Igrejas de Deus

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[Estudos nas Escrituras (Studies in the Scriptures), Dezembro 1927, pp 277-281]

 

“Porque vós, irmãos, tornaram-se seguidores das igrejas de Deus que na Judéia estão em Cristo Jesus, porquanto também padecestes de vossos próprios concidadãos o mesmo que eles têm dos judeus.” (1 Tessalonicenses 2:14)

A ignorância que prevalece no Cristianismo hoje acerca da verdade sobre as Igrejas de Deus é o mais profundo e mais geral erro sobre qualquer outro assunto bíblico. Muitos dos que são bastante coerentes evangelicamente e são bem ensinados sobre o que chamamos de os grandes fundamentos da fé, são bastante errôneos eclesiasticamente. Observe a terrível confusão que abunda a respeito do termo em si. Existem poucas palavras no idioma Português com uma maior variedade de significados do que “igreja”. O homem na rua entende por “igreja” o edifício em que as pessoas se reúnem para o culto público. Aqueles que conhecem melhor, aplicam o termo para os membros em comunhão espiritual que se reúnem naquele edifício. Outros usam este termo de uma forma confessional e falam da “Igreja Metodista” ou “Igreja Presbiteriana”. Também é empregada a nível nacional da instituição estatal-religiosa como “a Igreja da Inglaterra” ou “a Igreja da Escócia”. Para os papistas a palavra “igreja” é praticamente sinônimo de “salvação”, pois eles são ensinados que todos os que estão fora da “Santa Madre Igreja” estão eternamente perdidos.

Muitos daqueles que pertencem ao próprio povo do Senhor parecem ser estranhamente indiferentes sobre a mente de Deus no que concerne a este assunto. Alguém de cujos ensinamentos sobre a igreja nós diferimos muito, tem dito bem: “Triste é ouvir os homens dedicados no Evangelho, claros expositores da Palavra de Deus, que nos dizem que eles não se preocupam sobre a doutrina da Igreja; que a salvação é o tema de suma importância; e o estabelecimento de Cristãos nos fundamentos é tudo o que é necessário. Vemos homens dando capítulo e versículo para cada declaração, e permanecendo sobre a autoridade infalível da Palavra de Deus, silenciosamente fechando os olhos para os seus ensinamentos sobre a Igreja, provavelmente relacionado com aquilo a que eles não podem reivindicar nenhuma autoridade provinda das Escrituras, e, aparentemente se satisfazem em levar outros para a mesma relação”.

O que constitui uma igreja do Novo Testamento? Que as multidões de Cristãos professos tratam esta questão como algo de menor importância, está bem claro. Suas ações mostram isso. Eles empregam pouca ou nenhuma diligência em descobrir isto. Alguns se contentam em ficar de fora de qualquer igreja terrena. Outros se unem a alguma igreja por considerações sentimentais, porque seus pais ou cônjuge pertenciam a ela. Outros se unem a uma igreja por motivos mais baixos ainda, como considerações comerciais ou políticas. Mas isso não deveria ser assim. Se o leitor é um Anglicano, deve sê-lo porque ele está totalmente convencido de que a sua é a igreja mais bíblica. Se ele é um Presbiteriano, ele deve ser assim, a partir de sua convicção de que sua “igreja” está mais de acordo com a Palavra de Deus; da mesma forma se ele é um Batista, Metodista e etc.

Há muitos outros que têm pouca esperança de chegar a uma resposta satisfatória à pergunta: O que constitui uma igreja do Novo Testamento? A terrível confusão que agora prevalece na Cristandade, as numerosas seitas e as denominações diferem tão amplamente tanto em relação à doutrina e à igreja, quanto em relação à ordem e ao governo, os têm desencorajado. Eles não têm tempo para examinar cuidadosamente as reivindicações das várias denominações que se opõem. A maioria dos Cristãos são pessoas ocupadas que têm de trabalhar para ganhar a vida, e, portanto, eles não têm tempo livre necessário para investigar adequadamente os méritos escriturísticos dos diferentes sistemas eclesiásticos. Consequentemente, eles descartam o assunto de suas mentes como sendo algo muito difícil e complexo para que eles tenham a esperança de chegar a uma solução satisfatória e conclusiva. Mas isso não deveria ser assim. Em vez dessas diferenças de opinião nos desanimarem, deveriam estimular em nós um maior esforço para chegarmos à mente de Deus. É-nos dito para “comprar a verdade” [Provérbios 23:23], o que implica que são necessários esforço e sacrifício pessoal. Somos ordenados a “examinar todas as coisas” [1 Tessalonicenses 5:21].

