Novo Nascimento, por George Whitefield

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“Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura.” (2 Coríntios 5:17)

 

A doutrina da nossa regeneração ou novo nascimento em Cristo Jesus, embora uma das mais fundamentais da nossa santa religião, embora tão claramente e tantas vezes afirmada nos escritos sagrados, “de modo que até aquele que corre possa ler”, e seja como uma dobradiça na qual a salvação de cada um de nós está firme e se move, e um ponto também em que todos os Cristãos sinceros, de todas as denominações, concordam; ainda assim, é tão pouco considerada e compreendida por experiência pela maioria dos que a professam; de forma que se fôssemos julgar a veracidade disto, pela experiência da maioria dos que se dizem Cristãos, estaríamos aptos a imaginar que “não tinham ouvido tanto” que houvesse algo como a regeneração. É verdade que os homens, em sua maioria, são ortodoxos nos artigos comuns de seu credo; eles creem que “há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo”, e que não há outro nome dado debaixo do céu mediante o qual eles possam ser salvos, além dEle. Mas, então diga-lhes que eles devem ser regenerados, que eles devem nascer de novo, que eles devem ser renovados no próprio espírito, nas faculdades mais íntimas de suas mentes, antes que possam realmente chamar a Cristo de “Senhor, Senhor”, ou tenham uma evidência de qualquer participação nos méritos de Seu precioso sangue; e eles estão prontos para dizer como Nicodemos: “Como pode ser isso?”, ou como os atenienses, em outra ocasião, “Que quer este falador dizer? Parece ser um pregador de doutrinas estranhas”, porque nós lhes pregamos a Cristo, e o novo nascimento. Que eu possa, portanto, contribuir no sentido de sanar o erro fatal de tais pessoas, que separaram o que Deus uniu, e em vão pensam que são justificados em Cristo, ou que têm seus pecados perdoados, e Sua perfeita obediência imputada a eles, quando eles não são santificados, sua natureza não mudou, e não foi feita santa, buscarei explicar as palavras do texto da seguinte maneira:

 

PRIMEIRO, devo esforçar-me para explicar o significado de estar em Cristo: “Se alguém está em Cristo”.

 

EM SEGUNDO LUGAR, o que devemos entender por ser uma nova criatura: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura”.

 

EM TERCEIRO LUGAR, apresentarei alguns argumentos para confirmar a afirmação do apóstolo. E

 

EM QUARTO LUGAR, extrairei algumas conclusões do que foi falado, e concluirei com algumas palavras de exortação.

 

PRIMEIRO, vou esforçar-me para explicar esta expressão do texto: “Se alguém está em Cristo”.

 

Ora, uma pessoa pode estar em Cristo de duas formas.

 

PRIMEIRO: Somente por uma profissão de fé exterior. E neste sentido, todo aquele que é chamado de Cristão, ou batizado numa igreja Cristã, pode dizer que está em Cristo. Mas que este não é o único sentido da frase do apóstolo é evidente, porque, então, todo aquele que profere o nome de Cristo, ou é batizado em Sua igreja visível, seria uma nova criatura. O que é notoriamente falso, estando muito claro, além de toda contradição, que comparativamente poucos daqueles que são “nascidos da água”, são “nascidos do Espírito” da mesma forma; para usar outro meio espiritual de falar, muitos são batizados com água, que nunca foram batizados com o Espírito Santo.

 

Estar em Cristo, portanto, no sentido pleno da palavra, certamente deve significar algo mais do que uma confissão externa, ou ser chamado pelo Seu nome. Pois, como este mesmo apóstolo nos diz: “Nem todos de Israel são israelitas”, e, aplicado ao Cristianismo, nem todos os denominados cristãos são verdadeiros Cristãos. Isso é tão verdadeiro que mesmo o nosso bendito Senhor nos informa que muitos dos que têm profetizado ou pregado em Seu nome e em Seu nome expulsaram demônios e fizeram muitos milagres, não obstante, serão rejeitados no último dia, com um “apartai-vos de mim, não vos conheço, vós que praticais a iniquidade”.

