Um Comentário Brasileiro da CFB1689: As Sagradas Escrituras 1.1 │ Por Marcus Paixão

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Prefácio

 

Comecei a estudar as grandes confissões de fé do Protestantismo em 2014, e rapidamente me interessei pelo Confessionalismo Batista, mas especificamente pela Segunda Confissão de Fé Batista de Londres. Estudar essa Confissão revolucionou o meu entendimento bíblico de modo surpreendentemente feliz! Entretanto, pensei, “Se esta é a Segunda Confissão qual é a Primeira?”. Foi então que, ao pesquisar, me deparei com o texto: “A História da Primeira Confissão Londrina – 1644”, da autoria de Marcus Paixão. Como esse texto foi útil para meus nascentes estudos sobre a recém-descoberta fé Batista Confessional! Foi uma verdadeira aula de história e teologia dos Batistas. Foi lendo textos como esse que eu, recém-saído do movimento Pentecostal, achei o meu lugar no movimento Reformado, ao perceber que cria naquelas mesmas verdades que aqueles primeiros Batistas Particulares/Reformados. Desde então tenho me alegrado na “fé comum” com aqueles irmãos do passado e com muitos irmãos do presente, como o querido pastor Marcus Paixão.

 

Portanto, regozijo-me profundamente pela presente publicação desta que, pela graça de Deus, será uma série de comentários da nossa amada Confissão. Esta publicação inicial traz um comentário do fiel primeiro parágrafo de nossa Confissão, cuja frase de abertura é: “As Sagradas Escrituras são a única, suficiente, correta e infalível regra de todo conhecimento, fé e obediência salvíficos”. Esta frase é o grande prefácio e fundamento de toda a Confissão Batista. É talvez a frase mais importante de toda a Confissão. Uma compreensão correta desta gloriosa afirmação determinará a piedade e veracidade da nossa fé e vida, é justamente essa compreensão correta que o autor buscar trazer no presente comentário.

 

O autor do comentário é alguém a quem sou muito grato. Grato por ele permanecer fiel e ser corajoso o suficiente para estudar e falar sobre as antigas doutrinas Batistas mesmo quando elas eram praticamente desconhecidas ou abertamente negadas. Grato por ter cuidado de si mesmo e da doutrina, e por assim se fazer um instrumento de Deus para abençoar Seu amado povo com uma exposição fiel das Sagradas Escrituras. Sou grato pelo seu trabalho, todavia, sei que isso não vem dele mesmo, é fruto da “graça de Deus, que está com ele” (1 Coríntios 15:10).

 

Por fim desejo fazer um apelo aos Batistas brasileiros para que se dediquem a estudar e conhecer as antigas doutrinas e teologia dos primeiros Batistas Particulares encontradas em suas Confissões Londrinas,[1] especialmente a de 1689. Ouçam a voz de um antigo Batista, falando sobre a Confissão de 1689, C.H. Spurgeon disse: “Não se envergonhem de sua fé; lembrem-se que este é o antigo Evangelho dos mártires, confessores, reformadores e santos. Acima de tudo, é a verdade de Deus, contra a qual todas as portas do inferno não prevalecerão. Deixem suas vidas adornarem a sua fé, deixem o seu exemplo enfeitar o seu credo. Acima de tudo, vivam em Cristo Jesus, e andem nEle, não crendo em nenhum ensinamento, senão no que é manifestamente aprovado por Ele, e de propriedade do Espírito Santo. Apeguem-se fortemente à Palavra de Deus que está aqui mapeada para vocês”.

 

Apeguem-se fortemente à Palavra de Deus que está aqui mapeada e comentada para vocês!

 

William Teixeira,

23 de junho de 2018.

 


 

A Confissão de Fé Batista de 1689

As Sagradas Escrituras

 

Comentário por Marcus Paixão

 

 

Parágrafo 1

 

A Confissão e Fé Batista de 1689 tem como influência e base alguns documentos do passado. Citamos especialmente a Primeira Confissão de Fé Batista (Confissão Londrina) de 1644, a Declaração de Fé e Ordem de Savoy, usada pelos Congregacionais, e especialmente a Confissão de Fé de Westminster, por ter sido a confissão de uso mais amplo naquele contexto. Boa parte dos artigos de fé da CFB1689 está em concordância com os artigos da CFW, às vezes com pouquíssimas ou mesmo nenhuma alteração no texto. Contudo, a abertura da Confissão Batista traz uma declaração sobre as Escrituras que não se apresenta em Westminster.

 

Embora as duas confissões comecem por tratar da doutrina das Escrituras, a declaração inicial da Confissão de Fé Batista de 1689 é singular entre as Confissões Puritanas do século 17. Também é importante frisar que embora os teólogos que produziram a Confissão Batista tenham usado para a sua composição algum material de apoio, como as confissões citadas acima, o principal escrito foi a própria Escritura Sagrada. A Confissão é um compêndio doutrinário que tem a Bíblia como seu centro, e seu conteúdo é a interpretação da Escritura, ou a exposição das doutrinas contidas nas Escrituras. Portanto, a Confissão de 1689 tem por fundamento, do início ao fim, o próprio texto sagrado.

 

O parágrafo inicial da Confissão apresenta a necessidade da Escritura para que o homem obtenha o conhecimento necessário à salvação. Mostra a revelação geral como fonte ineficaz para o conhecimento salvífico. Além disso, o parágrafo também menciona as diferentes maneiras que, no passado, Deus revelou a Si mesmo e a Sua vontade, até que essa revelação foi escrita e preservada, sendo as Sagradas Escrituras a revelação final de Deus ao homem.

 

As Sagradas Escrituras são a única, suficiente, correta e infalível regra de todo conhecimento, fé e obediência salvíficos, embora a luz da natureza e as obras da criação e da providência manifestem a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, a ponto de tornar os homens indesculpáveis; ainda assim, não são suficientes para oferecer aquele conhecimento de Deus e de Sua vontade, que é necessário para a salvação; portanto aprouve ao Senhor, em diversas ocasiões, e de muitas maneiras, revelar-Se, e declarar a Sua vontade para a Sua Igreja; e, posteriormente, para melhor preservação e propagação da verdade, e para o mais seguro estabelecimento e consolo da Igreja contra a corrupção da carne e da malícia de Satanás e do mundo, concedeu a mesma completamente por escrito; o que faz da Sagrada Escritura indispensável. Aqueles antigos modos de Deus revelar a Sua vontade ao Seu povo agora cessaram.