Ora, deve ser óbvio para todos que deve haver um caminho mais excelente do que examinar os credos e artigos de fé de todas as denominações. O único método sábio e satisfatório para descobrir a resposta Divina à nossa pergunta, a saber, “o que constitui uma igreja do Novo Testamento?”, é nos voltando para o próprio Novo Testamento e estudando cuidadosamente os seus ensinamentos sobre a “igreja”. Não o ponto de vista de algum homem piedoso; não aceitando o credo da igreja a qual os meus pais pertenciam; mas “examinando todas as coisas” por mim mesmo! O povo de Deus não tem o direito de organizar uma igreja seguindo padrões diferentes daqueles que governaram as igrejas na época do Novo Testamento. Uma instituição cujos ensinamentos ou governo são contrários ao Novo Testamento não é, certamente, uma “igreja” do Novo Testamento.

Agora, se Deus considerou de suficiente importância deixar registrado nas páginas da Revelação Inspirada o que a igreja do Novo Testamento é, então certamente deve ser suficientemente importante para cada homem ou mulher redimidos estudar esse registro, e não somente isso, mas se submeterem à sua autoridade e conformarem a sua conduta ao mesmo. Devemos, portanto, apelar para o Novo Testamento somente e buscar a resposta de Deus para a nossa pergunta.

1. Uma igreja do Novo Testamento é um corpo local de crentes. Muita confusão foi causada pelo emprego de adjetivos que não são encontrados no N. T. Se fosse perguntado a alguns Cristãos: “a que igreja vocês pertencem?”, eles responderiam: “Á grande igreja invisível de Cristo, uma igreja que é tão intangível como é invisível”. Quantos recitam o chamado Credo dos Apóstolos: “Creio na santa Igreja católica”, o que certamente não era um artigo no “credo” dos Apóstolos. Outros falam de “Igreja militante” e “Igreja triunfante”, todavia estes termos também não são encontrados nas Escrituras, e empregá-los somente cria dificuldade e confusão. No momento em que deixamos de “conservar o modelo das sãs palavras” (2 Timóteo 1:13) e empregar termos que não estão na Bíblia, só obscurecemos a nós mesmos e aos outros. Não podemos aperfeiçoar a linguagem do Santo Escrito. Não há necessidade de inventar termos extras; e fazê-lo é pôr em questão o vocabulário do Espírito Santo. Quando as pessoas falam de “a Igreja universal de Cristo” elas empregam outra expressão não-bíblica e anti-Escriturística. O que eles realmente querem dizer é “a família de Deus”. Esta última denominação inclui toda a companhia dos eleitos de Deus; mas a “Igreja” não faz isso.

Agora, o tipo de igreja que é enfatizado no Novo Testamento não é nem invisível nem universal, mas, antes, visível e local. A palavra grega para “igreja” é ekklesia e os que conhecem algo desta Língua concordam que a palavra significa “uma assembleia”. Agora, uma “assembleia” é uma companhia de pessoas que realmente se reúnem. Se eles nunca “se reúnem”, então fazemos mau uso da linguagem ao chamá-los de “uma assembleia”. Portanto, como todo o povo de Deus nunca esteve ainda completamente reunido, não há hoje nenhuma “Igreja Universal” ou “Assembleia Universal”. Essa “Igreja” é ainda futura; porém ainda não possui existência concreta ou corporativa.

