A Natureza da Depravação Total do Homem, por A. W. Pink

|

[Capítulo 6 do Livro The Total Depravity of Man]

 

No capítulo da pregação mostramos como a Escritura lança luz sobre o grande problema moral de como uma natureza inerentemente corrupta se origina em cada criança desde o início de sua existência sem que o seu Criador seja o Autor do pecado. Davi declarou: "Eis que eu fui formado em iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe" (Salmos 51:5). Ele descreveu sua depravação como inata e não criada, derivada de sua mãe e não do seu Criador, mostrando que a corrupção é transmitida diretamente de Adão através da via da propagação humana. O mesmo fato foi expresso por nosso Senhor quando Ele disse: "O que é nascido da carne é carne” (João 3:6). No Antigo Testamento, a palavra "carne" é usada como um termo geral para a natureza humana ou a humanidade: "Que toda a carne bendiga o Seu santo nome”, ou seja, todos os homens (Salmos 145:21). "Toda a carne é erva" (Isaías 40:6). A vida de cada membro de nossa raça é frágil e inconstante. O termo ocorre no Novo Testamento no mesmo sentido: "Se aqueles dias não fossem abreviados, nenhuma carne seria salva" (Mateus 24:22); "Pelas obras da lei nenhuma carne será justificada diante dele" (Romanos 3:20). Por sua própria obediência nenhum homem pode merecer a aceitação de Deus.

 

A Corrupção da Carne

 

Mas, visto que a humanidade está caída e a natureza humana depravada, o termo "carne" se torna a expressão desse fato; e cada vez que é usado na Escritura em um sentido moral se refere à corrupção de nossos seres inteiros, sem qualquer distinção entre as nossas partes visíveis e invisíveis — corpo e mente. Isto é evidente a partir das passagens onde “a carne” é contrastada com “o espírito” ou a nova natureza (Romanos 8:5-6; 1 Coríntios 2:11; Gálatas 5:17). Quando o apóstolo declarou: "Porque eu sei que em mim (isto é, na minha carne), não habita bem algum" (Romanos 7:18), ele referiu-se a muito mais do que seu corpo com seus apetites, ou seja, o seu homem natural inteiro, com todas as suas faculdades, poderes e propensões. O conjunto foi contaminado, e, portanto, nada de bom poderia resultar dele até que a graça Divina fosse comunicada. Mais uma vez, quando encontramos "ódio, emulações, iras e invejas" inscritos nessa lista incompleta das "obras da carne" horríveis fornecida por Gálatas 5, fica bastante claro que essa palavra envolve muito mais do que os membros do nosso corpo físico; ainda mais quando descobrimos que essas obras são colocadas contra “o fruto do espírito”, cada um dos quais consiste no exercício de alguma qualidade interna ou graça.

 

Assim, fica evidente que, quando Cristo declarou: "O que é nascido da carne é carne", Ele quis dizer que o que é propagado pelo homem caído é depravado, que tudo o que vem a este mundo por geração ordinária é carnal e corrupto, fazendo com que o coração seja enganoso acima de todas as coisas, e desesperadamente perverso. Também fica evidente do contexto imediato (João 3:3-5), que o que Ele afirmou no versículo 6 visava demonstrar a necessidade absoluta da regeneração. Nosso Senhor contrastou o primeiro nascimento com o novo nascimento, e mostrou o quão imperativo é este último porque estamos radicalmente maculados desde o princípio. Todos por natureza são essencialmente maus, nada além de "carne"; tudo em nós é contrário à santidade. Nossa própria natureza está viciada, e nenhum processo de educação ou cultura pode refiná-la e torná-la apta para o reino de Deus. As faculdades que os homens recebem ao nascer têm um viés carnal, uma tendência terrena, uma repulsa pelo celeste e pelo Divino, e estão inclinadas apenas para objetivos egoístas e atividades vis. Numa sociedade mais polida ou religiosa, em igualdade com o vulgar e o profano, "o que é nascido da carne é carne" e nunca poderá ser qualquer coisa melhor. Você poderá podar uma árvore estragada, mas jamais a fará produzir bons frutos. Todo homem deve nascer de novo antes que possa tornar-se aceitável a um Deus santo.

 

Tentaremos agora responder uma pergunta ainda mais difícil: Em que consiste a corrupção do homem em decorrência da Queda? Exatamente qual é a natureza da depravação humana? Isso é muito mais do que uma questão de interesse acadêmico que diz respeito somente a professores de teologia. É um ponto de profunda importância doutrinária e prática. Todos nós, especialmente os pregadores, devemos ser muito claros neste ponto, pois um erro aqui é susceptível de levar a conclusões errôneas e a sérias consequências. De fato este tem sido o caso, pois muitos que eram sóbrios e ortodoxos em muitos outros aspectos responderam a esta pergunta de uma maneira que inevitavelmente levou-os a enfraquecer, se não repudiar totalmente, a completa responsabilidade do homem caído, e fez com que eles se tornassem hiper-Calvinistas e Antinomianos. Faremos todos os esforços com cuidado para definir e descrever a atual condição do homem natural, começando com o lado negativo e apontando uma série de coisas em que a depravação humana não consiste.

