As Consequências Da Depravação Humana, por A. W. Pink

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[Capítulo 4 do livro The Total Depravity of Man • Editado]

 

A chave que nos abre o mistério da depravação humana é encontrada em uma correta compreensão das relações que Deus nomeou entre o primeiro homem e a sua posteridade. Como a grande verdade da redenção não pode ser correta e inteligentemente apreendida até que percebamos a conexão federal, que Deus ordenou entre o Redentor e os redimidos, nem pode a tragédia da ruína do homem ser contemplada em sua correta perspectiva, a menos que a vejamos à luz da apostasia de Adão do seu Criador. Ele foi o protótipo de toda a humanidade. Enquanto ele permanecia por toda a raça humana, assim nele Deus lidou com todos os que descenderiam dele. Se Adão não fosse a nossa cabeça do pacto e representante federal, a mera circunstância de que ele era o nosso primeiro pai não nos teria envolvido nas consequências jurídicas de seu pecado, nem teríamos o direito de recompensa legal de sua justiça se ele tivesse mantido a sua integridade e servido sua experiência condicional ao render ao seu Criador e Senhor aquela obediência que Lhe era devida e que era totalmente capacitado a executar. Foi divinamente constituído o nexo (princípio conectante ou vínculo) e unidade do primeiro homem e toda a humanidade à vista da Lei, o que explica a participação deste último na penalidade efetuada sobre o primeiro.

 

Consequências Para Adão

 

Nos capítulos anteriores deste livro permanecemos durante algum tempo na origem da depravação humana, e da imputação Divina da culpa da transgressão de Adão a todos os seus descendentes. Estamos agora considerando as consequências decorrentes da Queda. Abominável de fato é o pecado, temerosos são os salários que ele recebe, terríveis são os efeitos que ele produziu. É aí que nos é mostrada a estimativa do Santo Ser sobre o pecado, na severidade de Sua punição, expressando o Seu ódio a ele. Por outro lado a terrível desgraça de Adão torna evidente a maldade de sua ofensa. Esse crime não deve ser medido pelo ato exterior de comer o fruto, mas pela terrível afronta que foi feita contra a majestade de Deus. Em seu único pecado havia uma complicação de muitos crimes. Houve ingratidão contra Aquele que tão ricamente o dotou, e o descontentamento com a formosa herança atribuída a ele. Havia a descrença da santa veracidade de Deus, uma dúvida quanto à Sua palavra e crença na mentira da serpente. Houve um repúdio das obrigações infinitas sob as quais ele estava, de amar e servir ao seu Criador, uma preferência à sua própria vontade e caminho. Houve um desprezo da elevada autoridade de Deus, um rompimento de Sua aliança, uma fuga em face de Sua ameaça solene. A maldição do Céu caiu sobre ele, porque ele deliberada e presunçosamente desafiou o Todo-Poderoso.

 

Muitíssimo mais estava incluído e envolvido na transgressão de Adão do que comumente se supõe ou se reconhece. Trezentos anos atrás, aquele profundo teólogo, James Usher, apontou que isso havia se condensado na “violação de toda a Lei de Deus”. Resumindo em nossa própria língua o que o Bispo de Armagh desenvolveu extensamente, a violação de Adão de todos os Dez Mandamentos da Lei moral pode ser definida assim: O primeiro mandamento ele quebrou ao escolher para si um outro “deus”, quando ele seguiu o conselho de Satanás. O segundo, ao idolatrar a sua boca, fazendo de seu ventre um deus, por comer do fruto proibido. O terceiro, por não acreditar na ameaça de Deus, por haver tomando o Seu nome em vão. O quarto, quebrando o puro descanso no qual ele havia sido colocado. O quinto, por haver desonrando o seu Pai Celestial. O sexto, pelo seu próprio assassinato e de toda a sua posteridade. O sétimo, por ter cometido adultério espiritual, e preferir a criatura acima do Criador. O oitavo, colocando as mãos sobre aquilo que ele não tinha direito. O nono, aceitando o falso testemunho da serpente contra Deus. O décimo, por cobiçar o que Deus não havia lhe dado.

 

Nós, de forma alguma, compartilhamos a ideia popular de que o Senhor salvou Adão logo depois de sua Queda, mas sim tomou decidida exceção por isso. Negativamente, não podemos encontrar qualquer coisa que seja na Sagrada Escritura para fundamentar tal crença: positivamente, muito pelo contrário. Em primeiro lugar, é claro que o seu pecado não foi um de “enfermidade”, mas sim uma “presunção”, um, pertencendo àquela classe de pecados intencionais e desafio aberto a Deus para o qual nenhum sacrifício foi fornecido (Êxodo 21:14; Números 15:30-31; Deuteronômio 17:12; Hebreus 10:26-29) e, portanto, um pecado imperdoável. Não há o menor sinal de que ele alguma vez se arrependeu de seu pecado ou registro de sua confissão a Deus; pelo contrário, quando cobrado sobre isso, ele tentou desculpá-lo e atenuá-lo. Gênesis 3 encerra com a declaração terrível: “E havendo lançado fora o homem”. Nada que seja foi mencionado para seu crédito posteriormente: nenhuma oferta de sacrifício, não houve atos de fé ou obediência! Em vez disso, é-nos dito apenas que ele conheceu a sua esposa (4:1, 25), gerou um filho à sua semelhança, e morreu (5:3-5). Se o leitor puder ver nessas declarações, intimações ou mesmo indícios de que Adão era um homem regenerado, então ele tem olhos muito melhores do que os do escritor, ou, possivelmente, uma imaginação mais vívida.

 

Também não há uma única palavra a seu favor nas Escrituras posteriores; em vez disso, tudo o condena. Jó negou que ele cobriu sua transgressão ou escondeu sua iniquidade em seu seio “como Adão” o fez (31:33). O salmista declarou que aqueles que julgam injustamente e as pessoas dos ímpios deveriam “morrer como homens” (82:7), pois a palavra hebraica aqui usada para “homens” é Adão! No Novo Testamento, ele é contrastado em detalhes consideráveis com Cristo (Romanos 5:12, 21; 1 Coríntios 15:22, 45-47), e se ele foi salvo, então a antítese falharia em seu ponto principal. Além disso, uma anomalia tão gritante é bastante fora de sintonia com o que é revelado sobre o Deus de justiça, que a grande maioria das pessoas a quem ele representava perecerá eternamente, enquanto a cabeça responsável será resgatada. Em 1 Timóteo 2:14 é feita menção específica ao fato de que “Adão não foi enganado”, o que enfatiza a maldade de sua transgressão. Em Hebreus 11, o Espírito Santo citou a fé dos santos do Antigo Testamento, e embora Ele mencione a de Abel, Enoque, Abraão, Isaque, Jacó e etc. Ele não diz nada sobre Adão! A sua exclusão da lista é solenemente significativa. Assim, depois dele ser expulso do Éden, a Escritura não faz menção de Deus ter qualquer outra vez lidado com Adão!

