Conhecer a Deus, por William Teixeira

|

“Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao SENHOR.” (Oséias 6:3)

 

Parece algo contraditório o fato do Senhor nos ordenar que O conheçamos, sendo que todos os homens possuem conhecimento do Deus que existe. Pois, Deus, ao criar o homem, assim como deu instinto aos animais e leis para regerem a natureza, assim gravou no coração do homem a seguinte convicção: “Há um Deus Criador”. Deste conhecimento natural da Existência de Deus, Paulo testifica em Sua Epístola aos Romanos ao dizer: “Porquanto, [os homens] tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus…” (Romanos 1:21). Os romanos eram idólatras, humanistas ou ateístas, mas, ainda assim, Paulo escreve: “tendo conhecido a Deus”.

 

Em outra ocasião ao pregar o Evangelho em Listra, cidade de Licaônia, Paulo testifica perante a multidão dizendo: “…vos anunciamos que vos convertais dessas vaidades ao Deus vivo, que fez o céu, e a terra, o mar, e tudo quanto há neles; o qual nos tempos passados deixou andar todas as nações em seus próprios caminhos. E contudo, não se deixou a si mesmo sem testemunho, beneficiando-vos lá do céu, dando-vos chuvas e tempos frutíferos, enchendo de mantimento e de alegria os vossos corações (Atos 14:15-17).

 

No Salmo 19, Davi diz que até mesmo “os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos”, e continua, “Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz” (Salmos 19:1-3). Em outro lugar diz o Salmista: “Os céus anunciam a sua justiça, e todos os povos veem a sua glória” (Salmos 97:6). A Criação nos testifica da existência de um Criador, ou melhor o Criador nos fala através das coisas que estão criadas. “Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis” (Romanos 1:20). Deus Se manisfesta com tamanha clareza que a Sua Divindade, existência e poder eterno “se entendem, e claramente se veem pelas coisas que estão criadas” de maneira que todos os homens que não O adoram, nem O glorificam e nem Lhe dão graças são considerados “inescusáveis”.

 

Por tudo que foi dito até aqui, provado está que há um conhecimento natural de Deus na alma de todos os homens. O conhecimento de Deus é algo bom e com esta afirmativa todos concordamos, apoiados nas Escrituras. Mas pense comigo: O que o conhecimento de Deus tal como Paulo se refere em Romanos 1:20 produziu naqueles que o detinham? Eu resumo em uma palavra: condenação. Portanto, este conhecimento lhes servirá de carrasco e testemunha de acusação perante Deus no Dia do Juízo Final. Assim pesa sobre eles acusação semelhante a que o Mestre dirigiu aos fariseus: “Se eu não viera, nem lhes houvera falado, não teriam pecado, mas agora não têm desculpa do seu pecado” (João 15:22). Portanto, concluímos que este conhecimento que eles possuíam a respeito de Deus não era o conhecimento recomendado pelo meu texto que diz: “Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao SENHOR”.

 

Daqui por diante o meu escrito começa a tomar a composição que desejo, capacitando-me o Senhor, dar-lhe.

 

Doravante, a este conhecimento não-salvífico, nem desejável ou recomendado pelas Escrituras chamarei de “Conhecer de Deus” e o conhecimento ao qual se referem as palavras “conheçamos, e prossigamos em conhecer ao SENHOR”, chamarei de “Conhecer a Deus”.

                                                                               

Posto que todos os homens vêm ao mundo trazendo consigo “o conhecer de Deus” e que em todos os lugares a Criação reforça este conhecimento, não necessitamos buscá-lo nem tampouco o Senhor poderia estar se referindo a Ele quando disse: “conheçamos, e prossigamos em conhecer”. Já lhe falei de Romanos 1:21 em que Paulo diz: “Porquanto, tendo conhecido a Deus…”, mas se continuarmos a leitura pelo primeiro capítulo da mesma Epístola nos surpreenderemos ao ver o mesmo Paulo, nalgumas linhas depois, dizer: “E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm” (Romanos 1:28); ao nos falar, ao mesmo tempo e no mesmo contexto, que eles, os gentios, os ímpios, conheciam a Deus, e em seguida que “eles não se importaram de ter conhecimento de Deus”. O apóstolo faz distinção entre os dois tipos de conhecimentos de Deus por mim mencionados acima: o conhecimento natural de Deus e o conhecer a Deus.

Já lhe mostrei que o conhecimento de Deus é nato, porém não podemos presumir o mesmo sobre o conhecer a Deus, pois o texto exorta: “conheçamos, e prossigamos em conhecer ao SENHOR”. Se a exortação é para que O conheçamos, segue-se, portanto, a dedução lógica de que há um momento em que não O conhecemos.

 

Então, a minha questão crucial é: Como conhecer a Deus?

O homem não pode conhecer a Deus por esforço e nem por força própria, pois a aquisição de conhecimento, o aprender, essencialmente, não é uma atividade braçal, muscular ou de puro esforço motor, mas mental e intelectual. Porém aqui surge outro empecilho, pois o homem não pode conhecer a Deus pelo poder de seu frágil inteleto carnal, como Arthur W. Pink, escreveu: “Tampouco o intelecto pode conhecer a Deus. ‘Deus é Espírito…’ (João 4:24) e, portanto, só pode ser conhecido espiritualmente”.1

 

Diante disto, podemos pensar algo como: “Então, onde encontraremos conhecimento espiritual e verdadeiro de Deus?”.

 

Você pode haver pensado: “na Escritura!”, mas eu quero que você saiba, e que isto fique bem claro para você, que a leitura da Bíblia não necessariamente traz o “conhecer a Deus”. Pode-se mesmo ser um estudante diligente e até mesmo ortodoxo da Bíblia e não se chegar a conhecer a Deus, mas somente ao conhecimento de Deus. O que difere estes daqueles a quem Paulo se refere no capítulo primeiro de Romanos é a mera quantidade; aqueles conheciam o básico de Deus, mas suficiente para condená-los, estes conhecem muito de Deus, mas ainda assim, não de forma salvífica, embora conheçam muito de Deus, não chegaram a conhecer a Deus.

