Sua vigilância, embora você não possa (se você é um verdadeiro crente) cair e quebrar seu pescoço, ainda assim você pode quebrar seus membros de forma a ir hesitante para o dia de sua morte. O Senhor graciosamente “fortalece (Litania), bem como suporta”, e efetivamente “levanta (Litania) até os que caem”; fazendo tanto estes quanto aqueles mais ardentes e mais cuidadosos praticamente do que nunca, para caminhar na luz de Sua face! Porque, certamente, próximo do amor do coração de Deus, os crentes valorizam os sorrisos de Sua face; a partir dos quais, como a partir da ação do sol, surgem as construções de alegria consciente; as folhas da profissão imaculada; a variada floração dos temperamentos santos; e os frutos benéficos da justiça moral.

 

Estão totalmente enganados aqueles que supõem que a luz da face de Deus, e os privilégios do Evangelho, e os consolos do Espírito, nos conduzem à indolência e inatividade no caminho do dever. O texto corta esta suposição pelas raízes. Pois não diz que eles devem sentar-se à luz de Tua face; ou que eles se deitarão a luz de Tua face; mas que andarão na luz da Tua face. O que é andar? É um movimento progressivo de um ponto para outro do espaço. E o que é esta caminhada santa a qual o Espírito de Deus capacita a todo o Seu povo observar? É um movimento contínuo, progressivo, do pecado à santidade; de tudo o que é mau para toda a boa palavra e obra.

 

E a mesma luz da face de Deus, na qual você, ó crente, é habilitado a andar, e que a princípio lhe deu pés espirituais com os quais andar, irá mantê-lo em um andar e em um estado de trabalho até o fim de sua guerra. Assim que o caminho deverá, sob as iluminações de seu Espírito (pois não podemos fazer nada, senão enquanto Ele nos concede a Sua graça a cada momento), brilhar mais e mais até ser dia perfeito (Provérbios 4:18). Os verdadeiramente justos prosseguirão em seu curso, e aqueles que têm as mãos puras irão crescendo em força (Jó 17:9). Eles não somente andarão, ó Senhor, na luz da Tua face; eles deverão também, às vezes, até mesmo correr e não se cansarão (Isaías 39:31), ou seja, quando eles são eminentemente inclinados para Deus. Leva-nos; correremos após ti (Cânticos 1:4).

 

Embora Deus encontre todos os Seus filhos natimortos ou mortos espiritualmente, antes que Ele os vivifique por Seu próprio poder eficaz e graça, ainda assim Ele os vivifica, a fim de que eles possam viver posteriormente para Sua honra e glória (1 Pedro 2:9). Ele levanta a luz de Sua face sobre a mente humana, com uma visão análoga ao que Ele faz com a luz do sol natural, que sobe sobre o mundo. Com que finalidade o sol brilha sobre nós em uma manhã? Não é para que possamos continuar a fechar os olhos e pálpebras, e pressionemos o dia todo a cama da indolência; mas para que levantemos e estejamos agindo. E por que a luz do Espírito de Deus brilha interiormente sobre o Seu povo? Para que eles possam levantar e caminhar na luz de Sua face e fazer as obras de Deus enquanto é dia (João 9:4), como Jesus Cristo deu-lhes o exemplo: ande de modo digno dAquele que lhes chamou pa-ra Sua glória e virtude. Pois não é santo falar, mas santo caminhar, o que prova que somos filhos de Deus.

 

No entanto, depois que fizemos o máximo, e tenhamos andando tão longe, nos caminhos de Deus como sua graça nos permitiu, o que é o tema de nossa confiança e alegria? Não nós mesmos, nem os nossos próprios desempenhos, mas a livre misericórdia do Pai, e o todo-perfeito mérito dAquele que morreu e ressuscitou. Como o bom Sr. Hervey pergunta: “Podem os nossos atos de caridade expiar os nossos inúmeros crimes? Como uma gota de água fresca pode corrigir e adoçar a salmoura insondável do oceano. Podem nossas performances defeituosas satisfazer as exigências de uma lei perfeita, ou os nossos erros nos ocultar do desagrado de um Deus irado? Assim como a nossa mão erguida pode eclipsar o sol, ou interceptar o raio quando se arremessa através da nuvem prestes a romper. Nós podemos ser reconciliados com Deus apenas por Jesus Cristo (veja o sermão do Sr. Hervey, intitulado ‘O Ministério da Reconciliação’)”. É o doce emprego da fé que faz tantas boas obras quanto puder; e renuncia a elas tão rápido quanto ela possa lhes dizer: “Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer…?” [Mateus 25:37].

