Por Que e Como Devemos Orar & A Necessidade da Oração Secreta, por Thomas Boston

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Por Que e Como Devemos Orar

 

Devemos orar pelas coisas agradáveis à vontade revelada de Deus, e por essas coisas somente: “E esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve” (1 João 5:14). Nós não podemos apresentar a Deus os desejos ilícitos, nem petições em favor de nossa concupiscência (Tiago 4:3). Estas necessidades devem ser uma abominação, e uma afronta ousada para um Deus santo. E, de fato coisas más são tanto mais perversas ao serem trazidas ou endereçadas a um Deus santo.

 

O assunto de nossas orações deve ser regulado pela Palavra de Deus, onde Ele mostrou o que Lhe agrada, e o que não agrada. O significado da boa vontade e prazer de Deus no que diz respeito aos benefícios a serem concedido aos homens, e as nossas orações, devem se restringir aos limites da vontade de Deus. Portanto, vejamos que tudo pelo que nós oramos esteja dentro do compasso do mandamento ou da promessa de Deus.

 

Tais são todas as coisas que tendem para a glória de Deus: “Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome” (Mateus 6:9). “Orai pela paz de Jerusalém; prosperarão aqueles que te amam” (Salmos 122:6). Para o nosso próprio bem, temporal, espiritual ou eterno: “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” (Mateus 7:11). “Faze bem, ó Senhor, aos bons e aos que são retos de coração” (Salmos 125:4).

 

 

Mas como devemos orar, se quisermos orar retamente e de modo aceitável?

 

1. Com entendimento; compreendendo o que dizemos (1 Coríntios 14:15). Portanto, nossas orações devem ser feitas em uma língua conhecida. E, pois pronunciar palavras diante de Deus, enquanto nós não sabemos o que falamos nunca pode, de fato, ser uma oração.

 

2. Com reverência: “Guarda o teu pé, quando entrares na casa de Deus; porque chegar-se para ouvir é melhor do que oferecer sacrifícios de tolos, pois não sabem que fazem mal” (Eclesiastes 5:1). Devemos manter uma reverência na expressão exterior, voz e gestos, uma vez que na oração estamos diante do grande Deus. E especialmente no que se refere ao interior, tenhamos uma apreensão terrível da majestade de Deus diante de quem nós comparecemos, Salmo 89:7: “Deus é muito formidável na assembleia dos santos, e para ser reverenciado por todos os que o cercam”. Hebreus 12:28: “Por isso, tendo recebido um reino que não pode ser abalado, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente, com reverência e piedade”. Temor e tremor acometem uma criatura, muito mais uma criatura culpada, diante de um Deus santo. E o dirigir-se a Deus com presunção e destemor é o resultado de um coração duro.

 

3. Humildemente: “Senhor, tu ouviste os desejos dos mansos; confortarás os seus corações; os teus ouvidos estarão abertos para eles” (Salmos 10:17); com um profundo senso de nossa própria indignidade e pecaminosidade em nossos espíritos. Na oração, chegamos a mendigar, e não a comprar ou exigir nosso direito e, portanto, devemos ser sensíveis à nossa indignidade: Menor sou eu que todas as beneficências, e que toda a fidelidade que fizeste ao teu servo; porque com meu cajado passei este Jordão, e agora me tornei em dois bandos” (Gênesis 32:10), e quanto mais graça, mais indignos seremos aos nossos próprios olhos: “E respondeu Abraão dizendo: Eis que agora me atrevi a falar ao Senhor, ainda que sou pó e cinza” (Gênesis 18:27). E indo para Deus, devemos voltar nossos olhos para nosso interior, com o publicano (Lucas 18:14) para as nossas próprias maldades do coração e da vida.

 

4. Com sensibilidade: estando profundamente afetados com um senso de nossas necessidades, como o filho pródigo: “E, tornando em si, disse: Quantos jornaleiros de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus jornaleiros” (Lucas 15:17-19). Ai! do que aproveita ir a Deus com um coração insensível, sentar-se à Sua mesa sem fome espiritual, chegar à Sua porta rica e cheia de bens, em nossa própria vaidade!? Tais são mãos vazias. Por isso humildade é uma parte da preparação mui necessária para a oração, portanto, olhemos para os nossos desejos, antes de irmos para a oração.

 

5. Com fé: “E, tudo o que pedirdes em oração, crendo, o recebereis” (Mateus 21:22). Quem ora de maneira aceitável deve ser dotado de fé salvadora (Hebreus 11:6). Um incrédulo não pode orar de modo aceitável: Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?” (Romanos 10:14). Disso segue-se que as orações do homem não-regenerado estão todas perdidas em relação à aceitação graciosa. Além disso, o crente deve estar no exercício da fé na oração, pois a oração deve ser misturada com a fé.