 

Talvez a mensagem que eu quis transmitir neste meu último parágrafo não tenha sido total-mente clara para você, então tratarei, pois, agora, de elucidá-la apelando para sua experiência. Acaso não tens visto homens com grande erudição e conhecimento bíblico de Deus, e discursarem sobre o Santo com eloquência e até mesmo com certa propriedade, autoridade e domínio da ciência do Altíssimo, mas que demonstram, na prática, pelo seu exemplo, obras e atitudes que não são convertidos, mas exatamente o oposto? Paulo fala destes mais claramente dizendo a Tito: “Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra” (Tito 1:16). Tomando as palavras de Paulo, poderia dizer-lhe que estes “confessam que conhecem a Deus” quando na verdade, eles somente conhecem de Deus. Eles somente conhecem o texto da Escritura, mas não chegaram ao conhecimento espiritual que opera um poder trans-formador naquele que o possui. Não chegaram ao conhecimento espiritual e verdadeiro de Deus.

 

Assim vimos que o simples fato de eu ler a Bíblia, em si mesmo, não me fará conhecer a Deus. A Bíblia é o livro mais “conhecido” (famoso) e lido no mundo, no entanto, o Deus da Bíblia, é talvez o que há de mais desconhecido debaixo do céu. Possivelmente o “conhecer a Deus” seja o assunto mais desconhecido do mundo. “Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu” (João 1:10); “O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece…” (João 14:17). Ele continua sendo o “DEUS DESCONHECIDO” (Atos 17:23) para a maior parte da humanidade.

 

Ou você talvez tenha pensado: “O conhecimento espiritual, verdadeiro e salvífico de Deus pode ser adquirido através de ouvir uma pregação do Evangelho por um fiel, consagrado e verdadeiro ministro de Deus e do Evangelho; afinal de contas, a fé vem pelo ouvir a Palavra de Deus, e a fé verdadeira traz consigo o verdadeiro conhecimento espiritual e salvífico”. Mas eu lhe digo que não! Não Rebeca, o verdadeiro conhecimento de Deus, o conhecimento espiritual e salvifico não é comunicado pelo simples fato de ouvir a palavra de Deus sendo pregada, mesmo que fielmente e com poder do Alto. Vou mais longe e digo que mesmo que o pregador seja fiel e verdadeiro como poucos e que suas pregações sejam banhadas pelo Espirito Santo, o puro ato de ouví-lo não traz conhecimento salvífico e transformador de Deus. Sim, eu vou ainda mais longe, mesmo que o pregador seja o maior homem que já pisou por esta terra, ainda que ele seja cheio de toda a plenitude do Espírito de Deus, ainda que seja o pregador mais santo, piedoso, verdadeiro, poderoso e sábio que já pisou sobre esta terra, ainda assim, o simples fato de ouví-lo pregar não traz conhecimento regenerador e salvífico de Deus. Judas Iscariotes ouviu todas as pregações de Jesus Cristo. Muitas, talvez a grande maioria, das pessoas que seguiram ao Profeta Jesus de Nazaré e ouviram de Seus lábios santos, os Seus sermões ímpares e salvadores, não se converteram, mas somente conseguiram “o conhecer de Deus” e trouxeram sobre si maior condenação, como foi o caso do filho da perdição (João 17:12).

A questão ainda permanece: Como adquirir conhecimento espiritual e verdadeiro de Deus?

 

Quando falo sobre conhecer a Deus tudo depende de Deus e nada depende de nós. Já deves ter percebido que o homem em si mesmo é totalmente impotente para chegar à verdadeira ciência do Altíssimo. Jamais esqueça disto ou duvide, nem por um só momento.

 

Aos crentes professos da Galácia, que chegaram ao conhecimento salvífico de Deus (pelo menos em tese), o apóstolo diz: “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” (Gálatas 4:9). Aqui, eu entendo que o apóstolo põe em dúvida o conhecimento que os gálatas tinham adquirido de Deus, se haviam adquirido o conhecimento verdadeiro ou se somente haviam adquirido o “conhecer de Deus”, pois nestas e em outras passagens de sua epístola, como esta: “O insensatos gálatas! quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi evidenciado, crucificado, entre vós?” (Gálatas 3:1), Paulo, nos dá a entender que eles haviam começado a carreira da fé e a vida Cristã de forma verdadeira e piedosa, mas que agora estavam em trágico declínio em sua profissão de fé. “Corríeis bem; quem vos impediu, para que não obedeçais à verdade?” (Gálatas 5:7).

 

Mas o que realmente me interessa é que está escrito nesta passagem: “Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus…”. Isto pode ser dito de cada um dos verdadeiros Cristãos; não foram eles que conheceram a Deus, foi Deus que os conheceu primeiro. Tudo depende de Deus. Não depende do que quer e nem do que corre. Tudo de-pende de Deus usar de misericórdia e compaixão (Romanos 9:16).

 

Em se tratando de conhecer a Deus toda iniciativa é dEle e não nossa. “E Isaías ousadamente diz: Fui achado pelos que não me buscavam, fui manifestado aos que por mim não perguntavam” (Romanos 10:20).

 

Agora redobre a atenção. O conhecimento de Deus se dá por meio de revelação, através da iluminação de nossas almas e mentes pelo Seu Espírito. Pela ação poderosa de Deus, o Espírito Santo, nAqueles bem-aventurados a quem Deus, o Pai, de antemão elegeu para os atrair e fazê-los chegar a Si, redimindo-os na Pessoa de Deus, o Filho (Salmo 65:4).

 

Sem a ação do Espírito de Cristo os nossos ouvidos pemaneceriam tapados e cerrados, para todo e qualquer conhecimento de Deus. Permaneceríamos surdos, e não somente éramos surdos, mas éramos “como a víbora surda, que tapa os ouvidos” (Salmos 58:4). Isto é, éramos totalmente incapazes de ouvir a voz do Bom Pastor e vir a conhecer a Deus de maneira salvífica, pois, não somente éramos totalmente incapazes de ouvir correta-mente (surdos), mas também não queríamos ouvir (tapar os ouvidos).

 

Portanto, a primeira obra do Espírito Santo em nós é a regeneração (ou ressurreição), por meio da qual o Espírito, ao nos regenerar, abre-nos os ouvidos para ouvir. “Efatá!” — Diz o Espírito (Marcos 7:34). Em relação à obra de regeneração, o ouvir é uma das dádivas que recebemos, como dom gracioso do Pai das Luzes, logo após ressuscitarmos (pois, está-vamos mortos, completamente mortos, em nossos delitos e pecados e os mortos não estão cônscios de nada, não há sabedoria e nem conhecimento na sepultura). E é aqui onde pela primeira vez nós, após recebermos o fôlego da vida e a semente de vida eterna, temos as nossas mentes iluminadas para as primeiras ideias, conceitos, pensamentos e reflexões corretas a respeito de Deus; pela primeira vez estamos capacitados ao tipo de ouvir que produz fé salvífica e não condenação.

