O Grande Pastor das Ovelhas, por A. W. Pink

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[Capítulo 1 do livro A Guide to Fervent Prayer • Editado]

 

“Ora, o Deus de paz, que pelo sangue da aliança eterna tornou a trazer  Dos mortos a nosso Senhor Jesus  Cristo, grande pastor das ovelhas, vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável por Cristo Jesus, ao qual seja glória Para todo o sempre. Amém.” (Hebreus 13:20-21)

 

Esta oração contém um epítome notável de toda a epístola, uma epístola para a qual cada ministro do Evangelho deve dedicar atenção especial. Nada mais é tão necessário hoje, quanto sermões expositivos sobre as Epístolas aos Romanos e aos Hebreus, a primeira supre o que é mais adequado para repelir o legalismo, o antinomianismo e o Arminianismo que agora são tão abundantes, enquanto a última refuta os erros cardeais de Roma e expõe as pretensões sacerdotais dos seus clérigos. Isso fornece o antídoto Divino para o espírito venenoso do ritualismo que agora está fazendo tais incursões fatais em tantas seções de um protestantismo decadente. Aquilo que ocupa a parte central neste tratado vitalmente importante e mui bendito é o sacerdócio de Cristo, que encarna a essência do que foi prenunciado tanto em Melquisedeque quanto em Arão. No livro de Hebreus é mostrado que Seu único sacrifício perfeito para sempre deslocou as instituições levíticas e pôs um fim a todo o sistema judaico. Essa oblação toda-suficiente do Senhor Jesus fez completa expiação pelos pecados de Seu povo, satisfazendo plenamente cada reivindicação legal que a Lei de Deus tinha sobre eles, tornando assim desnecessário qualquer esforço deles para apaziguá-lO. “Porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados” (Hebreus 10:14). Ou seja, Cristo separou infalível e irrevogavelmente para o serviço de Deus os que creram, e isso pela excelência de Sua obra consumada.

 

A Ressurreição Declara a Aceitação da Obra do Cristo de Deus

 

Aceitação de Deus em relação ao sacrifício expiatório de Cristo foi demonstrada pelo fato de que Deus ressuscitou a Cristo dentre os mortos e o pôs à direita da Majestade nas alturas. O que caracterizou o Judaísmo foi o pecado, a morte e o afastamento de Deus, o perpétuo derramamento de sangue e o povo afastado da presença Divina. Porém o que marca o Cristianismo é um Salvador ressuscitado e entronizado, que afastou os pecados de Seu povo de diante da face de Deus e garantiu para eles o direito de acesso a Ele. “Tendo, pois, irmãos, ousadia [liberdade] para entrar no santuário, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo um grande sacerdote sobre a casa de Deus, cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé” (Hebreus 10:19-22a). Assim, somos encorajados a nos aproximarmos de Deus com plena confiança nos méritos infinitos do sangue e justiça de Cristo, dependendo inteiramente destes. Em sua oração, o apóstolo faz súplica para que a totalidade do que ele havia estabelecido diante deles na parte doutrinária da Epístola seja efetivamente aplicada aos seus corações. Em uma breve, mas abrangente frase, Paulo ora para que toda graça e virtude fossem operadas na vida dos Hebreus redimidos, para o que eles foram exortados nos capítulos anteriores. Devemos considerar o objeto, o fundamento, o pedido e a doxologia desta invocação de bênção.

