Reforma e Antirreforma, Parte II, por Manoel Coelho Jr.

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[Parte II •​ Série de pregações ministradas na Congregação Batista Reformada em Belém por ocasião dos 498 anos de Reforma Protestante •​ Outubro de 2015]

 

Parte II

 

Então ele disse: Os meus deuses, que eu fiz, me tomastes, juntamente com o sacerdote, e partistes; que mais me resta agora? Como, pois, me dizeis: Que é que tens?(Juízes 18:24)

 

I. INTRODUÇÃO.

Vamos agora aplicar o estudo anterior à questão da Reforma e Antirreforma. O caso de Mica, sua mãe, o levita e os danitas é muito significativo para nosso assunto. Vê-se aqui a enganosa religião da vontade. Por aqui já podemos afirmar que esta religião é Antirreforma. Por outro lado, também observamos que a solução está em Cristo, O Rei que nos liberta de nossos inimigos, inclusive desta vontade rebelde. Naturalmente, esta libertação é Reforma. Vamos entender melhor estas coisas nos pontos seguintes.

 

II. A REFORMA É GRAÇA QUE VENCE O CORAÇÃO MAU, ENQUANTO QUE A ANTIRREFORMA É SEU FRUTO.

“Naqueles dias não havia rei em Israel; cada um fazia o que parecia bem aos seus olhos” (Juízes 17:6).

Já vimos que Antirreforma é essencialmente a rebelião do coração natural, não regenerado, que odeia a Deus e Sua Palavra, estabelecendo seus próprios caminhos em todas as coisas, incluindo o que se chama de religião cristã. Isso produz evidentemente um falso cristianismo.

 

Pelo que vimos no estudo passado, quando a vontade do homem fica livre, imediatamente ele se rebela contra Deus produzindo toda a forma de mentira, chegando finalmente à religião enganosa da vontade. Tudo isso vem do coração humano não regenerado. Neste caso podemos ver claramente a Antirreforma. É rebelião do coração a Deus e Sua palavra, pois não há submissão ao Rei Jesus Cristo. A Antirreforma é fruto de um coração mau, não regenerado.

Mas também já vimos que Reforma é uma obra da Graça de Deus que se inicia no coração do homem, levando-o a ouvir e render-se à Palavra Divina, percebendo o engano do pecado, a Ira e a Glória de Deus, e a Redenção única em Cristo, tendo a partir de então ao Senhor como Rei, vivendo apenas para Sua honra em todas as coisas. Isso faz com que o Cristianismo seja genuíno.

 

Assim, para que haja Reforma o coração tem que ser vencido, dominado, subjugado pela Graça de Deus em Cristo. Se isso não ocorrer cada um fará o que acha mais correto e ha-verá muitos Micas, mães de Micas, levitas aproveitadores e danitas cegos. Assim a Reforma é uma obra da Graça que vence o coração mau, enquanto que a Antirreforma é seu fruto. Cada leitor deve pensar se em sua vida e comunidade está ocorrendo Reforma ou Antirreforma. Se lá ocorre Reforma, os corações rebeldes estão sendo vencidos. Mas se há Antirreforma, isso se mostrará pela liberdade da vontade que vem de um coração insubmisso a Deus. O que está ocorrendo com você e sua Igreja?

 

III. A REFORMA PRODUZ SINCERIDADE REALISTA, ENQUANTO QUE A ANTIRREFORMA GERA SINCERIDADE ENGANOSA.

“Então disse Mica: Agora sei que o SENHOR me fará bem; porquanto tenho um levita por sacerdote” (Juízes 17:13).

Pelo o que já vimos, a força e sinceridade com que um homem crê em alguma coisa não é prova de que aquilo é verdade, pois um coração rebelado pode produzir tal sinceridade. Será então uma sinceridade enganosa. Isso pode ser associado à Antirreforma. Ora, a Antirreforma é uma obra do coração rebelado, que leva naturalmente a esta sinceridade iludida. Já a Reforma, ao contrário, é uma obra da Graça no coração que leva a uma sinceridade que se adequa a verdade Revelada por Deus em Sua Palavra. Trata-se de sinceridade realista. Quando acontece a Reforma, as pessoas passam a entender as realidades espirituais e sua fé é fundamentada nesta realidade. Neste caso há um sincero apego à verdade revelada. Já na Antirreforma o coração não se dobra ao que Deus revela, substituindo a verdade por seus caprichos, por sua vontade enganosa. Isso leva logicamente a uma crença nas fantasias do coração rebelado. O leitor deve mais uma vez aplicar estas verdades à sua vida pessoal e à sua Igreja. Se estiver acontecendo uma Reforma em você e sua Igreja, haverá uma recepção da realidade mostrada nas Escrituras e sinceramente se crerá nesta realidade. Mas se estiver ocorrendo uma Antirreforma, o coração estará criando fantasias e a sinceridade será enganosa. Qual é o seu caso e de sua comunidade?

