A Igreja de Jesus Cristo: Esboço do Capítulo 26 – Sobre a Igreja – da Segunda Confissão de Fé de Londres de 1689

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Introdução:

Há dois problemas que afligem muito a igreja de Jesus Cristo no mundo de hoje. Primeiro, a generalizada falta de vitalidade espiritual que caracteriza muitas congregações. Embora existam exceções óbvias, o liberalismo, o humanismo, o modernismo e o pós-modernismo desempenharam o seu papel ao serviço dos nossos arqui-inimigos declarados: o mundo, a carne e o diabo.

Além da falta de espiritualidade há o baixo conceito que muitos hoje em dia entretêm a respeito da igreja de Cristo. Isto é verdade não só do mundo em geral (o que já é esperado), mas também dos Cristãos professos. Muitas organizações paraeclesiásticas despertam mais o respeito e a lealdade dos Cristãos do que a igreja. A adesão à Igreja é cada vez mais considerada irrelevante, se não totalmente antibíblica. Muitos Cristãos pensam que podem seguir fielmente a Cristo por conta própria ou ao mesmo tempo estarem apenas tangencialmente associados a uma igreja.

Diante dessas realidades, a necessidade de reexaminar o que a Escritura ensina sobre o papel da igreja é de vital importância. Um guia útil nesse processo é o capítulo 26 da Segunda Confissão de Fé de Londres.

Os primeiros quatro parágrafos deste capítulo descrevem a igreja de Jesus Cristo através da história e em todo o mundo. Depois de afirmar o que o Novo Testamento ensina sobre a igreja universal, a confissão desloca seu foco para as expressões locais do corpo de Cristo que são comumente chamadas de igrejas locais. A maior parte do capítulo (onze parágrafos) é dada a este assunto, o que é muito apropriado, uma vez que a maior parte do ensino do Novo Testamento se centra na igreja local.

A doutrina da igreja local pode ser considerada sob cinco grandes categorias de ensino do Novo Testamento.

I. A Origem de uma Igreja Local (parágrafo 5):

Na execução deste poder com que Ele é assim confiado, o Senhor Jesus chama do mundo para Ele mesmo, através do ministério de Sua Palavra, por meio de Seu Espírito, aqueles que são dados a Ele por Seu Pai, para que eles possam andar diante dEle em todos os caminhos da obediência, os quais Ele prescreveu em Sua Palavra. Àqueles que assim são chamados, Ele ordena que andem juntos, em comunidades particulares, ou igrejas, para a sua mútua edificação, e para a devida realização do culto público, que Ele requer deles, no mundo (João 10:16, 12:32; Mateus 28:20, 28:15-20).

A. Jesus Cristo é o único “plantador de igrejas”

1. Ele chama as pessoas de “fora do mundo” para Si mesmo (João 10:16).

a. Este é o chamado à salvação.

b. Ele faz isso por meio de Sua Palavra e Espírito (através da proclamação do Seu Evangelho, isto é, o chamado eficaz (veja o capítulo 10 da Confissão).

2. Ele chama os eleitos (“aqueles que são dados a Ele por Seu Pai”) a uma vida de obediência. Mateus 28:20: “ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho ordenado”.

3. Ele ordena que os crentes vivam juntos em igrejas locais (“comunidades particulares”).

a. Este (uma igreja local) é o contexto em que os crentes devem ser ensinados a “observar…”.

b. Mateus 18:15-20 — Jesus instrui uma igreja local sobre como corrigir um membro impenitente.

c. Este entendimento é demonstrado pelo trabalho dos apóstolos no Livro de Atos.

1) Eles pregaram; reuniram convertidos em igrejas — Atos 17: 3, 4; 1Tessalonicenses 1:1.

2) Eles nomearam líderes nas igrejas para cumprirem o ministério de ensino — Atos 15:3,4,22; 1Tessalonicenses 4:12

B. A igreja local é indispensável para a grande comissão — Os crentes não podem ser ensinados a observar tudo o que Cristo ordenou fora de um contexto de fidelidade a uma igreja local.

