Um Comentário da Confissão de Fé Batista de 1689, por Gary Marble: Capítulo 7, Sobre a Aliança de Deus

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Um Comentário Da Confissão De Fé Batista De 1689
 

Capítulo 7*, Sobre a Aliança de Deus

 

 

1. A distância entre Deus e a criatura é tão grande, que, embora as criaturas racionais Lhe devam obediência como seu Criador, nunca poderiam ter alcançado a recompensa da vida, senão por alguma condescendência voluntária da parte de Deus, que Ele Se agrada em expressar por meio de aliança.1 (1 Lucas 17:10; Jó 35:7-8).

 

Quando começamos a olhar para este Capítulo, percebemos que o Capítulo 7 não é um levantamento dos pactos bíblicos, em vez disso ele lida especificamente com três pactos: o Pacto das Obras (por vezes chamado o pacto da vida), o Pacto da Redenção (entre Pai e Filho), e o Pacto da Graça. Este Parágrafo começa com um ponto fundamental sobre a aliança: A distância entre Deus e a criatura é tão grande, que, embora as criaturas racionais Lhe devam obediência como seu Criador. Esta grande distância é indiscutível — o Criador versus a criatura. A. A. Hodge escreveu: “O próprio ato de criação traz a criatura sob a obrigação (obediência devida) para com o Criador, mas não pode trazer o Criador em obrigação para com a criatura”1. O Criador criou as criaturas racionais — seres humanos. Assim, com base no fato de que Deus é nosso Criador, e que Deus fez o homem como uma criatura racional, a humanidade deve obediência a Deus.

 

Embora… nunca poderiam ter alcançado a recompensa da vida. Embora o homem deva obediência a Deus, esta obediência em si não é a base para alcançar a recompensa da vida. Hodge afirma: “A própria criação, sendo um ato de sinal da graça, não pode dotar o beneficiário com uma reivindicação de mais graça”2. Assim, a Confissão continua: senão por alguma condescendência voluntária da parte de Deus. Então, a recompensa da vida era atingível porque Deus voluntariamente Se abaixou para oferecê-la. A Confissão conclui este ponto, dizendo: que Ele Se agrada em expressar por meio de aliança. A recompensa da vida foi oferecida por meio de aliança. Assim a obediência só trouxe a recompensa da vida, porque Deus estava disposto a oferecê-la por meio de aliança, não porque a obediência merecia uma recompensa. Mas o que é uma aliança? Michael Kruger afirma: “Simplesmente, uma aliança é um acordo ou contrato entre duas partes que inclui os termos de seu relacionamento, as obrigações de aliança (estipulações), e as bênçãos e maldições”3. Esta recompensa da vida foi oferecida por meio de um pacto estruturado (aliança) que dependia de certos termos e condições. R.C. Sproul afirma: “a vontade de Deus de entrar em uma aliança (isto é, um acordo, contrato ou pacto) conosco é em si uma questão de graça… qualquer pacto no qual Deus entra conosco é um ato de condescendência. Porque Ele não é obrigado a estar em uma relação pactual conosco, mesmo o pacto das obras é fundado sobre a graça de Deus”.4

 

Sabemos agora o que uma aliança é, mas o que era esta particular aliança? Os termos desta aliança [ou pacto] foram expressos no capítulo 4, Sobre a Criação, mas como um lembrete vamos olhar para estes termos na Palavra de Deus, encontrado em Gênesis 2:16-17: “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás”. Deus lhes deu um comando que exigiu perfeita obediência. O comando foi: “você não deve comer da árvore”. Se este comando fosse quebrado, Deus disse: “Você certamente morrerá”. Então, vemos que a instrução contém termos e condições explícitas: comer é igual à morte. Existem outros termos e condições que podem se reunir com isso? Também está implícito que, se eles obedecessem, então eles viveriam. Assim, enquanto a obediência significava que eles iriam viver, isso implica necessariamente uma recompensa? Não, não é uma implicação necessária se estamos confinados a Gênesis 2:16-17. Mas nós não estamos confinados; temos também Gênesis 2:9 e Gênesis 3:22-24, onde vemos outra árvore mencionada — a árvore da vida. Após a Queda, Gênesis 3:22-24 diz: “Então disse o SENHOR Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente, o SENHOR Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado. E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente do jardim do Éden, e uma espada inflamada que andava ao redor, para guardar o caminho da árvore da vida”. O Senhor tomou medidas enérgicas para garantir que, após a Queda, Adão e Eva não comessem da árvore da vida para que não vivessem para sempre. Parece que esta árvore deveria ser comida se Adão e Eva houvessem obedecido por um período desconhecido de liberdade condicional. É esta árvore da vida implica uma recompensa pela obediência perfeita. Recentemente assisti à sessão de perguntas e respostas de uma conferência onde Lane Tipton fez esta declaração:

 

Se você pensar sobre a forma como é utilizada a imagem da árvore da vida. No jardim você tem uma árvore de vida dada a alguém que já está vivo. E assim esta árvore não pode ser um símbolo visível da continuação da vida, a menos que você queira acreditar que o bem mais elevado para Adão e Eva é uma comunhão perdível e mutável com Deus, com a possibilidade perpétua de pecar contra Deus, a presença permanente do dragão (serpente) procurando devorá-los e destruí-los, e um constante estado de morte a partir da árvore do conhecimento do bem e do mal. Então, quando você olha para essa situação no Éden não é tão romântica como alguns gostariam de pensar no evangelicalismo mais amplo. É realmente um lugar que ameaça de morte por desobediência; a serpente estava rondando procurando destruir o povo de Deus naquela época, e Adão e Eva estão sujeitos ao pecado, à morte e perda do vínculo de comunhão com Deus, à ira de Deus e às dores do inferno para sempre. E, como Adão não passou na provação como um cabeça federal, esta condição continua permanentemente.5

 

Assim, o comer da árvore da vida, ao que parece, deveria ocorrer após o cumprimento de perfeita obediência ao final do período provatório. Uma vez que eles compartilhassem da árvore da vida, eles viveriam para sempre em um estado onde a desobediência já não seria uma opção. Muitos acreditam, e eu tendo a concordar, que a recompensa da vida também daria início a um estado mais elevado da vida. A Confissão de 1689 parece implicar isso, referindo-se à “recompensa da vida”, embora as opiniões se dividiam entre os teólogos de Westminster.6

 

A aliança no presente Parágrafo é às vezes chamada de o “pacto Adâmico”, o pacto de vida, ou o pacto das obras. A terminologia não está nas Escrituras, mas os conceitos estão. Ele é chamado de o pacto Adâmico porque foi feito com Adão como o cabeça federal7 de toda a humanidade. É o chamado pacto de vida pois na aliança que Deus fez com Adão em Gênesis 2:16-17, os mesmos termos que ameaçavam de morte por desobediência implicavam vida em caso de obediência. É também chamado o pacto das obras, porque, a fim de ter vida, perfeita obediência (obras) era necessária. A Confissão não usa o termo “pacto de obras” neste Capítulo, no entanto, os autores fizeram uso dele em outro lugar (veja 19:6; 20:1), e o conceito está implícito em todo o Capítulo. O Comentário vai explicar ainda mais o pacto das obras à medida que prosseguimos.

 

 

2. Ademais, tendo o homem trazido a si mesmo a maldição da lei, por sua Queda, aprouve ao Senhor fazer um Pacto de Graça2, no qual Ele oferece livremente aos pecadores a vida e a salvação por meio de Jesus Cristo, exigindo deles a fé nEle, para que eles sejam salvos3; e prometendo dar a todos os que são ordenados para a vida eterna, o Seu Espírito Santo, para torná-los dispostos e capazes de crer4 (2 Gênesis 2:17; Gálatas 3:10; Romanos 3:20-21 • 3 Romanos 8:3; Marcos 16:15-16; João 3:16 • 4 Ezequiel 36:26-27; João 6:44-45; Salmos 110:3).