 

Depois de regenerados recebemos os primeiros conhecimentos espirituais e verdadeiros de Deus. Normalmente estes conhecimentos nos fazem tremer e nos comunicam a natureza santa e poderosa de Deus. Ao conhecermos a Deus verdadeiramente, conhecemos a nós mesmos verdadeiramente. Assim o homem agora não somente percebe a grandeza da santi-dade e justiça de Deus, mas também a sua abominável pecaminosidade e injustiça. É, neste ponto onde o conhecimento transmitido pelo Espírito ao homem o convence do seus peca-dos, e da justiça e juízo de Deus que virá sobre ele (João 16:7-11).

 

Nesta altura o regenerado vê a Deus como juiz terrível, que o condenará. Para transmitir-lhes conhecimento verdadeiro de Deus, primeiro, o Espírito Santo opera temor e tremor naqueles em quem trata eficaz e salvificamente, afinal de contas “o temor do SENHOR é o princípio do conhecimento” (Provérbios 1:7).

 

Após a obra da regeneração onde o Espírito infunde vida e recria (nova criação) o homem que estava morto em Adão, segue-se a segunda obra: a chamada eficaz.2

 

Depois de regenerado o homem se vê como pecador e alvo da ira de Deus. Em “O Peregrino”, John Bunyan retrata este quadro descrevendo que Cristão tinha visões de que fogo desceria do céu e o consumiria; a ele e à Cidade da Destruição. Assim o regenerado vê-se debaixo da espada da ira de Deus. Então pela primeira vez ele percebe que não pode salvar-se a si mesmo deste Deus Santo. Então ele, o regenerado, clama por misericórdia, estando profundamente quebrantado e arrependido de seus pecados e ofensas a Deus (obras do Espírito), então, em seguida, o Espírito Santo o conduz ao Redentor e lhe revela a Salvação que há em Cristo Jesus. O Espírito Santo não somente revela Cristo ao pecador de maneira salvífica, mas também da-lhe fé, para que crendo, seja salvo. Ao irregenerado é impossível crer em Cristo para salvação, enquanto ao regenerado é impossível não crer em Cristo para salvação. Após a regeneração, segue-se, a vocação (ou chamada), a justificação, a adoção, a santificação e a glorificação. Antes da regeneração há a eleição e predestinação dos santos.

 

A regeneração dá-lhe ouvidos para ouvir, pois somente o novo homem, nascido do Espírito, é capaz de entender o conhecimento de Deus (conhecimento espiritual). A carne não entende as coisas do Espírito, pois estas lhe parecem loucura. Após a ressurreição dos mor-tos, segue-se a chamada eficaz, que normalmente se dá por meio da pregação do Evangelho, e possibilita o ouvir que, pela ação poderosa do Espírito Santo, lhe transmite o verdadeiro conhecimento salvífico de Deus.

 

Mas existe outras formas de “ouvir”; a minha, por exemplo, foi lendo a Bíblia em minha casa, e sozinho. Apesar de haver lido uma Bíblia adulterada, o Espírito a usou para me dar os primeiros conhecimentos salvíficos de Deus. Era uma Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas publicada pelas falsas Testemunhas de Jeová. Um adultério das verdadeiras Escrituras Sagradas feito pela liderança dos russelitas para produzir uma versão da Escritura que se conformasse ao e confirmasse os seus ensinos heréticos. Li esta “bíblia” 3 vezes em menos de um ano. Literalmente eu “comi o rolo” (Ezequiel 3:2).

 

Mas como já te falei, o que ensina e transmite conhecimento não é o papel e as letras gravadas nele; quem transmite o verdadeiro conhecimento é o Espírito naqueles a quem Lhe agrada. Ainda assim, levei alguns meses, e até anos, para me livrar de muitas heresias que absorvi como sendo verdade, naquele tempo. Porém, o mais importante: o Santo Espírito começou a sua obra em minha vida através daquele “tipo de ouvir”, ainda que falho, e até mortal. Deus tem muitos meios de chamar a Si aquele que agrada aos Seus olhos.

É durante/após a chamada eficaz que o eleito é matriculado definitivamente na Escola do Espírito Santo, desta fase em diante, ele começará verdadeiramente a conhecer a Deus, conhecimento este que será gradualmente infinito, por toda a eternidade de eternidades. Visto que, YHWH, o Senhor, é Deus sempiterno, não poderá esgotar-se o que há para conhecer referente ao Seu glorioso e bendito Ser Eterno. Desta forma começamos a co-nhecer aqui Aquele que, mesmo passadas eras de eras e eternidades e eternidades, nunca vamos conhecer completamente: Deus.

 

Querida Rebeca, penso que com estas breves e deficientes palavras tenho lhe mostrado que o conhecimento do Santo se dá por meio de revelação do Espírito de Deus, naqueles em quem Ele eficazmente trata; para salvação eterna. E que o meio externo que Ele utiliza normalmente é o ouvir (ouvir, ler ou qualquer outra forma natural por meio da qual os filhos dos homens adquirirem conhecimento), tendo antes capacitado o homem a ouvir de forma salvífica a mensagem de Deus.

 

E, acercando-se dele os discípulos, disseram-lhe: Por que lhes falas por parábolas? Ele, respondendo, disse-lhes: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado; porque àquele que tem, se dará, e terá em abundância; mas àquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado. Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não vêem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem. E neles se cumpre a profecia de Isaías, que diz: Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis, e, vendo, vereis, mas não percebereis. Porque o coração deste povo está endurecido, e ouviram de mau grado com seus ouvidos, e fecharam seus olhos; para que não vejam com os olhos, e ouçam com os ouvidos, e compreendam com o coração, e se convertam, e eu os cure.

 

Por tudo que foi dito até gora, e pelas palavras desta porção da Escritura supracitada, as seguintes palavras de Cristo ganham um peso infinitamente glorioso que nos traz uma alegria indizível e gozo inefável:

 

Mas, bem-aventurados os vossos olhos, porque veem, e os vossos ouvidos, por-que ouvem (Mateus 13:10-16).

O verdadeiro conhecimento de Deus é a vida eterna: “E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (João 17:3).

Entretanto, a questão ainda permanece: Como fazer para adquirir conhecimento espiritual e verdadeiro de Deus? Como fazer para obedecer ao texto: “Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao SENHOR”.