 

Resta, portanto, que esta expressão, “se alguém está em Cristo”, seja entendida em um…

SEGUNDO significado mais restrito, estar nEle a fim de participar dos benefícios de Seus sofrimentos. Estar nEle não só por uma confissão externa, mas por uma mudança interior e pureza de coração, e a coabitação do Seu Espírito Santo. Estar nEle, de modo a ser misticamente unido a Ele por uma fé viva e verdadeira, e, assim, receber virtude espiritual dEle, como os membros do corpo natural fazem a partir da cabeça, ou os ramos da videira. Estar nEle de tal forma que o apóstolo, falando de si mesmo, diz-nos que conheceu uma pessoa: “Conheci um homem em Cristo”, um verdadeiro Cristão; ou, como ele mesmo deseja estar em Cristo, quando ele deseja em sua epístola aos Filipenses, que ele pudesse ser encontrado nEle.

 

Este é sem dúvida o sentido próprio da expressão do apóstolo nas palavras do texto; de modo que o que ele diz em sua epístola aos Romanos sobre a circuncisão, pode muito bem ser aplicada ao presente assunto; que não é um verdadeiro Cristão o que o é apenas exteriormente, nem é verdadeiro o batismo, que o é apenas exteriormente na carne. Mas é um verdadeiro Cristão o que é interiormente, cujo batismo é o do coração, no espírito, e não apenas na água, cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus. Ou, como ele fala em outro lugar, “Nem a circuncisão nem a incircuncisão valem alguma coisa (por si só), mas o ser uma nova criatura”. O que equivale ao que ele declara aqui no versículo agora sob consideração, que, se alguém estiver verdadeira e apropriadamente em Cristo, é uma nova criatura. O que me leva a mostrar,

 

EM SEGUNDO LUGAR, O que devemos entender por ser uma nova criatura.

 

E aqui é evidente à primeira vista, que esta expressão não deve ser entendida como se houvesse necessidade de uma mudança física em nós; ou como se tivéssemos que ser reduzidos à não existência, para depois sermos criados e formados novamente. Pois, supondo que tivéssemos, como Nicodemos ignorantemente imaginado entrar uma “segunda vez no ventre de nossa mãe, e nascer”, ai de mim! No que isso contribuiria para tornar-nos espiritualmente novas criaturas? Uma vez que “o que nasceu da carne continuaria sendo carne”, seríamos as mesmas pessoas carnais de sempre, gerados por pais carnais, e, consequentemente, recebendo deles as sementes de todos os tipos de pecado e corrupção. Não, isso só significa que devemos ser tão transformados quanto às qualidades e temperamentos de nossas mentes, que devemos nos esquecer inteiramente que tipos de pessoas já fomos. Como pode-se dizer de um pedaço de ouro, que foi uma vez foi minério bruto, depois de ter sido limpo, purificado e polido, que é uma nova peça de ouro; como pode ser dito de um copo brilhante que foi coberto com sujeira, quando é limpo, e assim torna-se transparente e claro, que é um copo novo: Ou, como pode-se dizer de Naamã, quando se recuperou de lepra, e a sua carne tornou-se como a carne de uma criança, que ele era um novo homem; assim nossas almas, embora ainda as mesmas quanto à ofensa, mas são tão purificadas e lavadas de sua escória natural, sujeira e lepra, pelas benditas influências do Espírito Santo, que podem ser apropriadamente chamadas de novas.

 

Como essa mudança gloriosa é forjada na alma, não pode ser facilmente explicado: Porque ninguém conhece os caminhos do Espírito senão o Espírito do próprio Deus. Não que isso serviria de argumento contra esta doutrina; pois, como nosso bendito Senhor observou a Nicodemos, quando Ele estava discursando sobre este assunto, “O vento assopra onde quer, e tu ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai”, e se nos é falado das coisas naturais, e nós não as entendemos, como muito menos devemos nos admirar, se não podemos imediatamente explicar as obras invisíveis do Espírito Santo? A verdade da questão é esta: a doutrina da nossa regeneração, ou novo nascimento em Cristo Jesus, é difícil de ser compreendida pelo homem natural. Mas que tal coisa existe, e que cada um de nós deve espiritualmente nascer de novo, nisso devo me esforçar para mostrar sob a minha

 

TERCEIRA afirmação, na qual eu devo apresentar alguns argumentos para confirmar a afirmação do apóstolo.

