Um Comentário da Confissão de Fé Batista de 1689, por Gary Marble: Capítulo 2, Sobre Deus e a Santíssima Trindade

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Um Comentário Da Confissão De Fé Batista De 1689

 

Capítulo 2*, Sobre Deus e a Santíssima Trindade

 

 

1. O Senhor nosso Deus é somente um Deus vivo e verdadeiro1; cuja subsistência é em e de Si mesmo2, infinito em Seu ser e perfeição; cuja essência não pode ser compreendida por qualquer outro, senão por Ele mesmo3; um espírito puríssimo4, invisível, sem corpo, partes ou paixões, a Quem somente pertence a imortalidade, que habita em luz que nenhum homem pode acessar5; é imutável6, imenso7, eterno8, incompreensível, onipotente9, em tudo infinito, santíssimo, sapientíssimo10, completamente livre e absoluto, operando todas as coisas segundo o conselho da Sua vontade imutável e justíssima11, para a Sua própria glória12. É cheio de amor, gracioso, misericordioso, longânimo, abundante em bondade e verdade, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado; o galardoador daqueles que diligentemente O buscam13 e, contudo, justíssimo e terrível em Seus julgamentos14; odiando todo pecado15; e Quem de modo algum terá o culpado por inocente16 (1 1 Coríntios 8:4, 6; Deuteronômio 6:4 • 2 Jeremias 10:10; Isaías 48:12 • 3 Êxodo 3:14 • 4 João 4:24 • 5 1 Timóteo 1:17; Deuteronômio 4:15-16 • 6 Malaquias 3:6 • 7 1 Reis 8:27; Jeremias 23:23 • 8 Salmos 90:2 • 9 Gênesis 17:1 • 10 Isaías 6:3 • 11 Salmos 115:3; Isaías 46:10 • 12 Provérbios 16:4; Romanos 11:36 • 13 Êxodo 34:6-7; Hebreus 11:6 • 14 Neemias 9:32-33 • 15 Salmos 5:5-6 • 16 Êxodo 34:7; Naum 1:2-3).

 

Este capítulo da Confissão é muito importante porque uma compreensão adequada de Deus é o fundamento da nossa própria existência. O conhecimento exato de Deus é necessário se quisermos entender o mundo ao nosso redor, a nós mesmos, a Escritura1 e o mais importante, se estamos adorando a Deus em Espírito e em verdade. Mas, como alguém adquire esse conhecimento crítico? Louis Berkhof afirma em sua Teologia Sistemática: “o homem pode conhecer a Deus apenas na medida em que este último ativamente se faz conhecido”2. Felizmente, Deus de fato Se revelou. Ele fez isso por meio das Escrituras3. O estudo de Deus não é um campo de especulação, mas de revelação. A. W. Tozer afirma, com razão: “A essência da idolatria é o entretenimento de pensamentos a respeito de Deus que são indignos dEle”4. Assim, podemos contar apenas com a Palavra de Deus para entender quem Deus é. Se confiarmos em nossas próprias ideias, inevitavelmente acabaremos com uma visão deficiente de Deus, que Tozer claramente chama de “idolatria”.

 

O capítulo 1 da Confissão apresentou a doutrina da suficiente, correta e infalível regra da Santa Escritura. Baseado no caráter da Palavra de Deus, podemos chegar com confiança e com expectativa a ver o que o nosso glorioso Deus disse sobre Si mesmo! No entanto, uma palavra de cautela deve ser dita. R. C. Sproul afirma: “A Teologia distingue entre um conhecimento abrangente (exaustivo) de Deus, o que não podemos ter, e um conhecimento apreensivo, que é limitado, finito, humano, o conhecimento das criaturas, o qual podemos ter”5. Portanto, temos que compreender que existem limites para o que podemos apreender de Deus, mas mesmo tendo em conta esta realidade, uma pessoa nunca poderia em uma vida plenamente sondar as profundezas da Escritura a respeito de Deus.

 

Enquanto começamos nossa jornada através deste capítulo, pode ser útil ter um roteiro básico. Eu encontrei úteis os títulos dados aos parágrafos por Robert Letham para este capítulo: Parágrafo 1. O Único Deus Vivo e Verdadeiro, Parágrafo 2. A Toda-Suficiente Soberania de Deus, e Parágrafo 3. A Trindade6.

 

A Confissão de 1689 começa com esta afirmação fundamental: O Senhor nosso Deus é somente um Deus vivo e verdadeiro. A Escritura afirma: “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Deuteronômio 6:4). A Confissão começa essencialmente com uma citação direta da Escritura. Pense nisso! O Senhor é nosso Deus. De todos os chamados deuses deste mundo, o soberano Senhor é o nosso Deus. Bem, esse Deus é somente um, Ele não é muitos deuses, Deus é o único Deus vivo. A Escritura afirma em Jeremias: “Mas o Senhor Deus é a verdade; ele mesmo é o Deus vivo” (Jeremias 10:10a). Todos os outros chamados “deuses” não são vivos, ou eles jamais viveram. Jeremias prossegue no versículo 14, afirmando: “Todo o homem é embrutecido no seu conhecimento; envergonha-se todo o fundidor da sua imagem de escultura; porque sua imagem fundida é mentira, e nelas não há espírito”. Os deuses não são vivos ou reais; esses ídolos são surdos, eles não podem ouvir as orações; eles são mudos, eles não podem falar; e eles não existem, eles não podem agir. Eles são impessoais, objetos inanimados feitos de mera matéria, não mais7. O cenário histórico destas passagens em Jeremias é a de um mundo politeísta; ídolos eram considerados vivos e capazes de agir em nome de seus adoradores. Para leitores ocidentais, que não estão envolvidos no mesmo tipo adoração grosseira de ídolos (os ídolos ocidentais são apenas de um tipo diferente), o contraste entre Deus e os ídolos de madeira e pedra podem não parecer tão grande, ou no mínimo não parecer tão relevante. Para os leitores do Oriente essas passagens provavelmente parecem muito mais relevantes.

 

Deus também é o único Deus verdadeiro. Em outras palavras, os ídolos ou deuses adorados não são verdadeiramente deuses e não possuem qualquer Divindade, ao passo que Deus é o único que é Divino. Em contraste com os ídolos que são falsos, porque eles não existem e falsos porque adorá-los é uma ilusão, Deus é verdadeiro; Ele existe. Jeremias afirma sobre esses ídolos: “Vaidade são, obra de enganos: no tempo da sua visitação virão a perecer” (Jeremias 10:15a). Eles não são verdadeiros deuses, pois eles não existem, senão na imaginação do enganado. Deus é o único que é legitimamente chamado de “Deus”, porque Ele é o único. “Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de mim não há Deus” (Isaías 45:5a). No Novo Testamento, Paulo afirma: “Assim que, quanto ao comer das coisas sacrificadas aos ídolos, sabemos que o ídolo nada é no mundo, e que não há outro Deus, senão um só” (1 Coríntios 8:4)8. Se toda a humanidade e, particularmente, o antigo povo de Deus, reconhecesse que a Divindade pertence somente a Deus, então estas passagens bíblicas, e muitas outras semelhantes seriam desnecessárias. Mas o fato é que a humanidade por sua supressão da verdade atribui características Divinas a outras coisas, como o sol, rios, animais, ou meros objetos materiais, até mesmo a algo que eles próprios fizeram… Ao longo da história, Deus tem persistentemente lembrado a Seu povo que Ele é o único Deus (ou seja, não há mais ninguém ou nada que tenha qualquer Divindade), o verdadeiro Deus (ou seja, real e todo-poderoso, ninguém é mais elevado ou maior).

 

Imediatamente após abordar a unidade e existência de Deus, vemos essa frase na Confissão: cuja subsistência é em e de Si mesmo9. O Dicionário de Inglês Oxford define subsistência como: “Existência como uma substância ou entidade; substancial, real, ou existência independente”. Muller define como: “indicando um ser ou existência particular, uma instância individual de uma determinada essência10. Em certo sentido, podemos dizer que subsistência refere-se à existência de Deus como uma pessoa, mas enquanto Deus é uma pessoa (ou seja, Deus tem personalidade), contudo, Deus é muito diferente de uma pessoa humana, de modo que hesita-se até mesmo em usar a palavra 'pessoa'. A Confissão nos diz que quem Deus é, Ele é em… Si mesmo. Em outras palavras, Deus não precisa de nada nem de ninguém fora de Si mesmo para ser quem Ele é. Deus não depende de nada nem de ninguém para nada. Deus é autossuficiente. Bem como, Deus é quem Ele é de Si mesmo. Se uma coisa é de algo, isso significa que é de ou originária de alguma coisa. Toda a frase aqui comunica que o ser de Deus provém de e a partir dEle mesmo. Nenhuma coisa nem ninguém acrescenta a quem Deus é. “A ‘não-proveniência’ de Deus é autossuficiente, autocontida e autoexistente. Dizer que Deus é autossuficiente e autocontido é referido na teologia como a asseidade de Deus, a Sua independência absoluta. J. I. Packer indica que os antigos teólogos reformados referenciavam a autoexistência e autossuficiência, chamando-a da independência de Deus11. O próprio Senhor disse: “EU SOU O QUE SOU” (Êxodo 3:14).

 

Ao estudar os atributos de Deus, há duas categorias bem utilizadas que serão úteis para nós: os atributos incomunicáveis e os atributos comunicáveis ​​de Deus. Os atributos incomunicáveis ​​são os atributos de Deus que Ele não concede às Suas criaturas, como a Sua eternidade, imutabilidade, onisciência ou onipotência. Estes pertencem somente a Deus. Os atributos comunicáveis ​​de Deus se referem aos Seus atributos que Ele tem dado, de uma forma finita, às Suas criaturas humanas, tais como: amor, inteligência, ou outros atributos semelhantes. Conforme continuamos através da Confissão, você pode reconhecer estas duas categorias.

 

A Confissão afirma que Deus é infinito em Seu ser e perfeição. Dizer que Deus é infinito em Seu ser é afirmar que Ele não tem nenhuma limitação, porém é mais do que isso. Berkhof indica que não devemos apenas pensar no ser infinito de Deus como “uma extensão sem limites, como se Deus estivesse espalhado por todo o universo, uma parte estando aqui e outra ali, pois Deus não tem corpo e, portanto, nenhuma extensão”12. Estes são assuntos difíceis com os quais lidar. Como se infinito em Seu ser não fosse forte o suficiente para abranger, a Confissão acrescenta que Deus é infinito em perfeição13. Deus é sem defeito em toda a Sua infinitude. Não há uma sombra ou mesmo indício de imperfeição em Deus. A palavra perfeição é uma palavra difícil para nós entendermos em nosso mundo adoecido pelo pecado, mas quando acrescentamos a isso “infinito” é algo muito maior do que qualquer coisa que nós conhecemos. Talvez todos nós já ouvimos a frase: “ninguém é perfeito”. Isso descreve toda a humanidade após a Queda. Mas Deus, em contraste, é perfeito. Berkhof novamente é útil para nós aqui: “Ela [a perfeição de Deus] não deve ser entendida em sentido quantitativo, mas em um sentido qualitativo; isso qualifica todos os atributos comunicáveis ​​de Deus. Poder infinito não é um quantum absoluto, mas uma potência inesgotável de poder; e santidade infinita não é quantum sem limites de santidade, mas a santidade, que é, qualitativamente livre de qualquer limitação ou defeito”14. Estas são coisas sobre Deus nas quais quedamos em reverência, coisas que nos levam a adoração.

