As Oposições à Doutrina da Eleição, por A. W. Pink

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[Capítulo 11 do livro The Doctrine of Election • Editado]

Onde quer que a doutrina da eleição seja biblicamente apresentada reunir-se-ão contra ela com oposição feroz e clamor amargo. Tem sido assim ao longo de todo o curso desta era Cristã, e isto, entre todas as raças e classes de pessoas. Deixe as altas prerrogativas de Deus serem estabelecidas, deixe a soberania de Sua graça ser proclamada, deixe ser dito aos homens que eles nada mais são do que barro nas mãos do Oleiro Divino para serem moldados em vasos de ira ou vasos de misericórdia, conforme bem parecer aos olhos de Deus, e no mesmo instante há um tumulto e gritos de protesto. Deixe o pregador insistir que a criatura caída não tem qualquer direito sobre o seu Criador, que ela está diante dEle como um criminoso condenado, e não possui nenhum direito, exceto o de ser eternamente condenado, e deixe-o declarar que todos os descendentes de Adão são tão absolutamente depravados que suas mentes estão em “inimizade contra Deus” e, portanto, em um estado de insubordinação desenfreada, que seus corações são tão corruptos que não têm desejo pelas coisas espirituais, e que suas vontades estão tão completamente sob o domínio do mal que eles não podem converterem-se ao Senhor, e tal pregador será denunciado como um herege.

 

Mas isso não deve nem surpreender e nem ser estranho para o filho de Deus. À medida que ele se torna mais familiarizado com as Escrituras, ele descobrirá que em cada geração os fiéis servos de Deus têm sido odiados e perseguidos, alguns por proclamar uma parte da verdade, e alguns por proclamarem a outra parte. Quando o sol brilha sobre um monturo, um fedor odioso é a consequência; quando os seus raios caem sobre as águas estagnadas de um pântano, os germes insalubres são multiplicados. Mas neste caso o sol deve ser responsabilizado? Certamente que não. Assim, quando a espada do Espírito corta pela raiz o orgulho humano e revela que o homem é um ser caído e sujo, e o reduz a uma criatura impotente, colocando-o no pó como um mendigo miserável, e declara que ele é totalmente dependente do beneplácito de distinção de um Deus soberano, então há uma tempestade de oposição evocada, e um esforço resoluto é feito para silenciar tais ensino que são fulminantes para a carne.

 

O método que é geralmente seguido por aqueles que rejeitam esta verdade é a deturpação. A doutrina da eleição é tão grande e gloriosa que para que seja produzida qualquer oposição contra ela deve ser por meio de sua perversão. Aqueles que a odeiam nem podem olhar para e nem falar dela como ela realmente merece. A eleição é tratada por eles como se não incluísse uma designação para a fé e para a santidade, como se através desta não fôssemos conformados à imagem de Cristo; sim, como se os eleitos de Deus pudessem continuar a cometer todo tipo de maldade e ainda ir para o céu; e que quanto aos não-eleitos, não importa quão virtuosos eles sejam, ou quão ardentemente eles desejem e lutem por justiça, eles certamente perecerão. Inferências falsas são esboçadas, paródias grotescas são exibidas e táticas inescrupulosas são empregadas para criar preconceitos.

 

É por tais esforços diabólicos que os inimigos de Deus procuram distorcer e destruir esta bendita doutrina. Eles a mancham com lama, buscam sobrecarregá-la com as coisas odiosas, e apresentá-la ao olhar indignado de homens como algo a ser rejeitado e abominado. Um monstro de iniquidade é assim criado e chamado de “eleição”, e, em seguida, é apresentado ao mundo como algo a ser repudiado como maligno. Assim, as multidões foram enganadas a respeito de uma das porções mais preciosas da verdade Divina, e, assim, alguns do próprio povo de Deus têm sido extremamente perplexos e perseguidos. Que os adversários confessos de Cristo insultem a doutrina ensinada por Ele e Seus apóstolos é de se esperar; mas quando aqueles que professam ser Seus amigos e seguidores se juntam e falam contra esta verdade, isto serve apenas para demonstrar a astúcia da antiga serpente, o Diabo, que nunca está mais satisfeito do que quando ele pode persuadir Cristãos nominais a fazerem seu trabalho vil para ele. Então, que o leitor não se deixe ser abalado por tal oposição.

 

A grande maioria desses opositores têm pouca ou nenhuma compreensão real a respeito daquilo contra o que eles se levantam. Eles são, em grande parte ignorantes do que as Escrituras ensinam sobre o mesmo, e são demasiado preguiçosos para fazer qualquer estudo sério sobre o assunto. Seja qual for a atenção que eles empregam para isso é em grande parte neutralizado pelo véu do preconceito que impede a sua visão. Entretanto, quando essas pessoas examinam a doutrina com diligência suficiente para descobrir que ela conduz somente à santidade — santidade de coração e de vida — então eles redobram seus esforços para arruiná-la. Quando Cristãos professos se unem com os detratores da doutrina da eleição, a caridade nos obriga a concluir que é por causa da incapacidade de compreender adequadamente esta doutrina. Eles têm uma visão unilateral desta verdade, eles a veem através das lentes distorcidas, eles a contemplam a partir do ângulo errado. Eles não conseguem ver que a eleição teve origem no amor eterno, que é a escolha de uma companhia para a salvação eterna, que de outra forma teríamos inevitavelmente perecido, e que esta doutrina faz com que esta companhia seja um povo disposto, obediente e santo.