 

E aqui alguém pensaria que seria suficiente afirmar,

 

PRIMEIRO, que o próprio Deus, na Sua santa palavra, nos falou. Muitos textos podem ser extraídos do Antigo Testamento para provar este ponto e, na verdade, seria de se admirar como Nicodemos, que era um mestre em Israel, e que deveria, portanto, instruir as pessoas no significado espiritual da lei, fosse tão ignorante neste assunto, como vimos que ele realmente era, ao perguntar ao nosso bendito Senhor, quando Ele o estava interrogando sobre este tópico: como pode ser isso? Certamente, ele não poderia se esquecer de quantas vezes o salmista havia implorado a Deus, para fazê-lo “um novo coração” e “renovar um espírito reto dentro dele”; como de igual modo, a frequência com que os profetas tinham avisado as pessoas da necessidade de “novos corações” e novas mentes, e assim se convertessem ao Senhor seu Deus. Mas, para não mencionar apenas estes e outros como textos do Antigo Testamento, esta doutrina é tão frequente e claramente repetida no Novo, que, como observei antes, até aquele que passa correndo pode ler. Pois, o que diz o grande Profeta e Instrutor do mundo: “Aquele (todo aquele que é, naturalmente, da descendência de Adão) que não nascer de novo da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus”. E para que não desprezemos esta afirmação, e como Nicodemos, rejeitar a doutrina, porque não podemos explicá-la imediatamente “Como pode ser isto?”, nosso bendito Mestre, portanto, afirma, por assim dizer, por um juramento: “Em verdade, em verdade, vos digo”, ou, como pode ser lido, Eu o Amém; Eu que sou a própria verdade, vos digo, que é o desígnio inalterável de Meu Pai celestial, que ‘se alguém não nascer de novo, não pode entrar no reino de Deus’”.

 

Confirmando isto, temos muitas passagens que se encontram nas epístolas, onde somos ordenados a ser “renovados no Espírito”, ou, como foi antes explicado, nas faculdades mais íntimas de nossas mentes; para “nos despirmos do velho homem, que se corrompe; e para nos revestirmos do novo homem, que é criado segundo Deus, em verdadeira justiça e santidade”; que “as coisas velhas devem passar, e que todas as coisas devem tornar-se novas”, que sejamos “salvos pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo”. Parece-me que nenhuma outra passagem além das palavras do texto, seria completa o suficiente, uma vez que o apóstolo afirma nele de forma positiva, que “Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura”.

 

Ora, o que pode ser entendido por todos esses diferentes termos sobre nascer de novo, ou despir-se do velho homem, e revestir-se do novo, de ser renovado no espírito de nossas mentes, e tornar-se novas criaturas; mas esse Cristianismo exige uma completa e verdadeira mudança interior no coração? Será que achamos que estas formas de falar são meras metáforas, palavras vazias, sem qualquer significação sólida real? Na verdade, receio que alguns homens as tenham interpretado desse modo; mas, ai deles! homens infelizes! Eles não devem ser invejados por sua interpretação metafórica: espero que não interpretem assim sua salvação.

 

Multidões de outros textos podem confirmar essa mesma verdade; mas aqueles já citados são tão claros e convincentes, que se poderia imaginar que ninguém deva negá-la; não nos disseram que há alguns “que tendo olhos, não veem, e ouvidos, não ouvem, e que não entenderão com o coração, ou ouvirão com os ouvidos, para que não se convertam, e Cristo os cure”?

 

Mas, eu prossigo para um SEGUNDO argumento; e este será construído a partir da pureza de Deus, e o presente estado corrupto e contaminado da humanidade.

 

Deus é descrito na Sagrada Escritura (e eu falo para aqueles que professam conhecer a Escritura) como um Espírito; como um Ser de tal santidade infinita, de “olhos tão puros de não pode contemplar a iniquidade”, tão transcendentemente santo, que é dito “os próprios céus não são puros aos seus olhos; e aos anjos Ele atribui loucura”. Por outro lado, o homem é descrito (e cada pessoa regenerada descobrirá que é verdade por experiência própria) como uma criatura totalmente “concebida e nascida em pecado”, como tendo “nenhum bem habitando nele”, como sendo “carnal, vendido sob o pecado”; ou melhor, como tendo “uma mente que está em inimizade com Deus” e coisas semelhantes. E uma vez que existe uma disparidade tão infinita, pode-se conceber como alguém imundo, corrompido, desgraçado e impuro pode habitar com um Deus infinitamente puro e santo, antes de ser transformado e feito em alguma medida semelhante a Ele? Pode Ele, que é tão puro de olhos de não pode contemplar a iniquidade, habitar com o homem? Pode Ele, a cujos olhos os céus são impuros, deleitar-Se em habitar com a própria impureza? Não, a luz não pode ter comunhão com as trevas, ou Cristo ter parte com Belial. Mas eu passo para um

