Senhor Meu, e Deus Meu!, por R. M. M’Cheyne

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“E oito dias depois estavam outra vez os seus discípulos dentro, e com eles Tomé. Chegou Jesus, estando as portas fechadas, e apresentou-se no meio, e disse: Paz seja convosco. Depois disse a Tomé: Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente. E Tomé respondeu, e disse-lhe: Senhor meu, e Deus meu!” (João 20:26-28)

 

 

I. LIÇÃO. Quando os crentes se reúnem, Jesus está em seu meio, e diz: “Paz seja convosco”. “Seus discípulos estavam dentro” (v. 26).

 

Foi na noite do dia em que Jesus ressuscitou dentre os mortos, que os discípulos estavam reunidos. Ele apareceu a Maria Madalena, e a Pedro e aos dois discípulos, no caminho de Emaús, e agora eles estavam reunidos para meditar, pensar, e orar sobre essas coisas, quando Jesus se apresentou em seu meio, e disse: “Paz seja convosco”. “Então os discípulos se alegraram quando viram o Senhor”.

 

Outrossim, foi na mesma noite, uma semana depois, que os discípulos se reuniram novamente, e mais uma vez Jesus se revelou a eles, dizendo: “Paz seja convosco”. Este foi um cumprimento da promessa que Ele fez muito antes: “onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” [Mateus 18:20]. E mais uma vez Ele disse: “…eis que eu estou convosco todos os dias até a consumação do mundo” [Mateus 28:20]. Esta promessa sempre tem sido, e sempre será cumprida. Jesus ainda ama a assembleia dos Seus santos. Se você pudesse olhar para a história particular dos Cristãos, você veria que a maioria deles foram despertados na casa de Deus; que eles foram levados a um primeiro refrigério da alma na visão de Cristo ali, que foram confortados e receberam a maioria de suas alegrias celestes ali.

 

Ah! é onde os discípulos se encontram que Jesus chega e diz: “A paz seja convosco”. Davi1 diz: “Quanto a mim, os meus pés quase que se desviaram; pouco faltou para que escorregassem os meus passos… Pois eu tinha inveja dos néscios, quando via a prosperidade dos ímpios… Até que entrei no santuário de Deus; então entendi eu o fim deles” [Salmo 73:1, 2, 17]. Todas as suas dificuldades foram resolvidas, e ele foi capaz de dizer: “Deus é a fortaleza do meu coração, e a minha porção para sempre” [Salmos 73:26]. Semelhantemente, Tomé tinha passado uma semana bastante desconfortável. Estas palavras: “Eu não crerei”, sempre trazem dor e tristeza após elas. Sua mente estava cheia de receios e dúvidas que lhe atormentavam, mas ele veio ao encontro dos discípulos, e Jesus se revelou a ele, e ele se encheu de admiração e alegria…

 

Espero que esta possa ser a experiência de alguns neste dia de Sabath. Talvez alguns tenham passado uma semana de problemas em vez de paz, uma semana de dúvidas quando os outros estão se regozijando. Alguns de vocês, quando os outros estavam felizes, disseram: “Eu não crerei”. Aprendam de Tomé a não deixarem de se congregar. Duvidando, inclinando-se, tremendo, pode Cristo revelar-se a vocês, dizendo: “Paz seja convosco”

 

Quando as portas se fecharam, Jesus pôs-se no meio deles e disse: “A paz seja convosco”.

 

1. Quando as portas estão fechadas, com medo da perseguição, Jesus revela-se à alma. Assim foi com os discípulos. Eles haviam fechado as portas de sua câmara superior, por medo dos judeus. Eles foram censurados e vilipendiados como aqueles que tinham estado com Cristo, ou melhor, havia algum receio de que eles seriam feitos participantes da mesma morte, por isso eles fecharam as portas do lugar onde eles se encontraram. Mas esse foi o tempo que Jesus escolheu para entrar ali. Quando o mundo estava ameaçando-os, dizendo: “tormentos e morte sejam sobre eles”, Jesus disse: “Paz seja convosco”. Assim o é agora. O mundo é tão amargo contra os Cristãos agora como sempre foi. Alguns de vocês que se juntaram ao Senhor no último Dia de Sabath podem ter descoberto até este momento que o mundo vos odeia. O servo não é maior do que o seu Senhor.