 

Os Títulos Divinos Invocados Distintamente

 

“O Deus da paz” é Aquele a quem a oração é dirigida. Como eu indiquei em algum dos capítulos do meu livro chamado Compilações de Paulo, os vários títulos pelos quais os apóstolos abordaram a Divindade não foram utilizados de forma aleatória, mas foram escolhidos com discernimento espiritual. Eles não foram nem tão extremamente pobres na linguagem a ponto de sempre suplicar a Deus usando o mesmo nome, nem eram tão descuidados a ponto de se dirigirem a Ele com o primeiro nome que lhes viesse à mente. Em vez disso, em suas abordagens a Ele, cuidadosamente escolhiam aquele atributo da natureza Divina, ou aquela relação especial que Deus mantém com o Seu povo, que mais se conformava à bênção específica que buscavam. O mesmo princípio de discriminação aparece nas orações do Antigo Testamento. Quando os santos homens do passado buscavam por força, eles olhavam para o Poderoso. Quando desejavam perdão, eles apelavam para “a multidão de Suas misericórdias”. Quando eles clamavam por libertação de seus inimigos, eles pleiteavam a Sua fidelidade à aliança.

 

O Deus da Paz

 

Eu abordei este título “o Deus da paz”, no capítulo 4 de Compilações de Paulo (pp. 41-46), mas gostaria de explica-lo ainda mais com várias linhas de pensamento.

 

Primeiro, é um título distintamente Paulino, uma vez que nenhum outro escritor do Novo Testamento emprega a expressão. Seu uso aqui é uma das muitas provas internas de que ele era o escritor desta epístola. Ele ocorre seis vezes em seus escritos: Romanos 15:33 e 16:20; 2 Coríntios 13:11; Filipenses 4:9; 1 Tessalonicenses 5:23 e aqui em Hebreus 13:20; “O Senhor da paz” é usado uma vez em 2 Tessalonicenses 3:16. É evidente, portanto, que Paulo tinha um prazer especial em contemplar Deus neste caráter particular. E ele bem poderia, pois este é algo extremamente bendito e abrangente; é por essa razão, que eu fiz o meu melhor, de acordo com a medida de luz concedida a mim, para expor o seu significado. Um pouco mais tarde eu irei sugerir o porquê de Paulo, em vez de qualquer outro dos apóstolos, ter sido aquele que cunhou esta expressão.

 

Em segundo lugar, é um título forense, vendo Deus em Seu caráter oficial como Juiz. Isso nos diz que Ele agora está reconciliado com os crentes. Significa que a inimizade e conflito que existiam anteriormente entre Deus e os pecadores eleitos, agora chegaram ao fim. A hostilidade anterior tinha sido ocasionada pela apostasia do homem de seu Criador e Senhor. A entrada do pecado neste mundo perturbou a harmonia entre o céu e a terra, rompeu a comunhão entre Deus e o homem, e marcou o início da discórdia e luta. O pecado evocou o justo desagrado de Deus e clamou por Sua ação judicial. A alienação mútua se seguiu; pois, um Deus santo não pode estar em paz com o pecado, estando “irado com os ímpios todos os dias” (Salmos 7:11). Mas a sabedoria Divina dispusera um modo pelo qual os rebeldes seriam restaurados ao Seu favor sem a menor diminuição de Sua honra. Através da obediência e sofrimentos de Cristo a reparação integral foi feita para com a Lei, e a paz foi restabelecida entre Deus e os pecadores. Pelas operações graciosas do Espírito de Deus, a inimizade que estava no coração de Seu povo é superada, e eles são trazidos em leal sujeição a Ele. Assim, a discórdia foi removida e a amizade criada.

 

Em terceiro lugar, é um título restritivo. Deus é “o Deus da paz” apenas para aqueles que estão unidos salvificamente a Cristo, pois agora não há nenhuma condenação há para aqueles que estão nEle (Romanos 8:1). Mas o caso é muito diferente em relação àqueles que se recusam curvarem-se perante o cetro do Senhor Jesus e a se abrigarem debaixo de Seu sangue expiatório. “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece” (João 3:36). Observe que não é que o pecador ainda ficará sob a ira do Deus da Lei, mas que ele já está sob ela. “Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça” (Romanos 1:18). Além disso, em virtude de sua relação federal com Adão, todos os descendentes deste são “por natureza filhos da ira” (Efésios 2:3), e entram neste mundo, como os objetos do desprazer judicial de Deus. Longe de ser “o Deus de paz” para aqueles que estão fora de Cristo, “o SENHOR é homem de guerra” (Êxodo 15:3). Ele “é tremendo para com os reis da terra” (Salmos 76:12).