 

Antes de dedicar-nos às consequências da deserção de Adão sobre os seus descendentes, consideremos aqueles que sentiram mais imediatamente sobre ele e sua parte da culpada. Estes são registrados em Gênesis 3. Tão logo ele se revoltou contra o seu gracioso Criador e Benfeitor e os efeitos maléficos do mesmo tornou-se aparente. Seu entendimento, originalmente iluminado com sabedoria celestial, tornou-se sombrio e nublado com crassa ignorância. Seu coração, formalmente em chamas com santa veneração em direção ao seu Criador e aquecido com amor a Ele, agora se tornou alienado e cheio de inimizade contra Deus. Sua vontade, que estava em sujeição ao seu legítimo Governador, havia rejeitado o jugo da obediência. Toda a sua constituição moral foi arruinada, tornou-se desequilibrada, perversa. Em uma palavra: a vida de Deus se retirou de sua alma. Sua aversão por Aquele que é supremamente excelente apareceu em sua fuga dEle assim que ele ouviu a Sua aproximação. Sua ignorância crassa e estupidez foram evidenciadas por sua vã tentativa de esconder-se dos olhos do Onisciente. Seu orgulho foi exibido em se recusar a reconhecer a sua culpa; a ingratidão quando ele indiretamente censurou Deus por dar-lhe uma esposa. Mas, voltemos ao relato inspirado destas coisas.

 

“Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus” (Gênesis 3:7). Muito, muito impressionante é isso. Nós não lemos sobre a ocorrência de qualquer alteração quando Eva comeu do fruto proibido, mas assim que Adão fez isso, “foram abertos os olhos de ambos”. Isto fornece a confirmação definitiva do que nos debruçamos nos capítulos precedentes. Adão era a cabeça do pacto e representante legal de sua esposa, bem como dos futuros filhos que descenderiam deles. Portanto, a penalidade para a desobediência não foi infligida por Deus até que aquele a quem a proibição fora feita, violasse a mesma, e então, as consequências disso começaram a ser imediatamente sentidas por ambos. Mas o que se quer dizer com “foram abertos os olhos de ambos”? Certamente não seus olhos físicos, os quais já haviam sido abertos, portanto, temos aqui mais uma indicação de que não devemos limitar-nos servilmente ao significado literal de todos os termos usados neste capítulo. A resposta, então, devem ser os “olhos” de sua compreensão, ou mais estritamente, os de sua consciência, que veem ou percebem, assim como ouvem, falam e castigam. Nessa expressão, “foram abertos os olhos de ambos” encontra-se a chave para o que se segue.

 

O resultado de comer o fruto proibido não foi a aquisição da sabedoria sobrenatural, como eles ingenuamente esperavam, mas a descoberta de que eles haviam sido reduzidos a uma condição de miséria. Eles sabiam que estavam “nus”, e isto em um sentido muito diferente do mencionado em Gênesis 2:25. Embora em seu estado original eles não usassem nenhuma roupa material, ainda assim, não acredito por um momento que eles estavam sem qualquer cobertura em absoluto. Em vez disso, concordamos com o Bishop G. H., que eles

 

… não estavam sem esplendor brilhante a partir deles e em torno deles, que lhes envolvia em um radiante e translúcido manto e de certa maneira encantadora obscurecia seus contornos. É contrário à natureza e é repugnante para nós que alguma coisa deve estar despida, absolutamente nua. Cada pássaro tem sua plumagem e cada animal seu casaco, e não há beleza se a cobertura for removida. Remova da mais bela ave as suas penas, e, embora a forma permaneça inalterada, não mais a admiramos. Concebemos, então, que os artistas estão totalmente em falta e grosseiramente ofendem a pureza quando retratam a forma humana sem roupa, e pleiteiam como desculpa o caso de Adão no Éden. Poderiam os animais em todos os seus esplêndidos casacos de cobertura curvarem-se aos vice-regentes de Deus (Gênesis 1:28), estando antes totalmente sem roupa? Seria Adão, a coroa e rei da criação, ser o único ser vivente sem um manto? Impossível. Para o sentido espiritual certamente há a indicação de algo sobre nossos primeiros pais que impressionava e intimidava a criação animal. O que era aquilo? O que, senão aquele brilho como o sol, que descreve o corpo da ressurreição (Daniel 12:3)? Se o rosto de Moisés brilhava de modo que os filhos de Israel tinham medo de chegar perto dele, quanto mais deve a (desimpedida) habitação do Espírito de Deus em Adão e Eva ter espalhado ao redor deles um brilho que fazia com que toda a criação os respeitassem em sua abordagem, contemplando neles a imagem e semelhança do Senhor Deus Todo-Poderoso e glorioso em resplendor-brilhante como um sol?

 

Complementando o que foi dito acima, permitam ser pontuado que sobre o Senhor Deus, é dito: “Tu és magnificentíssimo; estás vestido de glória e de majestade. Ele se cobre de luz como de um vestido” (Salmos 104:1-2), e o homem foi feito, originalmente, à sua imagem! Deus “de glória e de honra o coroou”, e fez “com que ele tenha domínio sobre as obras das Suas mãos” (Salmos 8:5-6), e, consequentemente, o cobriu com roupas brilhantes, como será o caso final daqueles recuperados da Queda e de suas consequências, pois “são iguais aos anjos” (Lucas 20:36), comparem “dois homens, com vestes resplandecentes” (Lucas 24:4). Além disso, a implicação de Romanos 8:3 é irresistível: “Deus, enviando o seu Filho em semelhança da carne do pecado”. Notem como discriminante é esta linguagem: não meramente em “semelhança da carne”, mas literalmente “carne do pecado”.

 

Após essas palavras, R. Haldane corretamente observou:

 

Se a carne de Jesus Cristo era a semelhança da carne do pecado, deve haver uma diferença entre a aparência da carne do pecado e da nossa natureza ou a carne em sua condição original, quando Adão fora criado. Cristo, então, não foi feito à semelhança da carne do homem antes que o pecado entrou no mundo, mas à semelhança de sua carne caída”. E uma vez que Cristo restituiu o que Ele não furtou (Salmos 69:4), então o seu estado ressuscitado nos mostra a sua glória primitiva (Filipenses 3:21).

 

1ª Consequência da Queda: Foram abertos os olhos de ambos e conheceram que estavam nus.

 

Após a declaração “então foram abertos os olhos de ambos”, nós naturalmente esperaríamos ler a próxima cláusula: “e viram que estavam nus”, mas em vez disso, diz, “e conheceram que estavam nus”, algo mais do que uma descoberta de sua lamentável condição física foi incluída nisso. O verbo hebraico é traduzido por “conheceram” na grande maioria das referências, mas dezoito vezes é traduzido como “perceberam” e três vezes por “sentiram”. Como a abertura dos seus olhos refere-se aos de sua compreensão, assim, somos informados sobre o que eles agora discernem, ou seja, a perda de sua inocência. Há uma nudez da alma, que é muito pior do que um corpo nu, pois a incapacita a estar na presença do Santo Ser. A nudez de Adão e Eva foi a perda da imagem de Deus, da justiça e santidade inerentes no qual Ele os criou. Essa é a condição terrível em que todos os seus descendentes nascem. É por isso que Cristo os convida a comprar dEle “roupas brancas, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua nudez” (Apocalipse 3:18). As “roupas brancas” é “o manto de justiça” (Isaías 61:10), a “veste de núpcias” de Mateus 22:11-13, sem a qual a alma está eternamente perdida.

 

“Eles conheceram que estavam nus”. Como o Bishop o expressou: “A auréola havia desaparecido, e o Espírito de justiça que havia sido para eles uma cobertura de luz e pureza retirou-se, e eles sentiram que eles estavam despidos e descalços. Porém, mais: eles perceberam que a sua condição física registrava a sua perda espiritual. Eles foram dolorosamente conscientizados do pecado e de suas terríveis consequências. Este foi o primeiro resultado de sua transgressão: a consciência culpada os condenou, e um sentimento de vergonha possuiu as suas almas. Seus corações os feriram pelo que haviam feito. Agora que a temível ação de desobediência havia sido cometida, eles perceberam a felicidade que arremessaram para longe e a miséria em que eles próprios haviam mergulhado. Eles conheceram que não estavam apenas despojados de toda a felicidade e honra do estado do Paraíso, mas foram corrompidos e degradados, e um sentimento de miséria os possuiu. Eles conheceram que estavam nus de tudo o que é santo. Eles podem agora ser corretamente chamado de “Icabode”, pois a glória do Senhor havia se retirado deles”. Tal, meu leitor, é sempre o efeito do pecado: ele destrói a nossa paz, rouba a nossa alegria, e traz em seu trilho uma consciência de culpa e um sentimento de vergonha.