 

Não vamos agora tentar cobrir toda a gama de objeções que foram interpostas contra a doutrina da eleição, mas nossa discussão seria incompleta se as ignorássemos completamente. As ações da incredulidade são sempre infinitas em número. O filho de Deus precisa estar ocupado com algo mais proveitoso. No entanto, sentimos que devemos pelo menos considerar brevemente aquelas objeções que o inimigo supõe serem as mais poderosas e formidáveis. Não que nosso objetivo seja tentar convencê-los de seus erros, mas, nosso objetivo é tentar ajudar os companheiros de fé, que, porventura tenham sido abalados, senão tropeçado nisso. Nosso negócio não é refutar o erro, mas (em Deus) estabelecer os nossos leitores na verdade. Contudo, para fazer isso, às vezes é necessário expor os ardis de Satanás, e mostrar quão desprovidos de fundamentos são as mais insidiosas de suas mentiras, e procurar remover da mente do Cristão qualquer efeito prejudicial que estas possam ter tido sobre ele.

 

Antes de iniciar esta tarefa indesejável permita-me salientar que a falta de habilidade da nossa parte para refutar as calúnias dos adversários não é uma prova de que a sua posição é inexpugnável. Como o renomado Joseph Butler pontuou há muito tempo em sua magistral “Analogia”: “Se a verdade está estabelecida, as objeções nada são. Esta (ou seja, a verdade) é fundada sobre o nosso conhecimento, e as outras em nossa ignorância”. Uma vez que se prove que dois e dois são quatro, nenhum subterfúgio ou malabarismo com números podem contestá-lo. “Nós nunca devemos suportar que o que sabemos seja perturbado pelo que não sabemos”, disse aquele mestre da lógica, William Paley. Uma vez que vemos algo ser claramente ensinado nas Escrituras Sagradas, não devemos permitir que tanto os nossos próprios preconceitos ou o antagonismo dos outros abalem nossa confiança em ou a adesão a tal ensinamento. Se estamos convencidos de que temos um “assim diz o Senhor” sobre o que descansaremos, em nada importa se não somos capazes de mostrar o sofisma e argumentar contra isto. Tenha a certeza de que Deus é verdadeiro, mesmo que isso signifique que seremos contados como mentirosos.

 

Os piores inimigos contra a doutrina da eleição são os papistas, este é exatamente o que se poderia esperar, pois a verdade da eleição nunca pode ser conciliada com o dogma dos méritos humanos, pois este é diametralmente oposta à outra. Todo homem que é amante de si mesmo e busca a salvação por suas próprias obras, detestará a graça soberana, e procurará leva-la ao desprezo. Por outro lado, aqueles que foram eficazmente humilhados pelo Espírito Santo e foram levados a perceber que eles são completamente dependentes da misericórdia distinguidora de Deus, não desejarão e terão paciência com um sistema que coloca a coroa de honra sobre a criatura. A história dá amplo testemunho de que Roma detesta o próprio nome Calvinismo. “De todas as seitas pode haver alguma esperança de obter convertidos para Roma exceto do Calvinismo”, disse recentemente “O Cardeal” Manning. E ele estava certo, como a nossa própria época degenerada dá pleno testemunho, por enquanto nenhum Calvinista regenerado jamais vai ser fatalmente enganado pelos ardis da mãe das prostitutas, mas milhares de “protestantes” (?) Arminianos estão correndo anualmente para seus braços.

 

É um fato irrefutável que à medida que o Calvinismo encontrou cada vez menos favorecimento nos principais círculos Protestantes, à medida que a soberania de Deus e Seu amor eletivo têm sido cada vez mais retirados de seus púlpitos, que Roma tem feito progresso significativo, ainda hoje ela deve ter, tanto na Inglaterra como nos EUA, um número maior de seguidores do que qualquer denominação evangélica individual. Mas o que é mais triste de tudo é que, a grande maioria dos que agora ocupam os chamados púlpitos protestantes estão pregando as mesmas coisas que interessam a Roma. Sua insistência na liberdade da vontade humana para fazer o bem deverá encher os líderes papistas de prazer. No Concílio de Trento, eles anatematizaram todos os que afirmaram o contrário. Até que ponto o fermento do papado se espalhou pode ser visto nestes “protestantes evangélicos” que se opõem à doutrina da eleição, os quais estão agora empregando as mesmas auto-objeções que foram usadas pelos doutores italianos há quatrocentos anos.

 

Mas, para chegar agora a algumas das objecções. Em primeiro lugar, tal doutrina é totalmente irracional. Quando se adequa ao seu propósito, Roma faz uma grande pretensão de apelar à razão humana, mas em outros momentos ela exige que seus filhos fechem os olhos mentais e aceitem cegamente tudo o que a sua “mãe” profana tem o prazer de impor sobre eles. No entanto, Roma não é de forma alguma a única criminosa neste momento, uma multidão de pessoas que se consideram protestantes são culpados da mesma coisa. Assim também quase a primeira resposta das pessoas que não fazem nenhuma profissão religiosa, quando esta verdade lhes é apresentada ao seu conhecimento, é exclamar: “Tal conceito definitivamente não me agrada. Se há um Deus, e se Ele tem absolutamente algo a ver com nossas vidas presentes, eu creio que Ele vai nos dar igualmente a mesma chance, equilibrar as nossas boas ações contra as nossas más, e ter misericórdia de nós. Dizer que Ele tem favoritos entre as Suas criaturas, e que Ele fixou o destino de cada um antes de seu nascimento, parece-me ser ultrajante”.

