O Constrangedor Amor de Cristo, por R. M. M’Cheyne

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“Porque o amor de Cristo nos constrange.” (2 Coríntios 5:14)

 

De todas as características do caráter de São Paulo, a sua atividade incansável foi a mais marcante. Desde o início da história de Paulo, nos é dito de seus esforços pessoais em perseguir a Igreja nascente, quando ele era um “blasfemo, e perseguidor, e injurioso” [2 Timóteo 3:2], é bastante óbvio que esta era a característica proeminente de sua mente natural. Mas, quando aprouve ao Senhor Jesus Cristo manifestar nele toda a longanimidade e torná-lo um padrão para aqueles que se haviam crer nEle, é bonito e muito instrutivo ver como os recursos naturais deste homem ousadamente mau tornaram-se não apenas santificados, mas revigorados e ampliados; assim é verdade que os que estão em Cristo são uma nova criação: “As coisas velhas passam, e tudo se fez novo” [2 Coríntios 5:17]; “Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados. Per-seguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos” [2 Coríntios 4:8-9]; este era um retrato fiel da vida de Paulo quando convertido. Conhecendo os terrores do Senhor, e a situação temerosa de todos os que estavam ainda em seus pecados, ele deixou o negócio de sua vida para persuadir os homens; esforçando-se, para que por qualquer meio, pudesse recomendar à verdade às suas consciências. “Porque, se enlouquecemos, é para Deus; e, se conservamos o juízo, é para vós” (v. 13).

 

Se o mundo pensa que nós somos sábios ou loucos, por causa de Deus e das almas humanas serem a causa em que investimos todas as energias do nosso ser, quem, então, não está pronto para investigar a fonte secreta de todos estes trabalhos sobrenaturais? Quem não desejaria ter ouvido da boca de Paulo, o poderoso princípio de que o impeliu a tantas labutas e perigos? Que poder tinha tomado posse desta poderosa mente, ou que invisível influência planetária, com poder incessante, ele baseou-se para atravessar todos os desânimos, indiferente tanto ao pavor do riso do mundo quanto ao medo do homem; despreocupado tanto em relação ao desprezo do ateniense cético quanto à carranca do promíscuo coríntio e da raiva do tacanho judeu? O que o apóstolo diz de si mesmo? Temos a sua própria explicação do mistério nas palavras que estão diante de nós: “O amor de Cristo nos constrange”.

 

I. O Amor Constrangedor de Cristo.

 

Isto se refere ao amor de Cristo pelo homem, e não o nosso amor pelo Salvador. Isso é bastante óbvio, a partir da explicação que se segue, onde a Sua morte por todos é apontada como o exemplo do Seu amor. Foi a admirável visão de que a compaixão do Salvador — levando-O a morrer por e em lugar de Seus inimigos, suportando os pecados deles e provando a morte por todos — impulsionou Paulo a cada trabalho, e fez com que todos os seus sofrimentos se tornassem leves para ele, que os mandamentos não fossem penosos e ele “correu com paciência a carreira que lhe foi proposta”. Por quê? Porque ele olhou para Jesus, e viveu como um homem “crucificado para o mundo e o mundo crucificado para ele”. Usando que meios? Olhando para a cruz de Cristo.

 

Assim como o sol natural nos céus exerce uma poderosa energia atrativa e incessante sobre os planetas que giram ao redor dele, assim fez o Sol da justiça, que havia, de fato, raiado sobre Paulo com um brilho superior ao do sol do meio-dia, e exercia em sua mente uma energia contínua e onipotente, constrangendo-o a viver a partir de agora não mais para si, mas para Aquele que por ele morreu e ressuscitou. E, observe, que não era uma energia temporária e irregular que foi exercida sobre o seu coração e vida, mas uma atração permanente e contínua; pois ele não diz que o amor de Cristo uma vez o constrangeu; ou que o amor de Cristo ainda o constrangeria; ou que, em tempos de grande ânimo, nos períodos de oração ou devoção peculiar, o amor de Cristo o havia constrangido. Ele disse simplesmente que o amor de Cristo o constrange. Este é o poder sempre presente, permanente e ativo que constitui a mola mestra de todos os seus trabalhos; de modo que se isso fosse tirado suas energias se esgotariam, e Paulo se tornaria fraco como os outros homens.

