O Problema do Mal, Por William Downing

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INTRODUÇÃO

 

Desde os tempos dos primeiros filósofos gregos, muitos pensadores se preocuparam com o que se tornou conhecido como o “problema do mal”1. O presente artigo visa apresentar e analisar esta questão a partir da perspectiva da Escritura, e, a partir do raciocínio das Escrituras, fazer uma defesa inteligente e coerente da posição bíblica.

 

Qual é o “problema do mal”?

 

O “problema do mal” pode ser indicado nos seguintes termos: Como pode existir o mal em um universo criado e governado por um Deus todo-poderoso e benevolente [inerentemente e completamente bom]?

 

PRESSUPOSTOS

 

Deve ser entendido desde o início que todo o pensamento humano é pressuposicional, ou seja, o homem não é intelectualmente neutro [não tem a mente completamente aberta], mas se aproxima de um determinado assunto com certos pressupostos que regem o seu processo de pensamento. Isto certamente é evidente no âmbito da teologia e da metafísica. Questões como a finitude da razão humana, a natureza da revelação especial Divina2, e os efeitos noéticos do pecado3, todos estes três exercem uma influência determinante sobre o tema da origem do pecado e do problema do mal. Criaturas finitas simplesmente não podem compreender um Ser infinito, a menos que o Ser infinito, de alguma forma condescenda em revelar-Se ou revelar Suas ações a elas. À parte de uma revelação Divina, eles são simplesmente deixados com uma especulação centrada no homem, finita, empírica ou filosófica.

 

O Deus Triuno e autorrevelado, o Criador e Governador do universo, no entanto, escolheu revelar a Si mesmo, Sua auto-consistência moral, Seu propósito redentivo e algumas das principais questões acerca do bem e do mal, da justiça e do juízo, em Sua Palavra escrita — Palavra esta que é compreensível, inspirada, infalível e autoritativa. Esta revelação especial Divina não é exaustiva, mas é suficiente para a fé e prática. O conhecimento do homem, no entanto, não é apenas finito, é ainda limitado pelos efeitos noéticos do pecado. Assim, há uma determinada quantidade de prejuízo ou limitação pecaminosa de sua parte quando se aproxima da verdade Divina. As Escrituras devem ser tomadas como elas são, e a pessoa, caráter, propósitos e ações de Deus não devem ser postos em questão — criaturas finitas não têm esse direito (Romanos 9:14-21). As Escrituras devem falar como a autoridade final. Qualquer explicação sobre a origem do pecado ou o problema do mal devem ser encontrados na natureza, ações ou propósito de Deus à medida que Ele os revela.

 

O MISTÉRIO DO MAL

 

A existência do mal no universo de um Deus justo e santo é um grande mistério, mas as Escrituras revelam que Deus determinou todas as coisas e isso deve incluir o pecado. Negar ou tentar contornar isso traria Deus até o nível do finito e tornaria o mal um mistério inexplicável existente em oposição a Deus num sentido dualista. Isto é certamente insatisfatório. I. Howard Marshall, um estudioso do Novo Testamento, procura fazer isso por causa de seus pressupostos Arminianos em relação a Deus e à natureza do mal:

 

A Bíblia é clara em dizer que Deus não é o autor do mal. Sua origem é e talvez deva ser um mistério. Esta maldade reside na falta de bom propósito, e, portanto, na irracionalidade e oposição ao propósito de Deus. Como o mal pode ter vindo a existir em um universo criado por Deus é incognoscível. Temos de nos contentar em deixar a questão em aberto. O Calvinista cai em erro quando atribui a razão de algumas pessoas não serem salvas à vontade decretiva de Deus; na verdade, ele está tentando explicar o mal. É mais sábio identificar no puro mistério do mal a razão do porquê algumas pessoas não são salvas4.

 

A SOBERANIA DIVINA

 

Que Deus é absolutamente soberano sobre todas as coisas, e mesmo sobre o mal, e usa o tal para o Seu propósito e glória, é um fato bíblico: “Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas” (Isaías 45:7)5. Deus enviou um espírito maligno entre os cidadãos de Siquém e Abimeleque (Juízes 9:23-24). Ele enviou um espírito maligno para atormentar o Rei Saul (1 Samuel 16:14, 18:10, 19:9). Ele trouxe o mal sobre Israel por seus pecados (1 Reis 9:9). Um espírito de mentira foi enviado por Deus para conduzir Acabe, à sua derrota e morte (1 Reis 22:20-23). O Senhor designou aniquilar o conselho de Aitofel para que Ele trouxesse o mal sobre Absalão (2 Samuel 17:14). Deus mudou o coração dos egípcios para que odiassem os israelitas (Salmo 105:25). O maior crime da história — a ilegalidade do julgamento, o abuso, a vergonha, o sofrimento e a morte do Filho de Deus, com todo o pecado inerente deste ato da parte dos homens — foi predeterminado por Deus (Lucas 22:22; Atos 2:23; 4:27-28). Como Deus pode fazer essas coisas e ainda assim permanecer santo, justo e livre do pecado? Os problemas são dois: a origem do pecado e do problema do mal.

 

A ORIGEM DO PECADO

 

Como caíste desde o céu, ó Lúcifer, filho da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações! E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte. Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo. E contudo levado serás ao inferno, ao mais profundo do abismo (Isaías 14:12-15)6.

 

E disse-lhes: Eu via Satanás, como raio, cair do céu (Lucas 10:18).

 

Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira (João 8:44)7.

 

E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia (Judas 6).