 

Assim, aprendemos, a partir do texto, que as mesmas pessoas que andam na luz da face de Deus, e são ativas nas observações do dever moral, têm, quando elas têm feito de tudo, algo infinitamente melhor pelo que se alegrar e para depender do que a santidade da sua caminhada, e os vários deveres que efetuam. Em Seu nome, e não em sua própria retidão, se alegrará todo o dia, e na Sua justiça, e não em suas próprias obras, se exaltará. Durante o dia da vida terrestre, eles devem cantar, com o apóstolo: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (Gálatas 6:14); e quando, tendo o seu último respirar na terra, eles voam para praia da imortalidade, são, então, incoativamente (o início de uma ação), e serão (após a auditoria final) completa e eternamente, elevados para o reino de Deus, na e através da justiça imputada, somente, de seu Salvador, o seu Fiador e a sua Cabeça.

 

Pelo nome de Cristo, no qual os eleitos são aqui ditos alegrarem-se, eu entendo o próprio Cristo: a Pessoa bendita, representada por esse Nome. O qual é o brilho, o apaugasma  a emanação, ou exterior feixe luz radiante, da glória do Pai (Hebreus 1:4), e é, pela virtude desta derivação eterna e incompreensível (qeoς EK qeon, jwò EK). Deus de Deus; Luz da Luz; verdadeiro Deus de Deus verdadeiro, gerado, não criado; co-igual participante de uma substância [ou seja, da mesma natureza e essência numérica] com o Pai, e por quem todas as coisas foram feitas.

 

Em Seu Nome, ou seja, na Divindade de Sua Pessoa, e em Seus ofícios como mediador; em Sua expiação consumada, na perfeita justiça de Sua obediência, e na Sua intercessão infalível por todos os eleitos; este é o privilégio do humilde, do contrito, do fraco, do tentado e do crente caído (se retornando), pelo que se alegrar; porque foi para tais homens, e para a sua salvação, que este Ser adorável desceu do Céu, e derramou a Sua alma na morte.

 

Não imagine que Davi era um Antinomiano, porque ele não faz nenhuma menção de boas obras como objetos de alegria e de dependência. A verdade é que não se diz, “os santos se alegrarão em sua fidelidade, em suas mortificações emocionadas, ou mesmo naquelas obras que brotam da graça genuína”. Não; não nestes, mas em Seu nome, os gentios creem (Mateus 12:21), e apenas de Sua única justiça eles farão a Sua glória. Graças inerentes e deveres pessoais são os ornamentos, mas não a fundação, nem os pilares, do templo místico de Deus.

 

Como a justiça de Cristo é o único mérito que pode nos exaltar à presença e ao reino de Deus; assim esta doutrina sozinha deve ser considerada tão evangélica, de forma que aba-te a justiça do homem, e exalte a justiça de Cristo; o que nos leva a confiar, não no que fa-zemos, mas individualmente sobre o que Ele fez e sofreu por nós. O trabalho da Lei é nos derrubar do pedestal da autoconfiança, e nos moer; como Moisés reduziu ao pó, e dispersou os materiais dos ídolos israelitas. A obra da graça é nos erguer do pó, e estabelecer-nos em Cristo, a Rocha Eterna, para colocar um cântico novo de salvação gratuita em nossas bocas, e ordenar os nossos passos no caminho dos mandamentos de Deus. Isto é (mesmo o poder do Espírito Santo, que pela primeira vez nos quebra em pedaços pelo martelo da Lei, e, em seguida, nos restaura pela graça do Evangelho) que nos permite nos gloriemos em nome de Cristo, todo o dia. Não que a alegria de um crente seja ininterrupta, a partir do momento de sua conversão até o momento de sua chegada ao céu; pois os eleitos têm o seu choro, bem como a sua temporada de triunfo, e sua peregrinação é sabiamente contrastada e diversificada, tanto com alegrias e tristezas que o mundo não conhece. O significado, portanto, do texto, é que um pecador não é mais cedo nascido de novo do que quando Cristo, e Cristo somente, torna-se o objeto da dependência deste pecador; que possa, a partir daí, dizer com o Dr. Watts:

 

“Enquanto judeus de suas próprias obras dependem,

“E os gregos da sabedoria se vangloriam;

Eu amo Teu mistério encarnado,

E ali eu fixo a minha confiança.”

