Cristo, Sua Ressurreição e a Nossa Regeneração, por A. W. Pink

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[Capítulo 6 do livro A Guide to Fervent Prayer • Editado]

 

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós, que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo.” (1 Pedro 1:3-5)
 

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos”. Vamos começar este capítulo, continuando nossa consideração do reconhecimento desta oração. Devemos lembrar que esta epístola é dirigida àqueles que são estrangeiros, dispersos (v. 1). Mui apropriada então é esta referência à geração Divina dos eleitos de Deus, pois é pela geração graciosa do Espírito Santo que os eleitos são constituídos estrangeiros ou peregrinos (ou seja, residentes temporários deste mundo), tanto no coração quanto na conduta. O Senhor Jesus era um estranho aqui (Salmos 69:8), pois Ele era o Filho do Deus do céu; e assim também é o Seu povo, pois eles têm o Seu Espírito dentro deles. Como esse entendimento reforça este milagre da graça! A geração Divina não é apenas uma doutrina, mas a comunicação real para a alma da própria vida de Deus (João 1:13). Anteriormente, o Cristão esteve dentro e [era] do mundo, mas agora a sua “cidade [cidadania, Versão Americana Padrão – King James] está nos céus” (Filipenses 3:20). “Eu sou um peregrino na terra” (Salmos 119:19) é doravante a sua confissão. Para a alma renovada por Deus, este mundo se torna um deserto estéril. Pois sua herança, a sua casa, está no alto e, portanto, ele agora vê as coisas as coisas temporais e naturais sob uma luz muito diferente.

 

Os Grandes Interesses da Alma Regenerada São Alheios a Este Mundo

 

Os principais interesses de uma alma verdadeiramente nascida de novo não residem nesta esfera mundana. Suas afeições estarão estabelecidas nas coisas de acima; e na proporção em que elas são assim, seu coração é separado deste mundo. Sua estranheza é uma marca essencial que distingue os santos dos ímpios. Aqueles que cordialmente abraçam as promessas de Deus são devidamente afetados por elas (Hebreus 11:13). Um dos efeitos seguros da graça Divina na alma é separar o seu possuidor, tanto no espírito e na prática, do mundo. Seu prazer em coisas celestiais se manifesta em seu ser desapegado das coisas terrenais, assim como a mulher no poço deixou o balde para trás, quando ela obteve de Cristo, a água viva (João 4:28). Tal espírito o constitui um estrangeiro entre os adoradores de Mamom. Ele é moralmente um estrangeiro em uma terra estranha, cercado por aqueles que não o conhecem (1 João 3:1), porque não conhecem seu Pai. Eles também não entendem as suas alegrias ou tristezas, não valorizam os princípios e motivos que o mobilizam; pois as atividades e prazeres deles são radicalmente diferentes das suas. Não, ele se vê no meio de inimigos que o odeiam (João 15:19), e não há ninguém com quem ele tenha comunhão salvo com os poucos que “obtiveram fé igualmente preciosa” (2 Pedro 1:1).

 

Entretanto, apesar de não haver nada neste deserto mundano para o Cristão, ele tem sido “gerado de novo para uma viva esperança”. Anteriormente ele via a morte com horror, mas agora ele percebe que ela fornecerá uma bendita libertação de todo pecado e tristeza e abrirá a porta para o Paraíso. O princípio da graça recebido no novo nascimento não apenas inclina seu possuidor a amar a Deus e agir com fé em Sua Palavra, mas também o conduz a: “não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem” (2 Coríntios 4:18), inclinando suas aspirações para longe do presente em direção ao seu futuro glorioso. Thomas Manton apropriadamente declara: “A nova natureza foi feita para um outro mundo: ela veio de lá, e isso conduz a alma para lá”. A esperança é uma expectativa certa de bom futuro. Enquanto a fé está em exercício, uma visão de felicidade sem nuvens é estabelecida diante do coração, e a esperança entra no gozo da mesma. Há uma viva esperança exercida dentro de um ambiente moribundo, e ela tanto apoia quanto revigora a todos nós que cremos. Enquanto em atividade saudável, a esperança não somente nos sustenta em meio às provações desta vida, mas também nos eleva acima delas. Oh, que os corações fossem mais engajados nas antecipações alegres do futuro! Pois tais corações esperançosos nos vivificam ao dever e nos estimulam à perseverança. Em proporção ao entendimento e força da nossa esperança, nós seremos libertos do medo da morte.