 

E vi descer do céu um anjo, que tinha a chave do abismo, e uma grande cadeia na sua mão. Ele prendeu o dragão, a antiga serpente, que é o Diabo e Satanás, e amarrou-o por mil anos. E lançou-o no abismo, e ali o encerrou, e pôs selo sobre ele, para que não mais engane as nações, até que os mil anos se acabem. E depois importa que seja solto por um pouco de tempo… E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde estão a besta e o falso profeta; e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre (Apocalipse 20:1-3, 10).

 

O pecado não se originou com a Queda [apostasia] do homem. O pecado se originou no mundo espiritual [angélico]. Lúcifer [Satã, o Diabo] apostatou de Deus e levou consigo uma parte de outros de seres angelicais com ele. Ele esteve sob o disfarce de serpente e tentou Adão e Eva e, através disto provocou a Queda da humanidade. A entrada do pecado na raça humana veio através de desobediência deliberada de Adão ao mandamento explícito de Deus (Gênesis 2:16-17, 3:1-7; Romanos 5:12, 3:23)8. A raça humana apostatou de Deus em Adão como seu cabeça e representante. Ao lidar com a origem do pecado, porém, temos de chegar a um acordo, não só com a sua história revelada nas Escrituras, mas também com a sua relação com um Deus absolutamente justo ou reto e santo. Sustentado que as Escrituras são a Palavra de Deus escrita, inspirada e infalível, devemos aceitar seu registro quanto à origem do pecado.

 

O PROBLEMA DO MAL

 

Declarações Escriturísticas:

 

Porque eis que eu trago um dilúvio de águas sobre a terra, para desfazer toda a carne em que há espírito de vida debaixo dos céus; tudo o que há na terra expirará (Gênesis 6:17).

 

Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem, para fazer como se vê neste dia, para conservar muita gente com vida (Gênesis 50:20).

 

…E irás, tu com os anciãos de Israel, ao rei do Egito, e dir-lhe-eis: O Senhor Deus dos hebreus nos encontrou. Agora, pois, deixa-nos ir caminho de três dias para o deserto, para que sacrifiquemos ao Senhor nosso Deus. Eu sei, porém, que o rei do Egito não vos deixará ir, nem ainda por uma mão forte. Porque eu estenderei a minha mão, e ferirei ao Egito com todas as minhas maravilhas que farei no meio dele; depois vos deixará ir (Êxodo 3:18-20).

 

Então disse Moisés ao Senhor: Ah, meu Senhor! eu não sou homem eloquente, nem de ontem nem de anteontem, nem ainda desde que tens falado ao teu servo; porque sou pesado de boca e pesado de língua. E disse-lhe o Senhor: Quem fez a boca do homem? ou quem fez o mudo, ou o surdo, ou o que vê, ou o cego? Não sou eu, o Senhor? Vai, pois, agora, e eu serei com a tua boca e te ensinarei o que hás de falar (Êxodo 4:10-12).

 

E disse o Senhor a Moisés: Quando voltares ao Egito, atenta que faças diante de Faraó todas as maravilhas que tenho posto na tua mão; mas eu lhe endurecerei o coração, para que não deixe ir o povo. Então dirás a Faraó: Assim diz o Senhor: Israel é meu filho, meu primogênito E eu te tenho dito: Deixa ir o meu filho, para que me sirva; mas tu recusaste deixá-lo ir; eis que eu matarei a teu filho, o teu primogênito (Êxodo 4:23).

 

Então disse o SENHOR a Moisés: Eis que te tenho posto por deus sobre Faraó, e Arão, teu irmão, será o teu profeta. Tu falarás tudo o que eu te mandar; e Arão, teu irmão, falará a Faraó, que deixe ir os filhos de Israel da sua terra. Eu, porém, endurecerei o coração de Faraó, e multiplicarei na terra do Egito os meus sinais e as minhas maravilhas. Faraó, pois, não vos ouvirá; e eu porei minha mão sobre o Egito, e tirarei meus exércitos, meu povo, os filhos de Israel, da terra do Egito, com grandes juízos. Então os egípcios saberão que eu sou o Senhor, quando estender a minha mão sobre o Egito, e tirar os filhos de Israel do meio deles (Êxodo 7:1-5).

 

E aconteceu, à meia-noite, que o Senhor feriu a todos os primogênitos na terra do Egito, desde o primogênito de Faraó, que se sentava em seu trono, até ao primogênito do cativo que estava no cárcere, e todos os primogênitos dos animais. E Faraó levantou-se de noite, ele e todos os seus servos, e todos os egípcios; e havia grande clamor no Egito, porque não havia casa em que não houvesse um morto” (Êxodo 12:29-30).

 

E sucedeu que, ao sétimo dia, madrugaram ao subir da alva, e da mesma maneira rodearam a cidade sete vezes; naquele dia somente rodearam a cidade sete vezes. E sucedeu que, tocando os sacerdotes pela sétima vez as buzinas, disse Josué ao povo: Gritai, porque o Senhor vos tem dado a cidade. Porém a cidade será anátema ao Senhor, ela e tudo quanto houver nela; somente a prostituta Raabe viverá; ela e todos os que com ela estiverem em casa; porquanto escondeu os mensageiros que enviamos… E tudo quanto havia na cidade destruíram totalmente ao fio da espada, desde o homem até à mulher, desde o menino até ao velho, e até ao boi e gado miúdo, e ao jumento (Josué 6:15-17, 21).

 

E será que, assim como sobre vós vieram todas estas boas coisas, que o Senhor vosso Deus vos disse, assim trará o Senhor sobre vós todas aquelas más coisas, até vos destruir de sobre a boa terra que vos deu o Senhor vosso Deus. Quando transgredirdes a aliança do Senhor vosso Deus, que vos tem ordenado, e fordes e servirdes a outros deuses, e a eles vos inclinardes, então a ira do Senhor sobre vós se acenderá, e logo perecereis de sobre a boa terra que vos deu (Josué 23:15-16).