 

O pecador convertido tendo assim, por meio da boa mão de Deus sobre ele, fixado todas as suas esperanças em Jesus Cristo, o Justo, viaja o restante de seu caminho, encostado nos méritos (Cantares 8:5) do amado mediador; e é, enfim, exaltado à participação efetiva da herança celestial acima, em e pela virtude desta justiça Divina, a qual Deus Filho operou, que Deus o Pai imputa, que Deus o Espírito aplica, e sentindo-se esvaziar, recebe a fé.

 

O erudito e evangélico Sr. Thomas Cole, um renomado e útil ministro de Cristo, no século passado, tinha uma observação ou duas, em sua última doença plena para o sentido da cláusula com a qual o texto conclui: Na tua justiça eles se exaltarão. “Seria uma infeliz mor-te, se não tivéssemos algo de cada forma adequado às exigências da lei, para fundamentar as nossas esperanças de vida eternal. Nós temos uma entrada abundante no Reino de Deus, pelo caminho da justiça de Cristo. O Diabo e a Lei podem nos encontrar; ainda assim não podem nos impedir de entrar no céu por aquela Justiça. Devemos estar certos de en-contrar com o Diabo, com a consciência, com homens ímpios e com a Lei de Deus, em nos-so caminho para o céu; e não podemos lidar com nenhum deles, senão através da Justiça que foi toda satisfeita. Vamos trazer isso junto conosco, e todos eles fugirão diante desta. Se um pecador vem em sua própria justiça, “expulse-o”, diz Deus; assim diz a consciência, assim diz a Lei. Mas, quando alguém vem vestido com a Justiça de Cristo, “deixo-o entrar”, diz Deus; assim diz a consciência; assim diz a Lei; e deixe que o Diabo e o mundo digam o contrário, se ousarem”.

 

Eu não deveria me atrever a olhar a morte de frente, se não fosse a garantia confortável que a fé me dá sobre a vida eterna em Cristo Jesus, e pelas emanações confortáveis e abundantes desta vida. Isto não é o que eu trago para Cristo, mas, o que eu recebo dEle. Os primórdios do que eu vejo saltando para a vida eterna.

 

Algumas pessoas pensam em triunfarem elas mesmas como um todo, por sua própria justiça moral, mas este é o caminho pronto para morrer no horror da consciência.

 

“Se você quer a manifestação do perdão de todos os pecados, leva-os para a livre graça; que tendo-os apagado, sabe dar-lhe uma percepção disto. O Evangelho de nossa salvação é um Evangelho da livre graça, e aqueles que gostariam de outra forma podem reunir o que puderem, e vão ostentando para as portas do céu; mas eles voltarão novamente”.

 

E como foi com este grande homem de Deus apoiado pela justiça de Cristo, quando na visão imediata da morte? Aprenda o que esta justiça pode fazer por nós, pelo seguinte discurso memorável, que ele dirigiu a um dos seus visitantes: “Você está vindo para ouvir os meus últimos gemidos agonizantes, mas saiba, quando você os ouvir, que eles são a res-piração mais doce eu jamais aspirei desde que eu conheci Cristo Jesus”.

 

Ó bendito Filho de Deus, exalta-nos em Tua justiça, e retira de nós a nossa própria! Vós, que hoje me ouvem, oh, o que vós estais procurando? Serem encontrados e exaltados na obediência de Cristo? Ou herdarem perdição e condenação em sua própria? Deus vos capacite e leve-os a escolher a boa parte!

 

Corte fora, tanto quanto o homem pode fazê-lo, todos os fundamentos de orgulho, incredulidade hipócrita, deixe-me concluir com duas ou três observações pertinentes.