 

A União com Cristo em Sua Ressurreição é a Causa da Nossa Regeneração

 

Agora, mais uma palavra deve ser dita sobre a relação que a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos lança o fundamento para a nossa geração, pelo Pai, para esta viva esperança. A obra de Cristo, horando a Deus e a triunfante saída do túmulo foram a base legal não somente da justificação de Seu povo, mas também da regeneração deles. Misticamente, em virtude de sua união com Cristo na mente e no propósito de Deus, eles foram libertos de sua morte, nas mãos da Lei, quando o Fiador ressuscitou dos mortos. “Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele…” (Efésios 2:4-6). Essas palavras se referem à união corporativa da Igreja com sua Cabeça e sua participação judicial em Sua vitória, e não a uma experiência individual. No entanto, uma vez que todos os eleitos ressuscitaram federalmente quando o seu representante ressuscitou, eles devem, no devido tempo, ser regenerados; uma vez que eles foram vivificados legalmente, eles devem, no devido tempo, ser vivificados espiritualmente. Se Cristo não tivesse ressuscitado, ninguém teria sido vivificado (1 Coríntios 15:17); mas porque Ele vive, eles também viverão.

 

Jesus vive, e assim eu viverei.
Morte! teu aguilhão se foi para sempre!
Ele que Se dignou morrer por mim,
Vive, para romper as cadeias da morte.
Ele [ressuscitou-me] do pó:
Jesus é a minha Esperança e Confiança.

 

A Vida que Está na Cabeça Deve Ser Comunicada aos Membros do Seu Corpo

 

A ressurreição de Cristo é a causa eficaz da nossa regeneração. O Espírito Santo não teria sido dado a menos que Cristo houvesse conquistado o último inimigo (1 Coríntios 15:26). E ido para o Pai: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós… Para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé nós recebamos a promessa do Espírito” (Gálatas 3:13-14). As questões da regeneração estão tão verdadeiramente relacionadas com a ressurreição de Cristo, quanto as da nossa justificação, a qual é o resultado daquela fé salvadora em Cristo que só pode emanar a partir de um coração renovado pelo Espírito Santo. Ele obteve para o Seu povo o bendito Espírito para criá-los para a graça e glória. “Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo, que abundantemente ele derramou sobre nós por Jesus Cristo nosso Salvador” (Tito 3:5-6). Deus, o Pai derramou o Espírito Santo sobre nós em poder regenerador por causa dos méritos da vida, morte e ressurreição de Cristo, e em resposta à Sua mediação em nosso nome. O Espírito Santo está aqui para testemunhar de Cristo aos eleitos de Deus, para operar a fé neles em direção a Ele, a fim de que eles “abundem em esperança” (Romanos 15:12-13). Nossa libertação espiritual da sepultura da culpa, poder e contaminação do pecado é tanto devido à eficácia do triunfo de Cristo sobre a morte, quanto será a nossa vivificação física no Seu retorno. Ele é “o primogênito entre muitos irmãos” (Romanos 8:29), sendo a própria vida de Cristo transmitida a eles quando são novamente gerados.

 

