Textos

 
<  1  2  3  4  >  > >

A Doutrina da Salvação pela Fé Prova que o “Livre-Arbítrio” é Falso │ Martinho Lutero │ ❝Citações❞ #4

 

 

A citação de hoje é de Martinho Lutero, retirada do livro “Nascido Escravo” — que é um resumo da sua obra clássica, “A Escravidão da Vontade” (De Servo Arbitrio) — publicado em português pela Editora Fiel.

Martinho escreveu “A Escravidão da Vontade” em reposta à obra “Sobre o Livre-Arbítrio” (De Libero Arbitrio) do humanista e célebre erudito Católico Erasmo de Roterdã. A seguinte fala de Lutero nos dá uma ideia do porquê Lutero respondeu a Erasmo:

 

“Ora meu bom Erasmo”, ele escreve, “somente tu tens atacado a verdadeira questão, a essência do que se disputa aqui, e não me cansaste com irrelevâncias sobre papado, purgatório, indulgências e tais trivialidades (pois são trivialidades mais do que as questões básicas), com que quase todos antes de ti têm me caçado sem êxito. Tu, e somente tu, tens visto a pergunta sobre a qual tudo o mais se dobra, e tens mirado o ponto essencial; por isso sinceramente te agradeço”.*

 

Lutero respondeu a Erasmo porque julgou que ele foi o único que finalmente atacou “a verdadeira questão”, a “pergunta sobre a qual tudo o mais se dobra” e o “ponto essencial”. Do que Lutero estava falado? Sobre a doutrina bíblica justificação pela fé! Como um homem é salvo? Erasmo rezava: fé mais boas obras humanos feitas segundo o uso do livre-arbítrio; Lutero rugia: O arbítrio do homem não é livre, mas escravo do pecado, por isso se qualquer homem for salvo ele dever ser salvo pela fé e pela fé somente, sem as obras da lei!

Sem mais delongas. A 4ª citação de nossa série é a seguinte:

 

❝A doutrina da salvação pela fé prova que o “livre-arbítrio” é falso... A doutrina da salvação pela fé é completamente contrária a qualquer ideia de “livre-arbítrio”.❞**

 

Essa citação de Martinho Lutero é extraída do Capítulo 1, onde postula o seu Argumento 5 com a sentença: “A doutrina da salvação pela fé prova que o ‘livre-arbítrio’ é falso” (p. 26), e esse quinto argumento é resumido (ou talvez parafraseado) pela frase com a qual é concluído: “A doutrina da salvação pela fé é completamente contrária a qualquer ideia de ‘livre-arbítrio’” (p. 27). Essas duas frases resumem o pensamento de todo o livro e o verdadeiro pensamento da Reforma Protestante! Afastar-se desse pensamento bíblico foi uma tragédia para a Igreja, como hoje em dia claramente se vê.

Lutero e os outros Reformadores com as Escrituras abertas declararam que a fé salvífica é um dom gracioso de Deus, é uma obra de Deus e não do homem (João 6:29; Filipenses 1:29), é um fruto e obra do Espírito de Cristo e não um fruto do livre-arbítrio em cooperação com uma suposta “graça” (Gálatas 5:22; 1 Coríntios 2:9-12). A ideia de salvação pelo livre-arbítrio é completamente oposta ao claro ensinamento bíblico de salvação pela graça somente, mediante a fé somente, e isso não vem do homem ou das obras do homem em qualquer sentido, mas de Deus somente (Efésios 2:1-9; Romanos 6:23).

Quando a Bíblia fala de salvação, ela nunca confunde graça com obras, ela é muito clara em dizer que “se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se, porém, é pelas obras, já não é mais graça; de outra maneira a obra já não é obra” (Romanos 11:6). Em matéria de salvação, se temos 99,99% de graça e 0,01% de obras humanas, simplesmente “a graça já não é graça”. Alguns confundem fé com obras e graça com livre-arbítrio, e o resultado disto é um abismo de incoerência bíblica e autocontradição!