 

Por onde quer que saíam, a mão do Senhor era contra eles para mal, como o Senhor tinha falado, e como o Senhor lhes tinha jurado; e estavam em grande aflição (Juízes 2:15).

 

Enviou Deus um mau espírito entre Abimeleque e os cidadãos de Siquém; e estes se houveram aleivosamente contra Abimeleque (Juízes 9:23).

 

E o Espírito do Senhor se retirou de Saul, e atormentava-o um espírito mau da parte do Senhor… E aconteceu no outro dia, que o mau espírito da parte de Deus se apoderou de Saul, e profetizava no meio da casa; e Davi tocava a harpa com a sua mão, como nos outros dias; Saul, porém, tinha na mão uma lança. E Saul atirou com a lança, dizendo: Encravarei a Davi na parede. Porém Davi se desviou dele por duas vezes… Porém o espírito mau da parte do Senhor se tornou sobre Saul, estando ele assentado em sua casa, e tendo na mão a sua lança; e tocava Davi com a mão, a harpa. E procurou Saul encravar a Davi na parede, porém ele se desviou de diante de Saul, o qual feriu com a lança a parede; então fugiu Davi, e escapou naquela mesma noite (1 Samuel 16:14, 18:1-11, 19:9-10).

 

Então disse Absalão e todos os homens de Israel: Melhor é o conselho de Husai, o arquita, do que o conselho de Aitofel (porém assim o Senhor o ordenara, para aniquilar o bom conselho de Aitofel, para que o Senhor trouxesse o mal sobre Absalão) (2 Samuel 17:14).

 

E houve nos dias de Davi uma fome de três anos consecutivos; e Davi consultou ao SENHOR, e o SENHOR lhe disse: É por causa de Saul e da sua casa sanguinária, porque matou os gibeonitas. Então chamou o rei aos gibeonitas, e lhes falou (ora os gibeonitas não eram dos filhos de Israel, mas do restante dos amorreus, e os filhos de Israel lhes tinham jurado, porém Saul, no seu zelo à causa dos filhos de Israel e de Judá, procurou feri-los). Disse, pois, Davi aos gibeonitas: Que quereis que eu vos faça? E que satisfação vos darei, para que abençoeis a herança do Senhor? Então os gibeonitas lhe disseram: Não é por prata nem ouro que temos questão com Saul e com sua casa; nem tampouco pretendemos matar pessoa alguma em Israel. E disse ele: Que é, pois, que quereis que vos faça? E disseram ao rei: O homem que nos destruiu, e intentou contra nós de modo que fôssemos assolados, sem que pudéssemos subsistir em termo algum de Israel, De seus filhos se nos deem sete homens, para que os enforquemos ao Senhor em Gibeá de Saul, o eleito do Senhor. E disse o rei: Eu os darei… E os entregou na mão dos gibeonitas, os quais os enforcaram no monte, perante o Senhor; e caíram estes sete juntamente; e foram mortos nos dias da sega, nos dias primeiros, no princípio da sega das cevadas… E fez subir dali os ossos de Saul, e os ossos de Jônatas seu filho; e ajuntaram também os ossos dos enforcados. Enterraram os ossos de Saul, e de Jônatas seu filho na terra de Benjamim, em Zela, na sepultura de seu pai Quis, e fizeram tudo o que o rei ordenara; e depois disto Deus se aplacou com a terra” (2 Samuel 21:1-14).

 

E dirão: Porque deixaram ao Senhor seu Deus, que tirou da terra do Egito a seus pais, e se apegaram a deuses alheios, e se encurvaram perante eles, e os serviram; por isso trouxe o Senhor sobre eles todo este mal. (1 Reis 9:9).

 

Disse mais Jeosafá ao rei de Israel: Peço-te, consulta hoje a palavra do Senhor. Então o rei de Israel reuniu os profetas até quase quatrocentos homens, e disse-lhes: Irei à peleja contra Ramote de Gileade, ou deixarei de ir? E eles disseram: Sobe, porque o Senhor a entregará na mão do rei. Disse, porém, Jeosafá: Não há aqui ainda algum profeta do Senhor, ao qual possamos consultar? Então disse o rei de Israel a Jeosafá: Ainda há um homem por quem podemos consultar ao Senhor; porém eu o odeio, porque nunca profetiza de mim o que é bom, mas só o mal; este é Micaías, filho de Inlá. E disse Jeosafá: Não fale o rei assim. Então o rei de Israel chamou um oficial, e disse: Traze-me depressa a Micaías, filho de Inlá… E o mensageiro que foi chamar a Micaías falou-lhe, dizendo: Vês aqui que as palavras dos profetas a uma voz predizem coisas boas para o rei; seja, pois, a tua palavra como a palavra de um deles, e fala bem. Porém Micaías disse: Vive o Senhor que o que o Senhor me disser isso falarei. E, vindo ele ao rei, o rei lhe disse: Micaías, iremos a Ramote de Gileade à peleja, ou deixaremos de ir? E ele lhe disse: Sobe, e serás bem sucedido; porque o Senhor a entregará na mão do rei. E o rei lhe disse: Até quantas vezes te conjurarei, que não me fales senão a verdade em nome do Senhor? Então disse ele: Vi a todo o Israel disperso pelos montes, como ovelhas que não tem pastor; e disse o Senhor: Estes não têm senhor; torne cada um em paz para sua casa. Então o rei de Israel disse a Jeosafá: Não te disse eu, que nunca profetizará de mim o que é bom, senão só o que é mal? Então ele disse: Ouve, pois, a palavra do Senhor: Vi ao Senhor assentado sobre o seu trono, e todo o exército do céu estava junto a ele, à sua mão direita e à sua esquerda. E disse o Senhor: Quem induzirá Acabe, para que suba, e caia em Ramote de Gileade? E um dizia desta maneira e outro de outra. Então saiu um espírito, e se apresentou diante do Senhor, e disse: Eu o induzirei. E o Senhor lhe disse: Com quê? E disse ele: Eu sairei, e serei um espírito de mentira na boca de todos os seus profetas. E ele disse: Tu o induzirás, e ainda prevalecerás; sai e faze assim. Agora, pois, eis que o Senhor pôs o espírito de mentira na boca de todos estes teus profetas, e o Senhor falou o mal contra ti (1 Reis 22:5-23).

