O Deus de Toda Graça, por A. W. Pink

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[Capítulo 7 do livro A Guide to Fervent Prayer • Editado]

 

“E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória, depois de havemos padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça. A ele seja a glória e o poderio para todo o sempre. Amém.” (1 Pedro 5:10-11)

 

Chegamos agora a uma oração apostólica cujo conteúdo, como um todo, é mui sublime. Seu conteúdo é extremamente completo, e um estudo cuidadoso e meditação piedosa, serão ricamente recompensados. Minha tarefa atual será realizada mais facilmente, pois estou fazendo uso extensivo da excelente e exaustiva exposição desta passagem por Thomas Goodwin. Ele foi favorecido com muita luz sobre esta porção das Escrituras, e eu gostaria de compartilhar com meus leitores o que tem sido de muita ajuda e bênção para mim, pessoalmente.

 

Há sete coisas que devemos considerar em relação a esta oração: (1) o suplicante, pois, há uma relação íntima e marcante entre as experiências de Pedro e os termos de sua oração; (2) a sua localização, pois está intimamente ligada com o contexto, particularmente com os versículos de 6 a 9; (3) o seu Objeto, ou seja, “o Deus de toda graça”, um título especialmente querido por Seu povo e apropriadíssimo neste contexto; (4) o seu fundamento, pois assim deve ser considerada a cláusula, “que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória”, (5) a sua petição, “ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça”; (6) sua qualificação “depois de havemos padecido um pouco”, pois embora essa cláusula precede a petição, ainda assim, logicamente a segue, quando o verso é tratado homileticamente; e (7) a sua atribuição: “A ele seja a glória e o poderio para todo o sempre. Amém”.

 

“E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória, depois de havemos padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça” (v. 10). Com estas palavras, o apóstolo começa o seu apelo Àquele que é a Fonte da graça, e Alguém, para quem o principal dos pecadores olha sem precisar se desesperar. Em seguida, ele menciona aquilo que dá prova a todos os crentes que Ele é realmente o Deus de toda a graça, a saber, o fato dEle tê-los chamado eficazmente da morte para a vida e tê-los tirado da escuridão da natureza para a Sua maravilhosa luz. E isso não é tudo, pois a regeneração é apenas um penhor do que Ele concebeu e tem preparado para eles, uma vez que Ele os chamou para sua glória eterna. A percepção dessa verdade move o apóstolo Pedro a rogar que, após um período de provas e aflição, Deus completaria a Sua obra de graça dentro deles. Aqui devemos claramente entender que Deus preservará o Seu povo da apostasia, os levará a perseverar até o fim, e, apesar de toda a oposição do mundo, da carne e do diabo, os levará em segurança para o céu.

 

A Experiência do Suplicante sobre a Graça Restauradora e Preservadora

 

Primeiro, consideremos esta oração suplicante. A pessoa que se aproximou de Deus, assim, era Simão Pedro. Enquanto Paulo tinha muito mais a dizer sobre a graça de Deus do que qualquer outro dos apóstolos, foi deixado ao pobre Pedro denomina-lo de “o Deus de toda graça”. Não teremos que procurar muito para descobrir a razão disso e a sua adequação. Enquanto Saulo de Tarso é o excelente troféu Neotestamentário da graça salvadora (pois o rei Manassés é um caso igualmente notável no Antigo Testamento), certamente Simão, que é o exemplo mais distinto no Novo Testamento (Davi fornece um paralelo sob a era Mosaica) da graça Divina restauradora e preservadora. O que é isso que parece a maior maravilha para um Cristão, que mais mobiliza e derrete o coração diante de Deus? É a graça mostrada a ele enquanto ele estava morto no pecado, aquilo que o levantou para fora do lamaçal e colocou-o sobre e dentro da Rocha Eterna? Ou será que é a graça exercida em direção a ele após a conversão que lida com a sua desobediência, ingratidão, afastamentos de seu primeiro amor, ofensas ao Espírito Santo, desonras a Cristo; e, no entanto, apesar de tudo, ama até o fim e continua ministrando a todas às suas necessidades? Se a experiência do leitor tiver algum em comum com a minha, ele não terá nenhuma dificuldade em responder.

