Um Comentário da Confissão de Fé Batista de 1689, por Gary Marble: Capítulo 3, Sobre Os Decretos de Deus

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Um Comentário Da Confissão De Fé Batista De 1689

 

Capítulo 3*, Sobre os Decretos de Deus

 

 

1. Deus decretou em Si mesmo, desde toda a eternidade, pelo mui sábio e santo conselho de Sua própria vontade, livre e imutavelmente todas as coisas, seja o que for que venha a acontecer1; ainda assim, de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem tem comunhão com algo nisso2; nem é violentada a vontade da criatura, nem ainda é eliminada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas3; nas quais demonstra-se a Sua sabedoria em dispor de todas as coisas, e poder e fidelidade em efetuar o Seu decreto4. (1 Isaías 46:10; Efésios 1:11; Hebreus 6:17; Romanos 9:15, 18 • 2 Tiago 1:13; 1 João 1:5 • 3 Atos 4:27-28; João 19:11 • 4 Números 23:19; Efésios 1:3-5).

 

É importante manter o cenário histórico da Confissão em mente. Quando os teólogos de Westminster começaram o seu trabalho na Confissão de Westminster em 1643, isso ocorreu apenas 24 anos após o Sínodo de Dort (1618-1619), que se reuniu para abordar a controvérsia Arminiana. Esta controvérsia Arminiana antecipou a questão sobre o decreto de Deus; pode ser, em parte, por isso que vemos a colocação desta questão aqui na Confissão, no Capítulo 3. Ela é também colocada logicamente antes das obras de Deus da Criação e Providência, pois tudo que existe flui a partir do decreto de Deus. O decreto de Deus é uma doutrina fundamental, e assim o é especialmente para a doutrina da soteriologia (i.e., o estudo da salvação).

 

A Confissão afirma: Deus decretou em Si mesmo. Primeiramente, nós deveríamos responder à questão: “O que é um decreto?”. O Dicionário de Inglês Oxford define um decreto como: “Comandar (algo) por decreto; ordenar, determinar ou designar autoritariamente, mandar”1. Este é o uso geral da palavra, mas qual é uma boa definição teológica? A questão 10 do Catecismo Batista fornece uma sólida definição teológica: “Os decretos de Deus são o Seu eterno propósito, conforme o conselho da Sua vontade, segundo os quais, para a Sua própria glória, Ele preordenou tudo o que acontece”. Dizer que Deus emitiu decretos em Si mesmo significa que os decretos de Deus são determinados por Ele somente e sem referência a alguém ou alguma coisa. E assim, mesmo que a execução de Seu decreto esteja relacionada à criação, ainda assim, Deus não baseia a Sua determinação desses decretos em qualquer coisa que Ele prevê, em e sobre essa criação. Quando chegarmos ao ponto 2, isso será mais explicado, mas aqui o ponto é simplesmente que o decreto de Deus se origina apenas dentro do Deus Triuno.

 

Deus emite o Seu decreto desde toda a eternidade. Berkhof afirma: “O decreto divino é eterno no sentido de que ele reside inteiramente na eternidade”2. Isso é fundamental para uma abordagem bíblica do decreto de Deus, e as suas ramificações dificilmente podem ser demasiadamente enfatizadas. Na Escritura nós vemos tais declarações: “quem fez ouvir isto desde a antiguidade? Quem desde então o anunciou? Porventura não sou eu, o Senhor? (Isaías 45:21b). Ou, “Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade” (Isaías 46:10). Deus não faz decretos de improviso ou decretos que são dependentes do livre-arbítrio da humanidade; antes, os decretos de Deus são pré-determinados na eternidade (i.e., “desde a antiguidade”).

 

Além disso, Deus emite os Seus decretos pelo mui sábio e santo conselho de Sua própria vontade, ordenou livre e imutavelmente todas as coisas. O texto confessional, conselho de Sua própria vontade, é diretamente extraído da Escritura: “Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11). Berkhof afirma: “A palavra ‘conselho’, que é um dos termos pelos quais o decreto é designado, sugere deliberação e consulta cuidadosa. Isso pode conter uma sugestão de uma intercomunhão entre as três pessoas da Divindade”3. Letham afirma: “A frase ‘conselho da Sua vontade’ implica que em todos os planos de Deus todas as três Pessoas da Trindade são integralmente e de forma invisível envolvidas. Além disso, os decretos de Deus são ‘para a Sua própria glória’; visto em uma luz Trinitária, estes não são os desígnios de um megalomaníaco celestial que insiste em Se impor, antes são os planos sábios e santos de Deus, que é indivisível em comunhão e amor”.4

Os conselhos ou decretos de Deus são mui sábios e santos. A sabedoria de Deus não é simplesmente Sua onisciência, mas é ética (moralmente pura) e de natureza prática. É Deus fazendo todas as coisas bem. A criação é a lição perfeita da sabedoria do decreto de Deus. Todas as coisas na criação estão inter-relacionadas de tal forma que, se apenas uma coisa fosse diferente, a criação inteira não funcionaria. Por exemplo, se o sol estivesse apenas um pouco mais perto da Terra, a Terra seria quente demais para sustentar a vida, ou se fosse um pouco mais distante, a Terra seria muito fria. A massa da Terra e sua velocidade são exatamente o que precisam ser de forma a operar a quantidade certa de força gravitacional para que a vida seja possível. Existem muitas dessas coisas as quais todas trabalham juntas em perfeita harmonia, a fim de sustentar a vida neste planeta. Quer nos voltemos para a mais exterior abrangência do espaço, ou para o interior da microbiologia, vemos que foi a sabedoria de Deus que reuniu todas essas coisas, inter-relacionando-as de forma a trabalhar em perfeita harmonia umas com as outras. Isso mostra a sabedoria de Deus na dimensão física da Criação, mas assim também em todos os outros aspectos da Criação. O conselho de Deus também é santo. Isto significa que os decretos de Deus são moralmente perfeitos. Em todos os decretos de Deus, Ele não é o autor do pecado, nem tem comunhão com algo nisso. Deus não cria (autor) o pecado, e assim todos os conselhos ou decretos de Deus estão em harmonia com a Sua santidade.

 

Deus decreta livremente, o que significa que o Senhor decreta o que Lhe apraz, sem quaisquer restrições. “Mas o nosso Deus está nos céus; fez tudo o que lhe agradou” (Salmos 115:3). Os decretos de Deus são a primeira causa de tudo o que acontece. Não há nada por trás, anterior ou ao lado do conselho da vontade de Deus além dos próprios decretos de Deus. Além disso, os decretos de Deus são imutavelmente determinados. Nós vemos declarações diretas da Escritura ao longo destas linhas: “Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa; porventura diria ele, e não o faria? Ou falaria, e não o confirmaria?” (Números 23:19; veja também 1 Samuel 15:29). E, “Por isso, querendo Deus mostrar mais abundantemente a imutabilidade do seu conselho aos herdeiros da promessa, se interpôs com juramento” (Hebreus 6:17). O propósito de Deus é imutável. E, uma vez que todos os Seus decretos são emitidos por Seu mui sábio e santo conselho determinado, não haveria nenhuma razão para mudar de rumo no meio do caminho; Seus decretos são emitidos perfeitamente desde o princípio, e de forma que eles nunca precisam ser alterados. Semelhantemente, existe uma conexão óbvia entre a essência imutável de Deus e o imutável decreto de Deus. Como aprendemos no capítulo 2, Deus é simples e, portanto, tudo o que Ele é e faz é perfeitamente consistente com todos os Seus atributos.

 

Por meio desses decretos todas as coisas, seja o que for, vêm a acontecer. O termo, todas as coisas, significa literalmente tudo, e se isso não estava claro, seja o que for é adicionado. Como R. C. Sproul afirma: “Se há uma única molécula correndo solta neste universo, totalmente livre da soberania de Deus, então não temos nenhuma garantia de que uma única promessa de Deus alguma vez será cumprida”5. E enquanto Deus decreta todas as coisas, é importante notar, como a Confissão afirma: ainda assim, de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem tem comunhão com algo nisso. No Capítulo 5, introduziremos uma explicação adicional sobre este tópico, mas nós simplesmente precisamos entender que a vontade determinada de Deus (ou seja, vontade de predestinada, ou decretada) se estende até mesmo à desobediência de Adão e Eva e a todas as outras ações pecaminosas. Deus sabiamente limita o pecado, ordena o pecado, e governa o pecado de várias maneiras para Seus próprios fins santos, mas de uma forma que Deus não cria o pecado, ou tem algo em comum com o pecado; o pecado provém somente da criatura.