 

Nossa primeira resposta a essa objeção é esta, isso está totalmente fora de questão. A única questão que exige uma decisão desde o princípio é: o que dizem as Escrituras? Se a eleição for claramente ensinada nelas, isso resolve o assunto para o filho de Deus, e o estabelece de uma vez por todas. Se ele a entende ou não, ele sabe que Deus não pode mentir, e que a Sua Palavra “é a verdade desde o princípio” (Salmo 119:160). Se o seu adversário não a admite, então não há nenhum terreno comum em que eles possam se fundamentar, e é totalmente inútil discutir o assunto com ele. Sob nenhuma circunstância deve o Cristão deixar-se afastar da sua posição sobre a rocha inexpugnável da Sagrada Escritura, e descer até o chão traiçoeiro da razão humana. Só nesse plano elevado, ele pode resistir com sucesso às investidas de Satanás. Releia Mateus 4 e observe como Cristo venceu o tentador.

 

A santa Palavra de Deus não nos induz a desejar aceitação no tribunal da razão humana. Em vez disso, ela exige que a razão humana renda-se à sua autoridade Divina e receba sem murmurar seu conteúdo inerrante. Ela enfática e repetidamente adverte os homens que se eles desprezam a sua autoridade e rejeitam seus ensinamentos, devem estar certos de sua ruína eterna. É por esta Palavra que cada um de nós deve ser pesado, medido, julgado no dia vindouro; e, portanto, é parte da sabedoria humana o curvar-se para receber com alegria as suas declarações inspiradas. A atitude suprema da correta razão, meu leitor, é submeter-se sem reservas à sabedoria Divina e aceitar com simplicidade como de criança a revelação que Deus nos deu graciosamente. Qualquer atitude diferente quanto a isso é totalmente irracional — a loucura do orgulho. Como devemos ser gratos ao fato de que o Ancião de dias [Daniel 7:22] condescende em nos instruir.

 

Nossa segunda resposta à objeção acima é que, em uma revelação escrita do céu devemos esperar totalmente encontrar muita coisa que transcende o alcance das nossas pobres mentes ligadas à terra. Qual seria o proveito de que Deus nos comunicasse apenas aquilo que já sabíamos? As Escrituras não nos foram dadas como um campo em que a razão pode ser exercida, o que elas exigem são a fé e a obediência. E a fé não é uma coisa ininteligível e cega, mas a confiança no Seu Autor, uma garantia de que Ele é muito sábio para errar, muito justo para cometer injustiça; e, portanto, uma confiança de que Ele é infinitamente digno de nossa confiança e submissão à Sua santa vontade. Contudo, justamente porque a Palavra de Deus é dirigida à fé, há muito nela que é contrário à natureza, muito do que é muito misterioso, tanto que nos deixa maravilhados. A fé deve ser testada, para que sua autenticidade deva ser provada. E Deus se deleita em honrar a fé: embora a Sua Palavra não tenha sido escrita para satisfazer a curiosidade, e apesar de que muitas perguntas não estão ali totalmente respondidas… onde os fundamentos da fé são exercidos a mais completa luz é concedida.

 

O próprio Deus é profundamente misterioso. “Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos; e quão pouco é o que temos ouvido dele!” (Jó 26:14); “Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!” (Romanos 11:33). Devemos, portanto, esperar encontrar na Bíblia muitas coisas que nos parecem estranhas: as coisas “difíceis de entender” (2 Pedro 3:16). A criação do universo a partir do nada, com o simples decreto do Todo-Poderoso, está além da compreensão da mente finita. A encarnação Divina transcende a razão humana: “Grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne” (1 Timóteo 3:16). Que Cristo tenha sido concebido e nascido de uma mulher que não havia tido conhecido nenhum contato com homem, não pode ser explicado pela razão humana. A ressurreição de nossos corpos, milhares de anos depois de terem ido ao pó é inexplicável. Não é, portanto, mais razoável rejeitar a verdade da eleição, pelo fato de que a razão humana não pode compreendê-la!

 

Em segundo lugar, uma outra objeção é que a doutrina da eleição é muito injusta. Rebeldes contra o Soberano supremo não hesitam em acusá-lO de injustiça, porque Ele tem o prazer de exercer Seus próprios direitos, e determinar o destino de Suas criaturas. Eles argumentam que todos os homens devem ser tratados em pé de igualdade, que deve ser dada igual oportunidade de salvação a todos. Eles dizem que, se Deus mostra misericórdia para um e a retêm de outro, tal parcialidade é extremamente injusta. Para tal objetor nós respondemos na linguagem da Sagrada Escritura: “Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” (Romanos 9:20-21). E para ali nós o levamos.