 

 

IV. A REFORMA PRODUZ COMUNHÃO NA VERDADE, ENQUANTO QUE A ANTIRREFORMA GERA CUMPLICIDADE PECAMINOSA.

 

“Assim restituiu as mil e cem moedas de prata à sua mãe; porém sua mãe disse: Inteiramente tenho dedicado este dinheiro da minha mão ao Senhor, para meu filho fazer uma imagem de escultura e uma de fundição; de sorte que agora to tornarei a dar. 4 Porém ele restituiu aquele dinheiro à sua mãe; e sua mãe tomou duzentas moedas de prata, e as deu ao ourives, o qual fez delas uma imagem de escultura e uma de fundição, que ficaram em casa de Mica. 5 E teve este homem, Mica, uma casa de deuses; e fez um éfode e terafins, e consagrou um de seus filhos, para que lhe fosse por sacerdote” (Juízes 17:3-5).

 

Na Reforma, a verdade do Evangelho está sendo conhecida e Deus está agindo nos corações neste sentido. A consequência é que estas pessoas se unirão em torno da verdade para se fortalecerem e se aprofundarem nela. Isso acontecerá inevitavelmente. Mas na Antirreforma, ao contrário, haverá uma cumplicidade rebelde em torno da mentira abraçada. Como a vontade enganosa está livre, e como consequentemente ela produzirá mentiras, então estes enganados se unirão com grande zelo para defenderem suas falácias, e tal união será muitas vezes zelosa e emocionada e eles estarão prontos a se ajudarem, o que aumentará ainda mais o engano, pois mui comumente as pessoas vão entender isso como algo de Deus. Saiba: A Antirreforma produz multidões de enganados que se apoiam em prol de suas mentiras. Mas isso não passa de cumplicidade criminosa e rebelde. Assim, não se iluda com multidões. Por outro lado, a Reforma também produz unidade, mas esta devemos chamar de comunhão e não de cumplicidade. A cumplicidade denota um acordo de criminosos rebelados contra Deus para apoiarem uma mentira. Já a comunhão gira em torno do amor a verdade descoberta na Palavra.

 

Lembremos ainda que a cumplicidade da Antirreforma leva as pessoas a desejarem um falso profeta, como fizeram Mica e os danitas com o levita inescrupuloso. Ora, o falso profeta se aproveita do povo, mas este não é inocente. Estas pessoas querem ser enganadas. No final, todos são cúmplices da mentira. Já a Reforma leva o povo a desejar um verdadeiro ministro do Evangelho, pois neste caso as pessoas querem a verdade. Assim, elas têm comunhão com genuínos pregadores em torno da verdade do Evangelho. O que está acontecendo em sua Congregação, amigo leitor? Há cumplicidade na mentira ou comunhão em torno da verdade?

 

V. A REFORMA GERA A FÉ QUE NÃO DECEPCIONA, ENQUANTO QUE A ANTIRREFORMA É CRENÇA VÃ.

 

“Então ele disse: Os meus deuses, que eu fiz, me tomastes, juntamente com o sacerdote, e partistes; que mais me resta agora? Como, pois, me dizeis: Que é que tens?” (Juízes 18:24).

A Reforma é uma obra da Graça no coração que leva as pessoas de volta à Bíblia. Já a Antirreforma, ao contrário, é rebelião contra Deus, é a liberdade da vontade enganosa que impõem suas mentiras e leva à crença em falsidades. Assim a Reforma gera uma fé genuína que não decepciona. Já a Antirreforma leva a ilusão que desemboca num mar de decepção e desespero. Os homens e mulheres dirão: “que mais me resta?”. Oh amigo leitor, como isso é sério. Cristo disse que muitos se surpreenderão no Dia do Juízo. Veja: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mateus 7:21-23). Se pensarmos na seriedade destes fatos urgentemente buscaremos em Deus a verdade sobre nosso caso e de nossa Igreja. Que o Senhor nos ilumine.

 

VI. A REFORMA É TER A GRAÇA DE CRISTO COMO REI, ENQUANTO QUE A ANTIRREFORMA É REBELIÃO DO CORAÇÃO AO SEU REINADO.

“Naqueles dias não havia rei em Israel; cada um fazia o que parecia bem aos seus olhos” (Juízes 17:6).