 

A Confissão continua: cuja essência não pode ser compreendida por qualquer outro, senão por Ele mesmo. Muller afirma que essência significa “a natureza ou quidade de um ser, o que torna o ser precisamente o que é; por exemplo, a essência de Pedro, Paulo e João é a sua humanidade; a essência de Deus é a Deidade ou Divindade”15. O Dicionário de Inglês Oxford define essência como “o que uma coisa é”. A essência de Deus é quem Ele é, ou o que Ele é, “a natureza” de Deus. Quando fazemos a pergunta sobre alguma coisa, “O que é isso?”, estamos perguntando qual é a sua qualidade essencial, ou qual é a sua propriedade mais fundamental. Lembro-me de ser convidado em uma aula de filosofia da faculdade a escrever sobre a essência de um lápis. Não é tão fácil quanto parece. A sua essência é o seu material, ou seja, madeira? A sua essência é a sua função? Será que é o seu propósito? O que ele é? Quando se trata de essência de Deus é, assim, incompreensível. Ou seja, incompreensível para qualquer outro, senão Ele mesmo. A essência de Deus não pode ser compreendida. Como Sproul disse: nós, como criaturas só podemos ter “conhecimento apreensivo” de Deus. O que as Escrituras dizem? “A quem, pois, me fareis semelhante, para que eu lhe seja igual? diz o Santo” (Isaías 40:25). Estas palavras de Deus, em Isaías, implicam que Ele é diferente de qualquer outro, e isso nos coloca, como meras criaturas, em uma posição em que não podemos compreender a essência de Deus. Se isto é assim, então não deveríamos simplesmente desistir da busca o conhecimento de Deus? Não, mas é útil conhecermos os nossos limites; o fato de sermos limitados não significa que não podemos conhecer nada; isso implica que não podemos conhecer tudo sobre Deus de forma abrangente. Samuel Waldron afirma: “Os credos da igreja são incompletos sobre este mistério [da Divindade]. Eles não o explicam. A incompreensibilidade de Deus significa que as doutrinas da fé envolverão santos mistérios que transcendem a razão humana e contradizem a sabedoria natural. Tais mistérios devem ser acolhidos com humildade e reverência por um intelecto desprovido da noção arrogante e tola do racionalismo; do tipo de racionalismo que acha que deve ou pode compreender plenamente o ser Divino”.16

 

Tendo estabelecido nossos limites, começamos agora a abordar a “essência de Deus”. A Confissão diz que Deus é um espírito puríssimo. Esta palavra, um superlativo na gramáti-ca17, não se limita a dizer que Deus é o espírito mais puro, mas que Deus é espírito diferente de qualquer outro espírito criado. Dizer que Deus é espírito puro, é dizer que Ele é totalmente espírito; Ele não é mormente espírito e em parte alguma outra coisa. Ele é puro ou completamente espírito. Jesus disse: “Deus é espírito” (João 4:24a). Isto é essencial para a nossa compreensão de Deus. Não podemos entreter ideias de Deus como um homem velho, com um manto branco, com uma longa barba. Uma vez que Deus é um espírito, não podemos imaginar qualquer coisa; você não pode ver o espírito. E quanto a responder às nossas perguntas ao longo destas linhas, a Confissão continua com dois aspectos que estão diretamente ligados e confirmam que Deus é um espírito puro. A Confissão afirma que Deus é invisível e sem corpo. Só um espírito puro é invisível. E só um espírito puro é sem corpo. Deus não tem um corpo.

 

A Bíblia se refere a dedo, mão, braço, rosto, orelhas, olhos de Deus e assim por diante, mas não tomamos essas palavras para dizer que Deus tem, literalmente, essas partes do corpo. Estas são metáforas que nos ensinam algo sobre o desconhecido por primeiro relacioná-lo com algo que é conhecido. Por exemplo, quando a Bíblia diz que “os olhos do Senhor estão em todo lugar” (Provérbios 15:3), isso não implica em Deus literalmente ter olhos físicos, mas aponta para o sentido elevado que transcende isso; não há nada escondido do conhecimento de Deus. Se insistirmos que tal metáfora (dispositivos literários figurativos) são descrições literais de Deus, como se Ele tivesse um corpo, o que devemos fazer com passagens que descrevem Deus como alguém que nos cobrirá com Suas asas (Salmos 91:4)? Será que Deus também tem penas? Isso ilustra o disparate de tratar a metáfora como se fosse uma linguagem não-figurativa ou linguagem literal.

 

Existem dois tipos de metáfora que são especialmente importantes no estudo sobre Deus. Antropomorfismo “designa a perspectiva que concebe Deus como tendo forma humana”18. Normalmente, isso se refere a recursos humanos físicos. O Dicionário de Teologia de Baker afirma prestativamente: “O antropomorfismo dos israelitas foi uma tentativa de expressar os aspectos não-racionais da experiência (o mysterium tremdum, “majestade terrível”, discutido por Rudolf Otto) em termos racionais, e expressões primitivas disso não eram tão “imperfeitas”, como os assim chamados homens iluminados pensariam. As características humanas do Deus de Israel eram sistematicamente exaltadas, enquanto os deuses de seus vizinhos do oriente próximo partilhavam os vícios dos homens”19. Um antropopatismo difere do antropomorfismo em que um antropopatismo descreve Deus como tendo emoções humanas ou paixões20. Isso também funciona como um dispositivo literário figurativo de analogia ou comparação. Ambos os tipos de metáfora funcionam como linguagem de acomodação para nos auxiliar a compreender aquilo que é difícil.

 

A Confissão continua afirmando que a essência de Deus é sempartes. Isto refere-se à simplicidade de Deus. R.C. Sproul diz: “Esta é uma maneira de afirmar a simplicidade de Deus. Deus é um ser simples, em vez de um ser complexo, que pode ser dividido em par-tes”21. J. I. Packer afirma sobre a simplicidade de Deus que é “o fato de que não há nEle elementos que podem entrar em conflito, de modo que, ao contrário do homem, não pode ser dividido em maneiras diferentes por pensamentos e desejos divergentes”22. Por exemplo, Deus não é em parte amor e em parte justiça, Ele é completamente amor e completamente justo, ao mesmo tempo, sem conflito. Novamente Sproul afirma: “Cada atributo que atribuímos a Ele se aplica à totalidade de Deus. Todos os seus atributos existem mutuamente em uma espécie de reciprocidade de atributos”23. Berkhof afirma: “Quando falamos sobre a simplicidade de Deus, usamos o termo para descrever o estado ou qualidade de ser simples, a condição de ser livre de divisão em partes, e, portanto, de composição. Isso significa que Deus não é composto e não é suscetível de divisão, em qualquer sentido da palavra”.24

 

A Confissão continua: sempaixões. Aqui está seu contexto imediato: “um espírito puríssimo, invisível, sem corpo, partes ou paixões, a Quem somente pertence a imortalidade, que habita em luz que nenhum homem pode acessar”. Apenas no caso de que não estivesse claro no comentário anterior desta seção, esta porção contrasta sobre o que Deus é e em oposição ao que o homem é: somente Deus é espírito puro, e embora o homem também tenha um espírito, ainda assim este espírito está ligado para sempre a um corpo visível25. Deus não é dividido em partes; o homem é. Deus não tem paixão; o homem tem. Somente Deus tem a imortalidade; o homem não a tem. Apenas Deus habita em luz inacessível; o homem não pode aproximar-se disso. Este contraste é especialmente relevante para a formulação de que Deus é sempaixões, porque é no meio de uma seção que fornece uma série de distinções Criador versus criatura; assim, o homem tem paixões; mas Deus não tem paixões.

É importante que entendamos o que se entende por paixões. Em nossa era moderna, a palavra paixão é frequentemente usada em um sentido positivo para se referir a alguém que é energético (ou seja, apaixonado) em relação a algo. Mas aqui a palavra carrega um sentido diferente. A doutrina de que Deus é sem paixões é comumente referida como a impassibilidade de Deus (ou seja, a impossibilidade de Deus ter paixão). O que isso significa? Aqui está uma definição formal: “Impassibilidade é aquele atributo Divino pelo que Deus é dito não experimentar mudanças emocionais internas em Seu estado, sejam promulgadas livremente a partir do interior ou efetuadas por Sua relação e interação com os seres humanos e ordem criada”26. Uma vez que Deus é imutável, não é possível que Deus mude, e, portanto, não é possível que Ele experimente mudanças emocionais, ou seja, paixões. Uma vez que Deus é totalmente verdadeiro ou totalmente ativo, Ele não assume algo novo ou diferente; pois, o que é Deus, Ele já é. Não há nada em Deus, que seja meramente potencial; Ele já é completamente verdadeiro. Se Deus fosse capaz de experimentar paixões isso significaria que Deus não seria totalmente tudo o que Ele poderia ser, pois, então, Ele Se “tornaria” algo que Ele não era anteriormente; Deus estaria em movimento, em tal caso, de menos verdadeiro para mais verdadeiro, ao invés de já ser totalmente verdadeiro.

 

Mas, alguém pode perguntar: “E sobre Jesus? Será que não O vemos nos Evangelhos reagindo emotivamente a diversas situações? Será que não O vemos com fome, irritado, reativo, e sofrendo como resultado de Suas criaturas?”. Na verdade, nós vemos. Mas Jesus, o Filho Divino, acrescentou à Sua natureza Divina a natureza humana. Ele tem duas naturezas em uma só Pessoa. A Confissão, no Capítulo 8, parágrafo 2 afirma sobre Cristo que as “…duas naturezas inteiras, perfeitas e distintas, são inseparavelmente unidas em uma só Pessoa, sem conversão, composição ou confusão. Esta Pessoa é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, mas um só Cristo, o único Mediador entre Deus e o homem”. Quando o Filho assumiu a natureza humana, essa foi adicionada à natureza Divina; a natureza Divina não foi diminuída de modo algum. Estas duas naturezas inteiras, perfeitas e distintas foram inseparavelmente unidas em uma só Pessoa. Mas, enquanto isso é verdade, também é verdade que essas duas naturezas são, sem conversão, composição ou confusão. Assim, as mudanças emotivas e sofrimento que Cristo experimentou estavam ocorreram em Sua natureza humana, não em Sua natureza Divina. Entendo que esta é uma explicação resumida. Você pode querer olhar adiante, para o Capítulo 8, e ler o comentário sobre os parágrafos 2 e 7 para obter mais detalhes sobre as duas naturezas de Cristo em uma só Pessoa. Há muito mais que poderia ser dito sobre o tema da impassibilidade de Deus27. Eu apenas abordei brevemente um tema sobre o qual livros já foram escritos.

 

A Confissão continua: a Quem somente pertence a imortalidade, que habita em luz que nenhum homem pode acessar. Esta citação é diretamente a partir da Escritura, 1 Timóteo 6:16: “Aquele que tem, ele só, a imortalidade, e habita na luz inacessível; a quem nenhum dos homens viu nem pode ver, ao qual seja honra e poder sempiterno. Amém”. Assim, observa-se que ninguém tem a imortalidade, senão Deus; o homem não pode ser imortal, pois ele deveria ter sempre existido. A Confissão afirma no capítulo 4, parágrafo 2, que o homem foi criado com uma alma imortal, mas isso significa que uma vez que a alma do homem é criada por Deus, a partir desse ponto em diante, ela não deixará de existir. Esta não é a imortalidade não possui o mesmo que está aqui empregada em referência a Deus. Deus é eterno e incriado. A Escritura, e a Confissão, seguindo o exemplo, afirmam que Deus habita em luz inacessível. Que imagem isto é para nós, meros mortais, considerarmos. É uma luz que é tão intensa que o homem não pode acessá-la — Sua glória, Sua santidade, Sua essência tão pura e tão poderosa.

 

A Confissão continua: é imutável, imenso, eterno, incompreensível, onipotente, em tudo infinito. O fato de Deus ser imutável significa que Ele é inalterável. Esta é uma verdade fundamental sobre Deus; Deus nunca mudará. J. I. Packer descreve a imutabilidade de Deus como “total imunidade à mudança, levando à completa consistência ao agir”28. Se Deus fosse mutável, as ramificações seriam devastadoras. Tudo o que Deus revelou de Si mesmo seria pouco confiável, pois poderia mudar; não haveria nenhuma possibilidade de sustentar uma Confissão, pois ela poderia se tornar obsoleta a qualquer momento; o estudo da teologia seria um exercício inútil, porque no momento em que fosse colocada no papel ela poderia mudar. Mas o fato é que Deus é imutável. Isso traz uma grande estabilidade e conforto para as nossas vidas, porque tudo o que Deus revelou sobre Si mesmo nunca será falso ou alterado. Toda a Sua bondade e graça e misericórdia nunca mudarão; Sua santidade e justiça são constantes; Seu amor é firme. Charles Spurgeon disse certa vez: “Descanse também em Sua imutabilidade, esta âncora segura em meio ao mar agitado da vida. Você passa por mudanças a cada dia; Ele nunca muda”. Volumes poderiam ser escritos sobre o significado desse atributo pois ele sustenta todos os outros atributos; não que Deus é mais imutável do que qualquer outro atributo, mas um Deus mutável prejudicaria todos os Seus outros atributos. A essência de Deus sempre foi o que é agora, e isso continuará assim por toda a eternidade pois Deus é imutável.