 

Em primeiro lugar, a Queda não resulta na extinção daquele espírito que fazia parte do complexo ser do homem quando criado por Deus. Nem no caso de nossos primeiros pais ou de qualquer um de seus descendentes. Tem, no entanto, sido discutido a partir da ameaça Divina feita a Adão: "No dia em que dele comeres certamente morrerás", que assim ocorreu, porém, dado o fato de que Adão não morreu imediatamente fisicamente, ele deve ter morrido espiritualmente. Certamente isso é um fato, ainda assim, exige ser interpretado pela Escritura. É muito errado supor que, porque o corpo de Adão não morreu, seu espírito tenha morrido. Não foi algo em Adão morreu, mas o próprio Adão em sua relação com Deus. O mesmo é verdadeiro quanto à sua prole. Eles estão de fato "mortos em delitos e pecados" para Deus, desde o início de sua existência, mas nada dentro deles está positivamente morto no sentido comum da palavra. No sentido bíblico do termo, a "morte" nunca significa aniquilação, mas separação. No momento da morte física, a alma não se extingue, mas é separada do corpo; e a morte espiritual de Adão não foi a extinção de qualquer parte de seu ser, mas o rompimento de sua comunhão com um Deus santo. O mesmo é verdade para todos os seus filhos. A força exata da declaração solene de que eles estão “mortos em delitos e pecados” é divinamente definida por nós sendo "alheios à vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração" (Efésios 4:18). Quando Cristo representou o pai como dizendo: "Este meu filho estava morto, e reviveu" (Lucas 15:24), Ele certamente não queria dizer que o filho pródigo tinha deixado de existir, mas que, enquanto ele permaneceu "num país distante", ele foi separado do seu pai, e que agora ele tinha voltado para ele. O lago de fogo em que os ímpios serão lançados é designado “a segunda morte" (Apocalipse 20:14), não significando que deixarão então de existir, mas que eles serão "punidos com a destruição eterna da presença do Senhor, e da glória do seu poder” (2 Tessalonicenses 1:9). Que o homem caído é possuidor de um espírito é claro: “O Senhor… que formou o espírito do homem dentro dele” (Zacarias 12:1); “Quem sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem que nele está?” (1 Coríntios 2:11); “O espírito volte a Deus, que o deu” (Eclesiastes 12:7). O homem foi criado um ser tripartido, composto de espírito, alma e corpo (1 Tessalonicenses 5:23), e nenhuma parte dele deixou de existir quando ele caiu.

 

Em segundo lugar, a Queda não resultou na perda de qualquer faculdade humana. Não privou o homem da razão, consciência ou discernimento moral, pois teria se transformado em uma outra espécie de ser. Como a razão permaneceu, ele ainda tinha o poder de distinguir entre a verdade e a mentira; a consciência ainda lhe permitiu distinguir entre o que era certo e o errado, entre o que era dever e o crime; e o discernimento moral capacitou-o a perceber os contrastes na esfera do excelente e do belo. É mais importante ser claro sobre este ponto: A Queda não tocou a substância da alma, a qual permanece inteira com todos os dotes originais do intelecto, da consciência e da vontade. Estes são os elementos característicos da humanidade, e privar o homem deles seria abatê-lo. Eles existem no criminoso, bem como no santo. Todos eles têm uma unidade essencial na totalidade da pessoa humana. Ou seja, são faculdades coordenadas, embora cada uma tenha sua esfera peculiar. Coletivamente, eles constituem o ser responsável, moral e racional. Não é a mera posse que torna o homem bom ou mau; a forma e a motivação tornam as ações santas ou pecaminosas.

 

A Corrupção do Espírito Humano

 

A Queda não privou o homem de nenhuma de suas faculdades mentais ou morais, mas tirou-lhe o poder de usá-las da maneira correta. Estas faculdades ficaram sob a influência maligna do pecado, de maneira que o homem já não era capaz de praticar qualquer coisa agradável a Deus. A depravação é total: penetrante, extensiva ao homem inteiro. Não ficou, como diferentes teóricos têm suposto, confinada a um departamento do seu ser — a vontade contrária ao entendimento, ou o entendimento contrário à vontade. Não se restringiu aos apetites mais inferiores, em contraste com os nossos princípios mais elevados. Nem afetou o coração somente, considerado como a sede dos afetos. Pelo contrário, é uma doença que atingiu cada órgão. Quanto ao entendimento, consiste em ignorância espiritual, cegueira, trevas, loucura. Quanto à vontade, é rebelião, perversidade, espírito de desobediência. Quanto às afeições, é dureza de coração, total insensibilidade e falta de discernimento das coisas espirituais e Divinas. A entrada do pecado na constituição humana não só afetou todas as suas faculdades, de modo a produzir uma desqualificação completa para qualquer forma de exercício espiritual, mas a tem mutilado e debilitado em seu exercício dentro da esfera da verdade e da santidade. Ficaram corrompidas em relação a tudo o que esmaece a imagem de Deus, a imagem da bondade e da excelência.

