Cura Divina, por Arthur W. Pink

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De vez em quando recebemos uma pergunta ou um pedido de ajuda sobre esse assunto, geralmente de alguém que entrou em contato com alguém que pertence a um seguimento que dá destaque à “cura divina”, a remoção de males físicos, sem a ajuda de médicos e remédios, em resposta à fé e à oração. Esses amigos indagadores geralmente estão um tanto perplexos. Eles nunca ouviram nada sobre o assunto em suas próprias igrejas e se sentem meio que no escuro nesse assunto. Aqueles que forçam essa “cura divina” demonstram ser pessoas desequilibradas e de forma nenhuma são ortodoxos na doutrina. Se eles são induzidos a frequentar essas reuniões, não estarão com uma impressão favorável e sentirão que há algo errado ali. Ausência de reverência, a permissão de que as mulheres participam da condução dos cultos diante de uma congregação mista, a proeminência do elemento espetacular e o espirito geral de excitação que prevalece, fazem com que um filho de Deus normal se sinta como se não pertencesse àquela reunião. O zelo exibido não parece estar de acordo com o conhecimento e o fervor emocional o abate como sendo “fogo estranho” (Levítico 10:1) — algo que não provém do altar divino.

 

Mas o que dizer do seu ensino sobre a “cura divina”? É bíblico ou não bíblico? Esta é uma questão que não é fácil de responder em uma única frase. A Palavra de Deus fala sobre a cura em várias passagens, mas a mesma levanta a questão de sua interpretação — de acordo com o contexto e também em harmonia com a analogia geral da fé e também requer um exame cuidadoso de todas as conclusões baseadas nessas passagens. Além disso, essas es cultos modernos que enfatizam a “cura divina” não são, de modo algum, uniformes em seus ensinamentos, sendo alguns mais radicais e extremos do que outros, de modo que a refutação de uma apresentação errônea sobre esse assunto não seria proveitosa da mesma maneira em relação a um erro similar com roupagem diferente. Embora familiarizados com todas as principais variações deles — durante nossa longa jornada nos Estados Unidos da América (onde quase todos esses movimentos se originaram) nós tivemos um contato mais ou menos próximo com eles — nós não nos propomos a desperdiçar o tempo do leitor tomando-os em série, mas sim lidar com princípios amplos que se aplicam a todos eles.

 

Primeiro deve-se dizer que grande parte do ensinamento dado sobre esse assunto é decididamente não bíblico. Por exemplo, a maioria dos que enfatizam a “cura divina” insistem que “foi na expiação” — na cruz — que Cristo levou verdadeiramente não só nossos pecados como nossas doenças. Foi ali, eles ensinam, que Ele comprou a cura para o corpo, bem como a salvação para a alma, e então, por isso mesmo, cada Cristão tem o mesmo direito de se apropriar pela fé da cura das doenças corporais, assim como ele tem o perdão por suas transgressões. Em apoio a esta afirmação, faz-se um apelo a Cristo, que “curou todos os que estavam enfermos; Para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías, que diz: Ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e levou as nossas doenças” (Mateus 8:16-17). É aqui que o expositor é necessário, caso os iletrados e inconstantes precisão ser preservados de conceber uma conclusão errônea, onde o mero som da palavra é suscetível de transmitir uma impressão errada, a menos que seu sentido seja cuidadosamente verificado — assim como a passagem que diz que “os mortos não sabem coisa nenhuma” (Eclesiastes 9:5) não é para ser entendida absolutamente, como se aqueles que partiram desta vida, estão em um estado de total inconsciência.

 

Se essas palavras de Cristo “levou as nossas doenças” tivessem ocorrido em algumas passagens dos Atos dos Apóstolos ou das Epístolas, onde um dos Apóstolos estivesse explicando o propósito e o caráter da morte de Cristo, então teríamos sido obrigados a considerar isso como significando que o Senhor Jesus, levou as enfermidades de Seu povo enquanto estava na cruz, embora isso apresentasse uma grande dificuldade, pois não há nenhuma indicação em qualquer lugar na Palavra que o Redentor experimentou qualquer doença naquele tempo. Mas em vez disso, Mateus 8:16-17 tem referência ao que aconteceu durante os dias de Seu ministério público, significando que Cristo não usou a virtude que estava nEle para curar enfermidade e doença como uma questão de mero poder, mas em profunda piedade e ternura entrou na condição de sofredor. O Grande Médico não era um estoico insensível, mas tomou sobre o Seu próprio espírito os sofrimentos e dores daqueles a quem Ele ministrou. Seus milagres e curas lhe custaram muito em termos de simpatia e resistência. Assim, Ele “suspirou” (Marcos 7:34) quando soltou a língua do mudo, “chorou” diante do túmulo de Lazaro e teve consciência da virtude que saiu dele (Marcos 5:30) quando Ele curou outra. Através de uma compaixão que nós não conhecemos, Ele se afligiu com as aflições deles.

 

Que a interpretação que nós demos acima (brevemente sugestionada pelo Puritano Thomas Goodwin) é o significado correto de: “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e levou as nossas doenças”, pode ser visto a partir de várias considerações. Se o significado dessas palavras fosse o que o movimento de “cura divina” diz ser, então eles entendem que na sua ação de curar o enfermo Cristo estava fazendo expiação, o que é um absurdo em face disso. Novamente, se a cura do corpo fosse um direito de redenção que a fé pode, humildemente, embora fortemente, reivindicar, então isso significaria necessariamente que o crente jamais deveria morrer, pois toda vez que ele se sentisse doente poderia pleitear com Deus o sacrifício do Seu filho e clamar por sua cura. Nesse caso, por que Paulo não exortou Timóteo a exercitar sua fé na expiação ao invés de lhe ordenar: “usa de um pouco de vinho, por causa do teu estômago” (1 Timóteo 5:23) e por que ele deixou Trófimo doente na cidade de Mileto (2 Timóteo 4:20)? Um corpo glorificado, assim como uma alma, é fruto da expiação de Cristo, mas para aquele crente que espera o tempo designado por Deus.