Se Cristo não reinar sobre nós, a vontade livre nos levará ao engano mortal. Mas a Graça opera no coração humano fazendo com que Cristo reine e liberte-nos de todas as prisões espirituais. Isso é Reforma: É a Graça operando, é Cristo Reinando. Já a Antirreforma é o coração natural impondo suas vontades enganosas em oposição direta ao Reinado de Cristo. A Reforma é o homem submisso ao Reinado de Cristo. O homem já não faz mais o que quer, mas o que Cristo quer. A Antirreforma é o homem rebelado, opondo-se a Cristo como Rei, fazendo o que acha melhor. Pense a avalie se há Reforma ou Antirreforma em sua vida e Igreja.

 

VII. CONCLUSÃO.

A Antirreforma é a rebelião do coração natural que impõem sua vontade, gera mentiras, sinceridade enganosa, cumplicidade criminosa e fé vã. Já a Reforma é uma obra da Graça no coração que leva os homens a submeterem-se ao Reinado de Cristo, produzindo a Comunhão na verdade e uma genuína Fé Evangélica. A Reforma leva os homens a submeterem-se ao Reinado de Cristo. A Reforma é uma obra da Graça de Deus em Cristo. Que isso esteja acontecendo em nós. Amém!

 

***

 

Caminho para a Idolatria e Caminho para a Adoração: Juízes 17 e 18
 

“E teve este homem, Mica, uma casa de deuses; e fez um éfode e terafins, e consagrou um de seus filhos, para que lhe fosse por sacerdote.” (Juízes 17:5)

 

I. INTRODUÇÃO.

Mais uma vez desejo olhar para estes preciosos Capítulos. Vimos nos estudos anteriores que eles mostram a enganosa religião da vontade. No entanto precisamos estreitar um pouco mais nosso olhar sobre esta religião e entender que por traz de tudo isso está a questão essencial da adoração. Todos aqui estão adorando. Mica está adorando. A sua mãe está adorando. O sacerdote está adorando. Os danitas estão adorando. O que subjaz todos os acontecimentos é o assunto da adoração. Na verdade, não há nada mais importante do que a adoração. Todo mundo está adorando sempre! Não importa que não se pense em adoração. Cada pessoa está vivendo para ou adorando alguma coisa continua-mente. Você sempre e sempre está adorando alguma coisa. Todo mundo tem um deus.

 

É interessante notar, por exemplo, que o primeiro caso de assassinato na Bíblia iniciou-se num contexto de adoração (veja Gênesis 4). Caim e Abel foram apresentar ofertas a Deus. O que eles estavam fazendo? Resposta: Estavam adorando. No entanto Deus aceitou o sacrifício de Abel, mas não o de Caim. O fato é que Caim não era um adorador verdadeiro, mas ainda assim adorava. Sua adoração era falsa, mas ainda assim adorava. Ele não amava a Deus, mas ainda assim adorava. Tal adoração falsa o levou a matar seu irmão. Ora, Cristo resumiu os Mandamentos em amar a Deus e ao próximo (Marcos 12:30-31). Assim, pelo fato de Caim não amar a Deus, finalmente chegou a matar o irmão. Toda adoração falsa é deficiente de verdadeiro amor. O que há é um jogo de interesses, pois somente em Deus está o amor. É no Reinado de Seu Filho que tal amor se manifesta. E se Cristo não é Rei, cada um faz o que acha mais correto (Juízes 17:6) e a adoração na verdade não passa de idolatria. Assim, apesar de sempre estarmos adorando, só adoramos de verdade se servimos a Deus em Cristo. No caso inverso também estamos adorando, mas não ao Deus Verdadeiro. Portanto o que fazemos é adorar um outro “deus”. Neste caso somos idólatras. Por isso quero olhar com você para estes dois caminhos opostos, ou seja, o caminho da idolatria e o caminho da adoração. Nestes caminhos, certos passos são dados de forma evidente, e são opostos em relação aos do outro caminho, mostrando afinal em que vereda estamos. Desejo assim meditar neste texto observando tais passos. Que você, prezado leitor, possa observar quais caminhos por onde está andando, e dessa forma descobrir se está no caminho da adoração ou da idolatria. Você adora de fato a Deus ou é um idólatra? Olhemos o texto para descobrir.

 

II. CORAÇÃO REINANDO OU CRISTO REINANDO.

“Naqueles dias não havia rei em Israel; cada um fazia o que parecia bem aos seus olhos” (Juízes 17:6).

