Orando Com o Entendimento, por John Bunyan

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[Extraído de Um Tratado sobre a Oração • Editado]

 

O apóstolo faz uma clara distinção entre orar com o Espírito e orar com o Espírito e com o entendimento: “Orarei com o Espírito, mas também orarei com o entendimento” (1 Coríntios 14:15). Esta distinção foi feita porque os Coríntios não observaram que tudo quanto faziam deveria ser feito para edificação própria, e também das outras pessoas, não somente para a sua própria glória, como estava acontecendo. Entregues aos seus dons extraordinários, como falar em línguas diferentes e etc., negligenciando a edificação dos irmãos; este foi o motivo pelo qual Paulo lhes escreveu este capítulo, para fazê-los entender que, embora os dons extraordinários fossem excelentes, a edificação da igreja era mais excelente ainda. “Porque, se eu orar em língua desconhecida, o meu espírito ora bem, mas o meu entendimento fica sem fruto (bem como a compreensão dos outros). Que farei, pois? Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento” (1 Coríntios 14:14-15).

 

É, pois, conveniente que tanto o entendimento como o coração e os lábios participem na oração. O que é feito com o entendimento é feito mais eficiente, consciente e sinceramente. Isso foi o que fez o apóstolo rogar pelos Colossenses, para que Deus os enchesse “do conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual” (Colossenses 1:9), e pelos Efésios, para que Deus lhes desse o “espírito de sabedoria e de revelação; tendo iluminados os olhos do vosso entendimento” (Efésios 1:17-18), e também pelos Filipenses, que o seu amor abundasse “mais e mais em ciência e em todo o conhecimento” (Filipenses 1:9).

 

É conveniente que um homem tenha compreensão suficiente de tudo aquilo que empreende, seja secular ou espiritual, e, portanto, e com maior razão, devem desejar isto todos os que aspiram ser pessoas de oração. Espero mostrar-lhes o que é orar com entendimento.

 

Entendimento significa falar em nossa própria língua e também experimentalmente: passarei de largo do primeiro e me ocuparei somente com o outro. Para oferecer as orações corretamente, é preciso que haja um entendimento sadio e espiritual em todos os que oram a Deus.

 

1. Orar com entendimento é orar sob a orientação do Espírito, compreendendo a necessidade daquilo que a alma há de pedir. Embora um homem necessite sobremaneira de perdão dos pecados, e de ser livrado da ira vindoura, se não entende, não o desejará em absoluto, ou sentirá tanta indiferença e mornidão em seus desejos, que Deus aborrecerá mesmo a atitude espiritual de pedir essas coisas. Isso foi o que aconteceu com a igreja em Laodicéia: lhes faltava conhecer o que é o entendimento espiritual; não sabiam que eram tristes, miseráveis, pobres, cegos e nus; causa pela qual eles e todos os seus cultos eram considerados por Cristo como uma abominação, a tal ponto que Eles lhes ameaçou vomitar de Sua boca (Apocalipse 3:16-17). Os homens podem recitar as mesmas palavras que outros têm escrito ou dito, porém se não o fazem com entendimento, mesmo que houvesse naqueles outros, a diferença é grande, apesar de serem pronunciadas as mesmas palavras.

 

 

2. O entendimento espiritual percebe no coração de Deus a predisposição e boa vontade para dar a alma aquelas coisas que necessita. Por este meio Davi poderia até mesmo supor os pensamentos de Deus para com ele (Salmo 40:5). E o mesmo ocorria com a mulher Cananéia (Mateus 15:22-28): pela fé, e por um correto entendimento, discernia, por trás da severa atitude de Cristo, a ternura e o desejo de ajuda-la que havia em Seu coração; o que lhe fez ser veemente e fervorosa, ainda mais constante, até que chegou a desfrutar da misericórdia que necessitava.

 

Não há nada que induza tanto a alma a buscar a Deus e a clamar pedindo perdão, como o entendimento de que no coração de Deus há o desejo de salvar aos pecadores. Se um homem visse uma pérola de grande valor envolta no barro, passaria de largo sem se preocupar, por não entender o seu valor, mas uma vez que a conhecesse, correria grandes riscos para obtê-la. Assim ocorre com as almas no que diz respeito às coisas de Deus. Uma vez que chegaram a entender o seu valor, seu coração e todo o poder de sua alma correm atrás delas, e não cessam de clamar até que as obtenha. Os dois homens cegos do Evangelho, sabendo certamente que Jesus, que passava então, podia e queria curar as enfermidades que os afligiam, clamaram, e ao verem-se repelidos, clamaram com mais força ainda (Mateus 20:29-31).