 

O conhecimento de Deus é dado por Ele mesmo de forma soberana e graciosa. Porém, Deus normalmente usa meios pelos quais comunica Sua ciência. Deus não está preso aos meios, mas frequentemente age por determinados meios. Porém, o mais importante é: Deus nos ordenou a usar os meios. Não podemos esperar que Deus nos abençoe se não estamos usando os meios que Ele nos prescreveu em Sua Palavra. Embora sejamos totalmente impotentes para conhecer a Deus, Ele nos ordena em Sua Palavra a usar certos meios e desta forma ordena: Conheçam, e prossigam em Me conhecer.

 

Sabemos que o livre-arbítrio é um escravo, que não existe. Também sabemos que o homem não é livre em suas escolhas e nem pode decidir pelo bem sem que a mão Divina o conduza a isto. Mas entenda isto e que fique claro: O homem é um ser de escolhas, e o mais importante: Deus o responsabilizará pelas escolhas que ele fizer em vida, não sendo levado em conta se ele teve a graça de Deus para fazê-las ou não. No Dia do Juízo, as obras de todos os homens cairão sobre as suas cabeças. A obra de Cristo cairá sobre a cabeça do salvo e será, graciosamente, contada como sendo a sua obra (do salvo) e a obra do perdido cairá sobre a sua própria cabeça como sendo ele não somente quem as praticou, mas também o único responsável por elas.

 

Deus ordena: Conheçam, e prossigam em Me conhecer. E, não podemos replicar a Deus algo como: “Não posso fazer isto, Deus, visto que não posso conhecer-Te por mim mesmo também não tentarei fazê-lo. Se o Senhor quiser, então pode revelar-Se a mim, mas quanto a mim não buscarei conhecer-Te, posto que é impossível obedecer a este Teu mandamento”.

 

Ora, Rebeca, se você, ao ler isto, cruzar os braços e esperar que Deus venha, e Se revele a ti, na tua inércia; certamente esperarás em vão e mui perigosamente, pois, as Escrituras me autorizam a dizer-te que isto não acontecerá. Mas por outro lado que ou quem te impede de usar os meios que Deus prescreveu em Sua Palavra? Não podes esperar conhecer a Deus pelos meios, tampouco pode esperar conhecer a Deus sem eles.

Não digo que você tem um livre-arbítrio, mas digo que nada lhe impede de levantar e usar um meio para conhecer a Deus, como, por exemplo, ler a Escritura. Não deves pensar algo do tipo: “Se Deus me elegeu para salvação, então Ele me fará conhecê-lO e de uma forma ou de outra, me levará ao Céu, não importando o que eu faça”. Ora, não podemos usar as grandes doutrinas bíblicas da Eleição e Predestinação como desculpa para nossa letargia e como travesseiro para nossa preguiça. O mandamento é: “conheçamos, e prossigamos em conhecer ao SENHOR”. Disponha-se a obedecer este mandamento e ao fazer isto sincera e verdadeiramente saiba que Deus a predestinou e decretou que isto acontecesse, então seja-Lhe grata e glorifique-O por revelar-Se e dar-Se a conhecer a ti, e conceder-lhe tão grande graça.

 

Assim podemos responder à questão: Como adquirir conhecimento espiritual e verdadeiro de Deus?

 

Resposta: Usando os meios que Deus nos prescreveu em Sua Palavra. Embora saibamos que estes meios em si não poderão fazer-nos conhecê-lO sem que Ele Se revele a nós; usaremos os meios, trilharemos o caminho que Ele nos ordenou e então esperaremos que Ele graciosamente venha ao nosso encontro e nos revele quem Ele É e quem nós somos perante Ele.

 

O mesmo Santo Espírito que nos revela e nos comunica a excelência do conhecimento de Deus, este “mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Romanos 8:16), e de que realmente O conhecemos ou não. Muitas vezes a dúvida quanto a este conhecimento é uma das maiores evidências de que verdadeiramente O conheces, pois aqueles que não O conhecem estão endurecidos demais para suspeitar da certeza do conhecimento de Deus que, ilusoriamente, supõem possuir.

 

Talvez pudesse discorrer um pouco mais sobre as evidências de quem possui este conhecimento espiritual e verdadeiro de Deus, isto é, aqueles que realmente conhecem a Deus. Mas, agora, tratarei de dar-lhe uma aplicação e lhe falar sobre alguns meios pelos quais poderá não somente conhecer, mas também, e penso que este seja o teu caso, prosseguir em conhecer ao Senhor, Deus Eterno.

 

Meios Para Conhecer A Deus

 

Pela Leitura

 

A leitura a qual me refiro é a leitura das Santas Letras. A Escritura é a fonte da qual jorram as palavras vivas de Deus. Porque você saciaria sua sede em vasilhas de homens, mesmo que sejam limpas e as tenham enchido na Fonte, sendo que podes tu mesma ir lá e beber direto da Fonte? O Espírito de Cristo lhe guiará à Fonte da água de vida, ao “poço de Belém, que está junto à porta” (1 Crônicas 11:17), que é Cristo Jesus o tema e a personagem principal da Escritura. As Escrituras falam de Cristo e de Cristo somente.

 

As Escrituras constituem um Livro ímpar, todo-maravilhoso. É uma obra milagrosa de Deus Espírito. Por ela a mente do Onisciente foi revelada aos homens. O pensamento do Eterno Deus foi simplificado e condensado até ao ponto, em que, nós, pequenos átomos efêmeros na obra da Criação, pudéssemos compreender e desfrutar deste conhecimento Divino, ainda que não por nós mesmos. Assim a Bíblia é a única revelação visível e concreta de quem Deus é e do que Ele faz, pensa e diz. Cada sentença das Escrituras permanece inabalável através dos séculos, mais firme do que o céu e a terra. Como desprezarias tu tal dádiva? Como não lerias tal Livro? Deus escreveu grandezas e somente grandezas, portanto, não as tenha como coisa estranha (Oséias 8:12).

 

Os livros te reformam, mas somente a Escritura te transforma. A leitura humilde e sincera da Bíblia é sumamente eficaz não tanto pelo que está escrito no Livro, mas pelo que atua através do que está escrito no Livro de Deus. Se insistires na letra, morrerás; mas o Espírito Santo que atua pela letra lhe dará vida e graça abundante.

 

Leia a Bíblia. É totalmente inadmissível que exista um “til” ou “j” do Livro de Deus, sobre o qual os teus olhos nunca repousaram. Como pode ser que o Deus do Universo, em Seu cuidado e providência, escreve-te uma Carta de Amor e tu não a lês?