 

Ademais, tendo o homem trazido a si mesmo a maldição da lei, por sua Queda8. Como discutimos no final do último Parágrafo, é importante reconhecer que Adão é o cabeça de toda a humanidade (i.e., cabeça federal); a Confissão implica isso, referindo-se a Adão como sendo o representante de toda a humanidade. Como resultado, o homem trouxe a si mesmo — em Adão — a maldição. Deus amaldiçoou o homem por sua desobediência sob os termos do pacto de obras (‘termos’ que eram/são legais e, portanto Lei).

 

Assim, embora seja verdade que o homem trouxe a si mesmo sob uma maldição por quebrar o pacto de obras, no entanto, aprouve ao Senhor fazer um Pacto de Graça. A Pergunta 23 do Catecismo Batista é: “Deus deixou toda a humanidade perecer no estado de  pecado e miséria?”. A resposta é: “Deus, de Sua boa vontade desde toda a eternidade, elegeu alguns para a vida eterna, entrando em um Pacto de Graça para livrá-los do estado de pecado e miséria, e para trazê-los a um estado de salvação por meio de um Redentor”. O homem não conseguiu obter a recompensa da vida sob os termos do pacto de obras, mas aprouve ao Senhor fazer uma outra aliança como um meio de conceder-lhes um estado de vida eterna. Ao invés de uma aliança subordinada à perfeita obediência, Deus fez uma aliança incondicional, um Pacto de Graça, com os seus eleitos.

 

Neste pacto Ele oferece livremente aos pecadores a vida e a salvação por meio de Jesus Cristo. Assim como no pacto adâmico Deus condescendeu e prometeu a recompensa da vida condicionada à perfeita obediência, então Deus condescende e livremente oferece o pacto da graça que traz vida e salvação para o pecador. Este pacto da graça é oferecido gratuitamente a todos, contudo, a fim de receber os seus benefícios exige deles a fé nEle, para que eles sejam salvos. Este pacto conduz à vida eterna pela graça, não por perfeita obediência. Entretanto, embora o pacto seja incondicional (i.e., sem a condição de perfeita obediência dos eleitos), no entanto, a aliança exigiu perfeita obediência de Cristo e Sua expiação pelo pecado daqueles, o que é creditado a eles pela fé. Pascal Denault escreve: “Os Batistas consideraram que o Pacto da Graça começou imediatamente depois da Queda, e que a substância desta aliança, mesmo sob o Antigo Testamento, era a salvação através da fé em Jesus Cristo”9. O Pacto da Graça foi revelado e prometido imediatamente após a Queda. A Confissão vai ser mais específica sobre como esta aliança foi feita no Parágrafo três.

 

Há um par de questões aqui. Em primeiro lugar, o Pacto da Graça não deve ser confundido com reconciliação universal, como se Deus houvesse feito um pacto com cada um da raça de Adão simplesmente porque ele oferece isso. Ele o oferece livremente, mas exige fé. Assim, a oferta do Pacto não deve ser confundida com o entrar no Pacto. Em segundo lugar, a exigida pelo Pacto de Graça contrasta com a perfeita obediência exigida pelo Pacto de Obras. O perigo é que alguém venha a pensar que essa fé exigida é apenas um tipo diferente de obra necessária, mas a fé necessária não é uma obra, mas, sim, é um dom dado livremente àqueles com os quais o Pacto da Graça é feito. Assim, a fé não é uma obra; é simplesmente uma ação de recepção e de segurança, que serve como o instrumento pelo qual esta aliança incondicional da graça é recebida. Esta questão específica (de que a fé não é uma obra) é tratada com mais detalhes no Capítulo 11, Sobre a Justificação, nos Parágrafos 1 e 3.

 

