Consolai!, por R. M. M’Cheyne

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“Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. Falai benignamente a Jerusalém, e bradai-lhe que já a sua milícia é acabada, que a sua iniquidade está expiada e que já recebeu em dobro da mão do Senhor, por todos os seus pecados.” (Isaías 40:1-2)

 

Estas palavras são uma explosão das trombetas prateadas do Evangelho. Bem-aventurado é o povo que conhece o som alegre. Elas são como as palavras do anjo, em Belém: “Eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo” [Lucas 2:10]. Esta é a voz do Pastor, que todo o Seu rebanho conhece e ama.

 

 

I. Os crentes têm recebido punição em dobro por todos os seus pecados. “Já recebeu em dobro da mão do Senhor, por todos os seus pecados”, versículo 2. Existem duas maneiras pelas quais os pecadores podem suportar o castigo de seus pecados.

 

1. Neles mesmos, em seu próprio corpo e alma para sempre. Esta é a maneira pela qual todos os homens não-convertidos que finalmente perecem arcarão com os seus pecados. “Estes irão para o castigo eterno” [Mateus 25:26]. “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno” [Mateus 25:41]. Não que eles serão capazes de suportar seu castigo: “Meu castigo é maior do que posso suportar” [Gênesis 4:13]. “Porque é vindo o grande dia da sua ira; e quem poderá subsistir?” [Apocalipse 6:17]. Eles dirão um ao outro: “Quem dentre nós habitará com o fogo consumidor? Quem dentre nós habitará com as labaredas eternas?” [Isaías 33:14]. E o Senhor dirá: “Porventura estará firme o teu coração? Porventura estarão fortes as tuas mãos, nos dias em que eu tratarei contigo? Eu, o Senhor, o disse, e o farei” [Ezequiel 22:14]. Esta não é a maneira falada no texto; pois, (1) seria uma mensagem de aflição, e não de consolo: “Ai, ai, ai”, e não, “consolai, consolai”. Quando Deus realmente estender à mão para punir os pecadores, não haverá consolo naquele dia. Os corações dos pecadores afundarão em tristeza insuportável. (2) Pecadores nunca podem ter o dobro em si mesmos. Quando um pobre pecador morre sem Cristo e segue para suportar o castigo dos seus pecados, ele nunca pode ter o suficiente. Ele pecou contra um Deus infinito, e a sua punição, se for justa, deve ser infinita; suas prisões devem ser eternas, o verme roendo nunca deve morrer a chama acesa nunca se apagará. Desta forma, pobres almas sem Cristo nunca podem satisfazer a justiça de Deus. Deus nunca dirá que é o suficiente. Ele nunca derramará água sobre as chamas do inferno, nem enviará uma gota para as línguas ressequidas que são atormentados ali. Em vez de sofrer duas vezes, eles nunca receberão o suficiente da mão do Senhor, por todos os seus pecados. Oh! caros amigos, é fácil falar disso agora; mas muitos de vocês provavelmente o sentirão em breve.

 