 

E terceiro lugar, a Queda não resultou na perda da liberdade da vontade, o seu poder de volição como uma faculdade moral. É certo que este é um ponto muito mais difícil de entender do que qualquer um dos anteriores. Não porque a Escritura seja ambígua no seu ensino, nem mesmo porque contém quaisquer aparentes contradições, mas por causa das dificuldades filosóficas e metafísicas que levantam-se nas mentes daqueles que o consideram cuidadosamente. A Queda certamente não reduziu o homem à condição de uma planta ou pedra, ou mesmo um animal irracional. Ele manteve essa força racional de vontade que é uma parte de sua constituição original, de modo que ele ainda é capaz de escolher espontaneamente. É igualmente certo que o homem não é livre para fazer o que quiser em sentido absoluto, pois então ele seria um deus, onipotente. Em seu estado não-caído, Adão tornou-se submisso e dependente do Senhor. Assim é com Seus filhos. Suas vontades devem ser totalmente subordinadas à do seu Criador e Governador. Além disso, a liberdade deles é estritamente limitada pela regra suprema da providência Divina, a qual abre portas para eles ou as fecha contra eles.

 

Como apontado, embora cada uma das faculdades distintas da alma tenha sua esfera peculiar, continuam coordenadas; portanto, a vontade não deve ser entendida como uma entidade independente e autodeterminada, ficando separada das outras faculdades e superior a elas, capaz de reverter as sentenças da mente ou de contrariar os desejos do coração. Pelo contrário, a vontade é influenciada e determinada por eles. Como G. S. Bishop proveitosamente apontou, "A verdadeira filosofia da ação moral e seu processo é a de Gênesis 3:6. ‘E quando a mulher viu que a árvore era boa para se comer [percepção sensorial, inteligência], e árvore desejável [afeições], ela tomou e comeu dela [a vontade]’”. Assim, a liberdade da vontade também é limitada pelas fronteiras das capacidades humanas. Não pode, por exemplo, ir além da extensão do conhecimento possuído pela mente. É impossível para eu observar, amar e escolher qualquer objeto que não me seja familiar. Assim, é a compreensão, em vez da vontade, que é a faculdade e o fator dominante. Assim, quando a Escritura delineia a condição dos homens caídos, ela atribui essa alienação de Deus à "ignorância que há neles" (Efésios 4:18), e fala de homens regenerados como sendo "renovados no conhecimento" (Colossenses 3:10).

 

As limitações da liberdade humana salientadas acima referem-se tanto ao homem não-caído quanto ao caído, mas a entrada do pecado na constituição humana impôs limitações muito maiores. Embora seja verdade que o homem é verdadeiramente livre agora, como Adão era antes de sua apostasia, mas ele não é tão moralmente livre quanto ele era. O homem caído é livre no sentido de que ele tem a liberdade de agir de acordo com sua própria escolha, sem compulsão de fora; ainda que, uma vez que sua natureza tenha sido contaminada e corrompida, ele já não é livre para fazer o que é bom e santo. Grande cuidado deve ser tomado para que a nossa definição da liberdade do homem caído não confronte textos como Salmo 110:3; João 6:44; Romanos 9:16; pois ele só deseja agora de acordo com os ditames de seu mau coração. Tem sido bem dito que a vontade do pecador é como um prisioneiro algemado em uma cela. Seus movimentos são dificultados por suas correntes, e ele é impedido pelas paredes que lhe confinam. Ele é livre para andar, mas de forma restrita e dentro de um espaço tão limitado que a sua liberdade é uma servidão — servidão ao pecado.

 

Se compreendemos “a vontade” como simplesmente a faculdade da volição pela qual a alma escolhe ou rejeita, ou se a consideramos como a faculdade da volição junto com tudo mais dentro de nós que afeta a escolha — a razão, a imaginação, o desejo — o homem caído ainda é bem livre no exercício da volição conforme sua principal disposição e desejo no momento. Aqui a liberdade interior é utilizada em contraste com a restrição externa e a compulsão. Quando a última está ausente, o indivíduo tem a liberdade de decidir de acordo com sua vontade. Onde os Arminianos erram quanto a este ponto é confundir poder com “querer”, insistindo que o pecador é igualmente capaz de escolher o bem como o mal. Isso é um repúdio de sua depravação total ou vassalagem completa para o mal. Pela Queda o homem submeteu-se à escravidão do pecado, e se tornou cativo do Diabo. Ainda assim, ele cede voluntariamente às tentações de seus próprios desejos antes de cometer qualquer ato pecaminoso, e nem Satanás pode levá-lo a qualquer pecado sem o seu próprio consentimento.

 

O homem natural age como lhe agrada, mas ele agrada a si mesmo em uma única direção — para si e para baixo, nunca para Deus e para cima. Como Romanos 6:20 diz dos santos, enquanto em seu estado não-regenerado, "Porque, quando éreis servos do pecado, éreis livres da justiça". Em toda a sua vida o homem pecador age como um agente livre, pois ele não é forçado nem por Deus nem por Satanás. Quando ele quebra a lei, ele o faz por sua própria opção, e não por coerção de outro. Ao fazê-lo, ele está agindo livremente por sua própria natureza caída. Assim, é um erro dizer que uma tendência da mente ou uma propensão de coração é destrutivo de sua vontade. Ambos devem ser auto-movidos para que haja responsabilidade e culpa, e ambos são auto-movidos. O assassino não é obrigado a odiar sua vítima. Embora ele não possa impedir o seu ódio interior por qualquer mero exercício de vontade, no entanto, ele pode abster-se do ato externo de assassinato por sua própria vontade; portanto, ele é censurável quando ele não consegue fazê-lo. Estes são fatos indiscutíveis de nossa própria consciência.