 

Alguns de vocês podem ter se tornado participantes das aflições do Evangelho, e estão sentindo neste dia que o escândalo da cruz não cessou. Amigos mundanos podem censurar, podem perseguir, podem reprová-los, mas isso não importa. Quando as portas estão fechadas, por medo, Jesus vem, e diz: “A paz seja convosco”. Lembrem-se, quando vocês estão trancados e há perseguição lá fora, você não está deixando Jesus de fora. Ele pode entrar mesmo através de todas essas trancas. Quando o mundo diz: “Pragas sejam convosco”, Cristo diz: “A paz seja convosco”. E aqui há uma maravilha, que a voz de Cristo, apesar de ser uma voz mansa e delicada, é ainda muito mais alta do que o mundo. Ele acalmou as ondas do Mar da Galiléia, e, oh! Ele falará de paz à sua alma. Quando as ondas da perseguição rugirem contra você, ele diz: “Não temas, paz seja convosco”.

 

2. Quando um homem está completamente trancado, Jesus vem, e diz: “Paz seja convosco”. A razão pela qual algumas pessoas despertadas estão longe de chegar à paz, e alguns nunca têm paz de modo algum, é que eles pensam em encontrar uma porta aberta para eles mesmos. Eles se sentem trancados, pelos temores de que a ira envolva-os por todos os lados, entretanto eles esperam encontrar alguma forma de escaparem por si próprios. Eles não estão completamente trancados. Eles não foram levados ao desespero por jamais salvarem a si mesmos. Eles não foram levados a sentir e dizer: “eu nunca poderei fazer nada para me salvar”. É impossível que essas pessoas possam ser trazidas à paz enquanto cada porta não estiver fechada. Se Deus lhes desse a paz, eles louvariam a si mesmos, e diriam: “Nós fizemos isso”.

 

Há alguém assim me ouvindo? Olhe aqui, foi quando as portas se fecharam, que Jesus veio, e assim é com a alma. É quando você está trancado, perdido e culpado diante de Deus, quando você não busca suas próprias portas, Jesus entra, e diz: “Eu sou a porta; paz seja convosco”.

 

3. Quando as portas de confortos mundanos estão fechadas, Cristo vem e diz: “A paz seja convosco”. Assim foi com os discípulos. Eles eram como uma família de órfãos privados de seu Cabeça. Eles eram como um ninho de pássaros pequeninos, aos quais a mão assassina havia levado o abrigo, sob cujas asas costumavam encontrar repouso. Eles haviam deixado tudo para seguir a Cristo, eles haviam vindo refugiarem-se debaixo de Suas asas todo-poderosas, e agora, porém, Ele havia deixado todos eles desolados. Eles fecharam suas portas para o mundo frio e sombrio, para mostrar que nenhum consolo era de se esperar a partir do mundo. Assim foi no exato momento em que Jesus entrou com dulcíssimo poder para cumprir Sua palavra: “Eu não vos deixarei órfãos; eu voltarei para vocês”, dizendo: “A paz seja convosco”.

 

Assim é agora. Quando confortos mundanos abundam, na proporção inversa, as consolações de Cristo diminuem. Não é quando o mundo está cheio de sorrisos e bondade que um verdadeiro crente tem as visões mais doces do Salvador. É, antes, quando o crente é deixado como um órfão, quando os confortos são retirados, quando os amigos morrem ou mostram ser falsos, quando o mundo sombrio lhe olha assustadoramente, e ele fecha a porta, dizendo: “consoladores molestos são todos vós”, é então que Jesus vem, e diz: “Paz seja convosco”. Os raios mais brilhantes da luz do sol são aqueles que vêm através das nuvens mais escuras, assim também as visitas mais doces do Salvador acontecem quando as portas do conforto mundano estão fechadas. Você é um crente? Você terá problemas, mas, oh! você terá a Cristo em meio a todos eles.

 

 

II. LIÇÃO. Quão amável Cristo é para os crentes rebeldes!

Tomé era um crente muito incrédulo, e ainda assim Cristo o seguiu com Sua bondade. Se os outros discípulos eram insensatos, e tardos de coração para crer em tudo o que os profetas haviam falado, muito mais era Tomé. (1) Ele deveria ter acreditado nos profetas. Estava escrito no Salmo 16: “Tu não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção”. Ele sabia que isto é a Palavra de Deus. Tomé deveria ter crido no testemunho de Deus. (2) Tomé deveria ter acreditado pelas simples Palavra de Cristo. Três vezes Cristo tinha tomado solenemente seus discípulos para um lugar solitário, e disse-lhes que Ele deveria ser crucificado, e que ele ressuscitaria ao terceiro dia. Tomé deveria ter acreditado no testemunho de Cristo. (3) Tomé deveria ter acreditado nas palavras de Maria e Pedro, e dos dois discípulos que iam para Emaús, e em todos os outros discípulos, que lhe disseram: “nós vimos o Senhor”.