 

Se Deus decreta todas as coisas, então como é que Deus predetermina os eventos, sem violar a livre agência ou vontade da humanidade? A Confissão acrescenta: nem é violentada a vontade da criatura. Enquanto Deus decreta todas as coisas, incluindo as ações dos homens, Ele faz isso sem violar a vontade do homem. Quando ouvimos que Deus é livre para fazer o que quiser, de qualquer forma, para quem e quando quiser, nós tendemos a nos retrair. Pensamos que, se Deus é livre na Sua vontade, então, nós não somos tão livres na nossa. É verdade que as vontades dos homens nunca podem sobrepujar a de Deus, mas isso não significa que Deus viola a vontade do homem. A questão do livre-arbítrio é uma objeção preliminar que o Arminiano levanta contra a Teologia Reformada. Mas, na verdade, a Teologia Reformada não nega o arbítrio e nem acredita que Deus viola a vontade do homem ao realizar Seu decreto. Certamente, Deus pode circunstancialmente impedir uma pessoa de fazer algo, ou Ele pode influenciar o seu desejo de tal maneira a leva-los a escolherem livremente uma coisa em detrimento de outra, mas Deus nunca força ou faz violência à vontade de uma pessoa para que ele ou ela escolha contrariamente ao que ele ou ela deseja. Devemos lembrar que quando Deus decretou criar a humanidade, Ele também decretou dar-lhes livre-agência, e assim, isso não é algo que refuta a vontade de Deus; antes, é parte da vontade de Deus, e, portanto, não há realmente nenhuma contradição ou dificuldade. Deus não decreta uma coisa que é contrária à outra, pois Deus decretou todas as coisas segundo o Seu sábio conselho. E, como veremos no capítulo 5, Deus usa as Suas criaturas que têm livre-agência para realizar os Seus decretos na Criação; Ele faz isso de acordo com a natureza das Suas criaturas (ou seja, a maneira como Ele as criou). No capítulo 9, Sobre o Livre-Arbítrio, a natureza do livre-arbítrio é abordada em detalhes.

 

A Confissão continua: nem ainda é eliminada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas. Enquanto Deus emite decretos (“a causa primeira”), a execução ou realização destes decretos é normalmente realizada por Deus através de vários meios (“causas secundárias”). Deus ordena o fim, bem como os meios para o fim. Deus é livre para fazer uso de vários meios ou formas de realizar os Seus decretos, se Ele assim quiser, e na verdade, esta é a forma como Ele age normalmente. O uso de causas secundárias por parte de Deus não indica de forma alguma que o decreto de Deus não é a primeira causa de tudo o que acontece. Na verdade, o modo como a providência de Deus faz uso de causas secundárias só prova ou estabelece que existe um propósito — um decreto — que está orquestrando as causas secundárias. Sproul afirma: “O que os cientistas chamam de leis da natureza, nós chamamos de operações normais do Deus soberano. Elas são as Suas leis; elas não são independentes na natureza. Elas simplesmente descrevem a maneira regular, normal pela qual Deus controla ou governa o Seu universo. Ele é a causa primária de tudo o que vier a acontecer, o poder que supre toda a força; as causas secundárias são sempre dependentes de seu poder sobre a fonte primária de poder”6. A execução do decreto de Deus pelo uso de vários meios pode parecer bastante comum, mas isso não muda o fato de que Deus está mui envolvido no cumprimento de Seus decretos. Nestes meios que Deus usa demonstra-se a Sua sabedoria em dispor de todas as coisas, e poder e fidelidade em efetuar os Seus decretos. Em outras palavras, quando observamos como Deus faz uso desses meios, nós vemos a sabedoria de Deus. E nós observamos o poder e fidelidade de Deus em ação na realização de Seus decretos. Sproul afirma ainda: “Quanto mais nós refletimos sobre isso e laboramos através de algumas das dificuldades aparentes, mais nós percebemos que nossos destinos, nossas vidas e as vidas de nossos filhos, em última análise, não estão expostos às forças cegas do acaso ou destino. Este é o mundo de nosso Pai, e nossas vidas estão em Suas mãos. Seu propósito e vontade estão sendo realizados”7. Esta porção da Confissão discute a Providência. Mais uma vez, este será o assunto daquele todo-importante Capítulo 5, Sobre a Divina Providência.

 

 

2. Embora Deus conheça tudo o que possa ou venha a ocorrer, sobre todas as circunstâncias imagináveis5; ainda assim, Ele não decretou qualquer coisa, porque Ele a previu como futura, ou como aquilo que poderia ocorrer em tais condições.6 (5 Atos 15:18 • 6 Romanos 9:11, 13, 16, 18).

 

Deus conhece tudo o que possa ou venha a ocorrer, sobre todas as circunstâncias imagináveis. Olhando para os decretos de Deus a partir da perspectiva da eternidade, quando Ele os emitiu, Deus conhecia todas as possibilidades de Seus decretos. A primeira declaração é um reconhecimento de que Deus conhece o futuro, incluindo o que poderia ter acontecido se Ele tivesse determinado de forma diferente. Mas, posto que Deus tinha acesso a esse conhecimento na eternidade, quando os decretos foram emitidos, ainda assim, não decretou qualquer coisa, porque Ele a previu como futura. Assim, dado o conhecimento que Deus tem daquele futuro decretado, de todas as condições possíveis (ou supostas), ainda assim, Deus não requer, necessita, ou faz uso desse conhecimento para realizar Seus decretos. A Confissão acrescenta: ou como aquilo que poderia ocorrer em tais condições. Isso serve para esclarecer que Deus não depende de quaisquer condições futuras. Para dizê-lo de forma diferente, não há nenhuma condição ou situação no futuro sobre o qual os decretos de Deus dependam. Os decretos de Deus são autossuficientes.

 

A teologia Arminiana implica que Deus conheceu as condições — condições que aparentemente existem externamente, e fora de Deus ou de Seu decreto. Baseado nesta condição prevista (seja esse particular o que for), Deus, então, fez o Seu decreto. Mas, de onde provém uma condição ou circunstância futura, a não ser de Deus ou de Seu decreto? De acordo com o modelo Arminiano, na eternidade Deus olhou para baixo, para as eras sucessivas do tempo em condições ou situações aparentemente fora de Deus ou de Seu decreto? Na realidade, este modelo indica que Deus olha para eras sucessivas do tempo que não são ordenadas por Deus, antes são ordenadas pelo autônomo livre-arbítrio do homem. Neste modelo, o homem determina o decreto eterno de Deus, porque Deus precisa obter a permissão, por assim dizer, do livre-arbítrio do homem antes que Ele determine os Seus decretos. Assim, pois, Deus não está emite decretos livremente ou de forma independente, mas, sim, em sujeição a e dependente de um futuro criado pelo livre-arbítrio do homem. Deus tem que se conformar com o que o homem já quis. Quando se aplica este modelo à eleição, é preciso redefinir “eleição” para significar “autoeleição”, ao isso Deus responderia basicamente pré-datando a nossa autoeleição e chamando isso de eleição Divina eterna. Pode-se ver que existem alguns problemas reais aqui.

 

Em contraste com este atoleiro Arminiano, a Confissão indica que não há futuro sem que Deus o tenha decretado. Assim, o único corredor do tempo é o que o único Deus decretou; o fim vem a partir de seu início. Berkhof afirma sobre o decreto de Deus: “Ele é incondicional ou absoluto. Isso significa que ele não é dependente de qualquer das suas particularidades sobre qualquer coisa que não seja parte integrante do próprio decreto. Os vários elementos no decreto são de fato mutuamente dependentes, mas nada no plano é condicionado por qualquer coisa que não está no decreto. A execução do plano pode exigir meios ou ser dependente de determinadas condições, mas, então, esses meios ou condições também foram determinados no decreto”8. Dessa forma, vemos que os decretos de Deus não são condicionados a nada, ponto final! Todos os elementos necessários para executar perfeitamente o Seu decreto são uma parte muito importante do decreto. Assim, o decreto de Deus não é dependente de um conhecimento ou condição do futuro para determinar o Seu decreto ou para realizá-lo; Ele ordena este futuro! A. A. Hodge resume bem este parágrafo como segue: “Este propósito todo-abrangente não é, como um todo, nem em qualquer dos seus elementos condicionais, condicional. Ele, em nenhum aspecto depende da previsão de eventos não incluídos no e determinados pelo Seu propósito. Isso é o propósito absolutamente soberano dependendo apenas do ‘sábio e santo conselho da Sua vontade’”.9