A Confissão afirma: e prometendo dar a todos os que são ordenados para a vida eterna, o Seu Espírito Santo, para torná-los dispostos e capazes de crer. O Pacto da Graça proporciona aos seus participantes, aqueles que são ordenados para a vida eterna, o que deles é exigido. Essa fé vem pela obra do Espírito Santo, que faz com que aqueles que foram ordenados para a vida eterna sejam dispostos e capacitados a crer, e, assim, eles recebem a vida eterna. Desta forma, é assegurado que cada um dos eleitos irá, de fato receber a vida eterna, sem falhar. Esta é uma verdade gloriosa que se refere também ao chamado eficaz. Como Jesus disse: “Muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos”. Vemos aqui a doutrina da Graça Irresistível (também chamada de Graça Eficaz), que ensina que todos aqueles a quem Deus escolheu Ele chama eficazmente, de tal forma que eles não resistirão à graça eficaz dada pelo Espírito de Deus para vir a Cristo. O fato é que, a menos que o Espírito de Deus mude a natureza do pecador no chamado eficaz por meio da regeneração, nenhuma pessoa jamais possuiria fé e seria salva. Isto é tratado em detalhes no capítulo 10, Sobre o Chamado Eficaz. Vemos esta necessidade do chamado eficaz por toda a Escritura, mas talvez uma das passagens mais claras é Romanos 8:7-8: “Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus”. Assim, Deus envia o Seu Espírito Santo aos eleitos para que eles se tornem participantes pela fé no Pacto da Graça e, assim, recebam a vida eterna. A Confissão fala sobre Eleição no Capítulo 3, Sobre Os Decretos de Deus, Parágrafos 3 a 7.

 

Vemos que o homem não conseguiu cumprir os termos do primeiro Pacto de Obras (e, portanto, não conseguiu obter a recompensa da vida), mas Deus determinou pela Sua graça oferecer livremente outro Pacto, no qual somente os eleitos entrarão a fim de receber a recompensa da vida eterna — uma recompensa baseada não em suas obras, mas baseada em uma outra obediência, ou seja, a obediência de Cristo. Cristo foi perfeitamente  obediente com os termos do Pacto de Obras, e pela fé a Sua obediência é creditada aos eleitos como se fosse a perfeita obediência deles. Essas coisas são gloriosas maravilhas para nós considerarmos!

 

 

3. Esta Aliança é revelada no Evangelho; primeiramente a Adão na promessa de salvação pela semente da mulher5, e depois por etapas sucessivas, até que a sua plena revelação foi completada no Novo Testamento6; e é fundada naquela transação da eterna Aliança que houve entre o Pai e o Filho para a redenção dos eleitos7; e é somente pela graça desta Aliança que todos da caída posteridade de Adão que já foram salvos obtiveram a vida e a bem-aventurada imortalidade, o homem é agora totalmente incapaz de ser aceito por Deus naqueles termos em que Adão permanecia em seu estado de inocência.8 (5 Gênesis 3:15 • 6 Hebreus 1:1 • 7 2 Timóteo 1:9; Tito 1:2 • 8 Hebreus 11:6, 13; Romanos 4:1-2 e etc.; Atos 4:12; João 8:56).

 

Será útil olharmos para a estrutura deste Parágrafo (usando as palavras exatas):

 

I. Esta Aliança [Pacto da Graça] é revelada no Evangelho;
a. primeiramente a Adão na promessa de salvação pela semente da mulher, e
b. depois por etapas sucessivas,
c. até que a sua plena revelação foi completada no Novo Testamento;

II. e [esta Aliança] é fundada naquela transação da eterna Aliança que houve entre o Pai e o Filho para a redenção dos eleitos;

III. e é somente pela graça desta Aliança [Pacto da Graça] que todos da caída posteridade de Adão que já foram salvos obtiveram a vida e a bem-aventurada imortalidade,

 

a. o homem é agora totalmente incapaz de ser aceito por Deus naqueles termos em que Adão permanecia em seu estado de inocência.

 

