Neste Monte, Por R. M. M’Cheyne

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“E o Senhor dos Exércitos dará neste monte a todos os povos uma festa com animais gordos, uma festa de vinhos velhos, com tutanos gordos, e com vinhos velhos, bem purificados. E destruirá neste monte a face da cobertura, com que todos os povos andam cobertos, e o véu com que todas as nações se cobrem. Aniquilará a morte para sempre, e assim enxugará o Senhor DEUS as lágrimas de todos os rostos, e tirará o opróbrio do seu povo de toda a terra; porque o SENHOR o disse.” (Isaías 25:6-8)

 

Estas palavras ainda devem ser cumpridas na segunda vinda do Salvador. É verdade que o Senhor dos Exércitos tem há muito tempo preparado esta festa, e enviou os seus servos, dizendo: “Vinde, que já tudo está preparado” [Lucas 14:17]. Mas é tão verdadeiro, que o véu que está espalhado sobre todas as nações ainda não está retirado; e Paulo nos diz claramente, em 1 Coríntios 15:54, que é na manhã da ressurreição que estas palavras devem ser totalmente cumpridas: “Tragada foi a morte na vitória”.

 

Ainda, estas palavras têm sido, em alguma medida, cumpridas sempre que houve uma manifestação peculiar do Espírito em qualquer lugar. Muitas vezes, em temporadas sacramentais em nossa própria terra, essas palavras foram cumpridas. Deus fez de Cristo um banquete de animais gordos para as almas famintas. O véu da incredulidade foi arrancado de muitos corações, e as lágrimas enxugadas de muitos olhos. É meu humilde, mas sincero desejo que no próximo dia de Sabath [A Comunhão de Sabath] possa ser um dia assim neste lugar. Quero estimular todos vocês que são filhos de Deus à oração secreta e pública, para que possa ser assim; e eu, portanto, escolhi essas palavras para despertar-vos a orar.

 

I. Considerem a festa. II. O rasgar do véu. III. Os efeitos disso.

 

 

I. A festa.

 

1. Onde ela está? Resposta. “Neste monte”. (1) Moriá? Ah! Foi aqui que Abraão ofereceu Isaque. Foi aqui que o cordeiro pascal costumava ser morto. Foi aqui que Jesus levantou-se e clamou: “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba” [João 7:37]. (2) Monte das Oliveiras? Foi aqui que Jesus disse: “Eu sou a videira verdadeira” [João 15:1]. Foi aqui que Jesus teve o cálice da ira posto diante dEle, naquela noite em que foi traído. (3) Monte Calvário? Foi aqui que eles crucificaram a Jesus e os dois ladrões, um em cada mão. Foi aqui que os transeuntes menearam a cabeça, os príncipes dos sacerdotes escarneciam, e os ladrões lhe lançavam o mesmo em rosto. Foi aqui que houve três horas de trevas. Foi aqui que traspassaram as Suas mãos e pés. Foi aqui que Deus abandonou o Seu próprio Filho. Foi aqui que a infinita ira foi colocada sobre um Salvador infinito: “E o Senhor dos Exércitos dará neste monte a todos os povos uma festa com animais gordos”.

 

Para as almas ansiosas. O mundo tenta animá-los; eles propõem que vocês vão em sua companhia, vejam mais do mundo, desfrutem do prazer, e se afastem desses pensamentos enfadonhos. Eles espalharam uma festa para vocês em algum salão iluminado, com lâmpadas brilhantes, com flauta e tamborim, e vinho em seus banquetes. Oh! alma ansiosa, fuja destas coisas: lembre-se da mulher de Ló. Se você está ansioso pela sua alma, fuja das festas do mundo. Feche os seus ouvidos, e corra. Olhe aqui como Deus tenta animá-lo: Ele também prepara uma festa; mas onde? No Calvário. Não há luz; é tudo escuridão em volta da cruz; nenhuma música, apenas o gemido de um Salvador agonizante: “Eli! Eli! Meu Deus! Meu Deus!” Oh! alma ansiosa, é ali que você encontrará paz e descanso: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” [Mateus 11:28]. A hora mais escura que já existiu neste mundo oferece luz para a alma cansada. A visão da cruz traz consigo a visão da coroa. Aquele suspiro agonizante, que fez as pedras fenderem-se, por si só pode rasgar o véu, e te dar a paz. O Lugar da Caveira é o lugar da alegria.