Para provar o que foi dito acima, examinemos as passagens onde o termo foi usado pelo próprio nosso Senhor durante os dias de Sua carne. Somente duas vezes nos quatro Evangelhos encontramos Cristo falando da “igreja”. A primeira é em Mateus 16:18, quando Ele disse a Pedro: “Sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. A que tipo de “igreja” estava o Salvador aqui se referindo? A grande maioria dos Cristãos entende esta passagem como se Ele estivesse se referindo à grande Igreja invisível, mística e universal, que inclui todos os redimidos. Mas seguramente eles estão errados. Se houvesse sido esse o seu significado Ele teria necessariamente que dizer: “Sobre esta pedra estou construindo a minha igreja”. Em vez disso, Ele usou o tempo futuro: “Sobre esta pedra edificarei”, o que mostra claramente que no momento em que ele falou, sua “igreja” não possuía existência, salvo no propósito de Deus. A “igreja” a que se referiu Cristo em Mateus 16:18 não podia ser universal, ou seja, uma igreja que inclui todos os santos de Deus, pois o tempo do verbo usado por Ele na ocasião claramente exclui os santos do Antigo Testamento! Assim, a primeira vez que a palavra “igreja” ocorre no N. T. não faz nenhuma referência a algo geral ou universal. Além disso, nosso Senhor não poderia estar se referindo à Igreja na glória, pois ali não haverá nenhum perigo oferecido pelas “as portas do inferno”! Sua declaração de que, “as portas do inferno não prevalecerão contra ela”, deixa claro acima de qualquer dúvida que Cristo estava se referindo a Sua Igreja sobre a terra, e, portanto, a uma igreja visível e local.

O outro único registro que temos de nosso Senhor falando sobre a “igreja”, enquanto Ele estava na terra, é encontrado em Mateus 18:17: “E, se não as escutar, dize-o à igreja; e, se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e publicano”. Agora, o único tipo de “igreja” para a qual um irmão poderia confessar sua “culpa” é uma visível e local. Tão óbvio é isto que não há necessidade me estender ainda mais sobre este ponto.

No último livro do Novo Testamento, encontramos nosso Salvador novamente usando esse termo. Primeiro em Apocalipse 1:11 Ele diz a João: “o que vês, escreve-o num livro, e envia-o às sete igrejas que estão na Ásia”. Aqui, novamente, fica claro que o Senhor estava falando de igrejas locais. Em seguida, encontramos a palavra “igreja” em seus lábios mais dezenove vezes no Apocalipse, e em cada passagem a referência é feita a igrejas locais. Sete vezes Ele diz: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas”, e não, “o que o Espírito diz à Igreja”, que é o que teria sido dito se a visão popular fosse correta. A última referência está em Apocalipse 22:16: “Eu, Jesus, enviei o meu anjo, para vos testificar estas coisas nas igrejas”. A razão para isso é que a Igreja de Cristo não possui ainda existência tangível e corporal, nem na glória nem sobre a terra; tudo o que Ele tem agora aqui são Suas “igrejas” locais.

Mais uma prova de que o tipo de “igreja” que é enfatizado no Novo Testamento é um tipo local e visível apelamos para outros fatos da Escritura. Lemos sobre “A igreja que estava em Jerusalém” (Atos 8:1). “A igreja que estava em Antioquia” (Atos 13:1), “A igreja de Deus que está em Corinto” (1 Coríntios 1:2). Observe cuidadosamente que, apesar destas igrejas estarem ligadas ente si, ainda assim são definitivamente distintas de “todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor”! [1 Coríntios 1:2], Mais uma vez; lemos de “igrejas”, no plural: “Assim, pois, as igrejas em toda a Judéia, e Galiléia e Samaria” (Atos 9:31), “As igrejas de Cristo vos saúdam” (Romanos 16:16), “às igrejas da Galácia” (Gálatas 1:2). Assim, vê-se que o que foi proeminente e dominante nos tempos do Novo Testamento foram as igrejas locais e visíveis.

2. Uma igreja do Novo Testamento é um corpo local de crentes batizados. Por “crentes batizados” queremos dizer Cristãos que foram imersos em água. Ao longo do N. T., não há um único caso registrado de alguém que se tornou um membro de uma igreja de Jesus Cristo sem primeiro ter sido batizado; mas há muitos casos que apontam para isso, muitos indícios e provas de que aqueles que pertenciam às igrejas nos dias dos apóstolos foram Cristãos batizados.

Voltemo-nos primeiro à última cláusula de Atos 2:47: “E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar”. Outra versão diz corretamente: “aquele que ‘eram’ salvos”. Observe com cuidado ele não diz que “Deus”, ou “o Espírito Santo”, ou “Cristo”, mas “acrescentava o Senhor”. A razão para isso é a seguinte: “O Senhor” traz o pensamento da autoridade, e aqueles que Ele “acrescentou à igreja” haviam se submetido ao Seu senhorio. A maneira pela qual eles haviam se “submetido” nos é informada nos versos 41 e 42: “De sorte que foram batizados os que de bom grado receberam a sua palavra; e naquele dia agregaram-se quase três mil almas”, e etc. Assim vemos que nos primeiros dias desta dispensação “o Senhor acrescentou” à Sua igreja pessoas salvas que foram batizados.

