Charles Spurgeon: Pregando em Meio à Adversidade, por John Piper

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[1995 Conferência Bethlehem para Pastores • 31 de janeiro de 1995]

 

Uma Introdução Pessoal

 

Meu tema deste ano é “Pregando em meio à adversidade”, e o homem que quero focar é Charles Haddon Spurgeon, que morreu neste dia, há 103 anos atrás com a idade de 57 anos, depois de pregar por 38 anos no Tabernáculo Metropolitano, em Londres. Há razões muito pessoais pelas quais eu escolhi este tema e este homem para o estudo biográfico deste ano. Todo mundo enfrenta adversidades e deve encontrar formas para perseverar através dos momentos opressores da vida. Todos devem levantar-se e fazer o pequeno almoço, lavar a roupa, ir para o trabalho, pagar as contas, e disciplinar as crianças e, geralmente, continuar a vida quando o coração está partido.

 

Mas é diferente com os pastores — não totalmente diferente, mas diferente. O coração é o instrumento de nossa vocação. Spurgeon disse: “O nosso trabalho é mais do que trabalho mental, é obra do coração, o trabalho do mais íntimo de nossa alma” [1]. Assim, quando os nossos corações estão partidos, nós precisamos trabalhar com um instrumento quebrantado. A pregação é o nosso principal trabalho. E a pregação é uma obra do coração, não apenas o trabalho mental. Portanto, a questão para nós não é apenas como continuar vivendo quando o casamento está em baixa, e uma criança se foi, e as finanças não vão bem, e bancos estão vazios e os amigos te abandonam, a questão para você é mais do que isso, a questão é como você continuará a viver? É, como você continuará a pregar? Uma coisa é sobreviver à adversidade, outra coisa muito diferente é continuar a pregar, domingo após domingo, mês após mês, quando o coração está sobrecarregado.

 

Spurgeon disse para os alunos do seu Colégio de Pastores: “Uma avalanche de golpes tem, por vezes, abatido o ministro. O irmão mais solicitado se torna um traidor… Dez anos de labuta não nos sugam tanta vida, como a que nós perdemos em poucas horas por Aitofel, o traidor, ou Demas o apóstata” [2]. A questão para nós não é, como você vive em meio à crítica incessante, desconfiança, acusação e abandono; para nós, a questão é também, como você pode pregar em meio a tudo isso? Como você faz o trabalho do coração quando o coração está sob o cerco e pronto para cair?

 

Por pouco mais de um ano, agora, talvez, passei pela maior questão da minha vida. E, se não me engano, eu acredito que é agora, ou será, a maior para muitos de vocês também. Exatamente no último domingo à noite eu passei meia hora no telefone com a esposa de um pastor, os quais gostariam de estar aqui. Ele está sob tantas críticas e acusações que ela achou difícil ir à igreja e se admiravam de que ele pôde pregar no último domingo pela manhã, e eu sei que esse é um servo puro e fiel cuja igreja eu ficaria feliz em frequentar por causa de minha alma.

 

Pregar a grande e gloriosa verdade em um ambiente que não é grande e glorioso é uma imensa dificuldade. Ser lembrado semana após semana que muitas pessoas consideram a sua pregação da glória da graça de Deus como hipocrisia, empurra um pregador, não apenas para as colinas da introspecção, mas às vezes, para o precipício da auto-extinção. Com isto eu não quero dizer suicídio. Quero dizer algo mais complexo. Quero dizer a incapacidade perturbadora de não mais saber quem você é. O que começa como uma introspecção à procura de uma questão de santidade e humildade torna-se gradualmente, por várias razões, um carnaval de espelhos em sua alma, você olha em um e você é pequeno e gordo; você olha no outro e você é alto e magro; você olha no outro e você está de cabeça para baixo. E um sentimento horrível começa vir sobre você, a ponto de você não saber mais o que você é. O centro não está firme. E se o centro não se sustenta, se não há firmeza e solidez o “Eu” torna-se incapaz de se relacionar com o fixo e sólido “Tu”, ou seja, Deus, então quem pregará no próximo domingo?

 

Quando o apóstolo Paulo disse em 1 Coríntios 15:10: “Pela graça de Deus, sou o que sou”, ele estava dizendo algo absolutamente essencial para a sobrevivência de pregadores na adversidade. Se, pela graça, a identidade do “Eu”, o “Eu” criado por Cristo e unido a Cristo, contudo, ainda assim um “Eu” humano, se este centro não se sustenta, não haverá mais pregação autêntica, pois não haverá mais nenhum pregador autêntico, mas uma coleção de ecos.

 

Oh! quão afortunados somos, irmãos do púlpito, por não sermos os primeiros a enfrentar essas coisas! Agradeço a Deus pela história do poder curador de Deus na vida dos santos. Exorto-vos para o bem da sua própria sobrevivência, viver em outros séculos e com outros santos.

 

Eu me voltei para Charles Spurgeon, nestes dias, e tenho sido ajudado. E é isso que eu quero compartilhar com vocês nesta tarde. Meu objetivo é dar-lhes força para que vocês continuem pregando em meio à adversidade.

 

Primeiro deixe-me responder à pergunta,

Por Que Spurgeon?

 

1. Charles Spurgeon Foi Um Pregador

 

Ele havia pregado mais de 600 vezes antes que atingisse os 20 anos de idade. Seus sermões vendiam cerca de 20.000 exemplares por semana sendo traduzidos para 20 idiomas. Os sermões em coleção preenchem 63 volumes equivalentes aos 27 volumes da nona edição da Enciclopédia Britânica, e “se destaca como o maior conjunto de livros escritos por um único autor na história do Cristianismo” [3].

 

Mesmo se seu filho Charles houvesse sido tendencioso, sua avaliação grandemente se aproxima da verdade: “Não havia ninguém que pudesse pregar como o meu pai. Na variedade inesgotável, sabedoria graciosa, proclamação vigorosa, súplica amorosa e ensino lúcido, com uma infinidade de outras qualidades, ele deve, pelo menos em minha opinião, ser considerado como o príncipe dos pregadores” [4]. Spurgeon foi um pregador.

 

2. Ele Foi Um Pregador Orientado Pela Verdade

 

Eu não estou interessado em como pregadores lidam com a adversidade, se eles não são, primordial e essencialmente guardiões e pregadores da imutável verdade bíblica. Se eles encontrarem o seu caminho através da adversidade por outros meios que não seja a fidelidade à verdade, eu me afasto.