 

Há, acreditamos, um significado ainda mais profundo nessas palavras, “eles conheceram que estavam nus”, ou seja, uma percepção de que eles foram expostos à ira de um Deus ofendido. Eles perceberam que a sua defesa fora embora. Eles estavam moralmente nus, sem qualquer proteção contra a Lei violada! Isso é muito impressionante e solene. Antes que o Senhor lhes houvesse aparecido, antes que Ele dissesse uma palavra ou Se aproximasse deles, Adão e Eva conheceram o estado terrível em que eles estavam agora, e tiveram vergonha! Ah, o poder da consciência! Nossos primeiros pais se auto acusaram e autocondenaram! Antes de seu Juiz ter aparecido em cena, o homem tornou-se, por assim dizer, o juiz de sua própria condição caída e débil. Sim, eles conheceram de si mesmos que estavam em desgraça: sua santidade contaminada, sua inocência se fora, a imagem de Deus foi rompida em suas almas, sua tranquilidade perturbada, a sua proteção contra a Lei removida. Despojados de sua retidão original, eles estavam indefesos. Que terrível descoberta a fazer! Tal é o estado em que o homem caído chegou, um do qual ele próprio envergonha-se!

 

E o que fez a dupla culpada a respeito de sua dolorosa descoberta? Como eles se comportam agora? Clamam a Deus por misericórdia? Buscam a Ele por uma cobertura? Não, de fato, nem mesmo uma consciência despertada move seu possuidor atormentado para converter-se ao Senhor, embora esta deva fazer o seu trabalho, antes que o pecador fuja para Ele em busca de refúgio. Uma alma perdida precisa de algo mais do que uma consciência ativa para atraí-lo a Cristo. Isso é muito evidente no caso dos escribas e Fariseus em Sua presença, pois, “redarguidos da consciência, saíram” (João 8:9). Em vez de uma consciência condenada os levar a lançarem-se aos pés do Salvador, isso resultou em seu abandono dEle! Nada menos do que a vivificação do Espírito Santo, subjugando a inimizade, derretendo o coração, concedendo as operações da fé, traz alguém a um contato salvífico com o Senhor Jesus. Ele, de fato, fere antes que Ele aplique o bálsamo de Gileade, faz uso da Lei para preparar o caminho para o Evangelho, quebra o solo duro do coração para torná-lo receptivo à Semente. Porém, mesmo uma consciência despertada por Ele, acusando a alma com uma voz que não pode ser silenciada, nunca trará, por si mesma, alguém para “o caminho da paz”.

 

2ª Consequência da Queda: Tentativa inútil de ocultar o seu verdadeiro caráter e esconder sua vergonha de si mesmos.

 

Não, em vez de recorrerem a Deus, Adão e Eva tentaram reparar o dano que havia feito neles mesmos por meio de seus próprios esforços insignificantes. “E coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais” [Gênesis 3:7]. Aqui vemos a segunda consequência do pecado: um expediente sem valor, tentativa inútil de ocultar o seu verdadeiro caráter e esconder sua vergonha de si mesmos. Como já foi indicado, os nossos primeiros pais estavam mais ansiosos por salvarem o seu crédito diante um do outro do que estavam buscando o perdão de Deus. Eles tentaram se armar contra um sentimento de vergonha e, assim, acalmaram a sua consciência acusadora. Não houve preocupação com a sua inaptidão para comparecer diante de Deus em tal condição, mas apenas que eles permanecessem impassíveis diante um do outro! E, é assim com os seus filhos até hoje. Eles têm mais medo de serem detectados em pecado do que cometê-los, e mais preocupados com a boa aparência diante do que seus companheiros do que em obter a aprovação de Deus. O principal objetivo que os caídos filhos dos homens propõem para si mesmos é aquietar a sua consciência culpada e permanecerem bem com seus próximos. E, assim, é que muitos dos não-regenerados assumem a veste da religião.

 

3ª Consequência da Queda: um medo de Deus.

 

“E ouviram a voz do Senhor Deus, que passeava no jardim pela viração do dia; e esconderam-se Adão e sua mulher da presença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim” (Gênesis 3:8). Aqui ocorreu a terceira consequência de sua Queda: um medo de Deus. Até este ponto eles haviam se preocupado apenas com seus próprios egos e miséria, mas agora eles tiveram que considerar o Outro. Essa foi a aproximação do seu Juiz. Aparentemente, eles não viram a Sua forma neste momento, mas ouviram apenas a Sua voz. Isso foi para prova-los. Mas, em vez de acolherem tal som, eles ficaram horrorizados, e fugiram em terror. Mas para onde eles poderiam fugir de Sua presença? “Esconder-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o veja? Diz o Senhor” (Jeremias 23:24). Na tentativa de Adão e Eva isolarem-se entre as árvores vemos como o pecado transformou o homem em um completo tolo, pois ninguém, senão um imbecil poderia imaginar que ele poderia esconder-se dos olhos da Onisciência.

 

Quando Adão e Eva, por um ato de transgressão intencional, quebraram a condição do pacto ao qual haviam sido colocados, eles incorreram na dupla culpa de descrer da Palavra de Deus e desafiar a vontade dEle. Assim, eles perderam a promessa da vida e trouxeram sobre si a pena da morte. Aquele ato deles mudou completamente sua relação com Deus e, ao mesmo tempo, inverteu os seus sentimentos para com Ele. Eles já não eram os objetos de Seu favor, mas sim os sujeitos de Sua ira. Como o efeito de sua pecaminosidade, e o resultado de sua morte espiritual, o Senhor Deus deixou de ser o objeto de seu amor e confiança, e se tornou o objeto de sua aversão e desconfiança. Uma sensação de degradação e do desagrado de Deus encheu-os de medo e os inspirou a uma inimizade terrível contra Ele. Tão rápida e tão drástica foi a mudança que o pecado produziu em suas relações e sentimentos em relação ao seu Criador que eles estavam envergonhados e com medo de comparecer perante Ele, e assim que ouviram a Sua voz no jardim, eles fugiram em horror e terror, buscando esconderem-se dEle entre as árvores. Temiam ouvi-lO pronunciar a sentença formal da condenação sobre eles, pois eles conheceram em si mesmos que eles a mereciam.

 

Cada ação dos nossos primeiros pais, após a Queda foi emblemática e profética, pois prefigurava como seus descendentes se comportariam. Em primeiro lugar, após a descoberta de sua nudez, ou perda de sua pureza original e glória, eles costuraram para si aventais de folhas de figueira, na tentativa de reservar a sua autoestima e tornarem-se apresentáveis um para o outro. Assim é com o homem natural em todo o mundo; por uma variedade de esforços ele procura esconder sua miséria espiritual, mas na melhor das hipóteses seus exercícios religiosos e performances altruístas são apenas coisas temporais, e não resistirá ao teste da eternidade. Em segundo lugar, Adão e Eva tentaram esconder-se dAquele que agora eles temiam e odiavam. Assim é com os seus filhos. Eles são caídos e depravados; Deus é santo e justo, e apesar de seus revestimentos autofabricados de respeitabilidade e piedade de criatura, a própria ideia de um encontro face a face com o seu Soberano deixa o não-regenerado inquieto. É por isso que a Bíblia é muito negligenciada, porque nela Deus é ouvido falar. É por isso que o teatro é preferido à reunião de oração. A prova é esta, que todos compartilharam do primeiro pecado e morreram em Adão, pois todos herdaram a sua natureza e perpetuaram a sua conduta.