Considere a primeira das epístolas, Romanos 12:4-5 demonstra que os santos em Roma eram uma igreja local. Volte agora a Romanos 6:4-5 onde encontramos o apóstolo dizendo aos e sobre estes membros da igreja em Roma: “De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida. Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na da sua ressurreição”. Assim vemos que os santos na igreja local em Roma eram crentes batizados.

Considere agora a igreja em Corinto. Em Atos 18:8, lemos: “muitos dos coríntios, ouvindo-o, creram e foram batizados”. Outra prova de que os santos de Corinto eram crentes batizados é encontrada em 1 Coríntios 1:13-14 e 10:2, 6. 1 Coríntios 12:13 se traduzido corretamente e rigorosamente (esperamos tratar desta passagem separadamente em um artigo futuro [Este Artigo referido pelo Sr. Pink aqui, encontra-se logo após este texto — N. do T.]) afirma expressamente que a entrada na assembleia local é pelo batismo em água.

Antes de passarmos para o próximo ponto, permita-nos dizer que uma igreja composta de crentes batizados é, obviamente, e, necessariamente, uma “igreja Batista” — De que mais poderia ser chamada? Este é o nome que Deus deu ao primeiro homem que chamou e comissionou a fazer qualquer batismo. Ele o nomeou “João, o Batista”. Consequentemente os verdadeiros “Batistas” não têm nenhuma razão para se envergonhar ou se desculpar pelo nome bíblico que eles carregam consigo. Se alguém pergunta: Por que o Espírito Santo não fala da “igreja batista em Corinto” ou “As igrejas batistas da Galácia”? Nós respondemos, por esta razão: não havia, naquela época, nenhuma necessidade para este adjetivo distintivo; não havia outro tipo de igrejas nos dias dos apóstolos, senão igrejas batistas. Então, todas eram “Igrejas Batistas”; ou seja, todas eram compostas de crentes biblicamente batizados. São os homens que inventaram todas as outras “igrejas” (?) e denominações que existem agora.

3. Uma igreja do Novo Testamento é um corpo local de crentes batizados em relação organizada. Isto é necessariamente implícito no próprio termo, uma “Assembleia” é uma companhia de pessoas que se reuniram numa relação organizada, caso contrário, não haveria nada para distingui-lo de uma multidão ou turba. Uma prova clara disso é encontrada em Atos 19:39: “E, se alguma outra coisa demandais, averiguar-se-á em legítima assembleia”. Estas palavras foram ditas pelo “escrivão da cidade” [Atos 19:35] para a multidão de Éfeso que perturbava a paz. Tendo “apaziguado a multidão”, e após ter afirmado que os apóstolos não eram nem ladrões de igrejas nem blasfemadores de sua deusa, lembrou a Demétrio e a seus companheiros que “há audiências e há procônsules”, e ordenou-lhes que “que se acusem uns aos outros”. A palavra grega para “assembléia” nesta passagem é ekklesia e a referência foi à corte Romana, isto é, uma organização governada por uma lei.

Mais uma vez, as figuras utilizadas pelo Espírito Santo em conexão com a “igreja” são pertinentes apenas à uma organização local. Em Romanos 12 e em 1 Coríntios 12 Ele emprega o “corpo” humano como uma analogia ou ilustração. Nada poderia ser mais inadequado para retratar alguma igreja “invisível” e “universal”, cujos membros estão espalhados por toda parte. O leitor dificilmente precisa ser lembrado de que não há uma organização mais perfeita na terra do que cada corpo humano, cada membro em seu lugar designado, cada um cumprindo o seu próprio ofício e exercendo sua função distinta. Novamente, em 1 Timóteo 3:15 a igreja é chamada a “casa de Deus”. O termo “casa” nos fala de relações ordenadas: cada morador ter seu próprio quarto, a mobília deve ser disposta adequadamente e etc.