 

Spurgeon definiu o trabalho do pregador da seguinte maneira: “Conhecer a verdade como deve ser conhecida, a amá-la como ela deve ser amada, e depois anunciá-la com o espírito certo, e em suas devidas proporções” [5]. Ele disse aos seus alunos “para serem pregadores eficazes vocês devem ser teólogos autênticos” [6]. Ele advertiu que “aqueles que rejeitam a doutrina Cristã são, quer estejam conscientes disso ou não, os piores inimigos da vida Cristã… [porque] as brasas da ortodoxia são necessárias para o fogo de piedade” [7].

 

Dois anos antes de morrer, ele disse:

 

“Alguns excelentes irmãos parecem pensar mais na vida do que na verdade; pois quando eu lhes aviso que o inimigo tem envenenado o pão dos filhos, eles respondem: ‘Querido irmão, estamos muito tristes por ouvir isso; e, para neutralizar o mal, vamos abrir a janela e deixar as crianças tomarem ar fresco’. Sim, nós abriremos a janela e lhes daremos o ar fresco, por todos os meios… Mas, ao mesmo tempo, isso deve ser feito sem, no entanto, deixar o outro por fazer. Prendam os envenenadores e abram as janelas também. Enquanto os homens estiverem pregando falsa doutrina, você pode falar o quanto quiser sobre aprofundar a sua vida espiritual, mas você falhará nisto” [8].

 

A verdade doutrinária esteve na fundação e na estrutura superior de todos os labores de Spurgeon.

 

3. Ele Era Um Pregador Que Cria Na Bíblia

 

A verdade que conduziu o seu ministério de pregação era a verdade bíblica, que ele acreditava ser a verdade de Deus. Ele exaltou a Bíblia, e disse:

 

“Estas palavras são de Deus… Tu livro de grande autoridade de Deus, tu és uma proclamação do Imperador do Céu; longe esteja de mim exercitar minha razão em contradizer-te… Este é o livro que está livre de qualquer erro; antes é a pureza sem mistura, perfeita verdade. Por quê? Porque Deus o escreveu” [9].

 

Quanta diferença há onde esta fidelidade reina no coração dos pregadores e das pessoas. Almocei com um homem que recentemente lamentou o clima de sua classe de escola Dominical. Ele a caracterizou assim: se uma pessoa levanta uma questão a discutir, e outra lê um versículo relevante da Bíblia, a classe se comunica: “Agora que nós ouvimos o que Jesus pensa, qual a sua opinião a respeito disso?”.

 

Onde esta atmosfera começa a assumir o púlpito e a igreja, a deserção da verdade e a fraqueza na santidade não ficam muito atrás.

 

4. Ele Era Um Pregador Ganhador Almas

 

Durante o seu ministério não havia uma semana que passasse sem que almas não fossem salvas através de seus sermões escritos [10]. Ele e seus anciãos estavam sempre a “velar pelas almas” na grande congregação. “Um irmão”, disse ele, “ganhou para si o título de meu cão de caça, pois ele está sempre pronto para pegar os pássaros feridos” [11].

 

Spurgeon não estava exagerando quando disse:

 

“Lembro-me de quando eu tenho pregado em momentos diferentes no país, e, por vezes, toda a minha alma agoniza pelos homens, todos os nervos do meu corpo se tencionam e eu poderia ter chorado meu próprio ser através dos meus olhos e levado todo o meu corpo para longe em uma torrente de lágrimas, se eu pudesse apenas ganhar almas” [12].

Ele foi consumido pela glória de Deus e pela salvação dos homens.

 

5. Ele Era Um Pregador Calvinista

 

Ele era o meu tipo de Calvinista. Deixe-me dar-lhe uma prova do por que seu Calvinismo atraía 5.000 pessoas por semana à sua igreja, em vez de afastá-los. Ele disse:

 

“Para mim, o Calvinismo significa a colocação do Deus eterno na cabeça de todas as coisas. Eu olho para tudo através de sua relação com a glória de Deus. Eu vejo Deus em primeiro lugar, e o homem muito abaixo nesta lista… Irmãos, se vivemos em sintonia com Deus, temos prazer de ouvi-lO dizer: ‘Eu sou Deus e não há outro’” [13].

 

Para Spurgeon “o Puritanismo, o Protestantismo, o Calvinismo [disse ele, são simplesmente]… nomes pobres que o mundo tem dado à nossa grande e gloriosa fé — a doutrina do apóstolo Paulo, ao evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus” [14].

 

Mas ele fez distinções entre o sistema completo, que ele abraçou, e algumas doutrinas centrais e evangélicas compartilhados por outras pessoas que o vinculavam a elas — como a sua doutrina favorita, a doutrina da Substituição de Cristo pelos pecadores. Ele disse: “longe de mim sequer imaginar que entre os muros de Sião haja somente Cristãos Calvinistas ou que, aqueles que não compartilham das nossas ideias não serão salvos” [15].

 

Ele disse: “Eu não sou um Protestante ultrajante, comumente, e alegro-me em confessar que tenho certeza de que há alguns do povo de Deus, mesmo na Igreja de Roma” [16]. Ele escolheu um pedobatista de ser o primeiro diretor do seu Colégio de Pastores, e não fez disso um impedimento para que ele pregasse em seu púlpito. Sua comunhão era aberta a todos os Cristãos, mas ele disse que “preferia desistir de seu pastorado do que admitir qualquer homem como membro de sua igreja que não era obediente ao mandamento de seu Senhor [quanto ao batismo]” [17].

 

Suas primeiras palavras no Tabernáculo Metropolitano, o lugar que ele construiu para pregar por trinta anos:

 

“Eu gostaria de propor que o tema do ministério nesta casa, enquanto este púlpito estiver de pé e esta casa for frequentada por adoradores, seja a pessoa de Jesus Cristo. Eu nunca me envergonho de confessar-me um Calvinista; eu não hesito em levar o nome de Batista; mas se me perguntarem qual é o meu credo, eu respondo: ‘É Jesus Cristo’” [18].

Entretanto ele acreditava que o Calvinismo honrava este Cristo mais plenamente, porque era a mais pura verdade. E ele o pregava explicitamente, e tentava trabalhar com isso na mente de seu povo, porque ele disse: “O Calvinismo tem em si uma força conservadora que ajuda a manter nos homens a verdade vital” [19].

 

Portanto, ele era claro e não tinha vergonha de dizer: “As pessoas vêm a mim por uma coisa… Eu prego-lhes um credo Calvinista e uma moralidade Puritana. Isso é o que eles querem e isso é o que eles recebem. Se eles querem alguma outra coisa eles devem ir para outro lugar” [20].