 

Quem, senão aquele que tem sido feito dolorosamente sensível da praga em seu interior, que teve tantas provas tristes dos desesperados engano e maldade de seu próprio coração, e que tenha percebido algo da excessiva malignidade do pecado, não apenas à luz da santidade de Deus, mas enquanto isso é cometido contra o amor agonizante de seu Salvador, pode estimar corretamente a triste queda de Pedro? Pois a ele não somente foi concedido um lugar de honra entre os doze embaixadores do Rei da glória, mas o privilégio de contemplá-lO no monte da transfiguração, e foi um dos três que testemunhou mais do que qualquer outro as Suas agonias no Jardim. E depois, ouvi-lo, pouquíssimo tempo depois, negando o seu Mestre e Amigo com juramentos! Quem, senão alguém que tenha experimentado pessoalmente a “longanimidade de Deus” (1 Pedro 3:20, 2 Pedro 3:9,15), e tem sido o destinatário de Sua “grande misericórdia” (1 Pedro 1:3), pode realmente estimar e apreciar a maravilhosa infinita graça, (1) que moveu a Salvador a olhar tão tristemente, ainda assim, ternamente, sobre aquele que errou a ponto de fazê-lo sair e “chorar amargamente” (Lucas 22:62), (2) que o levou a ter uma conversa particular com Pedro depois da ressurreição (Lucas 24:34, 1 Coríntios 15:5), e (3) que, acima de tudo, não somente recuperou a ovelha perdida, mas o restaurou o apostolado (João 21:15-17)? Bem pode Pedro confessar a Cristo, juntamente com o Pai e o Espírito, como “o Deus de toda graça”!

 

Os Duplos Deveres dos Pastores Cristãos

 

Em segundo lugar, ponderemos sobre a configuração dessa oração, pois se examinarmos de perto veremos que há muito a ser aprendido e admirado. Antes de entrar em detalhes, observemos o contexto geral. Nos versículos anteriores o apóstolo estava fazendo uma série de exortações significativas. E uma vez que aquelas nos versículos de 6 a 9 são precedidas por imposições de Pedro sobre os servos públicos de Deus quanto às suas várias funções (vv. 1-4), permita-me dirigir uma palavra a eles em primeiro lugar. Que todos os sub-pastores de Cristo emulem o exemplo do que é aqui definido diante deles. Tendo ordenado aos crentes a andarem prudentemente, o apóstolo dobrou os joelhos e os encomendou ao cuidado da graça de Seu Deus, buscando por eles aquelas misericórdias que ele sentia que eles mais precisavam. O ministro de Cristo tem dois ofícios principais para executar com aquelas almas que estão comprometidas ao seu cuidado (Hebreus 13:17): falar de Deus para elas, e suplicar a Deus por elas. A semente que o ministro semeia não é susceptível de produzir muito fruto, a menos que ele, pessoalmente, a regue com suas orações e lágrimas. É apenas uma espécie de hipocrisia dele o exortar seus ouvintes a passarem mais tempo em oração, se ele não for um frequentador do trono da graça. O pastor só cumpriu metade de sua comissão quando ele proclamou fielmente todo o conselho de Deus; a outra parte deve ser realizada em privado.

 

Os Duplos Deveres dos Ouvintes e Estudantes da Palavra de Deus

 

O mesmo princípio é válido igualmente para aqueles no banco da igreja. O sermão mais profundo lucrará pouco ou nada ao ouvinte, a menos que ele seja transformado em oração fervorosa. Assim também com o que lemos! A medida em que Deus Se agrada em abençoar estes capítulos para cada um, será determinada pela influência que eles têm sobre você e os efeitos que produzem em você, conforme eles os levem aos joelhos em súplica sincera, buscando poder da parte do Senhor. Da exortação, o apóstolo voltou à súplica. Façamos o mesmo, ou ficaremos sem a força necessária para obedecer aos preceitos. Para os vários deveres inculcados no contexto, foi adicionada esta oração por capacitação Divina para o desempenho deles, embora árduos, e pela perseverança em cada tribulação, embora dolorosa. Observe, também, o bendito contraste entre os assaltos do inimigo nos versículos 8 e 9 e o caráter em que Deus é aqui visto, nos versículos 10 e 11. Não é isso designado para ensinar o santo que ele não tem nada a temer de seu vil adversário, enquanto ele recorre Àquele em quem habita toda a espécie de graça que é necessária para a sua presente caminhada, obra, combate e testemunho? Certamente esta é uma das principais lições práticas a serem extraídas dessa oração, enquanto nós a vemos à luz de seu contexto.