 

 

3. Uma vez que o entendimento tem sido espiritualmente iluminado, descobrimos como a alma deve se aproximar de Deus: o que serve de grande encorajamento. É assim também com a miserável alma, como com alguém que tem uma obra a cumprir, e se não a fizer, o perigo é grande; e se a fizer, também é grande a vantagem. Mas ela não sabe como começar, nem como prosseguir, e então, em meio ao desencorajamento, abandona a tudo, e corre o perigo.

4. O entendimento iluminado vê nas promessas de Deus suficiente amplitude para sentir-se alentado a orar; o que lhe acrescenta força sobre força. Assim como quando os homens prometem certas coisas aos que vêm por elas, isto constitui motivo de encorajamento para aqueles que conhecem tais promessas, assim ocorre com aqueles que conhecem as promessas de Deus.

 

 

5. Uma vez iluminado o entendimento, está aberto o caminho para que a alma se achegue a Deus com argumentos apropriados, às vezes na forma de luta, como no caso de Jacó (Gênesis 32), às vezes em forma de súplica, e não apenas verbalmente, a não ser que até mesmo no coração o Espírito introduziu, através do entendimento, argumentos eficazes e capazes de comover o coração de Deus. Quando Efraim chega a compreender corretamente qual foi a sua vil atitude para com o Senhor, começa a lamentar-se (Jeremias 31:18, 19 e 20). E ao lamentar contra si mesmo, emprega tais argumentos que comovem o coração do Senhor, obtém o Seu perdão, e se faz agradável aos Seus olhos por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor, “bem ouvi eu que Efraim se queixava”, diz Deus. “Castigaste-me e fui castigado, como novilho ainda não domado; converte-me, e converter-me-ei, porque tu és o Senhor meu Deus. Na verdade que, depois que me converti, tive arrependimento; e depois que fui instruído (ou recebi instruções a respeito de mim mesmo), bati na minha coxa; fiquei confuso, e também me envergonhei; porque suportei o opróbrio da minha mocidade”. Estas são as queixas e lamentações de Efraim contra si mesmo, diante das quais o Senhor irrompe nas seguintes expressões, capazes de derreter um coração: “Não é Efraim para mim um filho precioso, criança das minhas delícias? Porque depois que falo contra ele, ainda me lembro dele solicitamente; por isso se comovem por ele as minhas entranhas; deveras me compadecerei dele, diz o Senhor” [Jeremias 31:20]. Podem, assim, perceber que é necessário orar com o Espírito, mas também com o entendimento.

 

E para ilustrar o que foi dito com um símile, digamos por acaso que dois homens vêm pedindo à sua porta. Um deles é pobre, aleijado, está ferido e quase morto de fome, o outro é uma criança saudável, cheio de saúde e vigor. Ambos usam as mesmas palavras para pedir esmola. Sim, os dois dizem que estão morrendo de fome, mas, indubitavelmente, o pobre e aleijado é o que fala com mais sentido, experiência e compreensão das misérias que menciona em seu pedido.

 

Vê-se nele uma expressão mais viva quando ele lamenta sobre o que lhe ocorre costumeiramente. Sua dor e pobreza lhe fazem falar em um espírito de maior lamentação do que o outro, por isso será socorrido antes por qualquer pessoa que tenha um pouco de afeto ou compaixão natural. Isso se aplica exatamente com Deus. Alguns oram por costume e etiqueta, outros na amargura de seus espíritos. Um ora por mera noção, puro conhecimento intelectual; em outro, as palavras lhe saem ditas pela angústia de sua alma. Sem dúvida, Deus atentará para estes, aos de espírito humilde e contrito, aos que tremem da Sua Palavra (Isaías 66:2).

 

 

6. O entendimento bem iluminado é também de admirável utilidade, tanto no que se refere ao tema como à maneira de orar. Aquele que possui uma compreensão exercitada para discernir entre o bem e o mal, e um sentido da miséria do homem e da misericórdia de Deus, não necessita que os escritos de outros homens lhe ensinem a clamar por meio de fórmulas de oração. Da mesma forma que, ao que sente dor, não é necessário ser ensinado a dizer “Ai!”. Aquele cujo entendimento foi aberto pelo Espírito não tem necessidade de imitar as orações de outros homens. Experiência real, o sentimento e a pressão que pesam sobre seu espírito, fazem com que expresse, com gemidos, sua petição ao Senhor.