 

Deus é imenso. Isso se refere à onipresença de Deus; Deus está em toda parte, mas também compreende mais do que isso. Louis Berkhof afirma prestativamente: “Em certo sentido, os termos ‘imensidão’ e ‘onipresença’, quando aplicados a Deus, denotam a mesma coisa, e podem, portanto, ser considerados como sinônimos. No entanto, há um ponto de diferença que deve ser cuidadosamente observado: ‘imensidão’ aponta para o fato de que Deus transcende todo o espaço e não está sujeito às suas limitações, enquanto ‘onipresença’ denota que Ele, não obstante, preenche todas as partes do espaço com todo o Seu ser. A primeira enfatiza a transcendência, e este último, a imanência de Deus”29. A imensidão de Deus, nesse sentido transcendente, é ainda mais difícil de compreender do que a onipresença de Deus. 1 Reis 8:27 diz: “Mas, na verdade, habitaria Deus na terra? Eis que os céus, e até o céu dos céus, não te poderiam conter, quanto menos esta casa que eu tenho edificado”.

 

Ao pensar sobre a onipresença de Deus, em termos da imanência de Deus30, Stephen Charnock argumenta: “Aqueles que querem limitar a essência de Deus apenas ao Céu, e a excluem da terra incorrem em grandes inconvenientes. Pode ser questionado se Ele está em uma parte dos Céus ou em todo a vasta extensão deles. Se em uma parte deles, a Sua essência é limitada; se Ele se move desta parte, Ele é mutável, pois Ele muda de um lugar em que Ele estava, para outro onde Ele não estava. Se Ele estiver sempre fixado em uma parte do Céu, tal noção seria torná-lO um pouco melhor do que uma estátua viva. Se Ele está em todo o Céu, por que não pode a Sua essência possuir um espaço maior do que todo o Céu, que é tão vasto? Como ocorre dEle ser confinado dentro do compasso destes, desde que os Céus inteiros envolvem a terra?”31. A imanência de Deus é a dedução necessária de Sua imensidão. Charnock prossegue em discutir “a influente presença de Deus”32. “Como tudo no mundo foi criado por Deus, assim tudo no mundo é preservado por Deus, e uma vez que a preservação não é totalmente distinta da criação, é necessário que Deus esteja presente com tudo, posto que Ele o preserva, bem como presente com ele enquanto Ele o criou”33. E assim, a imanência de Deus é necessária tanto para a nossa criação quanto para a nossa existência permanente. Pensamos em Hebreus 1:3b: “sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder”. E depois em Atos 17:28: “Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos”.

 

A gravidade dessa doutrina no Antigo Testamento é vista pelo contraste do Deus imenso, e os deuses que as nações criam habitar apenas em determinados lugares. Eles não eram imensos, onipresentes, e, portanto, não eram imanentes. Eu ainda estou me utilizando de Charnock aqui34, quando ele cita 1 Reis 20:23: “Porque os servos do rei da Síria lhe disseram: Seus deuses são deuses dos montes, por isso foram mais fortes do que nós; mas pelejemos com eles em campo raso, e por certo veremos, se não somos mais fortes do que eles!”. Em contraste com os deuses de limitada e especial ocupação, o Senhor Deus é transcendente além do espaço e imanente em cada espaço. Bem como, nós pensamos sobre os profetas de Baal em 1 Reis 18: “E tomaram o bezerro que lhes dera, e o prepararam; e invocaram o nome de Baal, desde a manhã até ao meio-dia, dizendo: Ah! Baal, responde-nos! Porém nem havia voz, nem quem respondesse; e saltavam sobre o altar que tinham feito. E sucedeu que ao meio-dia Elias zombava deles e dizia: Clamai em altas vozes, porque ele é um deus; pode ser que esteja falando, ou que tenha alguma coisa que fazer, ou que intente alguma viagem; talvez esteja dormindo, e despertará” [vv. 26-27]. Elias entendeu que nas mentes dos profetas de Baal, o deus deles não era imenso; ele não era onipresente, e, portanto, não estava em todos os lugares ao mesmo tempo. Se Baal tivesse empreendido uma viagem, isso explicaria o porquê de Baal não estava respondendo aos seus profetas; Elias zomba deles; em contraste ao deus deles, o Senhor Deus está em toda parte ao mesmo tempo. Se Baal fosse imanente, ele teria ouvido as orações dos profetas que prosseguiam desde a manhã até o meio-dia. O contraste entre Baal ausente e o imanente Senhor Deus era dolorosamente óbvio. Elias orou e, instantaneamente, o imenso e imanente Deus respondeu!

 

É difícil não pensar no Salmo 139:5-12: “Tu me cercaste por detrás e por diante, e puseste sobre mim a tua mão. Tal ciência é para mim maravilhosíssima; tão alta que não a posso atingir. Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá. Se disser: Decerto que as trevas me encobrirão; então a noite será luz à roda de mim. Nem ainda as trevas me encobrem de ti; mas a noite resplandece como o dia; as trevas e a luz são para ti a mesma coisa”. O ponto do salmista é, naturalmente, não que ele ainda não havia encontrado um lugar em que Deus não estava, mas em qualquer lugar que ele pudesse ir ou imaginar ir, Deus estaria presente! Assim como isso provê muito conforto ao salmista, assim oferece conforto para nós. Talvez, esta doutrina pode também encorajar-nos a resistir à tentação, já que Deus está sempre presente em todos os lugares, o Deus imenso e imanente.

 

Deus é eterno. A eternidade é um conceito difícil, pois é um conceito que é infinito; o finito não pode compreender o infinito. E é quase impossível explicar a eternidade sem referência às concepções de tempo. Stephen Charnock afirma: “Devemos conceber sobre a eternidade contrário à noção de tempo; como a natureza do tempo consiste na sucessão de partes, assim a natureza da eternidade em uma infinita duração imutável”35. Esta é uma definição por meio de negação. É pensar sobre a eternidade como “não tempo”. Isso dificilmente define o que é, mas muitas vezes isso é o melhor que os mortais finitos podem fazer. Podemos usar analogia, mas seja qual for a forma que a analogia tome, ainda assim será uma mera ilustração que utiliza o finito para tentar descrever o infinito. O que a eternidade é e o que o infinito é não pode ser alcançado por meio de analogia temporal e finita; estas somente nos ajudam a fazer comparações, e não a defini-los ou compreendê-los.

 

Uma coisa é discutir o que é a eternidade, mas isso não é exatamente o mesmo que dizer que Deus é eterno. Deus é descrito nas Escrituras como o Ancião de Dias. “Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha nas nuvens do céu um como o filho do homem; e dirigiu-se ao ancião de dias, e o fizeram chegar até ele” (Daniel 7:13, veja também 7:22). Entendemos que o termo “Ancião de Dias” é uma metáfora que faz referência a algo que já existe há muito tempo, mas a metáfora aponta para algo mais elevado: a eternidade de Deus. Pensamos em passagens como Salmo 90:2: “Antes que os montes nascessem, ou que tu formasses a terra e o mundo, mesmo de eternidade a eternidade, tu és Deus” (Salmos 90:2). De eternidade refere-se à eternidade passada, a eternidade se refere à eternidade futura. Essas passagens explicam que Deus é eterno. A eternidade é a ausência do tempo, e falar de tais coisas é falar de coisas além de nossa experiência. Falar de Deus como eterno, em essência, nos pressiona além da nossa compreensão. Isso nos leva muito bem para o próximo atributo.

 

Deus é incompreensível. Isto segue a prévia declaração na Confissão: “Cuja essência não pode ser compreendida por qualquer outro, senão por Ele mesmo”. Há coisas sobre Deus que nós podemos apreender de forma limitada e com uma perspectiva finita, mas tal compreensão finita não é abrangente. Em todo o nosso estudo sobre os atributos de Deus, devemos entender que o nosso entendimento é finito. Nós podemos, de fato, ter compreendido o que Deus intencionou que nós compreendêssemos, ou seja, podemos ter entendido a Sua revelação, mas Deus é ainda maior do que esta revelação. Enquanto Deus é, em última análise, incompreensível, isso não significa que não podemos conhecer nada sobre Ele. Sproul afirma: “Quando dizemos que Deus é incompreensível, não queremos dizer que Ele é tão obscuro que não podemos saber nada de significativo sobre Ele. Lutero disse que Deus não é apenas Deus absconditus. ‘Deus oculto’, mas também Deus revelatus, ‘Deus revelado’, o qual Se agradou em desvelar para nós coisas sobre Si mesmo. Na proporção em que é possível para as Suas criaturas apreendê-lO, Deus Se fez conhecido”36. Portanto, temos que ter em mente que a apreensão é possível, mas não a compreensão.37

 

Deus é onipotente. Este atributo refere-se à onipotência de Deus, o que significa que Deus é todo-poderoso. Deus é onipotente e não há nada que Ele não possa fazer. Vemos este título de Deus por toda a Escritura; por exemplo: “Disse-lhe [a Jacó] mais Deus: Eu sou o Deus Todo-Poderoso” (Gênesis 35:11a, colchetes meus). Lembro-me da pergunta de um coração insensato quando eu era jovem: “Uma vez que Deus é todo-poderoso, Ele pode criar algo tão pesado que Ele não possa erguê-lo?”. Esta pergunta está cheia de pressupostos errados, e raramente é uma pergunta sincera. Ao longo destas linhas, a definição de A. A. Hodge sobre a onipotência é útil: “A onipotência de Deus é a infinita eficácia inerente à, e inseparável da essência Divina, para efetuar tudo o que Ele quer, sem qualquer limitação, seja qual for, exceto aquelas que são inerentes às perfeições absolutas e imutáveis de Sua própria natureza”38. O atributo da onipotência não deve ser separado de qualquer outro dos atributos de Deus. Fazer a tola pergunta acima é ignorar que o poder de Deus é consistente com a Sua vontade.

 

Deus é em tudo infinito. Nós já meditamos sobre o tema do infinito por várias vezes, mas aqui isso cobre toda a gama; Deus, em todos os sentidos e em todos os Seus atributos, é infinito. Talvez possamos dizer isso desta forma: Tudo o que Deus é, é infinito. A Confissão de 1689 continua: Deus é… santíssimo, sapientíssimo, completamente livre e absoluto, operando todas as coisas segundo o conselho da Sua vontade imutável e justíssima, para a Sua própria glória. Aqui entramos em uma série de atributos que têm se apresentam no grau superlativo; superlativo é um termo gramatical que se refere ao mais alto grau possível de comparação (por exemplo, bom, ótimo, melhor). O superlativo presente em cada palavra nesta série indica aqueles que são atributos comunicáveis ​​de Deus. Deus comunicou ou deu esses atributos aos homens; esses atributos são de um grau mui elevado de tal qualidade em Deus que a palavra elevada ao grau superlativo é apropriadamente empregada. Que não haja dúvida de que uma vez que Deus é infinito em todos os sentidos, cada um destes são de uma qualidade infinita acima dos atributos da humanidade.

 

Deus é santíssimo. Edward Leigh fala de santidade como a “beleza de todos os atributos de Deus, sem a qual a Sua sabedoria seria apenas astúcia; Sua justiça, crueldade; Sua soberania, tirania; Sua misericórdia, piedade tola”39. A santidade de Deus é talvez o atributo de Deus mais proclamado. Quando olhamos para os textos bíblicos, podemos concluir que parece haver dois aspectos da santidade de Deus. Um deles está relacionado à transcendência de Deus — a Sua alteridade em relação à criação. Ele é tão “diferente” de Sua criação que Ele é santíssimo. Deus é muitas vezes referido como “o Santo de Israel” por toda a Escritura; este uso é especialmente proeminente no livro de Isaías. Pensamos também sobre a visão de Isaías no templo, onde os serafins clamavam: “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos” (Isaías 6). Charles Hodge declara sobre esses serafins: “Eles são os representantes de todo o universo, ao oferecer esta homenagem perpétua à santidade Divina”40. O segundo aspecto da santidade de Deus relaciona-se com a dimensão ética ou moral. Deus nos disse para sermos santos porque Ele é santo (Levítico 11:44; 20:26). Deus é a perfeição moral — perfeitas justiça e santidade. Nos dois sentidos, Deus é santíssimo.