O Poder que Ressuscitou Cristo Fisicamente, Ressuscita Pecadores Espiritualmente

A ressurreição de Cristo é também o protótipo dinâmico de nossa regeneração. O mesmo poder operado ao ressuscitar o corpo de Cristo é empregado no resgate de nossas almas da morte espiritual (Efésios 1:19-20; 2:1). O Senhor Jesus é designado “o primogênito dentre os mortos” (Apocalipse 1:5) porque Sua emersão da sepultura não foi apenas o penhor, mas a semelhança, tanto da regeneração dos espíritos de Seu povo quanto da criação de seus corpos no último dia. A semelhança é óbvia. A geração é o começo de uma nova vida. Quando Cristo nasceu neste mundo isso foi “em semelhança da carne do pecado” (Romanos 8:3). Embora intocado pela mancha do pecado original (Lucas 1:35) e sem mácula pela contaminação das transgressões reais, Ele estava vestido de enfermidade por causa da iniquidade imputada. Mas quando Ele se ergueu do túmulo de José, em poder e glória, isso foi em um corpo apropriado para o céu. Da mesma forma, na regeneração, recebemos uma natureza que nos faz adequados ao céu. Como Deus ressuscitando a Cristo, testemunhou o Seu ser pacificado pelo sacrifício dEle (Hebreus 13:20), assim, gerando-nos outra vez Ele nos garante nosso interesse pessoal nisso. Como a ressurreição de Cristo foi a grande prova de Sua filiação Divina (Romanos 1:4), assim, o novo nascimento é a primeira manifestação aberta de nossa adoção. Como a ressurreição de Cristo foi o primeiro passo para a Sua glória e exaltação, assim, a regeneração é a primeira etapa de nossa entrada em todos os privilégios espirituais.

 

A Glorificação é o Objetivo da Regeneração

 

Nossa sétima consideração na análise desta doxologia é a sua substância: “Para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós” (v. 4). A regeneração tem como objetivo a glorificação. Nós somos gerados espiritualmente para duas realidades: uma viva esperança no presente, e uma gloriosa herança no futuro. É pela geração de Deus que nós obtemos nosso título à glorificação. O direto a heranças vem por meio do nascimento: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus” (João 3:5). Se não [somos] filhos, então não podemos ser herdeiros; e temos que ser nascidos de Deus, a fim de nos tornarmos filhos de Deus. Mas “se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e coerdeiros de Cristo” (Romanos 8:17). A geração não apenas confere o título, mas também garante a herança. O Cristão já recebeu o Espírito, “o qual é o penhor da nossa herança” (Efésios 1:14). Como a parte de Cristo era adquirir a herança, assim a parte do Espírito é torná-la conhecida para os herdeiros; pois, “as coisas que Deus preparou para os que o amam” Ele “no-las revelou pelo seu Espírito” (1 Coríntios 2:9-10). É a esfera de ação do Espírito Santo a concessão de doces antecipações aos regenerados do que está guardado para eles, traz algo da alegria celestial para o interior de suas almas na terra.

 

O Novo Nascimento Nos Adequa Imediatamente Para o Céu

 

A geração Divina não somente concede o título e garante a herança celestial, mas também concede uma adequação à mesma. No novo nascimento uma natureza que é adequada para a esfera celestial é concedida, o que qualifica a alma para habitar para sempre com o Deus três vezes santo (como é evidente, a sua comunhão com Ele presente); e, ao fim de sua peregrinação terrena, o pecado que habita interiormente (que agora dificulta a sua comunhão) morre com o corpo. Tudo é muito pouco percebido pelos santos na regeneração, a saber, que eles são imediatamente capacitados para o céu. Muitos deles, para a grave diminuição de sua paz e alegria, supõem que eles ainda devem passar por um processo de disciplina severa e refino antes que eles estejam prontos para entrar nas cortes acima. Isso é apenas mais uma relíquia do Romanismo. O caso do ladrão moribundo, que foi levado imediatamente a partir de seu nascimento espiritual ao Paraíso, deve ensiná-los melhor. Mas isso não ensina. Assim, permanece a tendência legalista do coração, mesmo de um Cristão, de forma que é muito difícil convencê-lo de que na mesma hora que ele nasceu de novo, ele foi habilitado para o céu, como ele sempre seria caso permanecesse na terra mais um século. Como é difícil para nós acreditarmos que nenhum crescimento na graça ou passar por tribulações ardentes é essencial para preparar as nossas almas para a casa do Pai.