 

A Nossa Capacidade de Resistir a Satanás Depende de Oração

 

A menos que diariamente olhemos para e lancemo-nos sobre “o Deus de toda graça”, é certo que nunca seremos capazes de “resistir firmes na fé” ao nosso adversário, o diabo, que, “como leão, busca a quem possa tragar” (v. 8). E igualmente é certo que a graça Divina é necessária para nós, se quisermos “ser sóbrios e vigilantes”. Precisamos de graça fortalecedora para que possamos resistir com êxito a um inimigo tão poderoso como o diabo; precisamos de graça encorajadora, se devemos estar firmes na fé; e precisamos de graça produtora de paciência, a fim de suportarmos humildemente as aflições. Não apenas todo o tipo de graça está disponível para nós em Deus, mas todas as medidas, de modo que quando nos encontramos uma esgotada, podemos obter uma nova. Uma das razões por que Deus permite que Satanás ataque o Seu povo com tanta frequência e tão ferozmente é para que eles possam provar por si mesmos a eficácia da Sua graça. “E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda a boa obra” (2 Coríntios 9:8). Então, tragamos para Ele todos as vasilhas de nossas necessidades e nos inclinemos sobre a Sua plenitude inesgotável. Diz F.B. Meyer: “O oceano é conhecido por vários nomes, de acordo com as margens que ele banha, mas é o mesmo oceano. Assim, é sempre o mesmo amor de Deus, embora cada necessitado perceba e admire sua especial adaptação às suas necessidades”.

 

A Notável Correspondência Entre a Experiência de Pedro e sua Exortação e Oração

 

Mas, como Thomas Goodwin mostrou, há uma relação ainda mais clara entre esta oração e seu contexto, e entre ambos e a experiência de Pedro. Os paralelos entre eles estão tão próximos e numerosos que eles não podem ser acidentais. No Getsêmani, Cristo ordenou que ao Seu servo: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação” (Mateus 26:41), e em sua epístola Pedro exorta os santos, “Sede sóbrios e vigilantes”. Anteriormente, o Salvador o avisara: “Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo” (Lucas 22:31), e, como o Puritano expressou: “e agitar para fora toda a graça dele”. Então, no versículo 8 Pedro pontua o seu apelo à sobriedade e vigilância, dizendo: “porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar”. Mas, em conexão com a amorosa admoestação com que Cristo o confortou: “Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça” (Lucas 22:32). Como Goodwin ressalta: “Quando a fé não falha, Satanás é frustrado”. Da mesma forma, o apóstolo Pedro, na sua exortação, acrescenta: “Ao qual resisti firmes na fé”, o dom da fé, como Calvino o expõe. Embora a autoconfiança e coragem de Pedro faltaram-lhe, de forma que ele caiu, contudo a sua fé o livrou de dar lugar ao desespero abjeto, como Lucas 22:61-62, demonstra.

 