 

Não há ninguém lendo isto cujo coração é desejoso de possuir apenas um princípio impulsionador como este? Não há ninguém que tenha chegado a essa mais interessante de todas as etapas de conversão em que você está suspirando por um poder para lhe renovar? Você entrou pela porta estreita da crença. Você viu que não há paz para o não-justificado; e, portanto, se revestiu de Cristo para a sua justiça; e já sente um pouco da alegria e da paz da crença. Você pode olhar para trás em sua vida passada, vivida sem Deus, sem Cristo e sem o Espírito no mundo; você pôde ver-se um pária condenado, e você disse: “Ainda que eu pudesse lavar as mãos em água de neve, ainda assim as minhas próprias vestes me abominam”. Você pode fazer tudo isso, com vergonha e autocensura, é verdade, mas ainda sem desânimo e sem desespero; pois o seu olho olhou com fé para Aquele que foi feito pecado por nós, e está convencido de que, como aprouve a Deus imputar todas as vossas iniquidades no Salvador, Ele está pronto, e sempre foi disposto, para imputar toda a justiça do Salvador a você. Sem desespero, eu disse? Ou melhor, com alegria e canto; porque, se, de fato, você creu de todo o seu coração, então você se tornou o homem bem-aventurado a quem Deus imputa a justiça sem as obras; ao qual Davi descreve, dizendo: “Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada, e cujo pecado é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa maldade” [Salmos 32:1-2].

 

Esta é a paz do homem justificado. Mas essa paz é um estado de bem-aventurança perfeita? Não há nada deixado a desejar? Faço um apelo para aqueles de vocês que sabem o que é ser crente. O que é que ainda obscurece o semblante, que reprime a exultação do espírito? Por que não juntar-se sempre na canção de ação de graças: “Bem-dize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios. Ele é o que perdoa todas as tuas iniquidades” [Salmos 103:2-3]! Se nós recebemos em dobro por todos os nossos pecados, assim nunca deveria ser necessário para nós arguir como o faz o salmista: “Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim?” [Salmos 42:11a]. Meus amigos, não há um homem entre vós que realmente crê, que não tenha sentido o pensamento inquietante do qual eu estou falando agora. Pode haver alguns de vocês que se sentirão tão dolorosamente, como que tendo sido obscurecidos com uma nuvem pesada, a doce luz da paz evangélica, o brilho do rosto reconciliado sobre a alma. O pensamento é este: “Eu sou um homem justificado; mas, ai de mim! eu não sou um homem santificado. Eu posso olhar para a minha vida passada, sem desespero; mas como eu posso olhar para a frente, para o que está por vir?”.

 

Não há uma paisagem moral mais pitoresca no universo do que a alma de um desses presentes. Tendo todas as suas ofensas passadas perdoadas, o olho contempla o interior, com uma clareza e uma imparcialidade desconhecidas anteriormente, e lá ele olha para suas afeições há muito estimuladas ao pecado, e que, como os rios antigos, tem usado um canal profundo para o coração. Suas declarações periódicas de paixão, até então irresistível e avassaladora, como as marés do oceano; suas perversidades de temperamento e de hábitos tortos e inflexíveis como os galhos retorcidos de um carvalho atrofiado. Que cena está aqui; que antecipação do futuro! Que pressentimentos de uma luta vã contra a tirania da luxúria! contra velhas maneiras de agir, e de falar, e de pensar! Se a esperança da glória de Deus não fosse um dos direitos adquiridos do homem justificado, ele ficaria surpreso se essa visão de terror fizesse um homem voltar trás, como um cão ao seu vômito, ou como a porca lavada volta a chafurdar na lama?