 

Em nenhum lugar as Escrituras dizem que os crentes vão sendo preparados, ou gradualmente capacitados para o céu. O Espírito Santo declara expressamente que Deus Pai “segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo… para uma herança”. O que poderia ser mais claro? Nosso texto, por qualquer meio, sustenta-se sozinho. Os Cristãos já foram feitos “participantes da natureza divina” (2 Pedro 1:4), e o que mais pode ser necessário para prepará-los para a presença Divina? A Escritura declara enfaticamente: “Assim que já não és mais servo [escravo], mas filho; e, se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo” (Gálatas 4:7). A herança é um direito inato ou patrimônio do filho. Falar de herdeiros não sendo elegíveis para uma herança é uma contradição de termos. A nossa aptidão para a herança se baseia somente em sermos filhos de Deus. Assim como é verdade que se alguém não nascer de novo não pode entrar ou ver o reino de Deus, assim, por outro lado, segue-se, necessariamente, que uma vez que ele nasceu de novo ele está qualificado para uma entrada e gozo do reino de Deus. Todo espaço para discussão sobre esse ponto é excluído por estas palavras, que expressam um aspecto das orações de Paulo de agradecimento em nome do Colossenses: “Dando graças ao Pai que nos fez [tempo passado] idôneos para participar da herança dos santos na luz” (Colossenses 1:12).

 

Pela Regeneração Nós somos Casados com Cristo

 

Pela regeneração somos feitos vitalmente um com Cristo e, assim, nos tornamos coerdeiros com Ele. A porção da Noiva é a sua participação na porção do Noivo. “E eu dei-lhes a glória que a mim me deste” (João 17:22), diz o Redentor dos Seus remidos. Isto, também, precisa ser enfatizado hoje, quando tanto erro ostenta-se como a verdade. Em suas tentativas fantasiosas de “manejar bem a Palavra”, os homens erroneamente dividiram a família de Deus. Alguns dispensacionalistas sustentam que não somente existe uma distinção de privilégios terrenos, mas que as mesmas distinções serão perpetuadas no mundo vindouro; que os crentes do Novo Testamento olharão para baixo a partir de uma posição superior, a Abraão, Isaque e Jacó; que os santos que viveram e morreram antes de Pentecostes não participarão da glória da Igreja ou entrarão na herança “guardada no céu para vós”. Afirmar que os santos desta era Cristã ocuparão uma posição mais elevada e desfrutarão de privilégios grandiosos, do que irão os de épocas anteriores é um erro grave e imperdoável, pois entra em conflito com os ensinamentos mais fundamentais da Escritura sobre o propósito do Pai, a redenção de Cristo, e a obra do Espírito, e repudia as características essenciais da grande salvação de Deus. Escrevendo às igrejas da Galácia, em grande parte composta de gentios, o apóstolo Paulo declara: “Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão” (Gálatas 3:7). Este texto por si só é suficiente para provar que o caminho da salvação de Deus nunca mudou essencialmente.

 

Todos os eleitos de Deus são os compartilhadores comuns das riquezas de Sua graça maravilhosa, vasos que Ele “de antemão preparou para a glória” (Romanos 9:23), a quem Ele predestinou para serem “conformes à imagem de seu Filho” (Romanos 8:29). Cristo agiu como o Fiador de toda a eleição da graça, e o que Sua obra meritória garantiu para um deles, necessariamente garantiu para todos. Os santos de todas as épocas são coerdeiros. Cada um deles foi predestinado pelo mesmo Pai (João 6:37; 10:16, 27-30; 17:2, 9-12, 20-24); cada um deles foi regenerado pelo mesmo Espírito (Efésios 4:4), cada um deles olhou para e confiou no mesmo Salvador. A Escritura não conhece a salvação que não concerne aos coerdeiros com Cristo. Aqueles a quem Deus dá o Seu Filho, ou seja, toda companhia de Seus escolhidos desde Abel até o fim da história da Terra, Ele também dá livremente todas as coisas (Romanos 8:32). Que tanto Abraão e Davi foram justificados pela fé é evidente a partir de Romanos 4, e não há destino mais elevado ou perspectiva mais gloriosa do que a perspectiva do que aquela à qual a justificação concede título pleno. A obra regeneradora do Espírito Santo é idêntica em todos os membros da família de Deus: gerando-os, qualificando-os para uma herança celestial. Todos aqueles que foram eficaz­mente chamados por Ele durante a era do Antigo Testamento receberam “a promessa da herança eterna” (Hebreus 9:15). Filhos nascidos do céu devem ter uma porção celestial.