Nosso Senhor concluiu Seu discurso a Simão, dizendo: “e tu, quando te converteres [for trazido de volta, restaurado], confirma teus irmãos” (Lucas 22:32). Da mesma forma, o nosso apóstolo escreveu: “sabendo que as mesmas aflições se cumprem entre os vossos irmãos no mundo” (v. 9); e, em seguida, ele orou para que, depois de terem padecido um pouco, o Deus de toda graça os “aperfeiçoe [ou restaure], confirme, fortifique e estabeleça [-os]”. Ele orou por eles, pelo mesmo tipo de libertação, como a que ele mesmo experimentara. Finalmente, Goodwin observa que Cristo fortaleceu a fé de Pedro contra Satanás, anunciando-lhe a Sua oração: “Mas eu roguei por ti”, acima do que o pior inimigo poderia fazer. Portanto, Pedro também, após retratar o adversário dos santos em sua mais feroz característica, como “um leão que ruge”, traz, por meio de contraste, estas palavras: “E o Deus de toda a graça, que em Cristo Jesus nos chamou à sua eterna glória, depois de havemos padecido um pouco, ele mesmo vos aperfeiçoe, confirme, fortifique e estabeleça”. Ele, assim, assegura-lhes que Deus será o seu Guardião, Preservador e Fortalecedor. Se, não obstante o seu triste lapso, ele foi recuperado e preservado para a glória eterna, isso é uma garantia segura de que todos os verdadeiramente regenerados o serão também. Quão admiravelmente a Escritura (Lucas 22) interpreta a Escritura (1 Pedro 5)!

 

A Escolha Divina de Instrumentos Maravilhosamente Adequados para Escreverem as Suas Escrituras

 

Antes de passar para a nossa próxima seção, observemos e admiremos a forma como os instrumentos específicos que Deus emprega como Seus escritores para comunicar a Sua Palavra foram pessoalmente qualificados e experimentalmente capacitados para as suas diversas tarefas. Quem, senão Salomão era tão bem adequado para escrever o livro de Eclesiastes? Pois a ele foi oferecido oportunidades excepcionais para beber de todas as miseráveis cisternas deste mundo, e em seguida registrar o fato de que nenhuma satisfação deveria ser encontrada nelas. Ele, assim, foi provido de um adequado plano de fundo para os Cantares de Salomão, no qual um Objeto Satisfatório é exibido. Quão apropriada foi a seleção de Mateus para ser o autor do primeiro Evangelho, pois ele era o único dos Doze que detinha uma posição oficial antes de seu chamado para o ministério (um coletor de impostos a serviço dos Romanos). Ele, dentre os quatro evangelistas, apresenta Cristo mais claramente em Seu caráter oficial como o Messias e Rei de Israel. Marcos, aquele que ministrou o outro (2 Timóteo 4:11), é o escolhido para apresentar a Cristo como o servo de Jeová. Quem era tão eminentemente adaptado para escrever sobre o tema bendito do amor Divino (como ele faz ao longo de sua Epístolas) quanto aquele que foi tão altamente favorecido como o inclinar-se sobre o seio do Deus Amado? Assim, aqui Pedro é o único que tão ternamente designou a Divindade como: “o Deus de toda graça”. E assim é hoje. Quando Deus chama alguém para o ministério, Ele experimentalmente o capacita, qualificando-o para a obra específica que Ele o concede realizar.

 

Que Ele é “o Deus de Toda Graça” é Exclusivamente uma Verdade Evangélica

 