 

Deus é sapientíssimo. A sabedoria de Deus é infinita; ela não conhece limites. Vemos nas Escrituras várias referências ao Deus mui sábio. Por exemplo: “Ao único Deus, sábio, seja dada glória por Jesus Cristo para todo o sempre. Amém” (Romanos 16:27). A sabedoria de Deus é mais do que a onisciência; isso sucede à qualidade do conhecimento. Vemos passagens como esta: “Mas falamos a sabedoria de Deus, oculta em mistério, a qual Deus ordenou antes dos séculos para nossa glória” (1 Coríntios 2:7). A sabedoria de Deus é evidente em toda a criação na esfera ética, e na execução e preservação da criação. A sabedoria de Deus é vista na efetivação de Seus decretos na providência Divina. Que sabedoria isso deve envolver! No estudo das obras de criação (ou seja, as ciências), vemos evidências dessa infinita sabedoria de Deus. Mas, enquanto a sabedoria de Deus é evidente para nós na criação, ainda assim a criação é apenas a manifestação de que Deus é sapientíssimo; Deus é sabedoria em Sua essência.

 

Deus é completamente livre. Isso se aplica a todos os aspectos de Deus e Suas ações, seja nos Seus decretos em geral, em Seu decreto na eleição, na execução de Seus decretos, ou em qualquer outro aspecto de Deus; ele é completamente livre para fazer o que quiser. Deus é mui livre em Sua essência. O Salmo 115:3 diz: “Mas o nosso Deus está nos céus; fez tudo o que lhe agradou”. E, Deus é completamente livre em relação à Sua criação; o Salmo 135:6 estabelece: “Tudo o que o Senhor quis, fez, nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos”. Em todos os atributos que estudamos, é evidente que o que Deus é, Ele é em e de Si mesmo; Ele é mui livre; Ele não depende de Suas criaturas para determinar a Sua vontade; Ele não determina o que fazer com base em algo que primeiro deve ocorrer, seja na natureza ou em um ser com livre agência. Ele é a causa primeira de todas as coisas, e Ele é completamente livre para determinar aquelas causas decretadas livremente.

 

Deus é completamente… absoluto. A ideia do Absoluto na filosofia nem sempre corresponde ao da teologia, mas em alguns aspectos elas coincidem. Louis Berkhof afirma: “Mas quando o Absoluto é definido como a causa primeira de todas as coisas existentes, ou como o fundamento último de toda a realidade, ou como o Ser autoexistente, este pode ser considerado como idêntico ao Deus da teologia. Ele é o Infinito, que não existe em nenhumas relações necessárias, porque Ele é autossuficiente, contudo, ao mesmo tempo pode entrar livremente em várias relações com a Sua criação, como um todo, e com as Suas criatu-ras”.41

 

A Confissão continua: operando todas as coisas segundo o conselho da Sua vontade imutável e justíssima, para a Sua própria glória. Deus faz todas as coisas somente como resultado do Seu conselho. Uma vez que Deus é quem Ele é, e é em Sua essência todas aquelas coisas listadas acima, logo, tudo o que Deus faz ou opera resulta do Seu próprio conselho. Antes que Deus opere (aja ou entre em ação), Ele, na eternidade, tomou conselho consigo mesmo e determinou o que Ele faria. Esse conselho é a vontade de Deus, e a vontade de Deus é inalterável (imutável). A vontade de Deus não é algo que Deus mudará, cederá ou desfará. Como eu já referi, Packer estabelece que a imutabilidade de Deus é a “total imunidade à mudança, conduzindo à completa consistência em ação”42. A vontade de Deus é também justíssima — moral e judicialmente. Tudo na vontade de Deus é para a Sua própria glória. Deus age de acordo com os Seus próprios interesses, e, embora o interesse próprio do homem seja egoísta, não é assim com Deus; os Seus próprios interesses estão de acordo com os Seus atributos e somente podem redundar em Sua própria glória. Vemos na Confissão um reflexo das próprias palavras da Escritura, aqui: “Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo, de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra; nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1:9-11). Abordaremos este assunto com mais detalhes no Capítulo 3, Sobre os Decretos de Deus.

 

Deus é… cheio de amor, gracioso, misericordioso, longânimo, abundante em bondade e verdade, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado; o galardoador dos que diligentemente O buscam. Seria fácil anexar o superlativo a cada um desses atributos. Eu não vou inseri-lo em cada um dos meus comentários abaixo, mas ele está implícito. Mais uma vez, a maioria destes são atributos comunicáveis ​​de Deus. Eu abordarei cada um deles de forma mui breve, mas eles são dignos de longa meditação.

 

Deus é cheio de amor. O amor de Deus é elevadíssimo, e de uma altura que transcende o nosso assim chamado amor, de modo que qualquer outro amor é apenas um pálido reflexo do amor de Deus. Vemos em 1 João 4:8: “Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor”. Deus é amor em Sua simplicidade; Deus é todo-amor, ao lado de todos os Seus outros atributos. O amor de Deus é a fonte de todo o amor verdadeiro, e Deus define o que é amor e o que não é. Portanto, Deus define como os seres humanos devem amar uns aos outros. Por exemplo, o adúltero não pode definir o amor como o que eles sentem por alguém que não é seu marido ou esposa; a comunidade gay não tem autoridade para definir o amor como o que inclui as relações homossexuais; aqueles que promovem a poligamia não conseguem definir o amor como o que pode ser compartilhado por mais de uma esposa; uma pessoa solteira não consegue definir a atividade sexual extramarital como uma expressão de amor. A lista de amor ímpio é praticamente interminável, mas uma vez que Deus é o nosso Criador e é cheio de amor, Ele define o que é amor; qualquer outro que seja chamado amor e que não seja conforme o que Ele definiu, na verdade não é amor, mas uma perversão egoísta do deste.

 

Os atributos de Deus que se seguem nesta próxima seção vêm de Êxodo 34:6-7: “Passando, pois, o Senhor perante ele, clamou: O Senhor, o Senhor Deus, misericordioso e piedoso, tardio em irar-se e grande em beneficência e verdade; que guarda a beneficência em milhares; que perdoa a iniquidade, e a transgressão e o pecado; que ao culpado não tem por inocente; que visita a iniquidade dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos até a terceira e quarta geração”.43

 

Deus é gracioso. Deus não restringe a concessão de Seus dons com base no que as Suas criaturas merecem; ao contrário, Ele dá a elas as coisas boas que elas não merecem. Vemos este atributo quando Deus revela a Si mesmo na passagem das Escrituras supracitada. É difícil superestimar a gravidade deste anúncio; o próprio Deus proclama o Seu nome a Moisés, e inerente ao nome de Deus está a revelação de Sua essência graciosa. O próprio Deus inequivocamente declarou-Se gracioso, não apenas pela ação graciosa, mas esta é a Sua própria essência. A essência de Deus é a graça. É quase demasiado para assimilar. Claramente, enquanto Deus é misericordioso em Sua essência, isso não é tudo o que Ele é, em essência. Toda a revelação do nome de Deus enumera outros atributos que são tanto a Sua essência quanto outros.

 

Deus é misericordioso. Deus não somente nos dá coisas que não merecemos, porém
muitas vezes Ele não nos dá o juízo que nós merecemos. É como se a graça e a misericórdia fossem uma moeda com dois lados. A misericórdia retém o juízo de Deus, e a graça nos fornece as bênçãos de Deus. Podemos subestimar a glória deste atributo Divino da misericórdia, e sua maravilhosa irmã gêmea, a graça?

 

Deus é longânimo. Isso significa que Deus é paciente, ou tardio em irar-Se. Nem sempre Deus julga instantaneamente o pecado como Ele tem o direito de fazer. Ele é paciente com todos os homens; muitas vezes Ele concede aos pecadores tempo antes do julgamento para que possamos se arrepender do pecado. Vemos novamente que este atributo foi revelado diretamente por Deus em seu próprio nome na citação acima de Êxodo 34:5-6. A expressão “tardio em irar-se” que aparece nas versões modernas da Bíblia correspondem à palavra longanimidade na versão King James. Jonas ecoa esta revelação de Êxodo, quando explica por que ele não foi a Nínive: “E [Jonas] orou ao Senhor, e disse: Ah! Senhor! Não foi esta minha palavra, estando ainda na minha terra? Por isso é que me preveni, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus compassivo e misericordioso, longânimo e grande em benignidade, e que te arrependes do mal”. Vemos no Novo Testamento Deus ser tardio em irar-Se (juízo): “O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se” (2 Pedro 3:9).44

 

Deus é abundante em bondade e verdade. Deus é grande em misericórdia. Deus é bom, e isso, abundantemente. A grande bondade de Deus transborda em Sua criação. No Salmo 145:8-9, nós vemos também uma alusão a Êxodo 34: “Piedoso e benigno é o Senhor, sofredor e de grande misericórdia. O Senhor é bom para todos, e as suas misericórdias são sobre todas as suas obras”. Será que estamos vendo aqui exatamente como a revelação do nome de Deus em Êxodo 34 foi significativa para o povo de Deus no Antigo Testamento, e posteriormente? Jesus reflete sobre a bondade do Pai: “Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos” (Mateus 5:45). Deus é abundante em verdade. Deus é a verdade, e Ele é abundante na mesma. Deus trata em verdade, e Ele age em verdade. Não há nada em Deus que seja inverdade, hipócrita ou falso. Na versão King James a palavra verdade é traduzido como fidelidade. Isso pode nos ajudar a evitar pensar sobre a verdade apenas como algo que não é falso. Deus é a verdade, e como tal, Ele é fiel em tudo o que Ele diz de Si mesmo e Suas ações. Se Deus diz que fará alguma coisa, Ele é fiel para cumpri-lo. Ele não será verdadeiro ou fiel em uma área, e infiel em outra. Ambos estes atributos são a essência de Deus, e como tal eles fluem dEle em para a Sua criação.

 

A Confissão continua a partir de Êxodo 34: que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado. A lista anterior foi sobre os atributos de Deus, mas aqui vemos os anteriores atributos de Deus (ou seja, gracioso, misericordioso, longânimo, abundante em bondade, e verdade) que se manifestam nas ações e obras que Deus realiza. Deus perdoa. Que coisa espantosa! Se Deus não perdoasse, qualquer esperança em relação à humanidade estaria perdida, porque cada pessoa que já viveu, com exceção de Cristo, tem necessitado, ainda necessita, ou necessitará do perdão de Deus. O que necessita ser perdoado? O pecador necessita de perdão da iniquidade, da transgressão e do pecado.

 

Deus também é o galardoador dos que diligentemente O buscam. Aqui nós nos afastamos de Êxodo 34. Aqui, a Confissão faz referência a Hebreus 11:6: “Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam”. Neste texto bíblico, vemos como a fé está relacionada à busca de Deus, e assim, não é apenas que o homem faz bem ao buscar a Deus e Deus recompensa-o; antes, a recompensa está indissoluvelmente ligada com a fé que opera a busca. Mas desde que o nosso tema aqui é propriamente a teologia (o estudo de Deus), e não soteriologia (o estudo da salvação), vamos tratar disso agora somente em relação a Deus. Deus não somente perdoa os pecados, mas recompensa aqueles que O buscam pela fé. Podemos ver aqui o ato duplo de Deus na justificação: 1) perdoa o pecado e 2) imputa a justiça de Cristo? Eu certamente penso que sim. Deus perdoa e Deus recompensa, pela fé.