 

Algumas pessoas assumem que o uso de pré-conhecimento ou presciência na Escritura refere-se ao conhecimento de Deus sobre o futuro. Por exemplo, Romanos 8:29 diz: “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos”. Samuel Waldron escreve: “O termo nas Escrituras dantes conheceu, alguns dizem, mostra que os decretos de Deus são baseados em eventos previstos. Mas ‘dantes conheceu’ significa predestinação. O Léxico Padrão de Grego, de Bauer, Arndt e Gingrich afirma que a palavra ‘dantes conheceu’, significa a predestinação nas passagens mais frequentemente utilizadas para provar que a eleição é em função das qualificações previstas. Este Léxico afirma que o significado desta palavra em Romanos 8:29 e Romanos [capítulos] 9-11 é ‘escolher de antemão’ e em 1 Pedro 1:2, ‘predestinação’. É crucial notar que nestas passagens, não é algo sobre os eleitos que é conhecido de antemão, mas eles mesmos são conhecidos de antemão. Aqui nos lembramos de que o termo ‘conhecer’ na Bíblia frequentemente traz consigo a ideia de amor. Assim a presciência nessas passagens contém a noção de amor distintivo”.10

 

Onde está a evidência bíblica de que os decretos de Deus não dependem de conhecimento do futuro? Em parte, é baseada em passagens que mostram a essência de Deus: a Sua autossuficiência (independência), Sua eternidade e Sua imutabilidade. Se Deus é independente, então Ele não necessita de alguma coisa para emitir os Seus decretos. Se Deus é eterno, então os Seus decretos são feitos dentro de Deus na eternidade e independem do tempo. Se Deus é imutável, Ele não baseia Seus decretos sobre a natureza mutável do homem. Mas, também vemos passagens bíblicas que nos dizem que os propósitos de Deus são anteriores à criação (Jó 38:4-7). Em Isaías 40:14, vemos: “Com quem tomou ele conselho, que lhe desse entendimento, e lhe ensinasse o caminho do juízo, e lhe ensinasse conhecimento, e lhe mostrasse o caminho do entendimento?”. Com base nestas passagens (e outras) que se relacionam com a eternidade dos decretos de Deus, nós então entendemos que o conhecimento ou condições futuras não são a base dos decretos de Deus. Enquanto passamos para o terceiro parágrafo, saímos dos decretos em geral, para o decreto da eleição especificamente.

 

 

3. Por meio do decreto de Deus e para manifestação da Sua glória, alguns homens e anjos são predestinados ou preordenados para a vida eterna por meio de Jesus Cristo7, para o louvor de Sua gloriosa graça8; outros são deixados a agir em seus pecados para a sua justa condenação, para o louvor da Sua gloriosa justiça.9 (7 1 Timóteo 5:21; Mateus 25:34 • 8 Efésios 1:5-6 • 9 Romanos 9:22-23; Judas 4).

 

O primeiro ponto aqui é que a predestinação ou pré-ordenação é por meio do decreto de Deus. Se alguém está predestinado para a vida eterna, ou alguém é deixado agir em seu pecado, é por meio do decreto de Deus. Assim como aqueles destinados para a vida eterna são parte do plano eterno de Deus, assim o réprobo (ou seja, o não-eleito deixado em seu pecado) faz parte do plano de Deus; ambos estão dentro do decreto Divino, pois todas as coisas estão dentro do decreto de Deus. Mas, enquanto isso é verdade, ainda assim a Confissão delineia entre a predestinação para a vida eterna e o ser deixado agir em pecado, levando a uma condenação justa; estes dois destinos diferentes não são executados da mesma maneira. Nós chegaremos a esta distinção em breve.

 

Que Deus elegeu e predestinou um povo para a vida eterna é tanto explícito e implícito nas Escrituras:

 

“Mas há alguns de vós que não creem. Porque bem sabia Jesus, desde o princípio, quem eram os que não criam, e quem era o que o havia de entregar” (João 6:64).

 

“Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo tenho dito, e não o credes. As obras que eu faço, em nome de meu Pai, essas testificam de mim. Mas vós não credes porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo tenho dito” (João 10:25-26).

 

“Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus” (João 17:9).

 

“Sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição é de Deus; porque o nosso evangelho não foi a vós somente em palavras, mas também em poder, e no Espírito Santo, e em muita certeza, como bem sabeis quais fomos entre vós, por amor de vós” (1 Tessalonicenses 1:4-5).

 

“E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Efésios 1:5).

 

“Assim, pois, também agora neste tempo ficou um remanescente, segundo a eleição da graça. Mas se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se, porém, é pelas obras, já não é mais graça; de outra maneira a obra já não é obra” (Romanos 11:5-6).

 

Deus, ao mostrar graça para alguns e justiça para o restante, manifesta a Sua glória. Como assim? Ele desvela tanto a gloriosa graça de Deus quando gloriosa justiça de Deus. Tem sido dito que Deus tinha três opções: 1) Ele poderia ter salvo toda a humanidade e mostrado apenas a Sua gloriosa graça. 2) Ele poderia não ter salvo ninguém e mostrado apenas a Sua gloriosa justiça. E 3) Ele poderia ter feito as duas coisas: salvo alguns e, portanto, mostrado a Sua gloriosa misericórdia e passado por outros, mostrando assim a Sua gloriosa justiça. Sabemos, é claro, que Deus determinou fazer o número três; assim, ambos os atributos são gloriosamente evidenciados. Como é afirmado em Efésios 1:5-6: “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado” (Efésios 1:5-6). Nesta passagem vemos 1) a predestinação dos eleitos de Deus (isto é, “nós”) para a adoção, 2) o decreto de Deus (isto é, o propósito de Sua vontade), e 3) que isso é “para o louvor da glória de sua graça”.

 

Esta predestinação ou preordenação tem relação com os homens, e curiosamente, também com os anjos. Nós talvez não pensamos em anjos como predestinados, mas é o que a Escritura revela. “Conjuro-te diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, e dos anjos eleitos, que sem prevenção guardes estas coisas, nada fazendo por parcialidade” (1 Timóteo 5:21). Assim, nós somos lembrados de que até mesmo os anjos eleitos de Deus são predestinados. Eleição é outra palavra que se refere à escolha de alguém por Deus. Se eles são eleitos, eles são predestinados; se eles são predestinados, são eleitos. Predestinado significa que Deus determinou o destino de alguém para a vida eterna antes do tempo (ou seja, o pré-destino de uma pessoa). Este é o seu destino certo, e isso é garantido pelo próprio decreto de Deus. Não há dúvida quanto a saber se o decreto de Deus será executado, e, assim, o próprio destino da vida eterna é tão bom quanto consumado. Preordenado tem basicamente o mesmo significado. Pois o ato Divino de “ordenar” equivale a determinar o que acontecerá; o prefixo “pre” significa simplesmente que a “ordenação” é feita antes que ocorra. Tanto o termo predestinado quanto o termo preordenado aqui estão relacionadas com o destino dos homens e dos anjos que receberão a vida eterna. Uma questão que enfrentamos imediatamente é: se a Confissão pretende incluir anjos eleitos como parte da vida eterna por meio de Jesus Cristo, ou apenas os homens? Sem dúvida, alguém pode questionar se mesmo o decreto de eleição dos anjos é através de Cristo, mas eu duvido que este é o ponto. A vida eterna, por Jesus Cristo, provavelmente, está relacionada somente com os homens, uma vez que os anjos não têm necessidade de redenção. O ponto principal da Confissão é que se nós estamos falando sobre a eleição de homens ou anjos, ambas são pelo decreto de Deus, mas é claro que, para a humanidade a vida eterna é através de Cristo somente.

 

A Confissão primeiro aborda a predestinação ou pré-ordenação para a vida eterna. Temos uma abundância de evidência bíblica que Deus realmente predestina os homens para a vida eterna. Por exemplo: “E os gentios, ouvindo isto, alegraram-se, e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna” (Atos 13:48). Nós vemos isto na corrente de ouro da redenção, em Romanos 8:30: “E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou”. Poderíamos colocar muitas dessas passagens. Não há dúvida de que a Bíblia ensina que Deus elege os homens. Mesmo os Arminianos não negam a eleição; eles simplesmente negam que a eleição é incondicional. Eles ensinam que a eleição é condicionada ao conhecimento de Deus de sua fé futura (ou seja, eleição condicional). Discutiremos mais sobre isso no quinto parágrafo do presente capítulo. Esta predestinação ou preordenação para a vida eterna é 1) por meio de Cristo Jesus, e 2) é para o louvor da sua gloriosa graça. “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado” (Efésios 1:5-6).