Já tenho procurado demostrar que a chave destes Capítulos está no verso 6 do Capítulo 17. Devemos observar que se o assunto é adoração, significa que cada um adorava como achava mais correto. A outra opção seria adorar conforme a direção de um rei, o que não havia em Israel. É exatamente neste ponto que temos o primeiro passo ou para a idolatria ou para a adoração. Permita que eu explique: O coração insubmisso é rebelde ao Rei por excelência, isto é, é rebelde a Cristo. É rebelado contra Deus. Como já disse anteriormente, é a liberdade da vontade, a independência, a autonomia. Rei se refere a um governo humano, todavia muito mais esse governo representa o Governo de Deus, o Reinado de Cristo, pois Cristo é o Rei tipificado em todo o Antigo Testamento. Assim, o que o texto está dizendo é que os homens estavam seguindo suas vontades independentemente da vontade de Deus. Portanto, a adoração era segundo esta liberdade da vontade e aqui estava o início da idolatria, pois quando começo a seguir meu coração digo: “Eu acho isso! Eu penso isso! Eu acredito assim! É a minha opinião! É a minha ideia! Eu fico com a minha posição! Assim como o meu coração determina! Eu gosto disso! Eu me sinto bem assim!”: Assim fez Mica, sua mãe, o sacerdote, e os danitas! Cada um fazia o que queria. Eis o primeiro passo para a idolatria: Quando você segue o seu próprio coração, pois o coração humano naturalmente é rebelado. Dessa forma, não é boa coisa fazer o que se quer quando o assunto é adoração. Na verdade, em relação a qualquer assunto, mas a adoração é o tema que determinará os demais.

 

No entanto o primeiro passo para a adoração é que o Rei me domine. Como precisamos ser libertos de nós mesmos! Necessitamos do poder de Cristo para subjugar nossa vontade. Somente Ele pode fazer isso. Ele é o Rei Libertador.

 

Como recentemente lembrou uma prezada irmã de nossa Congregação, ao refletir nesta presente mensagem, a nossa Confissão de Fé Batista de 1689 nos diz assim:

 

Este ofício de Mediador entre Deus e os homens cabe exclusivamente a Cristo, que é o Profeta, Sacerdote e Rei da Igreja de Deus; e isto não pode ser no todo, ou em qualquer parte, transferido de Cristo para qualquer outro (1 Timóteo 2:5). Este número e ordem de ofícios são necessários. Precisamos de Seu ofício profético (João 1:18), por causa de nossa ignorância. Por causa de nossa alienação de Deus, e da imperfeição de nossos melhores serviços, nós necessitamos de Seu ofício sacerdotal para nos reconciliar e apresentar aceitáveis a Deus (Colossenses 1:21; Gálatas 5:17). E no que diz respeito à nossa aversão e incapacidade absoluta de converter-nos a Deus, e para o nosso resgate e segurança contra nossos adversários espirituais, precisamos de Seu ofício real para nos convencer, subjugar, atrair, sustentar, libertar e preservar para o Seu reino celestial. (João 16:8; Salmos 110:3; Lucas 1:74-75). (CFB1689, Capítulo 8, Sobre Cristo, o Mediador, parágrafos 9 e 10).

 

Assim este Rei é Cristo que vence a rebeldia de meu coração fazendo-me submisso à Sua vontade. Quando me submeto a Deus, ao Rei, a Cristo, então estou no caminho da adoração verdadeira afastando-me da idolatria.

 

Prezado leitor, qual é o seu caso?

 

Responda:
 

1. O seu coração domina levando você a adorar como acha mais correto? Então, você está dando o primeiro passo para idolatria.

2. Cristo está dominando seu coração fazendo-o submisso ao seu Reinado? Então, você está no caminho da adoração.

 

III. NEGAÇÃO OU ACEITAÇÃO DA REVELAÇÃO.

 

Porém ele restituiu aquele dinheiro à sua mãe; e sua mãe tomou duzentas moedas de prata, e as deu ao ourives, o qual fez delas uma imagem de escultura e uma de fundição, que ficaram em casa de Mica (Juízes 17:4).

 

Se o coração domina é porque não a há rei para obedecer. Há rebeldia e autonomia. Há insubmissão a Deus. Consequentemente Sua Palavra não será ouvida e obedecida. Assim Mica e sua mãe fabricam imagens de escultura para a adoração, o que Deus havia proibido. Os danitas cobiçam e roubam a imagem, mostrando-se também desobedientes. Todos faziam o que queriam e desobedeciam a Deus.

 

Mas entendamos melhor a gravidade destes atos. Leia estes versículos:

 

Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. 5 Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam (Êxodo 20:4-5).