 

6. Ele Era Um Pregador Muito Trabalhador

 

Eu não olho para os homens ociosos e amantes do lazer para me instruírem a como suportar a adversidade. Se a resposta principal é: “Acalme-se”, eu procurar outro professor. Observe um vislumbre da capacidade deste homem para o trabalho:

 

“Nenhum vivente sabe a labuta e as preocupações que eu tenho que suportar… Eu tenho que cuidar do Orfanato, tenho a carga de uma igreja com quatro mil membros, às vezes há casamentos e enterros para serem realizados, há o sermão semanal a ser revisto, a Espada e a Espátula para ser editada, e além de tudo isso, uma média semanal de cinco centenas de cartas a serem respondidas. Isso, no entanto, é apenas a metade do meu dever, pois existem inúmeras igrejas estabelecidas por amigos, com os assuntos das quais eu estou intimamente ligado, para não falar dos casos de dificuldade que são constantemente referidos a mim” [23].

 

No seu 50º aniversário foi lida uma lista de 66 organizações que ele fundou e conduziu. Lord Shaftesbury estava lá e disse: “Esta lista de associações, instituídas por seu gênio, e supervisionados por seu cuidado, seriam mais do que suficientes para ocupar as mentes e os corações de cinquenta homens comuns” [22].

 

Ele normalmente lia seis livros substanciais em uma semana e poderia lembrar o que leu e onde encontrá-lo [23]. Ele produziu mais de 140 livros de sua autoria, livros como O Tesouro de Davi, que levou vinte anos para ser concluído, e Manhã e Noite, e Comentando Comentários, e Discurso ao João Lavrador, e Nosso Próprio Hinário [24].

 

Ele sempre trabalhou 18 horas em um dia.

 

O missionário David Livingstone, perguntou-lhe uma vez: “Como você consegue fazer o trabalho de dois homens em um único dia?”. Spurgeon respondeu: “Você esqueceu que há dois em nós” [25]. Eu acho que ele quis dizer a presença do poder energizante de Cristo que lemos em Colossenses 1:29. Paulo diz: “para isto também trabalho, combatendo segundo a sua eficácia, que opera em mim poderosamente”. “Há dois de nós”.

A atitude de Spurgeon para com o trabalho sacrificial não seria aceitável hoje, onde a primazia do “bem-estar” parece ter influência. Ele disse:

 

“Se por excessivo trabalho, nós morrermos antes de atingir a média de idade entre os homens, e este trabalho for gasto no serviço do Mestre, então glória a Deus, teremos muito menos da terra e muito mais do Céu!” [26]. “É nosso dever e nosso privilégio esgotar nossas vidas para Jesus. Nós não somos homens que vivem em buscam de uma fina autopreservação, mas vivemos sacrificialmente, tendo por nossa porção o sermos consumidos” [27].

 

Por trás desse ponto de vista radical estavam algumas convicções bíblicas profundas que procedem do ensino do apóstolo Paulo. Uma dessas convicções Spurgeon expressa assim:

 

“Nós só podemos produzir vida nos outros pelo desgaste de nosso próprio ser. Esta é uma lei natural e espiritual, que a fruta só pode vir à semente se ela for gasta e gasta até o auto-esgotamento” [28].

O apóstolo Paulo disse: “se somos atribulados, é para vossa consolação e salvação” (2 Coríntios 1:6). “De maneira que em nós opera a morte, mas em vós a vida” (2 Coríntios 4:12). E ele disse que seus próprios sofrimentos foram a conclusão dos sofrimentos de Cristo para o bem da igreja (Colossense 1:24).

 

Outra convicção bíblica por detrás do ponto de vista radical de Spurgeon de seu zelo pastoral é expressa da seguinte maneira:

 

“Satisfação com os resultados será a sentença de [morte] do progresso. Nenhum homem que é bom acha que ele não pode ser melhor. Ele não tem santidade caso pense que ele é santo o suficiente” [29].

 

Em outras palavras, ele foi conduzido por uma paixão de nunca estar satisfeito com a medida de sua santidade ou a extensão de seu serviço (cf. Filipenses 3:12). No ano em que completou 40 anos de idade, ele pregou uma mensagem para a conferência de seus pastores com o título de uma só palavra: “Avante!” [30], nela, ele disse:

 

“Na vida de cada ministro deve haver vestígios de trabalho árduo. Irmãos, façam alguma coisa; façam alguma coisa; façam alguma coisa. Enquanto Comitês desperdiçam seu tempo sobre resoluções, façam alguma coisa. Enquanto sociedades e sindicatos estão fazendo constituições, vamos ganhar almas. Muitas vezes discutimos, e discutimos, e discutimos, enquanto Satanás somente ri de nós… Vamos sair e trabalhar como homens” [31].

 

Acho que a palavra “incansável” foi criada para pessoas como Charles Spurgeon.

 

7. Ele Era Um Pregador Caluniado E Sofredor

 

Ele conhecia toda a gama de adversidade que a maioria dos pastores sofrem, e muito mais.

 

A. Ele conhecia o dia a dia, a variedade comum de frustração e decepção dos membros mornos.

 

Você sabe o que um homem de coração frio pode fazer, se ele se aproxima de você no Domingo de manhã com um pedaço de gelo e lhe congela com as informações sobre a Sra. Smith e toda a sua família que estão ofendidos, e seu banco está vago. Você não queria saber sobre protestos daquela senhora pouco antes de subir no púlpito, e isso não o auxilia [32].

Ou talvez ainda pior, depois do serviço, isso pode acontecer.

 

“Que terríveis pretextos alguns professos têm! Suas observações após um sermão são suficientes para atordoar você… Você esteve pleiteando como pela vida ou a morte e eles calcularam quantos segundos o sermão durou, e relutam contra os excedentes cinco minutos além da hora habitual” [33].

 

É ainda pior, diz ele, se o observador que faz o cálculo é um de seus diáconos.

 

“Não prender o boi e o jumento no mesmo jugo foi um preceito misericordioso, assim quando um ministro que trabalha como um boi vem a ser atrelado a um diácono que não é outro boi, arar torna-se um trabalho árduo” [34].

 

B. Ele também conhecia as calamidades extraordinárias que nos acontecem uma vez na vida.

 

Em 19 outubro de 1856, ele pregou pela primeira vez no Salão de Música do Royal Surrey Gardens, porque sua própria igreja não era suficiente para conter as pessoas que vinham ouvi-lo. A capacidade de 10.000 lugares foi em muito ultrapassada pelas multidões que se apinhavam. Alguém gritou: “Fogo!”. E houve grande pânico em algumas partes do edifício. Sete pessoas morreram na correria e dezenas ficaram feridas. Spurgeon tinha 22 anos e foi abatido por esta calamidade. Ele disse mais tarde: “Talvez nunca uma alma chegou tão próximo do forno ardente da insanidade, e ainda saiu ilesa”. Mas nem todos concordaram que ele estava ileso. O espectro desta tragédia ainda permaneceu sobre ele durante anos, e um amigo íntimo e biógrafo disse: “Eu não posso deixar de pensar que, pelo que eu vi, a sua morte relativamente precoce pode ser, em certa medida devido à fornalha de sofrimento mental que ele sofreu em e depois daquela noite terrível” (35).