 

Mas, oh! ele era tolo e tardo de coração para crer em tudo o que foi falado a respeito de Jesus, pois ele disse: “Se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não puser o meu dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei” [João 20:25]. Ele duvidou da Palavra de Deus, ele duvidou da Palavra de Cristo, ele duvidou da palavra de seus irmãos, nada a não ser ver e sentir irá satisfazê-lo. Certamente Cristo rejeitará esta alma orgulhosa, rebelde e incrédula. Ele não merece mais nenhum testemunho. Ah! que palavras tolas que eu falo, ele nunca mereceu qualquer testemunho. Mas, oh! que graça há em Cristo! como Ele vem sobre as montanhas da provocação para com os crentes rebeldes! Na verdade, Ele vem, e oferece a Tomé a própria evidência que ele pediu: “Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente” [João 20:27]. Tal é o amor de Cristo a crentes voluntariosos. Cristo pode ter tratado da mesma maneira com alguns de vocês.

 

Falo às almas despertas que ainda dizem: “eu não vou crer”. Alguns de vocês foram despertados por Deus, e ficaram ansiosos pelas suas almas. Vocês sentem a culpa de uma Lei quebrada, vocês sentem a maldição de um Evangelho rejeitado pairando sobre vocês. Nós apontamos a Cristo para você, e dizemos: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo”. Mas vocês dizem que não podem se atrever, e não, vocês não vão acreditar. Você não pode acreditar que Deus teve tanta compaixão Divina em Seu peito a ponto de prover um resgate para alguém tão vil como você! Você não pode acreditar que Cristo tem um amor tão peculiar a ponto de estar disposto a ser o fiador de tal inimigo como você! Sua palavra é apenas esta: “Se eu não ver, eu não vou acreditar”. Ah! você é apenas outro Tomé. Você é um tolo, e tardo de coração para crer em tudo o que foi falado a respeito de Jesus.

 

1. Você tem rejeitado o testemunho de Deus. Examinai as Escrituras, pois são elas que de mim testificam; contudo, não quereis vir a mim para terdes vida. Todos os profetas deram testemunho a você a respeito de Jesus, colocando-O diante de você como: Aquele que não abriu a sua boca, Cordeiro sofredor, como Aquele que se tornou a expiação dos pecados. Nos Salmos você tem sido levado a clamar: “Olha, ó Deus, escudo nosso, e contempla o rosto do teu ungido” [Salmos 84:9]. Mas oh, você tem rejeitado tudo isso! Você ainda disse: “Cristo não é para mim; eu não crerei”.

 

2. Você tem rejeitado o testemunho de Cristo. O próprio Cristo deu testemunho para você. Ele disse que se você está cansado ??e sobrecarregado, deve vir a Ele, e achará descanso; que, se você está com sede, você deve vir a Ele e beber. Ele é a testemunha fiel e verdadeira, e Ele diz: “Se não fosse assim, eu vo-lo teria dito”, e ainda assim você tem rejeitado tudo isso, você ainda diz: “Cristo não é para mim; ‘se eu não ver de maneira nenhuma o crerei’”.

 

3. Você, tem rejeitado o testemunho dos crentes. Amigos Cristãos deram testemunho a você. “Eles disseram: Vimos o Senhor”. Os Cristãos têm dito que eles estavam no mesmo caso que você, tinham os mesmos pecados e o mesmo coração. Eles tiveram os mesmos medos, e a mesma escuridão, mas Cristo veio quando as portas se fecharam, e disse: “Paz seja convosco”. Nós não temos melhor direito a Cristo do que você. Nós O tomamos porque somos pecadores perdidos, e Ele é o Salvador do perdido. Ele é tão livre para você como para nós, mas, ah você ter desprezado a tudo isso evidencia que você ainda diz: “Cristo não é para mim; ‘se eu não ver de maneira nenhuma o crerei’”.

 

Agora, seria muito justo Cristo dizer: “eu não vou procurá-lo mais”. Seria muito justo se Cristo o deixasse em sua escuridão e incredulidade. Mas, como Ele lidou com Tomé, assim Ele lidou com você. Ele tentou uma maneira a mais com você. No último Sabath, Ele partiu o pão, e derramou vinho, e fez uma imagem de suas feridas silenciosas e do Seu amor agonizante, e Ele disse: “Põe aqui o teu dedo: não sejas incrédulo, mas crente”. Oh, a compaixão de Cristo que excede todo o entendimento!