 

A Confissão afirma: e, contudo, justíssimo. A Confissão está dizendo que juntamente com (ou seja, contudo)45 Seu perdão e recompensa, Ele continua a ser justíssimo. Esta pode ser uma referência específica ao significado da porção de Êxodo 34:7, que diz: “que ao culpado não tem por inocente”. Enquanto todos os atributos que temos discutido, especialmente a partir de Êxodo 34, são a essência de Deus, ainda assim, em todos esses atributos Deus ainda permanece justo. De fato, enquanto Deus é misericordioso e perdoa os pecados, contudo, Ele continua a ser plenamente mui justo, porque essa misericórdia e perdão que Ele demonstra para com a humanidade só se encontra em Cristo, sobre quem a justiça de Deus foi derramada como um substituto por aqueles a quem o Pai elege e justifica. “Mas agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas; isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que creem; porque não há diferença. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus. Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus” (Romanos 3:21-26). Enquanto a humanidade tem um sentido de justiça que lhe foi dada por Deus, a humanidade a exerce muito mal e a discerne imperfeitamente. Mas Deus é justíssimo — muito além, infinitamente em todos os sentidos a além do atributo de justiça da criatura. E, contudo, justíssimo e terrível em Seus julgamentos; odiando todo pecado; e que não tem o culpado por inocente.

 

Deus é terrível em Seus julgamentos. Isso decorre logicamente de Deus ser justo. Isso significa que o julgamento de Deus sobre o pecado é terribilíssimo. Hebreus 10:31 diz: “Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo”. Terrível refere-se à severidade do julgamento de Deus, que é uma coisa terrível de se contemplar. Apesar do fato de que Deus perdoa o pecado, contudo, Ele também o julga. Por que Deus o julga? Porque Deus odeia todo o pecado. Deus é santo e Ele criou o mundo bom; qualquer pecado é uma afronta e um ato de traição e rebelião contra o governo do Santo. Como tal, Deus não tem por inocente o culpado. Aqui, voltamos às palavras de Êxodo 34. A essência de Deus, a Sua natureza, exige perfeita justiça e, como tal, Deus não será indiferente ou ignorará o culpado. Deus não será tolerante para com o pecador impenitente. Esta é uma verdade que Deus fez questão de asseverar.

 

 

2. Deus possui toda a vida17, glória18, bondade19, bem-aventurança, em e de Si mesmo; Ele é todo suficiente para Si, e não possui necessidade de quaisquer criaturas que Ele fez, nem delas deriva glória alguma20, mas apenas manifesta Sua própria glória em, por, para e sobre elas; Ele é a única origem de todo ser, de quem, por quem e para quem são todas as coisas21; e exerce soberano domínio sobre todas as criaturas, para fazer por elas, para elas ou sobre elas tudo que Lhe apraz22. Todas as coisas estão manifestas e patentes diante dEle23; Seu conhecimento é infinito, infalível e independente da criatura; assim como nada para Ele é contingente ou incerto24. Ele é santíssimo em todos os Seus conselhos, em todas as Suas obras25 e em todos os Seus comandos. Para Ele, é devido da parte de anjos e homens todo o culto26, serviço ou obediência que, como criaturas, eles devem em relação ao seu Criador, e tudo quanto mais Ele se agrada em requerer deles (17 João 5:26 • 18 Salmos 148:13 • 19 Salmos 119:68 • 20 Jó 22:2-3 • 21 Romanos 11:34-36 • 22 Daniel 4:25, 34, 35 • 23 Hebreus 4:13 • 24 Ezequiel 11:5; Atos 15:18 • 25 Salmos 145:17 • 26 Apocalipse 5:12-14).

 

Como foi dito no início deste capítulo, Robert Letham intitulou o parágrafo segundo de A Toda-Suficiente Soberania de Deus. A Confissão de 1689 afirma: Deus possui toda a vida, glória, bondade, bem-aventurança, em e de Si mesmo; Ele é todo suficiente para Si, e não possui necessidade de quaisquer criaturas que Ele fez, nem delas deriva glória alguma, mas apenas manifesta Sua própria glória em, por, para e sobre elas. A série aqui sobre a vida, glória, bondade e bem-aventurança são todos atributos de Deus que mostram como Deus é autossuficiente. Deus tem toda a vida, em e de Si mesmo. Esta é uma questão separada de e não relacionada com a vida da criação. Antes da criação e por toda a eternidade Deus tinha toda a vida em e de Si mesmo. É difícil para nós concebermos a vida fora da criação, mas Deus sempre terá vida em Si mesmo e, como tal, nunca está na necessidade da criação ou das criaturas. Deus tem toda a glória, em e de si mesmo. A criação traz glória a Deus, mas isso não por que havia alguma glória que foi retirada de Deus; a criação, por sua existência, não adiciona glória à essência de Deus. Por quê? Porque Deus já tinha toda a glória em e de Si mesmo, não havia mais glória a ser adicionada; Deus já tinha glória, totalmente. Deus tem toda a bondade, em e de Si mesmo. Tal como acontece com a vida e glória, Deus já é totalmente bom, e nada nem ninguém pode retirar ou acrescentar a essa bondade. Deus é a bondade. A bondade da criação, antes da Queda, tão boa como era, não adicionava mais bondade a Deus. Deus tem toda a bem-aventurança em e de Si mesmo. Deus é bendito, mas esta bem-aventurança vem dEle; nós poderíamos dizer que Deus é auto-bem-aventurado. Quando pensamos em passagens que nos dizem para bendizer a Deus, isso não significa que podemos adicionar qualquer bem-aventurança a Deus; isso se dá simplesmente porque é devido a Deus e por isso temos que bendizê-lO. Isso nos leva a lembrar da Escritura que diz: “Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém” (Romanos 11:36). Seja a vida, glória, bondade, ou bem-aventurança, todas as coisas são dEle, por Ele e para Ele. Ao contrário da teologia centrada no homem, Deus não possui necessidade de quaisquer criaturas que Ele fez. Na verdade, embora, como criaturas, Ele nos tenha feito para a Sua própria glória, ainda assim não deriva delas glória alguma, mas apenas manifesta Sua própria glória em, por, para e sobre elas. Isso se refere à autoexistência e autossuficiência de Deus, ou como eu mencionei anteriormente, à independência de Deus. O que dizem as Escrituras? “Porventura será o homem de algum proveito a Deus? Antes a si mesmo o prudente será proveitoso. Ou tem o Todo-Poderoso prazer em que tu sejas justo, ou algum lucro em que tu faças perfeitos os teus caminhos?” (Jó 22:2-3)46, ou, como já citamos em parte: “Por que quem compreendeu a mente do Senhor? ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém” (Romanos 11:34-36).

 

A Confissão continua: e exerce soberano domínio sobre todas as criaturas, para fazer por elas, para elas ou sobre elas tudo que Lhe apraz. A Confissão estabeleceu que Deus não precisa de nada proveniente de Suas criaturas, e Deus não deriva qualquer glória delas, mas, aqui pontua-se que Deus tem plenamente dentro de Seu domínio o fazer por elas, para elas ou sobre elas (tudo) o que Lhe apraz. O que dizem as Escrituras sobre este ponto? Nabucodonosor testemunha depois de ter tomado todo o crédito por seu domínio e glória, foi julgado por Deus e levado a comer grama, e andar como mero animal quadrúpede por um período de tempo. Depois deste julgamento, isso foi o que o rei da Babilônia disse: “Mas ao fim daqueles dias eu, Nabucodonosor, levantei os meus olhos ao céu, e tornou-me a vir o entendimento, e eu bendisse o Altíssimo, e louvei e glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é um domínio sempiterno, e cujo reino é de geração em geração” (Daniel 4:34). Deus tinha controle sobre o grande e poderoso rei que governava grande parte do mundo conhecido, e, por fim, o rei foi levado a reconhecer que o domínio pertence, em última análise, somente a Deus. Vemos em Salmos: “Mas o nosso Deus está nos céus: ele faz tudo o que lhe apraz” (Salmo 115:3). Ou: “Tudo o que o SENHOR quis, fez, nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos” (Salmo 135:6). Ou, “Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do SENHOR, que o inclina a todo o seu querer” (Provérbios 21:1). Que as Suas criaturas nunca pensem que Deus não é mui soberano sobre elas ou Ele lhes mostrará o seu erro.

 

Esta sentença é rica em significados: Todas as coisas estão manifestas e patentes diante dEle; Seu conhecimento é infinito, infalível e independente da criatura; assim como nada para Ele é contingente ou incerto. O domínio soberano de Deus significa que Ele conhece todas as coisas (diante dEle todas as coisas estão manifestas) e nada está oculto; tudo é revelado (patente). A Confissão reflete as palavras escrita da Escritura aqui: “E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar” (Hebreus 4:13). Vemos também esta passagem: “Caiu, pois, sobre mim o Espírito do Senhor, e disse-me: Fala: Assim diz o Senhor: Assim haveis falado, ó casa de Israel, porque, quanto às coisas que vos sobem ao espírito, eu as conheço” (Ezequiel 11:5). A Confissão afirma: o conhecimento de Deus é infinito, não há conhecimento de que Deus restrinja-Se. O conhecimento de Deus é infalível; Deus não pode interpretar mal. O conhecimento de Deus é independe da criatura; Deus não é dependente do que nós revelamos a Ele, e conhecimento de Deus a nosso respeito não se restringe ao que nós sabemos sobre nós mesmos; Ele nos conhece completamente melhor do que o nosso próprio conhecimento limitado de nós mesmos. Isso significa que para Deus, nada é contingente ou incerto. Nada é dependente de Suas criaturas, a fim de que a vontade de Deus seja realizada, e nada é incerto. Este importante assunto será abordado no próximo Capítulo, Sobre Os Decretos de Deus e no capítulo 5, Sobre a Divina Providência.

 

Em termos de domínio soberano de Deus, Ele é santíssimo em todos os Seus conselhos, em todas as Suas obras e em todos os Seus comandos. Deus é santíssimo em relação aos Seus conselhos e moralmente perfeito nesses conselhos. O mesmo é verdade em tudo o que Deus faz (ou seja, Suas obras), e em todos os Seus mandamentos. O domínio soberano de Deus é uma regra que é santíssima em todos os sentidos. Deus lida com Suas criaturas de acordo com Seu próprio interesse, mas Seu interesse é santíssimo. A Escritura diz: “Justo é o Senhor em todos os seus caminhos, e santo em todas as suas obras” (Salmos 145:17). Deus tem domínio soberano sobre as Suas criaturas, a Ele, é devido da parte de anjos e homens todo o culto, serviço ou obediência que, como criaturas, eles devem em relação ao seu Criador, e tudo quanto mais Ele se agrada em requerer deles. Visto que os conselhos, obras e comandos de Deus são santíssimos, não pode haver nenhuma objeção a partir da criatura quanto ao mandamento de obedecer ao seu Criador. Deus é Criador e santíssimo; Ele deve ser adorado, servido e obedecido por Seus súditos, e que estes façam tudo quanto mais Ele se agrada em requerer deles.

 

 

3. Em Seu ser Divino e infinito há três subsistências, o Pai, a Palavra ou o Filho, e o Espírito Santo27, de uma só substância, poder e eternidade, cada um possuindo completa essência Divina, e ainda assim, a essência é indivisível28: O Pai de ninguém é gerado nem procedente; o Filho é eternamente gerado do Pai29; o Espírito Santo é procedente do Pai e do Filho30; todos infinitos e sem princípio de existência. Portanto, um só Deus; que não deve ser divido em Seu ser ou natureza, mas, sim, distinguido pelas diversas propriedades peculiares e relativas, e relações pessoais; esta doutrina da Trindade é o fundamento de toda a nossa comunhão com Deus, e confortável dependência dEle (27 1 João 5:7; Mateus 28:19; 2 Coríntios 13:14 • 28 Êxodo 3:14; João 14:11; 1 Coríntios 8:6 • 29 João 1:14, 18 • 30 João 15:26; Gálatas 4:6).

 

No primeiro parágrafo a Confissão afirma que há somente um Deus. Ao lado desta verdade, e em perfeita harmonia com ela, este ponto refere que Deus é Triuno (ou seja, tri-unidade)47. A Trindade é uma área de doutrina essencial, pois a manutenção da ortodoxia neste ponto é inegociável para a Fé Cristã. O que se quer dizer com ortodoxia? O Dicionário de Baker de Teologia afirma: “A palavra expressa a ideia de que certas declarações expressam a verdade com precisão, o conteúdo revelado do Cristianismo, e são, portanto, em sua própria natureza, normativas para a igreja universal”48. A Confissão é uma tremenda ajuda para auxiliar-nos nesta questão, pois fornece parâmetros doutrinários adequados, que servem não somente para manter-nos livres de erros, mas também para nos mantermos dentro da ortodoxia. A Confissão fornece articulações precisas sobre a Trindade que são historicamente ortodoxas. Tais declarações são dignas de memorização para a nossa própria clareza e sermos capazes de dar uma clara explicação para outras pessoas.