2. Em Cristo, o Fiador. É de acordo com a justiça, que os pecadores podem suportar seus pecados em Cristo, o Fiador. (1) Esta foi a própria incumbência pela qual Cristo veio de cima. Ele pensou sobre isso por toda a eternidade. Para este fim, Ele veio ao mundo, para este fim, Ele se tornou homem. “Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro” [1 Pedro 2:24]. Se não fosse algo justo e correto que os pecadores pudessem suportar seus pecados em outro, e não em si mesmos, Cristo nunca teria empreendido isso. Esta é a forma de que se fala aqui. (2) Todos os sofrimentos de Cristo foram pela mão de Seu Pai: “Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado” [Isaías 53:10]. Nós geralmente olhamos para as mãos ímpias que crucificaram e mataram Cristo; mas não devemos esquecer que isso ocorreu pelo determinado conselho e presciência de Deus, e que eles não teriam tido poder algum contra Ele, exceto se não fosse dado a eles do alto. Através de toda a multidão de sacerdotes zombadores e soldados sanguinários, vocês devem ver a mão do Senhor tornando a Sua alma como oferta pelo pecado. Isso mostra que Cristo é um Salvador nomeado pelo Pai. Almas despertas têm medo da mão vingadora de Deus; mas em Cristo há um refúgio. E vocês não precisam ter medo, pois Cristo abrigará vocês; pois houve um acordo entre Eles, para que Cristo sofresse essas coisas pelos pecadores, e por isso entrasse em Sua glória. Cristo consumou a obra que o Pai Lhe deu para fazer. (3) Quando os pecadores se refugiam em Cristo, a Lei segue seu curso contra os seus pecados, não sobre a sua alma, mas em Cristo. Todos os seus pecados, sejam eles muitos ou poucos, são considerados dEle, e Ele é feito responsável; e Ele já recebeu em dobro por todos eles. Como foi justo que Cristo recebesse o dobro? Resposta. Ele não poderia sofrer em absoluto, sem suportar o dobro por todos os nossos pecados, devido a Sua excelência e glória. Os sofrimentos de Cristo por um momento foram, aos olhos de Deus, o dobro dos sofrimentos eternos dos pecadores, por causa da infinita dignidade de Sua Pessoa. Deus Se agrada por Sua causa da justiça; pois Ele engrandeceu a Lei, e a fez gloriosa. Na morte de Cristo, os anjos contemplaram Deus ser santo, infinitamente melhor do que se todos os homens houvessem perecido para sempre.

 

Venha, então, livremente a Jesus Cristo, ó pecador despertado. Ali você encontrará um abrigo da ira devida por seus pecados. Seus pecados são, de fato, infinitos, e a ira de Deus é intolerável, mas em Jesus você pode encontrar segurança. Ele veio sobre esta própria incumbência. Você não precisa ter medo, pois Ele o receberá; Seu coração e Seus braços estão abertos para você. Seu Pai está disposto para que você venha. Sejam seus pecados muitos ou poucos, não importa; em Cristo, você encontrará que eles são todos suportados, padecidos, em uma forma glorificante a Deus e segura para você.

 

 

II. Todos os crentes estão, portanto, em condição verdadeiramente abençoada.

 

1. A iniquidade deles é perdoada. A alma em Cristo é uma alma perdoada. Não importa quantos os seus pecados foram. A iniquidade de Jerusalém era muito grande. O povo de Jerusalém havia pecado contra a luz e contra o amor. Todos os profetas haviam sido enviados a eles; mas eles foram apedrejados ou mortos. O Filho de Deus chegou ali; eles O lançaram fora da vinha e O mataram. Seus pecados tinham crescido até aos céus; ainda assim, eles mal haviam se entregado a Cristo, Deus diz: “a sua iniquidade está expiada”. E, observem, primeiramente, este é um perdão presente. Ele não diz, a sua iniquidade será expiada, mas, “a sua iniquidade está expiada”. Malmente uma alma culpada, oprimida apega-se a Cristo, esta doce palavra é ouvida nos céus: “A sua iniquidade está expiada”. “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” [Romanos 8:1]. Oh! O perdão que é oferecido no Evangelho não é futuro ou incerto; mas um perdão presente e seguro; perdão agora, neste instante, a todos os que creem em Jesus. Vocês são tão completamente perdoados no momento em que creem como sempre serão. Oh! Apressai-vos, e recebam o perdão de Cristo. Oh! que vocês conheçam o dia de Sua visitação. Observem, em segundo lugar, é um perdão santo. Sua iniquidade está expiada; pois, Outro morreu pelos seus pecados. Oh! é uma maneira terrível de perdoar. “Mas contigo está o perdão, para que sejas temido” [Salmos 130:4] Este é um perdão para fazer vocês tremerem, e odiarem o pecado com um ódio perfeito. Oh! vocês podem amar aquilo que O pregou no madeiro, que inclinou a Sua bendita cabeça? Vocês se submeterão ao pecado de novo, e, assim, colocarão a lança novamente no lado de Jesus? Alguns dizem: eu sou muito vil. Ah! vocês são mais vis do que Jerusalém? Quando vocês tomam um seixo, e o lançam no mar, ele afunda, e é totalmente coberto; assim são os pecados daqueles que se refugiam em Cristo: “Tu lançarás todos os seus pecados nas profundezas do mar” [Miquéias 7:19].