 

A Confissão afirma, em seguida, que outros são deixados a agir em seus pecados para a sua justa condenação, para o louvor da Sua gloriosa justiça. Passamos agora para o tema daqueles que não são predestinados para a vida eterna. Enquanto a Confissão começou este parágrafo estabelecendo que o destino de homens e anjos é estabelecido igualmente por meio do decreto de Deus, aqui ela esclarece que a predestinação para a vida e o deixar outros em seus pecados não é equivalente. A Confissão não diz: “Pelo decreto de Deus, alguns homens e anjos são predestinados para a vida eterna e os outros são predestinados à condenação eterna”11, tornando assim os dois completamente equivalentes. Por que não torná-los iguais? Primeiramente, para responder a esta pergunta, vejamos várias passagens da Escritura sobre os não-eleitos:

 

“E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição” (Romanos 9:22).

 

“Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” (Judas 1:4).

 

“A besta que viste foi e já não é, e há de subir do abismo, e irá à perdição; e os que habitam na terra (cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo) se admirarão, vendo a besta que era e já não é, ainda que é” (Apocalipse 17:8).

 

“Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve” (Mateus 11:25-26).

 

“Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer” (Romanos 9:17-18).

 

“Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” (Romanos 9:20-21).

 

“E uma pedra de tropeço e rocha de escândalo, para aqueles que tropeçam na palavra, sendo desobedientes; para o que também foram destinados” (1 Pedro 2:8).

 

Essas passagens deixam bem claro que mesmo os não-eleitos estão no âmbito do decreto de Deus. Pode ser bom fazermos uma pausa por um momento e deixarmos que isso seja estabelecido em nossas mentes: estas pessoas são por decreto de Deus destinadas à destruição. Mas, segue-se necessariamente que estes não-eleitos são meras vítimas inocentes da vontade de Deus — peões nas mãos de um Deus cruel e insensível? É evidente que isso não é assim. Mas, como faremos o nosso caminho através destas passagens sem chegar à conclusão de que Deus viola a vontade do não-eleito e cria o mal no seu coração, a fim de destruí-lo? Esta é a acusação de que muitos fazem à Teologia Reformada sobre o seu modelo da soberania de Deus. Se quisermos compreender a Palavra de Deus sobre este ponto, teremos de ouvir atentamente as nuances da Escritura que resolvem essas dificuldades aparentes em perfeita harmonia com a santa natureza de Deus e a natureza da livre-agência de Suas criaturas. Alguém tem que lidar com as passagens acima de alguma forma, e simplesmente ignorá-las e chamá-las de um “mistério” não é um bom método de interpretação para lidar com o que Deus tem claramente revelado. Usando métodos interpretativos sãos, tais como comparar Escritura com Escritura — teologia com teologia — vemos os maravilhosos caminhos de Deus.

 

A tendência é de não vermos nenhuma distinção entre predestinação para a vida e julgamento, mas nós temos que resistir a isso; como quando dois ímãs que querem unir-se, temos que usar um pouco de força para mantê-los separados. Em termos de decreto de Deus na predestinação, dois termos são por vezes usados: decretos positivos e decretos negativos. No decreto positivo de Deus quanto à eleição, Ele intervém ativamente através da criação de fé no coração deles. Assim, em relação aos eleitos, Deus muda os seus corações, o que resulta em uma reorientação para que eles tanto desejem quanto sejam habilitados para vir a Cristo; isso não violenta a vontade deles, pois eles livremente escolhem o que o seu novo coração deseja. No decreto negativo de Deus, Ele passa pelos não-eleitos (ou seja, os réprobos) e não intervém e não cria ativamente a fé neles. No réprobo, Deus não muda o seu coração, e, portanto, não há nenhuma reorientação do seu coração e da mente; eles são deixados aos seus próprios desejos pecaminosos — às próprias coisas que eles amam. Eles não desejam escolher a Cristo e são incapazes de fazê-lo, pois isso é contrário à sua natureza pecaminosa. Deus, por Sua gloriosa graça, mostra misericórdia e muda o coração dos eleitos, e Deus, por Sua gloriosa justiça, deixa a pessoa do réprobo sozinha para que se satisfaça em seu pecado, e assim, eles recebem aquilo que justamente merecem. Desta forma, Deus não é nem o autor do pecado, nem violenta a vontade de Suas criaturas. Aqueles que não são eleitos não querem deixar o seu pecado, pois eles os adoram mais do que a Deus. Deus não precisa fazer nada pelos reprovados para que eles recebam julgamento; Ele justamente deixa-as, ou passa por eles. Erros doutrinários são cometidos quando se deixa de ver uma distinção entre decreto positivo ou negativo de Deus.

 

Eu poderia apontar que estamos falando de uma doutrina, às vezes, chamada de dupla predestinação. O problema com o termo “dupla-predestinação” é que não há nada construído nele que indique a distinção na predestinação dos eleitos e réprobos, o que claramente existe. Mas, se corretamente entendido, o termo “dupla-predestinação” é perfeitamente válido. Existem dois termos que destacam a distinção do decreto de Deus na predestinação: ultimidade igual e ultimidade desigual.

 

Ultimidade igual significa que Deus intervém igualmente para criar fé no eleito e incredulidade no réprobo. Enquanto este ponto de vista é simetricamente agradável, a simetria nem sempre é bíblica. Esta visão simétrica do decreto de Deus na predestinação é um decreto positivo-positivo. Esta é a posição do hiper-Calvinismo (o qual realmente não é Calvinismo em absoluto). É uma visão antibíblica, e não é a posição da Teologia Reformada. Mas, embora seja fácil para nós julgarmos esse ponto de vista como de fato “hiper”, ainda assim alguém tem que admitir que, à primeira vista, isso é o que algumas passagens da Escritura parecem implicar. Por exemplo, Êxodo 4:21: “…eu lhe endurecerei o coração, para que não deixe ir o povo”. Ou Êxodo 7:3: “Eu, porém, endurecerei o coração de Faraó, e multiplicarei na terra do Egito os meus sinais e as minhas maravilhas”. Tais passagens de fato parecem indicar que Deus ativamente cria dureza em Faraó. Mas, comparando Escritura com Escritura, sabemos que essas passagens não podem significar que Deus cria o mal no coração de Faraó, pois Deus não é o autor do pecado nem tem comunhão com isso. Então, como resolveremos isso à luz de toda a Escritura?

 

Deus é ativo nas questões dos homens em muitos aspectos, e uma dessas maneiras é que Ele concede diferentes graus de graça comum às Suas criaturas. A graça comum é evidenciada de muitas maneiras: a partir das bênçãos da chuva, comida, roupas, abrigo e assim por diante, até a graça restritiva do mal neste mundo. Em um determinado momento, se Deus removesse a Sua graça que restringe o mal neste mundo, este se tornaria um lugar mui perverso — a maior impiedade se multiplicaria, e isso muito rapidamente. Deus não deve esta bênção de restrição do mal ao mundo; quando ela a concede, isso é graça. Deus é perfeitamente justo quando Ele remove essa bênção graciosa dos pecadores, e Ele remove esta graça em graus variados, de acordo com os Seus próprios livres propósitos. Tudo o que Deus faz para “endurecer” o coração de Faraó, é remover algo de Sua graça comum, que restringe o pecado, e o coração de Faraó se tornará mais duro do que era antes. Faraó está agindo livremente em seu próprio pecado; Deus não precisa criar o mal para ele se tornar mais mal; Faraó era bem capaz disso por si mesmo. Desta forma, Deus não endurece o coração de Faraó ativamente, mas passivamente o endurece. Isto não nega que Deus endureceu o coração de Faraó, porque isso é exatamente o que a passagem diz. Este ponto de vista é fiel à passagem, pois ela não especifica como Deus o endureceu. E assim por meio de endurecimento de modo passivo (a remoção de um grau de graça comum que restringe o mal), Deus governa e dirige até mesmo o pecado para ser Seu ser-vos, sem violar a livre-agência de Suas criaturas e sem ser o autor do mal. E assim estas passagens de Êxodo 4 e 7 não implicam na doutrina da ultimidade igual.