 

Parte dessa sentença está exatamente igual ao texto da primeira Confissão Londrina ou Confissão de Fé Batistas de 1644, que registra que as Sagradas Escrituras são a “única regra de todo conhecimento, fé e obediência salvíficos”. Esse texto foi retirado da primeira confissão e alocado na segunda confissão dos Batistas. Não consta nem em Westminster e nem em Savoy.[2]

 

A compreensão que os Batistas têm da Bíblia é que ela é um texto sagrado, por isso descrevem-na como “Sagradas Escrituras”. O significado não é difícil de entender: para os Batistas, bem como para o Protestantismo Reformado e Puritano dos seus dias, a Bíblia estava acima de qualquer obra humana. É um texto divino, soprado (inspirado), separado e autorizado por Deus aos homens. É, sobretudo para os Batistas, a única regra a ser crida e obedecida:

 

Não há lugar para outro texto sagrado no pensamento batista, visto que a Sagrada Escritura é tida como a “única regra suficiente, certa e infalível”. De fato, o grande princípio da Reforma do Sola Scriptura (somente pela Escritura) pode ser argumentado como tendo sua expressão mais completa com os Batistas do que com qualquer outro grupo protestante (SMITH, p. 6).

 

O termo “única regra” não diz respeito apenas a outros textos, em comparação com as Sagradas Escrituras. Vai muito além, sendo uma comparação completa e abrangente com qualquer outro tipo de regra que se possa imaginar. Samuel Waldron, numa breve introdução ao primeiro capítulo, lembra que a Confissão Batista foi desenvolvida tendo em vista o fogo das controvérsias que o Protestantismo Reformado travava com o Catolicismo Romano e seitas radicais, como os Anabatistas:

 

“Suas afirmações foram forjadas no fogo das controvérsias históricas. Isto é particularmente verdadeiro no capítulo 1. Cada uma de suas sete maiores afirmações está contradizendo um dogma Católico Romano correspondente. Além disso, em pelo menos dois exemplos (parágrafos 1 e 6) os Anabatistas Radicais, que reivindicam o direito da revelação e o dom da profecia, são negados” (WALDRON, p. 30).

 

Levando em consideração o contexto histórico em que a Confissão Batista de 1689 foi produzida, é necessário entender que “única regra” vai de encontro à tradição Católica Romana, que era posta em pé de igualdade com as Sagradas Escrituras, e muitas vezes acima delas. Por um lado, os Batistas negam qualquer autoridade da tradição Católica Romana sobre a Bíblia, em matéria de fé para a salvação ou mesmo na disputa sobre algum ponto doutrinal. A Confissão também nega a autoridade papal sobre as Sagradas Escrituras. A palavra do papa “ex-catedra” não tem a menor significação para os Batistas e nem pode ser equivalente em verdade ou autoridade a qualquer parte das Sagradas Escrituras. A Bíblia, e somente ela, é a “única regra” para os Batistas Confessionais de 1689.

 

Os movimentos da Reforma Radical da época também são indiretamente reprovados em seus pontos carismáticos. Sendo as Sagradas Escrituras a “única regra”, condena-se as revelações e profecias alegadas por muitos desses grupos, incluindo os Anabatistas Radicais. É importante destacar que um dos propósitos dos Batistas ao produzir a Primeira Confissão Londrina foi mostrar seu desacordo com os Anabatistas.

 

A Confissão foi escrita e publicada em 1644, e ficou conhecida como a Primeira Confissão de Fé de Londres. Jonh Spilsbury, William Kiffin e Hanserd Knollys, dentre outros, redigiram uma confissão onde declaravam suas crenças e de suas congregações. Um total de quinze pastores Batistas Particulares participou da elaboração desse documento. A Confissão tinha o propósito explícito de acabar com a confusão provocada pelos ingleses, que continuavam taxando-os de

Anabatistas. Na página do título lemos: “A Confissão de Fé das igrejas que comumente, embora falsamente, são chamadas Anabatistas”.[3] A Confissão de 1644, além de provar sua fidelidade doutrinária bíblica e sua ortodoxia, claramente negava qualquer tipo de ligação com os Anabatistas.

 

Outro ponto merece destaque quanto ao uso do termo “única regra” pela Confissão de 1689. Gary Marble acertadamente lembra que “pelo uso da palavra ‘única’ nós somos lembrados da doutrina do Sola Scriptura (em latim, ou ‘Somente a Escritura’, em Português), essa doutrina que, na verdade, foi um princípio da Reforma, é o foco de todo este capítulo”.[4] De fato, a ênfase do capítulo 1 é assegurar o leitor que, para os Batistas, as Escrituras estão em posição elevada, e nada menos do que aquilo que o “Sola Scriptura” representa está assinalado aqui.

 

As Sagradas Escrituras são a única regra “suficiente, correta e infalível”. Essas são qualidades que são exclusivas da Bíblia no que se refere ao conhecimento de Cristo, que conduz à vida eterna, à fé e à obediência. A confissão da suficiência da Escritura Sagrada descarta qualquer fraqueza que se possa pensar existir nela, até mesmo a ideia de “incompletude” está afastada, rejeitando qualquer coisa que possa ser usada para complementá-la. Aqui, mais uma vez, porém usando uma só palavra, a Confissão descarta qualquer outro tipo revelação ou texto sagrado que possa ajudar alguma pessoa quanto à salvação.

 

Com os termos “correta” e “infalível” pretende-se estabelecer uma característica de inerrância ao texto bíblico. O que é correto é oposto ao que é errado. Assim, o adjetivo “infalível” dado às Escrituras segue na mesma linha de raciocínio e destaca o caráter sem erro da Bíblia. “A Escritura não pode falhar” (João 10:35, ARA), disse Jesus. Portanto, se a Bíblia pudesse falhar, ela erraria; ou, de outro modo, se ela errasse, falharia.

 

Aqui é importante frisar que se tem em vista o texto original autógrafo da Escritura, que saiu da pena do autor movido pelo Espírito Santo. Essa afirmação não pode ser dita acerca das diversas traduções nos variados países e em variadas versões, e nem mesmo se refere aos milhares de manuscritos do Novo Testamento e do Antigo Testamento preservados em museus espalhados pelo mundo.[5] Somente a Escritura autógrafa pode ser considerada infalível, visto que até os textos que foram copiados das Escrituras originais apresentam variação entre si, como pode ser observado no exercício da crítica textual, não podendo se estabelecer com total precisão qual é o texto original. A problemática aqui não é o texto fonte, mas os pequenos erros de escribas e copistas que se perpetuaram ao longo da transmissão do texto bíblico.