 

Depois de comer o Rolo Santo, então leia livros que contenham as palavras do mesmo. Estes livros só serão eficientes e abençoadores à tua alma à medida que contenham as palavras e a aprovação daquele Autor.

Leia outros livros e não os despreze. Se Deus dá luz e entendimento a uns mais do que outros para escrever, e se o Espírito Santo capacita alguém a usar a pena; então seria um ato de arrogância, soberba, ultraje e tolice de nossa parte rejeitarmos e desprezarmos os dons do Espírito pelo simples fato de eles nos serem dados através de vasos de barro.

 

Leia livros, mas a Escritura é soberana. Creia, ame, leia, pratique e viva as Escrituras Sagradas para a glória do Deus Bendito e para tua bem-aventurança eterna.

 

Pela Consideração E Pela Meditação

 

Consideração e meditação como partes da leitura.

 

Certa feita em minha sala de aula o professor nos propôs uma pergunta, ele nos perguntou o que significa: consideração. Eu respondi que era algo que tinha a ver com estima, “Eu considero tal pessoa… eu estimo tal pessoa”, dei o exemplo. Eu não estava errado, pois este também é um dos significados para consideração: respeito, importância que se dá…, etc. Mas a consideração a qual me refiro aqui tem a ver com exame atento, reflexão e arrazoamento. Tem a ver com esquadrinhar minuciosamente e sendo tão sincera e realista quanto possível. Medir-se pela Palavra.

 

Considerar é reconsiderar seus caminhos, a trajetória já percorrida. Olhar para as veredas antigas, para o bom caminho e buscá-lO, diga ao Senhor: “Andarei neles, buscarei o caminho santo e a Tua Palavra será lâmpada para o meu pé e luz para o meu caminho” (Jeremias 6:16; Isaías 35:8 e Salmo 119:115).

 

Consideração diz respeito a quem você é diante do que você leu (autoconsideração, autoexame, examinar-se pelo espelho da Palavra e repensar teus caminhos) e meditação fala sobre a representação que você leu diante de quem tu és (reflexão, raciocínio, ponderação, estudo, buscar a significação de determinados dados para aquisição de conhecimento teórico; ou para executar uma ação; ou determinado empreendimento).

É importante olhares para trás e aprenderes com o passado. Tudo que foi, é e será. Não há nada de novo debaixo do céu. Ao olhar para trás estarás vendo o que acontecerá no futuro e o que acontece no presente. O sábio possui um olho na testa e outro na nuca.

Medita e considerada as tuas leituras ao fazer isto, peça em oração a ajuda e iluminação do Espírito Santo. Como disse o nosso amado John Bunyan: “Clamem a Deus que lhes revele Jesus Cristo! Não há quem ensine como Ele”.3

 

Pontos Negativos Do Conhecimento Pela Leitura

 

A leitura é a maior fonte de conhecimento de Deus. Mas também é por ela que os homens adquirem somente o “conhecer de Deus”. Pois na Escritura, há “pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição” (2 Pedro 3:16).

 

A palavra de Deus é racional, e, portanto, um homem pode entendê-la (não verdadeiramente) com o cérebro, mas ficar estéril na alma e no coração.

 

Existem três níveis de racionalidade:

 

1 – A irracionalidade: Falta de conhecimento

 

2 – A racionalidade: inclui o conhecimento; a sabedoria; o raciocínio lógico; e o pensamento racional, tudo isto nos torna capazes de formular, desenvolver e aprender palavras, ideias, conceitos e sentenças abstratas, embora que fazendo uso dos órgãos dos sentidos tais como visão e audição.

 

3 – A suprarracionalidade: Existem certas verdades que não conseguimos abarcar e entender com a nossa pobre razão. Aqui o homem erra, e desmerece o que não consegue entender, acusando este algo de irreal e loucura. Os pensadores iluministas-cartesianos postularam que não podemos aceitar como válido e verdadeiro nada que não seja aprovado e comprovado pela nossa razão. É um ato de arrogância e estupidez supor que os marcos do conhecimento se limitam e findam-se dentro das fronteiras da razão humana.

 

Entretanto há um conhecimento superior ao qual não conseguimos alcançar. O conhecimento de Deus é infinito como um abismo sem fundo. O conhecimento de Deus é como um círculo, não possui fim. Paulo chegou próximo deste mar da imensidão do saber Divino Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Por que quem compreendeu a mente do Senhor? ou quem foi seu conselheiro?” (Romanos 11:33-34).

Penso que na Queda perdemos a verdadeira capacidade de pensar e raciocinar logicamente; tivemos a capacidade intelectual de nosso cérebro terrivelmente afetada pelo pecado. Assim o nosso cérebro perdeu a capacidade de entender muitas “coisas altas”.

 

Por exemplo, eu não consigo entender como do nada Deus fez tudo; como do nada surgiu matéria e vida. Eu não consigo entender, muito menos explicar, como o mundo foi criado. Mas na regeneração Deus nos restaura, assim creio, parte do que perdemos no Éden e nos dá algo chamado fé. A fé é maior do que a razão. A fé nos eleva acima da razão humana natural caída. Pois, com a minha razão não consigo entender como foi que Deus criou os mundos, mas “pela fé entendemos que os mundos pela palavra de Deus foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente” (Hebreus 11:3).

 

Assim todo aquele que lê sem fazer uso dos óculos da fé não obterá o “conhecer a Deus”, mas somente obterá um conhecimento errado, adulterado, falho, distorcido e humanista-racional acerca da Pessoa Bendita de Deus. Aquele que lê sem o auxílio da verdadeira fé no máximo encontrará “o conhecer de Deus”. Está escrito que a alguns foram pregar as boas novas, “…mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram” (Hebreus 4:2). Quando for ler use a fé para que possas entender corretamente. A dúvida traz ignorância, coração dobre e falta de firmeza, mas a fé lhe enriquecerá “da plenitude da inteligência, para conhecimento do mistério de Deus e Pai, e de Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Colossenses 2:2-3).

 

Há também o perigo do prazer intelectual. É muito bom ler e ser entendido sobre qualquer assunto. Como disse Henry Scougal4, é prazeroso ser eloquente no falar sobre determinados assuntos. O conhecimento é bom, mas cuidado para que o conhecimento não te inche, e te faça intelectualmente soberba, e leve embora todo o teu amor, afeto e sensibilidade, tanto para com Deus quanto para com o próximo. Quantos há que estão presos neste tipo de falso conhecer maligno?