 

Ultimidade desigual significa que Deus intervém para criar a fé no eleito, mas não cria a fé no réprobo. Neste, Deus deixa os não-eleitos em seu próprio pecado, pecado este que eles amam e buscam livremente. Deus não criou o mal neles, pois ele já está lá. Como resultado de sua busca pelo pecado, eles recebem a justa consequência: a condenação. Esta é a posição do Calvinismo. Este ponto de vista de decreto de predestinação de Deus é um decreto positivo-negativo. Assim, enquanto não há uma visão simétrica da predestinação, é a visão bíblica que harmoniza o decreto ativo de Deus em relação ao eleito, e Seu decreto passivo em relação ao réprobo. Nesta visão, Deus não é o autor do mal, mas ainda assim, Ele o direciona para os Seus propósitos sem violência à vontade de Suas criaturas.

 

O decreto de Deus O glorifica. O Seu decreto para salvar os eleitos glorifica a Ele mesmo. O Seu decreto para passar pelos (ou seja, deixar em pecado) os não-eleitos glorifica a Ele mesmo. Deus é livre para mostrar graça a alguns, e justiça para os demais. É admirável que Deus mostre graça a qualquer um, pois todos merecemos o juízo eterno. Não temos o direito de protestar contra o caminho de Deus ou o Seu decreto; só podemos permanecer à distância, em temor e terror diante de Seus caminhos maravilhosos. “Digno és, Senhor, de receber glória, e honra, e poder; porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade são e foram criadas” (Apocalipse 4:11).

 

Oh, profundidade das riquezas, da sabedoria, do conhecimento de Deus! Glória a Deus eternamente, Amém!

 

4. Esses anjos e homens, assim predestinados e preordenados, são particular e imutavelmente designados; e o seu número é tão certo e definido, que não pode ser aumentado ou diminuído.10 (10 2 Timóteo 2:19; João 13:18).

 

Aqui a Confissão expõe a imutabilidade e a exatidão de decreto eterno de Deus na predestinação (ou preordenação). A exatidão é vista na palavra particular e a imutabilidade é vista no seu propósito imutável. Claro, nós já sabemos que Deus é imutável e que Seus decretos também são imutáveis, e por isso não poderíamos esperar que este número fosse flexível. O número não pode ser aumentado ou diminuído, pois o decreto de Deus é eterno e imutável.

 

O que as Escrituras estabelecem ao longo destas linhas? “Não falo de todos vós; eu bem sei os que tenho escolhido; mas para que se cumpra a Escritura…” (João 13:18). “Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai” (João 10:29). “Jesus falou assim e, levantando seus olhos ao céu, e disse: Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que também o teu Filho te glorifique a ti; assim como lhe deste poder sobre toda a carne, para que dê a vida eterna a todos quantos lhe deste” (João 17:1-2). “Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (João 6:37). “Todavia o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus, e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniquidade” (2 Timóteo 2:19). Essas passagens nos encorajam, de modo que, mesmo naqueles tempos que carecemos de segurança, e estamos duvidosos, ou estamos com medo de nos apartar de nosso Deus, se somos parte desse número, nós não podemos ser subtraídos, por assim dizer, a partir desse número dos eleitos de Deus.

 

A Confissão não deixa espaço para manobra; não há espaço para visões liberais sobre Deus. Deus não é indefinido em Seu plano e decreto; tudo foi estabelecido desde a eternidade por Deus. Ele não está aberto a mudar Seus planos; Ele tudo preordenou do início do fim. Não lute contra Deus sobre este assunto; em vez disso, que seja eternamente conhecido que Ele é Deus. Em nosso evangelismo, tenhamos a certeza de que Deus salvará todos os Seus eleitos através da pregação do Evangelho, e mesmo quando nós sofremos por causa do Evangelho, podemos dizer com Paulo: “Portanto, tudo sofro por amor dos escolhidos, para que também eles alcancem a salvação que está em Cristo Jesus com glória eterna” (2 Timóteo 2:10). Esta doutrina é de grande consolo para o povo de Deus.

 

 

5. Aqueles da humanidade que são predestinados para a vida, Deus, antes da fundação do mundo, de acordo com o Seu propósito eterno e imutável, e o secreto conselho e beneplácito de Sua vontade, os escolheu em Cristo, para a glória eterna, por Sua pura livre graça e amor11, não por qualquer outra coisa na criatura, como condições ou causas que O movessem a isso.12 (11 Efésios 1:4, 9, 11; Romanos 8:30; 2 Timóteo 1:9; 1 Tessalonicenses 5:9 • 12 Romanos 9:13, 16; Efésios 2:5, 12).

 

Quando começamos este parágrafo com as palavras, aqueles da humanidade, estamos certos de que fala-se apenas de homens, e não de anjos. Nós também somos assegurados pelas palavras predestinados para a vida, que fala-se dos eleitos e não dos réprobos. Na Escritura nós lemos em relação a esses homens predestinados para a vida: “Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para a aquisição da salvação, por nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5:9). A Confissão afirma: Deus, antes da fundação do mundo. O ponto é feito aqui, em primeiro lugar, em termos de tempo. Deus escolheu os Seus eleitos antes da criação. A Escritura afirma: “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; e nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça…” (Efésios 1:4-6). A seguir, a Confissão estabelece que Deus efetivou a Sua eleição de acordo com o Seu propósito eterno e imutável. A expressão: antes da criação, equivale a dizer; na eternidade, antes do próprio tempo. A eleição foi feita de acordo com o Seu imutável propósito. A Escritura afirma: “Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11).

 

Quando alguém considera o decreto de Deus e que ele se estende até mesmo à Queda (1689, 5:4) pode-se perguntar: o decreto da eleição de Deus foi feito antes da Queda ou depois da Queda? Para responder a esta pergunta, primeiro precisamos reconhecer que o decreto de Deus, todos eles, foram feitos na eternidade, e, portanto, não nos é possível determinar uma ordem de tempo, mas podemos deduzir a ordem lógica. Há várias opiniões sobre este assunto, mas as Confissões Reformadas consideram que Deus logicamente primeiro decretou a Queda, e em seguida os eleitos. Esta posição é denominada Infralapsarianismo**. Em contraste, o Supralapsarianismo é a visão de que Deus decretou primeiro os eleitos, e, em seguida, a Queda. Está fora do escopo deste comentário discutir as ramificações das diferentes posições, mas a Confissão de Westminster (veja 3:7), a Declaração de Savoy (veja 3:7) e a Confissão de 1689 (veja 3:3, 6) tomam uma posição Infralapsariana. Por exemplo, no sexto parágrafo deste capítulo, vemos a seguinte declaração: “Portanto, aqueles que são eleitos, estando caídos em Adão, são remidos por Cristo”. Isto implica que o decreto de eleição segue logicamente o decreto da Queda. Mais uma vez, não estamos falando de uma ordem que pode ser feita cronologicamente, mas logicamente. A distinção do tempo-lógico pode parecer artificial, mas essa categorização é útil no campo da teologia.

 

A Confissão acrescenta que Deus elegeu de acordo com o Seu secreto conselho. Deus não nos revelou quem são os eleitos, mas, isso de maneira nenhuma faz com que eles sejam menos em Seu secreto conselho. Deus predestinou de acordo com o beneplácito de Sua vontade. A Confissão ecoa a Escritura: “Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos” (2 Timóteo 1:9). O Calvinismo tem uma visão elevada da soberania de Deus, e parte disso é reconhecer a liberdade de Deus para fazer o que quiser, mas nós também reconhecemos o consolo que esta doutrina traz aos eleitos, porque Deus não nos escolhe a contragosto, mas Ele teve o prazer de escolher-nos.

 

As declarações anteriores da Confissão não deixam espaço para que a pessoa que vem a Cristo se vanglorie, mas como para deixar o ponto bem claro, a Confissão afirma que a predestinação é por Sua pura livre graça e amor, não por qualquer outra coisa na criatura, como condições ou causas que O movessem a isso. A escolha de Deus para predestinar para a vida não está relacionada a qualquer coisa que uma pessoa pode fazer, fará, ou qualquer outra coisa nela. Não havia nenhuma condição na pessoa eleita que levou Deus a elegê-la; não havia motivo, em absoluto, na pessoa que levou Deus a escolhê-la. A eleição não é baseada em eventos futuros, mas apenas mediante a livre escolha de Deus, por Seu próprio propósito e para a Sua própria glória. Este é o ‘U’ em TULIP (o acróstico frequentemente usado para representar os Cinco Pontos do Calvinismo), ou seja, a eleição incondicional [Unconditional election]. Deus não é movido por ninguém, mas por Si mesmo. Quando alguém pleiteia o mérito por ter escolhido a Cristo, subestima sua morte pelo pecado, e se apossa do mérito por algo que o próprio Pai iniciou. Ter o crédito pela escolha é, em um sentido, conceitualmente tirar a liberdade de Deus na eleição, e se apropriar da glória que pertence somente a Deus; ninguém deve ter o mérito por ser o iniciador, quando este pertence somente a Deus. Deus é livre para mostrar o Seu amor por aqueles a quem Ele escolhe.