 

Assim diz o Senhor: Eis que trarei mal sobre este lugar, e sobre os seus moradores, a saber: todas as palavras do livro que leu o rei de Judá (2 Reis 22:16).

 

E disse o Senhor a Satanás: Observaste tu a meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal. Então respondeu Satanás ao Senhor, e disse: Porventura teme Jó a Deus debalde? Porventura tu não cercaste de sebe, a ele, e a sua casa, e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste e o seu gado se tem aumentado na terra. Mas estende a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face. E disse o Senhor a Satanás: Eis que tudo quanto ele tem está na tua mão; somente contra ele não estendas a tua mão. E Satanás saiu da presença do Senhor… E disse o Senhor a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal, e que ainda retém a sua sinceridade, havendo-me tu incitado contra ele, para o consumir sem causa. Então Satanás respondeu ao Senhor, e disse: Pele por pele, e tudo quanto o homem tem dará pela sua vida. Porém estende a tua mão, e toca-lhe nos ossos, e na carne, e verás se não blasfema contra ti na tua face! E disse o Senhor a Satanás: Eis que ele está na tua mão; porém guarda a sua vida. Então saiu Satanás da presença do Senhor, e feriu a Jó de úlceras malignas, desde a planta do pé até ao alto da cabeça. E Jó tomou um caco para se raspar com ele; e estava assentado no meio da cinza. Então sua mulher lhe disse: Ainda reténs a tua sinceridade? Amaldiçoa a Deus, e morre. Porém ele lhe disse: Como fala qualquer doida, falas tu; receberemos o bem de Deus, e não receberíamos o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios (Jó 1:8-12; 2:3-10).

 

E o Senhor virou o cativeiro de Jó, quando orava pelos seus amigos; e o Senhor acrescentou, em dobro, a tudo quanto Jó antes possuía (Jó 42:10).

 

Certamente a cólera do homem redundará em teu louvor; o restante da cólera tu o restringirás (Salmos 76:10).

 

O Senhor fez todas as coisas para atender aos seus próprios desígnios, até o ímpio para o dia do mal (Provérbios 16:4).

Ai da Assíria, a vara da minha ira, porque a minha indignação é como bordão nas suas mãos. Enviá-la-ei contra uma nação hipócrita, e contra o povo do meu furor lhe darei ordem, para que lhe roube a presa, e lhe tome o despojo, e o ponha para ser pisado aos pés, como a lama das ruas. Ainda que ele não cuide assim, nem o seu coração assim o imagine; antes no seu coração intenta destruir e desarraigar não poucas nações. Porque diz: Não são meus príncipes todos eles reis? Não é Calno como Carquemis? Não é Hamate como Arpade? E Samaria como Damasco? Como a minha mão alcançou os reinos dos ídolos, cujas imagens esculpidas eram melhores do que as de Jerusalém e do que as de Samaria, porventura como fiz a Samaria e aos seus ídolos, não o faria igualmente a Jerusalém e aos seus ídolos? Por isso acontecerá que, havendo o Senhor acabado toda a sua obra no monte Sião e em Jerusalém, então castigarei o fruto da arrogante grandeza do coração do rei da Assíria e a pompa da altivez dos seus olhos. Porquanto disse: Com a força da minha mão o fiz, e com a minha sabedoria, porque sou prudente; e removi os limites dos povos, e roubei os seus tesouros, e como valente abati aos habitantes. E achou a minha mão as riquezas dos povos como a um ninho, e como se ajuntam os ovos abandonados, assim eu ajuntei a toda a terra, e não houve quem movesse a asa, ou abrisse a boca, ou murmurasse. Porventura gloriar-se-á o machado contra o que corta com ele, ou presumirá a serra contra o que puxa por ela, como se o bordão movesse aos que o levantam, ou a vara levantasse como não sendo pau? (Isaías 10:5-15).

 

Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas (Isaías 45:7).

 

…Sucederá algum mal na cidade, sem que o Senhor o tenha feito? (Amós 3:6).

 

Disse-lhe, pois, Pilatos: Não me falas a mim? Não sabes tu que tenho poder para te crucificar e tenho poder para te soltar? Respondeu Jesus: Nenhum poder terias contra mim, se de cima não te fosse dado… (João 19:10).

 

A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos (Atos 2:23).

 

…E, ouvindo eles isto, unânimes levantaram a voz a Deus, e disseram: Senhor, tu és o Deus que fizeste o céu, e a terra, e o mar e tudo o que neles há; que disseste pela boca de Davi, teu servo: Por que bramaram os gentios, e os povos pensaram coisas vãs? Levantaram-se os reis da terra, e os príncipes se ajuntaram à uma, contra o Senhor e contra o seu Ungido. Porque verdadeiramente contra o teu santo Filho Jesus, que tu ungiste, se ajuntaram, não só Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel; para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer (Atos 4:24-28).