 

Quão claramente as ações do casal culpado tornam evidente a mentira da serpente. Quanto mais de perto os versículos 4 e 5 são examinados à luz da imediata sequela, mais aparecerá a falsidade deles. A serpente assegurou a eles. “Vós certamente não morrereis”, mas eles haviam morrido espiritualmente, e agora fugiram aterrorizados para que eles não perdessem as suas vidas físicas. Ela prometeu que eles progrediriam, pois “seus olhos serão abertos”; em vez disso, eles tinham sido humilhados. Ele havia prometido que eles aumentariam em conhecimento, ao passo que eles se tornaram tão estúpidos de forma a entreter a ideia de que eles poderiam esconder-se de Alguém onisciente e onipresente. Ele disse que eles seriam “como deuses”, mas aqui nós os contemplamos como criminosos auto-acusados e trêmulos. Tenhamos sempre em mente o pronunciamento do Senhor a respeito do Diabo: “Ele é um mentiroso, e pai da mentira” (João 8:44), o pervertedor e negador da verdade, o promotor e instigador da falsidade de todos os tipos por toda a terra, sempre empregando a dissimulação e traição, sutileza e engano para promover seus interesses malignos.

 

Olhem para as terríveis consequências de ouvir as mentiras do Diabo. Vejam a terrível devastação que o pecado opera. Adão e Eva não apenas irreparavelmente prejudicaram a si mesmos, mas eles se tornaram fugitivos de seu Criador todo-glorioso. Ele é inefavelmente puro, e eles foram contaminados e, portanto, procuraram evitá-lO. Quão insuportável o pensamento para uma consciência culpada que o pecador não perdoado ainda terá que comparecer perante o três vezes Santo! No entanto, ele deve. Não há nenhuma maneira possível, em que qualquer um de nós possa escapar desse encontro terrível. O escritor e leitor ainda devem comparecer diante dEle e prestar contas de sua mordomia, e a menos que tenhamos fugido para Cristo em busca de refúgio, e tenhamos os nossos pecados apagados pelo Seu sangue expiatório, ouviremos Sua sentença de condenação eterna. Então, busque-O enquanto se pode achar a misericórdia; invoque-O enquanto está perto em Seus graciosos oferecimentos do Evangelho, pois “Como nós escaparemos” do lago de fogo se negligenciarmos “tão grande salvação?”. Não declare que você é um Cristão, mas examine bem o seu fundamento; sim, peça a Deus que sonde o seu coração e mostre-lhe a sua real condição. Tome o lugar de um pecador merecedor do Inferno e receba o Salvador dos pecadores.

 

Nos versos que se seguem podemos descobrir uma quarta sombra solene do dia vindouro. “E chamou o Senhor Deus a Adão, e disse-lhe: Onde estás?” (Gênesis 3:9). Isso foi o Juiz Divino convocando-o para uma prestação de contas do que tinha feito. Era uma palavra projetada para imprimir sobre ele a culpa da distância de Deus para a qual o pecado o removeu. Sua ofensa tinha rompido toda a comunhão entre eles, “porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas?” [2 Coríntios 6:14]. Observem bem que o Senhor ignorou Eva e limitou o Seu discurso à cabeça responsável! Deus claramente o avisara sobre o fruto proibido, “no dia em que dela comeres, certamente morrerás” [Gênesis 2:17]. E a morte, meu leitor, não é aniquilação, mas alienação; como a morte física é a separação da alma do corpo, assim a morte espiritual é a separação da alma do Santo Ser. “Mas as vossas iniquidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça” (Isaías 59:2). Essa é a terrível situação de todos nós, por natureza, estamos “longe” (Efésios 2:13), e, a menos que a graça Divina nos salve, nós padeceremos “eterna perdição, longe da face do Senhor e da glória do seu poder” (2 Tessalonicenses 1:9).

 

“E ele disse: Ouvi a tua voz soar no jardim (o que sugere que Ele havia sido agora visto em manifestação teofânica), e temi, porque estava nu, e escondi-me” (Gênesis 3:10). Observe quão totalmente incapaz o homem pecador deve encontrar-se frente à inquisição Divina. Ele não poderia oferecer nenhuma defesa adequada. Ouça sua triste admissão: “temi”, sua consciência o condenou. Essa será a situação lamentável de toda alma perdida quando, trazida do “refúgio de mentiras”, no qual ela anteriormente se abrigava, ela agora aparece diante de seu Criador, destituída daquela justiça e santidade que Ele inexoravelmente exige, e que podemos obter apenas em e de Cristo: cheio de horror e terror. Pese bem essas palavras: “temi, porque estava nu”. Seu avental de folhas de figueira de nada valeu! Assim, acontece mesmo agora quando o Espírito Santo convence uma alma. O manto da religião é descoberto como nada sendo senão trapos imundos, quando a alguém é concedido ver a luz na luz de Deus; o coração está cheio de medo e vergonha quando ele percebe que tem que lidar com Alguém diante de quem todas as coisas estão nuas e patentes. Você já passou por tal experiência? Viu e sentiu a si mesmo sendo um falido espiritual, um leproso moral, um pecador perdido? Se não, você sentirá isso no dia vindouro.

 

“E Deus disse: Quem te mostrou que estavas nu?” (v. 11). A este inquérito Adão não respondeu. Em vez de humilhar-se diante de seu Benfeitor ofendido, o culpado não conseguiu responder. Então o Senhor disse: “Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses?”. É impressionante notar que Deus não respondeu às desculpas ociosas e perversas que Adão proferiu a princípio. Elas eram indignas de Sua atenção. Se as palavras de Adão no versículo 10 forem cuidadosamente ponderadas, uma omissão grave e fatal delas será observada: ele não disse nada sobre seu pecado, mas mencionou apenas os efeitos dolorosos que isso havia produzido. Como alguém já disse, “esta foi a linguagem da miséria impenitente”. Por isso Deus o dirigiu para a causa desses efeitos. No entanto, observe a maneira pela qual Ele emoldurou Suas palavras. O Senhor não cobrou diretamente o infrator com o seu crime, mas em vez disso o interrogou: “Comeste tu?” Isso abriu o caminho e tornou muito mais fácil para Adão contritamente reconhecer a sua transgressão, mas, infelizmente, ele não conseguiu valer-se da oportunidade e se recusou a fazer a confissão de sua maldade com coração quebrantado.

 

4ª e 5ª Consequência da Queda: O endurecimento do coração pelo pecado e auto-justificação.

 

Deus não colocou essas perguntas a Adão porque Ele desejava ser informado, mas sim para lhe proporcionar uma ocasião para penitentemente confessar o que havia feito; e em sua recusa a fazê-lo nós contemplamos a quarta consequência da Queda, ou seja, o endurecimento do coração pelo pecado. Não houve profunda tristeza por sua desobediência flagrante e, portanto, nenhuma confissão sincera sobre o mesmo. À segunda pergunta de Deus, o homem disse: “A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi”. Aqui estava a quinta consequência da Queda: auto-justificação por meio de uma tentativa de desculpar seu pecado. Em vez de confessar sua maldade, Adão buscou mitiga-la e atenuá-la, jogando a responsabilidade sobre outro. A entrada do mal no homem produziu um coração desonesto e hipócrita: ao invés de assumir a culpa sobre si, Adão tentou colocá-la sobre sua esposa. E assim é com os seus descendentes. Eles se esforçam para engavetar a sua responsabilidade e repudiar sua culpabilidade, atribuindo a transgressão a alguém ou a alguma coisa, em vez de a si mesmos, atribuindo os seus pecados à força das circunstâncias, a um ambiente mau, às tentações ou ao Diabo.