 

2. O que é isso? Um banquete de animais gordos, de vinhos velhos. (1) Uma festa. Não é uma refeição, mas um banquete. Em uma refeição, é bom se há o suficiente para todos que se sentam ao redor da mesa, mas em uma festa, deve haver mais do que suficiente; há uma abundância liberal. O Evangelho é comparado a um banquete: “Vinde, comei do meu pão, e bebei do vinho que tenho misturado” [Provérbios 9:5].

 

Mais uma vez, em Cântico dos Cânticos: “Levou-me à casa do banquete, e o seu estandarte sobre mim era o amor. Sustentai-me com passas, confortai-me com maçãs, porque desfaleço de amor”. Mais uma vez, em Mateus 22:4: “Dizei aos convidados: Eis que tenho o meu jantar preparado, os meus bois e cevados já mortos, e tudo já pronto; vinde às bodas”.

 

Assim é em Jesus; há pão suficiente e de sobra. Ele veio para que tenhamos vida, e a tenhamos em abundância. Há uma festa em um Jesus crucificado. Sua morte em lugar dos pecadores é o suficiente, e mais do que suficiente, para responder pelos nossos pecados.

 

Isso não é apenas igual à minha morte, mas glorifica muito mais a Deus e Sua santa Lei, do que se eu tivesse sofrido uma centena de mortes: “Consolai, consolai […] que já recebeu em dobro da mão do Senhor, por todos os seus pecados” [Isaías 40:1-2]. Sua obediência em lugar dos pecadores é o suficiente, e mais do que suficiente para cobrir nossa nudez. Não é apenas igual à minha obediência, mas glorifica muito mais a Deus do que se eu nunca tivesse pecado. Sua vestimenta não apenas veste a alma descoberta, mas a veste da cabeça aos pés; de modo que nenhuma vergonha aparece; somente Cristo aparece, a alma está escondida. Seu Espírito não é apenas o suficiente, porém mais do que suficiente, para nos fazer santos. Há um bem em Cristo que nunca pode esgotar, permanecem rios de graça que nunca podem secar.

 

Cristãos, aprendam a alimentar-se mais de Cristo: “Comei, amigos, bebei abundantemente, ó amados” [Cânticos 5:1]. Quando vocês são convidados a uma festa, não há maior afronta que vocês possam colocar sobre o anfitrião do que estar contentes com uma migalha debaixo da mesa. No entanto, esta é a forma como os Cristãos de nossos dias afrontam o Senhor da glória. Oh, quão poucos parecem se alimentar muito em Cristo! Quão poucos parecem revestir-se de Sua veste branca! Quão poucos parecem beber profundamente em Seu espírito! A maioria está contente agora e, depois, com um vislumbre de perdão, uma migalha da mesa e uma gota de Seu Espírito. Despertem, queridos amigos! “Estas coisas vos escrevemos, para que o vosso gozo se cumpra” [1João 1:4].

 

(2). Um banquete de animais gordos, de vinhos velhos.

 