 

É preciso ter uma fé particular, e confiança na oração, quanto às coisas pelas quais oramos: “Por isso vos digo que todas as coisas que pedirdes, orando, crede receber, e tê-las-eis” (Marcos 11:24). Pois onde a fé está completamente ausente, a oração nunca pode ser aceita: Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando” (Tiago 1:6), visto que você estaria desonrando a Deus grandemente por vir a Ele para pedir, sem qualquer expectativa ou confiança de receber o que se pede.

 

Pergunta: Como alguém pode ter fé? Resposta: Ao recorrer às promessas e acreditar nelas. Se as coisas são absolutamente necessárias, a promessa assegura essas mesmas coisas àqueles que vêm a Deus através de Cristo por elas, coisas tais como a paz, o perdão e etc. […].

 

6. Sinceramente. “Perto está o Senhor de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade” (Salmos 145:18). A hipocrisia e a dissimulação na oração — quando o coração não acompanha os lábios — estraga a aceitação das orações. Há lábios enganosos (Salmo 17:1) quando as afeições não seguem o ritmo das palavras da oração; quando o pecado é confessado, mas o coração não está humilhado sob a confissão; quando as petições são apresentadas, mas nenhuma vontade sincera existe pelas coisas que são pedidas. “E buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração” (Jeremias 29:13)

 

7. Fervorosamente: “Confessai as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros, para que sareis. A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos” (Tiago 5:16). Orações frias, sem vida e formais não recebem o selo de aprovação. Devemos, como em um assunto mui severo, ser fervorosos (Romanos 12:11). Importunação na oração é muito agradável a Deus, mas esta não consiste em uma infinidade de palavras (Mateus 6:7), mas de uma seriedade sagrada do coração que anela ser ouvido (Salmo 143:7) suplicando ao Senhor, por argumentos admissíveis, como alguém que é profundamente sincero (Jó 23:4). Um coração aquecido por uma brasa viva do altar de Deus produzirá isso.

 

8. Com vigilância; vigiando em oração, como no texto. Cuidando do nosso espírito para que não vacile. Pensamentos vagueantes em oração estragam as orações. Eles vêm como as aves sobre a carcaça, e a devorarão se não forem expulsos. A estrutura de um coração carnal é a mãe destes pensamentos vagueantes […]. Nesse caso, a pessoa deve ser como os construtores do muro, tendo a espátula em uma mão e a espada na outra, para com resolução resistir a pensamentos vãos, e rechaça-los. Ou melhor, gire o canhão em direção ao inimigo, considere-os como proporcionando uma nova oportunidade de humilhação, e uma ocasião clara de se aproximar do trono da graça. Se eles se esforçarem contra, eles não vão estragar a sua aceitação, mesmo que intentem isso.

 

9. Com perseverança; vigiando nisto com toda a perseverança como no texto. Quando apresentamos a nossa petição diante do trono, não devemos deixá-la cair, antes devemos perseverar nela (Lucas 18:1). Uma oração deve vir logo após outra, até que seja concedida (Isaias 62:1). “E não nos cansemos de fazer bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido” [Gálatas 6:9].

 

Finalmente, com dependência; espere no Senhor com humilde submissão à Sua santa vontade, e à procura de uma resposta: “Eu, porém, olharei para o Senhor; esperarei no Deus da minha salvação; o meu Deus me ouvirá” (Miquéias 7:7). Temos que esperar em dependência de Deus. Não admira que essas orações não sejam descuidadas, e que não estejam preocupados com a resposta.

 

 

Mas todas as pessoas que oram assim são aceitas, ouvidas e respondidas?

 

1. Um homem não-regenerado não pode, portanto, orar, nem as orações de pessoas como estas são aceitas a qualquer momento: “O sacrifício dos ímpios é abominável ao Senhor, mas a oração dos retos é o seu contentamento” (Provérbios 15:8), “Deus não ouve a pecadores” (João 9:31).

 

2. O próprio povo de Deus nem sempre ora assim, nem todas as suas orações são aceitas. Pois, diz o salmista: “Se eu atender à iniquidade no meu coração, o Senhor não me ouvirá” (Salmos 66:18).