 

Agora assim é com o homem precisamente nesta situação, clamando pela manhã e à tarde: “Como poderei ser feito de novo?”. Que bem deverá o perdão dos meus pecados passados fazer a mim, se eu não for liberto do amor ao pecado? Assim é com o homem que nós iremos agora, com toda a seriedade e afeição, apontar o exemplo de Paulo, e o poder secreto que operou nele. “O amor de Cristo”, diz Paulo, “nos constrange”. Nós também somos homens, de natureza semelhante a vocês; essa mesma visão que você vê com desânimo dentro de você, foi de igual modo revelada em nós em todo o seu poder desanimador. De quando em quando a mesma visão horrenda dos nossos próprios corações é revelada a nós. Mas nós temos um encorajamento que nunca falha. O amor do Salvador sangrante nos constrange. O Espírito é dado para os que creem, e este agente todo-poderoso tem um argumento que nos move continuamente: o amor de Cristo.

 

Meu presente objetivo é mostrar como esse argumento, na mão do Espírito, move o crente a viver para Deus; como tão simples verdade do amor de Cristo ao homem, continuamente apresentada à mente pelo Espírito Santo, deve capacitar qualquer homem a viver uma vida de santidade evangélica. Se há um homem entre vós, cuja a grande dúvida é: “Como serei salvo do pecado, como andarei como um filho de Deus?”. Este é o homem dentre todos os outros, cujo ouvido e o coração eu estou ansioso para alcançar.

 

 

II. Seu Amor Remove Nosso Ódio.

 

O amor de Cristo ao homem constrange o crente a viver uma vida santa, pois essa verdade tira todo o seu medo e ódio de Deus.

 

Quando Adão ainda não havia caído, Deus era tudo para sua alma; e tudo era bom e desejável para ele, somente na medida em que tinha a ver com Deus. Cada veia do seu corpo, de modo que foi assombrosa e maravilhosamente formado, cada folha que farfalhava nos caramanchões do Paraíso, a cada novo sol que se erguia, regozijando-se como um herói, a correr a sua corrida, levou-o todos os dias novos temas de pensamentos piedosos e de admiráveis louvores; e foi só por isso que ele podia se encantar a olhar para eles. As flores que apareceram sobre a terra, o canto dos pássaros e a voz da rola ouvida em toda a terra feliz, a figueira produzindo seus figos verdes, e as vinhas com as uvas dando um cheiro bom, tudo isso combinado trazia a ele por todos os poros uma grande e variada sensação de felicidade. E por quê? Só porque eles traziam para a alma comunicações ricas e variadas da multiforme graça de Jeová. Pois, assim como você pode ter visto uma criança na terra dedicada a seu pai terreno, satisfeita com tudo quando ele está presente, e valorizando cada dom da mesma forma que serve para demonstrar ainda mais a ternura do coração de seu pai, assim também era com essa genuína criança de Deus. Em Deus, ele viveu, e moveu-se, e existiu; e não mais certo seria que a extinção do sol nos céus tirasse essa luz que é tão agradável aos olhos, do que seria a ocultação da face de Deus ter-lhe tirado a luz de sua alma, e deixado a natureza em um deserto escuro e desolado.

Mas, quando Adão caiu, o ouro fino tornou-se opaco, o seu processamento mental e gostos foram invertidos. Em vez de desfrutar de Deus em tudo, e tudo em Deus, tudo agora parecia odioso e desagradável para ele, justamente na medida em que tinha a ver com Deus.

Quando o homem pecou, passou a temer, e odiar Aquele a quem temia; e fugiu para todo o pecado apenas para fugir dAquele a quem ele odiava. De modo que, assim como você pode ter visto uma criança que penosamente transgrediu contra um pai amoroso fazendo todo o possível para esconder-se da vista de seu pai, fugindo de sua presença e mergulhando em outros pensamentos e ocupações só para livrar-se do pensamento de seu pai justamente ofendido; na mesma forma, quando Adão caiu ouviu a voz do Senhor Deus, que passeava no jardim pela viração do dia, aquela voz que antes de pecar era música celestial em seus ouvidos, então “esconderam-se Adão e sua mulher da presença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim” [Gênesis 3:8]. E da mesma maneira todo homem natural foge da voz e da presença do Senhor, não para esconder-se sob as folhas grossas do Paraíso, mas para enterrar-se em cuidados, e negócios, e prazeres, e farras. Qualquer retiro é agradável, desde que Deus não esteja lá; qualquer ocupação é tolerável, desde que Deus não esteja nos pensamentos.