 

Porém, mesmo algumas daquelas pessoas que pertencem ao Senhor são perturbadas por essa dificuldade. Em primeiro lugar, então, gostaria de lembrar-lhes que Deus é “luz” (1 João 1:5), bem como “amor”. Deus é inefavelmente santo, bem como infinitamente misericordioso. Como o Santo Ser Ele abomina todo o mal, e como o governador moral de Suas criaturas, convém a Ele manifestar eternamente o Seu ódio pelo pecado. Como o Ser gracioso, Ele tem o prazer de conceder favores sobre quem não merece, e dar uma demonstração eterna que Ele é “o Pai das misericórdias”. Agora, na eleição esses dois propósitos são inequivocamente realizados. Na rejeição e condenação dos não-eleitos, Deus dá prova plena da Sua santidade e justiça, dando-lhes a devida recompensa das suas iniquidades. Na predestinação e salvação de Seu povo escolhido, Deus faz uma exposição clara das abundantes riquezas da Sua graça.

 

Suponha que Deus tivesse desejado a destruição de toda a raça humana, o que teria acontecido? Isso teria sido injusto? Certamente que não. Não poderia haver nenhuma injustiça, qualquer que fosse, em impor aos criminosos a pena da lei que eles haviam desafiadoramente quebrado. Mas o que, então, teria acontecido com a misericórdia de Deus? Nada, mas a justiça inexorável teria sido exercida por um Deus ofendido, então cada descendente de Adão caído teria inevitavelmente sido lançado no inferno. Agora, por outro lado. Suponha que Deus decidisse abrir as comportas da misericórdia, e levar toda a raça humana para o céu, o que teria acontecido então? O salário do pecado é a morte, a morte eterna. Mas, se todos os homens pecassem, e ninguém morresse, isto seria prova de que a justiça Divina nada mais era do que um nome vazio? Se Deus tivesse salvado todos os pecadores, isso não necessariamente inculcaria leves concepções sobre o pecado? Se todos fossem levados ao céu, não concluiríamos que seria devido a nós, como um direito?

 

Pelo fato de que todos são culpados, deveriam as mãos da misericórdia Divina serem amarradas? Se não, se a misericórdia pode ser exercida, então Deus está obrigado a renunciar totalmente à Sua justiça? Se Deus se apraz em exercer misericórdia sobre alguns, não tendo esta reivindicação alguma sobre aquela, não pode Ele também mostrar-se como justo juiz por infligir aos outros o castigo que merecem? Que mal há em um credor se ele perdoa a dívida de um e exige o pagamento da dívida de outro? Sou injusto porque eu mostro caridade a um mendigo, e recuso fazer o mesmo ao seu companheiro? Então, o grande Deus é menos livre para transmitir Seus dons a quem Lhe agrada? Antes que a objeção acima tenha qualquer vigor, deve ser provado que toda a criatura (pelo fato de ser uma criatura) tem direito à bem-aventurança eterna, e que mesmo que ela caia em pecado e torne-se rebelde contra o seu Criador, que Deus é moralmente obrigado a salvá-la. A tais absurdos o objetor é necessariamente reduzido.

 

Se a felicidade eterna fosse devida a cada homem, sem exceção, certamente a felicidade temporal deveria ser-lhe devida também, se eles têm direito à uma maior reivindicação dificilmente esta pode ser posta em dúvida. Se o Onipotente é obrigado, sob pena de tornar-se injusto, fazer tudo o que Ele for capaz para que cada indivíduo seja feliz na outra vida; Ele deve ser igualmente obrigado a fazer cada indivíduo ser feliz nesta. Mas todos os homens são felizes? Olhe ao redor do mundo e diga ‘sim’, se puder. O Criador é, portanto, injusto? ninguém, senão Satanás sugeriria isto, ninguém senão seus ecos afirmariam isso. O Senhor é um Deus de verdade, e não há nEle injustiça, justo e reto Ele é… A ordem constituída das coisas é misteriosa? Sim, impenetrável. No entanto, o mistério das dispensações de Deus evidencia não a injustiça do distribuidor soberano, mas a superficialidade da compreensão humana e a falta da visão humana. Vamos, então, abraçar e reverenciar as doutrinas bíblicas da predestinação e da providência, demos a Deus o crédito por Ele ser infinitamente sábio, justo e bom; embora no presente Seus caminhos sejam profundos, e Seus passos não sejam conhecidos (Augustus Toplady, autor de “Rock of Ages”).

 

Por fim, deixe-se salientar que Deus nunca recusa misericórdia para qualquer um que humildemente O busca. Os pecadores são livremente convidados a abandonarem seus maus caminhos e clamarem ao Senhor por perdão. O banquete do Evangelho está espalhado diante deles; se eles se recusam a participar do mesmo, se ao invés disso eles detestam e afastam-se dele com desdém, não está o sangue deles sobre suas próprias cabeças? Que tipo de “justiça” é a que exige que Deus traga para o céu aqueles que O odeiam? Se Deus fez um milagre da graça em você, meu leitor, e gerou em seu coração um amor por Ele, seja fervorosamente grato ao mesmo, e não perturbe a sua paz e alegria perguntando por que Ele não fez o mesmo aos seus companheiros transgressores.