 

Aqui há uma proibição clara de se fazer imagens de escultura na adoração.

 

Nestes versículos Deus dá o motivo:

 

Guardai, pois, com diligência as vossas almas, pois nenhuma figura vistes no dia em que o Senhor, em Horebe, falou convosco do meio do fogo; 16 para que não vos cor-rompais, e vos façais alguma imagem esculpida na forma de qualquer figura, semelhança de homem ou mulher; figura de algum animal que haja na terra; figura de alguma ave alada que voa pelos céus; 17 figura de algum animal que se arrasta sobre a terra; 18 figura de algum peixe que esteja nas águas debaixo da terra; 19 que não levantes os teus olhos aos céus e vejas o sol, e a lua, e as estrelas, todo o exército dos céus; e sejas impelido a que te inclines perante eles, e sirvas àqueles que o Senhor teu Deus repartiu a todos os povos debaixo de todos os céus (Deuteronômio 4:15-19).

 

Jesus disse que “Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” (João 4:24). Estes versos mostram que a adoração deve corresponder ao Adorado, o Senhor Deus. Fazer imagens para adorá-lO seria uma afronta, pois não corres-ponde ao que Ele é, ou seja, Espírito, e nenhuma aparência viram os israelitas quando Ele Se manifestou a eles. Mas quando o coração é rebelado, ou quando a vontade está livre para fazer o que quer, o homem não atende a autorrevelação de Deus em Sua Palavra e adora segundo seu entendimento. Assim, passa a fabricar imagens. Este é mais um passo no caminho da idolatria. O homem nega a revelação de Deus.

 

Mas quando o coração está dominado por Cristo, passa então a ser dócil, recebendo com prontidão a Revelação que Deus dá de si mesmo. Ele reconhece que Deus é Quem diz Ser. A Palavra é tomada por este homem submisso como verdade de Deus para si. Este pois, é mais um passo para a Adoração: O homem ou mulher aceitam a Palavra dobrando-se a ela humildemente, aceitando-a como reveladora do Único Deus. Enfim, eles aceitam a autorrevelação de Deus.

 

Leitor, qual é a sua situação? Você tem recebido a autorrevelação de Deus nas Escrituras, ou você a nega? Em que caminho você está? Você está seguindo o caminho da adoração ou da idolatria?

 

IV. FABRICANDO UM ÍDOLO OU REVERENCIANDO O CRIADOR.

“Então ele disse: Os meus deuses, que eu fiz, me tomastes, juntamente com o sacerdote, e partistes; que mais me resta agora? Como, pois, me dizeis: Que é que tens?” (Juízes 18:24).

 

Se o coração é livre, a Revelação de Deus é rejeitada e consequentemente um ídolo é fabricado. Este é o próximo passo no caminho da idolatria. Por isso Mica diz que fez seus deuses. A idolatria é loucura exatamente por isso. Em vez de adorar o Criador o homem passa a adorar a criatura (Romanos 1:25). No final das contas esse ídolo é criação do homem. É por isso que em Isaías Deus nos fala de seguinte forma. Observe e leia com bastante calma, percebendo o argumento:

 

Assim diz o Senhor, Rei de Israel, e seu Redentor, o Senhor dos Exércitos: Eu sou o primeiro, e eu sou o último, e fora de mim não há Deus. 7 E quem proclamará como eu, e anunciará isto, e o porá em ordem perante mim, desde que ordenei um povo e-terno? E anuncie-lhes as coisas vindouras, e as que ainda hão de vir. 8 Não vos as-sombreis, nem temais; porventura desde então não vo-lo fiz ouvir, e não vo-lo anunciei? Porque vós sois as minhas testemunhas. Porventura há outro Deus fora de mim? Não, não há outra Rocha que eu conheça. 9 Todos os artífices de imagens de escultura são vaidade, e as suas coisas mais desejáveis são de nenhum préstimo; e suas pró-prias testemunhas, nada veem nem entendem para que sejam envergonhados. 10 Quem forma um deus, e funde uma imagem de escultura, que é de nenhum préstimo? 11 Eis que todos os seus companheiros ficarão confundidos, pois os mesmos artífices não passam de homens; ajuntem-se todos, e levantem-se; assombrar-se-ão, e serão juntamente confundidos. 12 O ferreiro, com a tenaz, trabalha nas brasas, e o forma com martelos, e o lavra com a força do seu braço; ele tem fome e a sua força enfraquece, e não bebe água, e desfalece. 13 O carpinteiro estende a régua, desenha-o com uma linha, aplaina-o com a plaina, e traça-o com o compasso; e o faz à semelhança de um homem, segundo a forma de um homem, para ficar em casa. 14 Quando corta para si cedros, toma, também, o cipreste e o carvalho; assim escolhe dentre as árvores do bosque; planta um olmeiro, e a chuva o faz crescer. 15 Então serve ao homem para queimar; e toma deles, e se aquenta, e os acende, e coze o pão; também faz um deus, e se prostra diante dele; também fabrica uma imagem de escultura, e ajoelha-se diante dela. 16 Metade dele queima no fogo, com a outra metade prepara a carne para comer, assa-a e farta-se dela; também se aquenta, e diz: Ora já me aquentei, já vi o fogo. 17 Então do resto faz um deus, uma imagem de escultura; ajoelha-se diante dela, e se inclina, e roga-lhe, e diz: Livra-me, porquanto tu és o meu deus. 18 Nada sabem, nem entendem; porque tapou os olhos para que não vejam, e os seus corações para que não entendam. 19 E nenhum deles cai em si, e já não têm conhecimento nem entendimento para dizer: Metade queimei no fogo, e cozi pão sobre as suas brasas, assei sobre elas carne, e a comi; e faria eu do resto uma abominação? Ajoelhar-me-ei ao que saiu de uma árvore? 20 Apascenta-se de cinza; o seu coração enganado o desviou, de maneira que já não pode livrar a sua alma, nem dizer: Porventura não há uma mentira na minha mão direita?” (Isaías 44:6-20).