 

TERCEIRO argumento, que se baseia na consideração da natureza da felicidade que Deus tem preparado para aqueles que sinceramente O amam.

Introduzir de fato em uma minuciosa descrição do Céu seria vão e presunçoso, uma vez que nos é dito que “o olho não viu, e o ouvido não ouviu, nem penetrou no coração do homem conceber as coisas que estão preparadas” para os seguidores sinceros do santo Jesus, tanto nesta vida, e ainda mais na que está por vir. No entanto, podemos nos aventurar a afirmar que como Deus é Espírito, a felicidade que Ele estabeleceu para o Seu povo é espiritual da mesma forma; e, consequentemente, a menos que nossas mentes carnais sejam transformadas e espiritualizadas, nunca poderemos ser feitos participantes da herança com os santos na luz.

 

É verdade que podemos nos bajular, supor que continuaremos no nosso estado corrupto natural, e seguiremos todas as nossas paixões, e desfrutaremos do céu, pois Deus nos receberia nele. E assim poderíamos, como se fosse um paraíso maometano, desfrutar plenamente de prazeres sensuais. Mas desde que as Suas alegrias são apenas espirituais, e nada impuro pode eventualmente entrar naquelas mansões abençoadas, há uma necessidade absoluta de sermos transformados, e passarmos por uma reforma total de nossas naturezas depravadas, antes de podermos experimentar dos prazeres celestiais.

 

É sem dúvida, por esta razão, que o apóstolo afirma o decreto irrevogável do Todo-Poderoso, que “sem santidade (sem ser feito puro pela regeneração, e ter a imagem de Deus impressa sobre a alma) ninguém poderá ver o Senhor”. E é muito observável que o nosso Mestre Divino, na famosa passagem antes referida, a respeito da necessidade absoluta de regeneração, não diz, se alguém não nascer de novo, NÃO DEVE, mas “a menos que um homem nasça de novo, ele NÃO PODE entrar no reino de Deus”. Isso é fundamentado na própria natureza das coisas, que, se não houver disposições adequadas em nós para os objetos que existem para fruirmos, não podemos ter nenhuma forma de complacência ou satisfação neles. Por exemplo; que prazer pode a música mais harmoniosa dar ao surdo, ou que prazer a mais excelente imagem pode dar a um cego? Pode um paladar sem gosto saborear as iguarias mais preciosas, ou um porco imundo estar satisfeito com o melhor jardim de flores? Não: e que razão pode ser atribuída a isso? Há resposta pronta; é porque eles não têm nenhuma correspondência de acordo com o que lhes foi apresentado. E assim é com o futuro da alma, pois a morte não faz mais alterações na alma, além ampliar suas faculdades, e torna-a capaz de receber impressões mais profundas tanto de prazer ou de dor. Se há prazer em conversar com Deus aqui, ela será transportada com a visão de Sua gloriosa Majestade. Se ela estava satisfeita com a comunhão dos santos na terra, estará infinitamente mais com a comunhão e a sociedade dos santos anjos e os espíritos dos justos aperfeiçoados no céu. Mas se o oposto de tudo isso for verdade, podemos nos assegurar que a alma não poderia ser feliz, e nem o próprio Deus a admitiria (isso Ele nunca fará) nas regiões dos bem-aventurados. Mas é hora de me apressar para o

 

QUARTO argumento, porque a redenção de Cristo não será completa em nós, a menos que sejamos novas criaturas.