 

E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito… Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia; somos reputados como ovelhas para o matadouro (Romanos 8:28, 35, 36)

 

Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe dito a ela: O maior servirá ao menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú. Que diremos pois? que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma. Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece. Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer. Dir-me-ás então: Por que se queixa ele ainda? Porquanto, quem tem resistido à sua vontade? Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra? (Romanos 9:11-21).

 

Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Por que quem compreendeu a mente do Senhor? ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém (Romanos 11:33-36).

 

Digno és, Senhor, de receber glória, e honra, e poder; porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade são [existem] e foram criadas (Apocalipse 4:11).

 

A QUESTÃO ESSENCIAL E POSSÍVEIS RESPOSTAS

 

O “problema do mal” pode agora ser reconsiderado: Como o mal pode existir em um universo criado e governado por um Deus todo-poderoso e benevolente [inerentemente e completamente bom]? As respostas possíveis, de acordo com o raciocínio humano, são:

• Se o mal existe (e ele de fato existe como uma realidade triste e terrível), então, não há nenhum Deus onipotente [todo-poderoso] e benevolente — o argumento do ateu.

• O mal existe, e, portanto, se Deus existe, Ele deve ser ou limitado em Seu poder ou arbitrário em Seu caráter moral. O primeiro é o argumento do Pelagiano ou Arminiano; o último, o argumento dos que defendem um conceito não-bíblico [pagão] de Deus.

 

• O mal existe, portanto, há mais de um único Deus, ou há forças iguais [o bem e o mal] em conflito. Este é o argumento não-bíblico [pagão] daqueles que postulam um dualismo (um “deus bom” e um “deus mau” ou forças opostas ou princípios do bem e do mal iguais), ou um politeísmo em conflito pelo controle do universo9.

 

• O mal não existe, exceto como uma ilusão no nosso pensamento humano — a visão de alguns cultos ocidentais e religiões orientais (por exemplo, da Ciência Cristã [Christian Science] e o Budismo). Isto faria qualquer distinção final entre o bem e o mal arbitrária e, portanto, nega a auto-consistência moral do caráter Divino.

 

• O mal existe como um mistério, independente de Deus, o Qual permanece, embora em um grau limitado, poderoso e benevolente. Este é o argumento inconsistente de alguns (incluindo Pelagianos e Arminianos), que tentam livrar Deus da acusação de ser o “autor do pecado”, e ainda procuram manter a Sua bondade10.

 

• O mal existe no universo de um Deus benevolente e onipotente, o Qual é completamente soberano sobre ele e usa-o para a Sua própria glória e para o bem maior — o consistente argumento do Calvinista.

 

DEUS É SOBERANO SOBRE O MAL

 

A última visão de que Deus é absolutamente soberano tanto sobre o mal natural como moral11, e usa o mal para a Sua própria glória e para o bem maior — é a única visão que pode ser consistentemente alinhada com o ensino das Escrituras. Todas as outras visões derivam-se do raciocínio humanista pecaminoso [incapacitado pelos efeitos noéticos do pecado e pela rebelião deliberada contra Deus e Sua verdade], e assim colocam Deus e Suas ações em questão, visando apontar uma incoerência no sistema Cristão. Estes pontos de vista ou negam a Deus e o mal, ou limitam Deus e procuram rebaixá-lO para o nível do finito e destroem Sua auto-consistência moral e, assim, qualquer base suficiente ou consistente para moralidade12.

 

A verdade da soberania de Deus sobre o mal pode ser esclarecida pelas seguintes considerações e implicações:

 

• A existência do mal em um universo criado e governado por um Deus benevolente não é incoerente se Deus tem uma razão moralmente suficiente para esse mal de existir. Este “problema” é mais psicológico do que lógico ou filosófico13. Homens preferem colocar Deus e Suas ações em questão do que submeterem-se em completa confiança (Romanos 9:11-24), mesmo a um Deus que é benevolente no contexto da Sua justiça.

 

• Tal visão não remove todo o mistério do problema do mal. Deus é infinito, e assim são Sua sabedoria, poder e propósito. Nós somos finitos, e simplesmente não podemos compreender tudo o que está implícito nesta profunda questão. Por que Deus, que é absolutamente auto-consistente moralmente, ordenou o mal, deve, em um determinado grau, permanecer como um mistério para seres finitos. Tais assuntos devem ser abordados por uma fé que repousa em um Deus sábio e moralmente auto-consistente.

• Como criaturas finitas, estamos temporalmente limitados em nosso pensamento ao presente e o passado. Ao considerar o problema do mal, é preciso levar em conta a realidade do tempo. O que pode ser considerado como o mal no contexto da realidade passada ou presente pode mais tarde vir a ser uma grande bênção ou resultar em tal. Isto certamente foi verdade em todas as más realidades e eventos que conspiraram na providência de Deus ao exaltar José para se tornar o primeiro-ministro do Egito (por exemplo, o fato dele ter sido mimado por seu pai, a inveja e o ódio de seus irmãos, o fato de ter sido vendido como escravo, a tentativa de sedução pela esposa de Potifar, o seu encarceramento, o esquecimento do copeiro de Faraó, etc.). Nenhuma dessas coisas eram boas em si mesmas, mas cada uma era, sem dúvida, má — contudo todas elas “contribuíram juntamente para o bem”. Esse bem pode ou não ser visto ainda nesta vida, mas também pode aguardar para a revelação da eternidade (Romanos 8:28-31)14.

