O Amor de Cristo, por A. W. Pink

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[Capítulo 13 do livro A Guide to Fervent Prayer • Editado]

 

“E da parte de Jesus Cristo, que é a fiel testemunha, o primogênito dentre os mortos e o príncipe dos reis da terra. Àquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados, e nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai; a ele glória e poder para todo o sempre Amém.” (Apocalipse 1:5-6)

 

A oração que está agora diante de nós realmente constitui a parte de encerramento da saudação e bênção dos versículos 4 e 5 de Apocalipse 1, em que a “graça e paz” são buscadas a partir do Deus Triuno em Suas Pessoas distintas: (1) “da parte daquele que é, e que era, e que há de vir”, isto é, da parte do Senhor como o único autoexistente e imutável, Ele é referido pelo equivalente de Seu nome memorial (Êxodo 3:13-17), pelo que Seu eterno Ser e fidelidade em guardar a aliança são relembrados (Êxodo 6:2-5, “o Senhor” é igual a “Jeová” em todo o Antigo Testamento); (2) “e da dos sete espíritos que estão diante do seu trono”, isto é, do Espírito Santo na plenitude do Seu poder e diversidade de Suas operações (Isaías 11:1-2); e (3) “da parte de Jesus Cristo”, que é mencionado como o último elo de ligação entre Deus e o Seu povo. Uma denominação tríplice é aqui concedida ao Salvador: (1) “a fiel testemunha”, que contempla e abrange toda a Sua vida virtuosa da manjedoura à cruz; (2) “o primogênito dentre os mortos”, que celebra sua vitória sobre a sepultura, este é um título de dignidade (Gênesis 49:3), e significa prioridade de classificação em vez de tempo; e (3) “e o príncipe dos reis da terra”, que anuncia sua majestade real e domínio. Este terceiro título contempla o Conquistador como exaltado “Acima de todo o principado, e poder” (Efésios 1:21), como Aquele sobre cujos ombros o governo do universo tem sido colocado (Isaías 9:6), que é ainda agora mesmo “sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder” (Hebreus 1:3), e diante do qual todo joelho ainda se dobrará (Filipenses 2:10).

 

Uma Sinopse Analítica Desta Oração

 

A anterior nomeação das perfeições e dignidades do Redentor evocadas a partir da boca do apóstolo João nesta exclamação de adoração: “Àquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados, e nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai; a ele glória e poder para todo o sempre. Amém”. Assim, a natureza da nossa oração é novamente uma doxologia. Seu objeto é o Filho de Deus encarnado em Seu caráter e ofício de mediador. Seus adoradores são aqueles de “nós” que são os beneficiários de Sua mediação. Suas razões são as nossas apreensões de Seu amor insondável, a eficácia da purificação de Seu precioso sangue, e as dignidades maravilhosas que Ele tem conferido aos Seus remidos. Sua atribuição é “a ele glória e poder”, e não apenas por mil anos, mas “para todo o sempre”, que termina com a segurança afirmação: “Amém”, assim será. Para o benefício de jovens pregadores acrescentarei mais algumas observações sobre doxologias em geral.

 

As Doxologias são Necessárias Para Ampliar Nossas Concepções das Pessoas da Divindade

 

As doxologias da Escritura revelam a nossa necessidade de formar concepções mais exaltadas sobre as Pessoas Divinas. Para fazer isso, devemos envolver-nos em meditações mais frequentes e devotas em Seus atributos inefáveis??. Quão poucos nossos pensamentos se fixam sobre a exposição deles na criação material. A Divindade é “claramente vista” nas coisas que Deus fez, e até mesmo os pagãos são acusados ??de culpa imperdoável por causa de sua incapacidade de glorificar a Deus por Sua obra (Romanos 1:19-21). Não somente os nossos sentidos se deleitam pelas cores bonitas das árvores e perfumes das flores, mas as nossas mentes devem se exercitar sobre os movimentos e os instintos dos animais, admirando a mão Divina que assim os equipou. Quão pouco refletimos sobre as maravilhas de nossos próprios corpos, a estrutura, conveniência e perfeita adaptabilidade de cada membro. Quão poucos nos unimos com o salmista em sua exclamação: “Eu te louvarei, porque de um modo assombroso, e tão maravilhoso fui feito; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem” (Salmo 139:14). Quanto mais maravilhosas são as faculdades de nosso homem interior, mais elas nos elevam acima de todas as criaturas irracionais. Como melhor nossa razão é empregada do que em exaltar Aquele que tão ricamente nos dotou? No entanto, o pouco reconhecimento e gratidão é feita para o beneficente Formador e Doador de nossos seres.