 

Se refletirmos de fato no principal fim da primeira vinda do nosso bendito Senhor, vamos descobrir que era para ser a propiciação pelos nossos pecados, para dar a Sua vida em resgate de muitos. Mas então, se os benefícios da morte do nosso amado Redentor não se estendessem para mais longe do que apenas obter o perdão de nossos pecados, deveríamos ter pouquíssimo motivo para nos alegrar nela, como um pobre criminoso condenado que está prestes a perecer por alguma doença fatal teria em receber o perdão do seu juiz. Pois, os Cristãos fariam bem em considerar que não há apenas um obstáculo legal para a nossa felicidade, como transgressores da lei de Deus, mas também uma impureza moral em nossas naturezas, o que nos torna incapazes de apreciar o céu (como outros já provaram) até que alguma grande mudança tenha sido operada em nós. É necessário, portanto, a fim de fazer a redenção de Cristo completa, que devemos ter uma concessão do Espírito Santo de Deus para mudar nossa natureza, e assim preparar-nos para apreciar aquela felicidade que o nosso Salvador comprou com Seu precioso sangue.

 

Assim, as Escrituras Sagradas nos informam que, quem Cristo justifica, ou aqueles cujos pecados Ele perdoa, e a quem Ele imputa a Sua obediência perfeita, a estes também santifica, purifica e limpa, e muda totalmente suas naturezas corrompidas. Como diz a Escritura também em outro lugar: “Cristo é para nós justificação, santificação, e redenção”. Mas,

 

EM QUARTO LUGAR, prosseguimos agora para a próxima coisa proposta, extrair algumas inferências a partir do que foi anunciado, e

 

PRIMEIRO, se aquele que está em Cristo é uma nova criatura, isso pode servir como uma reprovação para aqueles que descansam em um desempenho de obrigações exteriores, sem perceber qualquer mudança interna real do coração.

 

Podemos observar um grande número de pessoas muito pontuais nas reuniões de oração pública e privada, e igualmente recebem a santa ceia, e talvez façam jejum. Mas aqui está a desgraça, eles descansam apenas no uso dos meios da graça, e pensam que fizeram tudo quando cumpriram as instituições sagradas; de fato, eles foram certamente informados que deveriam considerar que todos os meios instituídos de graça, como oração, jejum, ouvir e ler a Palavra de Deus, receber o santíssimo sacramento, e semelhantes, não são mais aproveitáveis para nós, a menos que nos façam interiormente melhores, e auxiliem a vida espiritual na alma.

É verdade, eles são meios; mas eles são apenas meios; eles são parte, mas não o todo da religião: senão, quem seria mais religioso do que o fariseu? Ele jejuava duas vezes na semana, e dava o dízimo de tudo o que possuía, e ainda assim não foi justificado, como nosso próprio Salvador nos informa, aos olhos de Deus.

 

Você talvez, como o fariseu, pode jejuar com frequência, e fazer longas orações; você pode, como Herodes, ouvir bons sermões de boa vontade. Mas, ainda assim, se você continuar vaidoso e fútil, imoral ou mundano, e se diferenciar do restante de seus próximos apenas por ir à igreja, ou no cumprimento de alguns atos exteriores, você está melhor do que eles? Não, de modo algum; você é, de longe, muito pior: porque se você usa os meios, e ao mesmo tempo abusar deles, você incentiva assim os outros a pensarem que não há proveito neles e, portanto, deve esperar receber maior condenação. Mas,

 

EM SEGUNDO LUGAR, se aquele que está em Cristo é uma nova criatura, então isto pode evidenciar a presunção infundada de uma outra classe de professos que descansam na obtenção de algumas virtudes morais, e falsamente imaginam que são bons Cristãos se eles fazem apenas os seus deveres, são moderados em sua dieta, e não machucam ou agridem a qualquer homem.

 

Mas se isso era tudo o que é requisitado para tornar-nos Cristãos, por que os pagãos da antiguidade não poderiam ser bons Cristãos, que eram notáveis por essas virtudes? Ou São Paulo antes de sua conversão, que nos diz que viveu com toda a boa consciência? Mas o encontraremos renunciando a toda a dependência das obras desta natureza, e apenas desejando ser encontrado em Cristo, e conhecer o poder da Sua ressurreição, ou ter uma prova experimental de receber o Espírito Santo, obtido para ele pela morte, e assegurado e aplicado a ele pela ressurreição de Jesus Cristo. O resumo questão é este: o Cristianismo inclui a moralidade, como a graça inclui a razão; mas se somos apenas meros moralistas, se não formos interiormente forjados e transformados pelas poderosas operações do Espírito Santo, e nossas ações morais não procederem a partir de um princípio de uma nova natureza, embora possamos chamar-nos Cristãos, seremos achados nus no grande dia, e contados com  as pessoas que não têm a justiça de Cristo imputada a eles para a sua justificação, nem santidade suficiente em suas almas como consequência disso, a fim de fazê-los encontrar a fruição de Deus. Nem,

 

EM TERCEIRO LUGAR, esta doutrina condenará menos aqueles que descansam em uma mudança parcial de si mesmos, sem experimentar uma verdadeira mudança no coração.