 

A Natureza de Nossa Herança Eterna

 

“Para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós”. A porção celestial reservada para o povo de Deus é aquela que está de acordo com a nova vida recebida na regeneração, pois é um estado de perfeita santidade e felicidade adequado para seres espirituais que possuem corpos materiais. Muitas e variadas são as descrições dadas na Escritura sobre a natureza de nossa herança. Em nosso texto (v. 5), é descrito como “a salvação, já prestes para se revelar no último tempo” (cf. Hebreus 9:28), isto é, a salvação em sua plenitude e perfeição que deve ser concedida ao redimido no retorno glorioso de Cristo. Nosso Senhor Jesus a descreve como “casa de meu Pai”, em que “há muitas moradas”, a qual o próprio Cristo prepara agora para o Seu povo (João 14:1-2). O apóstolo Paulo se refere a isso como “a herança dos santos na luz” (Colossenses 1:12). E aos futuros habitantes daquele reino glorioso como “filhos da luz” (1 Tessalonicenses 5:5). Sem dúvida, essas expressões apontam para a perfeição moral dEle à luz resplandecente em cuja presença (Isaías 33:13; 1 Timóteo 6:13-16; Hebreus 12:29, 1 João 1:5) todos os santos habitarão um dia. Além disso, elas ressaltam a pureza imaculada que caracterizará cada um daqueles que devem “habitar na casa do Senhor para sempre” (Salmos 23:6; cf. Daniel 12:3; Apocalipse 21:27). Paulo descreve-a além, como “a cidade que tem fundamentos, da qual o artífice e construtor é Deus” (Hebreus 11:10), na qual os olhos esperançosos do crente de Abraão estavam fixados. Ele também a chama de “um reino que não pode ser abalado” ou “estremecido” (Hebreus 12:26-28; cf. Apocalipse 21:10-27).

 

O apóstolo Pedro refere-se aos Cristãos como aqueles a quem Deus “em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória” (1 Pedro 5:10). Em outro lugar, ele chama a nossa herança “reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2 Pedro 1:11). O Senhor Jesus orou: “Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste” (João 17:24). O Cristo glorificado, em Sua revelação ao apóstolo João, descreve a herança dos santos como “paraíso de Deus” (Apocalipse 2:7), a partir do qual pode-se inferir que o Éden era apenas uma sombra. Olhando adiante para este paraíso, Davi declara: “Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há fartura de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente” (Salmos 16:11).

 

O Significado do Termo Herança

 

Em seu comentário sobre 1 Pedro, John Brown faz as seguintes e pertinentes observações sobre a importância do uso do termo herança:

 

A bem-aventurança celestial recebe aqui, e em muitas outras passagens da Escritura, a denominação de “herança”, por duas razões: para assinalar a sua natureza gratuita, e para enfatizar a sua posse segura.

Uma herança é algo que não é obtido pelos próprios esforços do indivíduo, antes é o dom gratuito ou legado de outro. A herança terrena do povo visível de Deus não foi dada a eles, porque eles eram mais ou melhores do que as outras nações da terra. Foi por que: “Tão-somente o Senhor se agradou de teus pais para os amar” (Deuteronômio 10:15). “Pois não conquistaram a terra pela sua espada, nem o seu braço os salvou, mas a tua destra e o teu braço, e a luz da tua face, porquanto te agradaste deles” (Salmos 44:3). E a herança celestial do espiritual povo de Deus é totalmente o dom da bondade soberana. “Porque pela graça sois salvos” (Efésios 2:5); “o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 6:23).

A segunda ideia sugerida pela expressão figurativa, “a herança”, quando usada em referência à bem-aventurança celestial, é a segurança da posse pelo que ela é realizada. Nenhum direito é mais inalienável do que o direito de herança. Se o direito do doador ou testador estiver correto, tudo está seguro. A felicidade celestial, deve ser vista como o dom do Divino Pai, ou como o legado do Divino Filho, pois é “firme a toda a posteridade” [Romanos 4:16]. Se o título do requerente for apenas tão válido quanto o direito do titular original, sua posse deve ser tão segura como o trono de Deus e de Seu Filho.