 

A Confissão afirma que em Seu ser Divino e infinito há três subsistências. Vamos lidar com esta declaração tratando de um ponto de cada vez. O primeiro passo, o Ser Divino e infinito. James White explica:

 

Biblicamente falando, existem três tipos de seres que são pessoais: Deus, homens e anjos. Eu tenho existência, eu existo. Todavia, eu sou pessoal. Meu ser é limitado e finito. É limitado a um lugar, geograficamente falando, e a um tempo, temporalmente falando. Apesar de todos os cenários de Star Trek contrariem, eu estou limitado a um lugar em um momento. Essa é a essência de ser uma criatura. Meu ser é compartilhado por uma pessoa: eu. Meu ser, uma vez que é limitado, não pode ser distribuído entre duas, três ou mais quaisquer pessoas. Um ser, uma pessoa: isso é o que é ser humano.

 

“O que estamos dizendo a respeito de Deus é que o Seu ser não é limitado e finito como o de uma criatura. Seu ser é infinito e ilimitado, e, portanto, pode, de uma maneira completa-mente além da nossa compreensão, ser partilhado totalmente por três pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo. O Ser Divino é um; as pessoas Divinas são três. Enquanto o Pai não é o Filho, nem o Filho, o Espírito, cada um é total e completamente Deus por Sua plena partici-pação no Ser Divino. A menos que reconheçamos a diferença entre os termos ser e pessoa, nunca teremos uma compreensão acurada ou útil da Trindade”.49

 

Assim, uma vez que este Ser é Divino e infinito, é racional que neste Ser haja três pessoas. É racional porque este Ser é Divino; é racional, porque este Ser é infinito. Se tal coisa fosse dita de um ser finito e não-Divino (ou seja, os homens ou anjos), então seria de fato uma declaração irracional.50

 

Passamos agora para o segundo ponto: neste Ser Divino e infinito há três subsistências. O que a palavra subsistência significa?51 Muller define subsistência, como você pode recordar a partir do primeiro parágrafo, como: “o que indica um ser ou existência particular, uma instância individual de uma determinada essência”52. Talvez seja mais fácil compreender a palavra subsistências como “pessoas”53, mas temos que ter cuidado para que nós corretamente identifiquemos quem são essas três “pessoas” e como elas são, e, para esse sentido a Confissão, agora, se volta. Mas, antes de seguirmos em frente, tenhamos a certeza de que compreendemos os dois pontos importantes que a Confissão estabeleceu. Uma vez que este Ser é Divino e infinito, esse Ser pode ter três subsistências, pois não estamos falando apenas de qualquer ser. Portanto, neste Ser, há três pessoas. Devemos manter firmemente o ponto um: há um Ser; enquanto adicionamos o passo dois: há neste único Ser três subsistências.

 

No que se segue, a Confissão pode ser descrita da seguinte maneira:

 

I. Os Nomes das Três Subsistências.

II. A Igualdade das Três Subsistências.

III. A Relação e Economia das Três Subsistências.

 

I. Os Nomes das Subsistências

 

A Confissão nos dá os nomes das três subsistências: o Pai, a Palavra ou Filho, e o Espírito Santo. Há muitas referências aos nomes dos três membros da Trindade nas Escrituras. Por exemplo, em Mateus 28:19 Jesus nomeia as três subsistências: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. E em 2 Coríntios 13:14, Paulo mencionou os nomes das três pessoas da Divindade: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo seja com todos vós. Amém”. Em outras passagens da Escritura o Pai menciona o Filho (por exemplo, Mateus 3:17, 17:5), e Jesus menciona o Pai e o Espírito (por exemplo, Lucas 24:49), e assim, esses nomes não são apenas criações do homem, antes são utilizados pelos membros reais da Divindade ao referirem-se Um ao Outro. Há um outro ponto importante aqui. A. A. Hodge afirma: “Estes títulos, Pai, Filho, Espírito Santo, não são nomes de uma mesma pessoa em diferentes relações, mas de pessoas diferentes”54. Este ponto exclui a visão herética de que há um Deus que se manifesta em três diferentes formas; isso é referido como Modalismo. Os nomes das três pessoas da Divindade não são descrições de modos, mas os nomes das três pessoas da Santíssima Trindade.

 

II. A Igualdade das Subsistências

 

A Confissão afirma que esses três são de uma só substância, poder e eternidade. O termo de uma só significa que cada membro deste Ser é o mesmo em ou igual em substância, poder e eternidade. Nós poderíamos dizer que Eles são o mesmo em essência (ou seja, ‘natureza’)55. Não há diferença nas três pessoas da Divindade em termos da Sua substância — Sua essência. Não há nenhuma diferença em termos de Seu poder. Cada um deles têm igual poder, ou seja, o mesmo poder. Eles são da mesma eternidade. Os três são eternos na medida em que Eles já existem pela mesma ausência de tempo — ou seja, desde a eternidade. É importante notar Sua eternidade mesmo em função da Sua relação de uns com os outros. Embora vejamos que o Filho é gerado do Pai e o Espírito Santo procede do Pai e do Filho, no entanto, o Filho e o Espírito não são criados; Eles compartilham a mesma eternidade com o Pai, Eles têm a mesma (ou seja, igual) 'eternidade'. Não há desigualdade nas três subsistências; todos Eles têm igualmente a mesma substância, poder e eternidade.

 

A Confissão continua a falar sobre a igualdade das três subsistências, indicando: cada um possuindo completa essência Divina, e ainda assim, a essência é indivisível. Isso significa que cada uma das três subsistências (ou seja, pessoas) são individual e totalmente Divinas. Cada um tem a totalidade da essência Divina, sem qualquer divisão. Se houvesse uma divisória ou uma divisão da uma essência Divina entre os três, isso exigiria uma subtração de cada um; nesse caso, as três subsistências não poderiam ter, cada um, toda a essência Divina. Sem essas grades de proteção, se poderia naturalmente supor que há três possibilidades: 1) que há três pessoas Divinas (três Deuses), ou 2) que três pessoas são cada um, um terço de pessoas Divinas, que equivalem a um ser Divino, ou que talvez 3) há um Deus que se manifesta de três maneiras diferentes. Porém, todos esses três pontos de vista são heresias contra as quais a Igreja Primitiva teve que lutar, e a Igreja Moderna ainda deve resistir. Mas a Confissão estabeleceu que Deus é um só, que neste Ser Divino e infinito há três pessoas, e estas três pessoas são iguais, cada um sendo plenamente participante da natureza Divina, individualmente, e que a essência Divina não é dividida entre eles. Mais uma vez, estas são importantes, ortodoxas e históricas grades de proteção que a igreja necessita.

 

Assim, tendo estabelecido estas necessárias cercas ortodoxas, a Confissão agora passa a discutir a distinção específica das três subsistências. Pode ser útil notar aqui que a palavra distinção não implica em divisão56. Será importante manter isso em mente enquanto nos movemos através da próxima porção, por enquanto, veremos como cada membro da Trindade é distinto, mas isso em nada compromete a Sua unidade; não há divisão, embora haja distinção.

 

III. A Relação e Economia das Três Subsistências

 

A Confissão avança para abordar as relações ou a economia57 da Divindade. O Pai de ninguém é gerado nem procedente. A Confissão começa com o primeiro membro da Trindade. Esta formulação é semelhante ao Credo de Atanásio, que afirma: “O Pai não é de ninguém, não feito, nem criado”. A declaração da Confissão deve ser entendida à luz das distinções relacionais dentro da Divindade. À primeira vista, pode-se entender que isso significa que o Pai não nasceu, mas que sempre existiu. Mas, quando nós consideramos o contexto, isso está realmente abordando a ordem relacional (ou seja, ordinal: primeiro, segundo, terceiro) dentro da Divindade. A Escritura estabelece o Pai como o primeiro, o Filho como o segundo e o Espírito como terceiro. Isto não implica que haja inferioridade dentro da Divindade. O Pai não de ninguém é, o que significa que na Divindade, o Pai está em primeiro lugar, não em segundo ou terceiro. O Pai não é gerado58. É natural que nós associemos a palavra gerado com nascido ou criado, mas isso não é indicado. Apenas para ilustrar esse ponto, considere que o Filho é gerado pelo Pai. “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (João 1:14). Claramente gerado, então, não é a linguagem que se refere ao que está sendo criado, pois sabemos a partir do restante da Escritura que Jesus não foi criado (aqui nos referimos apenas à Sua natureza Divina). Precisamos reconhecer que o que se fala aqui é a ordem relacional ou distinção econômica na Trindade. O Pai não procede de ninguém. Isso mostra a distinção da economia existente entre o Pai e o Espírito Santo, que procede do Pai (e do Filho).

 

A Confissão afirma sobre o segundo membro da Trindade: O Filho é eternamente gerado do Pai. Novamente aqui, nós vemos um texto que reflete o Credo de Atanásio: “O Filho procede do Pai somente; não foi feito, nem criado, mas gerado”. Nós vemos que este texto reflete a Escritura: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (João 1:14). Sabemos que Jesus é eternamente gerado, a partir de João 1:2: “Ele estava no princípio com Deus”. Alguns pensam que isto significa que Jesus foi criado, mas isso não ocorre porque João 1:1 diz: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. Deus não pode ser criado. O Credo Niceno diz: “E em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os mundos; Deus de Deus, Luz da Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro de Deus; gerado, não criado, consubstancial com o Pai, por Quem todas as coisas foram feitas”. Como já mencionado, gerado tem a ver com a relação do Filho com o Pai.

 

Passamos agora para o Espírito Santo, o terceiro membro da Trindade. A Confissão afirma: o Espírito Santo é procedente do Pai e do Filho. Mais uma vez, vemos aqui palavras na Confissão que refletem a Palavra de Deus e os credos ortodoxos. Vemos passagens como esta nas Escrituras: “Mas, quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito de verdade, que procede do Pai, ele testificará de mim” (João 15:26). “E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai” (Gálatas 4:6). Lemos no Credo Niceno: “E eu creio no Espírito Santo, o Senhor e Doador da Vida; que procede do Pai [e do Filho]; que com o Pai e o Filho é adorado e glorificado; o qual falou por intermédio dos profetas”. Então, como o Filho é gerado, assim o Espírito Santo procede do Pai e também Filho. Isso enfatiza a relação e economia da Santíssima Trindade.

 

James White ajuda-nos com relação à terminologia usada aqui: “Quando falamos do relacionamento existente entre o Pai, o Filho e o Espírito, nós usamos os termos gerado e procedente. Mais uma vez, eu alerto: ‘defina esses termos dentro do contexto em que eles estão sendo usados’. Ou seja, não pense em ‘gerado’ em termos humanos, mas Divinos; não pense em “procedente” em um sentido de criatura finita, mas em um sentido ilimitado, eterno, atemporal. Devemos fazer assim, pois estamos falando do Ser infinito e eterno de Deus”59.

Depois de mostrar as propriedades que distinguem as três subsistências uma da outra, a Confissão fornece úteis e esclarecedoras declarações; estas nos lembram que, enquanto as três pessoas da Trindade são distintas, e enquanto elas são iguais, e enquanto elas são, cada um, totalmente Deus, ainda assim as três subsistências são um Ser Divino e infinito. A Confissão afirma: todos infinitos e sem princípio de existência. Portanto, um só Deus. Em outras palavras, uma vez que as três pessoas da Trindade são infinitas e eternas, eles são um só Deus. Eles não são três deuses, mas somente um Deus.

 

Este Deus não deve ser divido em Seu ser ou Natureza. Enquanto cada membro da Trindade é diferente, ainda assim a Divindade não é dividida em natureza e ser. A natureza de Deus refere-se à essência de Deus. Como mencionado anteriormente, cada membro da Trindade tem toda a essência Divina, mas a essência de cada um é indivisível. Na mesma linha, a essência do único Deus não é dividida, pois a essência de Deus é que Ele é um. O ser de Deus não é dividido. Este único ser possui “três subsistências”, mas, ainda assim, este Ser Divino é somente um.