 

A Escritura é a “única regra suficiente, correta e infalível” em termos de um conteúdo específico para algo específico. Waldron esclarece que seu conteúdo específico é a revelação redentiva.[6] É nesse ponto que ela é a única regra. O próprio texto da Confissão esclarece que sua infalibilidade e suficiência estão ligadas ao “conhecimento, fé e obediência salvíficos”, esclarecendo sua esfera de atuação.

 

“Conhecimento… salvífico” trata de um modo geral da história da salvação, a partir do Antigo Testamento e adentrando ao universo do Novo Testamento, onde Jesus é apresentado mais claramente, não mais através das sombras e tipos do AT, mas de Sua presença real e encarnada sobre a terra. De modo mais específico, trata da revelação acerca de Jesus Cristo e de Sua obra de expiação realizada na cruz. Somente as Sagradas Escrituras revelam Cristo e Sua obra.

 

A Confissão também assegura que a Bíblia é a única regra “fé e obediência salvíficos”, o que caracteriza a fé na reta doutrina. Nesse ponto, fé carrega a ideia de doutrina, isto é, a Escritura é o objeto ao qual os homens devem depositar a sua fé. Ela é a “regra de fé” dos Batistas. O sentido aqui carrega parte do que Judas escreveu em sua epístola, quando alertou que os cristãos batalhassem “pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Judas 1:3). Note que a expressão “fé que uma vez foi dada aos santos” não está se referindo à fé enquanto o dom de Deus que foi outorgada aos eleitos. “fé que uma vez foi dada aos santos” é o mesmo que “doutrina que uma vez foi dada aos santos”. A fé apresentada em Judas é o conjunto de ensinamentos bíblicos, o Evangelho de Cristo, o objeto da fé dos eleitos, que é, portanto, as Sagradas Escrituras.

 

A palavra que vem em seguida ajuda a definir que a fé mencionada pela Confissão é a doutrina cristã revelada na Escritura, pois “” vem acompanhada de “obediência”. Obediência às afirmações, ordenanças, e a todo o conjunto de ensinamentos da Escritura.

 

A segunda sentença da Confissão Batista de 1689 está em consonância com o que diz a Confissão de Fé de Westminster. Esse ponto mostra a indispensabilidade da Escritura: “a luz da natureza e as obras da criação e da providência manifestem a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, a ponto de tornar os homens indesculpáveis; ainda assim, não são suficientes para oferecer aquele conhecimento de Deus e de Sua vontade, que é necessário para a salvação”.

 

A confissão compreende que a bondade, a sabedoria e o poder de Deus se revelam de modo quádruplo à raça humana. Três desses modos são primeiramente destacados, “Ainda assim”, diz a Confissão, “não são suficientes para oferecer aquele conhecimento de Deus e de Sua vontade, que é necessário para a salvação”. Os três modos são:

 

• A luz da natureza
• As obras da criação
• A providência divina

 

Note que a afirmação da Confissão de que Deus pode ser conhecido a partir desses modos de revelação está em perfeita concordância com o ensino do apóstolo Paulo em Romanos 1:19-21, 2:14-15. Essa afirmação dos Batistas também pode ser corroborada com passagens do Antigo Testamento que afirmam que Deus está revelado nas obras da criação do mundo físico (Salmo 19:1-3). Ainda que a Escritura afirme a revelação de Deus nesses modos, esse tipo de revelação é insuficiente e não pode ajudar o homem quanto ao conhecimento salvífico de Deus, e, o máximo que ela pode revelar é que a existência de Deus é inegável. Hodge diz que “em certa medida” tanto a natureza quanto o caráter de Deus podem ser reconhecidos a partir desse modo dEle revelar-se.[7]

 

Mas o que significa esses três modos de revelação divina? A luz da natureza e as obras da criação são a mesma coisa ou são modos de revelação distintos? O que os Batistas pretenderam dizer com “luz da natureza” como uma forma de Deus revelar-se? Não penso que aqui haja uma referência ao conhecimento externo que emana das coisas criadas (a natureza de um modo geral), porque esse conhecimento, que de fato está presente da criação, pode ser subtendido na sequência do texto, quando se fala das “obras criadas”, o que me parece ser um segundo modo descrito de Deus revelar-se.

 

Não concordo com a ideia de que nesse ponto temos um uso sinônimo de “luz da natureza” e “obras da criação”. Portanto, “a luz da natureza” deve estar se referindo a outro tipo de fonte de conhecimento sobre Deus, distinto do conhecimento externo que a criação em si mesma transmite.

 

Os textos que a Confissão utiliza como referência para sustentar suas afirmações quanto às maneiras que Deus Se revela são os seguintes: Romanos 1:19-21, 2:14-15; Salmo 19:1-3. Em Romanos 1:19-21, Paulo vai alegar que Deus revela a sua “própria divindade” e os seus atributos “por meio das coisas que foram criadas”. E acrescenta que os homens “tendo conhecimento de Deus” são indesculpáveis. Aqui temos o que a Confissão Batista entende por Deus Se revelar através das “obras da criação”. A providência divina também é visível na linguagem paulina. Assim, “os atributos invisíveis de Deus” bem como “seu eterno poder”, podem ser vistos não apenas pelo ato de Deus ter criado, mas pela atuação de sua providência em preservar a criação. A criação está em pleno “funcionamento”, ela é mantida ativa por um poder “invisível”. O sol gera calor, os dias se sucedem perfeitamente, bem como as estações do ano, que proporcionam frio, calor, chuva, neve e gelo. Tudo funciona numa ordem perfeitíssima e sapientíssima. Aí está a providência de Deus em ação, ou os “atributos invisíveis de Deus e seu eterno poder” em operação. Dessa forma fica evidente que a Confissão utiliza o texto de Romanos 1:19-21 para demonstrar dois modos de Deus se revelar: a criação e a providência.