 

“O Deus da Paz”, um título Evangélico

 

Em quarto lugar, este título, “o Deus de paz”, é, portanto, um título evangélico. A boa nova que Seus servos são comissionados a pregar a toda criatura é designada “o evangelho da paz” (Romanos 10:15). Mui apropriadamente é assim nomeado, pois apresenta a Pessoa gloriosa do Príncipe da paz e da Sua obra todo-suficiente pela qual Ele fez “a paz pelo sangue da Sua cruz” (Colossenses 1:20). O empreendimento do evangelista é explicar como Cristo o fez, isto é, pela Sua entrada na terrível brecha que o pecado havia feito entre Deus e os homens, e por ter transferido a Ele as iniquidades de todos os que creem nEle, sofrendo a completa penalidade que era devida por essas iniquidades. Quando o Inocente foi feito pecado por Seu povo, Ele veio sob a maldição da Lei e da ira de Deus. É de acordo com o Seu próprio propósito eterno de graça (Apocalipse 13:8) que Deus o Pai declara: “Desperta, ó espada, contra o meu pastor, e contra o varão que é o meu companheiro” (Zacarias 13:7). A justiça, tendo sido satisfeita, Deus está agora apaziguado; e todos os que somos justificados pela fé “temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo” (Romanos 5:1).

 

Em quinto lugar, é, portanto, um título da aliança, pois tudo o que foi acordado entre Deus e Cristo foi de acordo com a estipulação eterna. “E o conselho de paz haverá entre ambos os ofícios” (Zacarias 6:13). Foi eternamente concordado que o bom Pastor faria a completa satisfação pelos pecados do Seu rebanho, reconciliando Deus com eles e eles com Deus. Esse pacto entre Deus e o Fiador dos seus eleitos é expressamente denominado um “pacto de paz”, e a inviolabilidade do mesmo aparece nessa bendita declaração: “Porque os montes se retirarão, e os outeiros serão abalados; porém a minha benignidade não se apartará de ti, e a aliança da minha paz não mudará, diz o Senhor que se compadece de ti” (Isaías 54:10). O derramamento do sangue de Cristo foi o selo ou ratificação da aliança, como Hebreus 13:20 prossegue em intimar. Em consequência disso, a face do Juiz Supremo está envolta em sorrisos de benignidade enquanto Ele contempla o Seu povo em Seu Ungido.

 

Em sexto lugar, este título “o Deus da paz” é também um título dispensacional, e como tal, teve um apelo especial para aquele que tão frequentemente o utiliza. Apesar de ser um judeu por nascimento, e um Hebreu de Hebreus por formação, Paulo foi chamado por Deus para “pregar aos gentios as insondáveis riquezas de Cristo” (Efésios 3:8). Este fato pode indicar a razão pela qual esta denominação, “o Deus de paz”, é peculiar a Paulo; pois, ao passo que os outros apóstolos ministravam e escreviam principalmente para a circuncisão, Paulo era o apóstolo por excelência para a incircuncisão. Portanto, ele, mais do que qualquer um, renderia adoração a Deus em consideração ao fato de que a paz estava sendo pregada aos que estavam longe, bem como para aqueles que estavam perto (Efésios 2:13-17). A revelação especial foi feita para ele a respeito de Cristo: “Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um [judeus e gentios crentes]; e, derrubando a parede de separação que estava no meio [a lei cerimonial, que sob o Judaísmo os havia dividido], para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz [entre eles], E pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades” (Efésios 2:14-16). Assim, por conta dele ter recebido essa revelação especial, havia uma propriedade particular no fato do Apóstolo dos gentios se dirigir a Deus por meio deste título, ao fazer súplica pelos Hebreus, assim como acontecia quando ele usava este título para orar pelos gentios.