 

• As Escrituras ensinam que Deus é benevolente [absolutamente bom] e também que Ele ordena ações más. A citação a seguir está de acordo com o testemunho das Escrituras e merece ser cuidadosamente estudada:

 

Deus é bom, mas Ele decreta ações más. Sabemos que estas verdades são compatíveis, pois a Escritura ensina ambos e Deus não pode negar a Si mesmo… Deus pode preordenar o mal somente se Ele próprio for bom, porque na Escritura o “mal” é “mal” apenas por contraste com a bondade de Deus. Deus é verdadeiramente bom apenas se o mal no mundo foi preordenado por Ele, pois só se o mal for totalmente controlado por Deus é que podemos estar confiantes de que há um bom propósito nisso, e somente se houver um bom propósito nisso é que podemos confiar no bom propósito geral de Deus15.

 

• Deus preordena o mal; Ele não se limita a “permitir” ou “consenti-lo”. A expressão: “Deus permite [consente] o mal” é muitas vezes usada pelos teólogos que visam ou procuram evitar a ideia de que Deus é o autor culpável do pecado, ou estão usando a linguagem humana por falta de uma outra forma de expressar16.

• Deus, é claro, não é o autor do mal no sentido de que Ele próprio é culpável [censurável] ou maculado pelo pecado. Isto seria uma negação da Sua bondade inerente. A verdade de que Deus não é o autor do pecado pode ser esclarecida pelas seguintes considerações:

 

1. As Escrituras sustentam que os homens são totalmente responsáveis por seus próprios pecados, o que não seria e nem poderia ser verdade se Deus fosse o autor do pecado (Atos 2:23; Romanos 1:18-32; 2 Tessalonicenses 1:7-9; Judas 14-15; Apocalipse 20:11-13).

 

2. Se Deus cobrasse dos homens pelos pecados dos quais eles não fossem verdadeiramente responsáveis, então Ele não seria e nem poderia ser justo, na verdade, Ele seria menos do que justo — Ele próprio se tornaria um criminoso, um pecador! Tal seria absolutamente impensável e antibíblico. Assim, a realidade bíblica da culpabilidade humana necessariamente exclui qualquer alegação de Deus ser o autor do pecado.

 

3. Embora Deus queira o mal, não se deve imaginar que Ele o quer, no mesmo sentido e forma que Ele quer o que é justo, santo e bom. Ele decreta que o mal exista e controla-o, revertendo para o bem maior e a Sua glória (Salmos 145:17; Romanos 11:33-36; Apocalipse 4:11). Ele não tem prazer no mal em um sentido positivo. Assim, pode ser correto a Deus decretar o que não é correto para o homem fazer e, portanto, errado para Deus comandar o homem a fazer sob a sua vontade preceptiva. O Teólogo holandês Herman Bavinck procura explicar esta verdade por uma ilustração:

 

Porque o homem é um ser racional, moral, Deus não trata-o como se ele fosse uma pedra ou um cepo, mas lida com ele e se dirige a ele de acordo com sua natureza. Assim como um pai proíbe seu filho de tocar em uma faca afiada, embora ele mesmo a use sem provocar ferimentos ou danos, assim Deus nos proíbe de pecar embora Ele mesmo seja capaz de usar e fazer uso do pecado como um meio de auto-glorificação17.

 

• Deus decreta o pecado, mas não o comanda. O pecado existe como parte do propósito teleológico Divino, mas não é forçado sobre os homens por necessidade. Os homens não podem fazer de Deus culpado por seu próprio pecado e violação da vontade preceptiva de Deus. Eles devem, como seres morais, racionais e responsáveis, arcar com as consequências de suas próprias transgressões. Deus, portanto, controla o mal, mas não no sentido de que Ele Se alegra ou tem prazer nele. Dizer que Deus não controla o mal é negar Sua onipotência. Dizer que Ele quer o mal no mesmo sentido em que Ele quer o que é certo e santo é negar Sua justiça e santidade. Dizer que Ele controla o mal de tal forma que os homens são escusados de sua responsabilidade moral é negar tanto a liberdade de sua vontade quanto a sua natureza essencial. Dizer, porém, que Deus ordena homens a contradizerem Sua Lei/Palavra através de suas próprias ações intencionais, e que Ele controla isso para o bem e glória de Seu eterno propósito final, é afirmar a soberania absoluta de Deus sobre o mal e ainda assim preservar Sua sabedoria, justiça e santidade. Criaturas finitas devem deixar tal mistério para o Deus infinito.

 

Donald Macleod procura colocar as questões da pré-ordenação do pecado e da liberdade humana em simples, mas profundas declarações, afirmando que Deus pré-ordenou tanto o pecado quanto a liberdade humana:

 

…Deus não é o autor do pecado. Deus decretou o pecado. Ele preordenou tudo que venha a acontecer, o pecado veio a acontecer, e Deus em Seu propósito controla, limita, preserva e governa o universo, mesmo na presença deste fato do pecado… Ele mesmo não comete pecado. Ele não tolera o pecado. Ele não compele a pecar. Ele não induz ao pecado. Ele não tenta ao pecado… A pré-ordenação não é destruidora da liberdade; Deus decretou a liberdade… A pré-ordenação é o que estabelece a liberdade… nada pode tirar do ser humano a liberdade essencial para a responsabilidade moral, porque Deus tem pré-ordenado a liberdade dos homens no momento da tomada da decisão moral… Deus decretou suas ações, mas ele as decretou como ações livres: à medida que eles fazem as coisas baseados em sua própria vontade pessoal… Eu sou livre porque Deus decretou minha liberdade18.