 

Agora, tenho a certeza que muitos de vocês podem ouvir essa acusação contra o homem natural com uma indiferença incrédula, ou até mesmo com indignação. Você não sente que você odeia a Deus, ou teme a Sua presença; e, portanto, você diz que isso não pode ser verdade. Mas quando Deus diz a respeito de seu coração que é “desesperadamente corrupto” [Jeremias 17:9], quando Deus reivindica para si o privilégio de conhecer e esquadrinhar o coração; não é presunçoso, em tais seres ignorantes como nós que devamos dizer que não é verdade em relação a nossos corações o que Deus afirma ser verdade, simplesmente porque não estamos conscientes disso?

 

Deus diz que “a inclinação da carne é inimizade contra Deus” [Romanos 8:7], que a própria semente e substância de uma mente não-convertida é o ódio contra Deus, um ódio absoluto e implacável contra Aquele em quem vivemos, nos movemos e existimos. É bem verdade que não sentimos esse ódio dentro de nós; mas isso é apenas um agravamento do nosso pecado e do nosso perigo. Temos assim bloqueado as vias de autoexame, há tantas voltas e voltas antes que possamos chegar aos verdadeiros motivos de nossas ações, que o nosso medo e ódio de Deus, que levam o homem a pecar, e que são as grandes forças impulsoras quais os aguilhões de Satanás sobre os filhos da desobediência; os verdadeiros motivos de nossas ações estão totalmente escondidos de nossa vista, e você não pode convencer um homem natural que eles estão realmente ali. Mas, a Bíblia testemunha que destas duas raízes mortais, do temor e do ódio de Deus, cresce a densa floresta de pecados com que a terra está enegrecida e coberta. E se há alguém entre vós, que foi despertado por Deus para saber o que está em seu coração, eu tomo esse homem hoje para testemunhar que seu clamor amargo, tendo visto todos os seus pecados, tem sido: “Contra ti, contra ti somente pequei” [Salmos 51:4].

Se, então, o temor e o ódio de Deus, são a causa de todos os nossos pecados, como devemos ser curados do amor ao pecado, senão por tirarmos a causa? Como você mais efetivamente mata a erva daninha? Não é atacando a raiz? No amor de Cristo ao homem, então — neste admirável e inefável dom de Deus, quando Ele deu a Sua vida por Seus inimigos, quando morreu o justo pelos injustos para levar-nos a Deus —, você não vê um objeto que, se realmente crido pelo pecador, tira todo o seu medo e todo o seu ódio de Deus? A raiz do pecado é separada do seu tronco, deste duplo fundamento de todos os nossos pecados, vemos a maldição levada, vemos Deus reconciliado. Por que devemos temer? Não tema, por que devemos odiar a Deus ainda? Não odeie Deus, o que mais de desejável podemos ver no pecado? Descanse sobre a justiça de Cristo, estamos novamente no lugar onde Adão esteve, com Deus como nosso amigo. Nós não temos nenhum motivo para pecar; e, portanto, nós não nos importamos com o pecado.

 

No sexto capítulo de Romanos, Paulo parece falar do crente pecando, como se a própria proposição fosse absurda. “Nós, que estamos mortos para o pecado”, isto é, nós que já fomos punidos em Cristo, “como viveremos ainda nele?” [v. 2]. E novamente ele diz muito corajosamente: “O pecado não terá domínio sobre vós”, é impossível na natureza das coisas, “pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça” [v. 14]; você não está mais sob a maldição de uma Lei violada, temendo e odiando a Deus; você está debaixo da graça; sob um sistema de paz e amizade com Deus.