Outra prova de que a “igreja” do Novo Testamento é uma companhia local de crentes batizados compondo uma relação organizada é encontrada em Atos 7:38, onde o Espírito Santo aplica o termo ekklesia aos filhos de Israel: “a congregação (ekklesia) no deserto”. Agora, os filhos de Israel no deserto eram redimidos, separados e batizados, organizados em uma “Assembleia”. Alguns podem se surpreender com a afirmação de que eles foram batizados. Mas a Palavra de Deus é muito explícita quanto a este ponto: “Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar. E todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar” (1 Coríntios 10:1-2). Assim, também, eles estiveram organizados; eles tinham seus “príncipes” (Números 7:2) e “sacerdotes”, os seus “anciãos” (Êxodo 24:1) e “chefes” (Deuteronômio 1:15). Portanto, podemos ver a conveniência de aplicar o termo ekklesia à Israel no deserto, e descobrimos como sua aplicação a eles nos permite definir o seu significado exato. Ela nos mostra, assim, que uma “igreja” do Novo Testamento tem os seus oficiais, seus “anciãos” (que é o mesmo que “bispos”), “diáconos” (1 Timóteo 3:1, 12), “tesoureiro” (João 12:6; 2 Coríntios 8:19), e “escrivão” — “número de nomes” (Atos 1:15 – KJV) claramente implica um registo.

4. Uma igreja do Novo Testamento é um corpo local de crentes batizados numa relação organizada, pública e corporativa de adoração a Deus, seguindo as Suas prescrições. Para plenamente ampliar este tópico, seria necessário que citássemos consideráveis porções do N.T. Que o leitor examine com cuidado o livro de Atos e as Epístolas, com uma mente livre de preconceitos, e ele encontrará confirmação abundante. Buscando fazer o mais breve sumário possível disto, diríamos que uma igreja do Novo Testamento caracteriza-se: Primeiro, pela manutenção da “doutrina e comunhão dos apóstolos” (Atos 2:42). Em segundo lugar, por preservar e perpetuar o Batismo bíblico e a Ceia do Senhor, isto é, “manter as ordenanças”, como elas foram entregues à igreja (1 Coríntios 11:2). Em terceiro lugar, mantendo uma santa disciplina: Hebreus 13:17; 1 Timóteo 5:20-21 e etc. Quarto, indo por todo o mundo e pregando o Evangelho a toda criatura (Marcos 16:15).

5. Uma igreja do Novo Testamento é independente de tudo, exceto de Deus. Cada igreja local é totalmente independente de quaisquer outras. Uma igreja em uma cidade não tem autoridade sobre uma igreja em outra cidade. Nem um número de igrejas locais pode de forma bíblica eleger um “comitê”, “presbitério” ou “papa” para assenhorear-se dos membros dessas igrejas. Cada igreja possui um governo próprio e interno, compare 1 Coríntios 16:3; 2 Coríntios 8:19. Por governo da igreja, queremos dizer que sua obra é administrativa e não legislativa.

A igreja do Novo Testamento deve fazer todas as coisas “decentemente e com ordem” (1 Coríntios 14:40), e seu único guia oficial para “ordem” é as Escrituras Sagradas. Sua única norma infalível, sua última instância de recurso, pelo qual todas as questões de fé, doutrina e vida Cristã devem ser julgadas e resolvidas, é a Bíblia, e nada mais que a Bíblia. Sua única cabeça é Cristo: Ele é seu Legislador, Recurso e Senhor.

A igreja local deve ser governada pelo que “o Espírito diz às igrejas”. Daí segue-se necessariamente que ela é completamente separada do Estado e deve recusar qualquer apoio dele. Embora seus membros sejam intimados pela Escritura para estarem sujeitos às potestades superiores (Romanos 13:1), eles não devem permitir qualquer imposição do Estado em matéria de fé ou prática.