 

NOTA: A declaração acima por Macleod não deve ser interpretada no sentido Arminiano que “Deus criou o homem com uma vontade livre e por isso não pode violar essa vontade”, mas no sentido de que Deus criou o homem como um livre agente moral e responsável. Deus não limitaria, sim, não poderia limitar externamente Sua própria soberania a tal ponto de tornar-se moralmente incapacitado ou até mesmo inconsistente. Ele, então, deixaria de ser Deus.

 

• Na grande teodicéia de Romanos 919, o apóstolo responde a acusações relativas à soberania absoluta de Deus sobre o caráter moral e destino dos homens. (Seu argumento assume três perguntas: Será que Deus é infiel à Sua promessa da aliança [vv. 6-13]? Deus é injusto em Sua prerrogativa soberana [vv. 14-18]? Deus é injusto ou arbitrário por manter os homens responsáveis ​ [vv. 6-29]?). Ele afirma que Deus é, de fato, absolutamente soberano nas esferas espirituais, morais e éticas, e que ninguém tem o direito de questionar a prerrogativa ou propósito Divino.

 

• A soberania absoluta e a natureza moral de Deus devem nos levar à conclusão de que Deus não é o autor do pecado, pelo fato dEle controlar completamente o mal de Suas criaturas morais. Deus é aquele grande e incompreensível “Absoluto”, a fonte última de todo o significado. Em última análise, não há verdadeiro significado à parte de Deus. O universo criado e todos os fatos nele (sendo um fato criado) derivam seu significado de Deus e devem ser interpretados por Ele. Assim, o mal em si deve ser, e só pode ser compreendido e interpretado no contexto de Deus à medida que Ele tem tido o prazer de revelar-Se nas Escrituras. Assim, ao invés de fazer de Deus o autor do pecado, a predestinação no contexto da revelação bíblica da Sua natureza e caráter, preserva Deus dessa acusação e é uma garantia de Sua perfeição moral absoluta.

 

• A fé ou confiança do Cristão é em Deus como Ele é revelado nas Escrituras. Sua esperança e conforto não descansam apenas na onipotência ou soberania absoluta de Deus, embora tais verdades são certamente reconfortantes e encorajadoras. A esperança última do crente repousa sobretudo na auto-consistência do caráter moral de Deus — que Ele é absolutamente justo, bom e verdadeiro, gracioso e misericordioso; que Ele não pode mentir, e que Suas promessas permanecem fiéis. A verdade, glória e esperança de Romanos 8:28 — “Sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem” — é que Deus é moralmente auto-consistente e Seu propósito infalivelmente resultará em Sua própria glória e no bem maior20. A verdadeira fé bíblica não é meramente ou somente intelectual; ela também inclui um compromisso sem reservas e uma confiança em uma Pessoa infinita e na auto-consistência moral de Sua personalidade.

 

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Notas:

 

[1] Este artigo foi adaptado do Apêndice II do livro, Lectures on Calvinism and Arminianism [Estudos Sobre o Calvinismo e o Arminianismo], por W. R. D.

[2] Deus Se revelou tanto de forma geral [natureza, criação] quanto de forma especial [comunicação direta e inteligente que foi escrita]. A especial revelação Divina — as Escrituras — não deve ser explicada antropomorficamente ou figurativamente. É fundamental compreender que a revelação especial foi dada para ser compreendida pelo homem.

[3] O termo “noética” deriva de νοέω, “pensar”, e refere-se aos efeitos pecaminosos e limitantes da Queda sobre o processo de pensamento humano. O Espírito de Deus na iluminação Divina compensa alguns destes no caso dos verdadeiros crentes (1 João 2:20, 27), mas nem toda limitação ou prejuízo são removidos.

[4] I. Howard Marshall, “Predestination in the New Testament” [Predestinação no Novo Testamento], Grace Unlimited, p. 138.

[5] Observe a declaração feita pela Bíblia de Referências Scofield: “Heb. ra, traduzido como ‘tristeza’, ‘miséria’, ‘adversidade’, ‘aflições’, ‘calamidades’, mas nunca traduzido como pecado. Deus criou o mal só no sentido de que Ele criou a tristeza, a miséria, etc., para serem os frutos certos do pecado”. p. 754.

ערָ֑; (ra’), no entanto, é a palavra comum para o mal moral e, embora nunca tenha sido traduzida como “pecado”, ela é traduzida centenas de vezes como “mal” e oitenta e uma vezes como “ímpios”, “impiedade” e “iniquidade”, referindo-se a todos os tipos de pecados. Neste contexto, nem a paz nem o mal podem ser usados em um sentido restrito, tais como a Bíblia de Referência Scofield tentou dar a estes termos paralelos, como as Escrituras na sua utilização destes revela.

[6] No contexto de Isaías 14 (v. 4ss) esta declaração refere-se ao “rei de Babilônia”, dirigindo-se, evidentemente, a Satanás através deste rei.

[7] “…desde o princípio…” deve referir-se à tentação e subsequente queda de Adão através da tentação do Diabo por meio da serpente.

[8] A utilização do aor. em ambas as passagens de Romanos, em seu determinado contexto, aponta para um evento, ou seja, a humanidade não simplesmente herda uma natureza pecaminosa ou tendência de Adão — “todos pecaram”, refere-se assim à experiência e atividade pessoal, mas “todos pecaram” refere-se também a um evento, um ponto no tempo (Romanos 3:23: πάντες γὰρ ἥμαρτον καὶ ὑστεροῦνται τῆς δόξης τοῦ Θεοῦ: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus…”. Romanos 5:12: …δι’ ἑνὸς ἀνθρώπου ἡ ἁμαρτία εἰς τὸν κόσμον… ἐφ’ ᾧ πάντες ἥμαρτον: “Por um homem entrou o pecado no mundo… por isso que todos pecaram”). Todo ser humano é pecador por imputação, por natureza e por atividade pessoal.