 

No texto de Romanos 2:14-15 Paulo fala que os gentios, que nunca ouviram falar da Escritura (lei), “mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência”. O ponto de Paulo é provar que Deus criou o homem com a lei impressa em sua consciência. A consciência, ou os pensamentos, o coração, acusam o homem em certa medida. Portanto, “luz da natureza” pode ser perfeitamente entendido como a consciência humana. Ou, em outras palavras, um conhecimento imputado à consciência humana sobre a existência de Deus e da moralidade.

 

O Catecismo Batista,[8] produzido a partir da Confissão de 1689, cuja 5ª edição foi apresentada por William Collins em 1695, trata sobre isso em sua terceira pergunta:

 

Pergunta 3: Como podemos saber que há um Deus? Resposta: A luz da natureza no homem, e as obras de Deus, claramente declaram que existe um Deus; mas somente a Sua Palavra e o Seu Espírito plena e efetivamente revelam-no para a salvação dos pecadores.[9]

 

Essa pergunta tem como base o trecho da Confissão que trata da insuficiência da revelação geral, especialmente a luz interior que existe em cada ser humano. Observe que a resposta do Catecismo Batista quanto ao significado de “luz da natureza” é o mesmo que propomos, pois o Catecismo chama de “a luz da natureza no homem”, uma referência à consciência humana da divindade. Comentando essa resposta do Catecismo, Benjamin Beddome escreveu em 1776:

 

Existe uma luz no homem? Sim. O espírito do homem é a luz (lâmpada) do Senhor (Provérbios 20:7). Essa luz está obscurecida pela queda? Sim (Efésios 4:18). Ela é suficiente para nos ensinar algumas coisas? Sim (1Co 11:14). Ela nos ensina algo sobre o ser de Deus? Sim (Romanos 1:19). Mas esse conhecimento que ela oferece tem muitas dúvidas e incertezas? Sim (Atos 17:27). E há muitas coisas sobre Deus que ela nem pode revelar? Sim (1Co 2:14) (BEDDOME, p. 4).

Os Batistas confirmam esse ensino da luz interior no homem com a Confissão de 1689 e com o seu Catecismo. O comentário de Beddome é decisivo, pois ele, interpretando a Confissão, afirma que há uma luz interior no homem.

 

O que me deixou ainda mais convencido desse ponto foi a associação muito similar de escritos da mesma época da confissão de 1689 (escrita, na verdade, em 1677 e publicada em 1688,[10] e popularizada em 1689). Gary Marble cita, por exemplo, um texto do Credo Ortodoxo, de 1679:

 

“Artigo trinta e sete do Credo Ortodoxo (não confunda com os antigos credos ortodoxos) afirma: ‘Nem ainda acreditamos que as obras de criação, nem a lei escrita no coração, a saber, religião natural, como alguns chamam, ou a luz interior do homem, como tais, são suficientes para informar o homem sobre Cristo, o Mediador, ou sobre o caminho para a salvação, ou a vida eterna por meio dEle’; Isto foi escrito em 1679, apenas dois anos após a estruturação da Confissão Batista de 1677. Esta declaração certamente parece corresponder ao conceito de luz da natureza”.[11]

 

Dessa forma, compreendo que a confissão trata de três modos distintos, mas insuficientes para a salvação, de Deus se revelar:

 

• Deus Se revela por meio do conhecimento dEle mesmo impresso na consciência humana;
• Deus Se revela por meio da criação, que declara visivelmente “que Deus existe”;
• Deus Se revela por meio da Sua providência em sustentar e governar Sua criação com o Seu grande poder.

 

A primeira é um tipo de revelação interna, enquanto que as duas outras formas de revelação são de natureza externa e podem ser percebidas por meio da natureza física criada por Deus. Essa revelação geral mesmo sendo tão gloriosa e inequívoca, como a Confissão afirma, “não é suficiente para oferecer aquele conhecimento de Deus e de Sua vontade, que é necessário para a salvação”. Contudo, torna os homens “indesculpáveis”.

 

Smith argumenta bem quando lembra que a revelação geral é tanto suficiente, como insuficiente: “enquanto a “revelação geral” de Deus (como é chamada) é suficiente para deixar pecadores “inexcusáveis” quanto ao fato de que Deus existe; entretanto, ainda assim, ela não é suficiente para levar pecadores ao conhecimento da redenção” (SMITH, p. 8).

 

Em outras palavras, essa revelação geral anuncia a necessidade de uma revelação escrita, que ensine o conhecimento de Deus e de Sua vontade para a salvação. Como pode a revelação geral falar de Cristo e de Sua morte na cruz? Como o Evangelho pode ser pregado a partir da observação da natureza ou a partir de nossa própria consciência? Como a criação pode nos levar ao arrependimento e à fé em Cristo? Se não tivermos uma revelação mais específica e detalhada sobre isso, os três modos de revelação citados acima jamais poderão fornecer qualquer tipo de conhecimento sobre a salvação.

 

“Portanto aprouve ao Senhor, em diversas ocasiões, e de muitas maneiras, revelar-Se, e declarar a Sua vontade para a Sua Igreja; e, posteriormente, para melhor preservação e propagação da verdade, e para o mais seguro estabelecimento e consolo da Igreja contra a corrupção da carne e da malícia de Satanás e do mundo, concedeu a mesma completamente por escrito; o que faz da Sagrada Escritura indispensável. Aqueles antigos modos de Deus revelar a Sua vontade ao Seu povo agora cessaram”.

 

Em resumo, a sentença acima da Confissão Batista assegura que a revelação redentiva, bem como a Escritura Sagrada, é totalmente indispensável. Isso porque a revelação de Deus na consciência humana, nas obras da criação e no desenrolar da providência divina, não é suficiente para nos dar o conhecimento salvífico. Desse modo, foi necessário que Deus revelasse a Si mesmo e à Sua vontade ao Seu povo, em muitas épocas diferentes e distintas, e de diversas maneiras, e depois, essa revelação foi finalmente escrita e preservada no decorrer do tempo, já que os primeiros modos de Deus Se revelar cessaram.

 

A sentença é primorosa, e apresenta uma fonte riquíssima de informação, por isso precisa ser analisada cuidadosamente. “Em diversas ocasiões, e de muitas maneiras” Deus decidiu revelar-Se. A Confissão trata primeiro do “quando” Deus começou a se revelar ao homem. A frase “diversas ocasiões” deve ser entendida, primariamente, como uma referência a um período anterior à existência da Escritura Sagrada. Na verdade, bem remotamente, num período posterior à criação, que remonta à época paradisíaca de Adão e Eva. Logo após a Queda, Deus revelou-Se ao primeiro casal e declarou que providenciaria um redentor, “descendente da mulher” (Gênesis 3), que esmagaria a cabeça da serpente maligna, Satanás. Desde então, Deus vem progressivamente revelando a Si mesmo e a Sua vontade ao Seu povo, ao longo das eras.