A administração do governo de uma igreja do Novo Testamento reside em sua própria associação, e não em qualquer órgão ou ordem de homens especiais, dentro ou fora dela. A maioria dos seus membros decidem as ações da igreja. Isso fica claro a partir do original grego usado em 2 Coríntios 2:6: “Basta-lhe ao tal (um irmão desordenado que havia sido disciplinado) esta repreensão feita por muitos”. A palavra grega para as duas últimas palavras é hupo ton pleionon. Pleionon é um adjetivo, no grau comparativo, e, literalmente significa: “pela maioria”, assim também é interpretado pelo Dr. Charles Hodge, em relação a quem há poucos mais espirituais e competentes eruditos em grego. As interlineares de Bagster interpretam isto como: “pela maior parte”, e à margem da Versão Revisada [King James Revised Version] aparece: “No grego: a mais”. O artigo definido nos obriga a interpretá-lo como “pela maior parte” ou “pela maioria”.

Em suma. A menos que você tenha uma companhia de pessoas regeneradas e crentes, biblicamente batizados, organizadas segundo os padrões do Novo Testamento, adorando a Deus segundo as Suas prescrições particularmente apontadas na comunhão com a doutrina e comunhão dos apóstolos, mantendo as ordenanças, preservando estritamente a disciplina, ativa no esforço evangelístico, não temos uma “igreja do Novo Testamento”, seja como for que ela se autodenomine. Mas uma igreja que possui essas características é a única instituição nesta terra ordenada, edificada e aprovada pelo Senhor Jesus Cristo. Assim, o escritor considera seu maior privilégio, depois de ser salvo, pertencer a uma de Suas igrejas. Que a graça Divina me ajude a andar dignamente como membro de Sua Igreja!

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Capítulo 12 da Primeira Carta aos Coríntios se Refere à Igreja Universal ou à uma Igreja Local do Novo Testamento?

Por quase dez anos após sua regeneração, o escritor nunca duvidou de que o “corpo” mencionado em 1 Coríntios 12 fazia referência à “Igreja Universal”. Isto lhe foi ensinado por aqueles conhecidos como “Irmãos de Plymouth”, que são encontrados nas notas da Bíblia de Referência Scofield, e são amplamente aceitos pelos evangélicos e estudantes das profecias. Não até que Deus o trouxe para o meio dos Batistas do Sul (um grande privilégio pelo qual ele nunca será suficientemente agradecido) que ele ouviu pela primeira vez o ponto de vista acima posto em questão. Mas era difícil para ele considerar imparcialmente uma exposição que significava a refutação de um ensinamento recebido de homens altamente respeitados, para não falar do fato que ele teria que confessar ter tido um conceito totalmente errôneo por tanto tempo, e se permitiu ler 1 Coríntios 12 (e passagens similares) através dos óculos de outros homens. No entanto, nos últimos tempos, o escritor foi levado a fazer um estudo orientado pela oração e independente deste assunto para ele mesmo, e devido ao resultado ele é obrigado a renunciar ao seu primeiro conceito como totalmente insustentável e não bíblico.

A Versão Autorizada de 1 Coríntios 12:13 diz o seguinte: “Pois em um só Espírito, todos nós fomos batizados no corpo”, a respeito disto teremos mais a dizer mais tarde. Em 1 Coríntios 12 Dr. Scofield, em sua Bíblia de Referência, diz o seguinte: “O Capítulo 12 cuida do Espírito em relação ao corpo de Cristo. Essa relação é dupla: (1) O batismo com o Espírito forma o corpo, unindo os crentes a Cristo, Cabeça ressuscitado e glorificado, e uns aos outros (vv. 12-13). O símbolo do corpo assim formado é o corpo natural, humano (v. 12), e todas as analogias são livremente utilizadas (vv. 14-26). (2) Pois cada crente recebe uma capacitação espiritual e capacidade para o serviço específico”, etc. e etc. Em enfatizar a palavra “corpo” Dr. Scofield tem, sem dúvida, em mente “a Igreja Universal”. Caso haja qualquer dúvida sobre este ponto, é de uma só vez dissipada por uma referência às notas do Dr. Scofield em Hebreus 12:23: “A verdadeira igreja, composta de todo o número de pessoas regeneradas do Pentecostes até a Primeira Ressurreição (1 Coríntios 15:52), unidas a Cristo e pelo batismo com o Espírito Santo (1 Coríntios 12:12-13), formam o Corpo do qual Ele é a Cabeça”. É de se notar que, em ambos os lugares o Doutor fala do “batismo com o Espírito”, mas em 1 Coríntios 12:13 não é feita, de modo algum, menção a qualquer batismo “com” o Espírito Santo, tanto no Inglês como no grego; tal é apenas uma invenção da imaginação do Doutor.