Os animais gordos cheios de medula pretendem representar as iguarias mais ricas e nutritivas; e os vinhos velhos, bem refinados, representam os vinhos mais antigos e ricos; de modo que, não só existe abundância nesta festa, mas a abundância do melhor. Ah! Pois assim é em Cristo. Em primeiro lugar, há o perdão de todos os pecados passados. Ah! Esta é a mais rica de todas as delícias para uma alma oprimida. Como águas frescas para uma alma cansada, assim são as boas novas vindas de terra distante [Provérbios 25:25]. Uma boa consciência é um banquete contínuo. Oh! pecador cansado, prove e veja. “Desejo muito a sua sombra, e debaixo dela me assento; e o seu fruto é doce ao meu paladar” [Cânticos 2:3]. Estas são as maçãs pelas quais uma alma cansada clama: “Confortai-me com maçãs, porque desfaleço de amor” [Cânticos 2:5]. Em segundo lugar, há os sorrisos do amoroso Pai. O próprio Pai conhece você. Oh, passar da carranca de um Deus irado para o sorriso de um Pai amoroso! Isso é uma festa para a alma; isto é passar da morte para a vida. Em terceiro lugar, os derramamentos do Espírito na alma. Ah! É isso que consola a alma. Este é o óleo de alegria, que faz com que o rosto brilhe. Isso faz com que o cálice transborde. Este é o pleno bem se elevando dentro da alma, ao mesmo tempo confortando e purificando. Queridos amigos, não se encham de vinho, no qual há devassidão; mas enchei-vos do Espírito. Estes são os frascos que permanecem na alma. Que você esteja no Espírito no Dia do Senhor.

 

(3). Para quem é isso? A todos os povos. “O evangelho de Cristo […] é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” [Romanos 1:16]. “Ide por todo o mundo, e pregai o Evangelho a toda criatura” [Marcos 16:15]. […]. Não há uma criatura a quem podemos reter a mensagem: “Tudo já pronto; vinde às bodas”.

 

Queridas almas ansiosas, por que vocês continuam longe de Cristo? Vocês dizem que Cristo está longe de vocês; ai! Ele tem estado à sua porta todos os dias. Cristo é tão livre para vocês como para os que sempre vêm até Ele. Venham com fome, venham vazios, tenham pecaminosos, venham como vocês estão, e alimentem-se do glorioso Jesus. Ele é uma festa para a alma faminta.

 

Caras almas mortas, que nunca sentiram um pulsar de ansiedade, que nunca proferiram um sincero clamor a Deus, esta mensagem é para vocês. A festa é para todas as pessoas. Cristo é tão livre para vocês, como para qualquer outro: “Até quando, ó simples, amareis a simplicidade?” “E o Espírito e a esposa dizem: Vem” [Apocalipse 22:17].

 

 

II. O rasgar do véu.

 

1. Observem que há um véu sobre cada coração natural, um véu de espessura impenetrável. (1) Houve um véu no templo na entrada para o santo dos santos, de modo que nenhum olho podia ver a beleza do Senhor no interior (2) Houve um véu sobre o rosto de Moisés, quando desceu do monte, pois algo do resplendor de Cristo brilhou em seu rosto. Quando o véu caiu, eles não podiam ver a sua glória. (3) Assim, há um véu sobre os corações dos judeus até hoje, quando Moisés e os profetas são lidos para eles. (4)  Semelhantemente, há um véu sobre os seus corações de muitos de vocês que estão em seu estado natural; um véu espesso, impenetrável; seu nome é incredulidade. O mesmo véu que escondia a beleza da terra prometida de Israel em Cades-Barnéia, aos “que não puderam entrar por causa da sua incredulidade” [Hebreus 3:19], este véu está posto sobre os seus corações neste dia.

 

Aprenda o grande motivo de sua indiferença em relação a Cristo. O véu está posto sobre o seu coração. Deus pode prover todas as riquezas de Seu peito sobre a mesa: as insondáveis riquezas de Cristo; ao mesmo tempo, enquanto esse véu estiver sobre ti, você não se moverá. Você não vê nenhuma beleza nem formosura em Cristo: “olhando nós para ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos” (Isaías 53:2). “O homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1 Coríntios 2:14).