 

C. Spurgeon também conhecia a adversidade da dor da família.

 

Ele havia se casado com Susannah Thomson em 8 de janeiro, no mesmo ano da calamidade em Surrey Gardens. Seus únicos filhos, gêmeos, nasceram no dia seguinte à calamidade em 20 de outubro, nunca mais Susannah foi capaz de gerar filhos. Em 1865 (nove anos depois), quando ela tinha 33 anos, tornou-se doente e acamada, e raramente ouviu seu marido pregar pelos próximos 27 anos até sua morte. Alguns tipos de operações cervicais raras foram tentadas em 1869 por James Simpson, o pai da ginecologia moderna, mas sem sucesso [36]. Então, aos outros encargos de Spurgeon foi adicionado uma esposa doente e a incapacidade de ter mais filhos, apesar de sua própria mãe haver dado à luz a dezessete filhos.

 

D. Spurgeon conhecia o que era um incrível sofrimento físico

 

Ele sofria de gota, reumatismo e doença de Bright (inflamação dos rins). Seu primeiro ata-que de gota veio em 1869 com a idade de 35, e tornou-se cada vez pior, a ponto de que “cerca de um terço dos últimos 22 anos do seu ministério foi gasto fora do púlpito do Taber-náculo, por motivo de sofrimento, ou convalescência, ou para tomar precauções contra o retorno da doença” [37]. Em uma carta a um amigo, ele escreveu: “Lucian diz: ‘Eu pensei que uma cobra havia me picado, e enchido minhas veias de veneno; mas foi algo pior, foi a gota’. Isso foi escrito a partir de sua experiência, eu o sei” [38].

 

Assim, por mais da metade de seu ministério Spurgeon tratava de dores contínuas e cada vez mais recorrentes, como por exemplo, em suas articulações que lhe tiraram do púlpito e de suas obras, uma e outra vez, até que as doenças tiraram sua vida aos 57 anos, quando ele estava convalescendo em Mentone, França.

E. Além do sofrimento físico, Spurgeon teve de suportar uma vida de ridicularização pública e difamação, por vezes, do tipo mais cruel.

Em abril de 1855, a Essex Standard publicou um artigo com as seguintes palavras:

 

“Seu estilo é vulgar e coloquial, variando por discurso retórico… Todos os mistérios mais solenes da nossa santa religião são por ele rude, grosseira e impiedosamente manipulados. O senso comum está indignado e a decência enojada. Seus devaneios são intercalados com anedotas grosseiras” [39].

 

Disse o Sheffield and Rotherham Independent:

 

“Ele é uma maravilha de nove dias — um cometa que, de repente, atravessou a atmosfera religiosa. Ele subiu como um foguete e dentro em breve sucumbirá como um galho seco” [40].

 

Sua esposa manteve um livro de recortes cheio de tais criticismo entre os anos de 1855-1856. Algumas delas eram fáceis de refutar, porém a maior parte não era. Em 1857, ele escreveu:

 

“Eu caí muitas vezes de joelho, com o suor quente brotando da minha testa sob alguma calúnia fresca derramada sobre mim; em uma agonia de dor meu coração quase se partia” [41].

 

Seus colegas ministros lhe criticaram a partir da direita e da esquerda. Em toda a cidade a partir da esquerda Joseph Parker escreveu:

 

“Sr. Spurgeon foi absolutamente destituído de benevolência intelectual. Se os homens veem como ele, eles seriam ortodoxos; se eles veem as coisas de outra forma, eles seriam heterodoxos, pestilentos e inaptos para conduzir as mentes dos estudantes ou investigadores. O Sr. Spurgeon foi um egoísmo superlativo; não o egoísmo com hesitações, tímido, meio disfarçado, que corta a sua própria cabeça, mas um egoísmo em pleno crescimento, esmagador, elevado, que toma a cadeira principal, como sua por direito. As únicas cores que o Sr. Spurgeon reconhecia eram preto e branco” [42].

 

E a partir da direita James Wells, o hiper-Calvinista, escreveu: “Eu tenho – mui solenemente — as minhas dúvidas quanto à realidade Divina de sua conversão” [43].

 

“Todos os embates de sua vida chegaram ao clímax na Controvérsia do Declínio à medida que Spurgeon lutou em vão pela integridade doutrinal da União Batista. Em outubro de 1887, ele se desligou da União. E no seguinte mês de janeiro, ele foi oficial e publicamente censurado pelo voto da União por sua forma de protesto” [44].

Oito anos antes, ele havia dito:

 

“Os homens não podem dizer nada pior de mim do que eles disseram. Tenho sido desmentido da cabeça aos pés, e deturpado até o último grau. Meus bons olhares já se foram, e ninguém pode me danificar muito agora” [45].

 

Ele dá um exemplo dos tipos de distorções e imprecisões que eram típicas na Controvérsia do Declínio:

 

“A doutrina da punição eterna tem sido pouco levantada por mim nesta controvérsia; mas os defensores do ‘pensamento moderno’ continuam a sustentá-la em todas as ocasiões, durante todo o tempo voltando-se para o lado errado de seu exterior” [46].

 

Mas mesmo que ele normalmente parecesse áspero e pronto, a dor era imensa e mortal. Em maio de 1891, oito meses antes de morrer, ele disse a um amigo: “Adeus; você nunca me verá de novo. Esta luta está me matando” [47].

 

F. A última adversidade que menciono é o resultado das outras: as batalhas recorrentes de Spurgeon contra a depressão.

 

“Não é fácil imaginar o oni-competente, eloquente, brilhante, cheio-de-energia Spurgeon chorando como um bebê sem algum motivo racional. Em 1858, aos 24 anos, aconteceu pela primeira vez. Ele disse: ‘Meu espírito afundou tão baixo que eu poderia chorar por hora como uma criança, e, contudo eu não sabia por que eu chorava’” [48].

 

“Depressão sem causa não pode ser racionalizada, nem pode a graciosidade da harpa de Davi afastá-la, por meio de doces discursos. Bem como a luta com esta informe, indefinível, ainda assim totalmente obscurecida desesperança …O parafuso de ferro, que tão misteriosamente prende a porta da esperança e mantém os nossos espíritos em prisão sombria, precisa de uma mão celestial para removê-lo” [49].

 

“Ele viu sua depressão como sua ‘pior característica’. ‘O desânimo’, disse ele, ‘não é uma virtude; eu acredito que seja um vício. Estou sinceramente envergonhado de mim mesmo por cair, mas eu tenho certeza que não há remédio para ele como uma santa fé em Deus’” [50].