 

Em terceiro lugar, objetam que se a doutrina da eleição é verdadeira a oferta do Evangelho não tem sentido. Aqueles que se recusam a receber a verdade da eleição Divina gostam de dizer que a ideia de Deus ter eternamente escolhido algumas e rejeitado outras de Suas criaturas reduziria a pregação evangélica a uma farsa. Eles argumentam que, se Deus predestinou uma parte da raça humana para a perdição, a pregação do Evangelho não pode conter nenhuma boa oferta de salvação para eles. Permita-nos em primeiro lugar salientar que essa objeção não atinge somente o Calvinismo, mas aplica-se com a mesma força ao Arminianismo. Os defensores do livre-arbítrio negam o caráter absoluto dos decretos Divinos, mas eles afirmam a presciência de Deus. Então devolvamos a questão para eles: Como Deus, em boa fé, pode ordenar homens a se arrependerem e crerem no Evangelho, quando Ele infalivelmente conhece de antemão os que nunca o farão? Se os objetores supõem que a primeira objeção é irrefutável, eles encontrarão que a nossa pergunta é irrespondível considerando os seus próprios princípios.

 

Seja qual for a dificuldade que possa ser apresentada neste momento — e o escritor não tem nenhum pensamento de menosprezar esta — uma coisa é clara: a quem o Evangelho vem, Deus é sincero ao ordenar aqueles que o ouvem a submeterem-se às suas exigências, receberem suas boas novas, e serem salvos desse modo. Se podemos ou não perceber como isso pode ser assim, isso é de nenhuma importância; mas a integridade do caráter Divino deve ser preservada a todo custo. O simples fato de que somos incapazes de discernir a consistência e harmonia entre duas linhas distintas da verdade, isto certamente não garante nossa rejeição a qualquer uma delas. A doutrina da eleição soberana é claramente revelada nas Escrituras; assim também como é a genuinidade da oferta do Evangelho a todos que o recebem, uma doutrina deve ser defendida, bem como a outra.

 

Mas, nós não criamos a nossa própria dificuldade por supor que a salvação dos homens é o único objetivo de Deus, ou até mesmo seu propósito principal, ao enviar o Evangelho? Mas para que outros fins, pode-se perguntar, o Evangelho foi enviado? Muitos. O primeiro propósito de Deus no Evangelho, como em todo o mais, é a honra de Seu próprio grande Nome e a glória de Seu Filho. No Evangelho o caráter de Deus e da excelência de Cristo são mais plenamente revelados do que em qualquer outro lugar. Que um testemunho universal disso deve ser feito é infinitamente apropriado. Que os homens devem conhecer as inefáveis perfeições dAquele com quem eles têm que lidar é mui desejável. Deus, então, é magnificado e o valor incomparável de Seu Filho é proclamado, mesmo que nenhum pecador jamais creia e seja salvo por ele.

 

Outrossim; a pregação do Evangelho é o instrumento designado nas mãos do Espírito Santo pelo qual os eleitos são trazidos a Cristo. Deus não desdenha das agências instrumentais, antes tem o prazer de empregá-las, Aquele que ordenou o fim, também nomeou os meios para o atingir. Justamente porque os eleitos de Deus estão “dispersos” (João 11:52) entre todas as nações, Ele ordenou “o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém” (Lucas 24:47). É por ouvir o Evangelho que eles são chamados para fora do mundo. Os eleitos de Deus por natureza são filhos da ira “como os outros também”, eles são perdidos pecadores que necessitam de um Salvador, e à parte de Cristo não há salvação para eles. Portanto, o Evangelho deve ser pregado e crido por eles antes que eles possam regozijar-se no conhecimento de que seus pecados estão perdoados. O Evangelho, então, é a grande pá de joeirar de Deus, separando o trigo do joio, e reunindo o trigo em Seu celeiro.

 

Além disso, os não-eleitos ganham muito com o Evangelho, mesmo que ele não afete a sua salvação eterna. O mundo existe por causa dos eleitos, mas todos compartilham os benefícios disto. O sol brilha sobre os maus, assim como sobre os bons; chuvas refrescantes caem sobre as terras dos ímpios tão verdadeiramente como sobre o terreno dos justos. Assim, Deus faz com que o Evangelho chegue aos ouvidos de muitos dos não-eleitos, bem como aos ouvidos de Seu povo favorecido. Por quê? Por se tratar de um dos seus órgãos poderosos para manter sob controle a maldade dos homens caídos. Milhões de pessoas que nunca foram salvas por ele, são reformadas, suas paixões são refreadas, o seu exterior é claramente melhorado, e a sociedade torna-se mais adequada para que os santos vivam. Compare os povos sem o Evangelho e aqueles que o têm, no caso destes últimos será encontrado que há maior moralidade mesmo onde não há espiritualidade.