 

Por fim, este é um título relativo. Com isto eu quero dizer que ele está intimamente relacionado à experiência Cristã. Os santos não são apenas os sujeitos daquela paz judicial que Cristo fez com Deus em nome deles, mas eles também são os participantes da graça Divina, experimentalmente. A medida da paz de Deus que eles fruem é determinada pela medida em que eles são obedientes a Deus, pois a piedade e a paz são inseparáveis. A conexão íntima que existe entre a paz de Deus e a santificação dos fiéis aparece tanto em 1 Tessalonicenses 5:23, como aqui em Hebreus 13:20-21. Pois em cada passagem a solicitação é feita pela promoção da santidade prática, e em cada uma, o “Deus da paz” é suplicado. Quando a santidade reinava sobre todo o universo, a paz também prevalecia. Não houve guerra no céu até que um dos chefes dos anjos tornou-se um demônio, e fomentou uma rebelião contra o Deus três vezes santo. Como o pecado traz conflitos e miséria, assim a santidade gera paz de consciência. A santidade é agradável a Deus, e quando Ele se agrada tudo é paz. Quanto mais esta oração é ponderada em detalhe, e como um todo, mais a adequação de seu discurso aparecerá.

 

A Ressurreição de Cristo por Deus, Nosso Argumento

 

“Ora, o Deus de paz, que pelo sangue da aliança eterna tornou a trazer dos mortos a nosso Senhor Jesus Cristo, grande pastor das ovelhas” (v. 20). Esta referência à libertação de Cristo do túmulo eu considero como o argumento sobre o qual o apóstolo baseia o pedido que segue. Posto que eu considero que este seja um dos versículos mais importantes do Novo Testamento, darei a minha melhor atenção a cada palavra nele, tanto mais que parte de seu conteúdo maravilhoso é tão pouco compreendido hoje. Devemos observar, em primeiro lugar, o personagem no qual o Salvador é visto aqui; em segundo lugar, o ato de Deus em trazê-lO dentre os mortos; em terceiro lugar, a conexão entre o ato e Seu ofício como “o Deus de paz”; em quarto lugar, como esta causa meritória do mesmo era “o sangue da aliança eterna”, e em quinto lugar, o poderoso motivo que a causa meritória fornece para encorajar os santos, com confiança se achegarem ao trono da graça, onde eles podem alcançar misericórdia e achar graça para socorro em ocasião oportuna. Que o Espírito Santo se digne a ser o nosso Guia, enquanto nós, em oração, ponderamos essa porção da verdade.

 

O Grande Pastor das Ovelhas

 

Este título de Cristo era mais pertinente e adequado em uma Epístola aos judeus convertidos, pois o Antigo Testamento lhes havia ensinado a olhar para o Messias nessa função específica. Moisés e Davi, tipos eminentes dEle, eram pastores. Quanto ao primeiro, é dito: “Guiaste o teu povo, como a um rebanho, pela mão de Moisés e de Arão” (Salmos 77:20). Sob o nome do segundo, Deus prometeu o Messias de Israel: “E suscitarei sobre elas um só pastor, e ele as apascentará; o meu servo [o antitípico] Davi é que as apascentará; ele lhes servirá de pastor” (Ezequiel 34:23). Que aqui Paulo faz referência a esta profecia em particular é claro a partir de que ele chegou a dizer: “E farei com elas uma aliança de paz” (v. 25). Aqui em Hebreus 13:20, as mesmas três coisas estão reunidas: o Deus de paz, o grande Pastor e a aliança eterna, e isto de uma forma (em perfeito acordo com o tema da Epístola) que refutou a concepção errônea que os judeus tinham formado sobre o seu Messias. Eles imaginavam que Ele lhes garantiria uma libertação exterior, como Moisés fizera, e um próspero Estado nacional como Davi erguera. Eles não tinham ideia de que Ele derramaria o Seu precioso sangue e seria colocado no túmulo, embora eles deveriam ter conhecido e compreendido isso à luz da revelação profética.