1. Porque a notícia do Evangelho da salvação é chamada de “o som alegre”? Não, por tempo indeterminado, uma alegria, mas peculiarmente, e exclusivamente de todos os outros regimes que sejam, o som alegre?

 

Porque ele é o veículo de fazer conhecido a nós que Deus é amor, e que Ele (no sangue e justiça de Cristo) abriu um canal para o Seu amor exercitar-se na salvação do indigno. Os perdidos são encontrados; os cegos veem; os surdos ouvem; os coxos andam; os leprosos são limpos; os mortos são vivificados, e tudo isso sem dinheiro e sem preço (Isaías 4:1).

 

2. Você tem alguma parte ou porção nesta bem-aventurança de que o texto fala? Alguma visão confortável, ou esperança de proveito na eleição de Deus, e na propiciação de Cristo, e na graça regeneradora do Espírito? Pedi, e isto (não é vendido a você pelos seus traba-lhos e pelo seu cumprimento imaginário das pretendidas condições, mas um sentimento de interesse) vos será dado; procurai, somente pelo Nome e somente pela justiça por amor de Cristo, e achareis as misericórdias que desejam; batei, mas deixe que isto seja com a mão vazia, na porta da clemência divina, e esta vos será aberta. “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á. Porque, aquele que pede, recebe; e, o que busca, encontra; e, ao que bate, abrir-se-lhe-á” (Mateus 7:7-8). Tão certo como Deus inclina você para Cristo, tão certamente Cristo, ao Seu tempo determinado, fará de você um participante da bem-aventurança dos que conhece o som alegre.

 

3. Você, que crê com o coração para justiça (Romanos 10:10) dê toda a glória; e ore para que você possa ter continuamente visões mais vivificantes desta justiça imputada, na qual Ele levou você a confiar. Como, por um lado, nada pode garantir e animar a sua alegria; tanto, por outro (para usar a expressão de um bom homem, agora com Deus), “Nada pode efetivamente matar o pecado, senão uma contemplação clara da justiça de Cristo”. Apegue-se a essa âncora segura e firme, e você finalmente subirá mais elevado, tanto das ondas de aflição, e da lama de suas próprias concupiscências e corrupções.

 

4. Faça disto o seu objeto predominante de ambição, o caminhar na luz da face de Deus. Se você é bem-aventurado com o Seu sorriso, não importe-se mesmo que toda a criação possa franzir a testa.

 

5. Mas se você anda na luz ou escuridão, no conforto ou sofrimento, lembre-se que você não tem nada, senão o Nome, a Aliança, a Pessoa e a Obra de Cristo, em que alegrar-se e no que depender. Nós, diz o apóstolo, somos a circuncisão, nós que adoramos a Deus no Espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não confiamos na carne.

 

6. Saiba de onde toda a sua salvação espiritual e eterna surge. Não vem de vocês mesmos, em nenhum aspecto, nem em qualquer grau. A livre-agência, até ser santificada pela regeneração, é um dente quebrado, e um pé fora da articulação. E obras “feitas antes da graça de Cristo e da inspiração de seu Espírito são”, como a nossa igreja justamente os pronuncia ser, “pecaminosas e desagradáveis a Deus”. Não, mesmo as melhores obras que podem ser executadas após a conversão caem imensamente aquém do que a Lei de Deus requer, no ponto, tanto de matéria e de forma, de quantidade e qualidade, de número, extensão, pureza e peso. O que, então, seria de nós, se não fosse a justiça de Cristo? O próprio São Paulo, com todo o seu séquito incomparável de obras santas e trabalhos úteis, teria afun-dado, do próprio andaime do martírio, no inferno mais baixo. Bendita, portanto, seja a livre graça de Deus, por esta preciosa palavra de promessa infalível: Na Tua justiça o Teu povo se exaltará!