Apesar de todos esses sofrimentos e perseguições Spurgeon suportou até o fim, e foi capaz de pregar poderosamente até seu último sermão no Tabernáculo em 7 de junho de 1891. Portanto, a pergunta que eu fiz ao ler a vida e obra deste homem é,

 

Como Ele Fez Para Perseverar Em Pregar Em Meio A Esta Adversidade?

 

Oh! quantas estratégias de graça abundaram na vida de Spurgeon. Minhas escolhas são muito limitadas e pessoais. O arsenal de guerra deste homem, e a sabedoria de suas estratégias eram imensos. Nosso tempo é curto e temos de ser muito seletivos. Eu começo com a questão do desânimo e da depressão. Se esta pode ser superada, todas as outras formas de adversidade que o acometerem, serão anuladas em seu efeito mortal.

1. Spurgeon viu sua depressão como o desígnio de Deus para o bem do seu ministério e da glória de Cristo.

 

O que vem por meio disso, novamente, é a crença inabalável de Spurgeon na soberania de Deus em todas as suas aflições. Mais do que qualquer outra coisa aparentemente, esta o impediu de sucumbir frente às adversidades de sua vida. Ele disse:

 

“Seria uma experiência muito forte e tentadora para mim pensar que tenho uma aflição que Deus nunca me enviou, que o cálice amargo nunca esteve em Sua mão, que os meus problemas nunca foram medidos por Ele, nem enviados para mim pela disposição de seu peso e quantidade” [51].

Esta é exatamente a estratégia oposta do pensamento moderno, até mesmo de muito do pensamento evangélico, que recua das implicações da infinidade. Se Deus é Deus, Ele não só sabe o que está vindo, mas Ele sabe porque Ele assim o determinou. Para Spurgeon este modo de ver a Deus não foi o primeiro argumento para o debate, foi um meio de sobrevivência.

 

Nossas aflições são o regime de saúde de um Médico infinitamente sábio. Ele disse aos seus alunos:

 

“Ouso dizer que a maior bênção terrena que Deus pode dar a qualquer um de nós é a saúde, com exceção da doença… Se alguns homens, que eu saiba, somente fossem favorecidos com um mês de reumatismo, isso poderia, pela graça de Deus, amadurecê-los maravilhosamente” [52].

Ele quis dizer isso principalmente para si mesmo. Embora ele temesse o sofrimento e estivesse disposto a evitá-lo, ele disse:

 

“Tenho medo de que toda a graça que eu tenho a partir dos meus momentos confortáveis, fáceis e horas felizes, quase possam caber em um centavo. Mas o bem que recebi de meus sofrimentos, dores e aflições é totalmente incalculável… A aflição é a melhor peça de mobiliário em minha casa. É o melhor livro na biblioteca de um ministro” [53].

 

Ele viu três fins específicos de Deus em sua luta contra a depressão. A primeira é que isto funcionava como espinho do apóstolo Paulo para mantê-lo humilde para que ele não se exaltasse. Ele disse que a obra do Senhor se resume nestas palavras:

 

“‘Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor’. Serão utilizados instrumentos, mas as suas fraquezas intrínsecas devem ser claramente manifestadas; não haverá divisão da glória, nem nenhuma diminuição da honra devida ao Grande Trabalhador… Aqueles que são honrados de seu Senhor em público têm, geralmente, que suportar um castigo secreto, ou carregar uma cruz peculiar, que se de algum modo eles se exaltarem, cairão no laço do diabo” [54].

 

O segundo propósito de Deus em seu desânimo era o poder inesperado que deu ao seu ministério:

 

“Numa manhã de sábado, eu preguei a partir do texto: ‘Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”, e embora eu não houvesse dito isso, contudo eu preguei a minha própria experiência. Ouvi minhas próprias cadeias tilintando eu tentava pregar aos meus companheiros de prisão, no escuro; mas eu não podia dizer por que eu tinha trazido tal horror terrível das trevas, com que eu me condenava. Na noite seguinte segunda-feira, um homem veio me ver e trazia todas as marcas de desespero em seu semblante. Seu cabelo parecia levantar-se, e seus olhos estavam prontos para cair de seu rosto. Ele me disse, depois de um pouco de conversa: ‘Eu nunca, na minha vida, ouvi alguém falando que parecesse conhecer o meu coração. O meu caso é terrível; mas no Domingo de manhã você retratou a minha a vida, e pregou como se você estivesse dentro da minha alma’. Pela graça de Deus eu salvei aquele homem do suicídio, e o conduzi para a luz do evangelho e liberdade; mas eu sei que eu não poderia ter feito isso se eu não tivesse sido confinado na masmorra em que ele estava. Conto-lhes a história, irmãos, porque às vezes vocês podem não entender sua própria experiência, e as pessoas perfeitas podem condená-lo por isso ser assim; mas o que os servos de Deus sabem? Você e eu temos que sofrer muito para o bem do povo que está sob nossa responsabilidade… Você pode estar na escuridão egípcia, e você pode se perguntar por que tal horror gela a medula; mas você pode estar totalmente na busca da sua vocação, e ser guiado pelo Espírito para uma posição de simpatia com mentes desanimadas” [55].

 

O terceiro desígnio de sua depressão era o que ele chamou de um sinal profético para o futuro. Isso me deu muito incentivo da minha própria situação.

 

“Esta depressão toma conta de mim sempre que o Senhor está preparando uma bênção maior para o meu ministério; a nuvem é sombria antes de destilar suas águas, e nebulosa antes que ela dê seu dilúvio de misericórdia. A depressão tornou-se para mim como um profeta trajando vestes de prosperidade, um João Batista, que anuncia aproximação das mais ricas bênçãos do meu Senhor” [56].

 

Eu diria com Spurgeon que nas horas mais sombrias, foi a bondade soberana de Deus, que me deu a força para continuar; a promessa, sólida como granito, de que Ele governa as minhas circunstâncias e meios para o bem, não importa o que as demais pessoas pensem.

 

2. Mui praticamente, Spurgeon complementa a sua estratégia teológica de sobrevivência, com os meios Divinos naturais de sobrevivência — o uso do descanso e da natureza.

 

Apesar de toda a conversa sobre gastar e ser gasto, ele nos aconselha a descansar e tomar um dia de folga e nos abrir para os poderes de cura que Deus colocou no mundo da natureza.