 

Quando Cristo apareceu no meio deles, Ele definitivamente Se apresentou aos judeus nestas características. Ele não apenas declarou: “Eu sou o bom pastor”, mas acrescentou o seguinte: “o bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas” (João 10:11). João Batista, o precursor de Cristo, anunciou a Sua manifestação pública desta maneira: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29). Neste caráter dual, ou sob esta dupla revelação, o Senhor Jesus havia sido profetizado em Isaías 53 (como visto contra o pano de fundo de Ezequiel 34): “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele [ou seja, o Pastor, cujas ovelhas somos nós!] a iniquidade de nós todos”! (Isaías 53:6; cf. Zacarias 13:7). Observe a congruência maravilhosa da expressão entre o versículo seguinte da profecia de Isaías (53:7) e a oração que estamos estudando. Isaías profetiza: “Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca”. Observe como o mesmo Espírito que inspirou Isaías leva Paulo a dizer em Hebreus 13:20 que Deus, não “levantou”, mas “tornou a trazer dos mortos a nosso Senhor Jesus Cristo, grande pastor das ovelhas”. O fato de que Deus trouxe de volta dos mortos este grande Pastor significa que o Pai tinha anteriormente O levado à morte como um Substituto, um Cordeiro expiatório, pelos pecados de Suas ovelhas. Quão minuciosamente exata é a linguagem da Sagrada Escritura e quão perfeita a harmonia — a harmonia verbal — do Antigo e do Novo Testamento!

 

Pedro, em sua primeira epístola, sob o Espírito, se apropriou da mesma profecia maravilhosa sobre o Senhor Jesus. Depois de se referir a Ele como o “cordeiro imaculado e incontaminado”, por meio de Quem somos redimidos (1 Pedro 1:18-19), ele passa a citar algumas das expressões preditivos de Isaías 53, aquela que fala sobre nós “como ovelhas desgarradas”; aquela que se refere à virtude salvadora da paixão expiatória de Cristo: “por suas feridas fostes sarados”; e o ensino geral da profecia, que ao carregar os nossos pecados em Seu próprio corpo sobre o madeiro, Cristo realizou o acordo celestial com o justo Juiz, como “o Pastor e Bispo de vossas [nossas] almas” (1 Pedro 2:24-25). Assim, ele foi levado a expor Isaías retratando o Salvador como um Cordeiro na morte e um Pastor na ressurreição. A inescusável ignorância dos judeus sobre Cristo neste ofício particular aparece ainda mais nisto, ainda que a outro de seus profetas foi anunciado que Deus disse: “Desperta, ó espada, contra o meu pastor, contra o homem que é o meu companheiro, diz o Senhor dos exércitos; fere ao pastor…” (Zacarias 13:7). Ali Deus é visto em Seu caráter judicial como estando irado com o pastor por nossa causa, uma vez que Ele levou os nossos pecados, a justiça deve tomar satisfação dEle. Assim, “o castigo de nossa paz” foi colocado sobre Ele, e o bom Pastor deu a Sua vida pelas ovelhas como uma satisfação das justas reivindicações de Deus.

 

Este Grande Pastor

 

A partir do que foi exposto acima, podemos perceber melhor o motivo pelo qual o apóstolo Paulo O chamou de: “o grande pastor”, Aquele que não apenas foi prenunciado por Abel, pelos pastores patriarcais; tipificado por Davi, mas também retratado como o Pastor de Jeová nas predições Messiânicas. Devemos notar que as Suas duas naturezas foram contempladas sob esta denominação: “meu pastor […] o homem que é o meu companheiro, diz o Senhor dos Exércitos” (Zacarias 13:7). Como o profundo Goodwin apontou séculos atrás, este título também implica todos os ofícios de Cristo: Sua função profética: “Como pastor apascentará o seu rebanho” (Isaías 40:11; cf. Salmos 23:1-2); Seu ofício sacerdotal: “o bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas” (João 10:11); Seu ofício real: pois o mesmo trecho que anunciou que Ele seria o Pastor sobre o povo de Deus, também O denominou um “príncipe” (Ezequiel 34:23-24). O próprio Cristo aponta para a ligação entre Seu ofício real e Sua descrição como um pastor: “E quando o Filho do homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; e todas as nações serão reunidas diante dele, e apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas” (Mateus 25:31-32). Ele é de fato este “grande Pastor”, todo-suficiente para o Seu rebanho.