 

Com a leitura tu correrás também o risco de conhecer demais e praticar de menos ou nada. Lembre-se de que o conhecimento teórico visa um comportamento prático. A ortodoxia é somente o ponto de partida para a ortopraxia, isto é, o conhecimento somente é o início da piedade e da santificação.

 

E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. Porque, se alguém é ouvinte da palavra, e não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural; porque se contempla a si mesmo, e vai-se, e logo se esquece de como era. Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito (Tiago 1:22-25).

 

É desta forma que o “conhecer de Deus” condena o homem, porque ele conhece o que deve ser feito e não o faz, trazendo sobre si condenação.

 

Quando fizeres as tuas leituras guarde-te destas coisas: Ausência de fé e confiança em teu próprio entendimento; prazer intelectual soberbo e falta de prática.

 

Pela Oração

 

Nossos joelhos nos ligam ao Céu. Para que tua alma tenha saúde é preciso que os teus joelhos padeçam. Assim a oração é a alma e a saúde da vida do Cristão.

O propósito principal da oração é a glória de Deus e depois a nossa comunhão com Ele, e a nossa alegria nEle.

 

Oração não é monólogo, nem solilóquio, é diálogo. À medida que falas a Deus, Deus fala a ti. Deus não te deixará falando sozinha.

Como o conhecimento vem por revelação Divina podes aprender mais sobre Deus em uma hora de joelhos do que em uma hora de leitura, pois a oração traz um tipo conhecimento vivo e íntimo de Deus que não se aprende em livros, nem mesmo na Escritura.

Não podes conhecer uma pessoa intimamente sem que converses com ela frequentemente. Também não podemos conhecer a Deus se não passarmos horas a falar com Ele.

 

Não pare de orar por pensar que não está orando direito ou que está sendo ineficaz na oração. Veja o que diz Spurgeon, no sermão de número 700, Order And Argument In Prayer:

 

A oração em si mesma é uma arte que somente o Espírito Santo pode nos ensinar. Ele é o doador de todas as orações. Rogue pela oração — ore até que consiga orar, ore para ser ajudado a orar e não abandone a oração porque não consegue orar, pois nos momentos em que você acha que não poder, é que realmente está fazendo as melhores orações. Às vezes quando você não sente nenhum tipo de conforto em tuas súplicas e teu coração está quebrantado e abatido, é que realmente está lutando e prevalecendo com o Altíssimo.

 

“Nada tendes, porque não pedis” (Tiago 4:2). O que Tiago está lhe dizendo aqui? Não está lhe dizendo que você terá de qualquer maneira, muito menos que você terá se não pedir, pelo contrário o irmão do Senhor está dizendo: “Rebeca, você não tem porque você não pede, se você pedisse conforme a vontade de Deus e não para gastar com qualquer tipo de deleite seu, então você teria”. A questão aqui é: Crês tu isso?

 

E eu vos digo a vós: Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á; por-que qualquer que pede recebe; e quem busca acha; e a quem bate abrir-se-lhe-á. E qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, também, se lhe pedir peixe, lhe dará por peixe uma serpente? Ou, também, se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião? Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho pedirem? (Lucas 11:9-13).

Peça, peça com a mais alta sabedoria, peça a seu Pai que lhe dê o Seu Espírito Santo. Abra a sua boca e peça. Peça muito e sempre.

A maneira mais rápida de se fazer “merecer” e conseguir o que queremos é pedindo. Então, peça. Como brilhantemente fala Lewis Bayly5, citando Zacarias 12.10: O Espírito de graça é o mesmo Espírito de súplica. Portanto, ao suplicar tenha em mente a certeza e firme esperança de que o mesmo Deus que te levou a clamar também agraciará as tuas orações concedendo-lhe o que deseja o seu coração, pois tu te deleitas nEle e faz o que é reto e agradável aos Seus olhos. Assim como a súplica legítima foi decretada na eternidade, o atendimento de tal súplica também o foi. Deus não retém nenhum bem a seus filhos porque ama-os com amor eterno.

 

Sinto que sou muito frágil neste assunto, digo, mais do que nos outros; também não me sinto muito à vontade para falar sobre ele tanto pelo pouquíssimo conhecimento quanto pela pouca experiência prática.

 

Por hora calo. Espero que aprendamos juntos sobre o que realmente é a oração; e um dia, querendo Deus, voltarei a te escrever sobre a sagrada arte da oração a Deus.

 

Pelo Tempo

 

Quem quer conhecer a Deus precisa gastar tempo com Deus. Já disseram que Deus não Se dobrou e nem se conformou à era das máquinas, da tecnologia e da velocidade, essa na qual vivemos, portanto, se você quiser conhecer a Deus precisa parar e passar horas com Deus. Horas em silêncio com Deus. O silêncio de Deus é altamente didático.

 

As preocupações da vida, entrando fazem com que a boa semente, a Palavra de Deus que foi enxertada em ti pela pregação do Evangelho, se torne infrutífera e morta; e você fique estéril no conhecimento de Deus.

 

Nosso tempo é pequeno e a Seara do Senhor é muito grande. Nosso tempo é pequeno e nós menores ainda. Passe tempo com o Senhor da Seara, antes de passar tempo na Seara. Se preocupe mais em passar tempo com o Deus das coisas e não com as coisas de Deus.

 

Todo homem é uma espécie de camaleão. Ele acaba, mesmo que não queira, absorvendo as características do lugar e das pessoas com quem convive. Daniel, foi levado da Terra Santa, Judá, para a terra de impiedade, a Babilônia, mas não praticou os costumes daqueles pecadores, não, nem mesmo comeu a mesma comida que eles comiam. Daniel não se misturou com o povo daquele lugar, antes, ele era amigo somente de “Hananias, Misael e Azarias, seus companheiros”, eles eram companheiros, isto é, viviam na companhia uns dos outros, viviam juntos e oravam juntos (Daniel 2:17-18). Os três se tornaram parecidos com Daniel e Daniel com eles; e ambos com o seu Deus.

 

Ao ler estas palavras não diga em seu coração que podes contrariar este preceito de separação e santidade e não se contaminar com os ímpios e com seus lugares sujos, idólatras e abomináveis. Cananeu não é amigo, é laço para o teu pé, açoite para tuas costas e espinho para os teus olhos.