 

Nessa sentença da Confissão, uma questão teológica precisa ser observada. A “revelação redentiva” não pode ser entendida, nessa declaração da Confissão de 1689, como sendo a Escritura. Pois a Escritura só aparece depois, quando nos é dito que Deus decidiu preservar essa revelação na forma da Escritura: “e, posteriormente, para melhor preservação e propagação da verdade, e para o mais seguro estabelecimento e consolo da Igreja contra a corrupção da carne e da malícia de Satanás e do mundo, concedeu a mesma completamente por escrito”. A Escritura Sagrada, portanto, é a revelação redentiva de Deus ao seu povo, mas essa revelação, por um certo tempo, não estava escrita.

 

Destaco três pontos importantes: primeiro, houve um tempo em que essa revelação redentiva não estava escrita. A revelação foi dada aos homens, mas não foi escrita imediatamente em forma de Escritura Sagrada. Segundo, essa revelação redentiva em sua forma pré-escrita estava apenas parcialmente revelada, pois é preciso levar em conta a progressividade da revelação, que só foi concluída no Novo Testamento, quando o último livro da Escritura foi escrito, no último quarto do primeiro século d.C. Terceiro, essa revelação redentiva também estava revelada na forma de tipos e sombras, e não da forma mais clara possível. Essas observações apontam para a superioridade da Escritura Sagrada em comparação com a revelação redentiva pré-escrita.

 

Quando essa revelação redentiva começou a se tornar Escritura Sagrada? Precisamos remontar à escrita do Pentateuco, com Moisés.[12] Considerando que foi Moisés quem escreveu o Pentateuco, a revelação escrita tem início em algum ponto durante a vida de Moisés, depois dos seus 40 anos, algo em torno de 1.300 a.C. a 1.500 a.C.

 

Portanto, devemos considerar que a Confissão de Fé Batista de 1689 compreende três etapas da revelação: a revelação natural, que é insuficiente para a salvação, contudo, torna todos os homens indesculpáveis diante de Deus; a revelação redentiva pré-escrita, que constava de estágios progressivos da revelação, mas que é incompleta em conteúdo e em linguagem; e a revelação na Sagrada Escritura, completa, perfeita e superior às outras duas.

 

A Confissão também destaca que Deus Se revelou “de muitas maneiras”. Modo ou maneira diz respeito à forma como a revelação foi apresentada. A citação da Confissão é o texto de Hebreus 1:1, “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas”, o que atesta a variedade de modos como Deus se revelou no passado às gerações de crentes. As expressões “outrora” e “muitas vezes” no texto de Hebreus reportam ao que a Confissão diz com “diversas ocasiões”. A NVI traduz: “Há muito tempo Deus falou muitas vezes…”. Gary Marble diz que a Confissão usou literalmente uma tradução bíblica, provavelmente a tradução da King James. Penso que apenas a essência da ideia foi posta na Confissão Batista.

 

As maneiras como Deus Se revelou são realmente variados e diferentes em cada etapa. Alguns modos, que são facilmente observados, são os seguintes: (1) Deus falou audivelmente, de modo que Adão poderia ouvir e conversar com o Deus no jardim (Gênesis 3:9-10); com Moisés (Êxodo 3:4); (2) Deus Se revelou por sonhos, e dessa forma apresentou a José o que estava para acontecer com ele e sua família (Gênesis 37:5-11), e no Egito, através do sonho do faraó, ele previu que uma grande seca afligiria o país (Gênesis 41). (3) Deus também Se revelou através de visões: para Arão e Miriã, Deus disse: “ouçam as minhas palavras: quando entre vocês há um profeta do Senhor, a ele me revelo em visões…” (Números 12:6); (4) Através do Urim e do Tumim (1 Samuel 30:7-8). Todos esses modos de Deus Se revelar compreendem um modo à parte da revelação escrita. Ainda assim, são modos de revelação redentiva porque apresentam claramente Deus e Sua vontade. E mais: revelam Jesus Cristo. Foi com esses antigos modos de se revelar que Deus falou com os profetas.

 

O conteúdo dessa revelação anterior: “Portanto aprouve ao Senhor… revelar-Se, e declarar a Sua vontade”. Deus estava Se autorrevelando, e à Sua vontade santa, por meio dessas antigas maneiras. A Moisés, Deus disse: “Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó” (Êxodo 3:6). Ele diz quem Ele é. E Ele disse diretamente a Moisés o seu nome: “Eu Sou” (Êxodo 3:14). A vontade de Deus é expressa abundantemente na revelação redentiva pré-escriturística. É Sua vontade criar um povo a partir de Abraão e Sara, sua mulher estéril. É Sua vontade que esse povo se multiplique em grande abundância. É Sua vontade dar a esse povo uma terra para habitar. Ele deseja ser adorado por esse povo. Exige que esse povo viva em santidade e guarde a Sua lei. Toda a revelação é uma apresentação de Deus e de Sua vontade.

 

A Confissão também acrescenta que Ele Se revelou dessa forma “para a Sua igreja”. Mas como Deus Se revelou no período passado, na antiga dispensação, para a igreja? Na antiga dispensação nós temos Israel, o povo de Deus. Israel é uma entidade política, uma nação, e não pode ser concebido como sendo a igreja, que surge apenas no Novo Testamento. Para Gary Marble, as palavras “à sua igreja” devem ser entendidas como “aos eleitos”: “A referência à Igreja aqui é a todos os eleitos de Deus, em todas as eras, incluindo o período do Antigo Testamento” (MARBLE, p. 19).

 

Acredito que há mais duas principais possibilidades: a primeira é que o texto da Confissão de Fé Batista de 1689, nesse ponto, é praticamente idêntico ao da Confissão de Fé de Westminster. O que muda é a ordem de algumas poucas palavras. Contudo, isso não muda a declaração em ambas de que essa revelação anterior foi dada à igreja. Os Batistas que formularam a Confissão acreditavam que Israel era a igreja do Antigo Testamento? Acreditavam eles que a igreja é o Israel do Novo Testamento? Em outras palavras, os Batistas criam que a igreja é uma continuidade do Israel do Antigo Testamento?