 

1. Para os crentes. Você veio para a mesa de Cristo cheio de incredulidade, incapaz de perceber Cristo, incapaz de apegar-se a Ele? E Ele se fez revelar a você no pão partido e no vinho derramado? Ah! esta é a mesma misericórdia que Ele teve para com Tomé. Você, de todas as pessoas no mundo, deve sentir que Cristo é um longânimo Salvador.

 

2. Para pessoas despertadas. Você manteve-se para trás da mesa de Cristo, porque você não se atreveu a dizer que Cristo era seu? Mas você olhou e viu Cristo evidentemente apresentar-se crucificado? Você viu como o pão foi partido, uma figura de Seu corpo que foi partido? Você viu o vinho derramado, uma figura de Seu sangue que foi derramado? Ah! o seu coração não ardeu dentro de você quando você olhou ao redor e viu, por assim dizer, o silencioso sofrimento do Cordeiro de Deus? Esta é a palavra de Cristo para você: “Não sejas incrédulo, mas crente”. O próprio fato de que aos seus olhos foi concedido ver um outro sacramento, mostra claramente que Cristo está lhe buscando, estendendo as mãos e oferecendo-Se para você. “Não sejas incrédulo, mas crente”.

 

 

III. LIÇÃO. Tomé se apropria da fé: “Diz-lhe Tomé: Senhor meu, e Deus meu!”. Quando Tomé chegou à reunião dos discípulos naquela noite, eu não tenho dúvida de que o seu coração estava muito desolado. Incredulidade e infelicidade sempre andam juntos. Um “crente descrente” é de todos os homens o mais miserável. Seus irmãos ao redor dele estavam cheios de alegria, pois eles tinham visto o Senhor. Maria ainda se lembrava do tom de sua voz abençoada, quando disse: “Maria!”, e ela respondeu, “Rabôni?”. Pedro queria saber sobre Seu maravilhoso amor quando Ele disse: “Vá, diga aos discípulos e a Pedro”. E o peito de João transbordava com um sentimento silencioso de amor indizível. Todos estavam contentes, menos um. Este era Tomé. Mas agora, quando Cristo veio, quando Ele se revelou como sendo um Redentor crucificado, mas ressurreto, quando Ele mostrou Sua bondade especial para com Tomé, o coração de Tomé não podia mais permanecer distante, e ele gritou, nas palavras de apropriação de fé, diante de todos: “Meu Senhor, e meu Deus”.

 

Aprendam duas coisas:

 

1. Apropriar-se de Cristo e chamá-lO de seu próprio. Isto não lhe será dado por você conhecer que Cristo é o Salvador. Os demônios sabem disso, e estremecem. Você não teria se salvado do dilúvio por saber que havia uma arca. Você deveria entrar nela para se salvar. Assim, o fato de você saber que há um grande e glorioso Salvador não vai lhe salvar, se você não chamá-lO de seu: “Meu Senhor, e meu Deus”.

 

Objeção. Seria muita ousadia para mim, chamá-lO de meu.

 

Resposta. Ele se oferece para você. Ele estendeu as mãos para você quando você era contradizente e desobediente. Ele despertou você e o seguiu até agora. Ah! esta ousada presunção de recusá-lO. Tome com você estas palavras, e diga: “Meu Senhor e meu Deus”. Existe alguma presunção na apropriação de Cristo, por meio de Sua Palavra?

 

2. Confesse-O diante de todos. Tomé havia negado Cristo diante de todos, dizendo: “Eu não vou acreditar”, e, portanto, era certo que ele deveria confessar a Cristo diante de todos: “Meu Senhor, e meu Deus”. Não existe nenhum de vocês que negaram a Cristo diante de todos? Alguns de vocês disseram: eu não vou acreditar; e têm se mantido longe da mesa de Cristo, porque vocês não se atrevem a chamar Cristo de seu. Alguns de vocês O engaram em sua vida, proclamando a todos que lhes conhecem que vocês desprezam o Filho de Deus. Lembrem-se, então, eu vos suplico, a visão do último dia de Sabath. Lembre-se que Cristo, mais uma vez ofereceu-se para você, e está neste dia procurando-o. Venha, então, e deixe a sua aceitação de Cristo ser tão aberta quanto a sua negação dEle. Vá para casa, contar aos seus amigos, diga aos seus companheiros: Ele é “meu Senhor e meu Deus”.

 

Dundee, 4 de novembro de 1837.

 

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[1] Aqui, houve um engano por parte do M’Cheyne, pois a autoria humana do Salmo 73 é atribuída a Asafe e não a Davi.
 

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