 

Então, o único Deus não deve ser dividido, mas, sim, distinguido pelas diversas propriedades peculiares e relativas, e relações pessoais. Assim, a Trindade não é dividida, mas distinta. Nós voltamos a insistir sobre essa ideia de que distinção não necessita de divisão. Essa ideia ajuda a evitar uma falsa dicotomia, criando assim dificuldades desnecessárias. Neste contexto, peculiares significa únicas. As diversas e únicas propriedades relativas referem-se ao que já discutimos. As propriedades únicas relativas (ou seja, relacionais) são vistas em particular nos títulos das três subsistências: o Pai, a Palavra ou Filho, e o Espírito Santo. A. A. Hodge afirma: “A propriedade pessoal peculiar da primeira pessoa é expressa pelo Pai. Como uma pessoa Ele é eternamente o Pai de Seu Filho unigênito. A propriedade pessoal peculiar da segunda pessoa é expressa pelo título Filho. Como uma pessoa Ele é eternamente o Filho unigênito do Pai, e, portanto, a expressa imagem da Sua pessoa, e o Verbo eterno que estava no princípio com Deus. A propriedade pessoal peculiar da terceira pessoa é expressa pelo Espírito. Isso não pode expressar a Sua essência, pois a Sua essência é também a essência do Pai e do Filho. Isso deve expressar a Sua relação pessoal eterna com as outras pessoas Divinas, porque Ele é uma pessoa constantemente designada como o Espírito do Pai e o Espírito do Filho. Todos Estes são citados na Escritura em uma ordem constante; o Pai é o primeiro, o Filho o segundo, o Espírito o terceiro. O Pai envia e opera através do Filho e do Espírito. Nunca o contrário em ambos os casos. O Filho é enviado por, age para, e revela o Pai. O Espírito é enviado por, age para, e revela a ambos, o Pai e o Filho”.60

 

A Confissão conclui: esta doutrina da Trindade é o fundamento de toda a nossa comunhão com Deus, e confortável dependência dEle. A doutrina da Trindade é essencial, é a base de nossa relação ou comunhão com Deus, e é a base para a nossa dependência dEle. Eu entendo confortável dependência como significando que podemos estar confortáveis ou confiantes de que podemos depender do Deus Uno e Trino. Claramente uma compreensão adequada da Trindade é uma doutrina essencial; esta doutrina não deve ser considerada opcional ou negociável. Negar esta doutrina é apostasia e heresia. Aquele que nega conscientemente essa doutrina é aquele que está fora da doutrina Cristã ortodoxa, e, portanto, não é um Cristão. Uma coisa é ser ignorante da doutrina — uma coisa perigosa quando a doutrina em questão é essa —, mas conhecer a doutrina e negá-la é, literalmente, rejeitar o próprio Deus como Ele Se revelou. Essa é uma questão de salvação? Certamente é! Muitos Cristãos professos são ignorantes da doutrina da Trindade, e embora a ignorância não é o mesmo que uma negação da Trindade, interpretar mal o Deus Uno e Trino é adorar ao Deus errado, e quem faz isso é idólatra. Deus falou, Ele espera que nós ouçamos e trabalhemos com afinco no sentido de uma compreensão plena e digna de Quem Ele é, de forma que possamos adorá-lO em espírito e verdade.

 

Parece-me que concluir este capítulo com uma oração de adoração seria a única coisa correta que poderíamos fazer. Esta é uma oração Puritana a partir de Vale da Visão (“Valley of Vision”).

 

TRÊS EM UM, UM EM TRÊS, DEUS DA MINHA SALVAÇÃO,

 

Pai Celestial, bendito Filho, Espírito eterno,

Eu Te adoro como um ser, uma essência,

Um só Deus em três Pessoas distintas,

Por trazer pecadores ao Teu conhecimento e para o Teu reino.

 

Ó Pai, Tu me amaste e enviaste Jesus para me redimir;

Ó Jesus, Tu me amaste e assumiste a minha natureza,

Verteste Teu sangue para lavar os meus pecados,

Operou justiça para cobrir a minha indignidade;

Ó Espírito Santo, Tu me amaste e entraste em meu coração,

Implantou ali a vida eterna, revelaste-me as glórias de Jesus.

Três Pessoas e um só Deus, eu Te bendigo e Te louvo,

Por amor tão imerecido, tão indescritível, tão maravilhoso,

Tão poderoso para salvar os que estavam perdidos e levá-los para a glória.

 

Ó Pai, eu Te agradeço, por esta plenitude de graça

Tu me deste a Jesus, para eu ser Tua ovelha, joia, porção;

Ó Jesus, eu Te agradeço, por esta plenitude de graça

Tu aceitaste-me, abraçaste-me, prendeste-me;

Ó Espírito Santo, eu Te agradeço, que em plenitude de graça

Tu me revelaste a Jesus como a minha salvação,

Implantaste fé dentro de mim, subjugaste o meu coração teimoso,

Fizeste-me um com Ele para sempre.

 

Ó Pai, Tu estás entronizado para ouvir as minhas orações,

Ó Jesus, Tua mão está estendida para tomar as minhas súplicas,

Ó Espírito Santo, Tu és disposto a ajudar as minhas fraquezas,

A mostrar-me a minha necessidade, a fornecer palavras, a orar por mim;

A fortalecer-me para que eu não desfaleça ao suplicar.

 

Ó Deus Triuno, que ordena o universo,

Ordenaste que eu clamasse por aquelas

Coisas que dizem respeito ao Teu reino e minha alma.

Permita-me viver e orar como um batizado no Nome tríplice.61

 

 


* Para ler o Primeiro Capitulo e a Introdução deste Comentário acesse oEstandarteDeCristo.com.

[1] Uma compreensão acurada de Deus é necessariamente o ponto de partida para a interpretação da Escritura. A Escritura deve ser interpretada à luz da sua própria teologia (ou seja, o princípio da “analogia da Escritura”).

[2] Louis Berkhof, Systematic Theology [Teologia Sistemática], contendo o texto integral da teologia sistemática (1932) e o volume introdutório original para a teologia sistemática (1938), e um novo prefácio por Richard A. Muller (Grand Rapids e Cambridge: Eerdmans, 1996), 34.

[3] Isto não deve negar o papel da revelação geral por meio da luz da natureza, criação e providência.

[4] Aiden Wilson Tozer, Knowledge of the Holy, The Attributes of God: Their Meaning in the Christian Life [Conhecimento do Santo, Os Atributos de Deus: O Seu Significado na Vida Cristã] (San Francisco: Harper & Row Publishers, 1961), 3. Tozer também escreveu: “Se insistirmos em tentar imaginá-lO, acabamos com um ídolo, não feito por mãos, mas com pensamentos; e um ídolo da mente é tão ofensivo a Deus quanto um ídolo da mão.” Ibid. pg.

[5] R. C. Sproul, Truths We Confess: A Layman’s Guide to the Westminster Confession of Faith [Verdades Que Nós Confessamos: Guia De Um Leigo Para a Confissão de Fé de Westminster], vol. I, O Deus Triuno (Phillipsburg, Ni.: P&R Publishing, 2006), 42.

[6] Robert Letham, The Westminster Assembly: Reading Its Theology in Historical Context [A Assembleia de Westminster: Lendo Sua Teologia no Contexto Histórico] (Phillipsburg, Nj: P&R Publishing, 2009), 159-73.

[7] Estou considerando uma abordagem generalizada e ajuntando deuses e ídolos em uma categoria. Estou ciente de que pode haver uma distinção em alguns casos, e em outros não, dependendo do sistema religioso.

[8] Paulo parece estar citando um ditado familiar do Coríntios, porém mesmo assim Paulo afirma o ditado como correto “um ídolo não tem existência real”; Paulo contesta a maneira insensível como eles aplicaram esta verdade.

[9] A Confissão de Westminster não inclui “cuja subsistência é em e de Si mesmo”. A Confissão de 1689 o adiciona a partir da Primeira Confissão Batista de Londres de 1646.

[10] Richard A. Muller, Dictionary of Latin and Greek Theological Terms: Drawn Principally from the Protestant Scholastic Theology [Dicionário de Termos Teológicos em Latim e Grego: Retiradas Principalmente da Teo-logia Escolástica Protestante] (1985; reimpressão, Grand Rapids: Baker Academic, 1995). 290.

[11] J. I. Packer, Knowing God [Conhecendo a Deus] (Downers Grove, Ill.: InterVarsity Press, 1973), 89.

[12] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, contendo o texto integral de Teologia Sistemática (1932) e o volume introdutório original para a teologia sistemática (1938), e um novo prefácio de Richard A. Muller (Grand Rapids e Cambridge: Eerdmans, 1996), 59-60. Em termos de espacialidade, veja abaixo sobre a imensidão de Deus.

[13] A ausência de “infinito” antes de “perfeição” é explicada pelo uso de reticências. A Confissão indica infinito em ser e [infinito em] perfeição.

[14] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, contendo o texto integral de Teologia Sistemática (1932) e o volume introdutório original para a teologia sistemática (1938), e um novo prefácio de Richard A. Muller (Grand Rapids e Cambridge: Eerdmans, 1996), 60, colchetes meus.

[15] Richard A. Muller, Dicionário de Termos Teológicos em Latim e Grego: Retiradas Principalmente da Teologia Escolástica Protestante (1985; reimpressão, Grand Rapids: Baker Academic, 1995), 105-6.

[16] Samuel Waldron, 1689 Baptist Confession of Faith: A Modern Exposition [A Confissão de Fé Batista de 1689: Uma Exposição Moderna], 3ª ed. (Webster, Ny.: Evangelical Press, 1999), 56.

[17] Um superlativo é uma palavra que modifica outra e expressa graus de comparação. Por exemplo: grau 1) João é ativo em sua comunidade; grau 2) João é mais ativo em sua comunidade do que outros; grau 3) João é o mais ativo em sua comunidade. Não há maior grau de comparação em relação à atividade de João na comunidade do que o mais. Assim, Deus ser o mais é Ele ser do mais alto grau de comparação.

[18] Baker’s Dictionary of Theology [Dicionário de Baker de Teologia] (Grand Rapids: Baker Book House, 1983), pg. 45-46. Muller define antropomorfismo como: “tendo uma forma humana”. Richard Muller, Dicionário de Termos Teológicos em Latim e Grego: Retiradas Principalmente da Teologia Escolástica Protestante (1985; reimpressão, Grand Rapids: Baker Academic, 1995), 38.

[19] O Dicionário de Teologia de Baker afirma prestativamente: “O antropomorfismo dos israelitas foi uma tentativa de expressar os aspectos não-racionais da experiência (o mysterium tremdum, “majestade terrível”, discutido por Rudolf Otto) em termos racionais, e expressões primitivas disso não eram tão “imperfeitas”, como os assim chamados homens iluminados pensariam. As características humanas do Deus de Israel eram sistematicamente exaltadas, enquanto os deuses de seus vizinhos do oriente próximo partilhavam os vícios dos homens”. Dicionário de Baker de Teologia. (Grand Rapids: Baker Book House, 1983), 45-6.

[20] Muller define antropopatismo como “ter sentimentos, afetos e paixões humanos”. Richard A. Muller, Dicionário de Termos Teológicos em Latim e Grego: Retiradas Principalmente da Teologia Escolástica Protestante (1985; reimpressão, Grand Rapids, Baker Academic, 1995), 38.

[21] R. C. Sproul, R. C. Sproul, Verdades Que Nós Confessamos: Guia De Um Leigo Para a Confissão de Fé de Westminster, vol. I, O Deus Triuno (Phillipsburg, Ni.: P&R Publishing, 2006), 36-7.

[22] J. I. Packer, Conhecendo Deus (Downers Grove, Ill.: InterVarsity Press, 1973), 89.

[23] R. C. Sproul, R. C. Sproul, Verdades Que Nós Confessamos: Guia De Um Leigo Para a Confissão de Fé de Westminster, vol. Eu, o Deus trino (Phillipsburg, Ni.: P&R Publishing, 2006) 36-7.