 

Finalmente, deve-se salientar que o Evangelho é feito como um verdadeiro teste da personalidade de todos os que o ouvem. As Escrituras declaram que o homem é uma criatura caída, corrupta, amante do pecado. Elas insistem que a suas inclinações mentais são inimizade contra Deus, que ele ama mais as trevas do que a luz, que ele não estará sujeito a Deus em qualquer circunstância. No entanto, quem acredita em tais verdades humilhantes? Mas a resposta que os não-eleitos dão ao Evangelho demonstra a verdade da Palavra de Deus. Sua impenitência contínua, sua incredulidade e desobediência testemunham da sua depravação total. Deus instruiu Moisés a ir a Faraó e pedir que Israel fosse permitido adorar o Senhor no deserto; ainda no versículo seguinte Ele lhe disse: “Eu sei, porém, que o rei do Egito não vos deixará ir, nem ainda por uma mão forte” (Êxodo 3:18-19). Então, por que enviar Moisés em tal missão? Para fazer manifesta a dureza do coração de Faraó, a teimosia de sua vontade, e da justiça de Deus na destruição de tal miserável.

Em quarto lugar, os nosso objetores alegam que a doutrina da eleição destrói a responsabilidade humana. Os Arminianos reclamam que afirmar que Deus decretou, de maneira inalterável e fixa, a história e o destino de cada homem, aboliria a responsabilidade humana, e que, em tal caso, o homem não seria melhor do que uma máquina. Eles insistem que a vontade do homem deve ser livre, livre igualmente tanto para o bem como para o mal, ou de outra forma, ele deixaria de ser um agente moral. Eles argumentam que a menos que as ações de uma pessoa estejam livres de compulsão, e estejam de acordo com seus próprios desejos e inclinações, ele não poderia ser justamente considerado responsável por elas. A partir dessa premissa a conclusão a ser tirada é que ela, a criatura, e não o Criador, é quem escolhe e decide seu destino eterno, pois se seus atos são autodeterminantes, ou seja, estes não podem ser determinados por Deus.

 

Tal objeção é realmente uma descida às regiões escuras da filosofia e da metafísica, uma tentativa ilusória do Inimigo para nos levar para longe do reino da revelação Divina. Enquanto nós respeitarmos as Sagradas Escrituras, estaremos seguros, mas assim que recorrermos ao raciocínio humano a respeito de questões espirituais estejamos certos de que erraremos. Deus já deu a conhecer tudo o que Ele julga como bom para nós sabermos nesta vida, e qualquer tentativa de ser sábio acima do que está escrito nada é senão loucura e impiedade. A partir das Escrituras é claro como um raio de sol que o homem — quer seja considerado como não caído ou caído — é um ser responsável, e que ele deverá colher tudo o que ele semeia, que ainda terá que prestar contas a Deus por todos os seus atos e ser julgado em conformidade com estes; e nada deve ser permitido que enfraqueça a impressão desses fatos solenes sobre nossas mentes.

 

A mesma linha de raciocínio tem sido empregada por aqueles que rejeitam a inspiração verbal das Escrituras. Argumenta-se que tal postulado inteiramente elimina o elemento humano da Bíblia, que se insistirmos (como este escritor, por exemplo, muito enfaticamente o faz) que não só os pensamentos e sentimentos, mas em si a própria linguagem é Divina, que cada palavra e sílaba dos manuscritos originais foi Deus quem inspirou, então os escritores humanos empregados na transmissão da mensagem eram apenas autômatos. Mas sabemos que isso é falso. Da mesma forma, com tanta demonstração de razão pode o opositor declarar que Cristo não pode ser ao mesmo tempo Divino e humano, que se Ele é Deus, Ele não pode ser homem, e que se ele for verdadeiramente homem, segue-se que Ele não pode ser Deus […].

 

Os livros da Bíblia foram escritos por homens, escritos por eles sob o livre exercício de suas faculdades naturais, de tal forma que a marca de sua personalidade é claramente deixada em suas várias contribuições. No entanto, eles não originaram nada do que foi escrito, eles eram “inspirados pelo Espírito Santo” (2 Pedro 1:21), e assim eles estavam completamente controlados por Ele, que sem a menor sombra de um engano ou erro teria sido cometido por eles, e tudo o que eles escreveram eram “as palavras que… ensinadas pelo Espírito Santo” (1 Coríntios 2:13). O Redentor é o Filho do homem, que “em tudo era semelhante aos irmãos” (Hebreus 2:17); ainda porque Sua humanidade esteve em união com a Sua pessoa Divina tudo o que fazia possuía um valor único e infinito. O homem é um agente moral, agindo de acordo com os desejos e ditames de sua natureza, ele é ao mesmo tempo uma criatura, totalmente controlado e determinado por seu Criador. Em cada um destes casos, os elementos Divino e humano coalescem, mas o Divino domina, contudo, ele não excluiu o humano.

 

“Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é mister que venham escândalos”. Então, certamente, pode um objetor replicar, que não pode haver culpa sobre aquele que introduz o que é inevitável. Porém, muito diferente foi o ensinamento de Cristo: “mas ai daquele homem por quem o escândalo vem” (Mateus 18:7). “Quando ouvirdes de guerras e de rumores de guerras, não vos perturbeis; porque assim deve acontecer” (Marcos 13:7). Há um “deve haver” para estes flagelos e acontecimentos mortais, mas que não altera a criminalidade dos causadores dos mesmos. Há um “até importa que haja entre vós heresias” (1 Coríntios 11:19), mas os próprios hereges são condenáveis??. A absoluta necessidade e a responsabilidade humana são, portanto, perfeitamente compatíveis, quer possamos perceber sua consistência ou não.