A Confissão começa este Parágrafo afirmando: Esta Aliança é revelada no Evangelho. “Esta Aliança” nos remete ao Parágrafo segundo o qual falou sobre o Pacto da Graça. O que significa dizer que o Pacto da Graça (“esta Aliança”) é revelada no evangelho? Isso significa que o Pacto da Graça não está separado do Evangelho. Assim, o termo “esta Aliança se revela no Evangelho” não é uma sentença independente, antes ela serve como um condutor para as seções a até c (seção I), assim, isso está dizendo que a aliança da graça que foi revelada no Evangelho, foi revelada primeiramente a Adão na promessa de salvação pela semente da mulher. Podemos notar como indicado no Parágrafo segundo que foi apenas após a Queda e a quebra do Pacto de Obras que o Pacto da Graça foi revelado. Foi revelado na forma de uma promessa de algo por vir: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gênesis 3:15). Ironicamente, Deus está falando com a serpente. É um julgamento sobre a serpente, mas para Adão e Eva é uma promessa de salvação. Assim, o Pacto da Graça é revelado, através das palavras ditas à serpente, a Adão a promessa de que a descendência de Eva ferirá ou esmagará o Diabo, o que implica a salvação do pecado que o engano da serpente trouxe para a criação. A revelação do Pacto da Graça só chega à sua plenitude (conclusão ou ratificação) quando o Alguém prometido realmente cumpre a profecia. Observemos também que foi revelado, em parte para Adão. O que foi dito? 1) Haveria inimizade entre a semente de Eva e Satanás, e 2) Satanás feriria a descendência de Eva, e 3) a descendência de Eva feriria mais severamente a cabeça de Satanás. Talvez existam outras implicações, mas a partir da perspectiva de Adão e de Satanás não muito mais detalhes são dados. O que é revelado é uma promessa sem o seu cumprimento, imediatamente.

 

A Confissão continua: depois por etapas sucessivas. Isso indica que após a revelação a Adão, isso foi apenas parcialmente continuado após ele. Não só continuou depois, mas foi revelado por etapas sucessivas (i.e., etapas crescentes). Enquanto a promessa de Gênesis 3:15 era real, ela também era nebulosa. Assim, Deus graciosamente continuou a acrescentar progressivamente luz a esta revelação nebulosa. Estas novas etapas são encontradas em todo o Antigo Testamento de várias maneiras e várias vezes (1689 1:1).

 

A Confissão chega agora ao último dos três pontos: até que a sua plena revelação foi completada no Novo Testamento. A revelação começou com Adão; a revelação continuou depois de Adão, por meio de etapas sucessivas, mas foi plenamente revelada (i.e., completamente manifestada), até que foi concluída (cumprida) no Novo Testamento. A plena revelação (i.e., a revelação integral e completa) do prometido Pacto da Graça só foi concluída por e em Cristo. Ao chegar a plenitude dos tempos, o mistério oculto foi revelado; então nós soubemos Quem a descendência de Eva era, à medida que Satanás feriu Jesus (a morte de Jesus), e Jesus destruiu a obra de Satanás. Estes detalhes foram dados em sombras e tipos, e enquanto a revelação dada depois de Adão tornou-se mais detalhada com o passar do tempo, no entanto, esta revelação não foi concluída até que no Novo Testamento (i.e., o cânon do Novo Pacto) a revelação foi plenamente manifestada. Mas não foi apenas esta revelação que foi cumprida, mas a obra de Cristo, da qual fala Gênesis 3:15 e todo o Antigo Testamento também foi cumprida. Existem várias passagens do Novo Testamento sobre a compleição de sua revelação e obra. “…tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra” (Efésios 1:10). E, “Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gálatas 4:4). E “em esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes dos tempos dos séculos; mas a seu tempo manifestou a sua palavra pela pregação que me foi confiada segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador” (Tito 1: 2-3).

 

A seção que nós abordamos justamente no Parágrafo segundo é uma seção chave onde Batistas Particulares e Presbiterianos discordam. A fim de permanecer dentro do âmbito deste comentário para leigos, esses detalhes não serão tratados, mas existem alguns livros muito bons que tratam deste tópico importante10. Posso dizer que há um contraste marcante entre a Teologia do Pacto dos Batistas Particulares e a dos Presbiterianos, embora existam áreas de convergência. Estas diferenças são muito relevantes para a posição do Batismo por Batistas Particulares (Credobatismo) e os Presbiterianos (Pedobatismo), há também outras ramificações importantes e relevantes.