É surpreendente para mim que neste ano de 2017 muitos “Erasmos” estarão comemorando o aniversário da Reforma Protestante, isto é, este ano muitos “protestantes” e “evangélicos” comemorarão a Reforma Protestante, contudo, essas mesmas pessoas, como Erasmo de Roterdã, são firmes opositoras aos ensinos bíblicos de Lutero, e se for examinado mais de perto, será visto que eles concordam mais com a doutrina de livre-arbítrio e de salvação pelas obras dos Papistas do que com Lutero e a doutrina bíblica da justificação pela fé somente!

Que nós possamos retornar à fé das Escrituras Sagradas, e sustentar de forma bíblica e coerente a doutrina bíblica, protestante e reformada da justificação pela fé somente, pela graça somente, em Cristo somente e para a glória de Deus somente!

Sola Scritura! Sola Fide! Sola Gratia! Solus Christus! Soli Deo Gloria!

Se você é um verdadeiro Cristão Bíblico Protestante Reformado... Feliz 500 anos do maior avivamento bíblico da história da Igreja: A Reforma Protestante!

__________
* REEVES, Michael & CHESTER, Tim. Por que a Reforma Ainda é Importante. [Tradução: Elisabeth Gomes]. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2017. p. 78.

** LUTERO, Martinho. Nascido Escravo. 2ª Ed. [Tradução: Editora Fiel]. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2007. pp 26-27.

• Compre esse livro: https://www.editorafil.com.br/biografia/453-nascido-escravo.html

 

Veja mais

Aniversário de 29 Anos │ David Brainerd │ ❝Citações❞ #3

 


Chegamos à nossa 3ª Citação da série ❝Citações❞, que é extraída do livro “A Vida de David Brainerd”, essa obra foi compilada a partir dos registros do diário do Puritano e missionário americano, David Brainerd, pelo também Puritano Jonathan Edwards. A Obra inteira é magistral e digna de nota, mas a citação de hoje está na página 206, que diz:

 

❝20 de abril [de 1747]. Meu estado de saúde esteve bastante ruim, e não me levantei pela maior parte do dia. Desfrutei de um pouco mais de consolo do que em alguns dias antecedentes. Completei, hoje, vinte e nove anos de idade.❞*

 

Talvez outras pessoas que leram o livro possam julgar que existem outros trechos que seriam melhores para serem citados, mas esse trecho é especial para mim. Na verdade, todo dia 20 de abril do diário do mui amado missionário é especial para mim. Essa é uma das suas últimas anotações sobre um aniversário seu. Nela vemos que a sua tuberculose estava piorando cada vez mais a ponto de não deixá-lo sair da cama...

É assim com a saúde “bastante ruim” que vive os últimos meses de sua breve vida um dos maiores missionários de todos os tempos. A sua curta vida terminou numa sexta-feira, 9 de outubro de 1747, aos vinte e nove anos (p. 227). Deus usou Brainerd para pregar aos índios, salvar almas e trazer um grande e poderoso avivamento que nos alcança até o dia de hoje por meio de seu diário. Brainerd combateu o bom combate, acabou a carreira e guardei a fé. Foram vinte e nove anos gastos para a glória de Deus como poucos.

Brainerd foi um daqueles soldados de Cristo que viveram muito, em pouco tempo.

Jonathan Edwards publicou o diário de David Brainerd crendo que ele demonstrava a “verdadeira e eminente piedade, no coração e na prática” (p. 8).

Que sua história possa nos inspirar a viver mais para a glória de Deus!

__________
* EDWARDS, Jonathan. A Vida de David Brainerd. 1ª Ed. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 1993. P. 206.