 

Em quinto lugar, é objetado contra a verdade da predestinação que esta substitui a utilização de meios e torna fúteis todos os incentivos para esforço humano. Afirma-se que, se Deus elegeu um homem para a salvação que ele será salvo, embora ele permaneça totalmente indiferente e continue a viver totalmente em pecado; que se ele não foi eleito, então qualquer esforço para alcançar a vida eterna seria totalmente inútil. Diz-se que ao anunciar aos homens que eles foram Divinamente ordenados ou para a vida ou morte por um decreto eterno e imutável, eles imediatamente concluirão que não faz diferença alguma a forma como se comportam, visto que nenhum destes atos podem minimamente impedir ou promover a predestinação de Deus. Assim, argumenta-se, que todos os motivos para diligência são efetivamente neutralizados, que esta doutrina é subversiva de toda exortação à moralidade e espiritualidade.

 

Realmente esta é a mais absurda de todas as objeções. De modo algum está é uma oposição à doutrina bíblica da predestinação, mas contra um conceito totalmente diferente, idealizado nos cérebros da ignorância, ou concebido pela malignidade, a fim de levar a verdade a ser odiava. A única espécie de predestinação a que essa objeção é aplicável, seria uma pré-ordenação absoluta ao fim sem qualquer relação com os meios. Despojado de toda ambiguidade, esta objeção pressupõe que Deus assegura Seus propósitos sem empregar quaisquer agências instrumentais. Assim, quando a objeção é exposta em sua nudez vemos instantaneamente em que triste figura ela configura. Aqueles a quem Deus elegeu para a salvação, Ele escolheu para a “santificação do Espírito, e fé da verdade” (2 Tessalonicenses 2:13).

 

O fato é que Deus decretou trazer Seus eleitos para a glória por um caminho de santificação, e por nenhum caminho além deste; e ao longo de todo o seu curso. Ele os trata como criaturas racionais e responsáveis??, através de meios e motivos apropriados para atrair o seu coração para Si mesmo. Afirmar que se forem eleitos alcançarão o céu quer sejam santificados ou não, é algo tão tolo quanto dizer que Abraão poderia ter sido o pai de muitas nações, embora ele tivesse morrido na infância, ou que Ezequias poderia ter vivido seus 15 anos extras sem comer ou dormir. Antes da tomada de Jericó, foi Divinamente revelado a Josué que ele deveria ser o senhor daquele lugar (6:2), esta garantia era absoluta. Será que, então, o líder de Israel concluiu que nenhuma ação era necessária, e que todos podiam sentar-se e cruzar os braços? não; ele organizou a marcha em torno de suas muralhas em obediência ao mandamento de Deus, e então o evento foi realizado em conformidade com isso.

 

Passamos agora a considerar brevemente algumas das principais Escrituras usadas por aqueles que resistem à verdade. “Entretanto, porque eu clamei e recusastes; e estendi a minha mão e não houve quem desse atenção, antes rejeitastes todo o meu conselho, e não quisestes a minha repreensão” (Provérbios 1:24-25). “Estendi as minhas mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho, que não é bom, após os seus pensamentos” (Isaías 65:2). “Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos… e tu não quiseste!” (Mateus 23:37). É-nos dito por Arminianos que estas declarações são irreconciliáveis ??com o Calvinismo, que estas passagens mostram claramente que a vontade de Deus pode ser resistida e frustrada por homens. Mas certamente um Deus frustrado e derrotado não é o Deus das Escrituras Sagradas. Extrair a partir destes versos a conclusão de que a realização dos decretos Divinos pode falhar é totalmente errônea: eles não têm nada a ver com o propósito eterno de Deus, mas ao invés disso, eles dizem respeito apenas Seus instrumentos externos, pela qual Ele reforça a responsabilidade do homem, testa seu caráter e torna evidente a maldade do seu coração.

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito” (João 3:16). A partir destas palavras é insistido que se Deus ama o mundo, então Ele deseja a salvação de toda a raça humana, e que foi para este fim que Ele providenciou um Salvador para eles. Aqui é um caso no qual são enganados pelo mero som de uma palavra, em vez de apurar seu real significado. Dizer que Deus deu Seu Filho com o propósito de oferecer a salvação para todos os filhos de Adão é manifestamente um absurdo, pois a metade deles já havia morrido antes de Cristo nascer, e a grande maioria deles morreram na escuridão do paganismo. Onde existe o menor indício no Antigo Testamento que Deus amava os egípcios, os cananeus, os babilônios? E onde mais no Novo Testamento há qualquer declaração de que Deus ama toda a humanidade? O “mundo” em João 3:16 (como em muitos outros lugares) é um termo geral, usado em contraste com Israel, que imaginava ter um monopólio sobre a redenção. O amor de Deus se estende muito além dos limites do Judaísmo, envolvendo os Seus eleitos dispersos por todas as nações.

 

“E não quereis vir a mim para terdes vida” (João 5:40). Estranho é dizer que a este único versículo apelam aqueles que não creem na eleição de forma alguma. Eles supõem que este verso ensina a livre vontade do homem caído para o bem, e que Cristo seriamente pretende a salvação daqueles que O desprezam e rejeitam. Mas o que há nessas palavras declara que Cristo realmente deseja a sua salvação? Será que elas não significam antes que Ele estava aqui preferindo uma sentença solene contra eles? Assim, longe da elocução de nosso Senhor implicar que estes homens tinham o poder dentro de si para virem a Ele, elas declaram a perversidade e obstinação de suas vontades. Em vez de qualquer inclinação para o Santo, eles O odiavam.