 

7. O que é isto que fez, e para sempre continuará a fazer, a justiça de Cristo, tão infinitamente meritória e eficaz? A Divindade de Sua Pessoa. Todos os seres criados no universo, seja angélico ou humano, não caídos, caídos ou restaurados, nunca, por seus maiores esforços unidos, seriam capazes de fornecer e operar uma justiça de valor suficiente para reivindicar o favor de Deus sobre o fundamento da justiça e mérito, ou de apresentar qualquer uma das sementes escolhidas irrepreensível diante dos olhos flamejantes de infinita santidade. Tal poder pertence apenas à justiça do Deus-homem, Jeová encarnado. Nada além deste mérito todo-perfeito e eterno, o qual é o resultado complexo de Sua obediência e do Seu sacrifício, pode nos exaltar e resgatar para a dignidade e felicidade do céu.

 

A Divindade de Cristo dificilmente pode receber a prova mais forte da Escritura do que aquela que nosso texto fornece. Pois o conjunto de dois versículos, que têm sido objeto de nossa meditação, nesta manhã, é um endereço solene ao Messias; não como Homem e Messias, mas, em Sua mais elevada capacidade, como Deus com Deus, ou como o eterno e unigênito do Pai. Vamos dar ao texto uma breve revisão, e nós imediatamente percebe-mos que não é nem mais nem menos do que uma aplicação devocional, explicitamente direcionada para a segunda pessoa da Trindade: uma aplicação formada nos termos mais estritos de culto, até mesmo de adoração absoluta e devidamente Divina; e que não pode, sem a idolatria mais grosseira e condenável, ser oferecida a qualquer ser inferior ao próprio Deus.

 

Bem-aventurado o povo que conhece o som alegre, por Ti; Eles andarão, ó Jeová, na luz da Tua face; em Teu nome se alegrarão todo o dia, e na Tua justiça se exaltarão.

 

Agora, o que você pensaria do homem que ofereceria, tal discurso todo como este para o mais elevado arcanjo no céu? E o que foi Davi, se pudesse solene e deliberadamente escrever este discurso para uma inteligência criada; e fazer com que isto fosse cantado publicamente pelos levitas, e pelos principais cantores de Israel, e até mesmo deixá-lo no registro para a sedução da posteridade? E ao mesmo tempo, também, quando a nação judaica era particularmente cuidadosa para execrar e evitar tudo o que tinha a menor tendência à idolatria? Ou Cristo é verdadeiramente Deus, ou Davi foi o sacrílego adorador de alguém falso.

 

Se, portanto, qualquer um de vocês for assediado pela astúcia dos homens que ficam à espreita para enganar; você deve encontrar com tais quem dizem que Cristo não é Jeová, ou verdadeiro e eterno Deus; lembre-se, se houvesse nenhuma outra passagem da Escritura, ainda assim estes dois versos, e seu contexto; irão, por si só, a qualquer momento, bastar para colocar em fuga o sofisma dos párias.

 

Nós podemos nos exaltar na justiça de uma criatura? Será que Deus, o Pai aceitaria, e nos ordenaria confiar na expiação de um ser finito? Pela mesma regra, poderíamos (com os Papistas insolentes) confiar nos supostos méritos da Virgem Maria, ou de São alguém. E pela mesma regra, poderíamos descer um degrau mais baixo, e (com os ainda mais descarados Pelagianos) confiar em nossos supostos próprios méritos, e queimar incenso para o braço murcho do nosso próprio maldito livre-arbítrio. Em suma, não há fim para as impiedades horríveis, que fluem pelo atropelamento da Divindade e da justiça de Cristo sob os pés.

 

Além disso, se Cristo não era Deus sobre todos, bendito para sempre, cada indivíduo da humanidade que confia no mérito do Messias entraria no circuito daquela tremenda maldição denunciada pelos lábios dAquele que é capaz de salvar e destruir. “Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor! Porque será como a tamargueira no deserto, e não verá quando vem o bem” (Jeremias 17:5, 6). A fé em Cristo seria o pecado mais condenável sob a cúpula do céu, e a Lei de Deus pronunciar-nos-ia amaldiçoados por confiar nEle, se Ele não fosse tão absolutamente Jeová como o Pai. E devo acrescentar que este impressionante texto conclui igualmente forte contra os Fariseus de todos os tipos e tamanhos que confiam tanto em anjos, ou em espíritos dos mortos, ou em seus próprios miseráveis “eus”, para qualquer parte da salvação, se pouco ou muito. Cristo somente deve ser crido para perdão, para a justificação, para a vida eterna e para toda a nossa segurança e felicidade, do começo ao fim. De onde isto é imediatamente adicionado, no capítulo acima de Jeremias: “Bendito o homem que confia no Senhor, e cuja confiança é o Senhor. Porque será [isto é, o homem que confia e espera em Jesus somente] como a árvore plantada junto às águas, que estende as suas raízes para o ribeiro, e não receia quando vem o calor, mas a sua folha fica verde; e no ano de sequidão não se afadiga, nem deixa de dar fruto” [Jeremias 17:7-8].

