Decadência Espiritual, por Robert Murray M´Cheyne

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“… também as cãs se espalharam sobre ele, e não o sabe”. (Oséias 7:9)

 

Estas palavras descrevem um estado de apostasia secreta, o mais perigoso, talvez. É comum as pessoas envelhecerem e ficarem grisalhas sem perceberem. A maioria das pessoas não está disposta a pensar na velhice. Elas não gostam de observar o progresso da decadência, e as marcas da velhice lhes passam despercebidas. Os dentes caem um a um, a mão perde a sua firmeza, os membros perdem sua elasticidade, o olho torna-se fraco, cabelos brancos aparecem aqui e ali sobre a cabeça, e nos encurvamos por causa da velhice antes de nos darmos conta disso. Assim é com a decadência da alma nas coisas Divinas.

 

É uma das verdades mais solenes e emocionantes que a vida de Deus na alma está sujeita a murchar e decair, mas não pode morrer. Se Deus uma vez deu vida espiritual à alma, eu sei que Ele vai mantê-la para a glória eterna. “O Senhor aperfeiçoará o que me diz respeito. Não desampares as obras das tuas mãos” (Salmo 138:8). Mas isso ainda é passível de muitas e tristes quedas. Isto é claro a partir da Escritura. Deus diz: “Eu mesmo te plantei como vide excelente, uma semente inteiramente fiel: como, então, te tornaste uma planta degenerada, de vide estranha para mim?” (Jeremias 2:21). “Voltai, ó filhos rebeldes, diz o Senhor, pois eu vos desposei” (Jeremias 3:14). “O meu povo é inclinado a desviar-se de mim” (Oséias 11:7). “Tenho, porém, contra ti, que deixaste o teu primeiro amor” (Apocalipse 2:4).

 

Ai de mim! Meus amigos, isso é evidente a partir de nós mesmos. Embora eu louve a Deus porque Ele parece estar multiplicando a Igreja, mesmo entre vocês, “os que serão salvos”, embora alguns de vocês pareçam estar indo de força em força, de quantos se pode dizer: “também as cãs se espalharam sobre ele, e não o sabe”. Quantos perderam seu gosto pela casa de Deus! Não é mais como nos dias passados. A noite de quinta-feira não é tão valorizada como era antes; a reunião de oração é raramente ou nunca frequentada; as companhias do mundo são mais procuradas; a companhia de Cristo menos estimada. Há menos zelo pela conversão dos outros, menos oração, menos louvor, menos liberalidade. Ah! irmãos, nós, como uma congregação, somos um monumento que mostra que existe tal coisa como a decadência espiritual.

 

Com que seriedade vocês já ouviram a Palavra de Deus! Vocês não perdiam uma oportunidade, na semana ou aos Sabaths. Vocês ouviam como por suas vidas. Seus louvores já foram mais plenos e mais fervorosos do que são agora. Com quanto cuidado vocês estavam entesourando a Palavra; repetindo-a para si mesmos, e seus filhos, e seus companheiros! Como eram fervorosos em suas orações! Em muitos de seus corações temo que devemos escrever “Icabode, a glória se foi”.

 

Outro fato solene é que essa decadência é sempre secreta e despercebida. É como a aproximação da velhice. “Também as cãs se espalharam sobre ele, e não o sabe”. As pessoas mais velhas nunca observam o avanço gradual da velhice. Em geral, eles não gostam de pensar em seu envelhecimento. Assim é com a decadência da alma de um crente. Ela continua secreta e silenciosamente; os olhos da fé tornam-se mais e mais escuros; a mão perde a sua firmeza; a alma perde seu encanto na obra consumada de Emanuel: e ainda assim ela não sabe. Concessões ao pecado roubam a alma. “Também as cãs se espalharam sobre ele, e não o sabe”.

 

I. Marcas: alguns dos “cabelos grisalhos”.

 

1. A Bíblia negligenciada. Quando uma alma é inicialmente trazida a Cristo, ela se deleita com a Palavra de Deus; tem apetite por ela “como um bebê recém-nascido”. Assim como uma criança tem um constante apetite pelo leite de sua mãe, assim é a alma pela Palavra. Ela tem compreensão espiritual da Palavra. Tudo parece doce e fácil; tudo testifica de Jesus. A alma apreende o sentido, sinceramente pergunta aos ministros e a outros, o significado de passagens difíceis. Ela tem crescimento: “Que vos seja dado crescimento”. Considera-se ser a alimentação diária da alma, a espada para afastar a tentação. Que diferença na decadência! Não há gosto pela Palavra. Ela pode ser lida como um dever, ou como uma tarefa pesada; não há mais encanto. Outros livros são mais preferidos do que a Bíblia. Não há crescimento no conhecimento da Palavra; não há mais aplicação; ela não é recebida com mansidão; não há lembrança do Capítulo lido na parte da manhã; não é respondido a Satanás: “Assim está escrito” e “Assim diz o Senhor”. Ah! meus amigos, como o ouro torna-se obscurecido! “Também as cãs se espalharam sobre ele, e não o sabe”.