 

Um Pastor Deve Ter Ovelhas

 

“Ora, o Deus de paz, que pelo sangue da aliança eterna tornou a trazer dos mortos a nosso Senhor Jesus Cristo, grande pastor das ovelhas”. Veja ali a relação do Redentor com os remidos. Pastor e ovelhas são termos correlatos, não se pode chamar adequadamente qualquer homem de um pastor se ele não tem ovelhas. A ideia de Cristo como Pastor implica, necessariamente, que haja um rebanho eleito. Cristo é o Pastor das ovelhas, e não dos lobos (Lucas 10:3), nem mesmo dos bodes (Mateus 25:32-33), pois Ele não recebeu nenhuma ordem de Deus para salvá-los. Como a verdade fundamental da redenção particular nos confronta em inúmeras passagens em toda a Escritura! “Ele não derramou a Sua vida por todo o rebanho da humanidade, mas pelo rebanho dos eleitos que foi dado a Ele pelo Pai, como Ele declarou em João 10:14-16, 26” (John Owen).

 

Observe também como este título indica a Sua Mediação: como o Pastor Ele não é o derradeiro Senhor do rebanho, mas o Servo do Pai, que se encarrega e cuida dele: “Eram teus, e tu mos deste” (João 17:6). A relação de Cristo em relação a nós é ainda vista na frase “nosso [não o] Senhor Jesus”. Ele é, portanto, o nosso Pastor: nosso, em Seu ofício pastoral, que Ele ainda está mantendo; nosso, enquanto trazido dos mortos, para que nEle ressuscitemos (Colossenses 3:1).

 

A Superioridade de Cristo, o Grande Pastor

 

As palavras “grande pastor das ovelhas” enfatizam a superioridade imensurável de Cristo sobre todos os pastores típicos e ministeriais de Israel, assim como as palavras “um grande sumo sacerdote” (Hebreus 4:14) acentuam a Sua eminência sobre Arão e os sacerdotes Levitas. Da mesma forma, isso denota a Sua autoridade sobre os pastores que Ele coloca sobre as Suas igrejas, pois Ele é “o Sumo Pastor” (1 Pedro 5:4) em relação a todos os sub-pastores. Ele é o Pastor das almas; e uma delas vale muito mais do que todo o mundo, tal é o valor que Ele coloca sobre elas ao redimi-las com o Seu próprio sangue. Esse adjetivo também olha para a excelência de Seu rebanho, Ele é o grande Pastor sobre um rebanho inteiro, indivisível composto tanto de judeus quanto de gentios. Assim, Ele declarou: “Ainda tenho outras ovelhas que não são deste [judeus] aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor” (João 10:16. Este “um rebanho”, um único rebanho, compreende todos os santos, tanto do Antigo e do Novo Testamentos (veja também como o Apóstolo Paulo estabelece essa unidade do povo de Deus, por sua metáfora da oliveira em Romanos 11). A frase “o grande Pastor” também tem relação com Suas habilidades: Ele tem um conhecimento específico de todas e cada uma de Suas ovelhas (João 10:3); Ele tem a habilidade de reuni-las, alimenta-las, e curá-las (Ezequiel 34:11-16); e Ele tem poder para preservá-las efetivamente. “E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão” (João 10:28). Então, quão grandemente nós devemos confiar nEle, amá-lO, honrá-lO, adorá-lO e obedecê-lO!
 

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