 

Percebo os elementos que estão sobre os sacramentos! Mesa. E eu não duvido que muitos de vocês pretendem apresentar-se naquele trono da graça, que Deus misericordiosamente ergueu na justiça e sofrimentos de Seu Filho co-igual. Oh, cuidem de não vir com um sentimento em seus lábios e outro em seus corações! Acautelai-vos de dizer, com a boca: “Nós não viemos à esta mesa, ó misericordioso Senhor, confiando em nossa justiça própria”; embora talvez vocês tenham, na realidade, algumas reservas secretas em favor daquela mesma justiça própria que vocês professam renunciar; e pensem que o mérito de Cristo por si só não irá salvá-los, a menos que vocês adicionem uma coisa ou outra para torná-lo eficaz. Não sejam tão enganados; porque Deus não será assim, ridicularizado, nem Cristo, será assim insultado com impunidade. Chamem os seus labores que quiserem, se os termos, causas, condições ou suplementos; o assunto vem para o mesmo ponto, e Cristo é igualmente lançado fora do Seu trono mediador, por estes ou quaisquer outros pontos de vista semelhantes de obediência humana. Se vocês não dependerem inteiramente de Jesus como o Senhor a sua justiça (Jeremias 23:6); se vocês misturarem a sua fé nEle com qualquer outra coisa; se a obra consumada do Deus crucificado não for sozinha a sua âncora reco-nhecida e fundamento de aceitação junto do Pai, tanto aqui como para sempre; cheguem à sua mesa e recebam os símbolos de Seu corpo e sangue para o seu perigo! Deixem a sua justiça própria para atrás de vocês, ou vocês não têm parte ali. Vocês estão sem a veste nupcial; e Deus dirá a vocês: amigo, quão sinceramente você está aqui? Se vocês vão mais adiante, vivem e morrem neste estado de incredulidade, vocês serão encontrados sem palavras e indesculpáveis no Dia do Juízo; quando o Salvador desprezado dirá aos Seus anjos a vosso respeito: Amarrai-o de pés e mãos, levai-o, e lançai-o nas trevas exteriores [ali haverá pranto e ranger de dentes]. Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos” (Mateus 22:12, 14).

 

Pelo contrário, vocês que podem realmente dizer: “nós não viemos a Ti, confiando em nossa própria justiça”, mas sentem e confessam ser, vocês mesmos: “indignos mesmo de recolher as migalhas sob tua mesa”; em Ti somente procuramos ser justificados, e em Ti somente (Isaías 14:25) nos gloriamos; deixe os tais “aproximarem-se com fé, e tomar este santo sacramento para seu consolo”. O Senhor lhes permita trazer seus pecados e seus deveres, e vocês e seu tudo, à grande Propiciação! Que Ele nos lave em Seu próprio sangue, vista-nos com a Sua própria justiça, e sele-nos um povo santo para Si mesmo, pelo Seu Espírito! Então seremos convidados aceitáveis em Sua mesa abaixo; e amadureceremos rapidamente para a casa da glória acima; enquanto tudo isso for o nosso apelo e toda a nossa canção: “Senhor, eu não sou digno que entrar debaixo de tua morada, em que tu possas entrar na minha; mas (Apocalipse 5:12) o Cordeiro que foi morto é digno; e cada partícula da minha esperança centra-se nEle, em Sua Aliança, em Sua obediência, cruz, humilhação e exaltação. Por causa de Suas agonias, retire as minhas iniquidades. Por causa de Sua justiça, receba-me graciosamente. E no manto de Seu mérito imputado, que eu possa (Filipenses 3:9) ser achado vivendo, estando antes morrendo, no tribunal do julgamento, e por toda a eternidade”.
 

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