 

Mas há alguém pronto para objetar-me que se essas coisas são assim, se nada mais do que isso é necessário para trazer um homem à paz com Deus e à uma vida e conversação santa, como os crentes ainda cometem pecado? Eu respondo, é de fato muito verdadeiro que os crentes pecam; mas é igualmente verdade que a incredulidade é a causa de seu pecado. Se você e eu estivéssemos vivendo com o olho tão próximo em Cristo suportando tanto por todos os nossos pecados, oferecendo gratuitamente a todos uma justiça em dobro por todos os nossos pecados; e se esta visão do amor de Cristo fosse constantemente mantida dentro de nós, como certamente seria se olhássemos com um olho simples, a paz de Deus que excede todo o entendimento — a paz que não repousa em nenhum de nós, mas inteiramente sobre Cristo —, então eu digo que, frágeis e indefesos como somos, nós nunca pecaríamos nem teríamos a menor motivação para pecar. Todavia não é desta forma conosco. Quantas vezes durante o dia o amor de Cristo é completamente esquecido! Quantas vezes está obscurecido para nós! Às vezes se oculta de nós pelo próprio Deus, para nos ensinar o que somos. Quantas vezes somos deixados sem o sentido do que é a completude da Sua oferta, a perfeição de Sua justiça, e ficamos sem vontade ou sem confiança para afirmar nosso interesse nEle! Quem maravilha-se, então, que onde há tanta incredulidade, medo e ódio por Deus haverá mais e mais deformação, e o pecado irá muitas vezes exibir sua cabeça venenosa?

 

A questão é muito simples, se apenas nós tivéssemos olhos espirituais para vê-la. Se vivêssemos uma vida de fé no Filho de Deus, então iríamos certamente viver uma vida de santidade. Eu não digo que devemos fazê-lo; mas eu digo, deveremos, como uma questão de consequência necessária. Mas na medida em que não vivemos uma vida de fé, viveremos uma vida de impiedade. É por meio da fé que Deus purifica o coração; e não há outra maneira.

 

Existe algum de vocês, então, desejoso de ser feito novo, de ser liberto da escravidão de hábitos e afeições pecaminosas? Não podemos apontar-lhe nenhum outro remédio, senão o amor de Cristo. Vede como Ele o amou! Veja o que Ele suportou por você; coloque o dedo, por assim dizer, nas marcas dos cravos, e coloque a mão no seu lado; e não sejas incrédulo, mas crente. Sob um senso de seu pecado, fuja para o Salvador dos pecadores. Como a pomba temerosa voa para esconder-se nas fendas das rochas, assim fuja para se esconder nas feridas de Seu Salvador; e depois de tê-lO encontrado como a sombra de uma grande rocha em terra sedenta; quando você se sentar sob Sua sombra, com grande prazer; você vai achar que Ele matou toda a inimizade, que Ele findou todas as tuas guerras. Deus agora é por você. Plantado juntamente com Cristo na semelhança da Sua morte, você será também na semelhança da Sua ressurreição. Morto para o pecado, você deverá estar vivo para Deus.

 

 

III. Seu Amor Desperta O Nosso Amor

 

O amor de Cristo ao homem constrange o crente a viver uma vida santa; porque esta verdade não somente remove o medo e o ódio, mas desperta o nosso amor.

 

Quando somos levados a ver a face do Deus reconciliado em paz, este é um grande privilégio. Mas como podemos olhar para Aquela face, reconciliando e reconciliado, e não amar Aquele que assim nos amou? Amor gera amor. Dificilmente podemos deixar de estimar aqueles no mundo que realmente nos amam, embora eles possam não servir a nossos interesses. Mas quando estamos convencidos de que Deus nos ama, e convencidos de tal forma pelo dom de Seu Filho por todos nós, como iremos, senão amar Aquele em quem estão todas as excelências, tudo aquilo que evoca o amor?