 

Quando as dores da morte atingiram Davi, e as angústias do sepulcro lhe rodearam, não precisou de um bispo com sobrepeliz lhe ensinasse a dizer: “Livra agora, ó Senhor, a minha alma” (Salmo 116:3, 4). Nem consultar um livro para ensinar-lhe uma fórmula para derramar seu o coração a Deus. Por natureza, quando os homens estão enfermos, quando lhes aflige a dor e a enfermidade, seu coração desabafa em doloridos lamentos e queixas aos que lhes rodeiam. Este foi o caso de Davi no Salmo 38:1-12. E esse também, bendito seja o nome do Senhor, é o caso dos que são dotados com a graça de Deus.

 

 

7. É necessário que haja um entendimento iluminado a fim de que a alma seja levada a perseverar no serviço e dever da oração.

 

O povo de Deus não ignora os muitos ardis, truques e tentações que o Diabo usa para fazer uma pobre alma, verdadeiramente desejosa de ter o Senhor Jesus Cristo, chegue a cansar-se de buscar a face de Deus, e a pensar que Ele não quer ter misericórdia dela. “Sim”, diz Satanás, “você pode orar o quanto quiser, porém não prevalecerá. Veja seu coração: duro, frio, torpe e embotado. Não oras com o Espírito, não oras com verdadeiro fervor; teus pensamentos se desviam para outras coisas quando aparentas estar orando a Deus. Fora, hipócrita; já basta; é inútil continuar lutando”.

 

Eis aqui, então, que, se a alma não é bem advertida, clamará no momento: “O Senhor me desamparou, o meu Senhor se esqueceu de mim!”. Enquanto a que está devidamente instruída e iluminada diz: “Bem, buscarei ao Senhor e esperarei, não cessarei, ainda que não me diga nenhuma palavra de consolo. Ele amava apaixonadamente a Jacó, porém lhe fez lutar antes de obter a bênção”. Os aparentes atrasos de Deus não são provas de Seu desagrado, às vezes é possível que esconda Seu rosto dos santos que mais ama. Lhe agrada em extremo manter os Seus em oração, encontrá-los continuamente batendo na porta do céu. Pode ser, diz a alma, que o Senhor me prova, ou que Lhe agrada ouvir como lhe apresento, gemendo, a minha condição.

 

A mulher cananéia não quis considerar por reais negativas as que eram somente aparentes; sabia que o Senhor era misericordioso. O Senhor vindicará os Seus ainda que seja tardio. O Senhor tem me esperado muito mais tempo do que eu a Ele, e o mesmo ocorreu com Davi. “Esperei com paciência”, diz (Salmo 40:1), isto é, passou muito tempo antes do Senhor me responder, mas finalmente “se inclinou para mim e ouviu o meu clamor”. O melhor remédio para isto é um entendimento bem informado e iluminado. É uma pena que existam no mundo tantas pobres almas que verdadeiramente temem ao Senhor, e que, por não estarem bem instruídas, frequentemente estão dispostas a dar tudo por perdido, cada vez que Satanás emprega um de seus truques e tentações! Que o Senhor se compadeça delas e lhes ajude a orar com o Espírito, e também com o entendimento. Aqui eu poderia mencionar grande parte de minha própria experiência.

 

Nas minhas crises de agonia espiritual, eu tive fortes tentações para desistir e não buscar mais ao Senhor, todavia havendo-me feito entender quão grandes pecadores eram aqueles de quem Ele teve misericórdia, e quão grandes eram as Suas promessas aos pecadores, e que não era ao que está são, mas ao doente, não ao justo, mas ao pecador, e não ao que está pleno, mas ao que está vazio, a quem lhes comunicava a Sua graça e misericórdia, e isto, com a ajuda do Espírito Santo, fez-me apegar-me a Ele, apoiar-me nEle, e que ao mesmo tempo clamasse, ainda que no momento não enviou resposta. Que o Senhor ajude a todo este pobre povo, tentado e afligido, a fazer o mesmo, e a perseverar, ainda que tenham que esperar muito tempo, de acordo com o que o que foi dito pelo profeta (Habacuque 2:3). E os ajude (para esta finalidade) a orar, não por meio das invenções dos homens, e de suas formas restritas, mas “com o Espírito, e também com o entendimento”.

 

 

John Bunyan, 1660.
 

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