 

Em quarto lugar, a Queda não resultou em qualquer redução, menos ainda, a destruição, da responsabilidade do homem. Se tudo o que precede este parágrafo for cuidadosamente ponderado, isto deve ser bastante evidente. A responsabilidade humana é o corolário necessário da soberania Divina. Uma vez que Deus é o Criador, o Governante supremo sobre tudo, e desde que o homem é apenas uma criatura e um súdito, não há como escapar de sua responsabilidade para com o seu Criador e Senhor de direito. Pelo que é o homem responsável? O homem é obrigado a responder à relação que existe entre ele e seu Criador. O homem ocupa o lugar de criação, subordinação, dependência absoluta em cada respiração, e, portanto, deve reconhecer o domínio de Deus, submeter à Sua autoridade, e amá-lO com toda a sua força e coração. A responsabilidade humana é exercida através do reconhecimento dos direitos de Deus e agindo em conformidade, prestando-Lhe o que é devido. Este é o reconhecimento prático de Sua propriedade e governo. Estamos justamente obrigados a estar em constante submissão à Sua vontade, a exercer em Seu serviço as faculdades que Ele nos deu, usar os meios que Ele designou, melhorar as oportunidades e vantagens Ele nos concedeu. Todo o nosso dever é o de glorificar a Deus.

 

A partir da definição acima, deve ficar bem claro que a Queda não o fez, e não poderia ao menor grau, cancelar ou prejudicar a responsabilidade humana. A Queda não alterou a relação fundamental entre o Criador e a criatura. Deus é o dono do homem pecador como verdadeiramente e, tanto quanto Ele era do homem sem pecado. Deus ainda é o nosso Soberano, e nós, Seus súditos. Além disso, como já foi referido, o homem caído ainda está na posse de todas as faculdades que o qualificam para cumprir sua responsabilidade. É certo que o bebê nos braços e o débil mental não são moralmente responsáveis ​​por suas ações. Mas é razoável que aqueles que tenham atingido a idade quando eles são capazes de distinguir entre o certo e o errado sejam moralmente responsáveis ​​por suas ações. O homem caído, embora o seu entendimento seja obscurecido espiritualmente, ainda possui racionalidade. O homem caído, embora sob o domínio do pecado, tem o seu poder de volição, e está sob a obrigação de fazer uma escolha boa e direita toda vez, resistir às tentações e se abster da maldade, como qualquer tribunal de justiça humano insiste.

 

Por mais dificuldades que possam estar teoricamente envolvidas no fato de que a natureza do homem é agora totalmente depravada e que ele está em escravidão no pecado, Deus ainda não perdeu Seu direito de comandar porque o homem perdeu o seu poder para obedecer. O fato da Queda lançar-nos fora do favor de Deus, não nos libertou de Sua autoridade. Não foi Deus que tirou do homem a sua força espiritual e privou-o da sua capacidade de fazer o que é agradável à Sua vista. O homem foi originalmente investido de poder para cumprir as exigências de seu Criador. Foi por sua própria loucura e maldade que ele jogou fora seu poder. Como um monarca humano não perde os seus direitos à lealdade de seus súditos quando eles se tornam rebeldes, mas mantém a sua prerrogativa, exigindo que eles deixem sua insurreição e retornem à sua fidelidade, assim o Rei dos reis tem um direito infinito de exigir que os rebeldes se tornem súditos leais. Se Deus poderia justamente exigir de nós mais do que nós agora somos capazes de prestar-Lhe, se seguiria que quanto mais nós nos escravizamos pelos maus hábitos, menor seria a nossa responsabilidade — um absurdo palpável!

 

Não somente é a responsabilidade do homem afirmada insistentemente em toda a Escritura do Gênesis ao Apocalipse, mas também é afirmada pela própria consciência do homem. Qualquer que seja a desculpa que o indivíduo levante para a sua depravação, e que argumente a partir de sua impotência moral que as suas obras não são criminosas, ele repudia tal raciocínio quando seus companheiros pecadores estão em causa. Quando os outros erram, ele não nega sua responsabilidade nem oferece desculpa para eles. Se ele é cruelmente caluniado, roubado de suas posses ou maltratado, em vez de dizer do culpado, "Coitado, ele não se conteve; a culpa é de Adão", ele prontamente apela para a polícia e pede uma indenização nos tribunais. Além disso, quando o pecador é despertado pelo Espírito Santo, longe de protestar contra as justas exigências de Deus, ele se considera merecedor de ser eternamente condenado por sua rebelião vil. Ele se reconhece totalmente responsável e “sem desculpa”. Ele sente o fardo de sua culpa, e se humilha diante de Deus em arrependimento sincero.

 

Sob este aspecto de nosso assunto estamos nos esforçando para fornecer uma resposta para a pergunta: O que significa o termo “depravação total”? Onde reside a diferença essencial ou diferenças entre o homem como não-caído e caído? Precisamente o que é a natureza desse terrível mal que nos aflige? Nós consideramos em que não consiste, mostrando que o homem não deixou de ser um ser completo e tripartido, que ele está na posse desse espírito que é uma parte necessária da sua constituição; que a Queda não resultou na perda de quaisquer faculdades de sua alma; que ele não tem sido privado da liberdade de sua vontade ou o poder da volição; e que não houve diminuição da sua responsabilidade como criatura responsável perante Deus. Voltando agora ao que resultou da Queda, descobrimos que há um lado negativo e um positivo, que havia certas coisas boas de que fomos privados, e que havia algumas coisas más que nos foram procedentes. Apenas quando ambas forem levadas em consideração é que poderemos obter uma resposta completa à nossa pergunta.