• Compre esse livro: https://www.editorafiel.com.br/biografia/712-a-vida-de-david-brainerd.html

Veja mais

Falar e Fazer │ Jonathan Edwards │ ❝Citações❞ #2

 

 

A segunda citação da nossa série é do grande Puritano Jonathan Edwards, extraída de seu livro “A Genuína Experiência Espiritual”, publicado em português pela PES, é que é um resumo da sua obra clássica “A Treatise Concerning Religious Affections” [Um Tratado Concernente às Afeições Religiosas]. A citação é a seguinte:

 

❝Tudo o que dizemos será inútil, se não for confirmado pelo que fazemos... Palavras custam pouco. É pela dispendiosa e desinteressada prática cristã que mostramos a autenticidade de nossa fé.❞*

 

A frase supracitada está contida na Parte III: Os sinais que distinguem verdadeiras emoções espirituais. E ponto 14: A prática cristã é, para os outros, o principal sinal da sinceridade de um convertido. Bom, penso que isso já resume bem o contexto em que essa citação está inserida.

 

É um verdadeiro cuidado de todo aquele que quer seguir os ensinamentos bíblicos fugir da tão terrível ‘hipocrisia”, que pode ser definida, meio que parodiando a frase do Edwards, como: “Inutilizar o que dizemos por não o confirmarmos, fazendo”. De fato, errar aqui, isto é, dizer e não fazer, é errar em tudo e simplesmente tornar inútil toda a sua suposta vida crista.

 

Infelizmente, vejo que esse é um problema comum, e é mais sútil do que se pensa. Por exemplo, você ouvir alguém dizer que quer conhecer, buscar e ter comunhão com Deus, mas que ao mesmo tempo não quer ler a Bíblia? Ou talvez você já tenha visto, aquela pessoa que se diz Jesus Cristo é o seu senhor que toda a sua vida pertence a Ele, mas não tempo para adora-lO e servi-lO ao lado seus irmãos no contexto da igreja local?

 

__________
* EDWARDS, Jonathan. A Genuína Experiência Espiritual, ou Experiência Espiritual, Verdadeira ou Falsa. 1ª Ed. [Tradução: Marcia Serra Ribeiro Viana]. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas (PES), 1993. p. 107.

 

• Compre esse livro: https://sheddpublicacoes.com.br/vida-crista/159-genuina-experiencia-espiritual-a.html

 

Veja mais

Do Pacto de Obras ao Pacto da Graça | Por Pascal Denault

 

— The Founders Journal • Primavera de 2017 | Nº 108 —


Assim como os seus antecessores pedobatistas fizeram na Confissão de Fé de Westminster (CFW), os Batistas Particularmente afirmaram, na Confissão de Fé Batista de Londres de 1689 (CFB), um único Pacto da Graça e apenas um povo de Deus desde Gênesis até Apocalipse. Não só os Batistas compartilharam essa convicção da mesma salvação pelo Pacto da Graça em toda a Bíblia, mas eles endossaram totalmente o conceito do Pacto de Obras que foi quebrada por Adão e consumado por Cristo.

No entanto, a CFB não é uma mera cópia do WCF e o capítulo 7 “Sobre a Aliança de Deus” é um testemunho importante da forma como os Batistas Particulares modificaram a compreensão prevalente sobre a teologia federal. Eu escrevo “modificaram” em vez de “rejeitaram” porque, mesmo em relação às alianças, os Batistas Particulares compartilhavam muito do que a WCF ensina. Os parágrafos 1 e 2 do CFB são quase idênticos aos da WCF; a diferença pode ser observada negativamente do que foi deixado de fora (especialmente os parágrafos 5 e 6 da WCF) e positivamente no parágrafo 3 do CFB, que articula distintamente a visão pactual Batista.

Neste artigo, examinaremos primeiro o parágrafo 1 e o Pacto de Obras para preparar o cenário para os parágrafos 2-3 e o Pacto da Graça. O primeiro parágrafo explica o que precisava ser feito pelo homem para receber a vida eterna. Após a Queda, o Pacto da Obras foi substituído pelo Pacto da Graça dado livremente aos crentes porque Cristo cumpriu a lei de obras mencionada no parágrafo 1. Vamos seguir esta progressão.


Como o Homem Pode Merecer a Vida Eterna Diante de Deus?