Eu já mostrei que o Evangelho é um esquema de restauração; ele nos traz de volta para o mesmo estado de amizade com Deus que Adão desfrutava, e, assim, tira o desejo do pecado. Mas agora eu irei mostrar a você, que o Evangelho faz muito mais do que nos restaurar ao estado do qual caímos. Se correta e consistentemente apreendido por nós, ele nos coloca em um estado muito melhor do que Adão. Ele nos constrange por um motivo muito mais poderoso. Adão não tinha esse forte amor de Deus ao homem, derramado em seu coração; e, portanto, ele não tinha esse poder constrangedor para fazê-lo viver para Deus. Mas os nossos olhos viram esta grande visão. Diante de nós Cristo foi demonstrado crucificado. Se realmente acreditamos que, Seu amor trouxe-nos à paz, por meio do perdão; e porque estamos perdoados e em paz com Deus, o Espírito Santo nos é dado. Para quê? Ora, exatamente para derramar esta verdade sobre os nossos corações, para nos mostrar mais e mais desse amor de Deus por nós, para que possamos ser atraídos a adorar Aquele que nos amou, viver para Aquele que morreu e ressuscitou por nós.

 

É realmente admirável ver como a forma bíblica de nos fazer santos é adequada à nossa natureza. Se Deus tivesse proposto nos atemorizar para vivermos uma vida santa, quão inútil teria sido essa tentativa! Os homens têm sempre uma ideia, que se alguém vivesse dos mortos para nos contar sobre a realidade das regiões onde os espíritos dos condenados habitam em tristeza e miséria sem fim; que isso iria constrangê-los a viver uma vida santa; mas que ignorância isso mostra da nossa natureza misteriosa!

 

Suponha que Deus nesta hora desvendasse diante dos nossos olhos os segredos dessas moradas terríveis aonde há esperança inexiste; suponha, se fosse possível, que você foi realmente levado a sentir por algum tempo as dores reais do lago de fogo e experimentado a agonia, e o verme que nunca morre; e depois que você foi trazido de volta à terra, e colocado em sua velha situação, entre seus velhos amigos e companheiros; você realmente acha que haveria qualquer chance de você caminhar com Deus como um criança? Eu não duvido que você iria ter um termo correto de seus pecados; e nem a taça do prazer sem Deus cairia de sua mão; nem você estremeceria com a blasfêmia, nem você tremeria diante uma mentira, simplesmente pelo fato de você ter visto e sentido algo do tormento que aguarda o bêbado, o blasfemador e o mentiroso, no mundo além-túmulo. Você realmente acha que você iria viver para Deus mais do que você vive, que você iria servi-lo melhor do que antes? É bem verdade que você pode ser levado a ser mais caridoso; sim, a dar todos os seus bens para sustento dos pobres, e seu corpo para ser queimado; que você pode viver com rigor e seriedade, a com o maior medo de quebrar um dos mandamentos por todo o resto de seus dias, mas isso não seria viver para Deus, você não iria amá-lo um pouquinho mais. Infelizmente vocês estão cegos para os vossos corações, se você não sabe que o amor não pode ser forçado; nenhum homem jamais chegou a amar por ter sido atemorizado, e, portanto, nenhum homem jamais poderá se tornar santo por causa do temor.

 

Mas, três vezes bendito seja Deus, pois Ele inventou uma maneira mais poderosa do que o inferno e todos os seus terrores; um argumento mais forte do que os espíritos dos condenados e do que até mesmo a visão daqueles tormentos. Ele inventou uma maneira de nos atrair para a santidade; ao mostrar-nos o amor de Seu Filho, Ele suscita nosso amor. Ele conhecia a nossa estrutura; lembrou-se de que somos pó. Ele conhecia todas as peculiaridades do nosso coração traiçoeiro; e, portanto, Ele adequou Sua maneira de santificar a criatura que deveria ser santificada. Assim, o Espírito não faz uso do terror para nos santificar, mas do amor: “O amor de Cristo nos constrange”. Ele nos atrai com “com cordas humanas, com laços de amor” [Oséias 11:4]. O que o pai faz para conhecer a verdadeira forma de ganhar a obediência de um filho, não é ganhar o afeto da criança? E você acha que Deus, que nos deu essa sabedoria, Ele mesmo não sabe disso? Você acha que Ele iria determinar obter a obediência de seus filhos, sem antes de tudo ganhar sua afeição? Para obter nossas afeições, que por natureza perambulam pela face do mundo e em nada repousa, senão nEle; Deus enviou o Seu Filho ao mundo para suportar a maldição de nossos pecados. “Sendo rico, por amor de vós se fez pobre; para que pela sua pobreza enriquecêsseis” [2 Coríntios 8:9].

