Chuva Suave em Grama Macia │ Por Samuel Renihan

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Em um post recente em seu blog que introduz uma próxima série de posts sobre a relação da Confissão de Fé Batista de 1689 (CFB1689) com a recuperação do confessionalismo Reformado (se eu entendi o propósito corretamente), o Dr. R. Scott Clark levanta a questão da teologia pactual como um tópico significativo a ser tratado nessa discussão. Ele seguramente está certo em levantar essa questão, e vale a pena investigar e aprofundar a interação. Eu não participei do “diálogo amigável” ao qual o Dr. Clark se refere, então meus comentários não devem ser considerados como se eu tivesse participado ou como se tivesse algum acesso secreto ao seu conteúdo.

 

Gostaria de oferecer três correções de natureza esclarecedora para ajudar aqueles que desejam sinceramente pensar nessas questões. O primeiro é histórico, o segundo é teológico, o terceiro é histórico-teológico.

 

Em primeiro lugar, esclarecimento histórico:

 

Isso não é especialmente importante, mas eu já vi isso acontecer em alguns lugares. O post usa a data de 1688 para a morte de Nehemiah Coxe. Nehemiah Coxe morreu em 5 de maio de 1689. Seu segundo filho morreu em 1688 e Nehemiah foi associado incorretamente com essa data por meio de recursos encontrados na Internet.

 

Em segundo lugar, esclarecimento teológico:

 

O Dr. Clark se refere aos herdeiros modernos da CFB1689 como BPs [Batistas Particulares] e fala sobre a sua teologia pactual. Presumo que o projeto 1689 Federalism e o livro de Pascal Denault estejam em vista aqui. Talvez mais. Embora eu seja rápido em dizer que muitos devem parar de debater esses tópicos porque há uma necessidade de mais cuidado e precisão na articulação de certas verdades, e os Batistas muitas vezes não se ajudaram mergulhando de cabeça nessa discussão havendo tido apenas uma introdução a ela, contudo material suficiente foi articulado para que algumas das declarações do Dr. Clark parecessem ao leitor expressar visões Batistas de uma maneira que consideramos deturpada. Eu não estou fazendo uma acusação de deturpação intencional. Isso é pecado. Eu estou dizendo que os comentários do Dr. Clark precisam ser esclarecidos para aqueles que os considerariam uma representação precisa dos BPs (para usar o termo do Dr. Clark).

 

Há duas declarações que tenho em vista:

 

“O pacto da graça foi prometido a Adão et al. mas não foi realmente administrado sob os tipos e sombras”.

“O pacto da graça só entra na história na Nova Aliança”.

O problema subjacente a esse mal-entendido e deturpação não se origina do Dr. Clark. É o problema da própria linguagem usada nesses debates, e tem sido um problema desde que os debates começaram. O problema é a linguagem da substância e administração.

 

Administrar, em um contexto pactual, pode se referir a receber benefícios, ou pode se referir a ordenanças externas. Os Batistas Particulares do século XVII e os herdeiros de sua teologia pactual hoje afirmam que os benefícios do Pacto da Graça, isto é, a substância, foram desfrutados pelos eleitos no Antigo Testamento, conforme foram revelados em promessas e tipos. Nesse sentido, os Batistas Particulares afirmam que a substância do Pacto da Graça foi administrada aos eleitos. E por causa disso, dizer que os Batistas Particulares de então ou agora acreditam que o Pacto da Graça “não foi realmente administrado” no Antigo Testamento é incorreto e conduz a discussão de uma forma extremamente inútil e, ouso dizer, fortemente preconceituosa.

 

A promessa de salvação em Cristo é feita ao longo do Antigo Testamento, uma promessa de libertação futura que não é estabelecida na história até a morte de Cristo e a inauguração da Nova Aliança. Essa é uma maneira de pensar e ensinar que de modo nenhum é particular aos Batistas. John Ball, seguindo John Cameron, distinguiu o Pacto da Graça como um pacto pré-messiânico de promessa, e um pacto pós-messiânico de promulgação, ou seja, promulgação legal.

 

A diferença e a dificuldade surgem quando discutimos a administração no sentido de ordenanças. As ordenanças do pacto Abraâmico e do pacto Mosaico eram as ordenanças do Pacto da Graça em formas mais antigas, ou eram ordenanças de pactos distintos, porém subservientes e reveladoras do Pacto da Graça? Por que os Batistas Particulares negaram que os pactos Abraâmico e Mosaico fossem o Pacto da Graça, negaram que fossem administrações — ou seja, uma forma mais antiga de ordenanças — do Pacto da Graça. Mas eles não negaram que esses pactos administraram a graça da Nova Aliança.