Um pouco de familiaridade com o mundo nos fornecerá casos de não poucas pessoas que, talvez, foram antes abertamente profanas; mas, vendo as consequências danosas de seus vícios, e os muitos inconvenientes mundanos a que estes se reduziam, ficam, por assim dizer, mais civilizados; e, logo após lisonjearem-se de que eles são muito religiosos, porque eles diferem um pouco dos seus antigos eus, e não são tão escandalosamente maus quanto eram: enquanto que, ao mesmo tempo, eles têm um pecado secreto ou outro escondido, algumas amadas Dalilas ou Herodias, que eles não deixarão; algum desejo oculto que eles não mortificarão; algum hábito vicioso que eles não buscarão erradicar. Mas tu devias saber, ó homem vão, sejas tu quem for, o que o Senhor teu Deus requer de ti? Tu deves ser informado de que nada menos do que uma conversão completa vai habilitar-te para o reino dos céus. Não é o suficiente mudar da profanação à civilidade; mas tu deves passar da civilidade à piedade. Não somente algumas, mas “todas as coisas devem ser feitas novas” na tua alma. Vai valer-te pouco fazer muitas coisas, se ainda alguma outra coisa te falta. Em suma, tu não deves ser apenas quase, mas completamente uma nova criatura, ou em vão tu te gabarás de que és um Cristão.

 

EM QUARTO LUGAR, se aquele que está em Cristo é uma nova criatura, então isto pode ser prescrito como uma regra infalível pela qual cada pessoa de qualquer denominação, idade, grau ou qualidade, deve julgar-se; esta será a única base sólida sobre a qual podemos construir uma garantia bem fundamentada de perdão, paz e felicidade.

 

Podemos, de fato, depender da cana quebrada de uma profissão exterior; podemos pensar que somos bons o suficiente, se levarmos vidas morais sóbrias, honestas, como muitos pagãos fazem. Podemos imaginar que estamos em condições de segurança, se participamos dos ofícios públicos da religião, e se formos constantes nos nossos deveres? Mas a menos que tudo isto leve a reformar nossas vidas, e mudar os nossos corações, e são somente usados como tantos meios da graça Divina, como eu disse antes, então eu digo mais uma vez, o Cristianismo de nada aproveitará a você.

 

Que cada um de nós, portanto, coloquemos seriamente esta questão aos nossos corações: Temos recebido o Espírito Santo desde que cremos? Será que somos novas criaturas em Cristo, ou não? Pelo menos, se não somos assim, é nosso esforço diário nos tornarmos como tal? Estamos constantemente e conscientemente utilizando todos os meios de graça necessários? Jejuamos, vigiamos e oramos? Será que procuramos, não preguiçosamente, mas laboriosamente, nos esforçar para entrar pela porta estreita? Em suma, podemos renunciar a nossa própria justiça, tomar nossa cruz e seguir a Cristo? Se assim for, estamos nesse caminho estreito que conduz à vida; a boa semente é semeada em nossos corações, e, se devidamente regada e alimentada por um uso perseverante e regular de todos os meios de graça, crescerá para a vida eterna. Mas, pelo contrário, se só temos ouvido, e conhecemos não experimentalmente se há algum Espírito Santo; se nós somos estranhos ao jejum, à vigília e à oração, e a todos os outros exercícios espirituais de devoção; se estamos contentes em andar no caminho largo, simplesmente porque nós vemos a maioria das outras pessoas fazê-lo, sem refletir se está certo ou não; em suma, se somos estrangeiros, inimigos da cruz de Cristo, de mentalidade mundana, de prazer sensual, e, assim, fazemos os outros pensarem que o Cristianismo é apenas um nome vazio, uma profissão de fé meramente formal; se for este o caso, eu digo, é como se Cristo tivesse morrido em vão para nós; estamos sob a culpa de nossos pecados; e não estamos familiarizados com uma conversão verdadeira e completa.