 

2. Quem rasga o véu? Resposta. O Senhor dos Exércitos; quem faz a festa é aquele que rasga o véu. Ah! é uma obra de Deus tirar essa cobertura. Nós podemos argumentar com vocês até meia-noite, dizendo-lhes do seu pecado e miséria, podemos trazer todas as palavras mais doces na Bíblia para mostrar que Cristo é mais belo do que os filhos dos homens; vocês ainda voltarão para casa e dirão: “Nós não vemos nenhuma beleza nEle”. Mas Deus pode tirar o véu; às vezes Ele faz isso em um momento, às vezes lentamente; então Cristo é revelado, e Cristo é precioso. Não há um de vocês tão mergulhado em pecado e mundanismo, tão desgraçado e leviano nas coisas de Deus, se o seu coração fosse atingido pela visão de um desvelado Salvador. Oh! Pleiteemos essa promessa com Deus: “E destruirá neste monte a face da cobertura, com que todos os povos andam cobertos, e o véu com que todas as nações se cobrem”. Venha e faça-o, Senhor. “Derramarei o meu Espírito sobre vós”. Derrame rapidamente, Senhor.

 

3. Onde? “Neste monte”. No mesmo lugar onde Ele faz a festa; Ele leva a alma ao Calvário. Ah, sim; é na visão do Salvador crucificado que Deus retira cada véu.

 

Almas ansiosas, esperem perto da cruz. Meditem sobre Cristo, e este crucificado. É ali que Deus rasga o véu. Estejam frequentemente no Getsêmani, estejam muitas vezes no Gólgota. Oh! Que no próximo Sabath Ele possa revelar-Se a todos no partir do pão. Tão fácil para mil almas quanto para uma alma!

 

 

III. Efeitos.

 

1. Triunfo sobre a morte. (1) Mesmo aqui, isso é cumprido. Muitas vezes, o medo da morte é tirado naqueles que tremiam diante dela. A alma que realmente teve o véu retirado pode atravessar o vale, se não cantando, pelo menos, humildemente confiando, e pode dizer no final: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito!”. Ah! Nada além de uma visão real de Cristo pode gerar alegria na hora da morte. As pessoas do mundo podem morrer estúpida e insensivelmente; mas somente o Cristão sem véu pode sentir na morte que a dor aguda é retirada. (2) Na ressurreição. Quando seremos semelhantes a Cristo em corpo e alma: “E deu o mar os mortos que nele havia; e a morte e o inferno deram os mortos que neles havia” [Apocalipse 20:13]. “E, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória” [1 Coríntios 15:54].

 

Caros amigos, que cenas solenes estão diante de nós! Ah! Nada além de uma visão de Cristo como nosso próprio Fiador e Redentor pode nos defender, na visão de sepulturas abertas e mundos vacilantes. Devemos lembrar de Suas próprias palavras, e permanecer nelas: Eu os resgatarei da morte. Oh, morte, Eu serei teu infortúnio; Oh, túmulo, Eu serei tua destruição. “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória” [João 17:24].

 

2. Triunfo sobre a tristeza. (1) Mesmo aqui Deus enxuga as lágrimas de convicção, as lágrimas de pecado e vergonha, ao revelar a Cristo. A obra da graça sempre começa em lágrimas; mas quando Deus leva a alma para o Calvário, vejam aqui: Ali os teus pecados são colocados sobre Emanuel; ali o Cordeiro de Deus está lhes tirando-os; ali está todo o inferno que deverias padecer. Oh, quão docemente Deus enxugará as lágrimas! Almas ansiosas, que Deus faça isso por vocês no próximo dia de Sabath! (2) Cumprimento completo, depois. Haverá sempre lágrimas aqui, por causa do pecado, da tentação, da tristeza; mas ali “nunca mais terão fome, nunca mais terão sede; nem sol nem calma alguma cairá sobre eles. Porque o Cordeiro que está no meio do trono os apascentará, e lhes servirá de guia para as fontes vivas das águas; e Deus limpará de seus olhos toda a lágrima” [Apocalipse 7:16-17].

 

3. Triunfo sobre reprovações. Mesmo aqui, Deus ergue o Seu povo acima das reprovações; Ele os capacita a abençoar, e não amaldiçoar: “Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos presiguem” [Mateus 5:44]. Mas ali haverá triunfo completo. Ele purificará o nosso caráter. Aqui podemos suportar reprovações por todo o caminho! Aqui os Cristãos são ofendidos, desprezados, pisoteados; mas Deus os reconhecerá como as Suas joias, por fim. O mundo estará aterrorizado.
 

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