[24] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, contendo o texto integral de Teologia Sistemática (1932) e o volume introdutório original para a teologia sistemática (1938), e um novo prefácio de Richard A. Muller (Grand Rapids e Cambridge: Eerdmans, 1996), 62.

[25] Para sempre o corpo e espírito estão conectados, embora na morte, o corpo seja separado do espírito por um tempo até a última ressurreição. Veja o Capítulo 31, seção 2, da Confissão de 1689.

[26] New Catholic Encyclopedia, edited by Thomas Carson [Nova Enciclopédia Católica, editada por Thomas Carson], 2ª ed., Vol. 7 (Farmington Hills, Mi.: Gale Publishing, 2002), 357.

[27] Há passagens que falam de Deus como se Ele mudasse emotivamente, mas essas passagens devem ser entendidas como antropopatismo. Elas falam de Deus de uma forma que possamos entender, mas elas estão apenas expressando uma analogia.

[28] J. I. Packer, Conhecendo Deus (Downers Grove, Ill.: InterVarsity Press, 1973), 89.

[29] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, contendo o texto integral de Teologia Sistemática (1932) e o volume introdutório original para a teologia sistemática (1938), e um novo prefácio de Richard A. Muller (Grand Rapids e Cambridge: Eerdmans, 1996), 61.

[30] A imanência de Deus refere-se à proximidade de Deus à criação e às Suas criaturas (veja Atos 17:27b).

[31] Stephen Charnock, The Existence and Attributes of God [A Existência e os Atributos de Deus] (1853; reimpressão, Grand Rapids: Baker Book House, 1986), 372.

[32] Ibid., 369.

[33] Ibid.

[34] Ibid., 368.

[35] Stephen Charnock, A Existência e os Atributos de Deus (1853; reimpressão, Grand Rapids: Baker Book House, 1986), 280.

[36] R. C. Sproul, Verdades Que Nós Confessamos: Guia De Um Leigo Para a Confissão de Fé de Westminster, vol. Eu, o Deus Triuno (Phillipsburg, Nj.: P & R Publishing, 2006) 41.

[37] Veja nota 4 para a explicação de Sproul sobre estes dois termos.

[38] A. A. Hodge, The Westminster Confession: A Commentary [A Confissão de Westminster: Um Comentário] (1869; reeditado, Carlisle, Pa.: Banner of Truth Trust, 2002), 52; os colchetes são meus.

[39] Edward Leigh, Treatise of Divinty [Tratado Sobre a Divindade], 2:104. Como citado por Joel R. Beeke e Mark Jones, A Puritan Theology: Doctrine for Life [Uma Teologia Puritana: Doutrina para a Vida] (Grand Rapids: Reformation Heritage Books, 2012), localização do Kindle 2685.

[40] Charles Hodge, Systematic Theology [Teologia Sistemática], vol. I, Teologia (1873; reimpressão, Peabody, Ms.: Hendrickson Publishers, 2008), 413.

[41] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, contendo o texto integral de Teologia Sistemática (1932) e o volume introdutório original para a teologia sistemática (1938), e um novo prefácio de Richard A. Muller (Grand Rapids e Cambridge: Eerdmans, 1996), 56.

[42] J. I. Packer, Conhecendo Deus (Downers Grove, Ill.: InterVarsity Press, 1973), 89.

[43] Quando estudamos a Confissão é útil observar as versões em Inglês da Bíblia que eles tinham acesso. Claro, eles também tiveram acesso ao Hebraico e Grego, mas é provável que se basearam fortemente nas versões em Inglês. A seguir, uma lista de versões relevantes em inglês: Tyndale – 1526; Coverdale – 1535; Thomas Matthew 1537; The Great Bible [A Grande Bíblia] – 1539; The Geneva Bible [A Bíblia de Genebra] -1560; The Bishop’s Bible [A Bíblia do Bispo] – 1560; e The King James Version [A Versão King James] – 1611. Não houve grandes traduções inglesas da Bíblia após estas até a Versão Inglesa Revisada de 1885. A versão King James fez uso de todas essas traduções anteriores, e embora a Bíblia de Genebra houvesse sido muito popular em 1611, eventualmente, a versão King James a ultrapassou em popularidade. Nós podemos seguramente assumir que a Bíblia inglesa mais utilizada na época da Assembleia de Westminster de 1646 era a VKJ de 1611. O mesmo se aplica à Confissão de 1677/1689. Assim, é útil observar que texto bíblico na Confissão era mais do que semelhante à fraseologia da Versão King James. Isso é relevante para a interpretação do texto confessional, por exemplo “abundante em bondade e verdade”, é a expressão literal da VKJ. A English Standard Version [ESV – Versão Padrão Inglesa], que eu uso muitas vezes neste comen-tário, diz, “cheio de amor e fidelidade”. Todas as alusões bíblicas na Confissão nos ajudam a entender o sig-nificado da Confissão da Confissão, mas tais alusões podem ser facilmente perdidas por aqueles que não estão familiarizados com a fraseologia da VKJ.

[44] No contexto, “todos” se limita ao arrependimento dos eleitos.

[45] O uso de “além disso” é visto na VKJ de 1611: Atos 25:27 (VKJ) “Porque me parece contra a razão enviar um preso, e além disso não notificar contra ele as acusações” (tradução literal). Em outras palavras, parecia irrazoável enviar um preso e não também ou juntamente notificar as acusações que eram contra Paulo. Este uso corresponde à Confissão; enquanto Deus é misericordioso e compassivo, ele também é (juntamente) com os atributos justíssimo. Veja o Dicionário de Inglês Oxford que também apoia este uso.

[46] Alguém deve considerar antes de tomar uma declaração do [livro de] Jó como verdadeira; nem tudo o que os consoladores de Jó dizem deve ser tomado como doutrina verdadeira. Algumas das coisas que os consoladores de Jó dizem são falsas, e destinam-se a ser interpretadas como tal. Neste caso, sabemos a partir de outras passagens nas Escrituras que esta é uma afirmação veraz por Elifaz, e por isso é apropriado citar isso em apoio à autossuficiência ou independência de Deus. Curiosamente, o apóstolo Paulo também cita Elifaz a partir de Jó 5:13 em 1 Coríntios 3:19: “Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; pois está escrito: Ele apanha os sábios na sua própria astúcia”. Então, eu sinto que estou em boa companhia, hermeneuticamente falando, mas, no entanto, nem toda a citação da Bíblia deve ser tomada em apoio a uma doutrina particular; afinal de contas, Satanás é citado na Bíblia; geralmente é desaconselhável citar Satanás em apoio a uma questão moral ou doutrinária — disse o bastante.

[47] Pode ser útil notar que grande parte do terceiro parágrafo não está contido na Confissão de Westminster ou Declaração de Savoy. Citarei o parágrafo três abaixo; em negrito está o texto que a Confissão de 1689 acrescentou à Confissão de Westminster e à Declaração Savoy. A fonte para este texto adicional é a Primeira Confissão de Londres de 1646, com a exceção do texto sublinhado que provem da Declaração de Savoy: Em Seu ser Divino e infinito há três subsistências, o Pai, a Palavra ou o Filho, e o Espírito Santo, de uma só substância, poder e eternidade, cada um possuindo completa essência Divina, e ainda a essência é indivisível: O Pai de ninguém é gerado nem procedente; o Filho é eternamente gerado do Pai; o Espírito Santo é procedente do Pai e do Filho; todos infinitos e sem princípio de existência. Portanto, um só Deus; que não deve ser divido em Seu ser ou natureza, mas, sim, distinguido pelas diversas proprie-dades peculiares e relativas, e relações pessoais; esta doutrina da Trindade é o fundamento de toda a nossa comunhão com Deus, e confortável dependência dEle”.

[48] Dicionário de Baker de Teologia (Grand Rapids: Baker Book House, 1983), p. 389-90.

[49] James White, The Forgotten Trinity: Recovering the Heart of Christian Belief [A Trindade Esquecida: Recuperando o Coração da Fé Cristã] (Minneapolis: Bethany House Publishers, 1998), 171. No fim da declaração de White, ele tem uma útil nota final, que afirma: “O Credo de Atanásio há muito tempo, diz muito bem: ‘nós adoramos um Deus na Trindade, e a Trindade na Unidade; não confundindo as Pessoas, nem dividindo a Substância’”.

[50] Eu certamente não quero dizer que não há mistério, ou que Deus deve encaixar-Se na racionalidade do homem antes que nós creiamos no que é revelado. Estou afirmando, no entanto, que a revelação de Deus para a humanidade é de uma natureza racional apreensível, embora não possua um carácter totalmente compreensível.

[51] A Confissão de Westminster e a Declaração de Savoy afirmam: “Na unidade da Divindade há três Pesso-as”. A Confissão de 1689, usando o texto da Primeira Confissão Batista de 1646, faz uma abordagem mais detalhada. Nota: o texto de Westminster e Savoy mostra que não é errado referir-se às subsistências como “Pessoas”. Porém subsistência é mais preciso, ou pelo menos tem a teologia mais histórica associada a si.

[52] Richard A. Muller, Dicionário de Termos Teológicos em Latim e Grego: Retiradas Principalmente da Teologia Escolástica Protestante (1985; reimpressão, Grand Rapids: Baker Academic, 1995). 290.

[53] James White afirma: “Ainda assim, podemos notar o fato de que um outro termo é oferecido para ajudar a definir a palavra “pessoa”, sendo este “subsistências”. Por que sugerir este termo? Porque estamos acostu-mados a ler no termo “pessoa” todos os tipos de limitações físicas que de modo algum devem ser cogitados quando fala-se sobre a Trindade”. A Trindade Esquecida: Recuperando o Coração da Fé Cristã (Minneapolis: Bethany House Publishers, 1998), 170.

[54] A. A. Hodge, A Confissão de Westminster: Um Comentário (1869; reeditado, Carlisle, Pa.: Banner of Truth Trust, 2002), 58.

[55] O Catecismo Batista estabelece: Pergunta 9: Quantas Pessoas há na Divindade? Resposta: Há três Pessoas na Divindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e estes três são um só Deus, o mesmo em essência, iguais em poder e glória1 (1 1 João 5:7; Mateus 28:19).

[56] Eu adaptei isso de Calvino, que afirma: “De fato, as palavras ‘Pai’, ‘Filho’ e ‘Espírito’ implicam uma verdadeira distinção; que ninguém pense que estes títulos, pelos quais Deus é variadamente designado a partir de Suas obras, são vazios, antes, há uma distinção, não uma divisão”. João Calvino, “Sobre o Santo Batismo”, Oração 40:41. Citado em Gregg R. Allison, Historical Theology: An Introduction to Historical Theology [Teologia Histórica: Uma Introdução à Teologia Histórica] (Grand Rapids: Zondervan, 2011), 247.

[57] Allison afirma de forma útil: “As primeiras tentativas da Igreja em entender e explicar a relação entre o Pai, Filho e Espírito Santo focaram no que seria chamado de ‘Trindade econômica’ (os diferentes papéis ou atividades dos três em relação ao mundo)”. Gregg R. Allison, Teologia Histórica: Uma Introdução à Teologia Histórica  (Grand Rapids: Zondervan, 2011), 233.

[58] Berkhof afirma: “A característica pessoal do Pai é, negativamente falando, que Ele não é gerado ou in-criado…”. Louis Berkhof, Teologia Sistemática, contendo o texto integral de Teologia Sistemática (1932) e o volume introdutório original para a teologia sistemática (1938), e um novo prefácio de Richard A. Muller (Grand Rapids e Cambridge: Eerdmans, 1996), 91.

[59] James White, A Trindade Esquecida: Recuperando o Coração da Fé Cristã (Minneapolis: Bethany House Publishers, 1998), 172.

[60] Veja A. A. Hodge, A Confissão de Westminster: Um Comentário (1869; reeditado, Carlisle, Pa.: Banner of Truth Trust, 2002), 60.

[61] Vale da Visão: A Collection of Puritan Prayers and Devotions, edited by Arthur Bennett [Uma Coleção de Orações e Devocionais Puritanos, editado por Arthur Bennett] (Carlisle, Pa.: Banner of Truth Trust, 1975), 2-3.
 

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