 

A grande diferença foi maravilhosamente resumida por John Owen em sua discussão sobre o pacto Mosaico. Os santos foram salvos sob, e não pela Antiga Aliança. Owen distinguiu isso pela tipologia entre a Antiga Aliança terrena com suas ordenanças e as realidades antitípicas da Nova Aliança para as quais essas ordenanças e promessas apontavam. A singularidade dos Batistas Particulares foi aplicar a mesma hermenêutica ao pacto Abraâmico. As ordenanças e promessas terrenas apontavam para realidades antitípicas. Assim, o pacto Abraâmico em si não é o Pacto da Graça, nem é uma administração externa do Pacto da Graça; contudo, pela tipologia, internamente administrou a graça da Nova Aliança. Os santos foram salvos sob, e não pelo pacto Abraâmico.

 

Os repetidos argumentos de Paulo no Novo Testamento são que a Nova Aliança não era um plano B, ou uma nova direção, mas foi revelada e sempre foi o destino pretendido dos pactos israelitas. Paulo não diz aos gálatas que a nação inteira dos judeus estava no salvífico Pacto da Graça o tempo todo e que eles simplesmente não sabiam disso. Ele diz aos gálatas que o Pacto da Graça esteve presente o tempo todo nas promessas de Cristo, e aqueles que creem em Cristo como Abraão fez, em todos os tempos, são os filhos da fé de Abraão, nascidos do alto, os cidadãos livres do Céu, os que pertencem a Cristo e à Sua Nova Aliança. E qualquer judeu que tente fazer da Antiga Aliança algo diferente de apontar para Cristo não é verdadeiramente judeu nesse sentido.

 

Dizendo isso de um modo um pouco desajeitado: tipos nunca são não tipos. Em outras palavras, os pactos do Antigo Testamento podem ser considerados justamente como terrenos em si e por si mesmos, mas nunca podem ser considerados como despojados de sua relação e significado neotestamentários. Eles nunca existiram à parte da intenção última de unir todos os povos em uma Nova Aliança sob Cristo. Eles foram projetados para trazer o Cristo e tornar a sua missão visível e legível! Eles foram projetados para trazer a bênção para todas as nações. Mas era somente pela fé que as pessoas, no passado ou agora, pertenceriam a Cristo e à Sua aliança. O propósito da Antiga Aliança era trazer a Nova Aliança. Mas subserviência não é identidade.

 

Meu desejo não é prolongar ou provocar uma discussão sobre esses pontos, mas sim esclarecer a posição dos Batistas Particulares e alertar o leitor sobre os problemas relacionados a apresentação dessa posição pelo Dr. Clark.

 

Os Batistas Particulares acreditaram ou acreditam que a graça da Nova Aliança foi administrada sob a(s) Antiga(s) Aliança(s), mas não pela(s) Antiga(s) Aliança(s)? Sim.

 

Os Batistas Particulares acreditavam ou acreditam que as antigas alianças eram formas externas mais antigas (uma antiga administração) do Pacto da Graça? Não.

 

Em terceiro lugar, um esclarecimento histórico-teológico:

 

Dr. Clark afirma,

 

Nossos amigos Batistas não compartilharam e não compartilham o modo Reformado de ler as Escrituras (hermenêutica)”.

Embora seja certamente verdade que a visão dos Batistas Particulares do Pacto Abraâmica os distinguiu de seus irmãos Pedobatistas (afinal, essa é a diferença fundamental), a fim de dizer coisas como as que o Dr. Clark disse, é preciso primeiro apreciar a unidade e diversidade da teologia pactual Reformada em si, segundo compreender a relação histórica e teológica dos Batistas Particulares em relação a essa unidade e diversidade, a fim de, terceiro, fazer uma declaração esclarecida sobre essas relações complicadas.

 

Obviamente, postagens de blog não são lugares ideais para esse trabalho. Meu livro recente lida com esse assunto de modo pormenorizado. No entanto, quero alertar o leitor para o fato de que o quadro apresentado pelo Dr. Clark da unidade da teologia pactual Reformada não aborda a sua diversidade, e é precisamente no contexto da unidade e da diversidade que a relação dos Batistas Particulares com a tradição Reformada é esclarecida.

 

Em vez de entrar nesse assunto aqui, simplesmente quero dizer que, além do envolvimento sério com a ampla literatura Batista Particular do século XVII (o que vai além de apenas Nehemiah Coxe), à parte da citação de fontes reais, deve-se adiar todos os julgamentos sobre os outras descrições histórico-teológicas dos Batistas Particulares. Continue perguntando: “Você pode demonstrar isso para mim a partir das fontes?”.

 

Conclusão:

 

Fico feliz que essas discussões estejam acontecendo. E tenho esperança de futuro entendimento mútuo e no estilo “ferro afiando ferro”. Concluirei com uma exortação para todos nós, é de Thomas Manton:

 

A chuva fina faz muito bem à grama macia; aquele que fala aos dissidentes deve fazê-lo com toda mansidão e bondade. Que os seus argumentos sejam tão fortes quanto você puder, mas assegure-se de que as suas palavras sejam suaves.

 

A chuva fina faz muito bem à grama macia; aquele que fala aos dissidentes deve fazê-lo com toda mansidão e bondade. Que os seus argumentos sejam tão fortes quanto você puder, mas assegure-se de que as suas palavras sejam suaves.

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