 

O ponto é que o homem adora algo que ele inventou e chama-o de deus e espera que isso o livre. Mas, como o que ele inventou pode livrá-lo, se nem mesmo ele o pode? Ou pondo de outra forma: Se não posso me livrar, como posso crer que algo que eu inventei o pode? Mas este é o caminho da loucura. Este é o caminho da idolatria. Este é o caminho do peca-do. Se um homem é rebelde, ele rejeitará a Revelação de Deus e nada mais lhe restará, senão criar um ídolo nulo, que é menos do que ele mesmo. Com Mica dirá: “Os meus deuses, que eu fiz, me tomastes, juntamente com o sacerdote, e partistes; que mais me resta agora? Como, pois, me dizeis: Que é que tens?” (Juízes 18:24).

 

Mas o caminho da adoração é diferente. Ora, um homem quebrantado por Cristo receberá a Revelação do único Deus. Este Deus Verdadeiro é o que Se revela na Criação e na Palavra, isto é, em Cristo (Salmos 19; Romanos 1; João 1). Evidentemente este é mais um passo na adoração. Explicando: O homem não cria um deus, mas conhece o Verdadeiro Deus por sua autorrevelação e passa a adorá-lO. Não há mais a louca invenção de um deus que não pode salvar por ser uma fabricação humana, mas a fé no Criador, Mantenedor e Redentor, o Deus que está perto “dos que têm o coração quebrantado, e salva os contritos de espírito” (Salmos 34:18). Ele somente salva. Ele somente é Deus. Ele somente é Criador, Mantenedor e Redentor que salva em Cristo.

 

A pergunta que lhe faço agora é: Que passos você está dando? Qual Deus você adora? Seu Deus é o Deus Revelado na Criação e na Bíblia, em Cristo, ou uma louca invenção sua, um ídolo? Pense, reflita!

 

V. MENTIRA NA ALMA INTERPRETANDO EQUIVOCADAMENTE A PROVIDÊNCIA PARA O AUMENTO DA IDOLATRIA OU VERDADE NO ÍNTIMO QUE LEVA A VER A OBRA DE DEUS NA PROVIDÊNCIA PARA A GLÓRIA DELE.

 

“Então disse Mica: Agora sei que o SENHOR me fará bem; porquanto tenho um levita por sacerdote” (Juízes 17:13).

Note a conclusão que Mica tira dos acontecimentos. Ele crê na benção de Deus ante ao fato de ter um sacerdote. No entanto tudo que fizera antes manifestava rebeldia no íntimo, negação da revelação de Deus e produção de ídolos segundo seu coração. Como pode estar a benção de Deus nisso? Mas assim crê Mica. O mesmo acontece com os danitas. No Capítulo dezoito eles consultam o sacerdote, recebem uma resposta favorável, roubam o ídolo, compram o sacerdote, vencem a guerra, como previra o sacerdote, e então estabelecem ao ídolo de Mica e o seu sacerdote, mostrando que estavam confiantes.