 

Obviamente existe uma clara discordância entre a teologia de Westminster e a dos Batistas de 1689: Brandom Adams esclarece que “O federalismo (e a Confissão de Fé) de Westminster não fazem distinção entre Israel e a Igreja. Israel é a Igreja e a Igreja é Israel nesse sistema”, ele acrescenta, “o federalismo de 1689 rejeita essa crença. Um dos mais importantes princípios é que Israel segundo a carne é um tipo de Israel segundo o Espírito (a Igreja)”.[13] Portanto, para os Batistas de 1689, Israel e a Igreja são distintos, sendo o Israel do Antigo Testamento um tipo da Igreja de Cristo, assim como o cordeiro era apenas um tipo de Cristo, e não o próprio Cristo. Não há continuidade. O texto da Confissão pode muito bem ser interpretado dessa forma, considerando Israel a igreja, mas de forma tipológica e não literal.

 

Outra possibilidade é o contraste que a Confissão apresenta entre a revelação redentiva pré-escriturística e a Escritura Sagrada finalizada, após a escrita do último livro canônico. Nesse caso, considera-se revelação redentiva pré-Escritura todo o tempo do Antigo Testamento e todo o tempo em que os eventos do Novo Testamento estavam em curso, ou seja, quase a totalidade do primeiro século. O Novo Testamento começou a ser escrito aproximadamente duas décadas depois da morte de Jesus, o que significa que o primeiro texto do Novo Testamento foi escrito na metade do primeiro século. No período do Novo Testamento, quando parte da revelação já estava escrita na forma em que chamamos de Antigo Testamento, os “antigos modos” de Deus revelar-Se continuaram a acontecer. O Novo Testamento também registra a revelação por sonhos, visões, e através da voz audível de Deus. Em acréscimo a essas maneiras de Deus Se revelar, inclui-se as Escrituras do Antigo Testamento, que já estava presente no período do Novo Testamento, e até alguns textos do Novo Testamento, como as cartas de Paulo, que são citadas por Pedro. Porém, a Escritura não estava completa. O Cânon não estava fechado e Deus continuava Se revelando à Sua igreja.

 

Desse modo, quando a Confissão coloca: “aprouve ao Senhor, em diversas ocasiões, e de muitas maneiras, revelar-Se, e declarar a Sua vontade para a Sua Igreja”, ela está se referindo a todo o período em que esse tipo de revelação esteve em vigor, o que compreende, como vimos, o período do Antigo e do Novo Testamento. Esse último período, claro, já compreende o período da igreja. Portanto, não somente Israel, mas a igreja também recebeu revelação através de “muitas maneiras”. Assim como Israel também recebeu a Escritura ainda no seu tempo mais remoto, quando Moisés escreveu o Pentateuco, mas os antigos modos de revelação através de sonhos, visões, voz audível, continuaram. Desde o tempo de Moisés até o tempo do Novo Testamento, a Escritura vem caminhando lado a lado com os “antigos modos” de Deus Se revelar. É correto concluirmos que no período do Antigo e do Novo Testamento Deus Se revelou redentivamente de duas maneiras: pelos “antigos modos” e pela revelação que já tinha sido escrita.

 

No final do parágrafo, a Confissão também coloca em contraste os “antigos modos” de Deus se revelar com a completude da Escritura: “foi igualmente servido fazer escrever por completo todo esse conhecimento de Deus e revelação de sua vontade necessários à salvação; o que torna a Escritura indispensável”, acrescentando em seguida “tendo cessado aqueles antigos modos em que Deus revelava sua vontade a seu povo”. Note o conteúdo apresentado: “fazer escrever” e a expressão “por completo” e ainda ao que se refere: “a Escritura”. E, contrastando com a “Escritura” completa, a referência à cessação dos “antigos modos” de Deus se revelar.

 

Para melhor preservação e propagação da verdade, e para o mais seguro estabelecimento e consolo da Igreja contra a corrupção da carne e da malícia de Satanás e do mundo, concedeu a mesma completamente por escrito”. Com essa sentença, a Confissão também explica os propósitos da Escritura Sagrada ter sido escrita. Ela apresenta primeiro quatro proposições positivas:

 

1. Para melhor preservação da verdade;
2. Para melhor propagação da verdade;
3. Para o mais seguro estabelecimento da Igreja;
4. Para o maior consolo da Igreja.

 

Em seguida, a Confissão apresenta mais três proposições, agora negativas:

 

5. Contra a corrupção da carne
6. Contra a malícia de Satanás
7. Contra a malícia do mundo.

 

“Melhor preservação da verdade”. A “verdade”, no texto da Confissão, é a própria revelação redentiva que foi passada ao povo de Deus ao longo do tempo. Essa revelação precisava ser preservada de um modo “melhor”, e isso só seria possível naquela sociedade por meio da escrita. Como essa revelação foi preservada anteriormente? A maior parte da revelação foi preservada via tradição oral, especialmente os textos do Antigo Testamento.

 

A própria escrita hebraica apresenta sinais de que a tradição oral estava presente, pois diversas histórias são contadas e recontadas logo em seguida, provocando uma repetição que pode ser vista hoje como desnecessária. Não se trata apenas de um estilo hebraico, ou hebraísmo presente no texto. A repetição denuncia a própria presença milenar da tradição oral:

 

Já se recorreu ao contexto oral milenar da narrativa bíblica como explicação geral para seu modo de exposição repetitivo. Não é sequer necessário presumir, como tantos estudiosos, que as narrativas bíblicas procedem de tradições orais milenares, pois, de qualquer modo, é muito provável que tenham sido escritas, sobretudo, com vistas à récita. Como várias indicações na própria Bíblia sugerem, as narrativas costumavam ser lidas em voz alta a partir de rolos de papiro para algum tipo de plateia (parcialmente analfabeta)… o único modo de fixar e destacar uma ação ou frase consistia em repeti-la (ALTER, Robert. A Arte da Narrativa Bíblica, p. 140).