 

Quão pouco consideramos a sabedoria e o poder de Deus que se manifesta no governo do mundo. Tomemos, por exemplo, o equilíbrio preservado entre os sexos no número relativo de nascimentos e mortes, para que a população da Terra seja mantida de geração em geração, sem qualquer manipulação humana. Ou deixe-nos considerar os diversos temperamentos e talentos dados aos homens, de modo que alguns são sábios para aconselhar, administrar e gerir, alguns são mais qualificados para o trabalho braçal, e outros para servir em funções ministeriais. Ou consideremos como Seu governo reprime as paixões mais baixas dos homens, para que uma medida deste tipo de lei e ordem se mantida geralmente na sociedade de modo que os fracos não são destruídos pelos fortes nem os bons são incapacitados de viver em um mundo que totalmente “jaz no Maligno” (1 João 5:19). Ou pensemos como Deus estabelece limites para o êxito de ditadores vorazes, de modo que, quando parece que eles estão aponto de devastar tudo à sua frente, eles são subitamente barrados por Aquele que decretou que eles “daqui não passarão”. Ou reflitamos sobre como, na Sua aplicação da lei da retribuição, os indivíduos e as nações são levadas a colher o que semearam, seja isto bom ou mau. É porque nós redemos tão pouca atenção a estes e a uma centena de outros fenômenos semelhantes que tão raramente somos levados a clamar: “Aleluia! pois já o Senhor Deus Todo-Poderoso reina” (Apocalipse 19:6).

 

As Doxologias São Totalmente Dedicadas aos Louvores da Divindade, Em Particular Pelas Obras da Graça Divina

 

Porém, são as obras maravilhosas de Deus no reino da graça, ao invés de na criação e da providência, que são mais projetadas para levar o coração do povo de Deus à honrá-lO em adoração. Mais particularmente, as obras em que o Amado de Seu próprio coração estava e está envolvido em nosso nome nos levam à admiração e louvor. Assim acontece nos versos que agora estamos ponderando. Tão logo a Pessoa e perfeições do Amante eterno de sua alma são postas diante da mente e do coração do apóstolo João, ele gritou exultante: “A Ele glória e poder para todo o sempre”. E assim é com todos os verdadeiros santos de Deus. Essa exclamação é a resposta espontânea que sai de suas almas para Ele. Isso me leva a apontar a uma coisa que é comum a todos as doxologias: nelas o louvor é sempre oferecido exclusivamente à Divindade, e nunca a uma mera ação humana ou realização. A auto-ocupação e autogratificação absolutamente não possui lugar nelas. Muito diferente é isso do baixo nível comumente prevalente nas igrejas atualmente. Este escritor esteve uma vez presente em um serviço onde um hino foi cantado, cujo coro dizia: “Ah, como eu amo Jesus”. Mas eu não podia conscienciosamente participar disto cantando. Ninguém no céu louva ou magnifica suas graças, não devem os Cristãos fazer isso aqui na terra.

 

O Objeto Específico Desta Doxologia

 

