O Coração Agraciado e o Coração Carnal, por Jeremiah Burroughs

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A piedade nos ensina este mistério: Não satisfazer-se com todo o mundo como a nossa porção, e ainda, estarmos contentes com pior condição em que estivermos. Quando grandes presentes foram enviados por duques e príncipes a Lutero, ele os recusou, e disse: “Eu veementemente protestei que Deus não me desencorajaria, então, não há nada que me contentará”. Pouco no mundo contentará um Cristão em sua peregrinação. 

Observem, aqui reside o mistério disto: Pouco no mundo contentará um Cristão em sua peregrinação, mas todo o mundo, e dez mil vezes mais, não contentarão um Cristão como a sua porção.  Um coração carnal contentar-se-á com estas coisas do mundo como a sua porção; e esta é a diferença entre um coração carnal e um coração agraciado.

Mas um coração piedoso diz: “Senhor, faz em mim o Teu querer durante a minha peregrinação por este mundo; eu me contentarei com isto, mas eu não posso estar contente com todo o mundo como a minha porção”. Então, este é o mistério do verdadeiro contentamento. Um homem contente, embora esteja mais satisfeito com as menores coisas no mundo, ainda assim ele é o homem mais insatisfeito que vive no mundo.

Uma alma que é capacitada por Deus não pode ser preenchida por nada senão Deus; nada senão Deus pode preencher uma alma que é capacitada por Deus. Enquanto um coração piedoso reconhece que é capacitado por Deus, e foi feito por Deus, o coração carnal pensa sem menção a Deus. Mas um coração piedoso, sendo dilatado para ser capacitado por Deus, e fruindo um pouco dEle, não pode ser preenchido por nada no mundo; deve ser preenchido somente pelo próprio Deus.

Portanto, vocês observarão, que independente do que Deus possa dar a um coração agraciado, um coração que é piedoso, sem que Ele dê a Si mesmo, isto não servirá. Um coração piedoso não terá apenas a misericórdia, mas o Deus de misericórdia também; e então, uma pequena significância é suficiente no mundo, se ele tem o Deus de misericórdia em Quem se deleita.

Em Filipenses 4:7,9 (Eu não necessito ir além para demonstrar a evidência da Escritura quanto a isto), compare o versículo 7 com o versículo 9:

"E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus”.

A paz de Deus guardará os vossos corações.

Então, no versículo 9:

"O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso fazei; e o Deus de paz será convosco".

A Paz de Deus vos guardará, e o Deus de paz será convosco.

Aqui está o que eu gostaria de considerar a partir deste texto: que a paz de Deus não é o suficiente para um coração piedoso, a não ser que ele possa ter o Deus desta paz. Um coração carnal poderia estar satisfeito se ele pudesse apenas ter paz exterior, embora esta não seja a paz de Deus; paz no governo, e em seus negócios, poderiam satisfazê-lo.

Mas, observe, quanto um coração agraciado vai além de um carnal. Toda paz exterior não é suficiente; eu devo ter a paz de Deus. Mas suponha que você tenha a paz de Deus, isso não tranquilizaria você? Não, eu necessito ter o Deus de paz; tanto a paz de Deus quanto o Deus de paz. Ou seja, eu devo fruir do Deus que me deu a paz; eu devo ter a Causa, bem como o efeito. Eu necessito contemplar de onde vem a minha paz, e fruir da Fonte de minha paz, bem como do ribeiro de minha paz.

E assim, em outras misericórdias: eu tenho saúde de Deus? Eu devo ter o Deus de minha saúde para ser a minha porção, ou de outra forma, eu não serei satisfeito. Não é a vida, mas o Deus de minha vida; não são as riquezas, mas o Deus destas riquezas, que eu devo ter, o Deus de minha preservação, bem como a minha preservação.

Um coração piedoso não é satisfeito sem isto: obter o Deus de misericórdia, bem como a misericórdia.

Em Salmos 73:25: “Quem tenho eu no céu senão a ti? e na terra não há quem eu deseje além de Ti”.

Não há nada no céu ou na terra pode satisfazer-me, somente Tu mesmo.

Se Deus desse a você não apenas a terra, mas o céu, que você pudesse dominar sobre o sol, lua e estrelas, e ter o domínio maior do que o maior dos filhos dos homens, isto não seria o suficiente para satisfazê-lo, a menos que você tivesse o próprio Deus.

Nisto reside o mistério do contentamento: E verdadeiramente, um homem contente, embora seja o homem mais contente no mundo, é o mais insatisfeito no mundo; ou seja, estas coisas que satisfarão o mundo, não o satisfarão. 

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