 

6ª Consequência da Queda: Uma blasfema contestação do próprio Deus.

 

Mas, nestas palavras de Adão podemos contemplar algo ainda mais hediondo, e uma sexta consequência de sua Queda, ou seja, uma blasfema contestação do próprio Deus. Adão não se limitou a dizer: “minha esposa me deu da árvore, e comi”, mas “A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi”. Assim que ele secretamente afronta o Senhor. Era como se dissesse: Se Tu não tivesses me dado essa mulher, eu não comeria. Por que Tu puseste tal armadilha sobre mim? Contemple aqui o orgulho e teimosia que caracteriza o Diabo, cujo reino agora fora criado dentro do homem! Assim é com os seus filhos até hoje. É por isso que somos conclamados: “Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta” (Tiago 1:13). Isto é porque a mente depravada da criatura caída é tão inclinada a pensar em buscar refúgio em cada coisa que vê. “Se Deus não tivesse ordenado Suas providências, eu nunca teria sido tão fortemente tentado; se Ele tivesse disposto as coisas de forma diferente, eu não teria sido seduzido, e menos ainda vencido”. Assim nós fazemos, em nossos esforços de autodefesa, lançamos a reflexão sobre os caminhos dAquele que não pode errar.

 

“A estultícia do homem perverterá o seu caminho, e o seu coração se irará contra o Senhor” (Provérbios 19:3). Esta é uma das formas mais vis em que a depravação humana se manifesta: que depois de deliberadamente agir como tolo, e ao descobrir que o caminho dos prevaricadores é difícil, nós murmuramos contra Deus, em vez de nos submetermos humildemente à Sua vara. Quando nós pervertemos o nosso caminho da vontade própria, cobiça carnal, conduta imprudente, ações precipitadas, não cobremos de Deus pelos frutos amargos dos mesmos; uma vez que somos os autores de nossa miséria, não é razoável que nos queixemos senão contra nós mesmos. Mas tal é o orgulho de nossos corações, e insubmissa inimizade contra Deus, que somos temivelmente aptos a nos queixarmos contra Ele, como se Ele fosse responsável pelos nossos problemas. Não devemos esperar colher uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos! Não se queixe da severidade de Deus na colheita desagradável, mas de sua própria perversidade. Não diga, Deus não deveria ter me dotado de tais fortes paixões, se eu não posso suportá-las. Não pergunte: por que Ele não concedeu tal graça para que eu pudesse resistir à tentação? Não acuse a Sua soberania, não questione as Suas dispensações, não acolha dúvidas sobre a Sua bondade. Se você fizer isso, você está apenas repetindo a maldade de seu primeiro pai.

7ª Consequência da Queda: ela produziu uma violação do afeto entre o homem e o seu próximo.

 

“Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi”. Ele realmente recitou os fatos do caso, mas ao fazê-lo tornou isso pior ao invés de melhor. Ele era a cabeça e protetor da mulher, e, portanto, deveria ter tomado mais cuidado para evitar que ela caísse no mal. Quando ela havia sucumbido às artimanhas da serpente, mui longe de seguir o seu exemplo, ele deveria tê-la repreendido e recusado a sua oferta. Pleitear que fomos seduzidos por outros não é desculpa válida; ainda assim é algo que acontece comumente. Quando Arão foi acusado de fazer o bezerro de ouro, ele admitiu o fato, mas procurou atenuar a culpa, culpando a congregação (Êxodo 32:22-24). Da mesma forma, o desobediente Saul procurou transferir o ônus ao “povo” (1 Samuel 15:21). Assim também Pilatos deu ordens para a crucificação de Cristo, e depois acusou o crime contra os judeus (Mateus 27:24). Finalmente, contemple aqui mais uma consequência da Queda: ela produziu uma violação do afeto entre o homem e o seu próximo, neste caso a sua esposa, a quem agora ele amava tão pouco que a empurrou para receber o golpe da Divina vingança.

 

“E disse o Senhor Deus à mulher: Por que fizeste isto?”. Contemple aqui tanto a infinita condescendência do Altíssimo e Sua equidade como Juiz. Ele não agiu em elevada soberania, desdenhando a conversa com a criatura; nem Ele condenou os transgressores sem ouvi-los, mas concedeu-lhes a oportunidade de se defenderem ou de confessarem seu crime. Assim, será no Grande Julgamento: ele será conduzido de forma a torná-lo transparentemente evidente que cada transgressor recebe “a devida recompensa por suas iniquidades”, e que “Deus é puro quando Ele julga” (Salmos 51:4). “E disse a mulher: A serpente me enganou, e eu comi” (Gênesis 3:13). Eva seguiu o mesmo curso e manifesta o mesmo espírito maligno como seu marido. Ela não se humilhou diante do Senhor, não deu nenhum sinal de arrependimento, não fez nenhuma confissão de coração quebrantado. Em vez disso, houve uma vã tentativa de justificar-se, lançando a culpa sobre a serpente. A desculpa ociosa foi essa, pois Deus a havia capacitado a perceber suas mentiras e retidão da natureza para rejeitá-las com horror. Igualmente inútil para os seus filhos implorarem: “Eu não tinha intenção de pecar, mas o diabo me tentou”, pois ele não pode forçar ninguém, nem prevalecer sem o nosso consentimento.

 

Permanecendo diante de seu Juiz, auto-cusados e autocondenados, Ele agora começou a pronunciar a sentença sobre o casal culpado. Mas antes de fazê-lo, Ele lidou com o que havia sido instrumental na sua Queda: “Então o Senhor Deus disse à serpente: Porquanto fizeste isto, maldita serás mais que toda a fera, e mais que todos os animais do campo; sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias da tua vida. E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gênesis 3:14-15). Observe que nenhuma pergunta foi feita à serpente: em vez disso, o Senhor lidou com ela como um inimigo declarado. Sua sentença deve ser tomada literalmente na sua aplicação à serpente, misticamente em relação a Satanás. “As palavras podem implicar uma punição visível a ser executada sobre a serpente, como o instrumento nesta tentação; mas a maldição foi dirigida contra o tentador invisível, cuja abjeta e desgraçada condição, e esforços básicos para encontrar satisfação na realização de outros maus e miseráveis, pode ser figurativamente intimado pelo movimento da serpente sobre seu ventre, e alimentando-se do pó” (Thomas Scott).

 

O Senhor começou Suas denúncias, onde o pecado começou, com a serpente. Cada parte da frase expressa a temível degradação que deve passar a ser a sua porção. Primeiro, ela foi “maldita mais que toda a fera”, a maldição se estendeu a toda a criação, como Romanos 8:20-23 deixa claro. Em segundo lugar, doravante rastejaria no pó; a partir do que se infere que originalmente ela permanecia de pé, compare as nossas observações sobre Gênesis 3:1. Em terceiro lugar, o próprio Deus agora coloca uma inimizade entre ela e a mulher, de modo que, onde houve conversa íntima, agora deve existir aversão mútua. Em quarto lugar, passando da serpente literal para “a antiga serpente, o diabo”, Deus anunciou que ele deve finalmente ser esmagado, e não por Sua mão lidar imediatamente com ele, mas por Alguém de natureza humana, e o que seria ainda mais humilhante, por meio da Semente da mulher. Satanás havia feito uso do vaso mais frágil, e Deus o derrotaria através do mesmo meio! Condensado naquele pronunciamento estava uma profecia e uma promessa, ainda assim, permita ser cuidadosamente notado que ela estava na forma de uma sentença de condenação a Satanás, e não uma declaração graciosa feita a Adão e Eva, dando a entender que eles não tinham nenhum interesse pessoal nesta!