 

Em primeiro lugar, pela Queda o homem perdeu a imagem moral de Deus. Como brevemente apontado anteriormente, a “imagem de Deus”, em que o homem foi originalmente criado, refere-se à sua natureza moral. Foi isso que fez dele um ser espiritual. Como Calvino expressou, "Isto inclui todas as excelências em que a natureza do homem supera todas as outras espécies de animais". Em que esta "imagem" consistia é indicado em Efésios 4:24 e Colossenses 3:10, onde um resumo detalhado do que seja a imagem nos é fornecido. Nosso ser "renovado" na imagem (na regeneração) claramente implica que seja a mesma imagem Divina em que o homem foi feito no início. Nestas duas passagens é descrita como consistindo de "verdadeira justiça e santidade" e o "conhecimento de Deus". Vamos agora nos estender sobre cada um desses componentes.

 

Por "justiça" devemos entender, como em toda parte nas Escrituras, a conformidade com a lei Divina. Antes da Queda, havia total harmonia entre toda a natureza moral do homem e todos os requisitos da lei que é "santa, justa e boa" (Romanos 7:12). Isto era muito mais do que uma inocência meramente negativa ou a liberdade de tudo o que é pecaminoso (ou mesmo da inclinação ou tendência para isto, que é tudo o que os Socinianos admitem), ou seja, algo mais nobre, mais alto e mais espiritual. Havia perfeito acordo entre a constituição de nossos primeiros pais e a regra de conduta definida diante deles, não só em suas ações externas, mas também nas próprias fontes dessas ações, na parte interior de seus seres — em seus desejos e motivações, em todas as tendências e inclinações de seus corações e mentes. Como Eclesiastes 7:29 declara, Deus "fez o homem reto", que não se refere tanto ao seu corpo quanto à sua excelência moral. Essa justiça foi perdida com a Queda, mas é em princípio restaurada na regeneração, quando Deus escreve suas leis em nossos corações e as coloca em nossas mentes, quando Ele nos concede amor e gosto por elas, e torna-nos de bom grado sujeitos à autoridade delas.

 

Por "santidade" devemos entender castidade e pureza do ser. Como a justiça dava a Adão relacionamento com a lei Divina, assim a santidade era o que o tornava apto para a comunhão com o seu Criador. Havia nele essa pureza imaculada da natureza que o tornava apto para a comunhão com o Santo, pois a santidade não é apenas um relacionamento, mas uma qualidade moral também; não é apenas uma separação de tudo o que é mau, mas a investidura e posse do que é bom. Yahwéh é o "glorioso em santidade" (Êxodo 15:11), portanto, aqueles com quem Ele conversa devem ser pessoalmente adequados para Ele. Ninguém senão os puros de coração verão a Deus (Mateus 5:8). É inconcebível que Deus por um ato imediato tivesse criado qualquer outro tipo de ser racional e responsável que não fosse aquele que era puro e perfeito, especialmente porque ele deveria ser o arquétipo da humanidade. Como Thornwell tão bem expressou, “Santidade foi a herança da natureza dele [do homem] — o direito de primogenitura de seu ser. Era o estado em que todas as suas faculdades receberam a sua forma”. Essa santidade foi perdida quando o homem caiu, mas pela regeneração e santificação é restaurada para os eleitos que são feitos "participantes da sua santidade" (Hebreus 12:10). Este princípio de santidade, que lhes é comunicado no novo nascimento, desenvolve-se à medida que crescem na graça e no conhecimento do Senhor.

 

Por "conhecimento" devemos entender o conhecimento do próprio Deus. Como a santidade ou pureza de coração de Adão capacitou-o para "ver Deus" no sentido espiritual da palavra, ele também foi capaz de conhecer a Deus pela habitação nele do Espírito Santo. Como Goodwin assinalou, "Onde estava a santidade, podemos ter certeza de que o Espírito estava também… O mesmo Espírito (como no regenerado) estava no coração de Adão para assisti-lo com Suas graças, e para movê-lo a viver de acordo com esses princípios de vida dados a ele”. É claro que assim como Adão foi criado em maturidade do corpo, ele deve ter sido criado em maturidade de mente, e que havia então nele o que podemos adquirir lentamente apenas pela experiência. Adão foi capaz de apreender e apreciar a Deus pelo que Ele é em Si mesmo. Ele tinha um verdadeiro e intuitivo conhecimento das perfeições da Deidade, a realização sincera de Sua excelência. Esse conhecimento de Deus foi perdido na Queda, por Adão e sua descendência, mas é restaurado para os eleitos na regeneração, quando Ele brilha “em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” (2 Coríntios 4:6).