O objetivo da aliança de Deus é trazer a vida eterna ao homem. A primeira aliança levaria o homem à vida pelas obras. Deus deu a Adão “uma lei justa, que seria para a vida se ele a tivesse guardado” (CFB 6.1). Adão, ao cumprir o Pacto de Obras, ganharia a vida eterna, ou seja, ele teria selado seu vínculo de comunhão com Deus (João 17:3) em justiça por sua obediência em alcançar a incorruptibilidade e a imortalidade (1 Coríntios 15:53-54). Mas uma criatura finita e natural pode realmente merecer a vida eterna diante de um Deus infinito e eterno? O primeiro parágrafo do cap. 7 explica como isso pode acontecer:

 

A distância entre Deus e a criatura é tão grande, que, embora as criaturas racionais Lhe devam obediência como seu Criador, nunca poderiam ter alcançado a recompensa da vida, senão por alguma condescendência voluntária da parte de Deus, que Ele Se agrada em expressar por meio de aliança.

 

A distância entre Deus e a criatura também é chamada de distinção Criador/criatura. Essa distinção e distância é tão grande que é impossível para o homem merecer qualquer coisa de Deus. A confissão apoia essa visão da impossibilidade do homem em seu estado natural de merecer qualquer coisa diante de Deus por duas passagens bíblicas: Lucas 17:10 e Jó 35:7-8. Deus não deve nada para o homem e o homem deve tudo a Deus. Mas, através de uma aliança, Deus condescende a recompensar a obediência do homem com a vida eterna. Isso é a que o parágrafo 1 se refere ao lembrar lembrando a Pacto de Obras que foi apresentado no capítulo 6.


O que é o Pacto da Graça?


O Pacto da Graça é o meio pelo qual Deus deu a vida eterna aos homens após a Queda; isso abrange todos os eleitos de todos os tempos. Essa aliança é introduzida pela confissão no parágrafo 2:

 

Ademais, tendo o homem trazido a si mesmo a maldição da lei, por sua Queda, aprouve ao Senhor fazer um Pacto de Graça, no qual Ele oferece livremente aos pecadores a vida e a salvação por meio de Jesus Cristo, exigindo deles a fé nEle, para que eles sejam salvos; e prometendo dar a todos os que são ordenados para a vida eterna, o Seu Espírito Santo, para torná-los dispostos e capazes de crer.

 

O Pacto da Graça é, simplesmente, a salvação somente pela graça, somente pela fé, somente por Cristo. Basicamente, qualquer homem está sob a maldição do Pacto de Obras quebrado em Adão ou sob a benção do Pacto da Graça em Cristo.

Embora as Escrituras não usem a expressão “Pacto da Graça”, a substância dessa aliança particular é encontrada em todos os lugares a partir de Gênesis 3:15, através da história da redenção, até sua consumação no NT. A epístola aos Hebreus atribui diretamente à graça da Nova Aliança (o Pacto da Graça) a salvação daqueles que foram chamados desde a Queda:

 

E por isso é Mediador de um novo testamento, para que, intervindo a morte para remissão das transgressões que havia debaixo do primeiro testamento, os chamados recebam a promessa da herança eterna (Hebreus 9:15).

 

Mesmo que o sacrifício do Pacto da Graça pelo qual todas as bênçãos advêm não tenha sido derramado até muito depois de a promessa ter sido feita, muitos já haviam sido chamados e possuíam pela fé a herança eterna. A eficácia retroativa da Nova Aliança é uma das principais razões pelas quais muitos Batistas Particulares equipararam o Pacto da Graça com a Nova Aliança.


Distinção entre Obras e Graça


Agora que introduzimos brevemente o Pacto de Obras e o Pacto da Graça, é extremamente importante distingui-las para que não confundamos a Lei e o Evangelho. O Pacto de Obras, mesmo que se origine “por alguma condescendência voluntária da parte de Deus” é uma aliança condicional. A natureza dessas duas alianças é tão distinta quanto as obras e a graça o são (Romanos 11:6). A questão não é se os cristãos tenham que obedecer a lei; de fato, aquele quanto uma lei moral, exige a obediência deles (João 15:9-10). A questão é se o Pacto da Graça é condicional ou incondicional. De acordo com a Escritura, essa aliança é inteiramente incondicional: “Portanto, é pela fé, para que seja segundo a graça, a fim de que a promessa seja firme a toda a posteridade” (Romanos 4:16).