“Nosso Sabath é o nosso dia de labuta”, ele disse, “e se não descansarmos em algum outro dia, vamos cair” [57]. Eric Hayden nos lembra que Spurgeon, “quando possível, guardava a quarta-feira como seu dia de descanso” [58]. Mais do que isso Spurgeon disse aos seus alunos:

 

“É sábio tomar folgas ocasionais. A longo prazo, devemos fazer mais por algumas vezes termos feito menos. Prosseguir, prosseguir, prosseguir sempre, sem recreação pode ser apropriado para espíritos emancipados a partir desta ‘argila pesada’, mas enquanto estamos neste tabernáculo, temos de vez em quando fazer uma parada, e servir ao Senhor por repouso santo e lazer consagrado. Que nenhuma consciência sensível duvide da legalidade de sair de debaixo do chicote por um tempo” [59].

 

Posso testemunhar que as quatro semanas a mais que a igreja me deu no último verão foram semanas cruciais respirando um ar espiritual diferente.

 

E quando tomamos tempo longe da pressão dos deveres, Spurgeon recomenda que respiremos o ar puro do campo e deixemos a beleza da natureza fazer o seu trabalho designado. Ele confessa que “hábitos sedentários têm tendência a criar desânimo… especialmente nos meses de inverno”. E então aconselha: “Um bocado de ar marítimo, ou uma boa caminhada com o vento no rosto não concederia graça à alma, mas daria oxigênio para o corpo, que é a segunda melhor coisa” [60].

Uma palavra pessoal para vocês homens mais jovens. Estou terminando o meu 15º ano, em Bethlehem e eu comemorei meu 49º aniversário. Eu tratei meu corpo e minha alma com algum cuidado ao longo destes anos e notei algumas mudanças. Elas são, em parte, devido à evolução das circunstâncias, mas muito acontece por conta de uma mudança de constituição. Um, é que eu não posso comer tanto sem ganhar peso inútil. Meu corpo não metaboliza da mesma maneira que costumava.

 

Outra é que eu fico emocionalmente menos resistente quando eu perco o sono. Houve tempos em que eu trabalharia sem me importar com o sono e me sentia energizado e motivado. Nos últimos sete ou oito anos, meu limite para abatimento é muito menor. Para mim, o sono adequado não é uma questão de se manter saudável, é uma questão de continuar no ministério. É irracional que o meu futuro pareça mais sombrio quando eu tenho quatro ou cinco horas de sono por várias noites seguidas. Mas isso é irrelevante. Esses são os fatos. E eu tenho que viver dentro dos limites dos fatos. Recomendo sono suficiente para vocês, para o bem da sua avaliação adequada de Deus e de Suas promessas.

Spurgeon estava certo quando disse:

 

“As condições do seu corpo devem ser atendidas… um pouco mais… o senso comum seria um grande ganho para alguns que são ultra-espirituais, e atribuem todos os seus estados de espírito a uma causa sobrenatural quando a verdadeira razão não se encontra mais próximo do que sua mão. Não tem acontecido muitas vezes que a dispepsia tem sido confundida com a apostasia, e que a má digestão foi reputada como um coração duro?” [61].

 

3. Spurgeon sempre alimentou a sua alma pela comunhão com Cristo através da oração e meditação.

 

Foi uma grande misericórdia para mim quando entrei neste último ano que eu havia acabado de preparar a palestra sobre John Owen para esta conferência e tinha descoberto seu livro Communion with God [Comunhão com Deus]. Talvez mais do que qualquer outro, esse livro me nutriu uma e outra vez em que a alma perguntou: “Será que Deus pode preparar uma mesa no deserto?”.

 

Spurgeon advertiu seus alunos:

 

“Nunca negligencie suas refeições espirituais, ou você não terá resistência e seu espírito afundará. Viva nas substanciais doutrinas da graça, e você sobreviverá e trabalhará longe daqueles que se deleitam nos doces e açúcar com canela do ‘pensamento moderno’” [62].

 

Eu acho que uma das razões pelas quais Spurgeon era tão rico em sua linguagem, cheio de substância doutrinária e forte no espírito, apesar de seu desânimo, de sua opressão física e de seus embates, é que ele estava sempre imerso em um grande livro, ele lia seis livros por semana. Não podemos igualar esse número. Mas podemos estar sempre andando com algum grande “buscador” de Deus. Eu andei com John Owen a maior parte do ano e pouco a pouco me senti fortalecido por uma grande compreensão da realidade de Deus.

E Spurgeon entrou ao lado dessa leitura, dizendo e mostrando a mesma coisa, ou seja, que a chave de toda boa leitura da teologia é a total e verdadeira comunhão com Cristo.

 

“Acima de tudo, alimente a chama com comunhão íntima com Cristo. Nenhum homem conviveu com Jesus e conservou um coração frio, assim aconteceu com João e Maria no passado… eu nunca encontrei com um pregador que fosse tímido e ao mesmo tempo mantivesse grande comunhão com o Senhor Jesus” [63].

De muitas maneiras, Spurgeon era uma criança em sua comunhão com Deus. Ele não falou em termos complexos sobre qualquer coisa muito estranha ou mística. De fato, sua vida de oração parece mais semelhante a um empreendimento do que a uma contemplação.

 

“Quando eu oro, eu gosto de ir a Deus, assim como eu vou a um funcionário do banco, quando eu tenho cheque a ser descontado. Eu entro, coloco o cheque no balcão, e o funcionário me dá meu dinheiro, eu o pego, e vou para o meu negócio. Eu não sei se eu já parei em um banco por cinco minutos para conversar com os funcionários; quando eu efetuei a minha troca eu vou embora e cuido de outros assuntos. É assim que eu gosto de orar; mas há uma forma de orar que parece com vaguear perto do propiciatório, como se alguém não tivesse nenhuma razão particular para ser encontrado ali” [64].

 

Isto pode não ser totalmente exemplar. Pode desonrar o Senhor compará-lO a um funcionário do banco, em vez de a um manancial do monte. Mas, nós cometeríamos um erro se pensássemos que a oração de Spurgeon, sendo semelhante a um empreendimento, fosse outra coisa senão à comunhão infantil com o seu Pai. A descrição mais comovente que eu li de sua comunhão com Deus vem de 1871, quando ele estava com dores terríveis por causa da gota.

 

“Quando eu estava atormentado há alguns meses com a dor, a um grau extremo, de modo que eu não conseguia mais suportá-lo sem gritar, eu pedi para todos saírem do quarto, e me deixassem sozinho; e então eu não tinha nada que eu pudesse dizer a Deus, senão isto: ‘Tu és meu pai, e eu sou Teu filho; e Tu, como um terno Pai é cheio de misericórdia. Eu não poderia suportar ver meu filho sofrer como Tu me fazes sofrer, e se eu o visse atormentado como estou agora, eu faria o que pudesse para ajudá-lo, e colocaria meus braços debaixo dele para sustentá-lo. Tu queres esconder a Tua face de mim, meu Pai? Porventura ainda deitará Sua mão pesada, e não me dará um sorriso de Teu semblante?’. Então… eu implorei, e aventurei-me a dizer, quando eu me acalmei, quando voltaram àqueles que me assistiam: ‘Nunca vou ter essa dor novamente a partir deste momento, porque Deus ouviu a minha oração’. Eu louvo a Deus pois o refrigério veio e a dor terrível nunca mais voltou” [65].