 

A Confissão continua: e é fundada naquela transação da eterna Aliança que houve entre o Pai e o Filho para a redenção dos eleitos. “E é fundada” refere-se à Aliança ou Pacto da Graça. Antes deste Pacto da Graça havia outro Pacto feito na eternidade. A confissão se refere a ele como a “transação da eterna Aliança” entre o Pai e o Filho. Teólogos muitas vezes chamam este pacto de o Pacto da Redenção, ou o Conselho de Redenção. Berkhof define a transação deste pacto como “o acordo entre o Pai, dando o Filho como Cabeça e Redentor dos eleitos, e o Filho, voluntariamente tomando o lugar daqueles a Quem o Pai lhe tinha dado”11. A Confissão inclui quatro aspectos desta transação do pacto: 1) É a base para o Pacto da Graça. 2) É um Pacto feito na eternidade. 3) É uma transação entre o Pai e o Filho, e 4) Foi um acordo para a redenção dos eleitos. Shedd ressalta um ponto importante: “O Pacto da Graça e da Redenção são dois modos ou fases de um Pacto evangélico da misericórdia”12. O Pacto da Redenção vem logicamente antes do Pacto da Graça, pois é o acordo prévio, mas ambos juntos realizam a redenção dos eleitos. O Pacto da Redenção é entre o Pai e o Filho, enquanto o Pacto da Graça é entre o Pai e os eleitos. Do ponto de vista de Cristo, o Pacto da Redenção foi uma transação voluntária, acordado ou contratado com o Pai por Cristo que cumpriria os termos do Pacto de Obras em nome e lugar dos eleitos. Os eleitos, então, têm creditada a si mesmos a perfeita obediência de Cristo, por meio do Pacto da Graça.

 

A Confissão de 1689, afirma: e é somente pela graça desta Aliança que todos da caída posteridade de Adão que já foram salvos obtiveram a vida e a bem-aventurada imortalidade. “Desta Aliança” refere-se ao Pacto da Graça e não à transação da Aliança Eterna. O ponto aqui é muito forte. Adão e Eva e sua posteridade não puderam ser salvos por qualquer outra Aliança. Isso nos leva de volta à recompensa da vida que foi oferecida pelo Pacto de Obras, porém, desde que Adão não conseguiu obter a recompensa da vida por esse Pacto, outro foi necessário, e, portanto, Deus livre e graciosamente proveu uma outra aliança — que garantiu a Adão e ao resto dos eleitos esta recompensa da vida (vida e bem-aventurada imortalidade).

 

Por que é que Adão e Eva só poderiam ter ido salvos através da dádiva da vida e bem-aventurada imortalidade por meio do Pacto da Graça? Porque o homem é agora totalmente incapaz de ser aceito por Deus naqueles termos em que Adão permanecia em seu estado de inocência. A incapacidade é a inabilidade do homem para cumprir os termos do Pacto de Obras. Após a Queda, o homem foi deixado em um estado lamentável. O homem perdeu a justiça original (seu estado de inocência), e em vez disso teve sua natureza corrompida pela injustiça. A Confissão reconhece que estaríamos condenados se não fosse o Pacto da Graça. Isto muito bem nos leva para o próximo Capítulo que trata sobre a única esperança para o pecador a qual é Cristo, o Mediador de um melhor pacto, o Pacto da Graça! Hebreus nos diz: “Mas agora alcançou ele ministério tanto mais excelente, quanto é mediador de uma melhor aliança que está confirmada em melhores promessas. Porque, se aquela primeira fora irrepreensível, nunca se teria buscado lugar para a segunda” (Hebreus 8:6-7). Na verdade, olhamos com gratidão para o Segundo Pacto, a Nova Aliança, a Aliança consumada da graça revelada no Evangelho.

 

 


* Para ler o Primeiro Capitulo e a Introdução deste Comentário acesse oEstandarteDeCristo.com.

[1] A. A. Hodge, The Westminster Confession: A Commentary [A Confissão de Westminster: Um Comentário] (1869; reimpresso, Carlisle, Pa.: Banner of Truth Trust, 2002), 121.

[2] Ibid.

[3] Michael J. Kruger, Canon Revisited: Establishing the Origins and authority of the New Testament Books [Cânon Revisitado: Estabelecendo as Origens e Autoridade dos Livros do Novo Testamento] (Wheaton, Crossway: 2012), 163.