 

Mas amados, de vocês espero coisas melhores, e coisas que acompanham a salvação, ainda que assim falamos; eu humildemente espero que você esteja sinceramente convencido de que aquele que não tem o Espírito de Cristo não é dEle; e que, a menos que o Espírito, que ressuscitou Jesus dentre os mortos, habite em vós aqui, vossos corpos mortais não serão vivificados pelo mesmo Espírito para habitar com Ele daqui por diante.

Deixem-me, portanto, (como foi proposto em ÚLTIMO lugar) sinceramente exortar-lhes, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, a agirem em conformidade a essas convicções, e vivam como Cristãos, como ordenado na Sagrada Escritura, “e vos revistais do novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e santidade” [Efésios 4:24].

 

Deve ser reconhecido de fato, que esta é uma grande e difícil obra; mas, bendito seja Deus, não é impossível. Muitos milhares de almas felizes têm sido assistidos por um poder divino, e por que devemos desistir do sucesso? Está a mão de Deus encolhida, para que não possa salvar? Ele foi o Deus de nossos pais, e não é o Deus de seus filhos também? Sim, sem dúvida, de seus filhos também. É uma tarefa que da mesma forma nos causará alguma dor; obrigará a separar-nos de algum desejo, a rompermos com algum amigo, a mortificarmos alguma paixão que pode muito ser querida para nós, e talvez tão difícil de abandonarmos, como cortar a mão direita, ou arrancar um olho direito. Mas o que importa tudo isso? Será que ser feito um verdadeiro membro vivo de Cristo, um filho de Deus, e um herdeiro do reino dos céus, abundantemente não restaura todo este problema? Sem dúvida que sim.

 

A permanência no grande e necessário trabalho talvez possa, ou melhor, certamente irá expor-nos também ao ridículo em relação à parte não pensante da humanidade, que vai se admirar de que não iremos para o mesmo desenfreamento dissoluto deles; e porque negamos nossos apetites pecaminosos, e não estamos conformados com este mundo, sendo ordenados pelas Escrituras, e temos a nossa conversa no céu, em oposição ao outro tipo, eles podem nos considerar nossas vidas loucas, e nosso fim pode ser sem honra. Mas, o ser contado entre os santos, e o brilhar como estrelas para todo o sempre, não recompensará mais do que suficientemente para todo o ridículo, calúnia, ou reprovação que possamos eventualmente encontrar por aqui?

Na verdade, se não houve outra recompensa para uma conversão verdadeira, senão a paz de Deus, que é sua consequência inevitável, e que, mesmo nesta vida “excede todo o entendimento”, devemos ter um grande motivo para nos alegrar. Mas quando consideramos que esta é a menor dessas misericórdias que Deus tem preparado para aqueles que estão em Cristo, e se tornam novas criaturas; que este é apenas o início de uma eterna sucessão de prazeres; que o dia da nossa morte — o que os não-convertidos, pecadores não-regenerados devem temer muito —, será, por assim dizer, o primeiro dia de nosso novo nascimento, e abre-nos uma cena eterna de felicidade e conforto; em suma, se nos lembrarmos que os regenerados e nascidos de novo têm um título real para todas as gloriosas promessas do Evangelho, e são infalivelmente certos de serem tão bem-aventurados, tanto aqui e no futuro, quanto um todo-sábio, todo-gracioso, todo-poderoso Deus pode torná-los; penso que cada um que tem pelo menos preocupação com a salvação de sua alma preciosa e imortal, tendo tais promessas, tal esperança, como uma eternidade de felicidade definida diante dele, nunca deveria deixar de buscar, orar e esforçar-se, até que encontre uma mudança interna, real, e salvífica em seu coração, e, assim, tenha conhecimento de uma verdade, que ele habita em Cristo, e Cristo nele; que é uma nova criatura, portanto, um filho de Deus; que já é um herdeiro, e que será um verdadeiro possuidor do reino do céu.

 

Que o Deus de infinita misericórdia nos ajude, por Jesus Cristo nosso Senhor.

 

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