[9] Este é o pensamento de alguns Cristãos professos quando reduzem o seu conceito de Deus ao nível do Diabo, considerando-os iguais, o que é um conceito dualista, pagão. Tal [falta de] pensamento está presente em tais declarações como: “Deus pede sua escolha, o Diabo pede sua escolha, e agora cabe a você decidir”, quando se refere à eleição dos pecadores para a salvação. Tal fala é totalmente irracional. Assim eles mantêm um conceito de Deus que simplesmente não é bíblico, pois a Palavra revela que Deus é absolutamente soberano, mesmo sobre os atos perversos dos homens e a Escritura é a autoridade máxima.

[10] Alguns deste grupo afirmam que Deus está ou trabalhando de uma forma utilitária da melhor maneira possível, ou que Ele apenas previu o mal e os seus resultados, mas não foi capaz de impedi-los; ou que existem algumas situações provocadas por agentes moralmente livres que até mesmo Deus não previa. Enquanto os dois últimos são um pouco extremos, a ideia de que Deus meramente previu ou pré-conheceu o mal não eliminaria a culpabilidade de Deus. Se Deus previu o que aconteceria e, em seguida, fez Seus planos de acordo com o previsto, então Ele poderia ter evitado o pecado, mas evidentemente escolheu não fazê-lo. Assim, Deus seria o responsável final pelo pecado, sendo permissivo a este, e ainda não exercendo controle sobre ele para o bem maior e Sua glória. Além disso, se Deus apenas previu o mal como uma certeza — e isto deve ter acontecido certamente pois Deus prevê como tal no sentido bíblico —, então o próprio Deus não poderia ter evitado o pecado. O pecado teria vindo à existência e sido determinado por uma força que está fora de Deus. Ele teria, assim, existido finitamente dentro de um “universo” sobre o qual Ele não exerceu o controle final, um “universo” controlado no sentido final por um determinismo ateísta!

[11] O mal natural é o mal que ocorre no reino da natureza (calamidades como inundações, fome, doença, sofrimento, terremotos e peste). O mal moral é o mal ou pecado que ocorre por causa da maldade do homem contra o homem (por exemplo, guerras, estupros, torturas, assassinatos, ódio, engano, roubo, destruição, etc.).

[12] Esta é, muitas vezes, a abordagem dos professores seculares de colégios ou universidades ao desafiarem os alunos que professam ser Cristãos, mas que são doutrinariamente débeis e inconsistentes em sua fé. Eles procuram destruir tanto a sua fé quanto a sua base para a moralidade.

[13] Esta questão é totalmente tratada por Greg Bahnsen em Always Ready [Sempre Pronto]. Texarkana: Covenant Media Foundation, 1996. pp. 165-174. Ele afirma que “O Problema do Mal” é na verdade uma expressão pessoal de uma falta de fé.

[14] É importante notar que a verdade de Romanos 8:28 ocorre no contexto da eternidade, e não se limita a esta vida terrena (cf. vv. 28-31). Além disso, o contexto envolve aquilo que de pior os homens podem fazer para os crentes (vv. 35-36).

[15] John M. Frame, “The Problem of Theological Paradox” [O Problema do Paradoxo Teológico], Foundations of Christian Scholarship [Fundamentos do Conhecimento Cristão] p. 321.

[16] Tal linguagem como “autorizar” ou “permitir” quando usada para se referir a Deus, embora como uma acomodação a título de compreensão, no contexto da linguagem humana e finita, pode sugerir que Deus é relativo, ou seja, que há algo absoluto acima ou à parte dEle, ao qual Ele mesmo ou é sujeito ou contra o qual Ele deve lutar (ou seja, o mal existe independentemente de Deus). Ambos não são verdade.

[17] Herman Bavinck, The Doctrine of God [A Doutrina de Deus], p. 240.

[18] A Faith to Live By [Uma Fé Pela Qual Viver]. Mentor, Geanies House, Fearn, Ross-Shire: Christian Publications Foco, 1998, pp. 40-44.

[19] “Teodicéia”, uma defesa de Deus, Θεόν (theos), “Deus”, e δίκη (diqe), “justiça”, portanto, uma tentativa de justificar Deus no contexto do problema do mal. Os argumentos do apóstolo, no entanto, são mais do que uma tentativa, eles são a Escritura inspirada — e, portanto, a palavra final sobre o assunto.

[20] Romanos 8:28, οἴδαμεν δὲ (E sabemos [pela fé, que vai muito além de toda experiência]) ὅτι τοῖς ἀγαπῶσιν τὸν Θεὸν (que para os que são caraterizados habitualmente como aqueles que amam a Deus) πάντα συνεργεῖ εἰς ἀγαθόν (todas as coisas estão constante e conjuntamente trabalhando para o seu bem) τοῖς κατὰ πρόθεσιν κλητοῖς οὖσιν (para aqueles que são caracterizados como sendo chamados segundo o seu [eterno, infalível] propósito). O contexto (vv. 28-39), que contém o que de pior os homens podem fazer para os crentes, ainda assim declara que o amor imutável de Deus por meio de Cristo pertence a eles, o que demonstra a verdade do verso 28. Observe que οἴδαμεν é usado, e não γινὡσκομεν, para enfatizar uma percepção que ultrapassa a experiência e as relações. Isto é, necessariamente, a percepção de uma fé que repousa no eterno e infalível propósito de Deus.

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