 

Assim — preste muita atenção — se passares muito tempo em lugares profanos onde o Santo Nome de Deus não é piedosamente reverenciado e na presença de pessoas ímpias e naturais, sem dúvida alguma, acabará absorvendo as características delas e parecendo com elas, falando como elas, pensado no que elas pensam, imitando-as para tua perdição. MAS, se permaneceres na presença de Deus; se constantemente adentrares ao Céu em oração; se viveres no interior do antigo véu que Cristo rasgou por e para você; se habitares no santo dos santos; se poderes dizer como Elias: “Vive o SENHOR Deus de Israel, perante cuja face estou” (1 Reis 17:1), então viverás na presença de Deus, portanto acabará absorvendo a características de Deus; falará como Ele fala, amará o que Ele ama e odiará o que Ele odeia. Andará como Deus andou e assim andará com Deus. Serás imagem e semelhante de Deus.

 

Para ir falar com o diabólico Acabe, Elias não entrou na presença do Senhor, e isto é maravilhoso! Ele não entrou na presença de Deus, porque ele nunca saía da presença dEle! Elias vivia, em tempo integral, perante a face de Jeová, seu Deus.

 

Viva de tal maneira.

 

Há tempo para todo propósito debaixo do céu, mas o maior e melhor tempo deve ser para Aquele que está acima no Céu. Este é o nosso maior propósito: conhecer a Deus, fazer a sua vontade e viver para a Sua glória. Ele nos deu vida e tempo para isto.

Use o seu tempo para conhecer a Deus.

 

Pelo Desejo

 

Quando a Palavra de Deus vem ao povo, pelo ministério de Jeremias, é dito: “E buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração” (Jeremias 29:13). O que você acha que Deus estava dizendo ao povo? Algo como: Buscar-Me-eis e Me achareis quando vocês lerem a Torá exaustivamente? Buscar-Me-eis e Me achareis quando vocês sacrificarem animais? Buscar-Me-eis e Me achareis quando vocês comparecem ao Meu Templo? Buscar-Me-eis e Me achareis quando rasgarem as suas vestes? Buscar-Me-eis e Me achareis quando vocês sentirem remorso e se lamentarem por perceber que estavam errados? Não! Não em absoluto!

 

O que Deus está dizendo é: No dia em que vocês perceberem a loucura que cometeram ao desprezar os Meus justos mandamentos que ordenei para a vida, lançando-os para trás de suas costas; no dia que vocês perceberem que ao se desviarem de Mim seguiram a vaidades e se tornaram vãos, coisas que nada lhes aproveitaram, antes causaram a vossa ruína; quando os males e as recompensas de vossas rebeliões vos alcançarem e vocês gemerem profundamente sob o peso da angústia e opressão com que vos castigarei pelas mãos dos gentios incircuncisos; no dia em vocês caírem em si, e se arrependerem de coração, e perceberem que Eu Sou o bem mais precioso, mais desejável e que todo o mais que há na terra não se pode comparar a Mim; só então é que vocês verdadeiramente se converterão a Mim, e então buscar-Me-eis, e Me achareis, quando Me desejares com todo o vosso coração.

 

O desejo! O desejo move os nossos corações a buscarem a Deus violenta e verdadeiramente. Buscar-Me-eis, e Me achareis, quando Me buscardes com todo o desejo do vosso coração.

 

O que te fará ler, orar e conseguir tempo para Deus em sua vida? O desejo! O desejo nos motiva e nos move a praticar as ações. Quem quer fazer dá um jeito e faz; quem não quer, inventa uma desculpa e se omite, desculpa esta que nada mais é do que falta, ausência de desejo.

Então, a questão é: você quer a Deus, você O deseja? A Pessoa de Deus? Deus e nada mais? A comunhão com Deus? Você O ama violentamente? Você O deseja mais que tudo nesta vida? A sua carne clama pelo Deus vivo, como as corsas mui sedentas anseiam por águas vivificantes!?

 

Um pouco de desejo não é desejo, muito desejo não é desejo, o que Deus requer de ti é todo o teu desejo, afinal de contas Ele não é muito desejável, mas Totalmente Desejável! Menos do que isto é um insulto Àquele que é mais formoso do que os filhos dos homens, o Príncipe da Paz!

 

Se você desejar a Deus; se clamar de dia e se suplicar à noite; se gemer e suspirar pela Sua presença, quando O desejares com todo o desejo do teu coração, então Ele Se revelará a ti e será achado por ti. Ele será teu Amigo.

 

Se disseres:

 

Aguardo ao SENHOR; a minha alma o aguarda, e espero na sua palavra. A minha alma anseia pelo Senhor, mais do que os guardas pela manhã, mais do que aqueles que guardam pela manhã (Salmo 130:5-6).

 

Então, Deus lhe dirá:

 

Eu amo aos que me amam, e os que cedo me buscarem, me acharão (Provérbios 8:17).

 

A suma

 

De tudo que tens ouvido até aqui, a suma é: Deseje Deus de todo o teu coração. Empregue o máximo de teu tempo para ler a Bíblia e fazer leituras edificantes; e ore. Empregue todos os meios, recursos e forças possíveis para conhecer a Deus, porque esta é a coisa principal.

 

O Fim do Conhecimento

 

Até aqui eu lhe falei sobre o conhecimento de Deus e dos meios pelos quais você pode chegar ao mesmo. Desta forma lhe falei de meios (ouvir, leitura e etc.) que devem ser usa-dos para atingir um fim (conhecer a Deus).

 

Mas, agora eu quero que você entenda que o conhecimento de Deus não é um fim em si mesmo, mas somente um meio para o fim último para o qual foram criados todos os homens, a saber, amar a Deus e glorificá-lO.

 

Por meio do conhecimento de Deus o homem vem a ama-lO, pois como amaria a alguém se antes não o conhecesse? O verdadeiro conhecimento de Deus deve gerar não apenas instrução, sabedoria e ciência do Altíssimo, mas principalmente amor. O homem ama a Cristo, e por meio deste amor que produz obediência e conformação com a Sua santa vontade, glorifica a Deus, que é o fim último de toda a criação (1 Pedro 4:11).

 

Assim como O conhecemos porque Ele nos conheceu desde a eternidade (Salmos 139:16), “Antes que te formasse no ventre te conheci..” (Jeremias 1:5); da mesma forma “nós o amamos a ele porque ele nos amou primeiro” (1 João 4:19).