 

Essa tradição oral era frágil e não resistiria ao tempo. Além disso, o risco de ser corrompida por outros povos era muito grande, e isso realmente chegou a acontecer.[14] O processo de preservação da tradição oral da revelação redentiva não foi apenas humano. Sem dúvida, a ação do Espírito Santo em preservar as Escrituras se estende e deve ser compreendida na preservação da tradição oral da revelação divina anterior à Escritura. Essa tradição oral depois foi auxiliada e transformada em “escritos”, que também foram preservados ao longo do tempo, antes de se tornarem “Escritura” propriamente dita.[15] Esses escritos primitivos oriundos da tradição oral da revelação redentiva, e que serviram de base para Moisés e outros autores bíblicos, não eram inspirados e não podem ser considerados Escritura Sagrada. São, no máximo, apenas fontes que os autores usaram para compor o relato inspirado, as Sagradas Escrituras.

 

Tomemos como exemplo o livro de Gênesis, que apresenta as narrativas mais primevas da humanidade. No livro temos a existência de dez “toledots” ou “histórias” de famílias que foram preservadas. Especialmente importante é reconhecer que existem toledots muito antigos, como o de Adão. Essas histórias inicialmente foram preservadas na forma da tradição oral, mas em algum momento foram escritas na forma de histórias de famílias ou de genealogias. Muitos estudiosos de Gênesis acreditam que esses toledots eram escritos antigos, preservados e repassados geração após geração, até que chegaram às mãos de Moisés. De qualquer forma, sendo assim ou não, o fato é que Deus preservou Sua revelação de alguma maneira, até o momento em que decidiu escrevê-la, para “melhor preservação” da Sua palavra, que é a verdade.

 

A Confissão continua: “Para melhor propagação da verdade”. Note que a tradição oral da revelação redentiva também foi transmitida às gerações seguintes, porém essa forma de propagação da revelação era limitada e não era de forma alguma a “melhor” maneira de propagar a palavra divina.

 

Falando sobre a maior eficácia na propagação da revelação na forma escrita, Gary Marble afirma:

 

Eu penso sobre os muitos manuscritos gregos do Novo Testamento, e as muitas traduções desses manuscritos para outras línguas. Tudo isso não teria acontecido se a revelação não fosse concedida por escrito, inicialmente, e, assim, em sua pura quantidade a verdade é grandemente preservada e promovida (p. 21).

 

O fato de a Escritura Sagrada existir na forma escrita foi vital para que povos do mundo todo pudessem conhecer a revelação divina. Por que a revelação redentiva está na forma escrita, traduções são constantemente produzidas para variados dialetos.

 

Mais dois propósitos na escrita da revelação redentiva são destacados: “o mais seguro estabelecimento e consolo da igreja”. O primeiro deles diz respeito a segurança da igreja. Para que a igreja esteja firmemente estabelecida, é necessário que ela esteja também firmemente estabelecida na Palavra, que é o seu fundamento. Dessa forma, a Confissão de 1689 compreende que Deus preservou e conduziu Sua revelação à forma escrita com esse propósito: estabelecer com mais segurança a Sua igreja, protegendo-a da ameaça de uma “falsa” revelação. Paulo, inclusive, fala sobre isso, ao mencionar que circulavam cartas que supostamente tinham sido escritas por ele.

 

O segundo propósito mencionado é o “consolo” ou “conforto” da igreja. De muitas maneiras a revelação na forma escrita ajuda a consolar a igreja. A praticidade e a facilidade de ter a revelação escrita e poder consultá-la; a certeza que a revelação escrita proporciona preserva das falhas e erros a que a memória pode nos conduzir. E mais: a certeza da revelação inspirada é um auxílio à igreja, confortando-a contra a falsa revelação. Aqui, novamente, é importante frisar que tanto a Igreja Católica Romana como alguns grupos radicais da Reforma professavam algum tipo de revelação continuada, o que contradizia muito da revelação redentiva.

 

As três colocações negativas devem ser lidas tendo em vista o termo “contra” no início de cada uma delas. O termo surge no início da sentença, mas está implícito nos outros dois casos. Por isso, a Escritura é indispensável contra a corrupção e a malícia que atacam a igreja. Primeiro, “contra a corrupção da carne”, em seguida, a Confissão assegura que a revelação foi escrita contra “a malícia de Satanás”, e, por último, contra a malícia “do mundo”.

 

Waldron comentou: “assim, foi para a preservação da verdade da corrupção da carne (fraqueza humana), e da malícia de Satanás e do Mundo (maldade humana) que Deus nos deu as Escrituras” (p. 32). Em última análise, a confissão entende que foi para proteger e preservar a própria igreja que a Escritura foi concebida por Deus.

 

A própria revelação assegura a queda da humanidade no pecado (Gênesis 3), e com a primeira transgressão, a queda do mundo, pois Deus o amaldiçoou por causa do pecado do homem: “maldita é a terra por tua causa” (Gênesis 3:17). Paulo diz que “o mundo aguarda o dia da sua restauração”. O pecado entrou no mundo, agora caído, e seus resultados devastadores são visíveis em toda a humanidade. A Escritura foi dada à Igreja como uma espada desembainhada contra esses três inimigos.

 

A palavra “Portanto” leva à conclusão do raciocínio. Resumindo: foi para preservar e propagar a revelação redentiva; para estabelecer com segurança e conforto sua Igreja, e para defendê-la contra a corrupção humana, e a malícia de Satanás e do mundo, que “aprouve ao Senhor… declarar a Sua vontade… e conceder a mesma completamente por escrito”. Aqui há uma leve menção ao fechamento do Cânon, quando a Confissão usa as palavras “escrever por completo” essa revelação divina. Toda a revelação de Deus está, agora, escrita. As implicações teológicas para os Batistas de 1689 são variadas, e não significam apenas o fechamento do Cânon.

 

Como a última sentença do parágrafo afirma, os Batistas de 1689 são cessacionistas: “Aqueles antigos modos de Deus revelar a Sua vontade ao Seu povo agora cessaram”. A afirmação expressamente declara que Deus parou de Se revelar naqueles modos antigos. Como vimos antes, os antigos modos consistem na revelação extraordinária, quando Deus Se manifestava e Se comunicava através de sonhos, visões, voz audível, o Urim e o Tumim, teofanias, e outros modos. Portanto, Deus cessou esse tipo de comunicação, tomando em seu lugar, definitivamente, as Sagradas Escrituras.