A fé, que às vezes é chamada de condição, não é meritória; ela não é tanto uma condição como um meio para entrar no Pacto da Graça. A fé não vem do homem, mas de Deus (Efésios 2:8). Toda noção de um Pacto da Graça condicional, quer para entrar ou permanecer na aliança, compromete o Evangelho da livre graça (Gálatas 5:4).

Mesmo que pareça bastante simples distinguir entre o Pacto de Obras em Adão e o Pacto da Graça em Cristo, os princípios envolvidos em suas relações são muitas vezes confundidos. Um motivo dessa confusão vem do modo como o Pacto da Graça às vezes está relacionado com as alianças do Antigo Testamento (Abraâmica, Mosaica e Davídica). Os Reformados, antes dos Batistas Particulares, identificaram essas alianças como administrações do Pacto da Graça. Tendo em vista que a Antiga Aliança, que incluiu Abraão, Moisés e Davi, como pensavam a maioria dos pensadores Reformados, era condicional em sua natureza (Gênesis 18:19; Êxodo 19:5; Deuteronômio 7:12, 27:26; 2 Samuel 7:14). Ao apresentá-la como uma administração do Pacto da Graça, encontramos o risco de cair em graça condicional. É assim que a igreja, ao longo de sua história, muitas vezes misturou graça imerecida com obras meritórias. Os Batistas rejeitaram completamente de sua Confissão a ideia de que o Pacto da Graça foi administrado pelas alianças do A.T. Assim, eles evitam a confusão entre a Lei e o Evangelho.
 

Veja mais

Eleição Infantil | Por Obbie Todd

 

— The Founders Journal • Verão de 2017 | Nº 109 —

A Confissão de Fé Batista de 1689: Capítulo 10; Parágrafo 3.
 

Embora apenas preguei do púlpito do domingo de manhã, o assunto da salvação infantil é uma questão intensamente pessoal e pastoral que merece tratamento adequado na igreja Batista. Não é tão explícito nas Escrituras que evita uma medida de especulação, mas não é uma doutrina tão incidental que garante um status de “secundária”. Perante a intersecção de grandes doutrinas teológicas, como o pecado original, a soteriologia e até a cristologia, o destino das crianças que perecem exige atenção pastoral pelo que isso representa para as famílias afligidas e para o que se comunica sobre o Deus que adoramos.


A Confissão de Fé Batista de 1689 e a Confissão de Fé de Westminster


Na Confissão de Fé Batista de 1689, a questão é abordada no terceiro parágrafo do capítulo 10, intitulado “Sobre o Chamado Eficaz”. Correspondendo a Confissão de Fé de Westminster quase literalmente, lê-se: “As crianças eleitas que morrem na infância são regeneradas e salvas por Cristo, através do Espírito, que opera quando, onde e como Lhe agrada. Do mesmo modo são salvas todas as pessoas eleitas incapazes de serem chamadas exteriormente, pelo ministério da Palavra”.[1] Quase tão importante como a substância deste trecho é a sua localização. Como a Confissão de Fé de Westminster, a Confissão de Fé Batista de 1689 aborda a salvação infantil como um corolário imediato para o chamado eficaz (e não, por exemplo, para a eleição) devido aos conceitos de agência e instrumentalidade pertinente a ambas as doutrinas. Embora algumas edições modernas da Confissão omitam a palavra “eleitas”, os autores originais a mantiveram. A ideia de “crianças eleitas” nem afirma nem nega que todos os bebês que morrem na infância são salvos. Em vez disso, conclui tacitamente que pelo menos alguns bebês são redimidos. Por um lado, o artigo é biblicamente consistente na medida em que a Escritura apresenta a doutrina da eleição (Romanos 9-11). Por outro lado, a ambiguidade relativa à frase e a dificuldade de apontar para uma afirmação direta da Bíblia sobre esse assunto levaram pelo menos um Batista Reformado Confessional a sugerir que talvez seus autores não tenham dito nada. “A Bíblia está em silêncio sobre esta questão”, observou Sam Waldron. “Seria muito melhor, portanto, que a Confissão simplesmente não falasse nada sobre esse ponto”, continuou. “Por isso, estou convencido, é precisamente o que a Bíblia diz”. Waldron sugere algumas ideias doutrinárias a partir das quais poderia construir uma teologia pastoral significativa desta que pode ser uma questão delicada.[2]