 

Em segundo lugar, pela Queda o homem perdeu a vida de Deus. A alma não só foi feita por Deus, mas para Deus, equipada para conhecer, desfrutar e comungar com Ele; e sua vida está nEle. Mas o mal nos separa do Santo. Então, em vez de estar viva em Deus, a alma está morta no pecado. Não que a alma tenha deixado de existir, pois a Escritura distingue claramente entre a vida e a existência: "Ela que vive em prazeres está morta enquanto vive” (1 Timóteo 5:6). Esta é a morte moral ou espiritual, não do ser, mas do bem-estar. “Aquele que tem o Filho tem a vida; e aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida” (1 João 5:12). Ter o Filho de Deus para mim é ter tudo o que realmente vale a pena ter; estar sem Ele, não importa que coisas temporais eu possa possuir momentaneamente, é ser um mendigo total. “Vida” — a vida espiritual e eterna — é uma expressão ampla que inclui toda a bem-aventurança que o homem é capaz de desfrutar aqui e no futuro. O que tem "vida" é eternamente salvo, aceito no Amado, admitido no favor Divino, feito participante da natureza Divina, feito justo e santo aos olhos de Deus. Aquele que está sem “vida” está destituído de todas estas coisas.

 

Ser separado de Deus é necessariamente ser privado de tudo o que faz valer a pena viver, pois Ele é "a fonte da vida" (Salmos 36:9), e, portanto, de luz, de glória, de bem-aventurança. Nenhum espírito finito pode conceber — e ainda menos pode qualquer caneta humana expressar — a plenitude dessas palavras, “a fonte da vida”. Nós só podemos comparar outras passagens da Escritura que dão a conhecer algo do seu significado. Ao fazermos isso, nós aprendemos que há pelo menos uma vida tripla que o povo de Deus recebe dEle. Em primeiro lugar, Sua aprovação benigna: “no seu favor está a vida” (Salmos 30:5). Em Levítico 1:4 a palavra é traduzida como “aceito” e em Deuteronômio 33:16, “benevolência”. Mas o versículo que melhor permite-nos compreender a sua força é “Farta-te, ó Naftali, da benevolência, e enche-te da bênção do Senhor” (Deuteronômio 33:23). Aqueles que são favoravelmente considerados por Deus não precisam de nada mais, não podem desejar nada melhor. Ter a boa vontade do Senhor Triuno é a verdadeira vida, o apogeu da bem-aventurança. Estar fora do Seu favor é estar morto para tudo o que vale a pena.

 

Em segundo lugar, alegria e bem-aventurança da alma. "Ó Deus, tu és o meu Deus, cedo te busco… para ver o teu poder e a tua glória… porque a tua benignidade é melhor do que a vida" (Salmos 63:1-3). A vida de Deus em Seu povo torna-os aptos para deleitarem-se nEle. Assim foi aqui. Davi estava em adoração extasiada dos atributos Divinos. Sua alma desejava ter mais comunhão com Deus, e ele resolveu buscá-lO diligentemente, para ter visão ampliada das perfeições Divinas e descobertas experimentais de Sua excelência, em antecipação da bem-aventurança do Céu. Ele prezou por isso mais do que qualquer outra coisa. O homem natural valoriza sua vida acima de tudo. Não é assim o homem espiritual. Para ele, a benevolência de Deus é melhor do que todos os confortos e luxos de vida temporal, melhor do que a vida natural mais longa e próspera. A benevolência de Deus é a própria vida espiritual do santo, como também é uma verdadeira antecipação da vida eterna. Ela refrigera seu coração, fortalece sua alma e envia-o em seu caminho cheio de alegria.

 

Milhares de pessoas estão cansadas ​​da vida, mas nenhum Cristão já esteve cansado da benevolência de Deus. Ela é infinitamente melhor do que a "vida" de um rei ou de um milionário, pois ela não tem tristeza adicionada a ela, nenhum inconveniente, nenhum mal que a acompanhe. A morte física colocará o ponto final para a existência terrena dos mais privilegiados, mas isso não dará fim à benevolência de Deus, porque é de eternidade a eternidade. Ela é estimada pelo crente acima de tudo mais, pois é a fonte da qual todas as bênçãos procedem. Na bondade amorosa de Deus o Pacto da Graça se originou. Sua benevolência deu Cristo ao Seu povo e eles para Ele. Por Sua benignidade eles são atraídos para Ele (Jeremias 31:3), recebem um conhecimento salvífico dEle, são trazidos para conhecer pessoalmente o amor que Ele tem por eles. Sem a bondade amorosa de Deus a vida não é nada além de morte. Bem pode cada crente exclamar: "Porque a tua benignidade é melhor do que a vida os meus lábios te louvarão”. Em outras palavras: "Eu me deleitarei com Tuas perfeições e exultarei em Ti. Buscarei prestar algo da honra que Te é devida”.