Em terceiro lugar, contemplemos o seu objeto: “O Deus de toda graça”. A natureza não O revela como tal, pois o homem tem que trabalhar arduamente e ganhar o que ele obtém dela. As obras da providência não o fazem, pois há um aspecto severo, bem como um benigno nelas; e, como um todo, elas antes exemplificam a verdade que colhemos o que semeamos. Menos ainda a Lei, como tal, apresentam a Deus nesta característica, pois sua recompensa é uma questão de dívida e não de graça. É somente no Evangelho que Ele é claramente manifestado como “o Deus de toda graça”. A nossa avaliação dEle como tal, é exatamente proporcional à nossa desvalorização de nós mesmos, pois a graça é o favor gratuito de Deus pelos que são indignos e merecedores do mal. Portanto, não podemos realmente apreciá-lO até que sejamos feitos sensíveis à nossa absoluta indignidade e vileza. Ele poderia muito bem ser o Deus da justiça inflexível e ira impiedosa aos rebeldes contra o Seu governo. Tal de fato, Ele é para todos os que estão fora de Cristo, e continuará assim por toda a eternidade. Mas o glorioso Evangelho desvela aos pecadores merecedores do inferno a maravilhosa graça de Deus para perdoar, e para purificar o mais sujo que se arrepende e crê. A graça concebeu o plano da redenção; a graça o executa; e a graça o aplica e o torna eficaz. Pedro previamente fez menção da “multiforme graça de Deus” (1 Pedro 4:10), pois nada menos valerá para aqueles que são culpados de “muitas transgressões” e “graves pecados” (Amós 5:12). A graça de Deus é múltipla, não só numericamente, mas em tipo, na rica variedade de suas manifestações. Todas as bênçãos que desfrutamos devem ser atribuídas à graça. Mas a denominação: “o Deus de toda graça” é ainda mais abrangente; sim, é incompreensível para todas as inteligências finitas. Este título, como vimos, é colocado em oposição ao que se diz sobre o diabo no versículo 8, onde ele é retratado em toda o seu horror: como nosso adversário, pela malícia; comparado a um leão, pela força; a um leão que ruge, pelo pavor; descrito como andando em derredor, pela diligência incansável, “buscando a quem possa tragar” a menos que Deus evite. Bem-aventurado e consolador é o contraste: “Mas Deus”, o Todo-Poderoso, o Autossuficiente, Todo-suficiente e Único “Deus de toda graça”. Quão consolador é destacar este atributo quando lidamos com Satanás em tentação! Se o Deus de toda graça é por nós, quem será contra nós? Quando Paulo foi tão severamente julgado pelo mensageiro (anjo) de Satanás que foi enviado para esbofeteá-lo, e ele orou três vezes para a sua remoção, Deus lhe assegurou o Seu alívio: “A minha graça te basta” (2 Coríntios 12:9).

 

O Deus de Toda Graça: Um Grande Incentivo à Oração

 

Embora menção seja feita frequentemente nas Escrituras sobre a graça de Deus e sobre o Seu gracioso Ser, ainda assim, em nenhum lugar, senão neste versículo é que O encontraremos denominado “o Deus de toda graça”. Há uma ênfase especial aqui que solicita a nossa melhor atenção: Ele não é simplesmente “o Deus de graça”, mas “o Deus de toda graça”. Como Goodwin mostrou, Ele é “o Deus de toda graça” (1) essencialmente em Seu próprio caráter, (2) em Seu propósito eterno sobre o Seu povo, e (3) em Seu tratamento eficaz para com eles. O povo de Deus, pessoalmente, recebe a prova constante de que Ele é realmente assim; e aqueles cujos pensamentos são moldados por Sua Palavra, conhecem que os benefícios com os quais Ele diariamente os supre são os desdobramentos de Seu gracioso desígnio eterno para com eles. Mas eles precisam ir ainda mais para trás, ou levantar os olhos ainda mais alto, e perceber que todas as riquezas da graça que Ele ordenou, e das quais somos feitos destinatários, são a partir de e em Sua própria natureza. “A graça em Sua natureza é a fonte ou nascente; a graça de Seus propósitos é o manancial e a graça em Suas dispensações, os córregos”, diz Goodwin. Foi a graça de Sua natureza que O levou a formar “pensamentos de paz” sobre o Seu povo (Jeremias 29:11), como é a graça em Seu coração que O move a cumprir o mesmo. Em outras palavras, a graça de Sua própria natureza, o que Ele é em Si mesmo, é tal que garante o fazer o bem em todos os Seus desígnios benevolentes.

 

Como Ele é o Todo-Poderoso, Autossuficiente e Onipotente, com Quem todas as coisas são possíveis, assim Ele é também um Deus Todo-misericordioso em Si mesmo, não carecendo de nenhuma perfeição que O torne infinitamente benigno. Há, portanto, um mar de graça em Deus para nutrir todos os fluxos de Seus propósitos e dispensações que são compartilhadas a partir dos mesmos. Aqui, então, está a nossa grande consolação: toda a graça que há em Sua natureza, que faz com que Ele seja o “Deus de toda graça” para Seus filhos, torna certo não somente que Ele assim Se manifestará tal para eles, mas garante o suprimento de cada necessidade deles, e garante o transbordar das riquezas da Sua graça sobre eles nos séculos vindouros (Efésios 2:7). Olhe, então, para além dessas correntes de graça das quais você agora compartilha com o Deus-homem, Jesus, o Ungido, que é “cheio de graça” (João 1:14), e peça por contínuo e maior suprimento a partir dEle. A estreiteza está em nós mesmos e não nEle, pois em Deus há uma oferta sem fronteiras e sem limites. Peço-lhe (como eu me incito) que lembre que quando você vem para o propiciatório (para dar a conhecer os seus pedidos) você está prestes a suplicar ao “Deus de toda graça”. NEle há um oceano infinito para dispensar, e Ele ordena você a ir até Ele, dizendo: “abre bem a tua boca, e ta encherei” (Salmos 81:10). Não em vão Ele declarou: “Seja-vos feito segundo a vossa fé” (Mateus 9:29).