II. A Composição de uma Igreja Local (parágrafo 6):

Os membros dessas igrejas são santos por chamamento, manifestando visivelmente e evidenciando (na e pela sua profissão e caminhar) a sua obediência a esse chamado de Cristo; e voluntariamente consentem em caminhar juntos de acordo com a designação de Cristo, entregando-se a si mesmos ao Senhor, e uns aos outros, pela vontade de Deus em sujeição às ordenanças do Evangelho (Romanos 1:17; 1Coríntios 1:2; Atos 2:41, 42, 5:13-14; 2Coríntios 9:13).

A. Os membros devem ser convertidos — “santos por chamamento”

1. Discípulos; aqueles que receberam o Evangelho.

2. Batizados — evidência de seu discipulado, entregando-se ao Senhor pela vontade de Deus “em sujeição às ordenanças do Evangelho”.

B. Os membros voluntariamente se unem — “voluntariamente consentem em caminhar juntos”.

1. Não por ordem estatal.

2. Não por hereditariedade (ou seja, linhagens).

C. Os membros fazem aliança — “entregando-se a si mesmos ao Senhor, e uns aos outros…”.

1. Compromisso mútuo entre si.

2. Concordam em servir ao Senhor juntos — Atos 2:41-42 exemplifica este espírito e compromisso (veja Atos 4: 33-35)

III. A Autoridade de uma Igreja Local (parágrafo 7):

Para cada uma dessas igrejas assim reunidas, de acordo com Sua mente declarada em Sua Palavra, Ele tem dado todo aquele poder e autoridade, que é em toda forma necessário para a sua realização naquela ordem no culto e disciplina, que Ele instituiu para que eles observem, com ordens e regras para o devido e correto exercício e execução desse poder (Mateus 28:17,18; 1Coríntios 5:4,5, 5:13; 2Coríntios 2:6-8).

A. Jesus Cristo investe Sua própria autoridade em uma igreja devidamente organizada e biblicamente ordenada. Isto é visto em Mateus 18:18-20; 1Coríntios 5:1-13 (especialmente vv. 4-5).

B. Cada igreja local é autônoma e independente — As igrejas na Ásia Menor (Apocalipse 2-3) demonstram isso. Cristo as exorta sobre a disciplina, mas Ele não sugere que todo o grupo de igrejas é responsável pelos casos disciplinares de cada uma delas.

C. Cada igreja é responsável por seguir as regras de Cristo ao exercer esta autoridade.

APLICAÇÃO: O fato de Jesus ter investido a Sua própria autoridade em uma igreja biblicamente ordenada deve fazer com que Seus discípulos tenham grande respeito e consideração pela igreja. Aqueles que rejeitam o ensino e a autoridade de tal igreja estão rejeitando o ensino e a autoridade de Jesus Cristo.

IV. O Governo de uma Igreja Local (parágrafos 8-13)

A. A composição básica de uma igreja consiste em oficiais e membros (8-9):

Uma igreja local, reunida e completamente organizada de acordo com a mente de Cristo, consiste em oficiais e membros; e os oficiais designados por Cristo a serem escolhidos e consagrados pela igreja (assim chamada e congregada), são os anciãos (ou bispos) e os diáconos, para a peculiar administração das Ordenanças e execução de poder ou dever, que Ele confiou a eles, ou para o que os chamou; o que deve ser continuado até o fim do mundo (Atos 20:17,28; Filipenses 1:1).

O caminho apontado por Cristo para o chamamento de qualquer pessoa, capacitada e dotada pelo Espírito Santo, para o ofício de bispo ou ancião em uma igreja, é que ele seja escolhido para isso pelo sufrágio comum da própria igreja e solenemente separado por jejum e oração, com a imposição das mãos do presbitério da igreja, se houver algum nela anteriormente constituído. E de um diácono, que ele seja escolhido por semelhante sufrágio, e separado por meio de oração, e semelhante imposição de mãos (Atos 14:23; 1Timóteo 4:14; Atos 6:3,5,6).

1. Os membros, como já observado, devem ser convertidos, crentes batizados e que pactuam entre si.

2. Oficiais.

a. Quem são eles? — “anciãos (ou bispos) e diáconos” — Somente dois ofícios ordinários e ativos.

• Filipenses 1:1.

• 1Timóteo 3:1-13.

B. Como um membro se torna oficial?

• “O caminho designado por Cristo” — como os oficiais devem ser reconhecidos.

1) Um homem deve ser “capacitado e dotado pelo Espírito Santo”.

a. Ele precisa cumprir as qualificações de caráter descritas em 1Timóteo 3:1-7, Tito 1:5-11, etc. para um ancião e Atos 6:1-6 e 1Timóteo 3:8-13 para um diácono.

B. Ele deve ter habilidade reconhecida — reconhecido pela igreja.

2) Um homem deve ser “escolhido e separado pela igreja”, esta é uma decisão congregacional.

• O processo geral a ser seguido é dado no parágrafo 9.

APLICAÇÃO: A Confissão enfatiza dois fatores no reconhecimento e convocação de anciãos (bispos) e diáconos. Deve haver um chamado interno e um chamado externo. O chamado interno é aquele senso dentro de um homem de que o Senhor o dotou para servir como um oficial e lhe concedeu um “desejo” pela obra (1Timóteo 3:1). Mero desejo não é suficiente, mas sim o desejo unido com dons e a percepção de atender às qualificações de caráter de uma forma realista.

Além do chamado interno, há um chamado externo, indicado na Confissão como um “sufrágio comum da própria igreja”. Em outras palavras, um homem não deve ser imposto à congregação como um oficial, nem deve impor a si mesmo.

B. O meio básico de governar a igreja é o ministério da Palavra (parágrafos 10-11).

A igreja deve ser governada pela Palavra de Deus. A responsabilidade de seus oficiais é fazer com que o ministério da Palavra prossiga. Isso é demonstrado em Atos 6:1-4, onde a finalidade dos primeiros diáconos é expressa em termos de proteger o ministério da Palavra.

• Tal ministério da Palavra deve ser cumprido pelo que Sam Waldron chama de ministério “oficial” e “auxiliar” da Palavra na igreja.

1. O ministério oficial da Palavra é conduzido pelos pastores (parágrafo 10):

O trabalho dos pastores é atender constantemente ao serviço de Cristo, em Suas igrejas, no ministério da Palavra e oração, com a assistência às suas almas, como quem deve prestar contas a Ele; cabe às igrejas a quem eles ministram, não somente conceder-lhes o devido respeito, mas também comunicá-los em todas as suas boas coisas, de acordo com sua capacidade, de modo que eles possam ter um suprimento confortável, sem serem enredados em assuntos seculares; e também sejam capazes de exercer hospitalidade para com os outros; e isto é exigido pela lei da natureza, e por ordem expressa de nosso Senhor Jesus, que para isso ordenou que os que pregam o Evangelho, vivam do Evangelho (Atos 6:4; Hebreus 13:17; 1Timóteo 5:17-18; Gálatas 6:6-7; 2Timóteo 2:4; 1Timóteo 3:2; 1Coríntios 9:6-14).

a. Os pastores são chamados a realizar este ministério constantemente.

b. As igrejas são chamadas a apoiar financeiramente os seus pastores “de acordo com sua capacidade” —1Timóteo 5:17-18.

2. O ministério auxiliar da Palavra é conduzido por outros homens capazes (parágrafo 11):

Apesar de ser a incumbência dos bispos ou pastores das igrejas serem diligentes em pregar a Palavra, em virtude de seu ofício; ainda assim, o trabalho de pregar a Palavra não é tão exclusivamente limitado a eles, mas aqueles outros também dotados e capacitados pelo Espírito Santo para isso, e aprovados e chamados pela igreja, podem e devem realizá-lo (Atos 11:19-21; 1Pedro 4:10-11).

APLICAÇÃO: Isto significa que, sob a supervisão geral dos anciãos, outros homens além dos anciãos/pastores também podem pregar e ensinar na igreja.

C. O alcance do governo da igreja estende-se até a sua composição (parágrafo 12):

Como todos os crentes são obrigados a unirem-se às igrejas locais, quando e onde eles tiverem a oportunidade de assim fazê-lo, então todos os que são admitidos aos privilégios de uma igreja, também estão sob a disciplina e governo desta, de acordo com a regra de Cristo (1Tessalonicenses 5:14; 2Tessalonicenses 3:6,14,15).

• O ponto básico é que a disciplina da igreja se estende a todos os membros da igreja e todos os problemas da igreja.

APLICAÇÃO: Todo Cristão deve se submeter à supervisão de uma igreja local como parte do discipulado. É “de acordo com a regra de Cristo” que os Cristãos estejam unidos a — e submetidos a — uma igreja local.

ILUSTRAÇÃO: Um excelente livro que trata deste ponto é Church Membership [Membresia da Igreja] (Crossway, 9Marks imprint), por Jonathan Leeman. Leeman compara o relacionamento de um Cristão com uma igreja local como o do cidadão a uma embaixada em uma terra estrangeira. A embaixada é uma agência da cidade natal e o cidadão deve se relacionar com as autoridades na embaixada como representantes das autoridades devidamente nomeadas de sua pátria. Assim, a adesão à igreja não é se juntar como alguém se juntaria a um clube ou sociedade, mas se submeter como se fosse um cidadão de um novo país.

D. Todo membro deve estimar muito a igreja e seu governo (parágrafo 13):

Nenhum membro deve perturbar qualquer ordem ou abster-se das assembleias da igreja, ou administração de qualquer das ordenanças, por causa de qualquer ofensa recebida por ele, tendo realizado o seu dever requerido em relação às pessoas com quem ele está ofendido sobre a consideração de tal ofensa a qualquer um de seus membros companheiros, mas deve esperar em Cristo, e deixar que o seu caso seja resolvido pela disciplina da igreja (Mateus 28:15-17; Efésios 4:2-3).

1. Nenhum Cristão deve perturbar voluntariamente a paz e a unidade da igreja quando surgem problemas.

2. Cada Cristão — membro da igreja — deve reconhecer a importância da igreja e a seriedade de perturbar a sua paz.

3. Em vez de buscarem vindicar a si mesmos, mesmo quando forem ofendidos, os membros da igreja devem esperar em Cristo para a resolução da questão.

a. Ele é o Cabeça da igreja.

b. Ele vindicará a Sua causa e o Seu povo.

c. Ele governa os anciãos.

d. Não se esqueça da presença do Cristo ressurreto na igreja. Portanto, siga as Suas regras e espere pacientemente nEle; exercite a fé!

APLICAÇÃO: Esta seção destaca a seriedade de cisma, divisão em uma igreja. Muitas vezes, membros ofendidos da igreja consideram a sua dor como uma justificativa para deixar a igreja ou para iniciarem uma campanha para reunir apoiadores contra a parte ofensora. Isso é contrário à Palavra de Deus e ao Espírito de Cristo.

V. A comunhão das igrejas locais entre si (parágrafos 14-15):

Posto que cada igreja, e todos os seus membros, devem orar continuamente pelo bem e prosperidade de todas as igrejas de Cristo, em todos os lugares; todos devem, em todas as ocasiões, promover isso, exercendo as suas posições e chamados, no exercício de seus dons e graças. Deste modo, as igrejas, quando, pela providência de Deus, são estabelecidas próximas umas das outras, devem aproveitar a oportunidade e benefício disto, mantendo comunhão entre si, para a sua paz, crescimento em amor e edificação mútua (Efésios 6:18; Salmo 122:6; Romanos 16:1-2; 3João 8-10).

A. As igrejas devem orar umas pelas outras (“devem orar continuamente pelo bem e prosperidade de todas as igrejas de Cristo”).

1. Este é um antídoto útil contra o orgulho e o sectarismo.

2. É instrutivo que os membros da igreja ouçam outras congregações orarem nominalmente por elas.

3. Isso comunica aos incrédulos uma unidade — pelo menos em algum nível — que cada igreja do Senhor Jesus tem com todas as outras igrejas.

B. Igrejas e Cristãos individuais devem encorajar uns aos outros.

C. As igrejas, quando plantadas em regiões onde têm oportunidade de “manter a comunhão” com outras igrejas, deveriam fazê-lo — companheirismo e cooperação.

1. Este, juntamente com o parágrafo 15, é o “princípio associativo”.

2. Isso foi retirado de Savoy Platform of Polity [Plataforma de Política de Savoy], palavra por palavra.

3. Isso também é edificado sobre a mesma convicção expressa na 1ª Confissão Batista de Londres, Artigo 37:

E, embora a congregação particular seja distinta e composta de membros variados, cada uma sendo como uma cidade compacta e una em si mesma; ainda assim, todas elas devem caminhar por uma única e mesma Regra, e por todos os meios convenientes devem ter conselho e ajudar umas às outras em todos os assuntos de necessidade da Igreja, como membros de um corpo na fé comum sob Cristo, seu único Cabeça (Lumpkin, 168-69).

D. Quando as dificuldades ou rompimentos ocorrem em uma igreja ou entre igrejas, muitas igrejas devem enviar mensageiros para considerarem o assunto e dar conselhos (parágrafo 15):

Em caso de dificuldades ou divergências, seja em um ponto doutrinário ou administração, se as igrejas em geral são afetadas, ou qualquer uma igreja, em sua paz, união e edificação; ou algum membro ou membros de qualquer igreja estão injuriados, em e por qualquer procedimento de censuras em não conformidade com a verdade e ordem, é de acordo com a mente de Cristo, que muitas igrejas que mantêm comunhão entre si, por meio de seus representantes, reúnam-se para considerar, e deem seu parecer em ou sobre a questão de diferença, a ser comunicado a todas as igrejas envolvidas29, no entanto, estes representantes reunidos não são investidos de qualquer poder eclesiástico, propriamente dito, ou de qualquer jurisdição sobre as igrejas que as constituem, para exercer quaisquer censuras sobre igrejas ou pessoas; ou impor a sua determinação sobre as igrejas ou oficiais. (Atos 15:2, 4, 6, 22, 23, 25; 2Coríntios 1:24; 1João 4:1)

1. As igrejas locais devem solicitar ajuda umas das outras (em casos difíceis, quando for necessário aconselhamento externo).

2. A autonomia de cada igreja é protegida enquanto o benefício da sabedoria de muitas igrejas é oferecido.

a. Embora independente, uma igreja não deve ser isolada.

b. Há um reconhecimento da interdependência entre igrejas irmãs que são, cada uma, totalmente autônomas.

EXPOSIÇÃO: A natureza desta “manutenção de comunhão” tem sido objeto de grande debate nos últimos anos. A questão principal é a natureza do associativismo. Alguns admitem que a Confissão exige uma associação formal de igrejas, enquanto outros veem a posição confessional ser satisfeita pela associação informal. É improvável que este debate seja resolvido logo para satisfação generalizada daqueles que confessam a CFB de 1689.

CONCLUSÃO: A confissão destaca a ênfase bíblica sobre a importância das igrejas locais na missão de Deus e na vida do discipulado. Quando uma pessoa se torna um seguidor de Jesus, uma grande parte desse compromisso é considerar seriamente a membresia em uma igreja local. Cada membro é chamado por Cristo a ser fiel no uso de dons, servindo a causa de Cristo e encorajando outros a fazerem o mesmo. Cada membro compartilha a responsabilidade de toda a igreja em cumprir seu ministério ao mundo, pregando o Evangelho e dando testemunho da verdade e do poder do Evangelho na maneira em que ele vive com outros crentes no corpo.

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Capítulo XXVI: Sobre a Igreja

A Confissão de Fé Batista de 1689

 

1. A igreja católica ou universal, que (em relação à obra interior do Espírito e à verdade da graça) pode ser chamada invisível, consiste de todo o número dos eleitos, que foram, são ou serão reunidos em um só corpo, sob Cristo, a Cabeça da mesma; ela é a Esposa, o Corpo, a plenitude dAquele que cumpre tudo em todos.1

1 Hebreus 12:23; Colossenses 1:18; Efésios 1:10,22,23, 5:23,27,32

 

2. Todas as pessoas, em todo o mundo, que professam a fé do Evangelho e obediência a Deus por meio de Cristo, de acordo com isso, não arruinando a sua própria profissão por quaisquer erros de subversão do fundamento, ou impureza de conversação, são, e podem ser chamadas de santos visíveis;2 e dos tais, todas as congregações particulares devem ser constituídas.3

2 1Coríntios 1:2; Atos 11:26

3 Romanos 1:7; Efésios 1:20-22

 

3. As Igrejas mais puras debaixo do céu estão sujeitas à mistura e ao erro,4 e algumas tanto se degeneraram a ponto de tornarem-se não mais igrejas de Cristo, mas sinagogas de Satanás;5 no entanto, Cristo sempre teve, e sempre terá, um reino neste mundo, até o fim deste, para aqueles que creem nEle, e fazem profissão de Seu nome.6

4 1Coríntios 5; Apocalipse 2,3

5 Apocalipse 18:2; 2Tessalonicenses 2:11-12

6 Mateus 16:18; Salmos 72:17, 102:28; Apocalipse 12:17

 

4. O Senhor Jesus Cristo é a Cabeça da igreja, em Quem, pela designação do Pai, todo o poder de chamado, instituição, ordenação e governo da igreja está investido de uma forma suprema e soberana;7 nenhum Papa de Roma pode, em sentido algum, ser a cabeça desta, antes é aquele anticristo, o homem do pecado e filho da perdição que se exalta na Igreja contra Cristo e contra tudo o que se chama Deus, a quem o Senhor destruirá com o esplendor de Sua vinda.8* (* Suprimimos esta parte da Confissão, pois cremos que quando a Escritura fala sobre a figura do Anticristo escatológico, o homem do pecado e filho da perdição, ela está se referindo a uma pessoa individual que surgirá no final dos tempos [2Tessalonicenses 2:2-9], e não especificamente ao título de Papa, embora tanto o Papa que está aí agora como os que vieram antes dele tenham sido anticristos, isto é, inimigos do Cristo de Deus e da verdade que Ele testemunhou [1João 2:18; cf. 2João 1:7] — Os Editores.).

7 Colossenses 1:18; Mateus 28:18-20; Efésios 4:11-12

8 2Tessalonicenses 2:2-9

 

5. Na execução deste poder com que Ele é assim confiado, o Senhor Jesus chama do mundo para Ele mesmo, através do ministério de Sua Palavra, por meio de Seu Espírito, aqueles que são dados a Ele por Seu Pai,9 para que eles possam andar diante dEle em todos os caminhos da obediência, os quais Ele prescreveu em Sua Palavra.10 Àqueles que assim são chamados, Ele ordena que andem juntos, em comunidades particulares, ou igrejas, para a sua mútua edificação, e para a devida realização do culto público, que Ele requer deles, no mundo.11

9 João 10:16; João 12:32

10 Mateus 28:20

11 Mateus 18:15-20

 

6. Os membros dessas igrejas são santos por chamamento, manifestando visivelmente e evidenciando (na e pela sua profissão e caminhar) a sua obediência a esse chamado de Cristo;12 e voluntariamente consentem em caminhar juntos de acordo com a designação de Cristo, entregando-se a si mesmos ao Senhor, e uns aos outros, pela vontade de Deus em sujeição às ordenanças do Evangelho.13

12 Romanos 1:7; 1Coríntios 1:2

13 Atos 2:41-42, 5:13-14; 2Coríntios 9:13

 

7. Para cada uma dessas igrejas assim reunidas, de acordo com Sua mente declarada em Sua Palavra, Ele tem dado todo aquele poder e autoridade, que é em toda forma necessário para a sua realização naquela ordem no culto e disciplina, que Ele instituiu para que eles observem, com ordens e regras para o devido e correto exercício e execução desse poder.14

14 Mateus 18:17-18; 1Coríntios 5:4-5, 5:13; 2Coríntios 2:6-8

 

8. Uma igreja local, reunida e completamente organizada de acordo com a mente de Cristo, consiste em oficiais e membros; e os oficiais designados por Cristo a serem escolhidos e consagrados pela igreja (assim chamada e congregada), são os anciãos (ou bispos) e os diáconos,15 para a peculiar administração das Ordenanças e execução de poder ou dever, que Ele confiou a eles, ou para o que os chamou; o que deve ser continuado até o fim do mundo.