 

Se há apenas um de vocês que irá neste dia, sob um senso de aniquilação, fugir para o refúgio, para o Salvador, para encontrar nEle o perdão de todos os pecados passados, eu sei muito bem que a partir de hoje em diante você vai ser como aquela pobre mulher, que era uma pecadora, que estava aos pés de Cristo, atrás dele, chorando e começou a lavar os Seus pés com lágrimas e os enxugava com os cabelos da sua cabeça, e beijava os Seus pés e os ungia com unguento. Quando você for muito perdoado, muito amará; amando muito, você vai viver para o serviço dAquele a quem você ama. Este é o grande princípio do qual falamos; esta é a fonte secreta de toda a santidade dos santos.

 

A vida de santidade não é o que o mundo falsamente representa, uma vida de rigidez e de fadiga, na qual um homem se priva da toda afeição de sua natureza. Não existe tal coisa como a abnegação no sentido papista desta palavra na Religião da Bíblia. O sistema de restrições e autoflagelação é o próprio sistema que Satanás criou como uma falsificação do caminho da santificação de Deus. É assim que Satanás atemoriza milhares contra a paz e a santidade propostas no Evangelho; como se para ser um homem santificado o homem devesse ser privado de todos os desejos do seu ser, e devesse fazer que fosse desagradável e desconfortável para ele. Meus amigos, o nosso texto nos mostra claramente que não é assim. Somos constrangidos à santidade pelo amor de Cristo; o amor dAquele que nos amou, é a única corda pela qual estamos vinculados ao serviço de Deus. O flagelo dos nossos afetos é o único flagelo que nos leva ao novo dever. Doces laços e gentis flagelos! Quem não gostaria de estar sob o Seu poder?

 

 

IV. O Perseverante Amor de Cristo.

 

Finalmente, se o amor de Cristo por nós é o objeto que o Espírito Santo faz uso, no início, para nos atrair para o serviço de Cristo, é por meio deste mesmo objeto que Ele nos chama a perseverar até o fim. Assim, que se você é visitado com temporadas de frieza e indiferença; se você começar a se cansar, ou ficar para trás no serviço de Deus. Eis, aqui está o remédio: Olhe novamente para o Salvador sangrante. Este Sol da justiça é o grande centro de atração, em torno do qual todos os Seus santos se movem rapidamente, e em conjunto harmonioso e suave, “não sem música”. Enquanto o olho crente se fixar sobre o Seu amor, o caminho do crente é fácil e desimpedido; pois este amor sempre constrange. Mas, desvie o olho, crente, e o caminho se torna impraticável e a vida de santidade um cansaço.

 

Quem, então, deseja viver uma vida de perseverança na santidade, mantenha o olhar fixo no Salvador. Enquanto Pedro olhou apenas para o Salvador, ele caminhou sobre o mar em segurança, para ir a Jesus; mas quando ele olhou ao redor e sentiu o vento forte, teve medo, e, começando a afundar, gritou: “Senhor, salva-me!”, justamente assim será com você. Enquanto você olhar com fé para o Salvador, que te amou, e entregou a Si mesmo por você, desde então você poderá pisar nas águas do mar agitado da vida, e as solas dos pés não serão molhadas. Entretanto, se porventura você olhar ao redor para os ventos e as ondas que o ameaçam em cada lado, e, como Pedro, você começar a afundar, clame: “Senhor, salva-me!”. Quão justamente, então, podemos dirigir-vos a repreensão do Salvador a Pedro: “Ó, homem de pouca fé, por que duvidaste?”. Olhe novamente para o amor do Salvador, e contemple o amor que constrange a viver não mais para si, mas por Aquele que morreu por você e ressuscitou.
 

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