O Objeto desta adoração e ação de graças é Aquele Bendito que empreendeu, com o Pai e o Espírito Santo, para salvar o Seu povo dos seus pecados e misérias pelo preço do Seu sangue e o braço do Seu poder. Em sua Pessoa essencial, Deus Filho é co-igual e co-eterno com o Pai e com o Espírito, “que é sobre todos, Deus bendito eternamente. Amém” (Romanos 9:5). Ele é o incriado Sol da justiça (Salmo 84:11; Malaquias 4:2). Toda a glória da Divindade reluz nEle, e por Ele todas as perfeições da Deidade se manifestaram. Em resposta a esta mesma homenagem, Ele declara: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso” (Apocalipse 1:8). Antes que os mundos fossem criados Ele entrou em Aliança de Noivado para encarnar-se, para ser feito à semelhança da carne do pecado (Romanos 8:3) para servir como o Fiador do Seu povo, para ser o Noivo de Sua Igreja, o seu completo e todo-suficiente Salvador. Como tal, Ele é o homem da mão direita de Deus, o companheiro do Senhor dos Exércitos, o Rei da glória. Seu trabalho é honroso; Sua plenitude, infinita; Seu poder, onipotente. Seu trono subsiste para todo o sempre. Seu nome está acima de todo nome. Sua glória está acima dos céus. É impossível para exaltar-Lhe demasiadamente, pois o Seu nome glorioso “está exaltado sobre toda a bênção e louvor” (Neemias 9:5).

 

No contexto imediato este Ser adorável é visto em Sua pessoa teantrópica, como encarnado, como o Deus-homem Mediador. Ele está estabelecido sobre Seu triplo ofício como Profeta, Sacerdote e Soberano. Seu ofício profético é claramente indicado no título “a Testemunha fiel”, pois na profecia do Antigo Testamento, o Pai anunciou: “Eis que eu o dei por testemunha aos povos” (Isaías 55:4). O próprio Cristo declarou a Pilatos: “Eu para isso nasci, e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade” (João 18:37). Como tal, Ele anunciou o Evangelho aos pobres e o confirmou por poderosos milagres. Seu ofício sacerdotal é necessariamente implícito na expressão “primogênito dentre os mortos”, pois na morte, Ele se ofereceu como sacrifício a Deus para fazer satisfação pelas transgressões de Seu povo. Ele então ressurgiu novamente para que pudesse continuar a exercer seu sacerdócio por Sua intercessão constante por eles. Seu ofício real aparece claramente na designação “príncipe dos reis da terra”, pois Ele tem domínio absoluto sobre eles. Por Ele, eles reinam (Provérbios 8:15), e para Ele, eles são ordenados a Lhe prestar fidelidade (Salmo 2:10-12). A Ele devemos dar ouvidos, nEle devemos crer, e a Ele estamos sujeitos. Individualmente e coletivamente estes títulos anunciam que Ele deve ser grandemente respeitado e reverenciado.

 

Os Anjos Estão Cheios de Admiração Concernente ao Amor Redentor de Cristo por Sua Igreja

 

Enquanto estava exilado na ilha de Patmos, João foi levado a contemplar Emanuel nas excelências de Sua Pessoa, ofícios e obra. Quando isto aconteceu seu coração foi arrebatado, e ele exclamou: “Àquele que nos amou”. O amor de Cristo é aqui expresso pelo apóstolo João no tempo passado, não porque é inoperante no presente, mas para concentrar a nossa atenção sobre o que Ele fez anteriormente. O amor de Cristo é a mais grandiosa verdade e mistério revelado nas Sagradas Escrituras. Esse amor se originou no Seu coração e esteve em operação por toda a eternidade, pois antes que as montanhas fossem formadas Seu prazer “estava com os filhos dos homens” (Provérbios 8:31). Que amor maravilhoso foi demonstrado por Cristo em conexão com a Aliança Eterna, onde Ele concordou em servir como o Fiador do Seu povo e de exercer todas as Suas obrigações. Que Ele devesse ter complacência em criaturas de pó é a maravilha dos céus (Efésios 3:8-10, 1 Pedro 1:12). Que Ele houvesse posto o Seu coração sobre eles enquanto foram vistos em seu estado caído é incompreensível. Esse amor foi expresso abertamente na Sua encarnação, humilhação, obediência, sofrimentos e morte.