 

Um erro leva a outro: A maioria dos que ensinam que a cura divina está na expiação, argumentam que, portanto, ela deve constituir um elemento essencial e parte do Evangelho e assim o seu slogan favorito é “Cristo é nosso Salvador, Cristo é nosso Santificador, Cristo é nosso Curador, Cristo é nosso Rei que voltará”, e, portanto, “um Evangelho Quadrangular” é o principal lema da maioria deles. Mas tal controvérsia não suportará a luz da Sagrada Escritura. No livro de Atos nós encontramos os Apóstolos pregando o Evangelho de Deus tanto para judeus como para gentios, e embora no curso do seu ministério curas e milagres foram realizados por eles (Para autenticar sua missão, pois nada do Novo Testamento havia sido escrito), em nenhum lugar a remoção dos males físicos faz parte de suas mensagens. Em 1 Coríntios 15:1-4 é dado um breve resumo do Evangelho dizendo “que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia” — observe a omissão de sua morte por nossas enfermidades! Em Romanos, somos providos de um desdobramento sistemático e completo do “Evangelho de Deus” (veja 1:1), a “cura” das doenças corporais nunca é referida.

 

Se fosse verdade que Cristo fez expiação pelas nossas enfermidades, bem como pelos nossos pecados, então consequentemente todas as desordens corporais são a consequência imediata de alguma iniquidade. Dizemos “a consequência imediata”, pois, claro, é facilmente admitido que todos os males dos quais o homem é herdeiro são tanto efeito quanto resultado da grande transgressão de nossos primeiros pais. Então, é razoável concluir que se o pecado nunca tivesse entrado neste mundo, não haveria sofrimento de modo algum. Pois sabemos que no Céu a ausência do pecado assegura a ausência do sofrimento. Assim, há uma diferença vital entre dizer que uma doença física que provoca grande desconforto e dor, encontra sua causa na tragédia ocorrida no Éden e afirmar que ela é o resultado direto da própria maldade da pessoa, como insistem a maioria dos movimentos de “cura divina”. A resposta do nosso Senhor aos Seus discípulos em João 9:2-3[1] proíbe expressamente qualquer conclusão tão ampla. Há muito sofrimento, especialmente entre as crianças, o que é devido à violação ignorante e inocente das leis naturais e não à violação da Lei Moral. Além disso, se a afirmação do movimento de “cura divina” fosse válida, deveríamos ser obrigados a concluir que toda doença separa a alma da comunhão com Deus, o que é claramente desmentido pelo testemunho de muitas das pessoas mais santas que já pisaram esta terra.

 

Aqueles que sustentam que Cristo fez expiação por nossas enfermidades, bem como por nossos pecados, são bastante consistentes em sustentar que a libertação da das enfermidades deve ser obtida precisamente da mesma maneira que a salvação do pecado: que o único meio deve ser o exercício da fé, sem a introdução ou adição de quaisquer obras ou ações nossas. Assim, os movimentos de “cura divina” ensinam que procurar o serviço de um médico ou o auxílio de medicamentos equivale a afastar-se da obra consumada de Cristo, como também seria a dependência do batismo ou de obras de caridade para a obtenção do perdão. A falácia desta inferência lógica revela a insensibilidade em relação ao que é prometido. Uma referência às Escrituras mostrará imediatamente que, embora em alguns casos, Deus tenha prazer em curar o enfermo sem meios, ainda em outros casos Ele designou e abençoou o uso de meios. Para a cura das águas amargas de Mara, Moisés foi instruído a lançar nelas um pedaço de madeira que “o Senhor mostrou-lhe” (Êxodo 15:25). Quando Deus prometeu curar Ezequias, que estava doente para morrer, Isaías pediu ao rei que “tomasse uma pasta de figos”, e nos é dito, “e a tomaram, e a puseram sobre a chaga; e ele sarou” (2 Reis 20:7). Esse também é caso com Timóteo em 1 Timóteo 5:23.

 

Certamente, não estamos dispostos a manter qualquer breve defesa a fraternidade médica atual como um todo. A cobiça pelo ouro, o amor à novidade (experimentação) e a deterioração do caráter moral em todas as esferas da vida, não inspiram confiança em nenhuma classe ou camarilha e o escritor preferiria sofrer dor ao invés de colocar-se à mercê do médico cirurgião. No entanto, isso não significa que consideremos todos os praticantes de medicina como charlatães ou tratantes, e menos ainda acreditamos nos fanáticos da “cura pela fé” quando dizem que os médicos são emissários especiais de Satanás. O Espírito Santo nunca teria chamado Lucas de “o médico amado” (colossenses 4:14) se ele tivesse sido alguém a serviço do Diabo.

 

 

Originalmente editado por Emmett O’Donnell para Monte Zion Publications, um ministério de Mt. Zion Bible Church do Monte [Igreja Bíblica Monte Sião], 2603 West Wright St., Pensacola, FL 32505. www.mountzion.org

 


[1] João, Cap. 9: 1 E, passando Jesus, viu um homem cego de nascença. 2 E os seus discípulos lhe perguntaram, dizendo: Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? 3 Jesus respondeu: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus.

 

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