 

 

6. Assim como Deus destinou os eleitos para a glória, assim também, pelo propósito eterno e mui livre de Sua vontade, preordenou todos os meios para isso13. Portanto, aqueles que são eleitos, estando caídos em Adão, são remidos por Cristo14, são eficazmente chamados para a fé em Cristo pelo Seu Espírito, que opera no tempo devido; são justificados, adotados, santificados15 e preservados pelo Seu poder por meio da fé para a salvação16. Nem são quaisquer outros redimidos por Cristo, ou eficazmente chamados, justificados, adotados, santificados e salvos, senão somente os eleitos.17 (13 1 Pedro 1:2; 2 Tessalonicenses 2:13 • 14 1 Tessalonicenses 5:9-10 • 15 Romanos 8:30; 2 Tessalonicenses 2:13 • 16 1 Pedro 1:5 • 17 João 10:26, 17:9, 6:64).

 

Por razões de clareza, dividiremos este parágrafo, nos seguintes tópicos:

 

1. Os eleitos são destinados para a glória: “Assim como Deus destinou os eleitos para a glória”;

 

2. O decreto da eleição é executado por meios preordenados: “assim também, pelo propósito eterno e mui livre de Sua vontade, preordenou todos os meios para isso;

 

3. É Cristo quem redime os eleitos: “Portanto, aqueles que são eleitos, estando caídos em Adão, são remidos por Cristo”;

 

4. É o Espírito quem aplica a redenção de Cristo através do chamado eficaz: “são eficazmente chamados para a fé em Cristo pelo Seu Espírito, que opera no tempo devido tempo”;

 

5. Os benefícios do chamado eficaz (ordo salutus): “são justificados, adotados, santificados e preservados pelo Seu poder por meio da fé para a salvação”;

 

6. Os destinatários exclusivos da redenção de Cristo e chamado eficaz com os seus benefícios: “Nem são quaisquer outros redimidos por Cristo, eficazmente chamados, justificados, adotados, santificados e salvos, senão somente os eleitos”.

 

Os Eleitos São Destinados Para A Glória

 

Deus destinou os eleitos para a glória. O fim (ou cumprimento) do decreto de eleição de Deus é a glorificação, e existem meios preordenados (ou formas) para esse fim. A Confissão já estabeleceu que Deus destinou os eleitos para a vida eterna, mas aqui o termo glória é usado em vez daquele. Esta palavra tem vários usos, mas aqui glória é usada em referência ao pleno cumprimento do decreto da eleição de Deus. Glória (ou glorificação) não é meramente o estado de uma alma eleita quando morre e entra no Céu, sendo aperfeiçoada em santidade12, porém, mais do que isso, é quando na Última Ressurreição, os eleitos são reunidos aos seus corpos (que ressuscitarão incorruptíveis), e estarão nesse estado no Céu, para sempre, na presença de Deus (veja o Capítulo 31 da CFB1689).13

 

O Decreto Da Eleição É Executado Por Meios Preordenados

 

A Confissão afirma: Assim também, pelo propósito eterno e mui livre de Sua vontade, preordenou todos os meios para isso. A vontade de Deus é eterna e mui livre. Isto é verdade tanto para Seus decretos quanto para a forma pela qual Ele os cumpre. A vontade de Deus no cumprimento de Seus decretos é tão eterna quanto o próprio decreto, e Deus é tão livre para determinar os meios quanto Ele o é em determinar os fins. Deus executa ou cumpre os Seus decretos utilizando meios preordenados. É importante que entendamos que Deus não se limita a decretar ou preordenar sem incluir igualmente um plano preestabelecido para cumpri-lo.14

 

Os meios específicos (ou formas) para o fim (ou cumprimento) da glorificação é a obra redentora de Cristo e a aplicação dela pelo: chamado eficaz, justificação, adoção, santificação e perseverança dos santos. Estes são os meios preordenados para trazer os eleitos para o seu designado estado de glória. Há uma ordem lógica nestes meios, e esta ordem é referida como a ordem da salvação (também conhecida como o ordo salutis, em Latim)15. Há muito a discorrer a respeito da ordem de salvação, mas o guardaremos para os últimos
 

Capítulos: 3 (eleição: parágrafos 3-7), 8 (redenção de Cristo), 10 (chamado eficaz), 11 (justificação), 12 (adoção), 13 (santificação), 14 (fé), 15 (arrependimento), 17 (perseverança), e 31 (glorificação). Nosso presente parágrafo na Confissão menciona cada um destes.16

 

É Cristo Quem Redime Os Eleitos

 

A Confissão de 1689 afirma: Portanto, aqueles que são eleitos, estando caídos em Adão, são remidos por Cristo. O primeiro meio preordenado foi a compra dos eleitos por Cristo; sem a obra redentora de Cristo, o decreto de eleição não poderia ser realizado. É importante perceber que tanto os eleitos e não-eleitos igualmente estão caídos em Adão, mas somente os eleitos são redimidos por Cristo. A obra redentora de Cristo (Sua vida de obediência e Sua morte expiatória) realmente obteve a redenção para os eleitos, apesar de que a compra não é aplicada até o preestabelecido tempo de Deus. Observe que os eleitos estão caídos em Adão, mas redimidos por Cristo. Vemos aqui uma sugestão daquela transferência dos eleitos da caída representação federal de Adão, para a representação de Cristo; eles já não estão em Adão, mas em Cristo. O Capítulo 8 explica a redenção adquirida por Cristo.

 

É O Espírito Quem Aplica A Redenção De Cristo Através Do Chamado Eficaz

 

O cumprimento da redenção para os eleitos não é a mesma coisa que a sua aplicação. Primeiramente, a redenção é efetivada pela obra de Cristo. Mas, como ela é aplicada? Ela é aplicada pelo Espírito Santo17. Mas, como o Espírito Santo aplica a redenção?18 Ele a aplica através do chamado eficaz19. Assim, a Confissão afirma que os eleitos são eficazmente chamados para a fé em Cristo, pelo Seu Espírito que opera no tempo devido. O Capítulo 10, Sobre o Chamado Eficaz de Deus, lidará com isso de forma detalhada, mas por agora o assunto é meramente introduzido. Até o momento em nossa progressão os meios de realizar o decreto da eleição são: 1) a redenção de Cristo, e 2), a aplicação, pelo Espírito, desta redenção através do chamado eficaz. Esta obra do Espírito ocorre no tempo devido. O momento é preordenado, assim como os meios. Deus faz bem todas as coisas, e assim Ele o faz quando a redenção é aplicada a cada um dos eleitos.

 

Os Benefícios Do Chamado Eficaz

 

A Confissão afirma que os que são eficazmente chamados: são justificados, adotados, santificados e preservados pelo Seu poder por meio da fé para a salvação. Os meios preordenados são: a obra de Cristo, a aplicação desta pelo Espírito aos eleitos por meio do chamado eficaz, e aqui nós vemos os resultados ou benefícios20 do chamado eficaz: a justificação21, adoção22, santificação23 e perseverança dos santos24 (ou seja, preservados pelo Seu poder). Observe que todos esses benefícios são relativos à salvação. A fé não é restrita à frase anterior “preservados pelo Seu poder”, antes a fé é o instrumento pelo qual todos os benefícios do chamado eficaz são recebidos. E assim é por todos aqueles meios preordenados que Deus executa o decreto da eleição ao trazer os eleitos para a glória. Eu não tenho explicado o caráter destes meios e benefícios distintos, a não ser fornecendo as explicações do Catecismo Batista nas notas de rodapé. Eu espero que estas explicações ajudem o leitor até chegarmos à explicação detalhada em seus respectivos capítulos.

 

Os Destinatários Exclusivos Da Redenção De Cristo

E Chamado Eficaz Com Os Seus Benefícios

 

Com o propósito de não deixar espaço para erros de interpretação, a Confissão acrescenta: Nem são quaisquer outros redimidos por Cristo, eficazmente chamados, justificados, adotados, santificados e salvos, senão somente os eleitos. Como Jesus disse: “Muitos são os chamados, mas poucos escolhidos” [Mateus 22:14]. O chamado geral do Evangelho é para muitos, mas apenas aqueles eficazmente chamados realmente virão, pois apenas os eleitos são efetivamente chamados. O restante é deixado no pecado que tanto ama, e assim, eles justamente recebem a sua condenação. Desta forma, apenas os eleitos recebem a redenção de Cristo em seu chamado eficaz, e disto provêm todos os seus benefícios. O decreto da eleição de Deus é efetivado por estes meios preordenados; por estes, Deus infalível e perfeitamente executa o Seu decreto da eleição, trazendo muitos filhos à glória.