 

Paulo escrevia a sua primeira epístola aos Cristãos de Corinto, ou melhor ditava a carta a um escritor desconhecido. E quando ele chega ao que hoje nós conhecemos com o verso 31 do capítulo 12 ao qual ele dedicou para falar dos dons, ele escreve algo, uma expressão que amo muito. Paulo, após discursar sobre os dons, diz: “Portanto, procurai com zelo os melhores dons; e eu vos mostrarei um caminho mais excelente” (1 Coríntios 12:31). Esta expressão é a introdução do capítulo 13 onde Paulo minuciosamente descreve o que é o amor, e o seu papel essencial e indispensável no exercícios dos dons. Mas aqui Paulo chama o amor de “caminho mais excelente”, assim tenho segurança e ousadia para lhe dizer que o real conhecimento de Deus tem como fim dirigir você a este caminho mais excelente, este é o Caminho de Amor, o Caminho de Deus, a estrada que leva à Sião de Jeová dos Exércitos. O nome deste caminho é Jesus. Ele disse: “Eu sou o Caminho” (João 14:6).

O correto conhecimento de Deus te levará a Jesus, te levará a amar Cristo. Amá-lO com todo o teu amor. Amá-lO de “todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento” (Lucas 10:27).

 

O fim do conhecimento espiritual e verdadeiro de Deus é o amor puro e não fingido pelo Deus conhecido, Amoroso e Amorável.

 

Como tu me falas, o conhecer bíblico é afetuoso, e o mero conhecimento intelectual não é suficiente para produzir este afeto verdadeiro e poderoso. O coração foi feito para amar e ele amará, se não for o Deus será qualquer outro deus, mas inescapavelmente será aquele que ocupar a nossa mente. A pessoa a quem amamos ocupa a nossa mente antes de ocupar o nosso coração.

 

Agora, para finalizar, brevemente darei um pequeno exemplo do que é o amor a Deus e do que ele deve produzir naquele que verdadeiramente o possui.

 

Dizem que quando um exemplo é posto diante de nosso olhos, vale por uma multidão de palavras; neste caso eu concordo com isto e, portanto, lhe darei exemplos.

 

Paulo escreve aos Coríntios: “Porque o amor de Cristo nos constrange…” (2 Coríntios 5:14). Então nós pensamos: “Como Cristo amou a Paulo! E por causa disso Paulo fez coisas extraordinárias e deu fruto, como nenhum outro, para a glória de Cristo. O amor a Cristo fez de Paulo uma árvore sumamente frutífera”. Mas não foi isto que aconteceu com Paulo. O que aconteceu foi que o amor de Cristo dominou Paulo de uma tal maneira que o levou a fazer tudo que ele fez, e ser quem ele foi! Não foi Paulo que fez o que fez, mas foi o amor de Cristo pelo qual ele era dominado que fez. O verdadeiro amor nos leva a fazer para Deus, porém o simples fazer para Deus não nos leva amá-lO nem é evidência certa de que O amamos verdadeiramente.

 

Em Romanos 8 Paulo nos diz que os Cristãos podem suportar a tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo e a espada, e ainda serem “mais do que vencedores” (vv. 35-36). Mas como eles suportariam tamanhas provas e aflições, e ainda obteriam tão retumbante triunfo? O mesmo Paulo nos responde esta questão no verso 37: “por Aquele que nos amou”! Paulo era um homem dominado pelo amor de Cristo e isto lhe dava força! Paulo podia fazer tudo nAquele que lhe fortalecia, por meio de Seu Poderoso Amor!

 

Os primeiros Cristãos foram constrangidos, dominados pelo amor de Cristo e isto fez deles mais do que vencedores, mais valentes e corajosos do que os soldados das legiões roma-nas do exército de César, mais gloriosos do que os atletas vencedores das olimpíadas gregas, mais poderosos do que os gladiadores e do que as feras selvagens. Capazes de fazer proezas e suportar sofrimentos e tormentos inimagináveis, mas se olhássemos para eles não veríamos força e nem suspeitaríamos de poder, eram Perpétuas e Felicidades, Estêvãos e Policarpos; então, como eles não apenas venceram, mas assustadoramente se tornaram mais do que vencedores? Como? Por quê? Por amarem a Cristo mais do que tudo!

 

Cristo deu Seu sangue por eles e eles somente sagraram o sangue de Cristo. Eles foram constrangidos pelo poder do amor. Cristo os amou e este amor os controlou.

 

Conheça a Cristo e ame-O. Este amor te controlará e fará proezas. Proezas de amor.

 

Encerro meu escrito a ti pondo-me de joelhos perante o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, do qual toda a família nos céus e na terra toma o Nome, para que, segundo as riquezas da Sua glória, tu, sejas corroborada com poder pelo Seu Espírito na mulher interior; para que Cristo habite pela fé em teu coração; a fim de que, estando arraigada e fundada em amor, possas perfeitamente compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o com-primento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais cheia de toda a plenitude de Deus.

 

Peço isto Àquele que é Poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera. A esse seja a glória, por Jesus Cristo, em todas as gerações, para todo o sempre.

 

Amém e amém!

 

William Teixeira.

São Paulo, 26 de julho de 2013.

 

 

__________

Notas:

[1] PINK, A. W. Os Atributos de Deus. São Paulo: Editora PES, 2012. p. 11.

[2] Aqui eu fiz distinção entre a regeneração e a chamada eficaz simplesmente para dar a entender que é preciso que o pecador seja vivificado, antes de responder ao eficaz chamado Divino — W. T.

[3] BUNYAN, John. Graça Abundante ao Principal dos Pecadores. Uma Autobiografia de John Bunyan. 1ª ed. São Paulo: Editora Fiel, 2012, p. 72.

[4] SCOUGAL, Henry. A vida de Deus na alma do homem. São Paulo: Editora PES, 2007. p. 46.

Henry Scougal enumera como uma característica daqueles que possuem meramente uma vida natural (em contraponto àqueles que possuem a vida Divina), o fato de que aqueles, por vezes, deleitam-se “em ouvir e compor excelentes discursos sobre temas da religião, pois a eloquência é muito agradável, seja qual for o assunto”.

[5] BAYLY, Lewis. A Prática da Piedade. Diretrizes para o cristão andar de modo que possa agradar a Deus. 1ª ed. São Paulo: Editora PES, 2010, p. 173.

“A verdade é que aquele que não toma consciência do dever de orar não tem em seu ser nenhuma graça do Espírito Santo, porquanto o Espírito de graça e o de oração são um só (Zc 12.10)”. 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.