 

Solus Christus

 

No entanto, o terceiro parágrafo ainda contém importantes afirmações teológicas sobre a natureza da salvação infantil. Por exemplo, as crianças que morrem na infância são “salvas por Cristo”. A salvação infantil ainda é salvação, e isso exclusivamente por Jesus Cristo, o Filho de Deus. Há um Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus (1 Timóteo 2:5). Sugerir que qualquer criança seja adentre à vida eterna por qualquer outro meio que pela obra acabada de Cristo é negar a culpa original e impugnar o próprio Evangelho. Independentemente de como os Batistas optarem por interpretar este terceiro artigo, a questão delicada da salvação infantil deve começar com a verdade inescapável de que todos os bebês são concebidos em pecado, condenados sob a justa lei de Deus e necessitando de redenção (Salmo 51:1; Romanos 3:23, 5:12-18). De acordo com Andrew Fuller, secretário e fundador da Baptist Missionary Society (Sociedade Missionária Batista), “não há diferença entre nós no que diz respeito ao número ou caráter daqueles que devem ser finalmente salvos. Nós concordamos que quem se converter a Deus por Jesus Cristo certamente será salvo”.[3] Por meio da desobediência de Adão, sua cabeça federal, os bebês são feitos pecadores (Romanos 5:19). Como James P. Boyce explica, sua falta de transgressão não implica inocência:

 

As Escrituras claramente assumem e declaram que Deus castiga justamente todos os homens, não só pelo que fazem, mas pelo que são. Uma natureza corrupta torna uma condição verdadeiramente pecaminosa e culpada e passível de punição, como transgressões reais. Consequentemente, no próprio momento do nascimento, a presença e a posse de tal natureza mostram que até os filhos de Adão nasceram sob todas as penas que sobrevieram ao seu antepassado no dia em que pecou. A transgressão real subsequentemente acrescenta nova culpa à culpa já existente, mas não substitui um estado de inocência por um estado de culpa.[4]

 

A idade jovem não revoga o justo juízo de Deus sobre a depravação humana e nem imuniza os bebês dos efeitos mortais do pecado. Independentemente do estágio de desenvolvimento físico, os pecadores estão mortos em seus pecados, e isso inclui a morte espiritual e física (Gênesis 2:17; 1 Coríntios 15:22; Efésios 2:1-3; 2 Timóteo 1:9-10). A realidade trágica que tantos infantes morrem em um mundo caído é evidência do poder penetrante e pervasivo do pecado, bem como da necessidade de justiça e vida imputada encontradas apenas no último Adão e não no primeiro (1 Coríntios 15:45; 1 João 5:12). Argumentos contra a depravação infantil enfrentam talvez a sua mais dura e mais sóbria refutação no túmulo. O pecado é uma potente força assassina endêmica da humanidade pós-lapsariana e, através da transgressão de Adão, a morte reina em todos os homens (Romanos 5:17). Daí o sexto capítulo da Confissão de 1689 afirma claramente que todos os pecadores estão “agora concebidos em pecado, e por natureza filhos da ira, escravos do pecado, sujeitos à morte e a todas as outras misérias espirituais, temporais e eternas, a menos que o Senhor Jesus os liberte”.[5] Sem a graça libertadora de Deus em Cristo, somos todos filhos da ira — incluindo as próprias crianças (Efésios 2:3).

Veja mais

TEMAS

AUTORES

ARQUIVOS

<  1  2  3  4  >  > >

INSCREVA PARA RECEBER
NOSSAS ATUALIZAÇÕES: