Um Espinho na Carne, por R. M. M’Cheyne

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“E, para que não me exaltasse pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de não me exaltar. Acerca do qual três vezes orei ao Senhor para que se desviasse de mim. E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte.” (2 Coríntios 12:7-10)

 

O que está contido nessa passagem? I. O maravilhoso privilégio de Paulo, a saber, ser arrebatado ao terceiro céu, e ao paraíso, teve um dia de antecipação da glória; viu e ouviu coisas maravilhosas. II. A humilhante visitação de Paulo: um espinho na carne. Ele esteve no mundo dos espíritos, onde não há pecado; agora ele foi levado a sentir que ele tinha um corpo de pecado, a clamar: “Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?” [Romanos 7:24]. Ele esteve entre os habitantes do céu; agora a alguém do inferno é permitido esbofeteá-lo. III. Sua conduta sob isso: perseverante oração fervorosa. “Acerca do qual (assinalando a sua seriedade) três vezes orei”, nenhuma resposta havia ainda sido dada e ele continuava a orar. Antes, ele estava mais envolvido em louvar, ou pensando em contar aos outros; agora ele é trazido a clamar por sua própria alma, para que ele não seja um reprovado. A resposta: “A minha graça te basta”. Deus não arranca o espinho, não dirige o diabo de volta para o inferno; não o leva para fora do corpo. Não; mas Ele abre seu próprio seio, e diz: “Veja, aqui há graça suficiente para você; aqui há força que sustentará o mais fraco”. IV. A resolução de Paulo: seguir o seu caminho glorificando a Deus em suas enfermidades. Ele está contente em ter fraquezas, em ter um corpo de pecado, a fim de que Cristo seja glorificado ao sustentar um vaso tão fraco. Que o poder de Cristo habite continuamente em minha alma; que a Sua forte mão tenha alguém para sustentar para o Seu próprio louvor. Tenho prazer em todas as dispensações humilhantes; pois elas me ensinam que eu não tenho força, e então, eu sou mais forte.

 

 

I. O maravilhoso privilégio de Paulo.

 

Ele tinha obtido uma antecipação da glória dos céus. Esta viveu um período maravilhosa para a sua alma. Ele foi arrebatado ao terceiro Céu, ou ao Paraíso. Ele foi levado para a casa do Pai, com muitas moradas. Ele foi levado para estar com Jesus e o ladrão salvo no Paraíso. Ele não poderia dizer muito sobre como isso ocorreu, se ele estava no corpo ou fora do corpo, ele não poderia dizer. As palavras que ouviu, as palavras do Pai, as palavras de Jesus, as canções dos redimidos e dos santos anjos, eram inefáveis. Ainda assim, ele nunca poderia esquecer aquele dia. Quatorze anos se passaram sobre a sua cabeça, e isso ainda estava fresco em sua lembrança. As visões que viu, as palavras que ouviu, ele jamais esqueceria. Este foi exatamente um dia de glória, uma antecipação do céu.

 

Queridos crentes, vocês também têm privilégios maravilhosos. Vocês também têm as suas antecipações do céu. Vocês podem não ter as visões milagrosas do paraíso que Paulo fala aqui; ainda assim, vocês provaram a própria alegria que está nos Céus; beberam do próprio rio dos deleites de Deus. Se vocês conhecem o Senhor Jesus, vocês sabem quem é a Pérola do Céu, o Sol e o Centro dele. Se vocês têm o sorriso do Pai, vocês têm a própria alegria do Céu. Acima de tudo, se vocês têm o Espírito Santo que habita em vocês, têm também a garantia da herança. Em tais dias, como na última comunhão de Sabath, as alegrias de um Cristão não são inefáveis e cheias de glória? “Ao qual, não o havendo visto, amais”. Não devem tais dias ser lembrados? Mesmo quatorze anos depois, quando muitos terão ido para a mesa acima, alguns olharão para trás, para o Sabath passado, como um dia vivido em Seus átrios, melhor do que mil dias. Para aqueles de vocês que não obtêm nenhuma alegria em tais ocasiões, nada podemos dizer, senão que vocês não teriam nenhuma alegria no Céu! Se vocês não estão contentes à mesa aqui de baixo, vocês nunca, eu temo, estarão felizes à mesa de acima.

 

 

II. A humilhante visitação de Paulo. “E, para que não me exaltasse pela excelência das revelações, foi-me dado um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás para me esbofetear, a fim de não me exaltar” (v. 7).

 

1. O que foi dado a ele.

 

O espinho na carne que se fala aqui é entendido de formas diferentes pelos intérpretes. (1) Alguns entendem que possa ter sido uma doença física; algumas fortes dores lancinantes dadas a ele. A dor e a doença são muito humilhantes. Eles são frequentemente usados por Deus para humilhar o espírito altivo do homem. (2) Alguns entendem por isso, alguma tentação notável para o pecado imediatamente a partir da mão do diabo. Um mensageiro de Satanás, que era como um espinho em sua alma. (3) Alguns entendem que possa ter sido algum pecado persistente, alguma parte do seu corpo de pecado do qual ele se queixa tão dolorosamente (Romanos 7). Alguns desejos de seu velho homem despertados à atividade por um mensageiro de Satanás. Parece mais provável que este era o espinho que o fazia gemer.

 

O que quer que fosse, uma coisa é clara: foi uma visita verdadeiramente humilhante. Ela levou Paulo ao pó. Um pouco antes, ele havia estado no mundo sem pecado, não sentia o corpo do pecado, viu os espíritos puros diante do trono, e os espíritos aperfeiçoados dos homens justos; agora, ele é levado para baixo para sentir que ele tem um corpo de pecado e morte, que ele tem um espinho na carne. Um pouco antes, ele estava entre os santos anjos, pisoteando o inferno e a sepultura debaixo de seus pés; agora, um mensageiro do inferno é enviado para lhe esbofetear. “Miserável homem que sou!”.

 

Pergunta. Por que este espinho foi dado a ele?

 

Resposta. Para que ele não se exaltasse acima da medida. Isto é indicado por duas vezes. Que coisa singular é o orgulho! Quem teria pensado que o arrebatamento de Paulo ao Paraíso algum dia o teria tornado orgulhoso? E ainda assim, Deus, que conhecia o seu coração, sabia que seria assim, e por isso o trouxe para baixo ao pó. O orgulho da natureza é assombroso. Um homem natural é orgulhoso de nada. Orgulhoso de sua pessoa, embora ele não tenha feito, ainda assim, ele é orgulhoso de sua aparência. Orgulhoso de sua veste, embora uma tora de madeira pudesse ter a mesma causa de orgulho, se você colocasse roupa nela. Orgulhoso de riquezas, como se houvesse algum mérito em ter mais ouro do que outros. Orgulhoso quanto à classe, como se houvesse algum mérito em ter sangue nobre. Ai! O orgulho corre nas veias; no entanto, há um orgulho mais assombroso do que o natural: o orgulho da graça. Você pensaria que um homem nunca poderia estar orgulhoso, pelo fato de uma vez ter estado perdido, contudo isso, infelizmente, acontece! A Escritura e a experiência mostram que um homem pode orgulhar-se de sua medida de graça; orgulhar-se do perdão; orgulhar-se da humildade; orgulhar-se de saber mais sobre Deus do que os outros. Foi isso o que foi surgindo no coração de Paulo, quando Deus lhe enviou o espinho na carne.

 

Caros amigos, alguns de vocês no último dia do Senhor foram trazidos para muito perto de Deus, e cheios de alegria indizível e cheia de glória. Alguns, eu estou bem certo, tiveram, desde então, a humilhante experiência de Paulo. Vocês pensaram que estavam para sempre longe do pecado, mas um espinho na carne vos trouxe para baixo. Vocês caíram em pecado durante a semana; ou algo assim vos trouxe para baixo, em verdade. “Miserável homem que sou!”. Por que vocês caíram assim após um período de comunhão?

 

1. Para torna-los humildes. Para ensinar-lhes que vermes vis vocês são; quando vocês podem ir à mesa do Senhor, e ainda cair tão baixo, isto pode muito bem ensinar-lhes que vocês são vis. Vocês pensaram, talvez, que o pecado estava purificado, mas aqui vocês o veem novamente. Oh! que necessidade constante vocês têm do sangue de Jesus!

 

2. Para fazê-los anelar pelo Céu. Lá não haverá mais pecado, para sempre. Nada, senão santidade haverá ali. Nada impuro pode entrar. Progridam para isso! Não se sentem pelo caminho. Olhem adiante, para a glória.

 

 

III. O remédio de Paulo: a oração.

 

Aqui está a diferença entre um homem natural e um filho de Deus. Ambos têm o espinho na carne; mas um homem natural está contente com ele. Suas concupiscências não o envergonham e nem o incomodam. Um filho de Deus não pode descansar sob o poder da tentação. Ele voa para os joelhos. No momento em que Paulo sentiu as bofetadas do mensageiro de Satanás, ele caiu de joelhos, orando ao Pai para levá-lo para longe dele. Nenhuma resposta veio. Mais uma vez ele vai ao trono da graça. Novamente, nenhuma resposta. Uma terceira vez ele cai de joelhos, e não O deixou ir sem a bênção. A resposta vem: “A minha graça te basta”. Não foi o que ele pediu. Ele suplicou: “Arranque esse espinho”. Deus não arranca o espinho de sua carne, não conduz o mensageiro de Satanás de volta para o inferno. Ele poderia ter feito isso, mas Ele não o faz. Ele abre o seu próprio coração, e diz: “Aprouve a Deus que em Mim habitasse toda a plenitude: ‘a minha graça te basta’”. Aqui está o Espírito Santo para cada necessidade de tua alma. Oh! que suprimento, então, Paulo viu em Cristo! Que riqueza insondável! Ele tinha visto muito no terceiro Céu, mas aqui estava algo maior, um Espírito todo-poderoso ministrando às necessidades de pobres fracos pecadores.

 

Queridos amigos, vocês já encontraram este remédio da alma tentada?

 

1. Vocês foram conduzidas aos joelhos pela tentação? Eu disse, que a semana anterior à Comunhão deve ser uma semana de oração; mas se vocês já tivessem a experiência de Paulo, a semana seguinte também teria sido uma semana de oração.

 

2. Ó alma tentada! Seja importuna, não se abata por alguma recusa. Homens devem orar sempre, e nunca desfalecer. Seja como a viúva persistente, como a mulher Cananéia. Se você se acomodar com o pecado, você pode muito bem temer que não haja graça em você.

 

3. Tome a resposta de Paulo. Deus pode não arrancar o espinho. Este é o mundo de espinhos. Mas olhe para o Seu seio. Há o suficiente em Jesus para preservar a sua alma. O oceano é cheio de gotas, mas o coração de Cristo é mais cheio de graça. Oh! ore para que seus desejos sejam tirados, ou para que você possa confiar na graça que há em Cristo Jesus.

 

 

IV. A determinação de Paulo. “E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte” (2 Coríntios 12:9-10).

 

“De boa vontade”. Quando Paulo foi arrebatado ao Paraíso ele pensou que nunca mais sentiria seu corpo de pecado, mas quando ele foi humilhado e levado a conhecer-se melhor, e conhecer a graça que há em Cristo, então a sua glória para sempre se fora; ele viu que tinha um frágil corpo de pecado e de morte, e que havia poder suficiente em Cristo para guardá-lo de cair. A partir daquele dia ele não se gloriou de que ele não tinha pecado em si, mas que ele tinha um Salvador onipotente habitando nele e sustentando-o. Agora, ele se deleitava em tudo o que lhe fizesse sentir a sua fraqueza; pois isso o levava a Jesus, a busca Sua força.

 

Aprendam, queridos irmãos, a verdadeira glória de um Cristão neste mundo. O mundo não conhece nada disso. Um verdadeiro Cristão tem um corpo de pecado. Ele tem toda a luxúria e corrupção que há no coração do homem ou do diabo. Contudo, ele não deseja nenhuma tendência ao pecado. Se o Senhor deu-lhes luz, vocês conhecem e sentem isso.

 

Qual é a diferença, então, entre vocês e o mundo? Infinita! Vocês estão nas mãos de Cristo. Seu Espírito está dentro de vocês. Ele é capaz de guardá-los de cair. “Alegrai-vos no Senhor, e regozijai-vos, vós os justos; e cantai alegremente, todos vós que sois retos de coração” [Salmos 32:11].

 

São Pedro, 26 de abril de 1840.
 

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