 

8ª Consequência da Queda: Sofrimento físico e morte.

 

As sentenças pronunciadas sobre os nossos primeiros pais não precisam deter-nos, pois sua linguagem é tão clara e simples que elas não precisam nem de explicação nem de comentário. Desde que Eva foi a primeira na transgressão, e tentou Adão, ela foi a próximo a receber a sentença. “E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará” (Gênesis 3:16). Assim, ela estava condenada a um estado de tristeza, sofrimento e servidão. “E a Adão disse: Porquanto destes ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida (definitivamente se opondo à ideia de que, mais tarde, Deus o salvou!); Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo. No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” (Gênesis 3:17-19). Sofrimento, labuta e suor seriam o fardo pesadíssimo sobre o macho. Aqui nós vemos a oitava consequência da Queda: sofrimento físico e morte, “és pó e em pó te tornarás”.

 

9ª Consequência da Queda: O homem e desceu ao nível dos animais.

 

“E chamou Adão o nome de sua mulher Eva (ou seja, “viva”); porquanto era a mãe de todos os viventes” (v. 20). Isto é manifestamente um detalhe comunicado por Deus a Moisés, o historiador, pois Eva não deu à luz a nenhuma criança até que ela e seu marido fossem expulsos do Éden. Parece ser introduzido aqui com o propósito de ilustrar e exemplificar a parte final da sentença proferida sobre a mulher no versículo 16. Conforme Adão tinha feito prova de seu domínio sobre todas as criaturas inferiores (1:28), dando nomes a eles (2:19), de modo que, em sinal de seu domínio sobre sua esposa, ele concedeu um nome sobre ela. “E fez o Senhor Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu” (Gênesis 3: 21). Com que propósito não nos é dito, para que cada leitor fosse livre para formar sua própria opinião. Em face de tudo o que faz diretamente oposição a tal teoria, muitos têm suposto que estas palavras indicam que Deus agora tratou (tipicamente, pelo menos) em misericórdia com o casal caído, e que emblematicamente eles foram vestidos na justiça de Cristo e cobertos com as vestes de salvação. Ao contrário, este escritor vê nela a nona consequência da Queda: que o homem tinha, assim, descido ao nível do animal, observe como em Daniel 7 e Apocalipse 17, onde Deus coloca diante de nós o caráter dos principais reinos do mundo (como Ele os vê), Ele emprega o símbolo das bestas!

 

10ª Consequência da Queda: O homem é banido da presença de Deus e lançado, como um fugitivo, para o mundo.

 

“Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal” (v. 22), esta é obviamente, a linguagem do sarcasmo e ironia: “Veja aquele que de forma vã imaginou que Nos desafiando seria ‘como Deus’ (3:5), agora degradado ao nível das bestas!”. Por isso o Senhor Deus o lançou fora do jardim do Éden, “para lavrar a terra de onde ele fora tomado”, ou seja, ordenou-lhe deixar o jardim. Mas, como Matthew Henry indica, tal ordem não apela de modo algum para o rebelde apóstata. “E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente do jardim do Éden, e uma espada inflamada que andava ao redor, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gênesis 3:24), assim efetivamente impedindo o seu retorno. É aí que vemos a décima consequência da Queda: o homem, um pária de Deus, distante de Seu favor e comunhão, banido do lugar de deleite, lançado um fugitivo para o mundo. Observe como o verso final corrobora nossa interpretação do verso 21. O Senhor não desvia dEle qualquer filho Seu! E este é o ato finalmente registrado de Deus em conexão com Adão! Como Ele expulsou do Céu os anjos que pecaram, assim Ele retirou Adão e Eva do paraíso terrestre, em prova de sua aversão a Ele e alienação dEle.

 

Consequências Para a Humanidade

 

Tendo considerado essas consequências que caíram mais imediatamente sobre os nossos primeiros pais por seu pecado original, vamos agora olhar para aquelas vinculadas sobre os seus descendentes. Também não temos que sair do capítulo 3 de Gênesis para encontrar a prova de que aquelas consequências penais de sua transgressão são visitadas sobre a sua posteridade. O que Deus disse a eles foi dito para toda a humanidade, pois o pecado é comum a todos, assim foi a penalidade também. “E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos” (Gênesis 3:16), e tal tem sido a porção de todas as filhas de Eva. “Maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida […] No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás” (vv. 17, 19), e tal tem sido a porção dos filhos de Adão, em todas as gerações e partes da terra. A calamidade ou mal, que, em seguida, desceu sobre o mundo continua até esta hora: todos os filhos de Adão e Eva estão igualmente envolvidos na sentença da dor do parto, na maldição sobre a terra, na obrigação de viver por meio do trabalho e suor, na decadência e morte do corpo.

 

11ª Consequência da Queda: O homem foi alienado da vida de Deus, tornou-se totalmente depravado e objeto da ira de Deus.

 

Mas deixe ser sinalizado que as coisas que acabei de mencionar acima, embora sejam severas e dolorosas, são triviais em comparação com o julgamento Divino que foi visto sobre a alma do homem, de forma que eles são apenas os sinais exteriores e visíveis da calamidade moral e espiritual que alcançou Adão e a sua raça. Por sua desobediência, ele perdeu o favor de seu Criador, caiu sob Sua santa condenação e maldição, recebeu os salários terríveis de seu pecado, veio para debaixo da penalidade da Lei, foi alienado da vida de Deus, tornou-se totalmente depravado, e como tal, um objeto da aversão do Santo Ser, expulso de Sua presença. Desde que a culpa de seu delito foi imputada ou judicialmente cobrada de todos aqueles que ele representava, segue-se que eles participam de toda a miséria que se abateu sobre ele. A culpa consiste em uma obrigação ou responsabilidade de sofrer a punição por um delito cometido, e isto em proporção ao agravamento da mesma. Em consequência disso, toda criança nasce neste mundo em um estado de pré-natal desgraça e condenação, e com uma total depravação da natureza ou disposição que inevitavelmente conduz à e produz real transgressão, e com uma completa incapacidade da alma para mudar a sua natureza ou fazer qualquer coisa agradável a Deus.

 

12ª Consequência da Queda: A Desgraça de Adão foi passada aos seus filhos, que passaram a ser como ele, inclusive você que está lendo isto agora.

“Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, falando mentiras” (Salmos 58:3). Em primeiro lugar, a partir do momento do nascimento toda criança é moral e espiritualmente alienada do Senhor, um pecador perdido. “Estranhos a Deus e a todo o bem: alienados da vida Divina, e dos seus princípios, poderes e bênçãos” (Matthew Henry). Adão perdeu não somente a imagem de Deus, mas também a Sua graça e comunhão, sendo expulso de Sua presença; e cada um dos seus filhos nasceram fora do Éden, nasceram em um estado de culpa. Em segundo lugar, em decorrência do mesmo, são delinquentes, pervertidos, desde o princípio. Seu próprio ser é contaminado, pois o mal é produzido no osso com eles, a sua “natureza” sendo inclinada somente para a maldade: e se Deus os deixar por si mesmos, eles nunca voltarão daí. Em terceiro lugar, rapidamente eles fornecem a evidência de sua separação de Deus e da corrupção de seus corações, como todos os pais piedosos percebem para a sua tristeza. Enquanto no próprio berço, eles evidenciam a sua oposição à verdade, sinceridade, integridade. “A estultícia está ligada ao coração da criança” (Provérbios 22:15); não “infantilidade”, mas “estultícia”, esta propensão positiva para o mal, a entrada em um curso de impiedade, a formação e seguimento dos maus hábitos “ligada ao coração” apega-se firmemente por meio das correntes invencíveis ao poder humano.