Não fica evidente que Mica e os danitas tornaram-se mais confiantes diante dos fatos ocorridos? O que acontecera neles? Resposta: Eles interpretaram a providência de Deus à luz de suas mentiras internas, as mentiras de seus corações rebeldes e idólatras. Este é mais um passo no caminho da idolatria. Um homem cego está com a alma tomada pela mentira de seu coração rebelde. Ele rejeita a verdade de Deus na Palavra. Esta mentira leva-o a interpretar os acontecimentos como algo que comprova seus enganos. Isto evidentemente os leva a um engano ainda maior, gerando neles uma confiança louca em seus deuses falsos. Pensam que estão certos porque creem que a providência confirma suas crenças. Mas de fato eles estão interpretando equivocadamente a providência para o aumento da idolatria.

Mas o homem em que tem o coração dominado pelo Rei Jesus é alguém que recebe a autorrevelação de Deus, adora-O e consequentemente vê na providência o agir deste Deus revelado. Este homem tem uma visão real dos fatos interpretando-os não de forma ilusória, mas segundo a realidade que o Senhor lhe tem mostrado. O resultado é que tal pessoa glorificará a Deus pela providência. Este é mais um passo no caminho da adoração.

 

Permita-me dar um exemplo prático e contemporâneo que ajudará, creio eu, a clarificar as coisas.

 

Imagine uma pessoa doente em um leito de hospital. Um idólatra moderno vê a “Deus” co-mo alguém que tem de curar aquele enfermo se houver oração com fé. Ele foi ensinado que pode decretar e seu “Deus” o ouve. Assim ele chega diante do enfermo e diz: “Eu de-creto sua cura”. O problema é que esse “Deus” não é o Deus revelado nas Escrituras, pois na Palavra Ele Se manifesta como Soberano Senhor e não como alguém que admite qual-quer decreto humano (Salmos 2). Isso não passa de idolatria, pois estabelece um conceito de “deus” conforme a rebeldia humana. Mas se o doente fica curado, este idólatra dirá como Mica: “Agora sei que o SENHOR me fará bem” ou… “O meu Deus ouviu minha oração e abençoou o enfermo”. Assim ele interpretará a providência em favor de sua idolatria. Naturalmente se tornará ainda mais crédulo e idólatra. Mas se não houver cura? Neste caso o idólatra dirá como Mica: “Os meus deuses, que eu fiz, me tomastes, juntamente com o sacerdote, e partistes; que mais me resta agora? Como, pois, me dizeis: Que é que tens?” (Juízes 18:24). Haverá decepção. Também pode ser que o idólatra “racionalize” afirmando que faltou fé no doente ou algo assim. Mas no final sempre a idolatria cegará sua visão da providência.

 

No entanto, aquele que tem Cristo como Rei receberá a Revelação de Deus conforme as Escrituras, e diante do doente não decretará a cura, mas suplicará que o Senhor Soberano seja misericordioso com o enfermo. Note: Não há “decreto”, mas “súplica”; não se “decreta”, mas se “suplica”. Percebe? Bem, se a pessoa for curada o adorador agradecerá a misericórdia de Deus. Se não, ele também agradecerá dobrando-se ao Deus Soberano que faz tudo bem e como Lhe apraz.

 

Pergunto-lhe: O que está acontecendo com você?

 

 

VI. PROFANAÇÃO IDOLÁTRICA DA FORMA DE CULTO OU SUA SANTIFICAÇÃO CONFORME A REVELAÇÃO DE DEUS.

 

“E os filhos de Dã levantaram para si aquela imagem de escultura; e Jônatas, filho de Gérson, o filho de Manassés, ele e seus filhos foram sacerdotes da tribo dos danitas, até ao dia do cativeiro da terra. 31 Assim, pois, estabeleceram para si a imagem de escultura, que fizera Mica, por todos os dias em que a casa de Deus esteve em Siló” (Juízes 18:30-31).

Já vimos que fazer imagens combateria a Autorrevelação de Deus. Agora, precisamos compreender que esta prática se refere à forma de culto, que é evidentemente o manifestar da adoração no coração. Aqui se refere a como cultuamos, como expressamos nossa adoração. Esta forma, como temos notado, deve corresponder a Deus. Assim, Deus prescreveu detalhadamente no Antigo Testamento como deveria ser feito o culto. Porém ali havia muito complexidade porque se tratava de tipos que apontavam para Cristo. Mas vindo Cristo, aquelas formas passaram. No entanto isso não significa que não há formas prescritas no Novo Testamento, mas ao contrário, ali muito nos é ordenado sobre como devemos realizar nossos cultos públicos.