[4] R. C. Sproul, Truths We Confess: A Layman’s Guide to the Westminster Confession of Faith [Verdades Que Nós Confessamos: Guia De Um Leigo para a Confissão de Fé de Westminster], vol. I, The Triune God [O Deus Triuno] (Phillipsburg, Nj.: P&R Publishing, 2006), 205. A Título de lembrete, este comentário de R. C. Sproul está escrito na Confissão de Westminster, e não Confissão de 1689. A excelente obra de Sproul é útil para o estudo da Confissão Batista onde a Confissão de 1689 e a Confissão de Westminster são paralelas. Confissão de 1689 excluiu a seção II da Confissão de Westminster e da Declaração de Savoy. Isto era o que a CFW e DS afirmavam em sua seção II: “A primeira aliança feita com o homem era uma Aliança de Obras, pela qual a vida eterna era prometida a Adão, e nele para a sua posteridade, sob a condição de obediência perfeita e pessoal”. [Para saber mais sobre as semelhanças e diferenças entre a Confissão de 1689, a Confissão de Westminster e a Declaração de Savoy, veja Comparação Tabular Entre as Três Confissões da Fé Reformada e Puritana: CFW + DFOS + CFB1689].

[5] Lane Tipton. Reformed Forum Conference: Theology 2014, Pre-Conference Discussion [Fórum da Conferência Reformada: Teologia 2014, Discussão Pré-Conferência]. Transcrevi esta declaração, no entanto, fiz alguns pequenos ajustes feitos em prol da melhor legibilidade.

[6] Joel R. Beeke e Mark Jones, A Puritan Theology: Doctrine for Life [Teologia Puritana: Doutrina para a Vida], Edição Kindle (Grand Rapids: Reformation Heritage Books, 2012). Para uma discussão completa leia localização 8840-8903.

[7] A frase “cabeça federal” significa que alguém, neste caso, Adão, representa toda a humanidade. Assim foi feito o Pacto das Obras, não só com Adão, mas com toda a sua posteridade. Os termos dados a Adão naquele Pacto também foram dados a toda a humanidade em Adão (Romanos 5:12-21). Aqueles que estão no Pacto da Graça têm por sua cabeça federal a Cristo, e não Adão.

[8] O Parágrafo segundo da Confissão de Westminster e da Declaração de Savoy foram completamente removidos da Confissão de 1689. Isso provavelmente tem a ver com uma combinação da economia de palavras, e a reorganização deste Capítulo para adaptá-lo à perspectiva Batista Particular sobre a Teologia do Pacto. Alguns têm especulado que a supressão dos termos “do pacto de obras” representa a rejeição Batista deste, mas isso não é correto pois ele é mencionado em outras partes da Confissão, e ainda está implícito e assumido aqui no capítulo 7. O conceito está presente no Capítulo 7, mesmo que a terminologia precisa não esteja. Este é um aspecto importante da Teologia do Pacto Batista Particular, embora existam algumas diferenças na forma como os Presbiterianos e Batistas Particulares o abordam em algumas áreas.

[9] Pascal Denault, The Distinctiveness of Baptist Covenant Theology: A Comparison Between Seventeenth-century Particular Baptist and Paedobaptist Federalism [Os Distintivos Batistas da Teologia do Pacto: Uma Comparação Entre o Federalismo dos Batistas Particulares e dos Pedobatistas do Século Dezessete] (Birmingham, Al.: Solid Ground Christian Books, 2013).

[10] Eu acho que um excelente ponto de partida é a obra de Pascal Denault, Os Distintivos Batistas da Teologia do Pacto: Uma Comparação Entre o Federalismo dos Batistas Particulares e dos Pedobatistas do Século Dezessete (Birmingham, Al.: Solid Ground Christian Books, 2013), pg. 56.

[11] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, contendo o texto integral da Teologia Sistemática (1932) e o volume introdutório original para a Teologia Sistemática (1938), e novo prefácio de Richard A. Muller (Grand Rapids e Cambridge: Eerdmans, 1996), 271.

[12] Shedd, Teologia Dogmática II, 360. Citado por Louis Berkhof, Teologia Sistemática, contendo o texto integral da Teologia Sistemática (1932) e o volume introdutório original para a Teologia Sistemática (1938), e novo prefácio de Richard A. Muller (Grand Rapids e Cambridge: Eerdmans, 1996), 265.
 

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