 

2. A oração negligenciada. “Eis que ele está orando”, foi a primeira marca de que Paulo foi trazido da morte para a vida. A alma goza de grande proximidade com Deus, entra dentro do véu, deita-se aos pés de Jesus, e derrama seus gemidos e lágrimas ali. O crente se levanta, como o seu Senhor, de manhã muito cedo, acorda no meio da noite, clama em secreto a Deus; antes de entrar na companhia, ou de encontrar um amigo, ou de responder a uma proposta, o coração voa para o propiciatório; para orar sem cessar. Ele se derrama, chorando por libertação do pecado — o pecado que mais o tenta, e contra o qual ora mais. Suas intercessões pelos outros eram profundas, constantes. Antes era doce e fácil orar pelos outros: “E quanto a mim, longe de mim que eu peque contra o Senhor, deixando de orar por vós”. Tudo isso muda secretamente. A alma está longe de Deus, sem colocar orações no incensário de ouro, entrando no interior do véu, aproximando-se. Não levanta mais cedo para orar, não clama à noite, nenhuma oração em emergências repentinas. Nós agora frequentemente respondemos propostas em nosso próprio espírito, sem pedir o conselho do Senhor. Agora oramos pouco contra o pecado! Não temos coragem de orar contra algum pecado, ou oramos fracamente, e sem resolver abandoná-lo. Pouca intercessão agora, há poucos amigos não-convertidos em nosso coração diante de Deus, pouca oração pela Igreja, pelos judeus e pagãos. Ah! estes são alguns dos cabelos grisalhos.

 

3. Cristo pouco estimado. Quando conhecemos Cristo o Senhor, soubemos que Ele é tudo em todos. Ele é a Fonte para [purificação do] pecado, onde estamos lavando constantemente as nossas almas do pecado e da imundícia. Em Suas vestes brilhantes e brancas estamos escondendo continuamente nossas almas nuas. Ele é a Rocha, dando a água viva, que sempre nos acompanha. Ele é o Marido compassivo e Irmão mais velho em quem nos encostamos vindo do deserto. Ele é o nosso Rei, a cujos pés o nosso coração está curvado, para que Ele possa reinar sobre ele para todo o sempre. Quando há decadência não é assim. Há muita culpa na consciência, mas poucos que correm para a Fonte; há uma dúvida e desgosto pelo caminho da salvação por Cristo. Há poucos escondidos debaixo da justiça sem as obras. Há poucos bebendo da Rocha, que parece seca, ou que fomos removidos dela. Não há descanso em Cristo, não se sente Sua presença, de noite e de dia. Ah! esta é uma marca triste dos cabelos grisalhos.

 

4. Pecado não curado. Quando conhecemos o Senhor, como o pecado parecia? Tivemos descobertas terríveis da excessiva malignidade do pecado. Parecia mau e amargo; o fardo que havia esmagado o Senhor Jesus ao mais profundo do Inferno, nós não o podíamos suportar; fugíamos da tentação de todo o coração; estávamos perfumados (Isaías 11:3) no temor do Senhor. Como aqueles animais que emanam rapidamente cheiro, assim a nova criatura facilmente percebe a aproximação do pecado, e foge dele. Agora temos pouca convicção de pecado. Os olhos secos em confissão, pouca confissão, ou nenhuma; nenhum momento separado para a confissão de pecado. Temendo pouco a tentação, a alma torna-se mais e mais ousada ​​em sua aproximação do pecado.

 

5. Cristãos desprezados. Por amarmos a tudo o que o Senhor amou; toda a nossa alegria estava neles, a marca que Cristo deixou como marca de um verdadeiro discípulo aplicada a nós: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (João 13:3-5). Tínhamos tudo em comum com eles, de modo que nenhum deles poderia estar necessitado; nos exortávamos todos os dias, como o ferro afia o ferro; nós não suportaríamos pecado sobre nosso irmão; falávamos com tal amor, e franqueza e humildade, que não poderiam ficar ofendidos. Agora olhamos para eles com frieza; não somos tão íntimos com eles, tememos que eles vejam a nossa culpa. Nós não somos tão cuidadosos com os santos pobres como antes; jurávamos para nossa própria dor, e começamos a mudar; nós não nos exortamos uns aos outros diariamente; quando nos reprovam, ficamos com raiva, e não reprovamos com amor, mas com um espírito amargo, ou falamos mal deles pelas costas.

 

6. Ímpios não avisados. Antes chorávamos por eles em secreto, suplicávamos a Deus noite e dia pela sua conversão, abominávamos seus caminhos: “Odeio a obra daqueles que se desviam; não se me pegará a mim” (Salmo 101:3). Agora nossas entranhas não anseiam por eles, pouca ou nenhuma oração pela sua conversão; agora, talvez, culposamente, rimos dos seus maus caminhos. Se não participamos, pelo menos não os reprovamos.