15 Atos 20:17,28; Filipenses 1:1

 

9. O caminho apontado por Cristo para o chamamento de qualquer pessoa, capacitada e dotada pelo Espírito Santo, para o ofício de bispo ou ancião em uma igreja, é que ele seja escolhido para isso pelo sufrágio comum da própria igreja16 e solenemente separado por jejum e oração, com a imposição das mãos do presbitério da igreja, se houver algum nela anteriormente constituído.17 E de um diácono, que ele seja escolhido por semelhante sufrágio, e separado por meio de oração, e semelhante imposição de mãos.18

16 Atos 14:23

17 1Timóteo 4:14

18 Atos 6:3,5,6

 

10. O trabalho dos pastores é atender constantemente ao serviço de Cristo, em Suas igrejas, no ministério da Palavra e oração, com a assistência às suas almas, como quem deve prestar contas a Ele;19 cabe às igrejas a quem eles ministram, não somente conceder-lhes o devido respeito, mas também comunicá-los em todas as suas boas coisas, de acordo com sua capacidade,20 de modo que eles possam ter um suprimento confortável, sem serem enredados em assuntos seculares;21 e também sejam capazes de exercer hospitalidade para com os outros;22 e isto é exigido pela lei da natureza, e por ordem expressa de nosso Senhor Jesus, que para isso ordenou que os que pregam o Evangelho, vivam do Evangelho.23

19 Atos 6:4; Hebreus 13:17

20 1Timóteo 5:17-18; Gálatas 6:6-7

21 2Timóteo 2:4

22 1Timóteo 3:2

23 1Coríntios 9:6-14

 

11. Apesar de ser a incumbência dos bispos ou pastores das igrejas serem diligentes em pregar a Palavra, em virtude de seu ofício; ainda assim, o trabalho de pregar a Palavra não é tão exclusivamente limitado a eles, mas aqueles outros também dotados e capacitados pelo Espírito Santo para isso, e aprovados e chamados pela igreja, podem e devem realizá-lo.24

24 Atos 11:19-21; 1Pedro 4:10-11

 

12. Como todos os crentes são obrigados a unirem-se às igrejas locais, quando e onde eles tiverem a oportunidade de assim fazê-lo, então todos os que são admitidos aos privilégios de uma igreja, também estão sob a disciplina e governo desta, de acordo com a regra de Cristo.25

25 1Tessalonicenses 5:14; 2Tessalonicenses 3:6,14,15

 

13. Nenhum membro deve perturbar qualquer ordem ou abster-se das assembleias da igreja, ou administração de qualquer das ordenanças, por causa de qualquer ofensa recebida por ele, tendo realizado o seu dever requerido em relação às pessoas com quem ele está ofendido sobre a consideração de tal ofensa a qualquer um de seus membros companheiros, mas deve esperar em Cristo, e deixar que o seu caso seja resolvido pela disciplina da igreja.26

26 Mateus 18:15-17; Efésios 4:2-3

 

14. Posto que cada igreja, e todos os seus membros, devem orar continuamente pelo bem e prosperidade de todas as igrejas de Cristo,27 em todos os lugares; todos devem, em todas as ocasiões, promover isso, exercendo as suas posições e chamados, no exercício de seus dons e graças. Deste modo, as igrejas, quando, pela providência de Deus, são estabelecidas próximas umas das outras, devem aproveitar a oportunidade e benefício disto, mantendo comunhão entre si, para a sua paz, crescimento em amor e edificação mútua.28

27 Efésios 6:18; Salmos 122:6

28 Romanos 16:1-2; 3João 8-10

 

15. Em caso de dificuldades ou divergências, seja em um ponto doutrinário ou administração, se as igrejas em geral são afetadas, ou qualquer uma igreja, em sua paz, união e edificação; ou algum membro ou membros de qualquer igreja estão injuriados, em e por qualquer procedimento de censuras em não conformidade com a verdade e ordem, é de acordo com a mente de Cristo, que muitas igrejas que mantêm comunhão entre si, por meio de seus representantes, reúnam-se para considerar, e deem seu parecer em ou sobre a questão de diferença, a ser comunicado a todas as igrejas envolvidas,29 no entanto, estes representantes reunidos não são investidos de qualquer poder eclesiástico, propriamente dito, ou de qualquer jurisdição sobre as igrejas que as constituem, para exercer quaisquer censuras sobre igrejas ou pessoas; ou impor a sua determinação sobre as igrejas ou oficiais.30

29 Atos 15:2,4,6,22,23,25

30 2Coríntios 1:24; 1João 4:1