 

Hoje ainda há diversas igrejas que alegam receber comunicação divina por meio dos “antigos modos” em que Deus Se revelou no passado. “Profetas” e “profetizas” modernos falam em nome de Deus e ousadamente dizem, a semelhança dos profetas bíblicos, “assim diz o Senhor”. Sonhos e visões, que modernamente são chamados apenas de “revelações”, ainda são anunciados em muitos contextos eclesiológicos, e até mesmo em muitas igrejas Batistas não confessionais. Todavia, para os Batistas que produziram a Confissão de Fé de 1689, esses variados modos de Deus comunicar-Se com a igreja ficaram no passado, tendo Deus cessado esse tipo de autorrevelação.

 

Não existe nenhum tipo de conhecimento redentivo fora das Sagradas Escrituras. Tudo o que é necessário para a salvação do homem foi encerrado na Escritura, esse é o ponto afirmado pelos Batistas aqui. A colocação de Kurt Smith é precisa.

 

A reivindicação popular da continuação das revelações proféticas e a aplicação de métodos religiosos não justificados pelas Escrituras como meio de levar os pecadores à fé em Cristo são rejeitados pela Palavra escrita de Deus como não possuindo qualquer autoridade ou legitimidade. Não existe nenhum conhecimento adicional que nós necessitemos sobre Deus, sobre o homem e sobre a redenção do que o que o próprio Deus nos deu pela Sua Palavra escrita. Portanto, quando o Espírito Santo ilumina o nosso entendimento, Ele não nos dá uma nova revelação, mas abre nossos corações para receber o que já foi escrito como “As Sagradas Escrituras” (SMITH, p. 10).

 

 


FONTES BIBLIOGRAFICAS

ADAMS, Brandom. O Federalismo de 1689 é uma Forma de Dispensacionalismo? Estandarte de Cristo, São Paulo, 2017.

ALTER, Robert. A Arte da Narrativa Bíblica. Companhia das Letras, São Paulo, 2007.

BEDDOME, Benjamin. A Scriptural Exposition of the Baptist Catechism. SGCB, Birmingham, AL. 2006.

Catecismo Batista, 1695.

HODGE, A.A. Confissão de Fé de Westminster: comentada por A. A. Hodge. Os Puritanos, São Paulo, 1999.

MARBLE, Gary. Um Comentário da Confissão de Fé Batista de 1689: Introdução e Capítulo 1. Estandarte de Cristo, São Paulo, 2016.

SMITH, Kurt. A Única Regra. In Founders Journal, spring 2016, nº 104.

WALDRON, Samuel E. A Modern Esposition of the 1689 Baptist Cofession of Faith. Evangelical Press, England, 2009.

 


[1] Estas Confissões não são aquilo em que nossa fé se baseia, mas são somente instrumentos pelos quais declaramos, isto é, confessamos, em que nossa santíssima fé realmente se fundamenta, que é em Cristo Jesus, segundo todas as Escrituras testificam.

[3] Nesta nota inicial da Confissão Batista de 1644 lemos uma declaração que desqualifica qualquer pessoa a insinuar uma ligação dos Batistas com os Anabatistas. Era exatamente assim que os ingleses, em sua maioria, entendiam. Eles fizeram questão de esclarecer com essa nota sua total desarmonia com esse grupo. A ideia de que a origem dos Batistas remonta aos Anabatistas ainda é defendida por um grupo reduzido de historiadores.

[5] Isso não implica dizer que as nossas versões e traduções bíblicas não são confiáveis. A Crítica Textual já provou que o texto da Escritura que temos em mãos é totalmente confiável, e as variantes textuais, além de representarem um cenário minúsculo diante de todo o texto bíblico, não estão relacionadas a problemas teológicos que poderiam comprometer nossa compreensão.

[7] Confissão de Fé de Westminster Comentada por A.A. Hodge, p. 49.

[8] A 5ª edição do Catecismo Batista foi publicada em 1695, apenas seis anos depois que a própria Confissão de 1689 foi impressa. Outras edições foram publicadas anteriormente, visto que essa é a quinta edição. Conforme observou o Dr. James Reniham, na introdução à nova edição americana da exposição de Beddome, o Catecismo Batista segue o mesmo modelo do Breve Catecismo de Westminster. Ele também é conhecido como Catecismo de Keach.

[9] Catecismo Batista, 1695.

[10] A Segunda Confissão de Fé Batista de Londres foi emitida de forma anônima em 1677 por causa da perseguição que os Batistas Particulares estavam sofrendo, foi republicada abertamente em 1688 e popularizada em 1689. Em seu livro Quem Foram os Puritanos?… e o que eles ensinaram?, Erroll Hulse, afirma o seguinte: “Quando as condições melhoraram em 1688 foi possível publicar a Confissão que havia sido formulada anteriormente [i.e., em 1677], mas a perseguição sofrida impediu-a de ter uma grande circulação. A Confissão de 1677 tornou-se conhecida como A Confissão de Fé de 1689 somente pela maior divulgação que recebeu naquela época”. HULSE, Erroll. Como os Batistas se relacionam com os Puritanos? (Anexo II). In Quem Foram os Puritanos?… e o que eles ensinaram? 1ª ed. São Paulo: Editora PES, 2004, p. 233. – N.doE.

[11] Um Comentário da Confissão de Fé Batista de 1689: Introdução e Capítulo 1, p. 17.

[12] Alguns consideram que Jó é o livro mais antigo da Bíblia, remontando à época abraâmica.

[14] Falando de uma perspectiva ortodoxa, que entendo ser a correta, a narrativa do dilúvio, por exemplo, foi divinamente preservada na Escritura Sagrada, mas é fato que existem dezenas de outras narrativas diluvianas que tem uma origem comum, mas que foram sendo repassadas às gerações posteriores, e junto com sua transmissão, a tradição foi sendo alterada e adaptada a cada povo. Porém, todas revelam elementos comuns: um dilúvio universal, a ira de um deus ou dos deuses, um barco e um herói que sobrevive ao dilúvio, e outros pontos de semelhança com o relato de Gênesis. Narrativas cosmogônicas também existem, apresentando semelhanças que indicam uma fonte comum, mas que apresentam enormes alterações ou distorções. O relato da criação do homem; relatos sobre Eva, sobre o pecado, sobre a serpente, indicam que havia uma história primeva que descrevia todos esses acontecimentos, mas que houve corrupção na tradição oral dessas histórias.

[15] Não confundir com a Hipótese Documentária, do alemão Julius Welhausen, e todas as suas hipóteses auxiliares, que, ao contrário, terminam por negar as Sagradas Escrituras.

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