 

 

7. A doutrina deste elevado mistério da predestinação deve ser tratada com especial prudência e cuidado, para que os homens, atendendo à vontade de Deus revelada em Sua Palavra, e prestando obediência a esta, possam, a partir da certeza do seu chamado eficaz, certificar-se de sua eleição eterna18. Portanto, esta doutrina deve motivar louvor19, reverência e admiração a Deus; e humildade20, diligência e consolação abundante para todos os que sinceramente obedecem ao Evangelho.21 (18 1 Tessalonicenses 1:4-5; 2 Pedro 1:10 • 19 Efésios 1:6; Romanos 11:33 • 20 Romanos 11:5, 6, 20 • 21 Lucas 10:20).

 

A Confissão chama a predestinação de uma doutrina de elevado mistério. A Escritura afirma: “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!” (Romanos 11:33). Deus Se agradou em revelar muito sobre a natureza de Seus decretos — de fato um elevado mistério, mas por outro lado, há limitações do que é revelado. A. A. Hodge afirma: “A filosofia da relação de Seu [de Deus] propósito soberano para a livre agência da criatura, e a permissão do mal moral, não é revelada nas Escrituras, e não pode ser descoberta pela razão humana, e, portanto, isso não deve ser precipitadamente debatido. Esta verdade não deve, no entanto, ser removida de seu devido lugar no sistema, que inclui as igualmente certas verdades sobre a liberdade do homem e as livres ofertas do Evangelho a todos”25. Assim, a predestinação deve ser tratada com especial prudência e cuidado. Há muitas maneiras de nos embaraçarmos com esta doutrina, e aqueles que creem nela devem ter cautela na sua própria compreensão e na articulação dela em relação às outras doutrinas. A. A. Hodge afirma: “Esta seção ensina que o elevado mistério da predestinação deve ser tratado com especial prudência e cuidado. Esta necessidade surge do fato de que muitas vezes ela é abusada, e que o seu uso adequado é do mais elevado grau de importância”.26

 

Porque é que esta doutrina da predestinação é tão importante? Para que os homens, atendendo à vontade de Deus revelada em Sua Palavra, e prestando obediência a esta, possam, a partir da certeza do seu chamado eficaz, certificar-se de sua eleição eterna. Vamos dividir isso em partes. Há duas coisas aqui na Confissão que devem levar os verdadeiros Cristãos à certificarem-se de que eles foram chamados eficazmente. Primeiro, os homens, que atendem a vontade de Deus revelada em Sua Palavra. Ou seja, o Cristão, homem ou mulher, que atende à vontade de Deus, como revelada nas Escrituras. Em segundo lugar, isso se dirige à pessoa que está prestando obediência a esta [à Palavra]. Ou seja, o Cristão que está obedecendo a Palavra de Deus. Em contraste com este último, sabemos que há Cristãos professos que conhecem a Palavra de Deus, e ainda assim não estão prestando obediência a ela. E assim, por estas duas coisas mutuamente inclusivas, alguém pode ter certeza do seu chamado eficaz (chamado é um sinônimo para ‘vocação’). Não é que a obediência à Palavra de Deus seja a base do chamado eficaz, mas é a evidência deste. Se alguém é eficazmente chamado, ele pode ter a certeza de sua eleição eterna, porque os eleitos na eternidade são sempre chamados eficazmente. Nós somente temos que olhar para Romanos 8:30 para contemplar isso: “E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou”. A Confissão promove a segurança da eleição e o chamado eficaz de alguém, mas tem o cuidado de evitar a promoção de uma falsa segurança naqueles que estão agindo de forma contrária daqueles que são chamados.

 

A Confissão de 1689 termina neste parágrafo, afirmando: Portanto, esta doutrina deve motivar louvor, reverência e admiração a Deus; e humildade, diligência e consolação abundante para todos os que sinceramente obedecem ao Evangelho. A doutrina da predestinação deve levar-nos a louvá-lO, porque o nosso Deus soberano tem um povo que Ele predestinou para a glória por Sua graça, do início ao fim. Jesus disse: “Mas, não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus” (Lucas 10:20). Esta doutrina nos leva a reverenciar a Deus, porque Ele é maravilhoso em Sua graça e temível em Seus julgamentos. Paulo disse aos Cristãos gentios sobre o judeu: “Está bem; pela sua incredulidade foram quebrados, e tu estás em pé pela fé. Então não te ensoberbeças, mas teme” (Romanos 11:20). Nós quedamos em admiração a Deus por Sua soberana graça e justiça. Nós nos prostramos em humildade, porque Deus nos elegeu na eternidade. Devemos ser diligentes em fazer firme a nossa vocação e eleição. “Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis” (2 Pedro 1:10). Dessa doutrina os eleitos derivam muito consolo, uma vez que os eleitos estão sinceramente obedecendo ao Evangelho. Mas tal conforto não pode ser obtido pelo desobediente e hipócrita, que não obedece ao Evangelho. R. C. Sproul afirma: “Quando vemos as profundezas das quais Deus trará o Seu povo à plenitude da salvação, ficamos maravilhados diante de Sua graça. Existe alguma coisa mais incrível do que sermos chamados filhos de Deus? O apóstolo João escreve ao seu rebanho: ‘Vede quão grande amor nos tem concedido o Pai, que fôssemos chamados filhos de Deus’ (1 João 3:1). Isso nos ajuda a contemplar a excelência e a doçura da graça, e isso nos move ao louvor, reverência e admiração”.27

 

Enquanto avançamos para o capítulo 4, Sobre a Criação, não há dúvida de que os capítulos de 1 a 3 têm sido mui poderosos. No Capítulo 1, Sobre as Sagradas Escrituras, estabelecemos a nossa autoridade para a verdade e realidade, e convocamo-nos à plena submissão à Palavra de Deus. No Capítulo 2, descobrimos coisas sobre Deus apenas encontradas nas Sagradas Escrituras, e nos esforçamos enquanto buscávamos apreender quem é Deus; fomos humilhados e impressionados com a Sua majestade, Sua eternidade e infinitude. E no Capítulo 3, nós fomos desafiados e estimulados a compreender e aceitar o decreto do Deus soberano, para grande desagrado de nossa tendência pecaminosa a pensarmos sobre nós mesmos como se fôssemos completamente autónomos. Os três primeiros vigorosos capítulos resolveram as questões sobre autoridade: a soberania de Deus (capítulo 3), a Divindade (capítulo 2), e as Escrituras (capítulo 1). Estas verdades nos guiam enquanto investigamos mais sobre o que Deus revelou sobre Si mesmo e Sua vontade para a Igreja.

 

 


* Para ler o Primeiro Capitulo e a Introdução deste Comentário acesse oEstandarteDeCristo.com.

**A posição Oficial do EC é o Supralapsarianismo e não Infralapsarianismo como é a posição aqui esboçada pelo mui amado Comentarista. Para uma exposição desta posição leia o Capítulo 6, Sua Natureza, do Livro A Doutrina da Eleição, por A. W. Pink. O amor de Deus é supralapsariano, eterno.

[1] A Edição Compacta do Dicionário de Inglês Oxford, 2 vols. (New York: Oxford University Press, 1971).

[2] Louis Berkhof. Systematic Theology [Teologia Sistemática], contendo o texto integral da Teologia Sistemática (1932) e o volume Introdutório original para a Teologia Sistemática (1938), e novo prefácio de Richard A. Muller (Grand Rapids e Cambridge: Eerdmans, 1996), 104.

[3] Louis Berkhof. Systematic Theology [Teologia Sistemática], contendo o texto integral da Teologia Sistemática (1932) e o volume Introdutório original para a Teologia Sistemática (1938), e novo prefácio de Richard A. Muller (Grand Rapids e Cambridge: Eerdmans, 1996), 103, 4.

[4] Robert Letham.The Westminster Assembly: Reading Its Theology in Historical Context [A Assembleia de Westminster: Lendo a Sua Teologia no Contexto Histórico] (Phillipsburg, Nj.: P & R Publishing, 2009), 182.

[5] R. C. Sproul. Chosen by God [Escolhidos por Deus] (Carol Stream, IL: Tyndale House Publishers, Inc., 186), 26-7.