Se vamos pregar em meio à adversidade, teremos de viver em comunhão com Deus em termos muitíssimos íntimos — falando com Ele sobre as nossas necessidades e nossa dor, e alimentando-nos da graça de Suas promessas e das revelações da glória de Deus.

 

4. Spurgeon reacendeu o entusiasmo e paixão de pregar, fixando os olhos na eternidade e não no preço imediato da fidelidade.

 

O apóstolo Paulo viu que o seu homem exterior estava se corrompendo. E o que o impediu de cair foi a garantia inabalável de que esta aflição momentânea estava operando nele um peso eterno de glória. E então ele olhou para as coisas que são eternas (2 Coríntios 4:16-18). Assim fez Spurgeon.

 

“Oh, irmãos (ele disse em sua conferência de pastores) em breve teremos que morrer! Nós olhamos uns para os outros no dia de hoje desfrutando de saúde, mas chegará um dia em que os outros olharão para baixo sobre os nossos rostos pálidos quando jazermos em nossos caixões… pouco importará para nós que então sejamos contemplados, mas importa eternamente a maneira como temos feito o nosso trabalho durante a nossa vida” [66].

 

Quando nossos corações enfraquecem e nosso zelo oscila para a tarefa de pregar, ele nos exorta:

 

“Medite com profunda solenidade sobre o destino do pecador perdido… evite todos os pontos de vista sobre o castigo futuro que o fazem parecer menos terrível, e assim deixe transbordar a sua ansiedade para salvar [almas] imortais da chama inextinguível… Pense muito também na felicidade do pecador salvo, e como o santo Baxter, derive ricos argumentos do “Descanso Eterno dos Santos”… não haverá nenhum temor de que você continue letárgico se estiver continuamente familiarizado com as realidades eternas” [67].

 

Ele avistava longamente a eternidade iminente, quando isso veio de sua própria perseguição. Na Controvérsia do Declínio ele disse:

 

“A posteridade deve ser considerada. Eu não olho muito para o que está acontecendo hoje, pois estas coisas se relacionam com a eternidade. De minha parte, estou muito disposto a ser comido por cães pelos próximos 50 anos; mas o futuro mais distante me vindicará. Eu tenho lidado com honestidade diante do Deus vivo. Meu irmão, faça o mesmo” [68].

Para continuar a pregar na tempestade da adversidade, você deve olhar bem para além da crise e dos sentimentos do momento. Você deve olhar para o que a história fará de sua fidelidade e acima de tudo o que Deus fará com ela no último dia.

 

5. Para Spurgeon uma chave para a sua perseverança em pregar em meio à adversidade era que ele tinha resolvido quem ele era e que não seria paralisado pelo criticismo ou secundárias suposições internas.

 

Um dos grandes perigos de viver sob crítica constante é que este é um constante apelo para que você seja diferente do que você é. E, de fato, um santo humilde sempre quer ser uma pessoa melhor do que ele é. Mas há um grande perigo de perder a atitude no mar das dúvidas. Deixar de saber quem você é. Não ser capaz de dizer com Paulo: “Pela graça de Deus sou o que sou” (1 Coríntios 15:10). Spurgeon sentiu esse perigo profundamente.

 

Ao comparar uma identidade ministerial com outra, ele lembrou de outros pastores, que na última Ceia tiveram um cálice para beber o vinho e uma bacia para lavar os pés. Então ele disse:

 

“Eu protesto que eu não tenho preferência por ser o cálice ou a bacia. Quisera eu ser o que o Senhor quiser, desde que Ele, somente use-me. Então você, meu irmão, você pode ser o cálice, e eu vou ser a bacia; mas deixe o cálice ser um cálice, e a bacia uma bacia, e cada um de nós exatamente o que ele está apto a ser. Seja você mesmo, querido irmão, pois, se você não for você mesmo, você não pode ser qualquer outra pessoa; e assim, você vê, você se tornará um ninguém… Não seja um mero copista, um mutuário, um estragador de notas de outros homens. Diga o que Deus disse a você, e diga-o em sua própria maneira; e quando for assim então fale, pleiteie pessoalmente pela bênção do Senhor sobre isto” [69].

E eu acrescentaria, pleitear pessoalmente pelo purificador sangue do Senhor sobre isso também, porque nenhum dos nossos melhores trabalhos é imaculado. Mas o perigo é deixar que a verdade te paralise com o temor dos homens e te leve a duvidar de si mesmo.

 

Onze anos mais tarde, em 1886, ele golpeou a mesma bigorna novamente:

 

“Amigo, seja fiel ao seu próprio destino! Um homem seria um pregador esplêndido como o completamente contundente Saxão, porque ele deve arruinar-se por cultivar um estilo ornamentado? Apolo… tem o dom da palavra; porque ele deve copiar o abrupto Cefas? Cada um em seu próprio modo” [70].

Spurgeon ilustra com sua própria luta, ao responder às críticas durante a Controvérsia do Declínio. Por um tempo ele tentou adaptar a sua linguagem aos críticos. Mas chegou um momento em que ele tinha que ser o que ele era.

 

“Eu encontrei como sendo completamente impossível agradar, deixe-me dizer ou fazer o que eu quero. Alguém torna-se um tanto indiferente ao lidar com aqueles a quem cada palavra ofende. Percebo que, quando eu meço as minhas palavras, e peso minhas frases com mais cuidado, então eu ofendo mais; enquanto algumas das minhas declarações mais fortes já passaram despercebidas. Por isso, estou relativamente descuidado a respeito de como minhas expressões podem ser recebidas, e apenas ansioso para que elas sejam em si mesmas justas e verdadeiras” [71].

 

Se quisermos sobreviver e continuar a pregar em uma atmosfera de controvérsia, chega um ponto em que você tem feito o seu melhor para ponderar as reivindicações de seus críticos e levá-los a sério, e então deve dizer: “Pela graça de Deus, eu sou o que sou”. E, findam-se as desconcertantes suposições secundárias que ameaçam destruir a própria alma.

 

6. Mas no final, a força para continuar a pregar no meio da adversidade e retrocessos veio para Spurgeon a partir do assegurado triunfo soberano de Cristo.

Perto do fim de sua vida (1890), em (creio eu) seu último discurso para a conferência de seus pastores, ele compara a adversidade e o fluir da verdade para a maré vazante.