A Versão Revisada de 1 Coríntios 12:13 diz assim: “Pois em um só Espírito fomos todos nós batizados em um só corpo” (1 Coríntios 12:13). Acreditamos que esta é muito melhor e uma tradução mais acurada do grego do que a oferecida pela Versão Autorizada. Mas temos encontrado uma falha na tradução feita pela Versão Revisada também. A tradução da palavra “espírito” (pneumati) é totalmente enganosa, e, sendo assim, é quase impossível obter o verdadeiro significado do verso. Para o benefício daqueles que não leem o Novo Testamento em grego, podemos dizer que na língua em que o Novo Testamento foi escrito originalmente não foram utilizadas letras maiúsculas, exceto no início de um livro ou parágrafo. Pneuma é sempre escrito em grego com um “e” minúsculo, e é uma questão de exposição e interpretação, não de tradução, se um “e” ou “E” deve ser usado a cada instância onde a palavra para espírito é usada. Em muitos casos ela é traduzida com um “e” minúsculo: espírito (Mateus 5:3; Romanos 1:4; 1:9; 1 Coríntios 2:11; 5:3; etc.). Em outras passagens, onde o Espírito Santo de Deus é referido, uma ênfase é justamente empregada. Além disso, a palavra grega pneuma, por vezes, é usado não apenas para designar o Espírito Santo de Deus, e em outros, o espírito do homem (como contradistinto de sua alma e corpo), mas também é empregada psicologicamente; lemos sobre “o espírito (pneuma) de mansidão” (1 Coríntios 4:21), e sobre o “espírito (pneuma) de temor” (2 Timóteo 1:7), etc. Mais uma vez, em Filipenses 1:27 lemos: “num mesmo espírito”. Aqui o “espírito” tem a força de unidade de pensamento, vontade, objetivo. Note-se que em Filipenses 1:27 a palavra grega para “num mesmo espírito” é precisamente a mesma em todos os aspectos, como a palavra grega usada no início do 1 Coríntios 12:13, e em Filipenses 1:27 até mesmo os tradutores da Versão Autorizada [Neste caso usamos a versão ACF] tem usado apenas um pequeno “s” para “espírito”, como eles certamente deveriam ter feito em 1 Coríntios 12:13. Uma outra consideração sobre o grego: A preposição traduzida como “pois” em 1 Coríntios 12:13 é “en”, que é traduzida no Novo Testamento [na Versão Autorizada KJV, em inglês] como “entre” [among] 114 vezes, “por” [by] 142, “com” [with] 139, “em” [in] 1.863 vezes. Mais qualquer comentário quanto a isso seria desnecessário.

“Em um só espírito fomos todos nós batizados” deve ser a tradução de 1 Coríntios 12:13. O “batismo” aqui não é de modo algum o batismo do Espírito Santo, mas o batismo nas águas. Observe: sempre que lemos “batismo” no Novo Testamento, sem uma referência imediatamente anterior ou contexto que expressamente o defina (como em Gálatas 3:27; 4:5 Efésios, etc.), é sempre o batismo nas águas que está em vista.

“Pois todos nós fomos batizados em um espírito, formando um corpo” (ACF) que corpo? A “Igreja Universal”, ou uma igreja local de Cristo? Nós alegamos que um estudo cuidadoso de 1 Coríntios 12 pode fornecer apenas uma resposta possível, a saber, uma igreja Batista local. Observe os seguintes pontos.

(1) A cabeça do “corpo” aqui descrita em 1 Coríntios 12 é vista como estando na terra, versos 16 e 17. Ora, seria totalmente incongruente representar o Cabeça da igreja universal mística (supondo que tal coisa existisse, visto que até agora certamente ainda não existe) estando na terra, pois a cabeça dessa igreja que, no futuro, será a Igreja Universal de Cristo, está no Céu, e no Céu a Igreja Universal será reunida (ver Hebreus 12:22-24). Mas é perfeitamente cabível representar (na ilustração do corpo humano) a cabeça da igreja local como estando na terra, pois onde quer que uma igreja local do Novo Testamento se reúne para o culto ou para tratar dos negócios de Cristo, Ele está no meio deles (Mateus 18:20).