[6] R. C. Sproul. Truths We Confess: A Layman’s Guide to the Westminster Confession of Faith, vol. I, The Triune God [Verdades Que Nós Confessamos: Um Guia de Leigos para a Confissão de Fé de Westminster, vol. I, O Deus Triuno] (Phillipsburg, Nj.: P & R Publishing, 2006), 81.

[7] Ibid.

[8] Louis Berkhof. Systematic Theology [Teologia Sistemática], contendo o texto integral da Teologia Siste-mática (1932) e o volume Introdutório original para a Teologia Sistemática (1938), e novo prefácio de Richard A. Muller (Grand Rapids e Cambridge: Eerdmans, 1996), 105.

[9] A. A. Hodge, The Westminster Confession: A Commentary [A Confissão de Westminster: Um Comentário] (1869; reimpresso, Carlisle, Pa.: Banner of Truth Trust, 2002), 63.

[10] Samuel E. Waldron. 1689 Baptist Confession of Faith: A Modern Exposition, 3rd ed [A Confissão de Fé Batista de1689: Uma Exposição Moderna, 3ª ed.] (Webster, Ny .: Evangelical Press, 1999), 69-70.

[11] A Confissão de Fé de Westminster declara: “Pelo decreto de Deus e para manifestação da Sua glória, alguns homens e anjos são predestinados para a vida eterna; e outros preordenados para a morte eterna”. A Confissão de Westminster dá a impressão no terceiro parágrafo que ambos os grupos são equivalentes, no entanto, mais tarde, no sétimo parágrafo, a Confissão de Westminster esclarece que estes dois não são equivalentes. A Confissão de 1689 indica antes a falta de equivalência.

[12] O Catecismo Batista. Pergunta 40: Que benefícios os crentes recebem de Cristo quando morrem? Resposta: As almas dos crentes, quando morrem, são aperfeiçoadas em santidade1, e passam imediatamente para a glória2, e seus corpos, estando ainda unidos a Cristo3, descansam em seus túmulos4 até a ressurreição.5 (1 Hebreus 12:23; 2 Filipenses 1:23; 2 Coríntios 5:8; Lucas 23:43; 3 1 Tessalonicenses 4:14; 4 Isaías 57:2; 5 Jó 19:26).

 

[13] Catecismo Batista. Pergunta 41: Que benefícios os crentes recebem de Cristo na ressurreição? Resposta: Na ressurreição, os crentes sendo ressuscitados em glória1, serão abertamente reconhecidos e absolvidos no Dia do Juízo2, e serão perfeitamente abençoados tanto no corpo como na alma, e entrarão no pleno gozo de Deus3 por toda a eternidade.4 (1 Filipenses 3:20-21; 2 1 Coríntios 15:42-43; 3 Mateus 10:32; 1 João 3:2; 4 1 Tessalonicenses 4:17).

 

[14] Mais uma vez, como citado acima, Berkhof afirma que o decreto de Deus: “Ele é incondicional ou absoluto. Isso significa que ele não é dependente em qualquer das suas particularidades sobre qualquer coisa que não seja parte integrante do próprio decreto. Os vários elementos no decreto são de fato mutuamente dependentes, mas nada no plano é condicionado por qualquer coisa que não está no decreto. A execução do plano pode exigir meios ou ser dependente de determinadas condições, mas, então, esses meios ou condições também foram determinados no decreto”, Louis Berkhof, Teologia Sistemática, contendo o texto integral da Teologia Sistemática (1932) e o volume Introdutório original para a Teologia Sistemática (1938), e novo prefácio de Richard A. Muller (Grand Rapids e Cambridge: Eerdmans, 1996), 105.

 

[15] Eu gostaria de recomendar como um excelente livro sobre este assunto, o livro de John Murray intitulado Redemption Accomplished and Applied [Redenção Consumada e Aplicada] (Grand Rapids, Eerdmans, 1955).

[16] O arrependimento não é mencionado neste parágrafo da Confissão, mas é inseparável da fé e, portanto, implícito.

 

[17] O Catecismo Batista. Pergunta 32: Como somos feitos participantes da redenção comprada por Cristo? Resposta: Nós somos feitos participantes da redenção comprada por Cristo, através da aplicação eficaz desta a nós1 pelo Seu Espírito Santo.2 (1 João 3:5-6; 2 Tito 3:5-6).

 

[18] O Catecismo Batista. Pergunta 33 Como o Espírito aplica a nós a redenção adquirida por Cristo? Resposta: O Espírito aplica a nós a redenção adquirida por Cristo, pela fé que é operada em nós1, e por esta nos une a Cristo em nosso chamado eficaz.2 (1 Efésios 1:13-14; João 6:37, 39; Efésios 2:8; 2 Efésios 3:17; 1 Coríntios 1:9).

 

[19] O Catecismo Batista. Pergunta 34: O que é o chamado eficaz? O chamado eficaz é obra do Espírito de Deus1 segundo a qual Ele nos convence de nosso pecado e miséria2, ilumina nossas mentes para o conhecimento de Cristo3 e renova as nossas vontades4, e nos persuade e nos capacita a nos apegarmos a Jesus Cristo que é oferecido gratuitamente a nós no Evangelho.5 (1 2 Timóteo 1:9; 2 Tessalonicenses 2:13-14; 2 Atos 2:37; 3 Atos 26:18; 4 Ezequiel 36:26; 5 João 6:44-45; Filipenses 2:13).

[20] O Catecismo Batista. Pergunta 35: Quais os benefícios que aqueles que são chamados eficazmente participam nesta vida? Resposta: Aqueles que são chamados eficazmente nesta vida participam dos benefícios da justificação1, adoção2, santificação e dos vários benefícios que nesta vida os acompanham ou resultam deles.3 (1 Romanos 8:30; 2 Efésios 1:5; 3 1 Coríntios 1:30).

 

[21] O Catecismo Batista. Pergunta 36: O que é justificação? Resposta: A justificação é um ato da livre graça de Deus, onde Ele perdoa todos os nossos pecados1, e nos aceita como justos diante de Seus olhos2 somente pela justiça de Cristo imputada a nós3, e recebida somente pela fé.4 (1 Romanos 3:24; 4:6-8; 2 2 Coríntios 5:19, 21; 3 Romanos 5:17-19; 4 Gálatas 2:16; Filipenses 3:9).

 

[22] O Catecismo Batista. Pergunta 37: O que é adoção? Resposta: A adoção é um ato de livre graça de Deus1, pela qual somos recebidos dentre o número dos filhos de Deus, e adquirimos direito a todos os privilégios dos tais.2 (1 1 João 3:1; 2 João 1:12; Romanos 8:16-17).

 

[23] O Catecismo Batista. Pergunta 38: O que é santificação? Resposta: A santificação é a obra do Espírito de Deus1, pela qual somos renovados no novo homem, feito à imagem de Deus2, e somos mais e mais capacitados a morrer para o pecado e viver para a justiça.3 (1 2 Tessalonicenses 2:13; 2 Efésios 4:23-24; 3 Romanos 6:11).

 

[24] A Perseverança dos santos acompanha e flui da justificação, adoção e santificação; no entanto, é parte da ordem de salvação. O Catecismo Batista, Pergunta 39: Quais são os benefícios que nesta vida, acompa-nham ou seguem a justificação, a adoção e a santificação? Resposta: As bênçãos que nesta vida acompanham a justificação, são a segurança do amor de Deus, paz de consciência1, a alegria no Espírito Santo2, o crescimento na graça3 e a perseverança nesta até o fim.4 (1 Romanos 5:1-5; 2 Romanos 5:5,17; 3 Provérbios 4:18; 4 1 João 5:13; 1 Pedro 1:5).

[25] A. A. Hodge, The Westminster Confession: A Commentary [A Confissão de Westminster: Um Comentário] (1869; reimpresso, Carlisle, Pa.: Banner of Truth Trust, 2002), 76-7.

[26] A. A. Hodge, The Westminster Confession: A Commentary [A Confissão de Westminster: Um Comentário] (1869; reimpresso, Carlisle, Pa.: Banner of Truth Trust, 2002), 76.

[27] R. C. Sproul. Truths We Confess: A Layman’s Guide to the Westminster Confession of Faith, vol. I, The Triune God [Verdades Que Nós Confessamos: Um Guia de Leigos para a Confissão de Fé de Westminster, vol. I, O Deus Triuno] (Phillipsburg, Nj.: P & R Publishing, 2006), 107.

 

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