 

Mas em todas as épocas houve aqueles que procuraram atenuar a lâmina afiada do Salmo 58:3, por injustificadamente estreitar seu escopo, negando que ele tem uma ampla aplicação à raça: aqueles que estão determinados a todo custo a se livrarem da intragável verdade da depravação total de toda a humanidade. Pelagianos e Socinianos têm insistido que esse versículo está falando apenas de uma classe particularmente perversa, aqueles que são flagrantemente rebeldes desde tenra idade. Corretamente pontuou John Owen:

 

Não há nenhum propósito em dizer que ele fala somente de homens ímpios, isto é, os que são habitual e libertinamente assim. Pois, seja o que for que qualquer homem possa posteriormente correr por um caminho de pecado, todos os homens são moralmente iguais desde o ventre, e é um agravamento da impiedade dos homens que isso começa tão cedo e se agarra a um curso ininterrupto. As crianças não são capazes de falar a partir do útero, assim que nascem; no entanto, aqui se diz que elas falam mentiras. É, portanto, a atuação perversa da natureza depravada na infância que é intencionada, pois tudo o que é irregular, que não respondem à lei de nossa criação e regra de nossa obediência, é uma mentira.

 

“Éramos por natureza filhos da ira, como os outros também” (Efésios 2:3). Esta afirmação é, se possível, ainda mais terrível e solene do que a do Salmo 58:3. Significa muito mais do que nós nascermos no mundo com uma constituição contaminada, pois não é simplesmente “filhos de corrupção”, mas “da ira”, desagradáveis a Deus, criminosos à Sua vista. A depravação da nossa natureza não é um mero infortúnio; se fosse, evocaria compaixão, e não a ira! A expressão “filhos da ira” é um hebraísmo, algo muito forte e enfático. Na margem de 1 Samuel 20:30, e 2 Samuel 12:5, lemos sobre “o filho da morte”, ou seja, aquele a quem a morte é devida. Em Mateus 23:15, Cristo usou o temeroso termo “filho do inferno” isto é, alguém um cuja porção certa é o inferno; enquanto que em João 17:12, Ele designou Judas de “o filho da perdição”, Divinamente nomeado a isso. Assim, “filhos da ira” conota aqueles que são merecedores da ira, os herdeiros da mesma, adequados a ela. Eles nascem para a ira, e sob ela, como sua herança. Não apenas criaturas contaminadas e corruptas, mas os objetos da indignação judicial de Deus. Mas por quê? Porque o pecado de Adão é imputado a eles, e, portanto, eles são considerados como culpados de terem violado a Lei de Deus.

 

Igualmente enérgicas e explícitas são as palavras “por natureza filhos da ira”, pois isto está em proposital contraste com o que é adquirido artificialmente. Muitos têm insistido (contrários aos fatos da experiência comum e observação) que as crianças são corrompidas pelo contato externo com o mal, que adquirem maus hábitos por imitação dos outros. Não negamos que o ambiente tem uma medida de influência, mas se qualquer bebê for colocado em um lugar perfeito e cercado apenas por seres sem pecado, logo seria evidente que ele era corrupto. Nós não somos depravados por um processo de desenvolvimento, mas por gênese. Não é “por causa da natureza”, mas “por natureza”, por causa do nosso nascimento, isto é inato, gerado em nós. Como Goodwin solenemente expressou: “Eles são filhos da ira, mesmo no útero, antes de cometerem qualquer pecado real”. A própria natureza depravara é um mal penal, e isso é por causa da nossa união federal com Adão, como participantes de sua transgressão. Nós somos os filhos da ira, porque a nossa cabeça federal caiu sob a ira de Deus: “não haveria nenhuma verdade na afirmação de Paulo de que todos são por natureza filhos da ira, se eles já não estivessem sob a maldição antes de seu nascimento” (Calvino).

 

Mas, um maior do que Calvino nos informou: “Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), Foi-lhe dito a ela: O maior servirá ao menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú” (Romanos 9:11-13). Isso remonta ainda mais longe: Esaú foi um objeto do ódio de Deus antes dele nascer. Obviamente, um Deus justo não poderia abominar aquele que é puro e inocente. Mas como poderia ser culpado Esaú antes de fazer qualquer bem ou o mal? Porque ele compartilhava a criminalidade de Adão, e precisamente pela mesma razão todos nós somos por natureza filhos da ira, detestáveis para a Divina punição, não somente em virtude de nossas próprias transgressões pessoais, mas em primeiro lugar por causa da nossa constituição, que é contemporânea com o nosso próprio ser. Somos membros de uma cabeça maldita, ramos de uma árvore condenada, os fluxos de uma fonte contaminada, numa palavra, a culpa do pecado de Adão repousa rígida sobre nós. Nenhuma outra explicação é possível; desde que a nossa culpa e sujeição à punição não são, em primeiro lugar, devido aos nossos pecados pessoais, eles o devem ser por causa do ser de Adão imputado a nós.

 

É pela mesma razão que as crianças morrem naturalmente, pois o pecado não é apenas a ocasião de dissolução física, mas a causa da mesma. A morte é o salário do pecado, a sentença da Lei quebrada, a imposição penal de um Deus justo. Se Adão nunca pecasse, nem ele nem nenhum dos seus descendentes se tornariam sujeitos à morte. A morte é completamente não-natural e anormal para o homem, como a longevidade dos patriarcas evidenciou. Se a culpa pela ofensa de Adão não fosse cobrada de sua posteridade, ninguém morreria na infância. No entanto, isso não implica necessariamente que qualquer um que expire na primeira infância está eternamente perdido. Que eles nasceram neste mundo espiritualmente mortos, separados da vida de Deus, é claro; mas se morrem eternamente, ou são salvos pela soberana graça, é provavelmente uma das coisas secretas que pertencem ao Senhor. Se eles são salvos, deve ser porque eles estão entre o número de eleitos pelo Pai, redimidos pelo Filho e regenerados pelo Espírito, sem o que ninguém pode entrar no Céu; mas a respeito destas coisas, a Escritura parece-nos ficar em silêncio. O Juiz de toda a terra fará o certo, e aqui nós podemos submissamente ainda que confiantemente deixar isso. Paternidade é uma questão inefavelmente solene!

 

Nos versículos de abertura de Efésios 2, o Espírito Santo descreveu nosso estado caído. Em primeiro lugar, como sendo mortos em delitos e pecados (v. 1): mortos judicialmente, sob a sentença da Lei; mortos experimentalmente, sem uma centelha de vida espiritual. Em segundo lugar, a maldição exterior disso é retratada (vv. 2-3): como completamente dominados pela “carne”, ou o mau princípio, inclinado a um caminhar ímpio por Satanás, de modo que cada ação nossa é pecaminosa. Em terceiro lugar, a punição resultante (v. 3): desagradáveis ao Juiz Divino, nascidos em tal condição, e permanecendo assim, enquanto em um estado de natureza. Até que o pecador creia, “a ira de Deus permanece sobre ele” (João 3:36). Embora a sentença ainda não esteja executada, ela está suspensa sobre ele. A palavra “permanece” aqui denota perpetuidade; como Agostinho disse: “Isto esteve sobre ele desde o nascimento, e permanece sobre ele até este dia”. “Filhos da ira, como os outros também”: este é o caso de todos descendentes de Adão, e é igualmente assim. É uma herança comum: por natureza, nenhum homem é melhor ou pior do que seus companheiros. O próprio fato de que esta terrível visitação é universal só pode ser explicada por nossa relação com o primeiro homem, como nossa cabeça da aliança e representante legal.