 

3. Mas todas essas orações, sendo o fruto do Espírito de Deus nos santos, são apresentadas pelo Mediador; e são aceitas, ouvidas e respondidas pelo Pai, embora Ele possa não responder imediatamente (Salmo 22:2), contudo elas devem ser respondidas no devido tempo, seja por concessão da própria coisa desejada, E, se sabemos que Ele nos ouve em tudo o que pedimos, sabemos que alcançamos as petições que Lhe fizemos” (1 João 5:15); ou algo tão bom quanto: “E disse Abraão a Deus: Quem dera que viva Ismael diante de teu rosto! E disse Deus: Na verdade, Sara, tua mulher, te dará um filho, e chamarás o seu nome Isaque, e com ele estabelecerei a minha aliança, por aliança perpétua para a sua descendência depois dele” (Gênesis 17:18-19). “Acerca do qual três vezes orei ao Senhor para que se desviasse de mim. E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo” (2 Coríntios 12:8-9).

 

 

A Necessidade da Oração Secreta

 

A oração secreta não é necessária no que diz respeito ao mérito, como se pudéssemos adquirir o céu por meio dela. O único fundamento da esperança de vida eterna nas mansões de felicidade é a justiça de um Redentor crucificado. Mendigos não pagam dívidas, mas confessam a sua insuficiência, dizendo com o profeta: “Pecamos, e cometemos iniquidades, e procedemos impiamente, e fomos rebeldes, apartando-nos dos teus mandamentos e dos teus juízos” (Daniel 9:5). Mas a oração secreta é necessária,

 

1. No que diz respeito ao mandamento de Deus. Ele, por um comando simples e expresso a exige; e este mandamento a obriga como um dever necessário em relação a nós. Negligenciá-la, portanto, é uma violação direta do mandamento do grande Deus e Legislador; e esteja consciente de que este é um ato de obediência necessário e adequado à vontade Divina.

 

2. Para dar a Deus a glória de Sua Onisciência e Onipresença. Quando oramos ao nosso Pai em secreto, nós claramente declaramos que acreditamos que Ele sabe e vê todas as coisas, que as trevas e a luz são iguais para Ele; e que Ele é a testemunha e inspetor de todas as nossas ações, e nos chamará a prestar contas por todos os nossos pensamentos, palavras e ações, os quais são bem conhecidos por Ele.

 

3. Para evidenciar a nossa sinceridade, que não é para sermos vistos pelos homens que oramos; que não somos movidos por motivos de ostentação e vanglória, mas de respeito à ordem Divina, e um desejo sincero de servir a Deus; embora na verdade Ele não espera que todos os que oram em segredo sejam, de fato, sinceros; pois, infelizmente! os homens podem ser muito assíduos neste dever, e ainda estar longe de serem Cristãos sinceros, ou aceitos por Deus quando o praticam.

 

4. No que se refere ao fato de que ninguém sabe do nosso caso tão bem como nós mesmos, e, portanto, embora o pai da família ore em família, contudo devemos orar por nós mesmos, a fim de darmos a conhecer o nosso caso em particular e desejos a Deus, visto que ninguém pode saber ou pedir por essas bênçãos e misericórdias de Deus como nós mesmos, como as que necessitamos e que são adequadas às nossas circunstâncias.

 

5. No que diz respeito a averiguarmos se conhecemos os nossos próprios corações. Não podemos deixar de ter algo a dizer ao Senhor, que não podemos, nem seria de todo conveniente dizer diante dos outros, no que diz respeito tanto à confissão dos pecados quanto à súplica por misericórdia. Daí a noiva diz em Cantares 7:11-12: “Vem, ó amado meu, saiamos ao campo, passemos as noites nas aldeias. Levantemo-nos de manhã para ir às vinhas, vejamos se florescem as vides, se já aparecem as tenras uvas, se já brotam as romãzeiras; ali te darei os meus amores”.

 

6. No que diz respeito aos nossos desejos recorrentes, continuamente a nos rodear diariamente, e as tentações de hora em hora, estes podem convocar este exercício, quando não é possível orar em família. Que homem é tão bem provido, tanto com bênçãos temporais quanto espirituais, como a não ter ocasião para pedir suprimentos do alto? O homem é uma criatura carente e pobre em todos os aspectos; como uma criatura que vive nas bênçãos da providência, e como Cristão na graça que há em Cristo Jesus; e, portanto, ele deve recorrer diariamente ao trono da graça pelos suprimentos necessários. E como estamos diariamente cercados de tentações, e não temos forças para resisti-las ou repeli-las, devemos buscar a força de Deus em Cristo por meio da oração, para que não caiamos e venhamos a ser vencidos pelas tentações em nosso caminho.

 

Assim, evidencia-se a partir destas considerações que a oração é um dever necessário a todos. E, certamente, todos os que provaram que o Senhor é misericordioso estarão conscientes que este exercício é importante e útil.
 

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