 

Essa vida que Deus dá aos Seus filhos consiste não só em serem objetos de Sua benigna aprovação, no gozo experiencial da Sua bondade amorosa, mas também na recepção de um princípio de justiça e santidade pela qual eles são capacitados a apreciá-lO e, por falta disso os não-regenerados não podem desfrutá-lO, pois eles estão "alienados da vida de Deus" (Efésios 4:18). Está claro, tanto a partir do contexto imediato e do restante do verso, que a "vida de Deus" tem uma referência especial à santidade, pois o oposto aparece no versículo 17: "De agora em diante não andem como andam os gentios, na vaidade da sua mente”. O contraste é ainda apontado no versículo 18: “Tendo o entendimento obscurecido, alheios à vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração”. Os não-convertidos são inteiramente dominados pela sua natureza depravada. Suas mentes estão em um estado de pobreza moral, envolvidas somente com coisas vãs; seus entendimentos são desprovidos de inteligência espiritual, desprovidos de qualquer poder para apreender a verdade ou apreciar as belezas da virtude; suas almas estão afastadas de Deus, com uma aversão inveterada dEle; seus corações estão calejados, endurecidos contra Ele. Assim, a corrupção e depravação do homem natural estão opostas à graça e santidade comunicadas no novo nascimento, aqui chamado de "a vida de Deus”.

 

Em terceiro lugar, pela Queda o homem perdeu seu amor por Deus. Há duas emoções fundamentais que influenciam a ação: amor e ódio. Uma não pode existir sem a outra, pois o que é contrário ao desejado será repelente: “Vós, os que amais o Senhor, odiai o mal” (Salmos 97:10). Do Homem perfeito o Pai disse: "Tu amas a justiça e odeias a impiedade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria mais do que a teus companheiros" (Salmos 45:7). O Senhor disse: "Amei Jacó, mas odiei a Esaú" (Romanos 9:13). A grande obra da graça nos redimidos é dirigir e firmar esses afetos em seus objetos próprios. Quando colocamos corretamente nosso amor e ódio, prosperamos na vida espiritual. O homem caído difere do homem redimido nisto: Ambos têm os mesmos sentimentos, mas eles estão deslocados em nós, de modo que agora nós amamos o que deveríamos odiar, e odiamos o que deveríamos amar. Nossos afetos são como membros do corpo fora do lugar, como se os braços pendessem para trás. Dirigir o nosso amor e ódio da maneira correta é a própria essência da verdadeira espiritualidade: amar tudo o que é bom e puro, e odiar tudo o que é mau e vil; pois o amor nos motiva a buscar a união com o que é bom e torná-lo nosso, enquanto o ódio repele e abandona o que é repugnante.

 

Ora, o amor foi feito para Deus, pois só Ele é o seu objeto adequado, bem como a sua Fonte. O amor é inerente em Seus atributos, Sua lei, Suas ordenanças, Seu lidar conosco. Mas o ódio foi feito para a serpente e o pecado. Deus é infinitamente amoroso em Si mesmo, e se as coisas devem ser valorizadas de acordo com a grandeza e excelência delas, então Deus deve ser valorizado supremamente, pois cada centro de perfeição é encontrado totalmente nEle. Amá-lO acima de tudo é um ato de honra devida a Ele, por Quem e pelo que Ele é. Há tudo em Deus para inspirar estima, adoração e afeto. A bondade não é um objeto de temor, mas de atração e deleite.

 

Deus supriu livremente Adão com tudo o que Ele requeria dele. Desde que Adão foi criado com retidão moral perfeita de coração e com um estado santo de mente, ele era plenamente competente para amar a Deus com todo o seu ser. Ele viu as perfeições Divinas brilhando. Os céus declaravam a glória de Deus, o firmamento mostrava a Sua obra e Sua excelência estava espelhada em tudo ao redor de Adão. Ele percebia o que Deus merecia dele, e ficou impressionado com tamanha benção. O coração de Adão foi preenchido com um senso de beleza inefável do Senhor, e pensamentos de admiração e adoração inspirados por Deus encheram sua mente, levando-o a dar-Lhe a adoração e a submissão de que Ele é infinitamente merecedor.

 

O amor a Deus deu unidade de ação a todas as faculdades da alma de Adão; porque desde que esse amor era o princípio dominante nele, ele usou todas essas faculdades para expressar sua devoção a Deus. Assim, quando o amor a Deus morreu dentro de Adão, suas faculdades perderam não só a sua unidade original e ordem, mas o poder para usá-las direito. Todas as suas faculdades caíram sob uma influência má e hostil, e foram aviltadas em sua ação. O homem natural não possui uma única centelha de verdadeira afeição por Deus. "Mas eu vos conheço", disse o onisciente examinador de corações para os judeus religiosos "que não tendes o amor de Deus em vós" (João 5:42). Sem qualquer amor a Deus, todos os atos externos do homem natural são inúteis diante dEle: “Os que estão na carne não podem agradar a Deus” (Romanos 8:8), pois eles não têm a raiz da qual eles devem proceder para que qualquer fruto seja desejável a Ele. O amor é o que anima a obediência que é agradável a Deus: "Se alguém me ama, guardará a minha palavra" (João 14:23). O amor é a própria vida e substância de tudo o que é gratificante para Deus.