(2) Em 1 Coríntios 12:22-23, lemos sobre os membros do corpo que parecem ser “mais fracos”, e sobre aqueles “menos honrosos” e de membros “menos decorosos”. Agora, essas características dos membros do corpo humano ilustram com precisão as diferenças que existem entre os estados espirituais dos vários membros de uma assembleia local, mas a ilustração do “corpo” aqui falharia completamente se a “Igreja Universal” estivesse em vista, pois quando a Igreja Universal estiver reunida no Céu cada membro será “semelhante a Cristo”, “transformado em corpo glorioso” [1 João 3:2; Filipenses 3:21], e tais comparações como “mais fraco”, “menos honrosos”, “menos decoroso” como características dos membros, serão para sempre uma coisa do passado!

(3) Em 1 Coríntios 12:24, o apóstolo fala sobre o que Deus tem feito, a fim de que não haja divisão no corpo (v. 25). Agora deixe qualquer leitor imparcial perguntar, em que tipo de corpo um cisma (divisão) é possível? Certamente não na Igreja Universal pois é unicamente obra Divina, em que a responsabilidade humana e falha não entram. Quando a Igreja dos Primogênitos estiver reunida no Céu, glorificada, “sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante” [Efésios 5:27], não haverá “cisma” ali. Mas na igreja a qual o apóstolo se refere em 1 Coríntios 12 estava havendo divisões (veja 1 Coríntios 11:18 e etc.) Portanto, isso é uma prova positiva de que é à igreja local, e não à Igreja Universal, que está sendo referida em 1 Coríntios 12.

(4) Em Coríntios 12:26 lemos: “se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele”. Ora, isso pode ser verdade se nos referirmos a uma Igreja Universal? Certamente que não. É verdade que sempre que um crente em Cristo, na Índia ou na China (de quem eu nunca sequer tinha ouvido falar) “sofre” “todos os membros”, todos os crentes na América, “sofrem” com por isto ou com ele? Certamente que não. Mas é verdade, idealmente, e muitas vezes na experiência que quando um membro de uma igreja local “sofre” todos os membros daquela igreja local sofrem também. Devemos nos abster de acrescentar outros argumentos.

Suficiente tem sido apresentado, nós confiamos, para provar que o “corpo” referido em 1 Coríntios 12:13 é uma igreja local, e que o “corpo humano” é aqui utilizado para ilustrar a dependência mútua e relação existente entre seus vários membros. A partir deste fato estabelecido e incontestável várias conclusões se seguem:

Em primeiro lugar, o “batismo” pelo qual se entra “em” uma igreja do Novo Testamento é o batismo nas águas, pois o Espírito Santo não “batiza” alguém em uma assembleia local.

Em segundo lugar, não importa qual seja a nossa nacionalidade — judeus ou gentios — não importa qual seja a nossa posição social — escravo ou homem livre — todos os membros da igreja local foram batizados “em um só espírito”, isto é, em um só pensamento, propósito, vontade, e há, portanto, a unidade de propósito a qual eles almejam, unidade de privilégio para fruírem, unidade da responsabilidade a cumprir. Além disso, é dito que todos têm “bebido de um Espírito”, isto é, eles são um e totalmente apropriados (simbolizado por “beber”) para esta unidade de espírito.

Em terceiro lugar, há apenas uma forma de entrada para uma igreja local do Senhor Jesus Cristo, e que é pelo “batismo” biblicamente executado por um administrador biblicamente qualificado e biblicamente autorizado, pois lemos “pois todos nós fomos batizados em um espírito, formando um corpo”. Disto segue-se que ninguém, exceto aqueles que foram biblicamente “batizados” entraram “em” uma Igreja do Novo Testamento, todos os outros são membros de nada menos do que instituições criadas pelo homem. Daí a enorme importância de “preservar as ordenanças”, como eles foram entregues pelo próprio Cristo para Suas igrejas.

O escritor pediria desculpas por escrever em tal extensão (ele condensou tanto quanto lhe foi possível), mas acalenta a esperança de que a sua própria confissão pessoal com o qual começou este artigo influencie outros a examinar as Escrituras com mais diligência e a “examinar tudo” por si mesmos [1 Tessalonicenses 5:21], não aceitando o ensino de qualquer homem, não importa quem ele seja. Irmãos, almejemos ser “bereanos”.

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