 

A Excelência da Nossa Herança

 

A excelência desta herança ou eterna porção dos redimidos é descrita por quatro expressões. Primeiro, é incorruptível, e portanto é como o seu autor “o Deus incorruptível” (Romanos 1:23). Toda corrupção é uma mudança de melhor para pior, mas o céu é sem mudança ou fim. Daí, a palavra incorruptível tem a força de resistente, imperecível. Nem isso corromperá os seus herdeiros, como muitas heranças mundanas têm feito. Em segundo lugar, é incontaminável, e, assim como o seu Comprador, que passou por este mundo depravado tão incontaminado como um raio de sol é imaculado embora brilhe sobre um objeto imundo (Hebreus 7:26). Toda contaminação se dá pelo pecado, mas nenhuma partícula da corrupção jamais pode entrar no céu. Daí, incontaminável tem a força de beneficente, incapaz de danificar seus possuidores. Em terceiro lugar, não se pode murchar, e, portanto, é como Aquele que nos conduz até lá, “pelo Espírito eterno” (Hebreus 9:14), o Espírito Santo, “o rio puro da água da vida” (Apocalipse 22:1). A palavra incontaminável nos fala deste Rio de perene e perpétuo refrigério; seu esplendor nunca será prejudicado, nem a sua beleza diminuída. Em quarto lugar, a frase guardada nos céus fala da localização e segurança da nossa herança (veja Colossenses 1:5; 2 Timóteo 4:18).

 

Ao considerarmos as quatro expressões descritivas no versículo 4, várias características da nossa herança são exibidas. Para começar, a nossa herança é indestrutível. Sua substância é totalmente contrária a dos reinos terrenos, cuja grandeza se desgasta. Os impérios mais poderosos da Terra, eventualmente se dissipam em razão da corrupção inerente. Considere a pureza da nossa porção. Nenhuma serpente jamais entrará neste paraíso para o profanar. Contemple a sua beleza imutável. Nem ferrugem deve manchá-la nem a traça estragá-la, nem a eternidade produzirá uma ruga no rosto de qualquer um dos seus habitantes. Pondere a sua segurança: É guardada por Cristo para os Seus remidos; nenhum ladrão jamais a invadirá.

 

Parece-me que estas quatro expressões são designadas para levar-nos a fazer uma série de contrastes com a herança gloriosa que nos espera. Primeiro, considere a herança de Adão. Quão breve o Éden foi corrompido! Em segundo lugar, pense sobre a herança que “o Altíssimo distribuía… às nações” (Deuteronômio 32:8) e como elas a contaminaram com a ganância e o derramamento de sangue. Em terceiro lugar, contemplem a herança de Israel. Como, infelizmente, a terra que mana leite e mel murchou sob as secas e fomes que o Senhor enviou, a fim de castigar a nação por seus pecados. Em quarto lugar, reflitamos sobre a habitação gloriosa que foi perdida pelos anjos caídos, que “não guardaram o seu principado” (Judas 6). Estes, miseráveis espíritos ignorantes não têm nenhum gracioso Sumo Sacerdote para interceder por eles, antes estão reservados “na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia”. Conhecêssemos a nossa própria corrupção remanescente, bem poderíamos tremer e pedir com piedosa autodesconfiança (veja Mateus 26:20-22): “O que nos impedirá de tal desgraça?”.

 

A Garantia de que Nós Receberemos a Nossa Herança

 

Chegamos, finalmente, a refletir sobre a garantia infalível desta doxologia, que graciosamente responde à pergunta dos santos trêmulos, exatamente considerando: “Que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo” (1 Pedro 5:1). Aqui está o tônico para o Cristão enfraquecido! Não apenas a herança inestimavelmente gloriosa e preciosa é segura, “reservada no céu” para nós, mas nós também estamos seguros, “guardados na virtude de Deus”. Aqui a doutrina do Apóstolo Pedro coincide perfeitamente com o do Senhor Jesus e dos outros apóstolos. Nosso Senhor ensinou que aqueles nascidos ou gerados de Deus creem no Seu Filho (João 1:11-13; 3:3-5), e que aqueles que creem têm a vida eterna (João 3:15-16). “Aquele que crê no Filho tem [possui presente e continuamente] a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece” (João 3:36). Ele ainda ensinou que aqueles que não creem, não acreditam porque eles não são Suas ovelhas (João 10:26). Mas, depois, Ele continua:

 

“As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai. Eu e o Pai somos um” (João 10:27-30).