 

Somente pela Fé Nós Podemos Fruir do Deus de Toda Graça

 

O Doador é maior do que todos os Seus dons, mas deve haver uma fé pessoal e que se apropria para que qualquer um de nós desfrute dEle. Só assim podemos particularizar o que é geral. Deus é o Deus de toda a graça a todos os santos, mas a fé tem que ser dirigida individualmente em direção a Deus por mim, se devo conhecer e deliciar-me nEle, no que Ele realmente é. Temos um exemplo disso no Salmo 59, onde Davi declarou: “O Deus da minha misericórdia virá [ou “antecipará”] ao meu encontro” (v. 10). Aqui nós o encontramos apropriando-se de Deus para si mesmo, pessoalmente. Observe, em primeiro lugar, como Davi se apega à misericórdia essencial de Deus, daquela misericórdia que está incorporada em Sua própria natureza. Ele exulta novamente no versículo 17: “A ti, ó fortaleza minha, cantarei salmos; porque Deus é a minha defesa e o Deus da minha misericórdia”. O Deus de toda graça é a minha força. Ele é o meu Deus, e, portanto, o Deus da minha misericórdia. Eu reivindico a Ele como tal; toda a misericórdia que há nEle é minha. Uma vez que Ele é o meu Deus, então tudo o que há nEle é meu. Foi, afinal, a misericórdia e a graça que estão nEle que O levou a colocar Seu amor sobre mim e entrar em aliança comigo, dizendo: “Eu serei seu Deus, e ele será meu filho” (Apocalipse 21:7). […].

 

Assim, vemos que a misericórdia de Deus deve ser empregada em nosso nome, na hora de nossa necessidade, como se cada um de nós fosse Seu único filho. Tão certo como herdamos a culpa e misérias das transgressões de Adão, nós que estamos em Cristo, temos posse de todas de graça e misericórdia de Deus.

 

Além disso, observa-se que Davi se apodera da intencional misericórdia Deus. Cada santo indivíduo tem nomeada e atribuída a ele o que ele pode chamar de “minha misericórdia”. Deus separou em Seu decreto uma porção tão abundante que nunca pode ser esgotada tanto por seus pecados ou por suas necessidades. “O Deus da minha misericórdia virá ao meu encontro”. Desde toda a eternidade Ele antecipou e fez antecipada provisão integral para todas as minhas necessidades, assim como um pai sábio tem uma farmácia preparada com remédios para as doenças de seus filhos. “E será que antes que clamem eu responderei; estando eles ainda falando, eu os ouvirei” (Isaías 65:24). Que maravilhosa condescendência é que Deus torne isso uma característica de Si mesmo, de forma que Ele se torne o Deus da misericórdia de cada filho Seu, em particular!

 

Finalmente, lancemos mão de Sua misericórdia distribuída, a qual é, na verdade, derramada sobre nós a cada momento. Aqui, também, o crente tem toda ocasião para dizer: “O Deus da minha misericórdia”, pois todas as bênçãos usufruídas por mim fluem de Sua mão. Este não é um título vazio dEle, pois o fato do uso de Davi do que é registrado para nós na Sagrada Escritura garante que Ele o fará bem. Quando eu o uso em verdadeira fé e dependência como de criança sobre Ele, Ele Se compromete a cuidar dos meus interesses, em todos os sentidos. Ele não somente é o meu Deus pessoalmente, mas também o das minhas necessidades.
 

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