 

2. A guerra deles é concluída. (1) Com a Lei. Uma alma desperta tem uma guerra terrível contra a Lei de Deus. A Lei de Deus é revelada à sua consciência, armada com uma espada flamejante, reluzente. Ela exige a obediência de seu coração e vida. O pecador tenta obedecê-la, ele tenta trazer a sua vida aos seus requisitos, mas em vão. A Lei levanta sua espiada para matá-lo; ela lança suas maldições contra ele. Esta é uma guerra terrível em cada consciência despertada; mas quando o pecador corre para Jesus Cristo, a sua guerra é consumada. “Torre forte é o nome do Senhor; a ela correrá o justo, e estará em alto refúgio”. [Provérbios 18:10]. Em Cristo Jesus, as exigências da Lei são satisfeitas; pois Ele esteve sob a Lei. Suas maldições são suportadas, pois Ele foi feito maldição por nós. A espada reluzente perfurou o lado de Jesus. Oh! vocês conhecem o que é ter esta guerra concluída? (2) Com o Diabo. Não temos que lutar contra a carne e o sangue. Uma alma desperta tem muitas vezes uma guerra terrível contra Satanás. Satanás luta contra ele de duas maneiras: primeiro, ao agitar suas corrupções, e fazendo seus desejos arderem e queimarem dentro dele de uma forma temerosa. Segundo, ao acusá-lo. Satanás é o acusador dos irmãos. Ele os acusa em suas consciências, a fim de levá-los para longe de Cristo, para levá-los ao desespero, e desistirem de toda esperança de salvação. Ele lhes diz: “Tu és um desgraçado vil, inapto para o santo Salvador, veja que paixões furiosas há no teu coração, tu nunca serás salvo”. Ah! quando o pobre pecador corre para Cristo, ele encontra descanso ali; sua guerra é então concluída. Ele vê todas as acusações de Satanás respondidas no sangue do Cordeiro. (3) Com o pecado. A alma desperta tem uma guerra terrível contra as suas corrupções. Seu coração parece cheio de paixões furiosas, todas rasgando-o em pedaços. Ele é impulsionado para cá e para lá; mas quando ele vem a Cristo esta guerra é consumada. De fato, em certo sentido, a batalha ainda não acabou, mas apenas começou; porém agora a vitória é certa. Deus é agora por ele. Maior é Aquele que é por ele do que tudo o que possa ser contra ele. “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” [Romanos 8:31]. O Espírito de Deus está agora dentro dele; Ele permanecerá com ele para sempre. O Espírito agora reina nele. Agora, Cristo luta por ele, cobre sua cabeça no dia da batalha, Ele o carrega em Seu ombro. Ele é tão seguro de vencer, como se já estivesse na glória. Ele diz-lhe: “Não temas, tu verme de Jacó, povozinho de Israel […] Não temas, porque eu te remi; chamei-te pelo teu nome, tu és meu. Não te deixarei, nem te desampararei”. Essa expressão, nunca te deixarei, abrange completamente as mais sombrias horas da tentação, as águas mais profundas da aflição e as mais quentes fogueiras da perseguição; alcança até a morte, através da morte e da sepultura, adentra a eternidade.