 

“Você nunca encontrou um sal marinho, rebaixado pelo mar, que estava aflito porque a maré esvaziou fora de hora. Não! Ele espera com confiança a virada da maré, e vem no tempo devido. A rocha acolá esteve descoberta durante a última meia-hora, e se o mar continua a vazar por semanas, não haverá água no Canal Inglês, e os franceses passarão por ali, a partir de Cherbourg. Ninguém fala desta maneira infantil, pois tal vazante nunca ocorrerá. Não falemos como se o evangelho pudesse ser derrotado, e a verdade eterna expulsa da terra. Servimos um Mestre todo-poderoso… Se o Senhor somente bater o pé, Ele pode ganhar para Si mesmo todas as nações da terra contra o Paganismo, e o Islamismo, e o Agnosticismo e o pensamento moderno, e qualquer um dos outros erros imundos. Quem é aquele que pode nos fazer mal, se seguirmos Jesus? Como pode Sua causa ser derrotada? Segundo Sua vontade, convertidos migram para a Sua verdade, numerosos como as areias do mar… Portanto tende bom ânimo e siga em seu caminho cantando [e pregando!]:

 

“Os ventos do inferno têm soprado

O mundo o seu ódio tem mostrado

Contudo, não me têm derrubado

Aleluia pela cruz!

Nunca nos perderemos!

O Senhor dos Exércitos está conosco,

O Deus de Jacó é o nosso refúgio [72]”.

 

 


Notas:

 

[1] Charles Spurgeon, Lições aos Meus Alunos, (Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1972), p. 156.

[2] Charles Spurgeon, Lições aos Meus Alunos, p. 161

[3] Eric W. Hayden, “Você Sabia?” em História Cristã, Issue 29, Volume X, Nº 1, p. 2.

[4] C. H. Spurgeon: Autobiografia, vol. 2, (Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1973), p. 278.

[5] Charles Haddon Spurgeon, Um Ministério Ideal, (Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1960), p. 8.

[6] Um Ministério Ideal, p. 8.

[7] Erroll Hulse e David Kingdon, editores, Um Ministério Maravilhoso: Como o Ministério Completo de Charles Haddon Spurgeon nos Fala Hoje, (Ligonier, PA: Soli Deo Gloria Publications, 1993), p. 128.

[8] Um Ministério Ideal, p. 374.

[9] Um Ministério Maravilhoso, p. 47.

[10] Arnold Dallimore, Spurgeon, (Chicago: Moody Press, 1984), p. 198.

[11] Autobiography, vol. 2, p. 76.

[12] Um Ministério Maravilhoso, pp. 49-50.

[13] Um Ministério Ideal, p. 337.

[14] Um Ministério Ideal, p. 160.

[15] Um Ministério Maravilhoso, p. 65.

[16] Autobiografia, vol. 2, p. 21.

[17] Um Ministério Maravilhoso, p. 43.

[18] Bob L. Ross, Um Retrato da Biografia de C. H. Spurgeon, (Pasadena, TX: Pilgrim Publications, 1974), p. 66.

[19] Um Ministério Maravilhoso, p. 121.

[20] Um Ministério Maravilhoso, p. 38.21. Autobiografia, vol. 2, p. 192.

[22] Dallimore, Spurgeon, p. 173.

[23] “Você Sabia?”, p. 2.

[24] Dallimore, Spurgeon, p. 195.

[25] “Você Sabia?”, p. 3.

[26] Um Ministério Ideal, pp. 126-127.

[27] Charles Spurgeon, Lições aos Meus Alunos, p. 157.

[28] Um Ministério Ideal, p. 177.

[29] Um Ministério Ideal, p. 352.

[30] Um Ministério Ideal, pp. 32-58.

[31] Um Ministério Ideal, p. 55.

[32] Um Ministério Ideal, p. 358.

[33] Charles Spurgeon, Lições aos Meus alunos, p. 310.

[34] Charles Spurgeon, Lições aos Meus alunos, p. 311.

[35] Darrel W. Amundsen, “A Angústia e Agonias de Charles Spurgeon”, em: História Cristã, Issue 29, Volume X, Nº 1, p. 23.

[36] Um Ministério Maravilhoso, pp. 38-39.

[37] Iain H. Murray, ed., Cartas de Charles Haddon Spurgeon, (Edinburgh: The Banner of Truth Trust, 1992). P. 166, nota 1.

[38] Cartas de Charles Haddon Spurgeon, p. 165.

[39] Um Ministério Maravilhoso, p. 35.

[40] Um Ministério Maravilhoso, p. 35.

[41] “A Angústia e Agonias de Charles Spurgeon”, p. 23.

[42] Um Ministério Maravilhoso, p. 69.

[43] Um Ministério Maravilhoso, p. 35.

[44] Um Ministério Maravilhoso, p. 126.

[45] Um Ministério Ideal, p. 159.

[46] ??Um Ministério Ideal, p. 288.

[47] “A Angústia e Agonias de Charles Spurgeon”, p. 25.

[48] “A Angústia e Agonias de Charles Spurgeon”, p. 24.

[49] Charles Spurgeon, Lições aos Meus Alunos, p. 163.

[50] “A Angústia e Agonias de Charles Spurgeon”, p. 24.

[51] “A Angústia e Agonias de Charles Spurgeon”, p. 25.

[52] Um Ministério Ideal, p. 384.

[53] “A Angústia e Agonias de Charles Spurgeon”, p. 25.

[54] “A Angústia e Agonias de Charles Spurgeon”, pp. 163-164.

[55] Um Ministério Ideal, pp. 221-222.

[56] Charles Spurgeon, Lições aos Meus alunos, p. 160.

[57] Charles Spurgeon, Lições aos Meus alunos, p. 160.

[58] Eric W. Hayden, Destaques na Vida de C.H. Spurgeon, (Pasadena, TX: Pilgrim Publications, 1990), p. 103.

[59] Charles Spurgeon, Lições aos Meus Alunos, p. 161.

[60] Charles Spurgeon, Lições aos Meus Alunos, p. 158.

[61] Charles Spurgeon, Lições aos Meus Alunos, p. 312.

[62] Charles Spurgeon, Lições aos Meus Alunos, p. 310.

[63] Charles Spurgeon, Lições aos Meus Alunos, p. 315.

[64] Um Ministério Maravilhoso, pp. 46-47.

[65] “A Angústia e Agonias de Charles Spurgeon”, p. 24.

[66 Um Ministério Ideal, p. 76.

[67] Charles Spurgeon, Lições aos Meus alunos, p. 315.

[68] Um Ministério Ideal, pp. 360-361.

[69] Um Ministério Ideal, pp. 73-74.

[70] Um Ministério Ideal, pp. 232-233.

[71] Um Ministério Ideal, pp. 282-283.

[72] Um Ministério Ideal, pp. 395-396.

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