 

A Sagrada Escritura afirma que “o amor de Cristo, excede todo o entendimento” (Efésios 3:19). Ele está inteiramente além da computação finita ou compreensão. Que o próprio Filho de Deus se dignasse a olhar para criaturas finitas foi um ato de grande condescendência por parte dEle (Salmo 13:6). Que Ele tenha ido a tal ponto de apiedar-se deles é ainda mais maravilhoso. Que Ele nos amasse em nossa corrupção, transcende inteiramente nosso entendimento. Que as inclinações do Seu coração em relação à Igreja O levassem a deixar de lado a glória que Ele tinha com o Pai antes que o mundo existisse (João 17:5), para tomar sobre Si a forma de servo, e tornar-se “obediente até à morte” por causa deles, até mesmo “à morte de cruz” (Filipenses 2:7-8), supera todo o pensamento e está além de todos os louvores. Que o Santo estivesse disposto a ser feito pecado por Seu povo (2 Coríntios 5:21) e a suportar a maldição para que a bênção infinita fosse a porção deles (Gálatas 3:13-14) é totalmente inconcebível. Como S. E. Pierce tão habilmente expressou:

 

Seu amor é um ato perfeito e contínuo de eternidade a eternidade. Ele não conhece abatimento ou decadência. Ele é um amor eterno e imutável. Ele excede toda a concepção e ultrapassa toda a expressão. Para oferecer a maior prova no fato dele: “Cristo morreu pelos ímpios” (Romanos 5:6). Em Sua vida Ele plenamente demonstrou Seu amor. Em Seus sofrimentos e morte Ele o estampou com ênfase eterna.

 

O Amor de Cristo é Completamente Imparcial, Não Evocado Por Qualquer Mérito Em Seus Objetos

 

O amor de Cristo era um amor totalmente desinteressado, pois ele não sofreu influência de qualquer coisa em seus objetos ou quaisquer outras considerações externas a Si mesmo. Não havia absolutamente nada em Seu povo, seja real ou previsto, para atrair o Seu amor; nada presente, pois eles haviam se rebelado contra Deus e deliberadamente escolheram para seu exemplo e mestre alguém que fora um mentiroso e assassino desde o início; nada previsto, pois eles não poderiam ter nenhuma excelência, senão a que Sua graciosa mão formou neles. O amor de Cristo infinitamente se destacou em pureza, em intensidade, em seu desinteresse, e um amor como este nunca se moveu em qualquer peito humano. Cristo nos amou de forma completamente livre e espontânea. Ele nos amou, quando não O amávamos e lhe éramos desagradáveis. Estávamos totalmente incapazes de prestar-Lhe qualquer compensação adequada ou devolução. Sua própria bem-aventurança essencial e glória não poderiam nem ser diminuídas pela nossa condenação, nem aumentadas pela nossa salvação. Seu amor não foi convidado, nem atraído, mas completamente auto-provocado e automotivado. Foi o Seu amor que levou à atividade todos os outros atributos, Sua sabedoria, poder, santidade, e assim por diante. As palavras de Davi, “livrou-me, porque tinha prazer em mim” (Salmo 18:19), fornecem a explicação Divina da minha redenção.

 

O amor de Cristo foi um amor distinguidor. “O Senhor é bom para todos, e as suas misericórdias são sobre todas as suas obras” (Salmo 145:9). Ele é benevolente para com todas as Suas criaturas, fazendo com o seu sol se levante sobre maus e bons, e enviando de chuva sobre os justos e sobre os injustos (Mateus 5:45). “Ele é benigno até para com os ingratos e maus” (Lucas 6:35). Mas Cristo amou a Igreja e se entregou por ela com um amor que Ele não possui por toda a humanidade. A Igreja é o único objeto especial e peculiar de Suas afeições. Para ela, Ele reserva e entretém um amor único e devoção que a faz brilhar entre todas as obras criadas de Suas mãos com o brilho inconfundível de uma favorita. Maridos são convidados a amarem suas esposas “como também Cristo amou a igreja” (Efésios 5:25). O amor de um marido para com sua esposa é especial e exclusivo; assim Cristo nutre por Sua Igreja uma afeição particular. Este Seu amor está sobre Sua Noiva e não sobre a raça humana em geral. Ela é Seu tesouro peculiar. “Como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim” (João 13:1). Em vez de fazermos objeções capciosas a esta verdade, desfrutemos de sua preciosidade. O amor de Cristo é também constante e continuamente exercido sobre seus objetos “até o fim”; e, como veremos agora, é um amor sacrificial e enriquecedor.