 

O Apóstolo Paulo Declara Também o Fato de que Nenhum dos Irmãos de Cristo Jamais Perecerá

“Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? […] Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor” (Romanos 8:35, 37-39).

 

No entanto, a questão a ser respondida permanece: “Qual é o principal meio que o poder de Deus exerce em preservar-nos, a fim de que possamos entrar e desfrutar de nossa herança?”.

 

A Fé é o Meio de Nossa Preservação

 

“Que mediante a fé estais guardados”. As reflexões de John Brown sobre este ponto são de grande valor:

 

Eles são “guardados”, preservados seguros, em meio a muitos perigos a que estão expostos, “na virtude de Deus”. A expressão “virtude de Deus”, aqui pode referir-se ao poder Divino tanto como exercido em referência aos inimigos do Cristão, controlando os seus propósitos malignos e, como exercido na forma de influência espiritual na mente do próprio Cristão, guardando-os na fé da verdade, “no amor de Deus e na paciência de [nosso Senhor Jesus] Cristo” [2 Tessalonicenses 3:5; cf. 2 Timóteo 1:13-14]. É, provavelmente, a última a que o apóstolo alude principalmente, pois ele acrescenta: “mediante a fé”. É através da perseverante fé na verdade que o Cristão é, por influência Divina, preservado de cair, e mantém a posse tanto daquele estado e caráter que são absolutamente necessários para o gozo da herança celestial.

 

A perseverança, assim assegurada ao verdadeiro Cristão é a perseverança na fé e santidade; e nada pode ser mais grosseiramente absurdo do que uma pessoa que vive na incredulidade e no pecado, supor que ela esteja no caminho para a obtenção da bem-aventurança celestial.

 

Embora Deus Nos Guarde, Nós Devemos Crer

 

Pelo poder onipotente do Deus Triuno, nós somos guardados “para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo”. Mas o mesmo Espírito gracioso que nos guarda também inspirou Judas a escrever, “Conservai-vos a vós mesmos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna” (Judas 21). Por meio dEle, o apóstolo Paulo também escreveu: “Revesti-vos de toda a armadura de Deus…Tomando sobretudo o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno” (Efésios 6:11, 16). Portanto deveríamos frequentemente clamar ao Senhor com os apóstolos: “Acrescenta-nos a fé” (Lucas 17:5). Se o nosso clamor é genuíno, então podemos estar certos de que Jesus, que é “o autor e consumador da nossa fé” (Hebreus 12:2) ouvirá e responderá em uma forma mui adequada para a nossa necessidade, embora, talvez, por meio da adversidade.

 

A referência do apóstolo à herança celestial dos crentes foi adequadíssima. Ele estava escrevendo para aqueles que estavam, tanto natural como espiritualmente, longe de sua terra natal, os estrangeiros em um país estranho. Muitos deles eram judeus convertidos, e como tais, ferozmente confrontados e cruelmente tratados. Quando um Judeu se tornava um Cristão, ele perdia muito: ele foi excomungado da sinagoga, tornando-se um pária em meio ao seu próprio povo. No entanto, havia uma rica compensação para ele. Ele fora Divinamente gerado para uma herança infinitamente superior, tanto em qualidade e duração, do que a terra da Palestina. Assim, os seus ganhos muito mais do que compensavam as suas perdas (veja Mateus 19:23-29, especialmente v. 29). O Espírito Santo, então, desde o início da Epístola, atraiu os corações daqueles santos sofredores a Deus, por estabelecer perante eles a Sua grande misericórdia e abundantes riquezas da Sua graça. Quanto mais eles estivessem ocupados com as mesmas, mais as suas mentes seriam levantadas acima deste cenário, e seus corações seriam cheios de louvor a Deus. Enquanto poucos de nós estão vivenciando qualquer tipo de tribulações semelhantes às deles, ainda assim, a nossa porção está lançada em dias de trevas, e cabe-nos olhar além das coisas que são vistas e fixar mais a nossa atenção sobre a futura bem-aventurança que nos espera; posto que Deus designou a forma pela qual devemos glorificá-lO em adoração sincera, e apegar-nos às suas promessas por meio da “obediência da fé” (Romanos 16:26) até o fim!
 

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