 

 

III. Os crentes devem obter consolo de sua condição.

 

1. Deus ordena isso. Alguns dizem que é uma coisa perigosa ser feliz. Eles têm medo de muita alegria. Eles dizem que é melhor estar em exercícios de profundidade, melhor ter caminhos profundos; não é bom ser de um espírito muito alegre. O que diz a Palavra de Deus? “Consolai, consolai”. Se a sua alegria flui da cruz de Cristo, você não terá alegria demasiada: “Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos” [Filipenses 4:4]. Quando Cristo verdadeiramente nasce na alma, ela deve ser como uma manhã sem nuvens. Se é verdade que Cristo veio ao mundo para buscar e salvar o que estava perdido; se vocês veem a Sua franqueza e preciosidade, eu pergunto, como vocês podem fazer o contrário de regozijarem-se e de serem consolados? “Ao qual, não o havendo visto, amais; no qual, não o vendo agora, mas crendo, vos alegrais com gozo inefável e glorioso” [1 Pedro 1:8]. Que o Deus da esperança vos encha até a borda com alegria e paz em vosso crer!

 

2. Examine de onde o seu conforto flui. Todo verdadeiro consolo do Evangelho flui da cruz de Cristo, a partir do Homem de Dores. O consolo dos hipócritas flui de si mesmos. Eles olham para si mesmos por consolo; eles olham para a mudança em sua vida, eles veem algumas melhorias ali, e descansam naquilo; ou, se olham mais profundamente para a sua preocupação, seu lamento sobre o pecado, suas convicções, seus esforços por Cristo; ou, eles olham para as suas devoções, seu deleite em oração, seu fluxo de afeição e palavras; ou para os textos da Bíblia adentrando em suas mentes; ou, eles olham para o que os seus amigos ou ministros pensam deles, e eles tomam conforto disto. Todos estes são refúgios de mentiras, falsos cristos, que deve ser lançados fora, ou eles arruinarão a sua alma. O sangue e justiça de Cristo, e não qualquer obra em seu próprio coração, deve ser a sua justificação diante de um Deus santo. O verdadeiro consolo do Evangelho vem de uma visão de Cristo recebendo duplamente por todos os nossos pecados. “Eis o Cordeiro de Deus!”. O consolo do Evangelho é uma corrente que flui direto do Calvário.

 

 

3. Vejam quão falso é o conforto das almas que negligenciam a Cristo. Esta doce palavra de consolo é apenas para aqueles que estão sob as asas de Cristo. Somente este pequeno rebanho tem descanso para as suas almas. Entretanto a maioria negligencia esta grande salvação. Vocês não sentem a sua necessidade de um Salvador expiatório, vocês pensam que podem justificar-se diante de Deus; vocês não sentem a sua necessidade de um Santificador onipotente. Cristo é doce aos seus olhos? Vocês não se refugiaram em Cristo. Ah! meu amigo, ai de ti. Tua luta não está concluída. A Lei, com suas maldições e sua espada flamejante, está em seu caminho. Satanás também o acusa, e você não tem nada para lhe responder. O pecado se enfurece em você, e você não tem poder contra ele. Sua iniquidade não está perdoada, e nenhum pecado está apagado. Tudo está nu e patente aos olhos dAquele com quem você tem que lidar. Seu consolo é todo uma mentira, sua paz é a paz de Satanás, é o sono que termina em perdição. Você ainda carregará os seus próprios pecados. Quando o grande dia de Sua ira vier, você não será capaz de permanecer de pé. “Porventura estará firme o teu coração? Porventura estarão fortes as tuas mãos, nos dias em que eu tratarei contigo?” [Ezequiel 22:14] Oh! senhores, vocês pensam que é uma coisa pequena estar sem Cristo neste dia; vocês podem falar dele com o ânimo leve, zombar e gracejar sobre o assunto; além disso, vocês podem dormir tranquilamente; mas há um dia vindouro, quando o seu clamor amargo será ouvido em todas as cavernas do inferno: “Ai de mim! Estou sem Cristo, estou sem Cristo!” Amém.
 

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