 

Como o princípio da obediência, o amor tem a precedência, pois a fé opera pelo amor (Gálatas 5:6). Observe a ordem na injunção, “Consideremo-nos uns aos outros, para nos estimularmos ao [1] amor e às [2] boas obras” (Hebreus 10:24). Mexa com os afetos e as boas obras seguirão, como a movimentação dos carvões faz com que as chamas subam. É o amor que faz com que todos os mandamentos Divinos "não sejam pesados" (1 João 5:3). Nós concordamos plenamente com Charnock: “Nessa simples palavra, amor, Deus embrulhou toda a devoção que Ele exige de nós”. Certamente nossas almas devem ficar arrebatadas por Ele, pois Ele é infinitamente digno de nossos mais seletos afetos e desejos mais fortes. O amor é uma coisa aceitável em si, mas nada pode ser aceitável a Deus sem ele. “Aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e em verdade” (João 4:24). As formas mais decorosas e meticulosas de devoção são inúteis se não têm vitalidade e sinceridade. A adoração verdadeira procede do amor, pois é o exercício das afeições celestes, o derramamento de sua homenagem Àquele que é “totalmente desejável”. O amor é a melhor coisa que podemos prestar a Deus, e o que Lhe é devido em cada serviço. Sem ele nós somos uma abominação a Ele: “Se alguém não ama o Senhor Jesus Cristo, seja anátema. Maranata!” (1 Coríntios 16:22).

 

Em quarto lugar, pela Queda nossos primeiros pais e toda a humanidade perderam a comunhão com Deus. Esta foi desfrutada no início, porque Deus fez o homem com faculdades capazes desse privilégio e projetou-o para ter santa conversação com Ele. Na verdade, esta foi a bênção fundamental desse pacto em que Adão foi colocado e foi um prenúncio daquela comunhão mais íntima que teria sido sua porção eterna se ele vencesse a tentação. Mas a apostasia de Adão e Eva privou-os e a sua posteridade deste privilégio inestimável. Este foi o resultado imediato e inevitável da sua revolta, se nós contemplarmos a partir da perspectiva Divina e humana, “pois que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas?” (2 Coríntios 6:14). Dois não podem andar juntos se não estiverem de acordo (Amós 3:3). O Santo não Se manifestará favoravelmente a rebeldes ou admiti-los à Sua presença como amigos. Depois de sua Queda nossos primeiros pais já não tinham o desejo de que Ele o fizesse. Depois de ter perdido todo o amor a Deus, eles não tinham nenhum desejo por Ele, mas odiavam-nO e temiam-nO.

 

Aqui, então, está a natureza terrível da depravação humana. Do lado negativo é composta por perda do homem da imagem moral de Deus — conscientemente sentida pelos nossos primeiros pais no sentido vergonhoso que eles tinham de sua nudez. Eles também perderam a vida de Deus, de modo que eles se tornaram alienados de Seu favor, desprovidos de alegria, esvaziados de santidade — fracamente percebido por eles, como era evidente a partir de sua tentativa de tornarem-se mais apresentável pela fabricação de aventais de folhas de figueira. O amor a Deus foi perdido, de modo que eles não mais O reverenciavam e O adoravam, mas foram repelidos por Suas perfeições — manifestado por eles em sua fuga assim que perceberam Sua aproximação. Eles perderam a comunhão com Deus, de modo que ficaram totalmente indignos diante de Sua presença, finalizando com sua expulsão do Éden. Somente o regenerado pode estimar o quanto foi irreparável a perda do homem por causa da Queda, e quão terrível é a condição do homem natural.

 

Nós já apontamos uma série de coisas que a depravação da natureza humana não consiste, e algumas das bênçãos inestimáveis ​​da qual o homem foi privado pela Queda. Passamos agora para o lado afirmativo, ou a uma consideração daqueles males que se abateram sobre a natureza humana como resultado da apostasia dos nossos primeiros pais. Nós não concordamos com aqueles que ensinam que algo meramente negativo — a ausência do bem — é transmitido de Adão e Eva para seus descendentes, através da via da geração natural e da propagação. Em vez disso, estamos plenamente convencidos de que algo de positivo — um princípio ativo do mal — é transmitido de pai para filho. Enquanto consideramos que o pecado não é uma substância ou uma coisa material, temos a certeza de que é muito mais do que uma mera abstração e nulidade. A própria natureza do homem é corrompida; o vírus do mal está em seu sangue. Embora haja privação no pecado — uma não-conformidade à lei de Deus —, há também uma potência positiva real nela para o mal. Assim como a santidade, o pecado é um poder, mas um poder que opera a desordem e a morte.

 

Tem sido dito por alguns que “a natureza do homem não foi tornada agora pecaminosa por colocar qualquer coisa nela para contaminá-la, mas por tomar algo dela que deveria tê-la preservada santa". Mas nós preferimos a declaração do Catecismo de Westminster: A pecaminosidade daquele estado em que o homem caiu consiste na culpa do primeiro pecado de Adão, a falta de justiça em que ele foi criado, e a corrupção de sua natureza, pela qual ele é totalmente indisposto e incapaz, e feito inimigo de tudo o que é espiritualmente bom, e inteiramente inclinado a todo o mal, e isto continuamente, o que é comumente chamado de pecado original, e do qual procedem todas as transgressões.

 

Que a natureza humana caída não é apenas destituída de toda a piedade, mas é também completamente impregnada com tudo o que é diabólico, pode certamente ser constatado a partir dos dois diferentes tipos de pecado de que todo homem é culpado: o de omissão, em que há falta de realizar boas obras, e o de comissão, ou desprezo da lei de Deus. Algo responsável por ambos deve existir em nossa natureza pecaminosa, caso contrário, nós declaramos a causa inadequada para produzir o efeito. Embora a ausência de santidade explique o primeiro, somente a presença do mal conta para o último.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.