 

“Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade… O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos” (Timóteo 2:4-6). Para entender essas palavras elas não devem ser consideradas separadamente, mas em conexão com a sua configuração. A partir do contexto, é inequivocamente evidente que estes “todos os homens” que Deus deseja a salvar e por quem Cristo morreu são todos os homens sem levar em conta as distinções nacionais. O ministério de Timóteo foi exercido principalmente entre judeus convertidos, muitos dos quais ainda mantiveram seus preconceitos raciais, de modo que eles não estavam dispostos a submeterem-se à autoridade dos governantes pagãos. Foi por isso que os Fariseus tinham procurado desacreditar Cristo perante todas as pessoas, quando Lhe perguntaram se era lícito pagar tributo a César. Paulo aqui diz a Timóteo que os Cristãos não deveriam apenas prestar obediência aos governantes gentios, mas que deveriam também orar por eles (vv. 1-2).

 

Em 1 Timóteo 2 Paulo golpeou a própria raiz do preconceito que Timóteo foi chamado a combater. Essa lei de Moisés foi agora posta de lado, a distinção que tanto tempo havia prevalecido entre os descendentes diretos de Abraão e o restante da humanidade estava abolida, Deus quis a salvação dos gentios e judeus. Observe particularmente esses detalhes. Em primeiro lugar, “Há um só Deus [ver Romanos 3:29-30], e um só Mediador entre Deus e [não “os judeus”, mas] os homens” (v. 5). Em segundo lugar: “Qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos [indefinidamente], para servir de testemunho a seu tempo” (v. 6); quando Cristo foi crucificado, não foi geralmente entendido, nem mesmo entre os Seus discípulos, que Ele deu a Si mesmo por gentios e judeus; mas em “a seu tempo” (especialmente sob o ministério de Paulo), isso foi claramente “testemunhado”. Terceiro: “Para o que… fui constituído pregador, e apóstolo, e doutor dos gentios” (v. 7). Em quarto lugar: “Quero, pois [com autoridade apostólica], que os homens orem em todo o lugar” (v. 8), aqueles que professam a fé em Cristo devem, imediata e definitivamente acabar com suas noções e costumes Judaicos; Jerusalém já não possuía qualquer santidade peculiar.

 

“Vemos… Jesus… por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos” (Hebreus 2:9). Você já tomou o cuidado de verificar como essa expressão é usada em outras partes do Novo Testamento? “Então cada um receberá de Deus o louvor” (1 Coríntios 4:5). Isso se refere a todos da raça de Adão? Neste caso como poderia isto, a saber, “Apartai-vos de mim, malditos” [Mateus 7:23] ser a porção de muitos? “A cabeça de todo homem é Cristo” (1 Coríntios 11:3), ele era o Cabeça de Judas ou Nero? “Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um” (1 Coríntios 12:7). Mas alguns são “sensuais, que não têm o Espírito” (Judas v. 19 e cf. Romanos 8:9). É “todos” na família de Deus que são intencionados em todas essas passagens da Epístola, observe como o “cada um” de Hebreus 2:9 é definido como “muitos filhos” (v. 10), “irmãos” (v. 11), “filhos” (vv. 12-14).

 

“Também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou” (2 Pedro 2:1). Este versículo é frequentemente citado como uma tentativa de refutar que Cristo morreu somente pelos eleitos, embora este só serve para mostrar que os recursos desesperados de nossos adversários são reduzidos. Porque o versículo não faz absolutamente nenhuma referência a Cristo, menos ainda à Sua morte! A palavra grega aqui não é kúrios — o que é comumente usada quando se refere ao Senhor Jesus; mas despotes. Os únicos lugares onde esta palavra ocorre, quando aplicada a uma pessoa Divina, são Lucas 22:9; Atos 4:24; 2 Timóteo 2:22; Judas 4 e Apocalipse 6:10, em todas estas passagens claramente a referência é a Deus Pai, e na maioria delas manifestamente distinto de Cristo. “Resgatar” aqui tem referência à libertação temporal, sendo tomado a partir de Deuteronômio 32:6. Pedro estava escrevendo para judeus que se vangloriavam em voz alta de que eles eram um povo resgatado pelo Senhor, e, portanto, ele usou esta expressão para agravar a impiedade desses falsos mestres que estavam entre os judeus.

 

“Não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se” (2 Pedro 3:9). Aqui, novamente, um falso sentido é extraído por se tirar o texto de seu contexto. A chave para este versículo é encontrado na palavra “nós”: “o Senhor é… longânimo para convosco”, pois Ele não quer que “alguns” deles pereçam. E quem são eles? Ora, os “amados” do versículo 1 (aqueles que mencionei no início da primeira Epístola, “eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito”), e porque Ele propôs que “todos” destes cheguem ao arrependimento: Ele adia a segunda vinda de Cristo (vv. 3-4). Cristo não retornará até que o último integrante de Seu povo esteja em segurança na Arca da Salvação.
 

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