 

Dificilmente seria justo concluir este capítulo sem fazer alguma observação sobre aqueles que tentam descartar tudo o que tem sido apontado anteriormente por dogmaticamente insistir que “Cristo fez expiação pelo pecado original”, a fim de que a culpa da transgressão de nosso primeiro pai não repouse sobre os seus filhos. Mas tal afirmação arbitrária é manifestamente contrária aos fatos patentes que nos confrontam em cada lado. O julgamento que Deus pronunciou sobre Adão e Eva está tão seguramente sendo visitado sobre seus filhos, hoje como sempre foi antes que o Filho de Deus morresse na cruz. A maldição sobre a terra, os sofrimentos peculiares das mulheres e toda a dor do parto, a necessidade de trabalhar duro pelo nosso pão de cada dia, o reinado universal da morte, incluindo a morte de tantas crianças, são todas exatamente tão evidentes e prevalentes na era do Novo Testamento como sempre foram no Antigo. Mas, obviamente, essas coisas não poderiam ser sãs na visão Arminiana, pois se a culpa pelo pecado original foi removida, os seus efeitos não mais poderiam continuar. Tal afirmação é sem fundamento, não confirmada por uma única declaração clara nas Escrituras, embora alguns façam uma tentativa absurda de comprovar isso, apelando para João 1:29.

 

“No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29). Nós desejamos saber quantos de nossos leitores podem perceber qualquer coisa naquelas palavras que lhes parece tão relevante a ponto negarem o que temos dito. Os homens devem certamente ser firmes ao empregá-lo quando eles insistem nesse versículo a fim de reforçar a sua teoria. O precursor de nosso Senhor apresentou aqui o Messias ao povo naquele caráter sacrificial que tanto o tipo e a profecia os haviam preparado para olharem para Ele, e não levantarem uma questão obscura em teologia, o que não é mencionado em nenhum outro lugar nas Escrituras. Se essas palavras houvessem sido lembradas nas profundas discussões doutrinárias de Paulo, estaríamos prontos a procurar um significado mais profundo nelas, embora nós requereríamos algo mui específico no contexto obrigando-nos a definir “o pecado do mundo” como o pecado de Adão! João foi o arauto de uma nova dispensação: uma que seria radicalmente diferente em seu escopo da anterior, e que deve ser inaugurada por quebrar “a parede de separação que estava no meio” [Efésios 2:14].

 

Por dois mil anos, a graça de Deus havia sido quase totalmente restrita a uma única nação; mas agora ela estava a ponto de fluir para todos. O Batista estava ali anunciando a Cristo como o sacrifício apontado do Céu, que devia expiar o pecado não apenas dos judeus crentes, mas também dos gentios. Embora “o mundo” seja uma expressão geral, não deve ser considerado como compreendendo uma universalidade de indivíduos, como sinônimo de humanidade. É uma expressão indefinida, como “e a glória do Senhor se manifestará, e toda a carne juntamente a verá” (Isaías 40:5) e “toda a carne saberá que eu sou o Senhor, o teu Salvador” (Isaías 49:26). “O pecado do mundo” significa todos os pecados do povo de Deus como um todo coletivo, como um grande e pesado fardo, assim como em Isaías 53:6: “o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos”. Isto é, toda a penalidade e castigo do pecado que Cristo tomou sobre Ele mesmo, e levou de diante do Juiz Divino. Como Hebreus 9:26 nos diz: “Mas agora na consumação dos séculos uma vez se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo”, e desde que o sacrifício foi vicário, é necessariamente removida a culpa de todos aqueles em cujo lugar esse foi feito.

 

A teoria que estamos aqui nos opondo não é apenas sem qualquer evidência bíblica para apoiá-la, mas antes, é refutada por evidências muito consideráveis. Se a atenção for dada às relações que Cristo sustentou por aqueles em cujo lugar Ele obedeceu e sofreu, de uma vez, evidencia-se que Seu trabalho não era uma mera obra indefinida e geral, mas com um propósito específico e restrito. Ele a realizou como um Pastor, no lugar de Suas ovelhas (João 10:11, compare com 10:26), se Ele também morreu pelos bodes e lobos, então não havia nenhum propósito em dizer que Ele deu a Sua vida pelas ovelhas. Essa foi a relação de um Marido que serve (Efésios 5:25-27): aqui há a singeleza de afeto, a exclusividade do amor conjugal! Ele sustentou pelos Seus beneficiários a relação da Cabeça, havendo uma unidade federal e legal entre eles (Hebreus 2:11). A obra redentora de Cristo era como sua túnica, “sem costura”, um todo completo e indivisível, de modo que o que Ele fez por um Ele fez por todos, e não meramente retirou a culpa pelo pecado original.

 

Se fosse verdade que Cristo expiou a ofensa de Adão, então isso seguiria necessariamente que o governo sob o qual a raça humana está agora colocada é um que não reconhece a maldição original. Mas esse está longe de ser o caso. Desde a Queda, até agora, todos nascem mortos no pecado, objetos do desagrado de Deus. Isso é muito evidente a partir do ensino de Romanos 3, onde, em linguagem inequívoca, o mundo inteiro é descrito como estando sob condenação, sendo “condenável diante de Deus” (vv. 10-19), e não apenas uma possível condenação, mas uma condenação real; não uma condenação que poderá ser efetuada, mas que já foi constituída, e sob a qual todos estão vivendo agora; e a única maneira de libertar-se desta é pela fé em Cristo. Precisamente a mesma representação é dada no Novo Testamento da condição de todos quando visitados pela primeira vez pelo Evangelho. Eles são tratados como aqueles que são pecadores, perdidos, vivendo sob a maldição de uma Lei violada, pois, o sombrio plano de fundo do Evangelho é este: “Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça” (Romanos 1:18) e até que se cumpram os termos desse Evangelho, os homens não têm esperança (Efésios 2:12).

 

A própria cena em que nascemos nos confronta com inúmeras evidências de que a Terra está sob a maldição do seu Criador. Para citar J. Thornwell:

 

O aspecto carrancudo da providência, que tantas vezes escurece o nosso mundo e assusta as nossas mentes, recebe a única solução adequada no fato de que a Queda tenha temerosamente modificado as relações de Deus e a criatura. Somos manifestamente tratados como criminosos sob guarda. Somos tratados como culpados, sem fé, seres suspeitos em quem não se pode confiar por um momento. Nossa terra foi transformada em uma prisão, e sentinelas estão postos em torno de nós para nos amedrontar, repreender e vigiar. Ainda assim, existem vestígios de nossa grandeza antiga; há tanta consideração mostrada para nós como para justificar a impressão de que os prisioneiros já foram reis, e que este calabouço fora, uma vez, um palácio. Para alguém não familiarizado com a história da nossa raça, as relações da providência relativas a nós devem parecer inexplicavelmente misteriosas. Mas toda a questão é coberta com luz quando a doutrina da Queda é compreendida. Os mais graves erros teológicos no que diz respeito tanto ao caráter de Deus e ao caráter do homem têm surgido a partir da hipótese monstruosa que nosso presente é a nossa condição primitiva, que somos agora o que Deus originalmente nos fez.

 

 

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