 

O Amor de Cristo Se Dirige à Nossa Maior Necessidade: A Purificação de Nossos Pecados

 

As manifestações do amor de Cristo correspondem à nossa miséria e necessidade, as suas operações são adequadas à condição e às circunstâncias de seus objetos. A nossa mais triste necessidade era a lavagem de nossos pecados, e esta necessidade tem sido plenamente satisfeita por Ele. Seu amor por si só não poderia remover as nossas transgressões, “Assim como está longe o oriente do ocidente” [Salmos 103:12]. As reivindicações de Deus tinham que ser cumpridas; e a pena da lei teria que ser suportada. “Sem derramamento de sangue não há remissão” (Hebreus 9:22), e Cristo amou a Igreja a ponto de derramar Seu sangue precioso por ela. Por isso, o apóstolo João é aqui ouvido exclamando: “Àquele que nos amou, e em [ou “por”] seu sangue nos lavou dos nossos pecados”. Esta é a segunda razão inspiradora ou motivo por trás dessa bênção. Esta referência ao sangue de Cristo ressalta necessariamente Sua Divindade, bem como Sua humanidade. Nada senão uma criatura pode derramar sangue e morrer, mas só Deus pode perdoar pecados. É também este é um testemunho da natureza e eficácia de Seu sacrifício vicário ou substitutivo. Como este poderia não nos lavar de nossos pecados? Além disso, Ele celebra a prova suprema do Seu cuidado por Seu povo: “Porque o amor é forte como a morte. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo” (Cântico 8:6-7), que foi demonstrado na cruz, onde todas as ondas e vagas da ira de Deus (Salmo 42:7) passaram por cima do Portador do Pecado.

 

O amor conquistador de Cristo foi evidenciado pelo Seu desposar dos eleitos de Deus, comprometendo-se com a sua causa, assumindo a sua natureza, obedecendo e sofrendo em seu lugar. O apóstolo Paulo mostrou a origem desta bendita verdade com aplicação para os crentes, quando disse: “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave” (Efésios 5:1-2).

 

O Senhor Jesus sabia o que era necessário para a nossa salvação, e Seu amor o levou à realização do mesmo. E os apóstolos Paulo e João entenderam e ensinaram sobre a pesada dívida de amor e gratidão que é colocada sobre todos os felizes beneficiários da obra salvadora de Cristo. Para “lavar-nos de nossos pecados” era a própria essência das coisas que são necessárias para a nossa salvação, e para o que ser sangue foi derramado. Que prova estupenda foi a de Seu amor! Nisto consiste o amor, que o justo voluntariamente e de bom grado sofresse pelos injustos, “para levar-nos a Deus” (1 Pedro 3:18). “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Romanos 5:8). Notícias maravilhosas, são as que Cristo Jesus fez expiação completa por aqueles que naquele momento eram Seus inimigos (Romanos 5:10)! Ele escolheu dar a Sua vida por aqueles que eram por natureza e por prática rebeldes contra Deus, ao invés deles terem sido um sacrifício destinado à ira de Deus para sempre. O culpado transgride, mas o inocente é condenado. Os ímpios ofendem, mas o Santo recebe a pena. O servo comete o crime, mas o Senhor da glória paga por ele em seu lugar. Que razão temos nós para adorá-lO!

 

O Amor de Cristo é infinito e Imutável

 

Como Cristo pode sempre manifestar o Seu amor pelo Seu povo de uma forma que excede o que Ele já fez? “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos” (João 15:13). Ainda que este era o Deus-homem, por fazer isso Ele mostrou que Seu amor era infinito e eterno, incapaz de ser amplificado! Ele resplandeceu o Seu amor em um pleno meridiano de poder e esplendor, no Getsêmani e no Calvário. Ali Ele sofreu em Sua alma toda a terrível maldição que era devida e pagou pelos pecados de Seu povo. Foi então que aprouve a Deus moê-lo e infligir tristeza à sua alma (Isaías 53:10). Sua angústia era inconcebível. Ele gritou: “Por que me desamparaste?”. Foi assim que Ele nos amou, e foi assim que Ele forneceu a fonte para nos purificar de nossas iniquidades. Através do derramamento de Seu precioso sangue Ele expurgou Seu povo totalmente da culpa e da contaminação do pecado. Unamo-nos ao louvor exultante de S. E. Pierce:

 

Bendito, eternamente bendito seja o Cordeiro que levou os nossos pecados e as nossas dores! Seu suor de sangue é a nossa cura e saúde eternas. As dores de Sua alma são o nosso livramento eterno da maldição da lei e da ira vindoura. O Seu carregar os nossos pecados em Seu próprio corpo no madeiro é a nossa eterna libertação deles. Seu preciosíssimo derramamento de sangue é a nossa purificação eterna.

 

“E em seu sangue nos lavou dos nossos pecados”. Pecados como que mancham nosso registro perante Deus, poluem a alma e contaminam a consciência; e nada pode removê-lo, exceto a expiação e purificação unicamente promovidas pelo sangue de Cristo. O pecado é a única coisa que o Senhor Jesus odeia. É essencial para a Sua santidade que Ele assim faça. Ele o odeia imutavelmente, Jesus pode antes deixar de amar a Deus do que amar o pecado. Não obstante o Seu amor para com Seu povo é ainda maior do que o Seu ódio pelo pecado. Através de sua queda em Adão eles são pecadores; suas naturezas caídas são totalmente depravadas. Por pensamentos, palavras e atos são pecadores. Eles são culpados de literalmente inúmeras transgressões, pois seus pecados são mais numerosos do que os cabelos da sua cabeça (Salmo 40:12). No entanto, Cristo os amou! Ele os amou antes que eles houvessem pecado em Adão, e Seus primeiros pensamentos sobre eles em seu estado caído não produziram nenhuma mudança em Seu amor por eles; ao contrário, isto lhe concedeu maior oportunidade para Ele demonstrar esse amor. Por isso, Ele se encarnou, para que pudesse apagar os pecados deles. Nada era mais repugnante para o Santo de Deus, no entanto, Ele estava disposto a ser um desconhecido para os filhos de sua mãe, desprezado e rejeitado pelos homens, escarnecido e açoitado por eles, sim, abandonado por Deus por algum tempo, para que Seu povo pudesse ser purificado.

 

Cristo de Uma Vez por Todas Lavou Os Pecados do Seu Povo

 

Concordo plenamente com os comentários de John Gill sobre as palavras “nos lavou dos nossos pecados”:

 

Isto não deve ser entendido como a santificação de suas naturezas, pois esta é a obra do Espírito, mas, sim, como a expiação de seus pecados e justificação dos mesmos.

 

Em outras palavras, é a compra de redenção, e não a sua aplicação, o que está aqui em vista. Este último, é claro, segue na regeneração, pois todos aqueles que a quem Ele lavou judicialmente da culpa e da pena do pecado (de uma vez por todas no Gólgota) são no devido tempo limpos e libertados do amor e do domínio do pecado. Aquilo que é dito nesta cláusula diante de nós é que a culpa do pecado foi cancelada; a condenação; removida; a maldição da Lei, tirada e a sentença de absolvição foi pronunciada. Esta é a porção de todos os crentes: “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8:1). Devemos distinguir entre a justificação das nossas pessoas que aconteceu de uma vez por todas (Atos 13:39) e o perdão dos pecados que cometemos como Cristãos (1 João 1:9). Estes últimos devem ser penitencialmente confessados, e então somos perdoados e purificados com base no sangue de Cristo. É a justificação que está sendo referida em Apocalipse 1:5, onde o apóstolo João está se regozijando no amor dAquele cujo sangue tem de uma vez por todas lavado as pessoas dos santos. A purificação permanente do pecado que é necessária no dia a dia é reconhecida em Apocalipse 7:13-14, onde vemos os santos em brilhantes vestes brancas, vestes anteriormente manchadas da viagem, que foram lavadas, dia após dia (cf. João 13:3-17).

 

Eu sei que Tu não somente amaste,

Àqueles a quem amas, até o fim,

Mas que deste a eternidade passada os amaste.

E assim amas a mim.

 

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