 

Apliquemos estas informações ao nosso estudo de texto:

 

Mica, a mãe, o sacerdote e os danitas produziram uma forma de culto não prescrita por Deus, e até mesmo proibida. Fizeram assim porque cada um fazia o que queria (Juízes 17:6) e adoravam um outro “Deus” e nele confiavam (Juízes 17:13). Eis aqui mais um passo no caminho da idolatria. Neste caminho haverá uma profanação idolátrica da forma de culto. Esta forma é correspondente ao ídolo que está no íntimo. Mas quando os homens estão com o coração dominado por Cristo, o Rei, eles conhecem o Deus Verdadeiro e consequentemente terão uma forma de culto prescrita nas Escrituras, o que corresponderá ao Deus Verdadeiro. Por isso é que o Culto no Novo Testamento é tão simples, pois é espiritual, tendo em vista a Revelação de Deus em Cristo, o Verbo de Deus.

 

Cada leitor deve perguntar-se sobre o que ama em termos de forma de culto. Isso mostrará se é um idólatra ou um adorador. Se quer uma forma que agrade seu coração e não a Escritura, é porque criou um deus falso e quer adorá-lo na forma correspondente. Se ama ao Deus verdadeiro, se comprazerá a adorá-lO conforme prescreveu em Sua Palavra. Qual é o passo que você está dando? Está no caminho da adoração ou da idolatria?

 

VII. DEIXADOS NO PECADO ATÉ A MORTE OU ALCANÇADOS PELA GRAÇA PARA O CULTO E VIDA.

 

“Não, filhos meus, porque não é boa esta fama que ouço; fazeis transgredir o povo do Senhor. 25 Pecando homem contra homem, os juízes o julgarão; pecando, porém, o homem contra o Senhor, quem rogará por ele? Mas não ouviram a voz de seu pai, porque o Senhor os queria matar. 26 E o jovem Samuel ia crescendo, e fazia-se agradável, assim para com o Senhor, como também para com os homens” (1 Samuel 2:24-26).

Os passos de idolatria que temos estudado mostram a obstinação do coração natural. Já os passos de adoração demostram a Graça do Rei vencendo a rebeldia natural, fazendo com que o coração se torne dócil. Neste texto acima vemos que o Senhor não queria salvar os filhos de Eli, mas matá-los devido aos seus pecados, pois eles profanavam o culto ao Senhor, não O conheciam (leia 1 Samuel 2:12-17). Eles eram idólatras. Porém, Samuel era um verdadeiro adorador (observe o contraste entre 1 Samuel 2:17-18, e 1 Samuel 2:25-26). Em Samuel estava a Graça de Deus em Cristo vencendo a rebeldia natural. Samuel era dócil (observe 1 Samuel 3). Já nos filhos de Eli, ao contrário, estava a obstinação, pois Deus os entregou à rebeldia de seus maus corações, visto que queria julgá-los com a morte.

 

Amigos isso tudo é muito solene. A Escritura nos mostra que se Deus não agir em um homem ele prosseguirá no caminho da idolatria até a morte. Não adiantará repreende-lo ou avisá-lo, como não adiantou a Eli avisar seus filhos. Pode ser que alguém tenha dado todos os passos anteriores e seu caso seja muito grave. Tal pessoa não mudará de rumo, por mais que outro lhe mostre o erro. Oh, somente a Graça, somente a Graça de Deus em Cristo. Se o Rei não nos subjugar, não seremos subjugados por nada mais, e teimosamente prosseguiremos até a morte. O passo derradeiro é a teimosia mortal. Mas a Graça nos vence e nos liberta, e como Samuel, nos faz dóceis e verdadeiros adoradores. Pense nisso, meu leitor. Ore a Deus em Cristo pedindo misericórdia. Que o Senhor lhe dê graça sobre graça. Amém!

 

VIII. CONCLUSÃO.

Em que caminho você está? Está no caminho da adoração ou da idolatria? Seu coração foi subjugado pelo Rei Jesus ou continua livre e rebelde? Você aceitou a autorrevelação de Deus ou a rejeitou? Você conhece o Criador e O adora ou inventou um deus nulo? Você está glorificando a Deus em Sua providência ou interpretando-a de forma a dar mais crédito aos seus enganos idolátricos? Você O adora conforme Ele quer e é, ou rebeldemente estabelece formas que correspondam aos seus ídolos? Você é dócil aos Seus comandos seguindo o caminho da vida ou é teimosamente rebelde até a morte? Pense nestas questões com seriedade. Cada um destes passos puxa aos seguintes e mostra o caminho se-guido. Reflita e que Deus lhe conceda Graça fazendo com que Cristo reine em seu coração para torná-lo um adorador do Único Deus Verdadeiro. Amém!

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