 

II. Causas da decadência.

 

1. Luxúria dominante. Desse modo, com Israel: “Todos eles são adúlteros; são semelhantes ao forno aceso pelo padeiro” (Oséias 7:4), foi a causa da decadência de Israel. Assim será com você e comigo. A cobiça pelo dinheiro, uma luxúria sensual, um desejo de louvor ou prazer, se presente e prevalecente, fará toda a alma murchar. Por um tempo você começa a lutar contra ela; então sua oposição enfraquece; então você oferece desculpas para ela; então você a esconde de si mesmo, mas ainda obedece ao seu poder. Isto traz culpa para a consciência; tira o prazer da Bíblia e faz você cansado do propiciatório. Isso faz com que o santo Salvador seja pouco valorizado; isso faz com que o pecado seja pouco odiado, os Cristãos evitados, e não se tenha piedade dos ímpios. Oh, meus irmãos! Devemos ser ou inimigos de todo o pecado, ou seremos decadentes, ramos murchos. Um desejo nutrido em seu coração será uma víbora em seu seio.

 

2. Companhias mundanas. “Efraim se mistura com os povos” (Oséias 7:8). Este foi o caráter peculiar dos judeus: “eis que este povo habitará só, e entre as nações não será contado” [Números 23:9]; mas quando eles misturaram-se entre as nações, então cabelos grisalhos começaram a aparecer. Assim é com os Cristãos, eles são um povo peculiar. Jesus disse a respeito deles: “Não são do mundo, como eu do mundo não sou” [João 17:16]. Somos tão completamente separados do mundo, como Cristo foi; temos sangue em sobre nós, e o Espírito Santo em nós; temos alegrias e tristezas peculiares; nós somos um povo de oração, um povo de louvor. Mas no momento em que começamos a nos misturar com os ímpios, cabelos grisalhos começam a aparecer: as nossas almas murcham.

 

Não me entenda mal. Se Deus o colocou em uma família ímpia, onde Deus não é adorado; onde o Seu santo nome é blasfemado; onde a Sua Palavra não é lida; onde os seus ouvidos são perturbados com a conversa suja dos ímpios; não desanime. Este é a sua prova peculiar; e o Deus que provê, dará graça a cada dia. Mas se você escolher um lugar onde Deus não está; se você escolher companheiros que não têm temor de Deus; se você se aventurar em companhias onde o deus deste mundo reina, onde a Bíblia é uma brincadeira, e os ministros de Deus são música de bêbados; então a sua alma vai e deve começar a murchar.

 

Você se recolhe ao seu quarto e abre a Bíblia; mas as suas palavras santas e puras não são doces para o seu gosto. Você se ajoelha e dobra as mãos; mas a oração é um fardo: você não tem desejos espirituais. Você menciona o Nome de Cristo; mas Ele não parece totalmente desejável. O pecado perdeu sua aparência assustadora. Cristãos vivos são agora muito exatos e precisos para você. Ai de mim! Não é com você como nos meses passados. Caiu a coroa da sua cabeça. Ai de você, porque pecou!

 

III. Cura.

 

1. Você pode ser curado. “Ó Efraim, tu tens destruído a ti mesmo, mas em Mim está a tua ajuda. Ora, tu te prostituíste com muitos amantes; mas ainda assim, torna para Mim, diz o SENHOR”. Satanás vai tentá-lo a dizer, “Não há esperança, não há, porque tenho amado os estranhos”; mas isso é uma mentira. Lembre-se: Em Cristo, há esperança.

 

2. Procure a causa. Seu coração estará mui indisposto a encontrá-la, mas você deve encontrá-la. Se você estivesse em um navio afundando, a primeira coisa a fazer seria encontrar o vazamento; assim, você deve encontrar o vazamento em sua alma. É um ídolo? Jogue-o fora. Rastreie os seus sentimentos até que você o encontre. É alguma luxúria que você tolera? Abandone-a. É companhia mundana? Preste atenção, colocar o dedo sobre isso, e diga, Esta é o Acã no meu coração, este é o perturbador.

 

3. Receba perdão. Confesse sobre a cabeça do bode expiatório: mergulhe-o na fonte aberta para [purificação do] pecado. Jesus está clamando: “Torna-te para mim, porque Eu te remi”.

 

4. Mate o perturbador. Faça com ele o que fizeram com Acã. Procure o poder que habita no Espírito Santo para matar o perturbador, para que não se levante mais. Oh, meus amigos! se quisermos, assim, buscar a reforma, isso seria o melhor de nossas quedas; obteríamos mel da carcaça do leão. Despertem! Despertem, meus amigos! O Inferno é tão profundo como sempre foi; Cristo tão livre; suas almas tão preciosas; sua eternidade está cada vez mais perto. Oh, quão tolo negar, em vez de, como Calebe, seguir o Senhor totalmente! “Sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, porque o vosso trabalho não será vão no Senhor”.

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